Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

ENTRE ASPAS > IMPRENSA NO ENEM

Josy Fischberg e Demétrio Weber

31/08/2004 na edição 292

RIO E BRASÍLIA. Cerca de 1,5 milhão de estudantes fizeram ontem o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), cuja prova de redação teve como tema a liberdade de imprensa. O exame foi realizado em 608 municípios de todos os estados e no Distrito Federal. A prova, com cinco horas de duração, teve início às 13h. Só no Estado do Rio, havia cerca de 118 mil estudantes inscritos, que fizeram a prova em 119 locais.

Na Uerj, um dos locais com maior concentração de participantes no Rio, com cerca de seis mil inscritos, aqueles que chegaram com 15 minutos de atraso ainda tiveram permissão para entrar. Logo depois, os portões foram fechados e alguns estudantes, como Jorge Felipe, de 17 anos, não conseguiram fazer a prova.

— Moro na Taquara e tive dificuldade de chegar a tempo. Eu não recebi meu cartão de confirmação e me informaram, por telefone, que eu deveria fazer a prova aqui, mesmo sendo longe — explicou.

Participantes não sabiam explicar tema de redação

Às 15h, os primeiros participantes começaram a deixar as salas de prova, na Uerj. Muitos não sabiam como explicar o tema da redação.

— Era alguma coisa sobre programas sensacionalistas — disse Aparecida de Aquino.

— Acho que o tema era ligado à imprensa — arriscou Jaqueline Magalhães de Castro.

— A redação era sobre as empresas de telecomunicação e vários problemas atuais — afirmou Daniel Czapnik.

‘Quem fiscaliza (a imprensa)? Trata-se de tema complexo porque remete para a questão da responsabilidade não só das empresas de comunicação como também dos jornalistas. Alguns países, com a Suécia e a Grã-Bretanha, vêm há anos tentando resolver o problema da responsabilidade do jornalismo por meio de mecanismos que incentivem a auto-regulação da mídia’, diz o trecho do texto de apoio usado na redação.

O coordenador-geral do Enem, Dorivan Ferreira, disse que o assunto da redação foi definido na primeira semana de julho por uma comissão de especialistas contratados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão do MEC responsável pelo exame

O objetivo do Enem, destinado a estudantes que estão concluindo ou já terminaram o ensino médio, é dar uma referência para a auto-avaliação. Além disso, 455 instituições, sendo 52 delas públicas, utilizam os resultados do exame governamental em seus vestibulares.

O auxiliar administrativo do governo do Distrito Federal e ex-servente de obras Carlos Roberto Pinheiro da Gama, de 48 anos, está no 3 ano do ensino médio e fez o teste de olho no vestibular.

— Toda a vida quis terminar os estudos, mas não tinha tido a chance — disse ele, que freqüenta uma escola pública à noite e sonha cursar ciências contábeis ou teologia.’



LÍNGUA PORTUGUESA
Deonísio da Silva

‘Neologismos’, copyright Jornal do Brasil, 30/8/04

‘‘Pego na pena com bastante medo. Estarei falando francês ou português?’ Machado de Assis pensou em deixar de escrever se os exageros de um gramático substituíssem palavras consagradas pelo uso: ‘mando este ofício à fava e passo a falar por gestos’.

Prudente, em face das inevitáveis afluências de outras línguas, principalmente do francês, o grande escritor seguiu a célebre sentença latina ‘In medio stat virtus’ (‘A virtude está no meio’).

A elipse do verbo resultou em algumas variações de estilo nas citações. Assim, o provérbio aparece às vezes sem a forma verbal stat (está): ‘In meio virtus’. O significado é o mesmo.

Neste caso, como em tantos outros, é preciso estar atento ao espírito das letras, que elas o têm! Ah, como têm! Elas não apenas matam, como também morrem. É o espírito que as vivifica.

A recomendação pelo meio-termo, pelo comedimento, pelo ecletismo, aparece em vários autores latinos, entre os quais Marcial, Cícero e Horácio. Este último, ao propor a aurea mediocritas, expressão hoje viciada pelos significados pejorativos que as palavras ‘mediocridade’ e ‘medíocre’ receberam no português, exaltou a vida medíocre, que evitaria a humilhação da pobreza e a inveja causada pela ostentação da riqueza.

No português, dá-se algo semelhante. Que seria de um escritor que se submetesse friamente às prescrições gramaticais do período? Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Erico Verissimo e o próprio Machado de Assis teriam feito de tal submissão um rebaixamento da qualidade de seus escritos. No léxico como na sintaxe, os escritores mostraram-se muitas vezes insubordinados às normas vigentes com o fim de preservar a força de seus textos.

Além dos citados, também Jorge Amado é bom exemplo das lutas pelas indispensáveis alterações e modernizações de nossa língua portuguesa. O que seria de sua ficção se os coronéis e bacharéis que freqüentam os prostíbulos e lupanares baianos – nos romances, nos romances: não estamos entregando ninguém; aqueles bordéis, como certos vulcões, estão extintos – falassem como as prostitutas a quem amassam e bolinam?

Perdão, amassar e bolinar ainda não migraram da gíria para a norma culta, onde serão futuramente abençoadas e canonizadas, como já ocorreu à palavra ‘bacana’.

Precisamos escrever, então, que aqueles nobres senhores, ainda que libidinosos, não podem falar como as raparigas, sirigaitas e meretrizes com quem procuram contatos voluptuosos!

Antônio de Castro Lopes encontrou Machado de Assis no meio do caminho. O gramático propunha substituir abajur por lucivelo; anúncio por preconício; cachecol por castelete; claque por venaplauso; turista por ludâmbulo; repórter por alvissareiro, e futebol por ludopédio.

Os gramáticos, como o sapateiro de Apeles, não podem ir além das sandálias. À semelhança dos sexólogos, podem orientar-nos, jamais nos substituir.

E Machado acrescentou ainda: ‘Nunca comi croquettes, por mais que me digam que são boas, só por causa do nome francês. Tenho comido e comerei filet de boeuf, é certo, mas com restrição mental de estar comendo lombo de vaca’.

Croquette tornou-se croquete, masculino ou feminino, ao gosto do freguês. Filet de boeuf desdobrou-se em filé e em bife. Ninguém encontrará à venda lucivelos e casteletes. Se alguém pedir tais coisas nas lojas, será confundido com algum ludâmbulo grego que, por engano, embarcou (epa!) no avião que trouxe nossos atletas das Olimpíadas, onde o ludopédio feminino arrasou as adversárias gregas, conforme proclamam reclames e alvissareiros.

PS: frase de um técnico brasileiro em Atenas: ‘Dançamos, o bicho vai pegar’. O tradutor ficou em silêncio.’



JORNAL DA IMPRENÇA
Moacir Japiassu

‘A melhor notícia do ano!’, copyright Comunique-se, 26/8/04

‘Janistraquis soltou foguetes e foguetões, hasteou a bandeira do Brasil no alto da monumental cruz de malta erigida no sítio em 1989 e, juntos, bebemos, comemos à tripa forra e brevemente vamos inaugurar aqui um retrato do deputado Agnaldo Muniz. Toda essa farra para comemorar a notícia divulgada neste portal:

Jornalista sem diploma pode ter prisão especial

Edson Sardinha, de Brasília

Jornalistas que não possuem diploma de curso superior poderão receber tratamento diferenciado em caso de prisão, a exemplo do que já ocorre com os diplomados (…) O deputado Agnaldo Muniz (PPS-RO) quer alterar o Código de Processo Penal para incluir os jornalistas entre os cidadãos que serão recolhidos a quartéis ou a prisão especial, antes da condenação definitiva.

Depois dos justíssimos festejos, meu secretário desabafou:

‘Agora sim, considerado, agora sim! Finalmente vai acabar essa discriminação que garante vida mansa pros meninos formados e, pra nós, veteranos sem-diploma, as agruras da cana firme e do Conselho Federal de Jornalismo!!!’

Ainda bem. E o colunista espera que algum dia seja tão fácil sair da cadeia quanto entrar na faculdade.

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Galho dentro

Considerada leitora que se assina 100% Bela Vista enviou irado comentário a esta pacífica e até mofina coluna:

A FSP de hoje (25/8) traz na primeira página a foto do pódio do vôlei de praia feminino com a seguinte legenda: ‘Adriana Behar e Shelda, de azul, comemoram a prata; atrás delas, no alto do pódio, a dupla May e Walsh, dos EUA’.

Além de achar que o leitor não sabe distingüir o uniforme da equipe brasileira, que tem inclusive uma bandeirinha, a legenda é completamente inútil, pois as americanas também estão de azul.

Se quiser usar a colaboração, peço para não citar a fonte, pois não tenho o menor interesse em aparecer. Só me irrita a pretensão dos coleguinhas que editam a FSP, que se acham melhores que todo o mundo.

Meu secretário, que depois desse arranca-rabo entre Veja e Istoé resolveu não provocar nenhum ‘órgão de grande penetração’, manteve o galho dentro…

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Come-quieto

Aquele leitor oculto sob as iniciais L.M. ataca novamente e envia flagrante que encontrou escondidinho aqui:

No hotel Emiliano (SP), Leonardo Di Caprio comeu atum e Gisele Bündchen, filé mignon grelhado com queijo de cabra e anchovas. Detalhe: juntos, tomaram vinho chileno que custa R$ 142,00.

Janistraquis examinou o curioso site e exalou: ‘Considerado, a um homem discreto não interessa se Di Caprio (o qual, aqui pra nós, tem jeito de veadinho) comeu a Gisele com ou sem atum, pois isso é do gosto de cada qual e a gente respeita; o que me deixa impressionado é um vinho chileno custar cento e quarenta e dois reais!!!’

É mesmo um exagero. No natal passado, aqui no sítio, tomamos uma cidra de São Roque que custou um real e trinta.

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Triste sina

Chamadinha na capa do portal UOL:

David Beckham

Maior astro do futebol ocupa o lugar deixado pela princesa Diana

Janistraquis, que ali por aqueles lados do gramado prefere Ronaldinho Gaúcho, gostou: ‘Pois é, considerado; de fracasso em fracasso, Beckham vai acabar nos braços do príncipe Charles…’

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Atrapalhação

O considerado leitor J.S. Saldanha, de Porto Alegre, enviou recorte de Zero Hora há um tempão, porém Janistraquis, que anda mais atrapalhado do que o agora ministro Henrique Meirelles, esqueceu o envelope sob uma ruma de papéis. Somente hoje, após faxina profissional encomendada a terceiros, foi encontrado o dito cujo, com a notícia referente às tradicionais homenagens do 21 de abril.

Pois bem. Enforcadíssimo debaixo do título Causas e Conseqüências, texto-legenda dizia: ‘Na cerimônia de entrega do Espadachim de Tiradentes a 18 alunos oficiais do Curso Superior da Polícia Militar, o presidente da Assembléia Legislativa, Vieira da Cunha, atribuiu o aumento da violência e da criminalidade às dificuldades econômicas e à marginalização social (…) Vieira entregou o espadachim a uma das formandas…’.

Saldanha achou altamente esquisito o ‘Espadachim de Tiradentes’, pois do contrário não o teria enviado à coluna, porém não emitiu conceitos reveladores de sua perplexidade. Já meu secretário, este escancarou a bocarra: ‘Considerado, Tiradentes, como diz o nome, não era dentista? Então, que história é essa de espadachim? Se quisessem realmente homenagear o herói, que oferecessem um boticão ou, na pior das hipóteses, um pedaço de boa corda!’

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Roldão na Funai?!

Diretor de nossa sucursal no DF, de onde se pode ver os senadores Mercadante e Sarney a emendar os bigodes, o considerado Roldão Simas Filho lia o caderno fimdesemana, do politicamente correto Correio Braziliense, quando foi alvejado pela seguinte notícia:

‘O massacre (sic) do povo ianomâmi (foto) tem registro contundente. A câmera do fotógrafo Valdir Cruz imortalizou o descaso com a nação que é berço da formação do povo brasileiro (sic). Sob o aspecto de denúncia (sic), em cartaz no Conjunto Cultural da Caixa, Faces da floresta é exposição para ser observada com olhos de indignação. Sob o olhar humanitário, é documento da nobreza desses habitantes da mata.’

Mestre Roldão, que há muitas luas não tem mais paciência para jogar fora, considerou o textinho muito infeliz:

‘Esses índios vivem isolados e, ao que sabemos, não foram massacrados nem são a base do povo brasileiro, que é formada por brancos, portugueses em sua maioria; e negros, vindos como escravos da África, e também índios de outras tribos (e não ‘nações’), como os tupinambás, tamoios etc.

Na página 16 diz-se que 15% desses indígenas têm malária, doença da selva, transmitida por um mosquito. Esse é o flagelo que os afeta.’

Está coberto de razão o nosso diretor, que não é candidato à presidência da Funai.

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Medalha de ouro

Janistraquis, que não perde uma edição de Loucos Por Olimpíadas, da ESPN Brasil, recomendou: ‘Considerado, envie mensagem para Atenas e exija medalhas de ouro para Adriana Saldanha, Maurício Cardoso, Paulo Vinícius Coelho, Sílvio Lancellotti e Washington Olivetto; afinal, fazem a melhor mesa-redonda da TV nesses dias de competições’.

É verdade. Irmão gêmeo do excelente Loucos Por Futebol, também dirigido e apresentado por Adriana Saldanha, o programa reúne informação, inteligência e bom humor. Se qualquer integrante dessa equipe de craques fosse abandonado à deriva no Mar Egeu, faria bem melhor do que esse, com perdão da palavra, Bimba, principalmente o Lancellotti, a criatura mais talentosa que este colunista já conheceu.

Lança é arquiteto competente, escritor, chef de cuisine, jornalista de altíssimo nível, especialista em futebol e esportes olímpicos, além de crítico de ópera e MPB. Também diagrama com muito engenho, fala uma dúzia de idiomas e torce desesperadamente pelo Corinthians.

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Qual é o jogo?

Considerado leitor que se assina JM ou JP, leu no Estadão:

Paraguai vence por vítimas de incêndio

Atenas – O Paraguai sofreu mas venceu o Japão em sua estréia nos Jogos Olímpicos de Atenas: 4 a 3. O resultado foi considerado ótimo pelo técnico da equipe, Carlos Jara.

‘Nós complicamos um pouco no final, mas para uma estréia está ótimo’, considerou. ‘Creio que demos um grande passo rumo à classificação.’

O treinador e os jogadores dedicaram a vitória às vítimas do incêndio no supermercado de Assunción, capital do Paraguai. Mais de 450 pessoas morreram, na ocasião.

Janistraquis concorda com você, JP ou JM: ‘A notícia está plena daquele indispensável espírito olímpico que sempre deve prevalecer; agora, que seria bom a gente saber qual foi a modalidade esportiva na qual o Paraguai surrou o Japão, isso seria…’

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Nota dez

O mais ‘descolado’ texto da semana saiu na 166ª edição de Caros Amigos e nasceu do talento bem lavrado de Cláudio Júlio Tognoli:

‘(…)Ok, dirão, Michael Moore é o fiel da balança. Mas não passa de um duplo.

A vitória dos democratas matará Michael Moore. Da mesma forma que o fim

da censura e a morte dos milicos no poder mataram Chico Buarque e suas metáforas ladinas, enviesadas.

O duplo foi lançado em 1796 por Jean-Paul Richter, sob a designação alemã de doppelganger, que pode ser traduzido como ‘aquele que tenho de lado’ ou ainda ‘companheiro de estrada’. Virou moda, em literatura: mas já estava no Plauto de Os menecmas (206 A.C.), no Shakespeare de Comédia de erros (1592), e veio para o Retrato de Dorian Gray, de Wilde (1891), e para o conto O outro,de Jorge Luís Borges, 1975(…)’

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Errei, sim!

‘POSTES VS. AIDS – Título, digamos, priápico, do jornal gaúcho Zero Hora: Camisinhas em postes previnem contra a Aids. Intrigado, o leitor Paulo Hebmüller escreveu a esta coluna: ‘Sempre pensei que a camisinha tinha que ser colocada em outro lugar…’. Num país tão despreparado, Paulo, é sempre difícil saber o que fazer com uma camisinha. Um jornalista amigo de Janistraquis, por exemplo, engoliu duas!’’

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