Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > ELEIÇÕES 2004

José Paulo Lanyi

02/11/2004 na edição 301

‘Campanha eleitoral é uma chatice. Não bastasse o trivial, temos que aturar as maquinações de parte a parte, sobretudo no segundo turno. De modo geral, os pólos conduzem à exclusão: eu sou melhor, ele é pior, eu sou honesto, ele não é, eu sou realizador, ele é fracassado, eu sou o superbacana, ele é o refugo. Já parou para pensar que, nesse grau de confronto, um dos dois, necessariamente, está mentindo? Ou que os dois podem estar mentindo? Uma coisa é certa: ao mesmo tempo, não falam a verdade. É matemático.

Em São Paulo, os candidatos são pretensiosos e arrogantes. Estranha coincidência, ambos se esforçam para ser simpáticos. Nem precisaria tanto. Bastaria falar menos. Já seria bom. Mas silêncio não combina com campanha, eles precisam nos mostrar, o tempo todo, que são bonzinhos e capazes – e o outro não.

A Marta e o Serra (ordem alfabética), ou o José Serra e a Marta Suplicy (ordem alfabética), estão nervosos e buscam explicações para as ameaças. Marta tenta reduzir uma diferença significativa de intenções de voto a favor de seu adversário. Serra debate-se contra a queda. Ambos voltaram-se para a mídia. ‘Eu sei que vocês estão sendo, você particularmente, muito compreensivo com as questões do PT’, disse o segundo aos repórteres nesta quarta-feira (leia Candidatos à prefeitura de SP se irritam com a imprensa), conforme o jornal O Globo. A candidata do PT irritou-se com uma repórter que escreveu sobre o seu suposto abatimento e os seus problemas com a escova, durante um corpo-a-corpo eleitoral. Releve a frescura dos comentários da jornalista – se bem que, em época de eleição, um relaxamento da candidata poderia indicar uma capitulação emocional.

As redações não são ideologicamente uniformes, como se costuma dizer. Mas há uma predominância de petistas (decepcionados ou não). De forma geral, os patrões têm uma ideologia gelatinosa: o conservadorismo oportunista – que pode inclinar o barco para a esquerda ou para a direita, desde que o destino seja o capital.

Nessa equação, Marta é a mais prejudicada, conforme as pesquisas do Observatório Brasileiro de Mídia, que analisam as referências aos candidatos nos jornais Agora São Paulo, Diário de S.Paulo, Jornal da Tarde, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo: ‘Na soma das duas semanas, após o início da campanha para o segundo turno, ‘Marta candidata’ obteve 349 negativas, 353 neutras e 143 positivas. Sobre Serra, foram registradas 120 negativas contra 320 neutras e 270 positivas. ‘Marta prefeita’ conseguiu 122 citações desfavoráveis, 34 neutras e 47 favoráveis’.

O Observatório é vinculado ao Núcleo de Jornalismo Comparado da ECA-USP, em parceria com a ONG brasileira Observatório Social e o Media Watch Global. No site do projeto, há uma entrevista com Marcus Figueiredo, professor que coordena o Doxa – Laboratório de Pesquisa em Comunicação do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj). Perguntou-se até que ponto a notícia veiculada no jornal impresso interfere no voto do cidadão. Eis a resposta:

‘Ela interfere de forma indireta por vários caminhos: primeiro por meio do formador de opinião, – definido sociologicamente, ou seja, pessoas com personalidade política ativa, como o dono do botequim, o jornaleiro ou um membro da associação de bairro. Essas pessoas lêem a notícia e repassam as informações, já com seus comentários, para o seu grupo de referência. Outro fator de divulgação dessas informações publicadas nos jornais para o grupo de analfabeto ou semi-analfabeto são as rádios, principalmente as AMs, que têm nos jornais as fontes de suas notícias. Então a pessoa recebe uma notícia que está no jornal, mas acha que foi a rádio que produziu aquela informação. Os comunicadores raramente dizem: ‘Olha o que o Estadão fez’, ele simplesmente vai lendo. Para esse grupo de semi-analfabeto ou analfabeto o caminho é absolutamente indireto e para a grande maioria do público que não lê jornal o caminho é o mesmo’.

O especialista defende a declaração de apoio nos editoriais. Eu também. Nos Estados Unidos, o New York Times, o Washington Post e vários outros diários fecharam com o John Kerry. O seu adversário, o tal do Walker, tem a boa vontade do Dallas Morning News, do Chicago Tribune, de jornais do Colorado, do Novo México, de Nebraska…

É uma atitude jornalisticamente correta. Imparcialidade não existe, sejamos claros. Na entrevista ao Observatório, o professor Figueiredo explicou as nuanças: ‘Os jornais já usam o espaço editorial para declarar suas preferências. O Estadão faz isso com freqüência, publica editoriais como: ‘Serra é o melhor’. Não é preciso dizer ‘nós apoiamos o candidato X’, se faz isso com um editorial. A declaração de apoio a um candidato não significa que o resto do jornal esteja completamente contaminado. Você pode ter o editorial a favor de uma candidatura e permitir que o contraditório fique no espaço das matérias’.

Mais honestidade da mídia e menos choradeira dos líderes da Nação. Tô nessa.’



Silvio Bressan

‘Discreta, GW emplaca 4.ª vitória seguida’, copyright O Estado de S. Paulo, 1/11/2004

‘A vitória de José Serra em São Paulo é o quarto triunfo consecutivo da GW, uma produtora formada por jornalistas que já havia ajudado a eleger Mário Covas por duas vezes (1994-1998) e Geraldo Alckmin (2002) ao governo de São Paulo. Com 13 anos de existência, a produtora se destaca pela discrição dos seus sócios e a eficiência de seus programas.

Apesar do êxito de suas campanhas, os jornalistas Luiz González, Gilnei Rampazzo, Woile Guimarães e Wianey Pinheiro, que fundaram a produtora, não cultivam a badalação, marca registrada dos marqueteiros mais famosos. Sempre discretos, González e Woile, que cuidaram dos programas de Serra, só foram vistos nos bastidores dos debates.

GW, aliás, é uma referência às duas letras que estão no nome ou sobrenome dos fundadores. Hoje a empresa tem a direção executiva de Danilo Palasio e três sedes: Brasília, São Paulo e Curitiba. Já fez cerca de 2 mil comerciais para mais de 200 clientes, entre empresas nacionais, multinacionais, governos e entidades da sociedade civil. Estão na lista gigantes como Vale do Rio Doce, Bayer, Souza Cruz, os Ministérios da Fazenda, Previdência, Educação e Saúde, as prefeituras de Santos e Curitiba e entidades como Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). A assinatura da GW já apareceu em vários documentários e programas de TV, como Marília Gabriela, Márcia Peltier e o Auto Esporte, que é exibido pela TV Globo aos domingos.

Nas campanhas políticas, a GW se destaca por privilegiar a informação jornalística em detrimento dos efeitos especiais. Em seus programas, costuma fazer uma edição ágil dos depoimentos de eleitores e cenas na rua. No estúdio, o candidato mostra-se mais racional, mas nas cenas externas o tom é mais emocional. Nos programas de Serra, um exemplo foram os depoimentos de idosos e doentes sobre a atuação do candidato como ministro da Saúde.

O trabalho da GW também corrigiu um problema detectado pelo próprio Serra na campanha presidencial. Depois da derrota para Lula, ele reclamou que sua trajetória como líder estudantil e de esquerda fora deixada de lado para números musicais coreografados.

Desta vez, Serra teve seu currículo exibido à exaustão, com ênfase na sua atuação como ministro da Saúde. Discreto e meio avesso a entrevistas, González diz que o mérito maior foi de Serra. ‘Nosso trabalho, mais uma vez, foi mostrar as qualidades do candidato’, resumiu. Ao contrário do que temia no início, González diz que não houve problema com Serra, conhecido por seu temperamento difícil. ‘Não houve nenhum problema no nosso relacionamento. E acho que o resultado da eleição só fez justiça ao candidato.’

UBERLÂNDIA

O braço brasiliense da GW, comandado por Gilnei Rampazzo, derrotou em Uberlândia o candidato apoiado pelo vice-presidente José Alencar, o deputado estadual João Bittar Júnior (PL). Terminada a apuração, Odelmo Leão (PP) teve 152.981 votos, 53,45% dos válidos. João Bittar teve 133.210 votos, 46,55% dos válidos.’



Ney Azambuja

‘Marqueteiros e motoqueiros’, copyright O Globo, 31/10/2004

‘Quando ouvi pela primeira vez a palavra marqueteiro referida ao publicitário que trabalha em campanhas políticas, confesso que me senti pessoalmente ofendido. ‘Isso é inveja de jornalista’, pensei enquanto escrevia o roteiro do próximo programa do horário eleitoral.

Ao longo de 14 anos e muitas campanhas, a maldita palavrinha continuou me incomodando. Mais ou menos como se sente o motociclista ao ser chamado de motoqueiro, este sim um marginal sobre duas rodas capaz de toda a sorte de crimes no trânsito.

A ficha demorou para cair. Pouco a pouco, as respostas de sempre ao questionamento dos amigos (‘campanha não tem ideologia’, ‘é um trabalho como outro qualquer’, ‘não dá para abrir mão dessa grana’) já não tinham a mesma firmeza.

É verdade que como redator e diretor de criação de importantes agências eu já tinha feito gratuitamente inúmeras campanhas de utilidade pública ou para entidades assistenciais. Também já recusei um bom dinheiro quando fui chamado, através de um amigo, para atender ao dono de uma clínica acusado de cometer barbaridades contra velhinhos. Ele queria o roteiro para uma matéria paga a ser veiculada na TV defendendo-o das acusações. Respondi com a seguinte proposta: ele estava me dando um minuto na TV para que eu convencesse o país inteiro da sua inocência. A partir daquele momento ele teria meia hora para convencer a mim. Saí praticamente expulso da sala, mas com a alma leve.

Nada disso, no entanto, aliviava o desconforto crescente cada vez que me deparava com a palavra marqueteiro.

Comecei a perceber que talvez o que me incomodasse tanto fosse a possibilidade de ter as minhas convicções pessoais confundidas com as idéias do candidato. Explico: é de se imaginar que para uma boa campanha política haja um mínimo de identidade entre o publicitário e o candidato. Nada mais falso. Em mais de 10 campanhas realizadas, em apenas duas ocasiões tive o prazer de trabalhar para um candidato em quem votaria: na campanha de Rita Camata à prefeitura de Vitória, em 96, e agora nesta eleição, na campanha de Andrea Gouvea Vieira à Câmara Municipal do Rio.

Aprendi na prática que, se não existe essa identidade, fundamental mesmo é estabelecer um alto grau de distanciamento. Ainda assim, e mesmo exercendo um rigoroso controle sobre cada palavra escrita, derrapadas acontecem.

Certa vez, assistindo ao horário eleitoral, pensei ‘não é possível que as pessoas acreditem nisso’. Acreditam. E o programa fora escrito por mim.

Também já ouvi de um candidato a governador de estado um sincero ‘depois me explica como é que eu vou fazer isso’. Mas não se deu ao trabalho de regravar o texto (a meu favor, diga-se que recebi as informações dos (ir)responsáveis pelo plano de governo).

Eu estava correndo o risco de me tornar um marqueteiro e daí em diante redobrei os cuidados.

Sinceramente, não sei qual seria o melhor sistema para a propaganda eleitoral. Certamente não é o que temos. Ainda assim acredito que o publicitário tem uma importante contribuição a dar para as campanhas políticas, mesmo no formato atual. Minha proposta é simples e vale tanto para publicitários como para marqueteiros (insisto na diferença): é só ler atentamente o Código do Conar, o Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária e segui-lo à risca (se a atuação do Conar incluísse o marketing político não restaria pedra sobre pedra).

Basta isso para que a disputa se dê com base no talento e não na esperteza, no truque, na falcatrua.

Enquanto não se muda o sistema, sejamos mais publicitários e menos motoqueiros. NEY AZAMBUJA é publicitário.’




Fernando de Barros e Silva


"Suplicy ampliou preconceito contra Marta, diz homem forte da prefeita", copyright Folha de S. Paulo, 3/11/2004


"O senador Eduardo Suplicy é um dos maiores responsáveis pela criação e divulgação do preconceito de que seria vítima a prefeita Marta Suplicy. Preconceito que é apontado dentro e fora do PT como uma das causas -se não a maior delas- da derrota para o tucano José Serra no domingo.


Quem fala é um dos homens fortes da prefeitura petista e da campanha de Marta, o atual secretário de Abastecimento e Projetos Especiais, Valdemir Garreta.


Pouco conhecido fora do PT, Garreta, 39, é provavelmente, depois do marido, Luis Favre, e do candidato a vice, Rui Falcão, a pessoa mais próxima da prefeita no que se refere à política. Viveu a campanha muito por dentro. Dificilmente há alguém mais informado sobre o que se passou e passa na cozinha do PT municipal.


A entrevista que segue foi realizada ontem, na sede do comitê central de campanha. Um prédio vazio e carregado de tristeza na Vila Mariana. No que revela, Garreta acerta algumas contas. Além de alegar que Suplicy sempre se vitimizou, alimentando a fama da mulher má, diz que o PT nacional atrasou a parte que lhe cabia no pagamento da produtora de Duda Mendonça, que parou por cinco dias no segundo turno.


Fala ainda que pôs o ‘pé na porta’ quando o PT nacional quis incluir Maluf na propaganda de TV e critica ‘a soberba’ de alguns petistas assim que chegaram lá.


Folha – Como a campanha foi pensada e onde ela falhou?


Valdemir Garreta – Sabíamos que seria uma campanha muito difícil. O Datafolha em junho dava 62% para o Serra e 29% para a Marta na projeção de segundo turno. Isso, em votos válidos, queria dizer 68% a 31%. Começamos portanto 37 pontos atrás. E tínhamos noção dos problemas do governo: a forma de implementação das taxas e a questão da saúde. Essas coisas foram galvanizadas pelo preconceito contra a Marta. Um preconceito que foi construído ao longo de três anos e meio.


Folha – Quais são as motivações deste preconceito?


Garreta – Foi determinante a atitude do senador Eduardo Suplicy logo após a separação. Ele se colocou o tempo todo na mídia como vítima, transformando a Marta numa pessoa insensível, arrogante, indiferente ao que ele sentia.


Folha – O sr. pode exemplificar?


Garreta – Em vários momentos ele constrangeu a Marta. Pessoas civilizadas deveriam evitar isso. Ele preferiu aparecer em público, expor o problema. Fez isso em dois ou três momentos da campanha com muita clareza.


Folha – Por exemplo?


Garreta – Uma semana antes do segundo turno, a namorada dele [Mônica Dallari] deu uma entrevista à revista ‘Veja’, da qual ele obviamente tinha ciência. Essa entrevista amplificava todos os preconceitos contra a Marta. E tem quem diga que foi oferecida primeiro a ele, que teria sugerido a Mônica no lugar. Não sei. São bastidores da imprensa.


Folha – Foi deliberado?


Garreta – O Suplicy tem como estratégia sempre se vitimizar. Ele não é uma pessoa ingênua. Tem quase 30 anos de mandatos consecutivos. Não se pode dizer que seja alguém despreparado para a política. Durante a campanha, ele ficou o tempo todo pedindo na produtora para gravar, aparecer. Confirma com o Duda [Mendonça, marqueteiro de Marta].


Quando as dificuldades ficaram mais claras, ele passou a dizer que não concordava com as críticas à ação do Serra, feitas pelo Mercadante [Aloizio Mercadante, líder do governo no Senado]. Ao fazer isso, ao pedir um tom mais propositivo, ele já estava pensando no seu futuro. Ele sabe que uma parcela da classe média que não votou na Marta é eleitora em 2006 para o Senado. Então, ele já está se diferenciando do PT, de olho no voto tucano. É a postura de algumas pessoas do partido: são do PT na hora boa. Na hora má, sempre têm uma crítica pública a fazer.


Folha – Isso é oportunismo?


Garreta – É uma ação calculada. O Eduardo pensa muito nele. Na última semana de campanha, ele ia a quase todos os comícios para repercutir na imprensa a polêmica da ‘Veja’. Não parava de falar. Não acho que estivesse pensando na campanha nem na Marta. Ele reforça a idéia do preconceito. Transforma a Marta numa pessoa má e alimenta a resistência contra o PT. Isso vem de longe.


Folha – Pode fazer um histórico?


Garreta – Durante a campanha da Marta à prefeitura em 2000, quando eles ainda eram casados, ele chegou a marcar uma data para o lançamento da candidatura dele à Presidência. Eu e o Rui [Falcão, candidato a vice na chapa de Marta neste ano] tivemos que ter horas de conversa para demovê-lo. Mostramos a inoportunidade daquilo. No meio do primeiro turno, ele queria disputar com o Lula. Era inconcebível.


Imagina o impacto político disso no PT. Isso corrobora o que eu digo: ele via a eleição da Marta como um instrumento da candidatura presidencial dele. Mas a Marta é muito independente, muito autônoma. Ninguém manda nela. Ele queria um instrumento que na prática não teve. Desde então, o tempo inteiro ele tentou se vitimizar, sem medir as conseqüências para a imagem da Marta.


Folha – A prefeita ficou magoada ou abalada por isso?


Garreta – Não conversei com ela sobre isso. Falo por mim.


Folha – Mas o que o sr. diz é também o que outros pensam no partido. Quais as conseqüências que isso pode ter internamente?


Garreta – O PT é um partido democrático. Do mesmo jeito que o Lula passou por prévias, o Eduardo pode ter que passar. Agora, ele é o nome natural ao Senado, uma liderança expressiva e histórica do PT. Acho apenas que nós precisamos parar de achar que existem pessoas boas e pessoas más. As pessoas são complexas.


Folha – Ele apareceu pouco na propaganda de TV de vocês.


Garreta – Nas pesquisas qualitativas, quando a gente testava os comerciais com ele, as pessoas diziam: ‘Não usa isso não, vai relembrar a separação’. Mas ele ficava lá, pedindo sempre para gravar.


Folha – Além do Suplicy, o que mais pesou na derrota?


Garreta – São Paulo é uma cidade historicamente conservadora e oposicionista. Vota em lideranças conservadoras. Basta citar o Maluf. Além disso, à exceção da eleição do Pitta, a cidade sempre votou na oposição. Mas, mesmo perdendo, a Marta e o PT saem do governo bem consolidados na periferia. Só não saem mais por causa do problema na saúde.


Folha – O sr. reconhece um equívoco do governo na área da saúde?


Garreta – Claro. Um ano depois que a Marta assumiu nós tínhamos o diagnóstico da incapacidade do Eduardo Jorge [ex-secretário de Saúde] para executar. Só fomos demiti-lo com dois anos.


Folha – Por quê?


Garreta – Porque ele era uma pessoa respeitada e querida. Ele é um bom teórico e muito pouco prático. Perdemos dois anos apostando que ele iria ser eficiente, ia dar certo. Além disso, pesou uma atitude quase cristã. As pessoas diziam ‘não podemos fazer isso com o Eduardo Jorge, ele é muito legal’. Ele é mesmo respeitado, mas como executivo é uma tragédia.


Folha – Qual o grande mérito desta administração?


Garreta – Resgatar a cidadania para milhares, milhões de pessoas. Ontem [anteontem] eu estava na casa de uma amiga. Ela chegou para a faxineira dela e disse: ‘Você viu? A Marta perdeu’. E a faxineira respondeu: ‘A Marta não perdeu nada. Ela continua rica, poderosa, bem casada. Quem perdeu fomos nós’. Essa frase para mim resume o sentimento da periferia que votou na Marta.


Folha – Como o sr. vê a posição do Arselino Tatto, ameaçando acabar com as taxas do lixo e da luz?


Garreta – O Tatto foi mal-interpretado. A postura do PT é simples: se o Serra quiser rever as taxas amanhã, o PT votará a favor. Apesar de considerar que elas foram necessárias para permitir investimentos na cidade. É engraçado. Primeiro o Serra ia acabar com as taxas. Foi chegando a eleição e ele disse que ia rever. Agora já marcou a revisão para 2006. Ele precisa explicar às pessoas qual compromisso está valendo: o de abril, o de agosto ou o de outubro.


O mesmo vale em relação ao Orçamento. Acho que nós devemos chamar o prefeito eleito e nomear uma equipe para dialogar sobre o Orçamento de 2005. Para ele não poder dizer que o Orçamento não é dele. Quero que ele expresse prioridades. Que diga quanto vai investir no metrô. Quantos CEUs vai fazer.


Folha – Qual a avaliação sobre o programa do Duda Mendonça?


Garreta – O único problema que houve com o Duda foi o atraso em parte do pagamento da produtora. A Executiva Nacional e o Delúbio [Soares, tesoureiro do PT nacional] tinham que executar uma parte e não executaram. Isso fez com que a gente perdesse seis dias da campanha no início do segundo turno. Ficamos cinco dias sem produzir programas.


Folha – E o episódio da prisão do Duda na rinha de galo? Prejudicou?


Garreta – Nenhum impacto. Mas é claro que esse episódio carece de uma investigação mais profunda. A pessoa freqüenta o mesmo lugar há 17 anos, praticando contravenção. Na véspera da eleição, é presa com um aparato típico de quem vai prender um traficante perigoso. Havia lá 60 policiais armados com metralhadora, máscara ninja. Tudo dentro da lei, mas muito estranho.


Folha – Pesou na derrota alguma frustração com o governo Lula?


Garreta – Acho que é um fator secundário. O que não significa que os centros urbanos, São Paulo e Rio, possam ser desconsiderados. Acho que eles lá estão atentos. O governo Lula está no meio do caminho. Seria uma leviandade responsabilizá-lo pela derrota.


Folha – E o Maluf?


Garreta – – O Maluf não queria apoiar o Serra de jeito nenhum. Responsabiliza o PSDB pela ação do Ministério Publico. Ele vive o estertor de sua liderança política. Nós fizemos aquilo que achamos razoável. Recebemos o apoio, a declaração de voto.


O pessoal da Executiva Nacional do PT queria vê-lo na televisão com a gente. Tinha gente que queria ele no nosso palanque. Tivemos que pôr o pé na porta.


Folha – A política de alianças da campanha foi muito criticada. Ora porque não trouxe o PMDB ora porque teria sido elástica demais.


Garreta – Veja o caso do Zé Eduardo [José Eduardo Martins Cardozo, deputado federal do PT]. Vi uma entrevista dele criticando as alianças. Mas foi com essas alianças que ele se elegeu presidente da Câmara Municipal duas vezes. As pessoas no PT não podem ser hipócritas.


Folha – O sr. parece muito irritado com certas pessoas no partido.


Garreta – Não é isso. Fico irritado com pessoas que privadamente são uma coisa e outra em público. No privado, vale o raciocínio pragmático. Na hora que acende a luzinha, faz um discurso para a TV. A soberba do poder é um dos problemas de uma parcela do PT.


Folha – Qual parcela?


Garreta – Uma parcela.


Folha – E a mídia?


Garreta – Eu só peço que a mídia trate o Serra com 50% do rigor com que tratou a Marta. A mídia esqueceu que houve o governo Pitta. Esqueceu da situação desastrosa da cidade quando assumimos. E a mídia foi um dos instrumentos de reforço do preconceito contra a Marta. Setores da mídia trataram a Marta com uma agressividade impressionante. Quero ver se os repórteres vão enfiar o gravadorzinho na cara do Serra e perguntar: ‘Prefeito, fomos no posto de saúde e tem gente jogada na fila’. Isso serve para a Folha, serve para o ‘Estado’, serve para o conjunto da mídia.


Folha – O PT deve ter qual atitude em relação ao Serra?


Garreta – O PT deve ajudar o Serra a cumprir tudo o que prometeu. E ele prometeu o céu na terra. A ampliação do Vai-e-Volta, a manutenção dos CEUs, a integração do bilhete único, o investimento no Metrô, o investimento no Rodoanel, a revisão das taxas, as 100 mil vagas em creches. O prefeito Serra terá total apoio do PT para esse conjunto de coisas. E a oposição radical do PT ao tentar destruir essas coisas."

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