Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > AUTOCRÍTICA

José Paulo Lanyi

23/11/2004 na edição 304

‘Escrever é um jogo de xadrez entre o bom-senso e o exagero. No terreno da opinião, a dicotomia fica ainda mais evidente. Cheguei a pensar no embate entre a razão e o sentimento, mas voltei atrás: os melhores textos harmonizam a emoção e o pensamento. Isso se dá aqui em cima e aí embaixo, onde comentamos os artigos do Comunique-se. Como o momento é de autocrítica (e deveria ser sempre, não de vez em quando), nada mais necessário do que a honestidade.

Por isso me obrigo a dizer que errei na dose em minha coluna passada. Poderia ter exposto o raciocínio tabular da senhora Marilene Felinto (que, repito, não entende nada de telejornalismo) sem recorrer ao expediente da ironia afrontosa (leia Bobagem autêntica). É mesmo um recurso dispensável. Dei-me conta disso depois. A reação dos leitores, fundamental para um articulista que persegue a verdade utópica, levou-me a um outro juízo: a sociedade evolui e quer propostas.

Os debates na TV nos mostram que a maioria dos eleitores rejeita os ataques pessoais e valoriza a consistência das idéias. Poucos querem saber de um xerife, ou de um super-herói. Daí a obsessão dos candidatos de derreter a imagem pública da arrogância, da vaidade, da presunção. Em São Paulo, foi flagrante a intenção da campanha recente dos dois principais candidatos a prefeito, José Serra e Marta Suplicy.

Os atores políticos se preocupam mais com a imagem, em detrimento da essência (não por acaso aqui, atores). No jornalismo, há quem se entregue a essa tentação. Isso se dá de duas formas, e em ambas a soberba prepondera sobre a consciência.

A primeira escolha é tépida e influenciável pela opinião pública. É o texto-gelatina, moldável pelas correntes humanas. O autor age como o político. Fareja as tendências e escreve para agradar. O que ele pensa, intimamente, é descartado na origem.

A segunda é ousada e busca a auto-imagem revolucionária. É deliberadamente quixotesca (porque pega bem lutar contra ‘os poderosos’, assim se resume) ou ‘do contra’, só trabalha para chocar e contrariar a maioria, ainda que lhe dê razão. Acocora-se pela audiência, estimula as paixões, mitifica o polemismo.

Conheço gente que se identifica com esses cordões, mas prefiro não fulanizar o debate (o que não quer dizer que nunca mais o faça, se julgar necessário).

Em outro aspecto, mais salutar, há o grupo conciliatório, o do ‘caminho do meio’. São opinadores moderados. Devem, contudo, tomar cuidado: podem tornar-se insípidos e ‘mureiros’, como os que só pensam em afagar o público. É como escrevi no artigo Sobre polêmicas, em maio do ano passado: ‘A submissão ao `mercado´ criou o que classifico de `jornalismo neutrox´ – neutro, perfumado, limpinho, asséptico. Se determinado programa de televisão é antiético, `tem o público dele´ (traduzindo: é um produto e deve ser aceito na prateleira, muita gente gosta); se uma jornalista escreve mentiras, `tem o público dela´; se, na redação, outro foi o prejudicado, `felizmente estou longe disso, eles que resolvam´. O `jornalista neutrox´ é assim: `se o mau-cheiro está longe das minhas narinas, os sujos que resolvam’.

Escrever é uma prática arriscada, assim como viver é perigoso, como dizem por aí. Aos focas, a quem dei mau exemplo na coluna passada, dedico esta reflexão, que lhes poderá ser útil um dia. Evitar os exageros é um dever. Fugir da bajulice, uma obsessão. Morar em cima do muro…não, não façam isso. Lembrem-se também: nem sempre a contradição é uma fraqueza. É própria, também, dos que se arriscam a atravessar o vale da mesmice.’



FALTA DE ASSUNTO
João Ubaldo Ribeiro

‘Confissões de um escrevinhador contrafeito’, copyright O Globo, 21/11/04

‘Já contei a vocês que, desde a primeira vez, resolvi que jamais escreveria a tradicional crônica sobre falta de assunto e venho cumprindo a decisão. Não que já não tenha enfrentado esse pavor, pois houve tempo em que escrevi três por dia, eis que a necessidade é a mãe da porcaria. Mas sempre dei um jeito e, na verdade, nunca deixa de haver assunto. Agora mesmo, o que não falta é assunto. Mas que tipo de assunto? Só assombração. Basta folhear este ou qualquer outro jornal, ou assistir ao noticiário da tevê, ou ouvir as rádios. Claro, nas tevês, por exemplo, tem a reportagem do fim, a que se encerra com um sorrisinho terno dos apresentadores, sobre como Seu Lalinho, de Cobrobó, aprendeu a ler depois dos 86 anos e, lépido e lampeiro aos 93, mantém uma escola para os pobres da cidade, onde dá aulas de capoeira, brinca nas onze na pelada anual de confraternização e é vocalista do conjunto de roque-xaxado Ketchup na Rapadura, em companhia de Edelzuíta Fole Ousado, mocetona de 44, que por sinal está esperando o segundo dele.

Mas o resto não é bem assim e a verdade é que cronista, ou o que eu lá seja, também é filho de Deus. Tem coisa mais chata do que chegar aqui todo santo domingo, como venho fazendo, para falar mal do governo ou reclamar de tantas situações e acontecimentos que precisam ser denunciados? Está certo, o sujeito tem espaço no jornal, se sente na obrigação de dar sua penada a favor do que julga ser o interesse público, mas também é muito chato. Hoje mesmo, eu estava com o dedo aqui coçando para escrever sobre o jeitão ansioso com que nosso presidente foi fotografado, parecendo o chefe dos garçons (garçom é uma profissão respeitável e digna como qualquer outra, peço aos entrelinhistas que não vejam depreciação onde não há) de uma churrascaria emergente, num churrasco para o presidente chinês, destinado a ajudar a que eles comprem carne brasileira.

Ia falar sobre esse assanhamento todo em torno da China. Muito bem, os chineses estão investindo fortunas incalculáveis aqui, o mercado chinês é um colosso, negócio da China vai voltar a ser expressão corriqueira. E reconhecemos que a China é uma economia de livre mercado, ou algo semelhante, o que dá a ela certas condições de negociação internacional. Nos Estados Unidos, usa-se a expressão ‘exportação de empregos’. No Brasil, onde estamos precisando criar empregos desesperadamente, até porque os dez milhões que iam ser criados ainda não pintaram (deve ter sido queda no sistema ou outra dessas coisas modernas, que acontecem e não entendemos), fingimos que não sabemos que operários chineses recebem salários vis, o custo é minúsculo e a bagulhada que eles produzem, podem esperar mais um pouco para ver, sai mais barata do que a daqui, jogando a concorrência nacional para escanteio. Li que a indústria paulista já andou chiando e tende a continuar chiando. Empregos não deviam constar de nossa pauta de exportações, mas podem constar — e quem diz isso não sou eu, são os homens da indústria paulista, ou seja, grandes empregadores. Pelo visto, eles não acham a China essas Chinas todas.

Mas que estou dizendo? Parece coisa do Cão, o sujeito quer evitar esses comentários e volta a eles. Claro que há razões para otimismo, com toda a certeza elas existem. Onde as esconderam, não faço idéia. É porque vocês, como não podia deixar de ser, já pegam esta coluna pronta e editada. Não me vêem enquanto a escrevo, aqui me levantando volta e meia e fazendo discursos para mim mesmo. Só faltei gritar, como nos combates medievais dos romances, ‘eia, sus!’ E voltei várias vezes à barafunda de jornais e revistas que me cerca, procurando as razões para otimismo. Deve ser a idade outra vez, pois até cachorro perdigueiro fica sem faro depois de velho, mas não achei nenhuma. Só inventando uma, mas a imaginação vem travando com renitência, diante de fatos que a ela própria, mesmo em seus estados delirantes, não ocorreriam.

Ou então conto uma piada, pronto. Claro, nada melhor do que uma piada, para desanuviar o astral. Se bem que, hoje em dia, contar piada seja muito difícil, porque tudo é politicamente incorreto. Até comentar qualquer coisa, mesmo que não seja piada, é arriscado. Faz tempo escrevi aqui, crente que estava abafando, que a mulher brasileira é patrimônio nacional e recebi uma carta de uma senhora me espinafrando, porque eu usei a palavra ‘patrimônio’, que vem do latim pater , ou seja, ‘pai’. ‘Eu estava até gostando’, escreveu mais ou menos ela, ‘mas aí você usa essa palavra, falando na mulher’. Fiquei aflito, naturalmente, tinha dado uma grave mancada. Mas como fazer? Escrevi de volta a ela, perguntando se, em vez disso, ela queria que eu usasse ‘matrimônio’, mas ela não me respondeu, até hoje estou na dúvida.

Sim, a piada. Piada velha, mas muitos de vocês certamente nunca a ouviram ou leram e não existe de fato piada nova, todo mundo sabe disso. E piada em que possa ser vista alguma relevância para a atual conjuntura. Lembrei uma, em mais um ingente esforço de reportagem. É a história do chefe Sioux. O inverno se anunciava brabo e o chefe Sioux mandou reunir o povo. Era o seguinte, disse ele. Tinha duas notícias para dar, uma boa outra ruim. Qual a que queriam ouvir primeiro?

— A ruim, ruim!

— A ruim é que, este ano, só vamos ter estrume de búfalo para comer.

— Que coisa horrível! E a boa?

— A boa é que temos um enorme superávit de estrume.

Ho-ho. Pois é. Está certo, não tem graça, mas pelo menos é relevante para a atual conjuntura. Levando-se em conta o superávit primário, isso me parece inegável, embora também não tenha graça nenhuma, pensando bem.’



ENTREVISTA / JOEL SILVEIRA
Darlan Alvarenga

‘Fama e anonimato’, copyright iG Ler (http://igler.ig.com.br)

‘Sentado numa poltrona posicionada a menos de um metro de distância da TV, Joel Silveira, acompanha no escritório de seu apartamento na movimentada Rua Sá Ferreira, em Copacabana, as últimas notícias do canal de jornalismo 24 horas. Aos 86 anos, esse sergipano que cobriu a 2a Guerra Mundial pelos Diários Associados, entrevistou praticamente todos os personagens políticos do período entre as décadas de 30 e 70 e é considerado o maior representante do jornalismo literário no Brasil, não pode mais sair de casa.

Sem forças nas pernas, precisa do auxílio de uma bengala para dar poucos passos em direção da poltrona da sala e atender mais um pedido de entrevista, que só permite que seja feita cara-a-cara, se o jornalista tiver menos de 50 anos. ‘Essa casa já tem velho demais, quando o jornalista tem mais de 50 anos, falo que só dou entrevista por telefone’, diz Joel que, à contragosto, ficou conhecido como A Víbora.

‘Eu não sou víbora coisa nenhuma. Eu me chateio com isso. Víbora tem veneno. Eu nunca ataquei ninguém em 70 anos de jornalismo. Quando não gostava de alguém eu a tratava de uma maneira sarcástica, bem-humorada’, contesta, culpando Assis Chateaubriand, o Chatô, dono dos Diários Associados, pelo apelido. ‘Onde já se viu chamar de víbora eu que sou um anjo de candura?’, questiona.

Ele confessa, entretanto, adorar uma dissidência. Diz ter caído no jornalismo só para irritar o pai. Candidatou-se à uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL) só para impedir que Zélia Gattai fosse eleita por unanimidade. Não vê a hora de completar 87 anos, só para voltar a ter uma idade de número ímpar. ‘Não gosto do número par. Acho que com o número par você sempre empata. Já o número ímpar tem sempre um dissidente e eu adoro o dissidente’, diz, dando mais uma golada no copo de Pepsi twist que não sai do seu lado.

‘Sempre gostei de beber wisky, mas bebida é para se tomar conversando. Quem bebe sozinho é alcoólatra e a coisa mais chata que tem é bêbado. Como todos meus amigos já se foram e estou sobrando por aqui, há oito anos não bebo mais’, justifica.

Impossibilitado de ler ou escrever por conta de estar com catarata, Joel tem passado os seus dias assistindo notícias, música clássica e novelas na TV. Os livros que lotam as estantes espalhadas por todos os cômodos do apartamento não podem mais ser relidos. ‘Fico vendo TV até às duas horas da manhã. Há três anos não consigo ler mais nada, mas em compensação já li e reli tudo que eu precisava. Já conheci o mundo todo, agora é melhor ficar dentro de casa vivendo de lembranças’, diz.

Mesmo com as chuteiras penduradas há anos, Joel continua acompanhando cada passo da política brasileira e do noticiário mundial. Nas quase duas horas de bate-papo, não se esquivou de nenhuma pergunta. Respondeu a todas, finalizando cada frase com um indefectível ‘compreendeu?’.

Joel tem opinião sobre tudo: governo Lula (‘um fracasso’, ‘não conhece mais do que 47 palavras’), reeleição de Bush (‘uma tragédia’), FHC (‘um anódino’). E esbanja uma memória incrível. A mesma que foi utilizada em 1968 para fazer uma descrição memorável dos dias que antecederam o golpe de 64 na reportagem publicada originalmente em quatro capítulos no Correio da Manhã e que dá título ao seu mais novo livro: ‘A feijoada que derrubou o governo’ (Companhia das Letras). Texto este que, pela primeira vez, poderá ser lido na íntegra, pois a edição que trazia a última parte do texto foi apreendida na própria redação e Joel Silveira preso pela sexta vez.

A companhia inseparável de Joel continua sendo a esposa Iracema, de 84 anos, que a toda hora é chamada para atender o telefone. ‘Casei com ela quando tinha 19 anos, já se passou um reinado de Luis XIV. Só falta a gente fazer bodas de plutônio’, ironiza Joel.

É Iracema quem passa a ligação mais aguardada do dia. Do outro lado da linha está Luiz Schwarcz, editor e dono da Companhia das Letras. Do lado de cá, Joel Silveira faz um apelo para que a editora lhe deposite logo um adiantamento. ‘Consulte o seu coração de ouro e me arrume um dinheirinho. Se você me der R$ 2 mil já estarei satisfeito. Só irei te cobrar de novo em 2008’, diz.

Quando ele desliga o telefone, lembro que ele havia dito que o repórter precisa ter paciência, persistência, sorte e ser, acima de tudo um chato. Me sinto na obrigação de perguntar se ele está passando por dificuldades financeiras. Ele diz que não, que seus gastos são mínimos, que tem uma aposentadoria razoável e que ganhou uma pensão vitalícia do governo do Sergipe em homenagem ao filho ilustre. Por que então a urgência do pedido de dinheiro? ‘Para comprar mais remédio, mais pepsi’, ironiza. ‘Vendo qualquer glória por 10 mil reais’. Questiono se é isso mesmo que ele pensa. Joel reflete um pouco mais e admite: ‘Na verdade trocaria qualquer glória e qualquer 10 mil reais para voltar a ter 30 anos e poder fazer tudo de novo’.

No ano passado foi lançado ‘A Milésima Segunda Noite na Avenida Paulista’, dentro desta mesma coleção de jornalismo literário. Agora, está sendo lançada uma nova coletânea de textos seus. Como foi feita a seleção das reportagens?

Ficou tudo a cargo do Luiz Schwarcz (editor e dono da Companhia das Letras), não fiz nenhum acréscimo, nenhuma correção. Um dia ele veio aqui com o Matinas Suzuki (presidente do iG) e perguntou se eu tinha alguma coisa para publicar. Eu falei que eu tinha uma tonelada de coisas que eu escrevi, umas inéditas, outras não. Ele levou a maçaroca – uns cinco quilos de papel que eu nem sabia o que era – para fazer a seleção junto com o Matinas. Uns 10 dias depois, o Schwarcz me ligou e disse: ‘Olha, não dá um livro não. Vamos publicar dois’.

Os textos do novo livro fazem um panorama político das décadas de 40 a 70. Você gostou desta nova seleção?

Este livro tem perfis das pessoas que se destacaram num período de quatro décadas, do Antônio Carlos Ribeiro de Andrada (ministro da Fazenda do governo Venceslau Brás e governador de Minas Gerais no final da década de 20) ao Juscelino. Foi a última entrevista que ele deu, 20 dias antes de morrer. Tenho a impressão que esse vai vender mais que o primeiro. A tiragem já foi maior. O primeiro tece tiragem de 3 mil e esgotou. A desse foi de 4 mil. Mas livro é uma das coisas mais misteriosas do mundo. Nessa coleção, por exemplo, o primeiro livro editado foi o A Sangue Frio, do Truman Capote, que é uma obra-prima e encalhou. O dele é um milhão de vezes melhor, mas o meu vendeu mais.

O texto que dá título ao livro e fala sobre o golpe de 64 é nitidamente baseado em lembranças. Ele foi escrito quando?

Eu escrevi em 1968, às vésperas do AI-5. Eu remomerei como uma espécie de flash-back, desde o princípio, com o governo Jango dizendo que o Estado estava vigilante e descartando qualquer possibilidade de golpe. Dias depois da feijoada, veio o que todos nós jornalistas já sabíamos que viria. E não foi dado um único tiro, foi um golpe por telefones. O texto foi dividido em quatro partes e publicado nos quatro últimos semanários do Correio da Manhã. O quarto capítulo nem chegou às bancas. A edição foi apreendida no próprio jornal e leitor do Correio da Manhã não chegou a ler a reportagem completa.

Quer dizer que pela primeira vez a reportagem vai poder ser lida na íntegra?

Pela primeira vez. Porque veio a ditadura e ela nunca mais foi publicada. Quarenta anos depois, agora é que está fazendo efeito a feijoada, compreendeu?

Na reportagem não é revelado onde ocorreu a famosa feijoada. Afinal, foi na casa de qual ministro?

Foi na Casa do João Pinheiro Neto, na rua Canning. Depois do Jango, ele era o mais visado porque, além de ministro do Trabalho, era encarregado de encaminhas a famosa reforma agrária. A feijoada começou ao meio-dia e acabou às dez da noite. Foi a maior feijoada que eu comi na minha vida, mas também a mais desastrada pelo que veio em seguida. A indigestão dura até hoje.

Quando você escreveu esta reportagem, você já era um jornalista consagrado. Mas como você entrou no jornalismo?

O primeiro artigo que eu publiquei foi em 1934, no jornal A Voz do Operário, de Sergipe. Eu tinha 14 anos. A história é o seguinte: meu pai era muito conservador. Não diria que era um fascista, era um maçom, um homem abonado. Já eu era exatamente o contrário. Então, para chatear meu pai, me alinhei aos operários e um dia eles me chamaram para ajudar a fazer o jornal deles. Depois, no colégio que estudava, fundei um centro literário e um jornaleco. Mas estava louco para sair de Aracaju e, em dezembro de 1937, vim para o Rio. Me lembro que o navio que eu vim, o Itanagé – que depois os alemães bombardearam – partiu às 13h, do dia 13 de dezembro, atracou no armazém 13 e eu fui morar numa pensão da Rua Rosário, número 130. Nunca vi tanto 13.

O 13 virou o seu número da sorte?

Nunca me fez mal. Aliás, acho um número lindo. Eu não gosto do 12. Não gosto de número par. Estou louco para sair do 86 e chegar logo nos 87. Acho que o número par você sempre empata. Já o número ímpar tem sempre um dissidente. Eu adoro o dissidente. O par não tem dissidente.

E como foi o seu ingresso nos jornais do Rio?

O primeiro lugar que trabalhei foi no Dom Casmurro, que era um semanário literário nos moldes dos semanários franceses antes da guerra. Via o jornal nas bancas e tinha muita vontade de trabalhar lá. Então resolvi fazer uma carta ao diretor do jornal e para minha surpresa, passando um dia na banca, vejo minha carta na primeira página. Era mais um lamento do que um artigo, mas me vi na obrigação de ir agradecer. Me convidaram para trabalhar com eles e não sai mais. Como naquele tempo o Dom Casmurro era o único jornal literário do País, toda a intelectualidade brasileira passava por lá: Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rêgo, Gilberto Freire, Cecília Meireles, Monteiro Lobato. E eu fui conhecendo este pessoal todo.

Os seus textos são vistos como exemplos de jornalismo literário no Brasil.

Vocês que consideram isso. Eu só fui escrevendo. Aprendi jornalismo fazendo jornalismo. Fui cronista político por 17 anos, em diversos jornais. O que eu sempre fui mesmo bom, insuperável, foi datilógrafo. Um dia fizeram um concurso na Manchete e ganhei do Otto Lara Rezende, que tinha fama de ser rápido. Não tinha ninguém mais rápido do que eu.

E qual era a sua técnica na hora das entrevistas. Você não usava gravador?

Nunca usei. A pessoa ia falando e eu ia escrevendo na minha Olivetti. Numa entrevista, eles iam falando e eu datilografando. Nunca tinha que pedir para a pessoa repetir. Também sempre tive uma memória fantástica, o que tenho até hoje, então muitas vezes também não anotava nada na hora. Se tinha alguma dúvida a respeito de uma declaração na hora de escrever, eu ligava de volta e checava. Mas, no geral, datilografava tudo na hora. Era assim que eu trabalhava, mas eu sempre fiz questão de ir na casa da pessoa. Eu acho que o jornalista sempre deve insistir em fazer a entrevista na casa da pessoa, porque vendo os livros, os quadros, o ambiente, você já tem uma idéia de quem é que você está entrevistando.

Essas reportagens mais literárias, entretanto, não eram comuns na época na imprensa brasileira.

Essas reportagens maiores, de 20, 30 páginas, vieram quando o Samuel Wainer criou a revista Diretrizes e me convidou para trabalhar lá. Foi então que fiz reportagens como a dos grã-finos de São Paulo, que fez um tremendo sucesso. Mas quem mais se irritou foram os grã-finos que não foram citados. Foi a primeira vez que uma revista tirou duas edições. A reportagem se transformou no meu cartão de visitas. Naquele tempo não tinha muitos jornalistas que faziam isto que eu fazia, que era um pouco literatura.

E quais foram as suas influências na época?

Ninguém teve influência direta sobre mim. Naquele tempo eu lia pouca coisa. Apenas os clássicos: Machado Assis, José Lins do Rêgo e Graciliano Ramos. Até hoje, acho que o Brasil só tem três grandes prosadores realmente digno deste nome: Machado, Graciliano e Monteiro Lobato, o resto é segundo time. Guimarães Rosa eu acho que é truque. Ele é o Joyce cabloco. Inventou uma língua que ninguém fala. A nossa língua está aí bonita, a única coisa que enfeia o português é o til. Ninguém pronuncia isso em nenhum outro lugar do mundo. Nem o próprio português pronuncia direito. Mas tem coisa que não dá para entender. Eu não entendo o fenômeno do Paulo Coelho. O Bill Clinton lê, o Chirac leu, o mundo inteiro lê e eu tentei ler, mas vomitei. Eu acho horroroso. Mandaram um exemplar para mim, mas mandei devolver porque não quero infectar minha biblioteca. Eu considero isso a sub-sub-sub-literatura, mas ele vende até na Tailândia.

Aliás, ele está na Academia Brasileira de Letras, local onde você já disputou uma cadeira quando se opôs a candidatura da Zélia Gattai.

Não tenho nada a ver com academia. Só me candidatei na ocasião para impedir a unanimidade. Quando ela se inscreveu para concorrer vi uma entrevista onde ela exigia que a votação fosse por unanimidade e achei aquilo de uma empáfia, de uma arrogância danada, porque parecia que ela era dona da cadeira. Sempre a considerei uma sub-literária, mas não me candidatei para ser eleito. Como se diz no tênis, me candidatei apenas para quebrar o serviço e consegui oito votos e ela ficou com ódio de mim até hoje.

Quer dizer que o apelido de víbora se justifica.

Eu não sou víbora coisa nenhuma. Eu me chateio com isso. Víbora tem veneno. Eu nunca ataquei ninguém em 70 anos de jornalismo. Quando não gostava de alguém eu a tratava de uma maneira sarcástica, bem-humorada. Eu nunca chamei ninguém de ladrão, como fazia o David Nasser e o Carlos Lacerda. Mas esse apelido idiota do Chatô (Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados) pegou. A história é a seguinte: o Chatô gostou muito da reportagem dos grã-finos e ficou dizendo: ‘quero esta víbora trabalhando para mim, preciso desta víbora’. Mas onde já se viu chamar de víbora eu que sou um anjo de candura?

Quando foi que você aceitou trabalhar com o Chatô?

Foi quando eu fiquei sem emprego. O governo do Getúlio sempre quis fechar o Diretrizes, mas não encontrava um pretexto. A revista era muito lida pelos americanos e tinha o apoio direto da Embaixada Americana, porque dava apoio aos aliados. Até que eu publiquei uma entrevista com o Monteiro Lobato. Era para ser uma entrevista literária, mas acabou sendo política. Ele tinha horror ao Getúlio, já tinha sido preso duas vezes e desandou. Foi nesta entrevista que ele disse a famosa frase ‘o governo precisa sair do povo como a fumaça da fogueira’, que foi estampada na capa do jornal. No dia seguinte, quando chegamos na redação, ela já estava lacrada. O Dip tinha fechado a redação. Eu tinha 27 anos e nunca tinha visto o Chateaubriand na vida. Não gostava dele. Aí ele me encontrou e disse: ‘Joel Silveira você é uma víbora, um homem terrível, o senhor vai trabalhar comigo’. Aí ficou esta história da víbora.

Nos Diários Associados, você acabou sendo mandado para acompanhar os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) em Monte Castelo. Num dos textos do livro você afirma que aqueles meses não foram um passeio. O que mudou na sua vida depois da guerra?Numa guerra você vê os dois lados do ser humano: o bom e o mal. Particularmente a face má. A perversão e a subversão de todos os valores. Por onde a guerra passa, ela vai deixando seu rastro de destruição. Você amadurece demais. Perde toda a ingenuidade e o resto de inocência que ainda tem. Eu conquisto dizer que fui com 26 anos para a guerra e voltei com 40 anos, mas só fiquei lá 10 meses. Você volta desiludido com o ser humano. Mas a guerra sempre foi o maior de todos os assuntos do jornalismo, infelizmente. Hoje, o assunto do momento é o Iraque. Não há outro. O fracasso do governo Lula não chega a ser um grande assunto. Se estivesse com saúde, estava hoje no Iraque.

Para você o governo Lula já fracassou, não há mais o que se esperar?

Eu já tinha entrevistado ele umas três, quatro vezes e via o poder de liderança dele. Era realmente um líder, corajoso. Eu tinha esperança que seria bonito mostrar ao mundo um operário metalúrgico chegando à Presidência, mas foi um fracasso total. Não fez nada até hoje, um quilômetro de estrada se quer, um hospital, uma escola. Não tem projeto de governo. O Congresso está parado há três meses. O Planalto está arrolado num ninho de cobras, com um querendo degolar o outro. Para mim, o José Dirceu não é o chefe da Casa Civil, é o chefe da oposição. Com os problemas que ele cria diariamente, a oposição não precisa se líder. O Lula não tem a menor chance de se reeleger. O PT perdeu em todas as grandes cidades nestas eleições. Hoje eu vejo apenas dois grandes nomes com chances, o Geraldo Alckmin (governador de São Paulo) e José Serra (prefeito eleito de São Paulo).

O Brasil ainda não se afastou dos fantasmas de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek?

Eles foram os últimos estadistas. Eu sempre tive horror ao Getúlio, mas reconheço que ele foi um estadista e um salvador dos trabalhadores. Depois de Juscelino, o Brasil não teve mais nenhum estadista. O Fernando Henrique foi anódino. Queria ser o intelectual, o estadista, mas vendeu tudo, a sua maior marca foram as privatizações. Já o Lula, nem marca tem. Quando ele fala sem seguir o discurso é um desastre. É um linguajar de uma pobreza. Ele nunca diz ‘Nós vamos fazer’, diz é ‘A gente fazemos’. Ele tem empatia, mas não podem permitir que esse homem improvise. Eu tenho a impressão que o Lula deve conhecer 47 palavras, no máximo. Mas quer ser estadista.

Qual é o grande problema do Brasil.

O Brasil é um País grande, o brasileiro é que é aquela mesmice, só quer praia. O que falta aqui é fazer as coisas, um bom governo. Mas a verdade é que o País cresce, apesar dos governos, apesar do Lula. O Brasil hoje é uma potência, é o maior exportador de soja, minério de ferro, suco de laranja, é o País mais industrializado de toda América Latina. Tanto que o presidente da China está aqui esta semana. Ela quer fazer do Brasil uma força para enfrentar os Estados Unidos.

Estados Unidos que acaba de reeleger o Bush.

Para o Brasil foi o melhor, porque o Kerry nunca deu bola para a América Latina. Já o Bush tem uma relação estreita com o Lula. Não é grande coisa, mas pelo menos não é hostil. Já para o mundo a reeleição do Bush é um desastre. Mas as coisas vão mudar. Hoje, os Estados Unidos estão divididos, a verdade é esta. Depois da Guerra da Secessão, é a segunda divisão dos Estados Unidos e vai ser difícil governar. O Osama Bin Laden vive. O Saddam está preso, mas já está virando mártir. A nova guerra santa só tende a aumentar.

Para quem já acompanhou tantas transformações como você, envelhecer traz ceticismo.

Pelo contrário, me considero um otimista e bem-humorado. Não me queixo de estar velho. Pelos perigos que já vivi, não imaginava que viveria tanto. Já estou sobrando por aqui. Virei uma espécie de museu que vive de lembranças.

As novas tecnologias mudaram muito o modo de se fazer jornalismo. Você gosta da imprensa de hoje?

O jornalismo dos últimos 30 anos melhorou fantasticamente, a começar do ponto de vista gráfico. Além do mais se escreve melhor. Tem curso de jornalismo para aprender técnicas de jornalismo. Antigamente, você tinha uma visão do mundo através das agências estrangeiras, hoje temos nossos próprios correspondentes, que são excelentes. Hoje, o volume de notícias às redações é uma coisa infernal. Dá para fazer cinco jornais. Aí que se revela mais do que nunca o papel do editor. Hoje, quanto melhor o editor, melhor o jornal.

E a qualidade das reportagens atuais, você gosta? Não se vê mais reportagens de 20, 30 páginas, como as que você fazia.

Não há mais espaço para esse tipo de jornalismo, a não ser em suplementos literários. Até mesmo as reportagens das revistas são pequenas porque o fluxo de notícias é muito grande. Mas o Brasil tem ótimos correspondentes, sobretudo na televisão.

Diante de tanta informação, tanta tecnologia, quais os valores indispensáveis para um bom reporte hoje?

Quando estava na Itália, fazendo a cobertura do final da Segunda Guerra, perguntei um dia para o Hebert Mathewrs, que já tinha feito várias coberturas de guerra e foi editor do New York Times por 15 anos, o que era preciso para ser um bom repórter. Ele me respondeu que eram necessárias três coisas: paciência, persistência e sorte. Aí eu disse: ‘tendo a terceira, você tem as outras duas’. Ele concordou comigo e acho que até hoje é isso que prevalece. Mas, na minha opinião, o repórter deve ser acima de tudo um chato. Se não for chato, se não insistir nas perguntas, no pedido de entrevista, se não chatear, não será um bom repórter.’

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