Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > JORNALISTAS & FONTES

José Paulo Lanyi

11/10/2005 na edição 350

‘Aqui vai mais uma da série informal que ora batizo de ‘Minha vida de fonte’ (leia ‘Carta ao Moacir Japiassu’). Digo desde já que não tem sido fácil. Esses jornalistas adoram usar a gente.

Desta vez, fui procurado por um repórter de um diário mineiro. Ele queria escrever sobre a nossa novela para o caderno de Cultura do jornal. Me mandou vários e-mails, ligou para mim uma, duas, quantas vezes foram necessárias. As imagens não ficaram boas? Me enviou um correio eletrônico. Agora o jornal quer outras fotografias? Maravilha, lá vem ele de novo, ele adora conversar comigo.

O deadline é mesmo o melhor relações-públicas, o maior aglutinador, o supremo agregador. O deadline aproxima as pessoas. Quer receber a ligação de um jornalista? Torça por um atraso dele no deadline, de preferência por sua causa, ainda que nem sempre por culpa sua.

Bom, o deadline se foi e a expectativa ficou. ‘Vamos publicar amanhã’, disse-me ele. Mexi-me, então, para garantir a leitura. Um amigo meu conhecia uma banca da região da Paulista. Foi lá, falou com a jornaleira e reservou alguns exemplares do dia seguinte. ‘Mas você confira antes, só compre se a matéria tiver saído’, alertei-o. ‘Olha, não vi nada’, informou-me ele naquela outra manhã.

Mandei, então, uma mensagem cortês ao jornalista mineiro. Pedi que nos avisasse quando o trabalho fosse publicado. Nenhuma resposta.

Uns três dias depois, liguei para o celular do meu dileto colega de Belo Horizonte. ‘Acho que não saiu, talvez por causa de algum problema com as fotos. Não posso falar com você agora’, respondeu-me. Encaminhei-lhe, a pedido, outras imagens.

Dei-lhe mais um tempo e despachei-lhe outro e-mail perguntando se a bendita havia ou não sido publicada. Nenhuma resposta.

Esqueci o tal jornal por um tempo, com a antipatia que, agora, era-me cara.

Mas havia um problema extra. O repórter me havia pedido exclusividade em Minas Gerais. Concedi-lhe e fiquei com pose de palhaço, sem saber o que fazer. Deveria ou não oferecer a pauta a outro jornal? Não tinha como adivinhar.

Lá fui eu, tentei mais uma vez e acabei falando com uma jornalista do mesmo caderno. Só o Fulano, o autor da matéria, poderia checar isso, ela me explicou. Realmente, uma pesquisa eletrônica tira pedaço…

Uns quinze dias depois, voltei à carga. Encontrei-o pelo celular e o sujeito, de má-vontade, me disse que a matéria havia sido publicada e que, uma vez mais, ele não podia falar comigo naquele momento.

Com a paciência de um vascaíno, enviei-lhe novo e-mail, ungido pela educação que os meus pais me deram, dizendo-lhe que, enfim, localizara o artigo pelo site, mas que, por não ser assinante, eu não conseguiria abrir o arquivo. Forneci-lhe a data da publicação, o link, tudo o que lhe facilitasse a vida. Sem que se extenuasse, o meu colega poderia empreender um Ctrl C, Ctrl V e enviar-me a reportagem, ao menos para se livrar de mim. Não, nada disso, ele é muito ocupado para os seus leitores.

Boa notícia: uma jornalista de Uberlândia, assinante do portal que hospeda esse diário, vai me fazer o imensurável favor de me mandar uma cópia da reportagem pelo correio. Essa parte está resolvida.

A outra, não. Disse no outro artigo que, nesta minha nova vida de fonte, sofro no lombo a inaptidão de muitos dos nossos colegas. O caso aqui narrado ilustra a arrogância de todo o sempre. Eu procuro você, encho a sua paciência, publico o que bem entendo e, a partir daí, você simplesmente não existe para mim. Quando precisei, conversei; depois, calei-me e fiz cara de blasé, sou um homem ocupado.

Ao fim e ao cabo eu pergunto: quanto custa respeitar um ser humano? Os semideuses do jornalismo saberão responder a essa indagação etérea? Porque não se trata apenas do atendimento a uma fonte, trata-se de civilidade. É pedir demais, talvez… Afinal, para que eu e você vamos querer saber o que escreveram sobre nós em um dos principais veículos de comunicação do país, pelo qual, sublinhe-se, fomos procurados, com a oferta de exclusividade? Teremos que implorar, genuflexos, para lamber as solas de vários pares de sapatos?

De minha parte, escrevo esta coluna sem conhecimento, ainda, do que se publicou. Provavelmente a reportagem nos foi ‘positiva’, não havia polêmicas a se suscitarem. Mas não importa. Mais do que falar bem do trabalho de quem quer que seja – decisão editorial soberana-, exige-se consideração. Não conseguimos, é uma pena. Se depender de mim, entrevista para esse cara, nunca mais. Na próxima, procuro o jornal concorrente.’



EUA
Antônio Gois

‘Mídia dos EUA trata público como criança, diz jornalista’, copyright Folha de S. Paulo, 9/10/05

‘O jornalista canadense Stephen Marshall, 37, é fundador de uma guerrilha. Suas armas, no entanto, não são fuzis ou granadas, mas vídeos e textos veiculados em mídias como a GNN (Guerrilla News Network), um canal e site independente com atitude crítica com relação à cobertura feita pela mídia dos EUA sobre o governo George W. Bush.

Marshall, que vive há sete anos nos EUA, participou no Rio do seminário ‘Representações da Violência’, encerrado anteontem no Centro Cultural Banco do Brasil.

Para ele, a posição pouco crítica da mídia americana em relação ao governo Bush tem a ver também com o medo de desagradar uma audiência que não queria ouvir questionamentos à política do presidente americano. ‘É muito fácil dizer ao público o que ele quer ouvir. Difícil é falar a antítese do que ele quer escutar.’ Leia trechos de sua entrevista à Folha.

Folha – A imprensa dos EUA tinha uma imagem de independência desde o caso Watergate. Na Guerra do Iraque e no 11 de Setembro, no entanto, o que se viu foi uma mídia pouco crítica. A imagem estava errada ou mudou a imprensa?

Stephen Marshall – A imagem não estava errada, mas algumas coisas mudaram. Uma é que o jornalismo se tornou um grande meio de obter lucros. Hoje, em vez de serem jornalistas, são homens de negócio que cuidam das empresas de mídia e, como tais, têm uma responsabilidade grande com seus acionistas.

Mas não adianta culpá-los por isso. Essa é a lógica deles. Se a empresa não dá lucro, é preciso mudá-la. E como se faz isso? Cortando custos, como os de uma produção investigativa, e aumentando a quantidade de opinião. E quando isso ocorre os limites que separam o jornalismo dos partidos políticos diminuem. Foi o que aconteceu após o 11 de Setembro.

É interessante notar, por exemplo, que a jornalista Judith Miller, do ‘New York Times’, foi a maior advogada, antes da guerra, do argumento de que o Iraque possuía armas de destruição em massa. Quando a guerra acabou, o ‘NYT’ foi obrigado a olhar criticamente para ele mesmo como um instrumento do esforço de guerra do governo. E a resposta de Miller foi de que seu papel era apenas reportar o que o Pentágono dizia, e não de criticá-lo. É dessa maneira como estamos agindo e ninguém fala sobre isso.

Folha – A culpa então não é só dos donos da mídia.

Marshall – Sim. Vamos ser claros. Todo jornalista quer ser uma estrela, quer ter seu Watergate. E há uma cultura nas empresas de que você só subirá na profissão se escrever histórias que agradem a audiência. É muito fácil dizer ao público o que ele quer ouvir. Difícil é falar a antítese do que ele quer escutar. Após o 11 de Setembro, a audiência americana não queria ouvir nenhuma crítica à autoridade de seus líderes.

Até hoje, 51% da população americana ainda acredita que Saddam Hussein estivesse envolvido diretamente no 11 de Setembro. Como isso pôde acontecer? É irracional. Parece que os jornalistas continuam tratando o público como se trata uma criança ferida, que quer ouvir que está tudo bem e que seus líderes estão certos.

Folha – Após a devastação causada pelo furacão Katrina, em Nova Orleans, a imprensa americana parece ter voltado a olhar o governo com um viés critico. O que mudou?

Marshall – No Iraque, os jornalistas que estavam lá eram protegidos e transportados pelas tropas americanas. Em Nova Orleans, no entanto, eles estavam lá por eles mesmos. Ninguém estava os protegendo e eles começaram a ver cadáveres na rua e entraram em pânico ao vivo. O que está acontecendo agora nos EUA é que, não apenas por causa do Katrina, uma parte da sociedade, até mesmo conservadores, está criticando algumas políticas do governo Bush.’



ARGENTINA
Carlos Vasconcellos

‘Retrato da Argentina muito além dos clichês’, copyright O Globo, 7/10/05

‘Argentinos: mitos, manias e milongas, de Marcia Carmo e Monica Yanakiew. Editora Planeta, 287 pgs. R$ 29,90

O que nós, brasileiros, sabemos a respeito da Argentina além dos clichês do tango, do futebol e da imagem da capital mais européia da América Latina? Em geral, muito pouco. É a conclusão que se tira da leitura de ‘Argentinos: mitos, manias e milongas’, das jornalistas Marcia Carmo e Monica Yanakiew. Em dois anos e meio de trabalho, somados a mais de uma década de experiência como correspondentes no país vizinho, as autoras montam o quebra-cabeça de um país intrigante. Por seus clichês e por muito mais do que eles.

O livro explica, por exemplo, um dos segredos por trás da rápida recuperação da economia argentina: a desconfiança da população em relação ao sistema bancário. Essa desconfiança leva os argentinos a guardarem seu dinheiro em esconderijos às vezes estapafúrdios. Grande parte da população, dizem as autoras, confia mesmo é no Colchón Bank.

Essa desconfiança alimentou durante anos a inflação argentina, indexando informalmente a economia ao dólar pela indexação informal da economia ao dólar. A conversibilidade do peso à moeda americana, nos anos 90, transformou em direito o que era de fato, e acabou com a espiral inflacionária. Claro que isso jogou a Argentina em uma nova armadilha. Quando vieram a desvalorização do peso e o ‘corralito’ – equivalente ao confisco da poupança nos anos Collor – o país quebrou.

Quebrou? Em 2002, segundo Marcia e Monica, o Banco Central estimava que os argentinos mantinham US$ 35 bilhões no Colchón Bank. Três vezes as reservas oficiais do país. Com a desvalorização, muita gente enriqueceu em meio ao empobrecimento geral. Esse dinheiro – guardado fora dos bancos por uma atávica paranóia – foi um dos principais impulsos para a recuperação da economia argentina.

O próprio presidente Néstor Kirchner, quando era governador da província de Santa Cruz, transferiu US$ 500 milhões dos cofres provinciais para um banco na Suíça. Pois não confiava no sistema bancário do país. Já com Kirchner presidente, em agosto deste ano finalmente o dinheiro começou a ser repatriado em prestações: está sendo depositado em um cofre do Banco de Santa Cruz. Um cofre fora do sistema bancário, obviamente.

Marcia e Monica não se limitam, no entanto, à crise e à economia. Dividido em sete capítulos e um glossário, o livro pode ser lido como uma série de grandes reportagens. A primeira, uma radiografia da identidade ciclotímica argentina, que oscila entre a depressão e a euforia, a arrogância e a depreciação, quase sempre temperada com humor ácido. Depois, a relação dos argentinos com o dinheiro.

Seguem a relação com a política, que leva a classe média às ruas com muito mais fúria e freqüência que no Brasil; a necrofilia (simbólica e quase literal) de um país que tem memória demais (nosso exato oposto, nesse sentido); o papel das mulheres como eminências pardas num país machista; os meandros da sedução numa sociedade de gentis histéricos e histéricas; e por último, mas não menos importante: Argentina, o país do futuro (o título do capítulo não é esse, mas poderia ser).

No final desse mosaico, é possível chegar a uma conclusão sobre os ‘hermanos’? Talvez, mas só se você olhar para o quadro geral sem se perder no labirinto borgiano das contradições argentinas. Aí você poderá ter uma idéia de como são nossos vizinhos. E, como num espelho, também é possível aprender um pouco sobre si mesmo. Basta saber se você leu ‘Argentinos’ mais como drama ou como comédia.’

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ENTRE ASPAS > JORNALISTAS & FONTES

José Paulo Lanyi

11/10/2005 na edição 350

‘Aqui vai mais uma da série informal que ora batizo de ‘Minha vida de fonte’ (leia ‘Carta ao Moacir Japiassu’). Digo desde já que não tem sido fácil. Esses jornalistas adoram usar a gente.

Desta vez, fui procurado por um repórter de um diário mineiro. Ele queria escrever sobre a nossa novela para o caderno de Cultura do jornal. Me mandou vários e-mails, ligou para mim uma, duas, quantas vezes foram necessárias. As imagens não ficaram boas? Me enviou um correio eletrônico. Agora o jornal quer outras fotografias? Maravilha, lá vem ele de novo, ele adora conversar comigo.

O deadline é mesmo o melhor relações-públicas, o maior aglutinador, o supremo agregador. O deadline aproxima as pessoas. Quer receber a ligação de um jornalista? Torça por um atraso dele no deadline, de preferência por sua causa, ainda que nem sempre por culpa sua.

Bom, o deadline se foi e a expectativa ficou. ‘Vamos publicar amanhã’, disse-me ele. Mexi-me, então, para garantir a leitura. Um amigo meu conhecia uma banca da região da Paulista. Foi lá, falou com a jornaleira e reservou alguns exemplares do dia seguinte. ‘Mas você confira antes, só compre se a matéria tiver saído’, alertei-o. ‘Olha, não vi nada’, informou-me ele naquela outra manhã.

Mandei, então, uma mensagem cortês ao jornalista mineiro. Pedi que nos avisasse quando o trabalho fosse publicado. Nenhuma resposta.

Uns três dias depois, liguei para o celular do meu dileto colega de Belo Horizonte. ‘Acho que não saiu, talvez por causa de algum problema com as fotos. Não posso falar com você agora’, respondeu-me. Encaminhei-lhe, a pedido, outras imagens.

Dei-lhe mais um tempo e despachei-lhe outro e-mail perguntando se a bendita havia ou não sido publicada. Nenhuma resposta.

Esqueci o tal jornal por um tempo, com a antipatia que, agora, era-me cara.

Mas havia um problema extra. O repórter me havia pedido exclusividade em Minas Gerais. Concedi-lhe e fiquei com pose de palhaço, sem saber o que fazer. Deveria ou não oferecer a pauta a outro jornal? Não tinha como adivinhar.

Lá fui eu, tentei mais uma vez e acabei falando com uma jornalista do mesmo caderno. Só o Fulano, o autor da matéria, poderia checar isso, ela me explicou. Realmente, uma pesquisa eletrônica tira pedaço…

Uns quinze dias depois, voltei à carga. Encontrei-o pelo celular e o sujeito, de má-vontade, me disse que a matéria havia sido publicada e que, uma vez mais, ele não podia falar comigo naquele momento.

Com a paciência de um vascaíno, enviei-lhe novo e-mail, ungido pela educação que os meus pais me deram, dizendo-lhe que, enfim, localizara o artigo pelo site, mas que, por não ser assinante, eu não conseguiria abrir o arquivo. Forneci-lhe a data da publicação, o link, tudo o que lhe facilitasse a vida. Sem que se extenuasse, o meu colega poderia empreender um Ctrl C, Ctrl V e enviar-me a reportagem, ao menos para se livrar de mim. Não, nada disso, ele é muito ocupado para os seus leitores.

Boa notícia: uma jornalista de Uberlândia, assinante do portal que hospeda esse diário, vai me fazer o imensurável favor de me mandar uma cópia da reportagem pelo correio. Essa parte está resolvida.

A outra, não. Disse no outro artigo que, nesta minha nova vida de fonte, sofro no lombo a inaptidão de muitos dos nossos colegas. O caso aqui narrado ilustra a arrogância de todo o sempre. Eu procuro você, encho a sua paciência, publico o que bem entendo e, a partir daí, você simplesmente não existe para mim. Quando precisei, conversei; depois, calei-me e fiz cara de blasé, sou um homem ocupado.

Ao fim e ao cabo eu pergunto: quanto custa respeitar um ser humano? Os semideuses do jornalismo saberão responder a essa indagação etérea? Porque não se trata apenas do atendimento a uma fonte, trata-se de civilidade. É pedir demais, talvez… Afinal, para que eu e você vamos querer saber o que escreveram sobre nós em um dos principais veículos de comunicação do país, pelo qual, sublinhe-se, fomos procurados, com a oferta de exclusividade? Teremos que implorar, genuflexos, para lamber as solas de vários pares de sapatos?

De minha parte, escrevo esta coluna sem conhecimento, ainda, do que se publicou. Provavelmente a reportagem nos foi ‘positiva’, não havia polêmicas a se suscitarem. Mas não importa. Mais do que falar bem do trabalho de quem quer que seja – decisão editorial soberana-, exige-se consideração. Não conseguimos, é uma pena. Se depender de mim, entrevista para esse cara, nunca mais. Na próxima, procuro o jornal concorrente.’



EUA
Antônio Gois

‘Mídia dos EUA trata público como criança, diz jornalista’, copyright Folha de S. Paulo, 9/10/05

‘O jornalista canadense Stephen Marshall, 37, é fundador de uma guerrilha. Suas armas, no entanto, não são fuzis ou granadas, mas vídeos e textos veiculados em mídias como a GNN (Guerrilla News Network), um canal e site independente com atitude crítica com relação à cobertura feita pela mídia dos EUA sobre o governo George W. Bush.

Marshall, que vive há sete anos nos EUA, participou no Rio do seminário ‘Representações da Violência’, encerrado anteontem no Centro Cultural Banco do Brasil.

Para ele, a posição pouco crítica da mídia americana em relação ao governo Bush tem a ver também com o medo de desagradar uma audiência que não queria ouvir questionamentos à política do presidente americano. ‘É muito fácil dizer ao público o que ele quer ouvir. Difícil é falar a antítese do que ele quer escutar.’ Leia trechos de sua entrevista à Folha.

Folha – A imprensa dos EUA tinha uma imagem de independência desde o caso Watergate. Na Guerra do Iraque e no 11 de Setembro, no entanto, o que se viu foi uma mídia pouco crítica. A imagem estava errada ou mudou a imprensa?

Stephen Marshall – A imagem não estava errada, mas algumas coisas mudaram. Uma é que o jornalismo se tornou um grande meio de obter lucros. Hoje, em vez de serem jornalistas, são homens de negócio que cuidam das empresas de mídia e, como tais, têm uma responsabilidade grande com seus acionistas.

Mas não adianta culpá-los por isso. Essa é a lógica deles. Se a empresa não dá lucro, é preciso mudá-la. E como se faz isso? Cortando custos, como os de uma produção investigativa, e aumentando a quantidade de opinião. E quando isso ocorre os limites que separam o jornalismo dos partidos políticos diminuem. Foi o que aconteceu após o 11 de Setembro.

É interessante notar, por exemplo, que a jornalista Judith Miller, do ‘New York Times’, foi a maior advogada, antes da guerra, do argumento de que o Iraque possuía armas de destruição em massa. Quando a guerra acabou, o ‘NYT’ foi obrigado a olhar criticamente para ele mesmo como um instrumento do esforço de guerra do governo. E a resposta de Miller foi de que seu papel era apenas reportar o que o Pentágono dizia, e não de criticá-lo. É dessa maneira como estamos agindo e ninguém fala sobre isso.

Folha – A culpa então não é só dos donos da mídia.

Marshall – Sim. Vamos ser claros. Todo jornalista quer ser uma estrela, quer ter seu Watergate. E há uma cultura nas empresas de que você só subirá na profissão se escrever histórias que agradem a audiência. É muito fácil dizer ao público o que ele quer ouvir. Difícil é falar a antítese do que ele quer escutar. Após o 11 de Setembro, a audiência americana não queria ouvir nenhuma crítica à autoridade de seus líderes.

Até hoje, 51% da população americana ainda acredita que Saddam Hussein estivesse envolvido diretamente no 11 de Setembro. Como isso pôde acontecer? É irracional. Parece que os jornalistas continuam tratando o público como se trata uma criança ferida, que quer ouvir que está tudo bem e que seus líderes estão certos.

Folha – Após a devastação causada pelo furacão Katrina, em Nova Orleans, a imprensa americana parece ter voltado a olhar o governo com um viés critico. O que mudou?

Marshall – No Iraque, os jornalistas que estavam lá eram protegidos e transportados pelas tropas americanas. Em Nova Orleans, no entanto, eles estavam lá por eles mesmos. Ninguém estava os protegendo e eles começaram a ver cadáveres na rua e entraram em pânico ao vivo. O que está acontecendo agora nos EUA é que, não apenas por causa do Katrina, uma parte da sociedade, até mesmo conservadores, está criticando algumas políticas do governo Bush.’



ARGENTINA
Carlos Vasconcellos

‘Retrato da Argentina muito além dos clichês’, copyright O Globo, 7/10/05

‘Argentinos: mitos, manias e milongas, de Marcia Carmo e Monica Yanakiew. Editora Planeta, 287 pgs. R$ 29,90

O que nós, brasileiros, sabemos a respeito da Argentina além dos clichês do tango, do futebol e da imagem da capital mais européia da América Latina? Em geral, muito pouco. É a conclusão que se tira da leitura de ‘Argentinos: mitos, manias e milongas’, das jornalistas Marcia Carmo e Monica Yanakiew. Em dois anos e meio de trabalho, somados a mais de uma década de experiência como correspondentes no país vizinho, as autoras montam o quebra-cabeça de um país intrigante. Por seus clichês e por muito mais do que eles.

O livro explica, por exemplo, um dos segredos por trás da rápida recuperação da economia argentina: a desconfiança da população em relação ao sistema bancário. Essa desconfiança leva os argentinos a guardarem seu dinheiro em esconderijos às vezes estapafúrdios. Grande parte da população, dizem as autoras, confia mesmo é no Colchón Bank.

Essa desconfiança alimentou durante anos a inflação argentina, indexando informalmente a economia ao dólar pela indexação informal da economia ao dólar. A conversibilidade do peso à moeda americana, nos anos 90, transformou em direito o que era de fato, e acabou com a espiral inflacionária. Claro que isso jogou a Argentina em uma nova armadilha. Quando vieram a desvalorização do peso e o ‘corralito’ – equivalente ao confisco da poupança nos anos Collor – o país quebrou.

Quebrou? Em 2002, segundo Marcia e Monica, o Banco Central estimava que os argentinos mantinham US$ 35 bilhões no Colchón Bank. Três vezes as reservas oficiais do país. Com a desvalorização, muita gente enriqueceu em meio ao empobrecimento geral. Esse dinheiro – guardado fora dos bancos por uma atávica paranóia – foi um dos principais impulsos para a recuperação da economia argentina.

O próprio presidente Néstor Kirchner, quando era governador da província de Santa Cruz, transferiu US$ 500 milhões dos cofres provinciais para um banco na Suíça. Pois não confiava no sistema bancário do país. Já com Kirchner presidente, em agosto deste ano finalmente o dinheiro começou a ser repatriado em prestações: está sendo depositado em um cofre do Banco de Santa Cruz. Um cofre fora do sistema bancário, obviamente.

Marcia e Monica não se limitam, no entanto, à crise e à economia. Dividido em sete capítulos e um glossário, o livro pode ser lido como uma série de grandes reportagens. A primeira, uma radiografia da identidade ciclotímica argentina, que oscila entre a depressão e a euforia, a arrogância e a depreciação, quase sempre temperada com humor ácido. Depois, a relação dos argentinos com o dinheiro.

Seguem a relação com a política, que leva a classe média às ruas com muito mais fúria e freqüência que no Brasil; a necrofilia (simbólica e quase literal) de um país que tem memória demais (nosso exato oposto, nesse sentido); o papel das mulheres como eminências pardas num país machista; os meandros da sedução numa sociedade de gentis histéricos e histéricas; e por último, mas não menos importante: Argentina, o país do futuro (o título do capítulo não é esse, mas poderia ser).

No final desse mosaico, é possível chegar a uma conclusão sobre os ‘hermanos’? Talvez, mas só se você olhar para o quadro geral sem se perder no labirinto borgiano das contradições argentinas. Aí você poderá ter uma idéia de como são nossos vizinhos. E, como num espelho, também é possível aprender um pouco sobre si mesmo. Basta saber se você leu ‘Argentinos’ mais como drama ou como comédia.’

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