Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > ANCINAV EM DEBATE

Laura Mattos

30/11/2004 na edição 305

‘As TVs abertas conseguiram: o novo texto da Ancinav (Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual), que deverá ser divulgado nesta semana, não mais as obriga a firmar anualmente um compromisso público, intermediado pelo governo federal, de exibir programas e filmes nacionais de produtoras independentes.

O artigo, derrubado pelas redes, constava do projeto de lei de criação da Ancinav negociada com o setor e colocada em consulta pública. A intenção do Ministério da Cultura, no qual a agência é desenvolvida, era fazer com que as emissoras abrissem espaço para produções de fora, a fim de ‘oxigenar’ a programação e fomentar o mercado audiovisual do país. No Brasil, as TVs produzem praticamente tudo o que levam ao ar, diferentemente do que ocorre nos EUA e em países da Europa.

Até o ano passado, as redes norte-americanas eram obrigadas por lei a produzir apenas 30% da programação e comprar o restante de outras empresas (a regra foi flexibilizada em 2003). Com isso, passaram a concentrar esforços no jornalismo. As famosas séries e ‘reality shows’ costumam ser fornecidos às TVs por produtoras.

Apesar de uma recente abertura brasileira a independentes, acelerada pela crise financeira na TV, os exemplos ainda são raros, como a série ‘Cidade dos Homens’, desenvolvida para a Globo pela O2, do cineasta Fernando Meirelles (‘Cidade de Deus’), o seriado ‘Turma do Gueto’ e a novela ‘Metamorphoses’, comprados pela Record da Casablanca.

Marco Altberg, presidente da Associação Brasileira de Produtoras Independentes de TV, diz que o espaço às produtoras ainda é ‘irrisório’. ‘A TV aberta é fechada. Independentemente de lei, iremos nos reunir com as redes para mostrar os benefícios dessa parceria, que pode tornar os custos mais baixos dos que a produção interna’, diz ele, que é favorável à Ancinav e a uma lei que obrigue as TVs a abrir a programação.

Orlando Senna, secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, critica o fato de a relação entre as TVs abertas comercias e as produtoras independentes ser ‘mínima’. ‘As redes deveriam perceber que têm um compromisso social. Mais espaço à produção independente poderia trazer oxigenação dos conteúdos, melhoria de qualidade e maior chance de representação da variedade da sociedade brasileira.’

Obrigatório x opcional

Em troca do compromisso público previsto na minuta anterior da Ancinav, a nova trará desconto progressivo da Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica) para os canais que exibirem independentes em mais de 20% da programação. O que antes tinha caráter de obrigatoriedade, passou a ser opcional: quem comprar programa paga menos taxa pelos feitos ‘em casa’; quem não comprar arca com o imposto integral.

O valor da taxa deverá ser de R$ 700 por obra. Uma novela, por exemplo, tem em torno de 200 capítulos. Se a Globo continuar produzindo quase tudo o que veicula, gastará perto de R$ 140 mil por uma trama inteira. Dois dados relevantes para avaliar quanto isso representaria para a emissora: cada capítulo tem um custo aproximado de R$ 200 mil e um único merchandising na trama das oito chega a render R$ 400 mil.

Lobby

O MinC deve divulgar o texto da Ancinav amanhã ou terça no www.cultura.org.br. O documento será discutido no dia 9 pelo Conselho Superior de Cinema, formado por nove ministérios (entre eles Casa Civil, Cultura e Fazenda) e representantes do setor. Em seguida, passará por apreciação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e será encaminhado ao Congresso. Apesar da mudança em relação à produção independente, entre outras alterações, as TVs não estão satisfeitas com os termos e planejam tentar convencer deputados a derrubá-los.

Na semana passada, a Abert (associação de emissoras brasileiras) e outras entidades da indústria cinematográfica lançaram o Fórum pelo Desenvolvimento do Audiovisual e do Cinema (FAC), contrário à Ancinav. Coordenador-geral, o cineasta Roberto Farias, que nega que o FAC tenha sido criado em razão da agência, critica a tentativa de impor às TVs uma abertura à produção independente.

Diretor da TV Globo, ele afirmou à Folha que ‘a demanda por conteúdo audiovisual é crescente no mundo, e a tendência é que as TVs busquem parcerias’. ‘Não achamos necessário criar uma obrigatoriedade.’ Ele disse que o espaço aberto pelas redes brasileiras ainda é ‘insipiente, mas deverá crescer, principalmente com a chegada da TV digital [que pode ampliar o número de canais]’.

A Abert, que das grandes redes representa a Globo, concorda. ‘A sociedade brasileira aprendeu o que é ser livre. Não serão regras feitas em gabinetes por alienígenas ao setor que vão resolver alguma coisa. Nosso modelo é o da livre iniciativa, que oferece espaço a quem tem condição de produzir com qualidade, numa melhor relação custo/benefício’, disse José Pizani, presidente da associação.

Record, Band e SBT e Rede TV! têm posição semelhante, apesar de a Abra, associação que as representa, não ter se pronunciado sobre o assunto. Presidente da Band e da entidade, Johnny Saad declarou, em entrevista publicada pela Folha na semana passada, que a Ancinav ‘é ruim e feia’.’

***

‘‘Cidade de Deus’ cria brecha na Globo’, copyright Folha de S. Paulo, 28/11/04

‘Maior produtora de conteúdo televisivo do país e uma das principais do mundo, a Globo precisou de um ‘embrião de candidato ao Oscar’ para realmente acreditar na produção independente.

A principal brecha na programação global recente foi aberta pelo cineasta Fernando Meirelles, em 2000, com ‘Palace 2’, parte do especial ‘Brava Gente Brasileira’. Desenvolvido por sua produtora, a O2, foi uma espécie de teste para a filmagem, no ano seguinte, de ‘Cidade de Deus’, que rendeu ao Brasil quatro indicações ao Oscar.

O acordo entre Meirelles e a Globo chegou à série ‘Cidade dos Homens’, que neste ano teve a terceira temporada, dirigida por Paulo Morelli, sócio da O2.

Maior produtora de filmes publicitários do país, é uma espécie de continuação da Olhar Eletrônico (O2 é ‘olhar 2’). Lançada por estudantes da USP em 83, criou para a TV Ernesto Varela, interpretado por Marcelo Tas. Meirelles dirigiu o quadro e foi seu cameraman, que se transformou no personagem (oculto) Valdeci.

À época, diz Morelli, a TV não se mostrava pronta para absorver produções independentes. Por essa razão, ele e Meirelles criaram, em 91, a O2, focada em publicidade. Em 97, teve início a produção de curtas, e Andrea Barata Ribeiro entrou para a sociedade.

A O2 produziu quatro longas: ‘O Preço da Paz’, ‘Viva Voz’ (Morelli), ‘Domésticas’ e ‘Cidade de Deus’ (Meirelles), que ampliou sua penetração internacional. A empresa, que tem estúdios numa área de 14 mil metros quadrados, em Cotia (Grande SP), não divulga seu faturamento.

Afirma que 85% provém da publicidade e 15% da TV e cinema. ‘Acreditamos que o jeito atual de fazer comercial tende a desaparecer, e o próximo passo do negócio está ligado à produção de conteúdo. Nosso investimento nisso é estratégico’, diz Morelli.’

***

‘Abertura ainda é restrita a poucos’, copyright Folha de S. Paulo, 28/11/04

‘A parceria entre TVs abertas comerciais e produtoras independentes é considerada estratégica e avaliada como uma tendência por ambos os lados. As redes começam a se abrir, mas o espaço ainda é restrito a um pequeno grupo.

Dentre as principais produtoras do país, que começam a conquistar as brechas da programação, estão (leia ao lado): Casablanca (‘Metamorphoses’/Record), O2 (‘Cidade dos Homens’/Globo), GGP ou Gugu Produções (‘Raízes do Campo’/Record) e Conspiração (negociação para duas séries). Do grupo, só a O2 se diz favorável à idéia de que as TVs tenham de reservar espaço a independentes. ‘Não sei se apóio os termos como isso está colocado na Ancinav, porque não vi como está escrito, mas apóio a idéia’, afirmou Paulo Morelli, sócio da produtora e diretor de ‘Cidade dos Homens’.

A de Gugu, que planeja ter sua própria TV, é contra a obrigatoriedade. ‘Qualidade não se impõe’, disse Homero Salles, gerente da GGP. Para Patrick Siaretta, da Casablanca, ‘obrigar é contraproducente. ‘As TVs perceberão que a produção independente é eficiente.’ ‘A princípio, não considero a obrigatoriedade um mecanismo eficiente’, disse Leonardo Monteiro de Barros, diretor de marketing da Conspiração. (Colaborou Luiz Fernando Vianna, da Sucursal do Rio)’

***

‘Gugu tem estrutura para criar canal’, copyright Folha de S. Paulo, 28/11/04

Fsp, 28

‘Em seu primeiro ano de funcionamento, a GGP, ou Gugu Produções, fechará o ano com faturamento de R$ 4,5 milhões. A construção da sede da produtora de Gugu Liberato, em Alphaville (Grande SP), levou dois anos e teve um custo total de R$ 11 milhões. Só em equipamento foram investidos R$ 2 milhões.

Gugu, que briga na Justiça para reconquistar um canal que comprou no Mato Grosso, recebeu a Folha para mostrar as instalações. Ele nega que seja embrião de uma futura emissora (a programação, por lei, tem de ser gerada no MS), mas afirma que poderá produzir no local programas para sua TV.

Com 90 funcionários, a sede tem estúdios amplos, auditório e camarins. É uma estrutura maior do que a de algumas redes.

Gugu adquiriu um caminhão com estúdio móvel avaliado em US$ 1,5 milhão, antes usado no ‘Sai de Baixo’ (Globo). Produz atualmente para a Record o ‘Raízes do Campo’ e o ‘SBT Rural’, com audiências satisfatórias para os canais. E comprou textos do autor Geraldo Vietri a fim de produzir novelas, séries e teleteatros. ‘Quando comecei a trabalhar com Silvio Santos, antes do SBT, ele fazia seu programa de forma independente. No longo prazo, as TVs brasileiras devem se concentrar na produção de jornalismo e comprar o restante’, diz.’

***

‘Casablanca planeja ‘reality show’’, copyright Folha de S. Paulo, 28/11/04

Fsp, 28

‘No mercado cinematográfico brasileiro desde os anos 60, a família Siaretta, proprietária da Casablanca/Teleimage, conquistou no ano passado um faturamento de US$ 18 milhões e prevê um crescimento de 25% para 2004.

Principal finalizadora de comerciais do país, a empresa tem investido no cinema nacional e vê a produção para a televisão como o grande negócio do futuro.

Até agora, teve duas experiências, ambas com a Record: a bem-sucedida série ‘Turma do Gueto’, exibida com boa audiência por dois anos, e a novela ‘Metamorphoses’, fracasso no Ibope, com final antecipado pela emissora.

Apesar disso, Patrick Siaretta, sócio do grupo, diz acreditar que a exibição da trama tenha sido ‘positiva para mostrar a qualidade técnica da empresa’. E se prepara para novas parcerias com emissoras abertas, inclusive com a Record. Nos planos, estão um ‘reality show’ e outra novela.

Para ele, o fato de as redes abertas produzirem tudo o que veiculam ‘é uma deturpação, que só existe no Brasil’. ‘Com a crise enfrentada pelas TVs, inclusive pela Globo, é inevitável que esse esquema mude, e aí a produção independente irá deslanchar. As produtoras têm formas de operar mais flexíveis e estruturas mais enxutas que os canais, o que certamente reduz os custos.’’



Luiz Fernando Vianna

‘Conspiração mira emissoras abertas’, copyright Folha de S. Paulo, 28/11/04

‘Consolidada nos ramos de publicidade e cinema, a Conspiração Filmes planeja adentrar em 2005 o mercado das TVs abertas. A produtora carioca tem prontos dois projetos a serem apresentados às emissoras: uma ‘sitcom’ (comédia de situação) e uma série. A idéia não é comprar horários nas grades de programação.

‘Queremos uma parceria com o canal. Como será essa parceria é a negociação quem vai determinar’, diz o diretor de marketing e distribuição da Conspiração, Leonardo Monteiro de Barros.

Em 2002, a produtora conversou com a TV Globo sobre uma possível parceria, mas não se chegou a um ‘entendimento contratual’, segundo Barros. De lá para cá, a Conspiração cedeu dois diretores (Claudio Torres e Carolina Jabor) para realizar programas na emissora e fez longas-metragens com apoio da Globo Filmes.

Tendo dois formatos possíveis (13 ou 26 episódios), os projetos já concluídos são os primeiros frutos do núcleo de desenvolvimento que a empresa criou em 2003. O objetivo é produzir para cinema e TV. Por sugestão do núcleo, a Conspiração comprou os direitos de ‘Pluft, o Fantasminha’, de Maria Clara Machado, ‘O Canto da Sereia’, de Nelson Motta, e ‘Eu e Meu Guarda-Chuva’, de Branco Mello e Hugo Possolo.

Na TV paga, a estréia da produtora já está certa para o último trimestre de 2005, com a exibição na HBO dos oito capítulos de ‘Mandrake’, série baseada no personagem de Rubem Fonseca. ‘O financiamento é 100% da HBO, mas a maior parte do copyright é nosso, já que entramos com toda a criação e realização. É uma co-produção de fato’, diz Barros.

Ele ainda não sabe prever se o mesmo seria possível numa emissora aberta. ‘A TV aberta sempre foi fechada no Brasil. Só exibia produções próprias. Isso está mudando’, afirma.’

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem