Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

ENTRE ASPAS > MEMÓRIA / SUSAN SONTAG

Luciano Trigo

04/01/2005 na edição 310

‘Susan Sontag seguramente será lembrada como ‘a consciência crítica da América’, como intelectual independente e engajada, como crítica severa dos reacionarismos de direita e esquerda.

Tudo isso é verdade. A ensaísta e romancista americana tinha uma característica cada vez mais rara entre os intelectuais sérios: o gosto pela polêmica, que a levou a meter o bedelho em debates que mobilizaram a opinião pública nas últimas quatro décadas.

Ela deu opiniões controversas sobre assuntos tão diferentes quanto a estética fascista, a Aids e a literatura pornográfica. Esteve na Guerra do Vietnã, como correspondente, e décadas mais tarde nos Bálcãs, promovendo uma encenação de ‘Esperando Godot’ na Sarajevo em ruínas. Atacou a forma como a mídia de seu país tratou os atentados de 11 de Setembro e, filha de judeus, criticou a ocupação israelense dos territórios palestinos.

Sontag foi também uma espécie de embaixadora informal da cultura européia na atmosfera intelectual rarefeita dos Estados Unidos, transitando entre o jornalismo e o ensaio, com sucesso variado. Como tal, ela teve um papel de destaque sobretudo nos anos 60 e 70, quando, tirando partido da alienação e desinformação gerais do americano médio sobre o Velho Mundo, escreveu ensaios que apresentavam Walter Benjamin, Elias Canetti, E.M. Cioran, Roland Barthes e Jean-Luc Godard, então ‘novidades’ na América.

Integrando o público americano ao debate sobre a modernidade literária, estética e cinematográfica, ela acabou provocando reações no próprio mercado europeu das idéias. Sempre atenta a tesouros ignorados em seu país, ela também escreveu um ensaio sobre Machado de Assis, que repercutiu mais aqui do que lá.

Livros como ‘A Vontade Radical’ e ‘Contra a Interpretação’ reuniram textos que teorizavam sobre a cultura cotidiana (como ‘Notas sobre o Camp’) e abordavam temas como as minorias e a sexualidade num estilo original e ousado. Mas, em sua maioria, são peças datadas, muito presas a uma atitude contestatória e a uma percepção de mundo que a história tratou de esmagar.

Menos efêmeros foram seus ensaios sobre o câncer, do qual ela própria foi vítima (‘A Doença como Metáfora’) e sobre fotografia (‘Ensaio sobre a Fotografia’), tema ao qual voltou num texto recente sobre a percepção do horror e a fotografia de guerra (‘Olhando a Dor Alheia’) -no qual analisa o consumo da violência e das atrocidades de um conflito armado como mero espetáculo, que não provoca a cumplicidade do espectador.

Talvez seja esta a característica mais importante da obra de Sontag: exigir que o leitor tome partido, lutando assim contra o processo, orquestrado ou não, de emburrecimento e infantilização do ser humano. Cobrou de Gabriel García Márquez que se manifestasse sobre as execuções em Cuba e classificou de besteira o discurso de Bush de ‘bem contra o mal’. Numa de suas últimas aparições públicas, em Frankfurt, no ano passado, quando recebeu o Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão, ela aproveitou a ocasião para atacar, previsivelmente, a política do presidente Bush.

Bonita, ambiguamente homossexual e duplamente vaidosa, como intelectual e como mulher, de certa forma Susan Sontag acabou se transformando numa autora prêt-à-porter para aquela fatia do público sempre ávida por uma voz inteligente que critique o establishment. Quando esteve no Rio e fez uma palestra na Biblioteca Nacional, em 2002, foi consumida pela platéia como mais um produto da cultura do espetáculo e da celebridade: a encarnação da ‘mulher inteligente’, que não hesitou em bater boca com um convidado ao se sentir contestada, nem em conquistar aplausos fáceis ao criticar a reserva de lugares no auditório, enquanto do lado de fora centenas de pessoas se espremiam na fila para cultuá-la.

Hoje quem vem ocupando esse espaço de porta-voz do inconformismo é o gorducho cineasta Michael Moore. Eu preferia Susan Sontag, mais sutil e elegante. Cada época tem a contracultura que merece. Luciano Trigo é jornalista e escritor’



Nelson Ascher

‘Autora vivia entre ativismo e literatura’, copyright Folha de S. Paulo, 29/12/04

‘Susan Sontag, cujo melhor livro de ensaios se chama ‘Sob o Signo de Saturno’, morreu, aos 71 anos, sob o signo da infâmia. Se tal infâmia não faz justiça a seu trabalho sério, tampouco se pode dizer que tenha sido imerecida. Afinal, menos de uma semana após os ataques de 11 de setembro de 2001, quando o que restara de 3.000 de seus concidadãos nem tinha começado a esfriar, ela achou de bom tom, num artigo algo vago, ambíguo e, sobretudo, oblíquo publicado pela ‘New Yorker’, condenar não tanto os fanáticos religiosos que perpetraram o massacre, quanto a política externa de seu país. E, sem se importar muito com os sentimentos dos parentes e amigos das vítimas, preferiu ademais defender a reputação dos assassinos da acusação, que lhe parecia injusta, de ‘covardes’.

Houve quem, naqueles dias, assumisse posições piores, mas dessas mentes meio robóticas, meio pavlovianas, ninguém esperava nada diferente. Talvez seja pelos méritos que a escritora acumulou ao longo da carreira que sua reação chocou um público maior e várias vozes da blogosfera instituíram logo um ‘prêmio Susan Sontag’ que vem, desde então, sendo simbolicamente ‘conferido’ aos norte-americanos mais dispostos a atribuir a seu governo e/ou compatriotas todos os males que afligem o planeta.

Tal ‘faux pas’ político, porém (nem sequer seu primeiro), não lhe desmerece a trajetória, uma trajetória rica, variada e igualmente cheia de altos e baixos. Se, durante a Guerra do Vietnã, ela visitou Hanói para manifestar sua solidariedade à ditadura local, ela se esqueceu de usar sua influência para interceder depois, junto ao governo norte-vietnamita, em prol dos milhões de prisioneiros políticos e refugiados que a vitória deste criou. Por outro lado, seu ativismo nos anos da Guerra da Bósnia pesou na decisão americana de, contrapondo-se à indiferença e irresponsabilidade européias, intervir para interromper a carnificina. (Vale a pena observar que seu filho, o ensaísta David Rieff, desempenhou um papel igualmente honrado nessa causa.)

A lógica da fama tornou inevitável que Sontag se destacasse antes como ativista do que como autora. Infelizmente, seu ativismo é o que ela possuía de menos pessoal. Suas posições políticas, que derivavam não de um pensamento profundo, mas do espírito de rebanho que caracteriza o grosso da intelectualidade contemporânea, congelaram-se na década de 60 e foram sempre tão convencionais quanto possível. O que ela tinha a dizer era apenas uma versão mimeografada e morna do catecismo da ‘Nova Esquerda’ (New Left) que, por sua vez, não passava de uma repetição degradada da vulgata esquerdista dos anos 20/ 30.

Embora, proporcionalmente, o impacto de seus escritos especializados tenha sido menor, estes são sem dúvida mais duráveis. Sontag, ao que tudo indica, ambicionava se consagrar como ficcionista. No entanto, é como leitora que seu nome vai perdurar. Como leitora ativa, bem entendido, ou seja, como crítica literária. Esta, como se sabe, quase nunca é uma carreira glamourosa e, para uma mulher cuja beleza rivalizava com sua inteligência, não deve ter sido fácil admitir que seu verdadeiro talento a dirigia para um afazer longe do centro do palco. Sua paixão pela criação literária, sua autêntica admiração por autores e obras bastaram, todavia, para que ela jamais abandonasse a atividade em questão.

Não que seus textos se aproximassem do nível daqueles escritos por um Erich Auerbach, Paul Valéry, Roman Jakobson ou Harold Bloom. Ainda assim, eles exibiam duas virtudes raras: a clareza e a curiosidade. A americana, mais do que ‘scholar’, era uma divulgadora de nível superior que, elegantemente, ajudava o público leigo a se familiarizar com escritores difíceis ou obscuros, bem como com idéias complexas.

Seus ensaios sobre Walter Benjamin, Elias Canetti, Artaud, Roland Barthes e outros são exemplos acabados do alto jornalismo literário. Ela colaborou com o desenvolvimento de uma abordagem refinada mas não preconceituosa da cultural popular ou de massas e os volumes que publicou sobre a fotografia e sobre as doenças (um desencadeado pelo câncer de que sofreu 30 anos atrás, o segundo pela epidemia da AIDS), se bem que contenham muito de discutível, são informados e prazerosamente legíveis.

Quanto a sua outra virtude, a curiosidade, esta a manteve atenta seja ao que surgia de interessante, seja ao que havia sido injustamente ignorado. Ela promoveu gente de primeira, como o iugoslavo Danilo Kis e o húngaro Peter Nadas, e redigiu belas introduções às edições em inglês de Juan Rulfo e Machado de Assis. Ao contrário do que acontece tão amiúde, seu relativo insucesso literário não a amargurou a ponto de desinteressá-la das qualidades alheias. Sontag foi, enfim, uma intelectual cuja estima crescerá à medida que sua fama diminua e sua obra, despida das polêmicas circunstanciais, atinja o público adequado.’



Flavio Moura

‘‘EUA não sabem o que é a guerra’’, copyright Folha de S. Paulo, 29/12/04

‘Leia a seguir trechos inéditos de entrevista com Susan Sontag publicada na Folha em 24/8/2003.

MACHADO DE ASSIS – Acho ele um dos maiores escritores do século 19 e o melhor da América Latina. E Roberto Schwarz é um dos maiores críticos culturais do mundo. Leio tudo que posso sobre ele. Não apenas o trabalho sobre Machado, mas todos os ensaios que ele escreve. Acho que está entre os mais distintos, inteligentes, interessantes intelectuais escrevendo hoje. Mas não é muito conhecido. Não sei o que acontece com o Brasil. O português sempre foi marginalizado, embora seja a sexta língua mais falada do mundo. ‘O Cortiço’, de Aluísio Azevedo, é um livro impressionante, mas acho que sou a única pessoa de fora do Brasil que o leu.

SEBASTIÃO SALGADO – Salgado é um grande fotógrafo. Mas eu tenho um problema com a maneira como ele nomeia seus objetos. Há uma política muito fraca por trás de seu trabalho. O projeto sobre as migrações, por exemplo. Não é a mesma coisa fugir de um país por motivos econômicos ou por causa da guerra. Meu problema não é com o fato de as fotos serem belas, mas, sim, com a narrativa, com as histórias que ele está tentando contar. Elas são muito superficiais.

CONFLITO NO IRAQUE – Na Europa, parece que muita gente não considera a guerra uma solução. Mas isso não é verdade nos Estados Unidos. Talvez porque não saibam o que é a guerra, acham que ela pode ser uma saída. Na Inglaterra, por exemplo, Tony Blair e seu governo estão com sérios problemas, pois ele mentiu sobre a questão das armas de destruição em massa. Nos Estados Unidos, Bush não está em apuros, mas fez exatamente a mesma coisa. Isso porque as pessoas aqui não se importam se ele mentiu ou não. Acham que a razão não são as armas, mas vingança pelo 11 de Setembro. E se alguém lhes disser que não foi o Iraque que fez isso, responderão: ‘Mas temos de mostrar nossa força’.’



Gerald Thomas

‘Desta vez, a realidade ultrapassou a metáfora’, copyright Folha de S. Paulo, 29/12/04

‘Não posso dizer que Susan Sontag era minha amiga, propriamente. Mas éramos ‘conhecidos’. E esse conhecimento se deu através de Samuel Beckett, seu fascínio pela obra dele e pelo fato de eu conhecer o mestre. Falo da década de 80, quando todos os ícones estavam vivos e eu estava em cartaz com a ‘Beckett Trilogy’ no La MaMa, estrelada por Julian Beck, um grande amigo (esse, sim, enorme amigo) de Susan.

Susan vinha visitar a produção várias vezes, e íamos tomar café numa espelunca anexa ao teatro, na rua 4, no East Village. Ela me perguntava (a palavra mais certa seria ‘torturava’ com perguntas) sobre Beckett: ‘Como ele é?’, ‘como anda?’, ‘como senta?’, ‘você conhece o apartamento dele?’. Coincidentemente, o nome da mulher de Beckett era Suzanne. Ela me atentou para esse fato.

Dias depois, recebo um telefonema, e ela me convida para conhecer sua ENORME coleção de botas de caubói, quando ainda morava na rua 17 e estava casada com a coreógrafa Lucinda Childs (que mais tarde, em 95, se tornou parceira minha numa produção fracassada, que tinha Luciano Berio como líder, em Florença).

Fiquei boquiaberto e não conseguia muito entender aquela intelectual, de quem eu tinha lido tudo e havia assistido aos debates (ela mediava Umberto Eco na New York University, mas não o deixava falar) e divagava apaixonadamente sobre Roland Barthes, com aquele ‘closet’ repleto com prateleiras e mais prateleiras cheias de botas de caubói. ‘São o meu fetiche e não me pergunte mais!’, dizia ela, morrendo de rir. ‘Quem venceu a batalha contra o câncer [ela escreveu um livro sobre isso, ‘A Doença como Metáfora’) e tem um filho para sustentar, pode-se dar a esse luxo.’

Um dia me chamou às pressas para Boston, ou melhor, Cambridge, Massachusetts, onde fica o American Repertory Theatre. O diretor artístico de lá, Robert Brustein (um teórico importante do teatro americano), a havia convidado a montar uma peça de Diderot. E lá fomos nós. Daniela Thomas, eu e Alisa Solomon (minha amiga e crítica do ‘Village Voice’) e, decepcionados com a produção, não sabíamos o que dizer no final do espetáculo.

Mas a ‘flamboyance’ de Susan não deixava espaço para que alguém inserisse qualquer tipo de crítica. O público dormia, e a crítica tinha caído de pau. Susan precisava de carinho e elogios. Alisa, vidrada em Sontag, procurou desviar o assunto e falar da sua obra como semióloga, e isso a irritou bastante. ‘Os críticos não iam tolerar a minha incursão no teatro. Seria demais para eles. Eles tinham que me destruir!!!!!’

De volta a Nova York e separada de Lucinda, recebo um telefonema dela. ‘Venha ver o meu novo apartamento na King Street, no SoHo. Agora estou morando do lado da Grove Press, ou seja, um pouco mais perto de Beckett.’

Achei engraçado a facilidade com que Susan tratou sua separação e a mudança. Era época de plena ‘guerra’ entra ela e Camille Paglia na imprensa americana. Ela, dessa vez, me perguntou sobre Machado de Assis. Envergonhado, disse que não sabia muito sobre Machado e que era melhor continuarmos a falar sobre Beckett. Foi lá que ela teve a primeira idéia de encenar ‘Esperando Godot’. Só não sabia ainda onde.

Anos se passaram e ela aparecia esporadicamente. Viu o ‘Flash and Crash Days’ no Lincoln Center e me mandou um cartão: ‘Não achei a produção à altura da trilogia Kafka, me ligue’. A essa altura, já estava casada com a fotógrafa Annie Leibovitz e morava no complexo ‘posh’ aqui nessa mesma rua 23, onde moro, só que no lado do Chelsea. Annie, por sua vez, já havia sido namorada de Bia Feitler, a brasileira que revolucionou a diagramação da ‘Harper’s Bazaar’ e ‘Rolling Stone’ e nos deliciamos em conversa fútil.

Sempre foi ativa em vários aspectos da vida intelectual, mas perdemos contato nestes últimos anos. Eu a seguia pela imprensa e vi que foi uma das vozes mais lúcidas e ativas quando os aviões abateram o WTC e continuou sendo uma das vozes dissidentes e lúcidas na América até o fim. Gerald Thomas é diretor teatral’

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PRIMEIRAS EDIçõES > FOTOGRAFIA

Luciano Trigo

Por lgarcia em 01/08/2001 na edição 132

FOTOGRAFIA

"Leitura de uma foto", copyright O Globo, 24/7/01

"Não se lêem apenas palavras. A todo momento a realidade se apresenta à leitura como um livro, que está aí para quem souber e quiser ler. Sua mensagem, porém, nem sempre é agradável, e parece que, quanto menos agradável, menos vontade temos de lê-la. Mas é preciso, antes que seja tarde.

A morte de uma criança de 11 anos, baleada durante uma operação da PM na Favela Parque Alegria, no Caju, gerou protestos dos moradores, que apedrejaram carros na Linha Vermelha e tentaram fechar uma pista da Avenida Brasil. Um episódio a mais na rotina de violência urbana na qual somos forçados a viver, e a reportagem publicada no GLOBO (19/7) pode mesmo ter passado despercebida para muitos leitores.

Ilustrando o texto, porém, uma fotografia de Michel Filho nos arranca da apatia e do torpor. Ela mostra quatro policiais com capacetes, escudos e cassetetes em riste, a ponto de espancar um manifestante, que, apavorado, e ele próprio segurando nas mãos o que parece ser um pedaço de pau, tenta fugir.

A foto é eloqüente em sua simplicidade. Parece até posada. De um lado os policiais, coincidentemente brancos, equipados para uma guerra; de outro o manifestante, coincidentemente negro, sem camisa e descalço, com os olhos arregalados numa expressão que até poderia ser cômica, em outro contexto. O quadro inteiro, aliás, remete à captura de um negro fugido nos tempos da escravidão.

Não sei se os policiais cometeram excessos, nem conheço os antecedentes do manifestante. Seria fácil denunciar o abuso da força e a covardia, dada a situação de superioridade numérica que a fotografia registra, como seria fácil insistir no processo de inversão de valores que a polícia como instituição vem protagonizando: é verdade que temos cada vez mais medo de quem é pago para nos proteger, como também é verdade que está ficando cada vez mais difícil separar mocinhos e bandidos.

Menos fácil seria defender os policiais, alegando que afinal de contas estariam cumprindo o seu dever de reprimir a desordem. Defender a polícia, quando só se fala mal dela, não é muito prudente. Que o diga, onde estiver, o intelectual e cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, que em maio de 1968, nas ruas de Paris, tomou o partido dos policiais contra os estudantes em protesto, por enxergar nestes filhinhos de papai pequeno-burgueses, e naqueles operários que estavam dando duro para ganhar seu pão. Foi crucificado.

Só acho bastante provável que os policiais escalados para reprimir os protestos na Linha Vermelha vivam numa situação tão precária quanto os manifestantes. Alguns deles devem morar em favelas, muitos serão honestos. Alguns terão entrado para a polícia para escapar do caminho fácil e tentador da criminalidade, outros justamente pelo motivo contrário. O policial que ergue ferozmente o cassetete pode ter perdido um parente para o tráfico, e o manifestante que foge pode ser um trabalhador a caminho de casa.

Não importa. O fato é que, olhando para a metade inferior da fotografia, só se vêem vítimas, armadas ou não, uniformizadas ou descalças. Os dois lados estão mergulhados na mesma guerra, no mesmo inferno da violência, e toda violência é ruim.

Mas a fotografia não acaba aí. Em sua metade superior um pedaço de outdoor mostra que nem tudo vai mal. O sorriso branquíssimo de um anúncio de telefones celulares assiste indiferente ao episódio, que não lhe diz respeito. O sorriso vive num mundo à parte, o sorriso não quer ou não sabe ler o texto que a realidade está lhe mostrando. O sorriso só quer saber de fechar seus negócios, enquanto anda com os vidros de seu carro importado fechados. O pau está quebrando na sua frente, mas não é com ele. O sorriso só sabe sorrir.

Pensei em concluir este artigo dizendo: que bom que ainda existe alguém que sorri, mas já não há espaço para a ironia. O sorriso, leitor, somos muitos de nós, que por algum mecanismo psicológico doentio assistimos passivamente ao esgarçamento do tecido social, ao entrincheiramento cotidiano das comunidades e ao esfacelamento de tudo o que esta cidade e este país já tiveram de bom. Quanto mais a violência cresce e se aproxima de nós, mais indiferentes ficamos, como o sorriso do outdoor: indiferentes aos indigentes, aos sem-terra, às crianças nos sinais.

No livro da violência urbana que está sendo escrito todos os dias, o episódio da Linha Vermelha ocupa apenas uma linha, e o caos de Salvador representa talvez uma página. Se todos nós, governantes e cidadãos, continuarmos nos fazendo de analfabetos, os próximos capítulos podem ser trágicos."

"O olho da gente no olho do furacão", copyright Jornal do Brasil, 26/7/01

"A capa do Jornal do Brasil de sábado me pegou pelos colarinhos, me arrancou do chão e me balançou no ar. Uma foto ocupava quase toda a metade de cima da primeira página. Era o rosto de alguém caído no asfalto. O rosto estava coberto por uma dessas máscaras de malha preta que os motoqueiros usam sob o capacete para se proteger do frio – e também banhado de sangue. Havia mais sangue sobre o chão. Era o rosto de um cadáver, o cadáver de Carlo Giuliani, morto pela polícia em Gênova, na sexta, dia 20 de julho, durante as manifestações contra a globalização. Tinha 23 anos. Na foto, não vemos o corpo de Carlo. Divisamos apenas uma parte do seu ombro direito, num primeiro plano, logo no canto inferior direito. Bem no centro, jaz a sua face, mas a máscara o esconde. Enxergamos somente seus dois olhos, para sempre fechados. Fechados diante dos nossos olhos.

É uma fotografia fortíssima e, ainda na terça-feira, na seção de cartas, leitores debatiam a sua publicação. Uns sustentavam que ela é agressiva, mas necessária. Outros alegavam que estampá-la daquele modo foi uma escolha de mau gosto. De minha parte, fiquei chocado a semana toda. Não com a opção editorial do JB, que não me pareceu imprópria, mas com o que aquela primeira página me esfregou na cara: uma sentença de morte para quem discorda. A manchete, numa linha única, dizia: ?A globalização e seus descontentes? (uma alusão ao Freud de A civilização e seus descontentes). Pois ali estava um descontente. Assassinado. Enquanto Carlo Giuliani perdia a vida, enfrentando um contingente policial que chegou perto de 15 mil homens, ali, na mesma cidade de Gênova, reunia-se o G-8. Os donos do mundo banqueteavam enquanto os descontentes eram contidos na base da força.

O que aconteceu em Gênova é de uma gravidade extrema. A morte de Carlo fez eclodirem manifestações de rua nas cidades mais importantes do mundo. Na minha opinião, mais do que justas. Retratar essa morte é um dever jornalístico. Note o leitor que não estamos aqui falando de um desses crimes bárbaros praticados por um perturbado qualquer. Quando a mídia explora em demasia esse tipo de violência cai, sim, no vício do sensacionalismo, nosso velho conhecido. Tampouco estamos falando de uma violação dos direitos humanos cometida pela polícia corrupta de uma ditadura periférica – coisa que não seria inusitada mas que, de toda forma, é sempre dever da imprensa noticiar (com o cuidado de evitar o vício da demagogia, que é uma espécie de sensacionalismo ?do bem?). Aqui, o caso é outro: estamos falando de um assassinato perpetrado pelo esquema de segurança do G-8. Se isso não é um escândalo, o que é que ainda nos vai escandalizar? (Há os que jogam nos manifestantes a culpa da morte de Carlo Giuliani, dizendo que eles é que provocaram o caos. Chega a ser inacreditável. É como dizer que a mulher estuprada é a culpada de seu martírio.)

O que se passou foi tão grave que foi destaque em todos os jornais e programas jornalísticos a que tive acesso esta semana. Mas algo está faltando. O que me incomoda nessa cobertura toda não é o que ela vem mostrando, nem as tintas de que ela se vale, mas exatamente o que não ela mostra e não ilumina. É como se exibir a morte fosse o bastante. Para uma imprensa viciada em imagens de impacto, a cabeça ensangüentada de Carlo Giuliani é o olho do furacão. E basta. O nosso olho – nosso olho de público, nosso olho de jornalistas, tanto faz – fica hipnotizado e não consegue se desprender daí. Não vê o entorno, não estabelece as relações necessárias. Assim, caímos numa inversão: a imagem forte, que nos alerta, serve para nos cegar. As razões menos superficiais nos escapam.

Para resumir o que quero dizer aqui, recorro a um cartum do célebre Plantu, que saiu no Le Monde deste domingo. O cartum representa três cenas simultâneas. Ao fundo, protegidos por um muro, por uma cerca de arame farpado e por um brucutu de cara fechada, os figurões do G-8 conversam em torno de uma mesa redonda. Ao centro, logo em frente ao muro de concreto e do brucutu, há um corpo no chão, ladeado de sangue vermelho (é só aí que o artista faz uso de uma cor que não seja o preto) e de uma multidão de fotógrafos. Por fim, separados de todos os outros por uma segunda cerca de arame farpado, vêm os miseráveis, esqueléticos, que olham de longe para o tumulto dos fotógrafos sem expressar reação alguma. O desenho do Le Monde sugere que tanto a miséria quanto a cúpula do G-8 estão fora do alcance dos repórteres. Tendo a concordar com a sugestão. A miséria porque é chata e não vende jornal; quanto à cúpula, é ela quem manda e não quer ser incomodada.

É verdade que o olho da imprensa deve ajudar o olho do público a ver mais de perto aquilo que não é fácil de admitir, como a idéia de que os responsáveis pela paz mundial são capazes de assassinar um manifestante indefeso. No caso da morte de Carlo, essa missão foi exaustivamente cumprida. Mas a imprensa também deveria atentar para um outro dever que ela tem, que é o de afastar o olho do público daquilo que o fascina e, ao fasciná-lo, paralisa-o. Assim como dá o close, a imprensa deveria dar visões panorâmicas. Estas são as que mais fazem falta ultimamente.

O jornalismo cumpriu sua função ao retratar os enfrentamentos em Gênova, mas deixa a desejar quando não investiga as razões de fundo desses enfrentamentos – e quando aceita acriticamente, em seu discurso cotidiano, as premissas que presidem a globalização. Penso na imprensa brasileira de modo especial. Por mais que seja perigoso generalizar, noto que ela questiona essas premissas. Ela não se pergunta sistematicamente das conexões entre as tragédias sociais – desemprego generalizado, fome, trabalho escravo – e o processo de globalização, assim como não apura como e por que as demandas do capital, no nosso tempo, acabaram se transformando em metas públicas de governo pelo mundo afora: privatizações, desmonte da previdência, asfixia das universidades públicas etc. Em todos os países periféricos ou semiperiféricos as metas de governo são idênticas. Por quê? Ela não pergunta enfim por que a globalização virou um fato consumado que se impõe sem qualquer outro diálogo que não esses ?de cúpula?. Antes, as razões de Estado é que eram indiscutíveis e indevassáveis. Hoje, são as razões do mercado. Por quê?

O sentido histórico das manifestações que se espalham pelo mundo tem a ver com essas perguntas. Ao não ouvir e nem enxergar o que está para além dos arames farpados e dos muros no cartum de Plantu, os jornalistas e o público ficamos sem entender direito por que, afinal, esse rapaz foi morrer em Gênova, sem firmar o nobre pacto entre o cosmos sangrento e a alma pura."

    
    
                     

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