Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ENTRE ASPAS >

Julio Borges

17/08/2004 na edição 290

‘Por curiosidade ou por obrigação de ofício, leio agora os escrevinhadores de internet editados em livro. Não sei se é uma moda ou se um verdadeiro filão, mas as editoras estão lançando coletâneas de textos publicados no ciberespaço, ou então obras autônomas de escritores eletrônicos. Das últimas, não li praticamente nenhuma, embora algumas tenham me caído nas mãos. Exceção feita a O Cabotino, de Paulo Polzonoff Jr. (que já era jornalista antes de adentrar na WEB), e Morte e Vida Celestina, de Alexandre Soares Silva (que, por sua vez, já era escritor). Não li, por exemplo, Corpo Presente, de João Paulo Cuenca, nem Depois Que Acabou, de Daniela Abade. Talvez devesse…

O que me interessa aqui, no entanto, é o primeiro caso: o das edições montadas a partir do que se publicou na World Wide Web em tempos pretéritos.

Pessoalmente, achava uma ‘enganação’ (à la Luiz Schwarcz) reeditar, em papel, o que já estava disponível na internet (de graça) – ou seja: envolver entre duas capas e uma lombada (e cobrar). Mas hoje enxergo de outra forma:

o livro confere nova perspectiva mesmo a garranchos eletrônicos, e estes podem ser analisados longe da luz intermitente dos monitores. Claro que as casas editoriais não têm poderes de Midas sobre os autores, e o que não prestava antes não passa a prestar só por causa da chancela de alguma editora. Permite, ainda assim, que se tire algumas conclusões a respeito dos escrevinhadores.

Todos, de direita ou de esquerda, são ‘contra o sistema’ ou, abusando um pouco do termo, contra o status quo. Cony já disse que parou de escrever ‘quando a vida estava boa’, e os angry young men da WEB seguem a receita igual: adotam a escrita como forma de protesto (nada a ver, porém, com as ‘canções de protesto’ dos anos 60). Vide, por exemplo, o blog mais popular dos primeiros tempos da internet, o Catarro Verde, e vide também o Mundo Perfeito. São demonstrações eloqüentes daquilo que os outros autores da WWW compartilham maior ou menor grau: um desacordo com a realidade que aí está – e um desejo manifesto de transformá-la. Ah, os jovens!

A internet, nesse sentido, funciona como uma caixa de ressonância das frustrações, dos contratempos e das chateações que esses escritores internautas enfrentam na vida real. Por isso, os blogs transformaram-se em verdadeiros confessionários e enojam tantas pessoas que não querem saber das intimidades ali publicadas. Mas, lógico, muitos conseguem sofisticar essa ‘inquietação’ com o mundo atual, convertendo suas empresas em alternativas ao pensamento expresso na grande mídia. Esses, infelizmente, são poucos.

Ocorre que os escritores espontâneos, nascidos quase que por brotamento, geralmente não dominam os formatos básicos. Alternam, sem critério, o diário adolescente com a reflexão pseudofilosófica, o descalabro das flame wars com o insight cômico, o amadorismo indisfarçável com o jornalismo de iniciante.

Ao contrário daqueles que adotaram a escrita como profissão, os escritores internautas raramente tiveram orientação (e muitas vezes se rebelaram quando esta ameaçava se concretizar). Poucos, pouquíssimos desenvolveram um método próprio (e deveriam ser lembrados toda vez que se discutem as ‘novas linguagens’ do mundo virtual – mas, nem sempre, são). O fato é que a maioria não sabe diferenciar uma nota de um artigo, uma crônica de um ensaio.

Muitos, aliás, ‘não dão a mínima’…

Acontece que essas formas não foram inventadas à toa. Então, quando zapeamos (verbo que está na moda agora) os livros desse pessoal, percebemos que eles estão sempre começando de novo. A cada dia, uma nova história. Porque não adianta teimar: você não desenvolve um raciocínio com uma frase hoje, outra amanhã, outra depois de amanhã. Quem escreve há muito tempo sabe, e quem escreve há pouco tempo não vai, obviamente, concordar. A escrita caótica e aleatória funciona para bem poucos escritores – e quem a adota sabe que a sensação, mesmo depois de dezenas de páginas, é de não ter construído nada.

Sem trabalho sistemático, não há evolução. Mas talvez seja um problema da própria internet e dos próprios blogs: na urgência de ‘postar’ logo alguma coisa, idéias são abortadas e nunca voltam a ser retrabalhadas. Na pressa de causar impacto, as opiniões saem levianas e um ponto de vista original – que daria um belo texto, se fosse fundamentado – fica confinado àquele instante e àquelas palavras impensadas…

Essas constatações, evidentemente, passam pela pergunta crucial ao ler as antologias atuais: ‘O que querem os escritores internautas?’ Sexo, drogas e rock’n’-roll? Talvez. Gerar polêmica parece, também, uma boa opção – principalmente para aqueles que têm algum talento publicitário, como Sergio Faria. Já jornalismo e, sobretudo, literatura são outros quinhentos. Um jornal ou revista pode até chamar um blogueiro para fazer graça a seus leitores de vez em quando, mas jornalismo de verdade requer outro tipo de maturidade. É preciso trabalhar com editores. Literatura é ainda mais complicado. Talvez os escrevinhadores da internet, que não se agüentam para fazer comentários, nunca alcancem o tempo da criação literária. Um tempo quase parado. O tempo dos poetas.

Ninguém discute que há dezenas de talentos in vitro, orbitando no ciberespaço. Gritando, às vezes diariamente, para que o resto do planeta os ouça. Mas talento, só, não basta. Encaixar algumas palavras, encaixar algumas frases e até encaixar alguns parágrafos – numa época em que a leitura parecia morta – é inegavelmente louvável. Mas não basta. Pode ser que esses escritores internautas sejam apenas o appetizer para uma geração que ainda virá. Uma geração formada pela literatura, e não pela televisão; uma geração menos imediatista e mais preocupada com o efeito a longo prazo; uma geração que retome uma tradição perdida lá atrás e não fique apenas deslumbrada com as ferramentas da WWW.’



TV VIANINHA
Luiz Carlos Merten

‘Renasce a televisão utópica de Oduvaldo Vianna Filho’, copyright O Estado de S. Paulo, 14/8/04

‘Homem de teatro, cinema e televisão, Oduvaldo Vianna Filho viveu com intensidade. Dele se pode dizer que, como Glauber Rocha, se consumiu no fogo da própria paixão e criatividade. Glauber morreu em 1981, aos 42 anos.

Vianinha, em 1974, aos 38 anos. E ambos foram revolucionários. Glauber queria mudar o mundo começando por mudar o cinema. Vianinha também queria a mudança, mas não abria mão da comunicabilidade. Teve suas incursões pelo cinema, mas foi na TV, um veículo de comunicação de massa, que tratou como tal, e no teatro que deixou sua marca.

Começa terça-feira no Centro Cultural São Paulo uma programação que vai lembrar a contribuição televisiva de Oduvaldo Vianna Filho. Seria bom se, além da televisão, o ciclo que destaca o Vianinha audiovisual mostrasse também seus filmes – ou seu grande filme, Um Homem sem Importância, que Alberto Salvá escreveu, dirigiu e montou em 1971, três anos antes da morte prematura do ator. Ele divide a cena com Glauce Rocha, vivendo os conflitos – à flor da pele – de Flávio, um desempregado crônico que, quando o filme começa, está brigando com o pai, um rude mecânico que não entende a inquietação do filho e acha que ele é só um vagabundo.

O personagem do homem sem importância, que Vianinha expressou no filme de Salvá, ocupa o centro da produção televisiva do autor e pode-se dizer que anima também sua produção teatral. Chama-se, significativamente, Utopia Televisiva – O Projeto de Vianinha a programação que o CCSP promove agora, no marco do 30.º aniversário da morte do artista. Ela vai exibir dez títulos, entre especiais e episódios de A Grande Família. São produções de 1972, 73, 74 e 1988 e 2001. Vianinha tinha morrido havia muitos anos quando a Globo fez as novas versões de seus antigos textos. O procedimento foi o mesmo quando a emissora resolveu fazer o remake de A Grande Família. A Globo usou, no começo, episódios de Vianinha, mas depois permaneceu só o espírito.

Os episódios atuais de A Grande Família levam a assinatura de outros autores.

Mirandolina, de Goldoni, com Dorinha Duval; A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, com Glória Menezes; Medéia, a de Eurípides, com Fernanda Montenegro. Noites Brancas, de Dostoievski, com Francisco Cuoco. Os Casos Especiais não privilegiam só grandes autores ou grandes obras, adaptados de forma a ressaltar sua atualidade. Há os casos especiais surgidos da imaginação do próprio Vianinha, que não são nem um pouco inferiores aos outros e são mais conformes à sua preocupação pelo personagem do homem comum – Enquanto a Cegonha não Vem, Turma Doce Turma e os dois que ganharam novas versões – O Matador e O Morto do Encantado Morre e Pede Passagem, que ressuscitou no Brava Gente Brasileira. Os dois episódios de A Grande Família são Insista no Dentista e Meu Marido me Trata como se Eu Fosse Uma Geladeira.

No texto de apresentação do ciclo, o curador Reinaldo Cardenuto Filho, do Núcleo de Cinema e Vídeo do CCSP, lembra que quando Vianinha entrou para a TV Tupi, em 1969, já acumulava experiência como autor e intérprete teatral.

Havia participado do Teatro de Arena, do Centro Popular de Cultura, o CPC da UNE (União Nacional dos Estudantes) e do Grupo Opinião. Foi, escreve Cardenuto Filho, ‘um dos principais formuladores da moderna dramaturgia brasileira e um dos mais ativos lutadores da resistência cultural, durante os primeiros anos da ditadura militar’.

Foram as dificuldades econômicas que o levaram à TV, mas Vianinha logo percebeu o potencial do veículo que se firmava no País. ‘Uma peça de teatro não escrevo para dizer o que sei, mas para descobrir coisas. É um processo de pesquisa, de investigação’, dizia. ‘Na televisão, transmito coisas, reafirmo valores conquistados. Com os dois, o teatro e a TV, me gratifico.’

Osmar Prado, que fazia Júnior na primeira versão de A Grande Família, diz que o legado de Vianinha está no vigor ético e na paixão com que ele abraçou as causas libertárias de seu tempo. ‘Vianinha é um autor que tem o que nos dizer e ensinar até hoje’, afirma.’



SENHORA DO DESTINO
Leila Reis

‘Ela representa boa parcela do público’, copyright O Estado de S. Paulo, 13/8/04

‘Depois de dois anos desaparecida, Adriana Lessa volta ao vídeo em dose dupla: como a sofrida Rita de Senhora do Destino e como Naná, na reprise de Terra Nostra. Atriz, cantora e bailarina, Adriana está dando um show como a mulher pobre que se submete à violência do marido bandido e mãe de uma adolescente problemática.

Estado – Toda mulher de malandro gosta de apanhar?

Adriana Lessa – Não, mas existem algumas que mesmo não sendo mulher de malandro gostam. A violência doméstica é realidade em muitos lares, especialmente nos de baixa renda. As mulheres têm medo de serem mortas, de ficar sem os filhos. Quando eu já havia começado a gravar a novela fui à Rocinha pesquisar. Conversei até com mulher de traficante, mas não encontrei nenhuma que apanhasse do marido. No aeroporto do Rio, uma mulher, de classe média me disse que vivia o mesmo problema da Rita, com lágrimas nos olhos.

Estado – Por que lugar de negro em novela é quase sempre na cozinha?

Adriana – Porque havia, até pouco tempo, o medo do negro fazer tão bem em outros lugares as coisas maravilhosas que faz na cozinha. Na publicidade, achava-se que negro não consumia. Quando viram que estavam no prejuízo – os negros usam sabonete, roupas, etc. – começaram a fazer propaganda para esse público. Por isso acho que o preconceito hoje é mais financeiro do que racial. Já vivi isso há uns quatro anos. Cheguei a um set de filmagens com a roupa da personagem e as pessoas nem falavam comigo. Um assistente de produção perguntou o que eu estava fazendo ali e me colocou para fora. O diretor, Ricardo Van Steen, viu e foi me buscar.

Estado – Você não acha que juntar um português e uma negra remete ao Brasil escravocrata?

Adriana – É a cabeça dos brasileiros. Nuno Melo (que interpreta o português Constantino) não entende quando as pessoas dizem para ele tratar bem Rita porque ela é uma mulher digna e que não deve ser olhada como objeto. No inconsciente coletivo o único atrativo que portugueses vêem na negra é o sexual.

Estado – Aguinaldo Silva não reforça o preconceito ao lançar mão do estereótipo?

Adriana – Não, porque durante a trama vão aparecer as verdadeiras intenções do Constantino.

Estado – Que público sua personagem representa?

Adriana – As pessoas de baixa renda, a mulher que sofre violência, a mãe que cria uma filha sozinha. Como artista, estou tendo a chance de representar um público que quase não se vê na TV.

Estado – Qual é sua expectativa em relação à Rita?

Adriana – Torço para ela mostrar mais força, mudar sua vida e tornar-se senhora do seu destino.

Estado – Você estreou como VJ na MTV. Acha que foi escolhida quando surgia a consciência de que o negro precisava se ver melhor representado?

Adriana – Nada disso, participei de um processo de seleção com quase 4 mil candidatos. Entramos eu e o Cazé, trabalhei sete meses. Depois trabalhei na Band, no Supermarket.

Estado – Qual é o seu sonho no terreno da TV?

Adriana – Ter respeito e continuidade. Depois do Clone fiquei desempregada dois anos.

Estado – E o que fez?

Adriana – Criei meu site, fiz contatos no exterior. Fui a única brasileira a participar do musical Folies Bergère, em Las Vegas e me apresentei em Angola – as novelas que fiz foram exibidas lá.

Estado – Você é bem paga?

Adriana – Ganho menos do que mereço e mais do que necessito.’

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