Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > GOVERNO LULA

Luiz Carlos Merten

28/12/2004 na edição 309

‘Tão defendido pelos diretores brasileiros, o casamento cinema-TV concretiza-se em horário nobre na semana de 24 a 31. A fada-madrinha é o Banco do Brasil, que encomendou a sete – na verdade, oito – realizadores uma série de curtas de 3 minutos cada um para desenvolver o tema ‘valores’. Eles serão exibidos em rede aberta, na faixa das 19 horas às 22 horas. Na segunda-feira à tarde, quase todos se reuniram na sede do Centro Cultural Banco do Brasil para a primeira exibição pública do seu trabalho. Formavam o PIB do cinema brasileiro – Cacá Diegues, Andrucha Waddington, Carla Camurati, Jorge Furtado, Beto Brant e Daniel Filho. Fernando Meireles, que co-assina (com Nando Olival), um dos curtas, não pôde comparecer porque está preso, em Londres onde tem prazo – até o Natal – para entregar a montagem definitiva de seu longa The Constant Gardener, adaptado do romance de John Le Carré. Olival também não foi porque filmava em São Paulo.

Tudo começou com uma pesquisa do Banco do Brasil, na gestão Luiz Inácio Lula da Silva, que queria saber qual a expectativa dos brasileiros em relação ao banco que tem o nome do País. O diretor de Marketing e Comunicação, Henrique Pizzolato, explicou que o projeto dá continuidade à série Valores, realizada pelo BB em 2004 com o objetivo de destacar aspectos da cultura brasileira e afirmar a imagem do banco como socialmente responsável. A pesquisa procurou determinar, junto ao universo de clientes do BB, quais valores ajudariam a esculpir uma imagem do caráter do brasileiro. Os sete atributos escolhidos também correspondem a um banco ideal, sonhado pelos clientes.

Afeto, alegria, confiança, conhecimento, fraternidade, identidade e originalidade – os sete traços fundamentais do brasileiro, os sete atributos exigidos de um banco. De posse desses elementos, o BB chamou a produtora Renata Magalhães e o produtor e diretor Daniel Filho, já com o objetivo de inovar na sua campanha publicitária de fim de ano. No décimo ano da retomada, nem se pode usar mais esse termo, porque a produção brasileira se consolidou em relação à terra arrasada de 1994. Pode ainda não caracterizar uma indústria, mas reconquistou uma fatia importante do próprio mercado e obteve reconhecimento internacional para o novo cinema do País. Pensando assim, a diretoria de Marketing e Comunicação resolveu propor a diretores de expressão do cinema nacional que ilustrassem os sete temas.

‘O banco deu carta-branca aos diretores para que fizessem o que quisessem. O único teto fixado foi o de R$ 13 milhões para as despesas de produção e compra dos espaços publicitários’, disse Pizzolato. Depois de alguma indecisão – quase se criou um clima no auditório, como se a cobrança de números por parte de jornalistas fosse algo descabido, alguma denúncia de corrupção, quem sabe -, a produtora Renata Magalhães esclareceu que cada empresa produtora recebeu R$ 700 mil para fazer seu curta de 3 minutos. Jorge Furtado esclareceu que, deduzido o imposto, esse valor caiu para R$ 570 mil. Andrucha Waddington esclareceu que o valor pode parecer elevado em termos de curta-metragem, mas com certeza é barato para uma peça publicitária em película – o que cada um desses curtas é. Uma publicidade de meio minuto ultrapassa esse valor, ele garantiu.

O dinheiro foi repassado à empresa produtora de cada um dos sete (oito) diretores – no caso de Meirelles e Olival, uma só (a O2). O resultado oferece uma amostra muito rica da diversidade e vitalidade do cinema brasileiro atual. Por se tratar de sete visões, sete curtas, o resultado é forçosamente irregular, mas os filmes se articulam numa proposta estética muito interessante. Um e, talvez, dois dos sete curtas são ótimos – será exagero dizer que são geniais? -, os de Cacá Diegues e Fernando Meirelles & Nando Olival. Um é a prova de que o cinema pode interferir na realidade, no sentido de transformá-la, o de Jorge Furtado. Os demais variam do menos bom ao muito bom. Nenhum será reconhecido como ruim.

Cacá Diegues retoma a idéia do almanaque que já estava em Deus É Brasileiro e se vale da grande arte de Antônio Nóbrega para fazer um passeio pela cultura popular nordestina. Seu tema é o conhecimento. Meirelles & Olival discutem a identidade a partir de conceitos de Darcy Ribeiro. Jorge Furtado contribuiu para o roteiro da historinha linda que fala de identidade a partir da diversidade de elementos – e etnias e culturas – que forjou a pátria Brasil. Furtado retorna à Ilha das Flores, na verdade, à Ilha dos Marinheiros, em Porto Alegre, onde filmou seu curta de 1989, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim. Jorge ganhou projeção nacional e internacional – mas o que ocorreu com aquelas pessoas que viviam no limite da exclusão social? Ele destinou parte da verba a melhorias no local – construiu uma quadra de esportes, um prédio com sala de aula e cozinha. E filmou tudo isso, que a comunidade queria (e conseguiu), para expressar a fraternidade.

Na sua fase atual, de mãe coruja, Carla Camurati ficou feliz de trabalhar o tema do afeto. Mas é típico do temperamento amoroso de Carla centrar seu filme na relação entre um pai e seu filho, ambos pressionados pelo tempo. Andrucha Waddington valeu-se de um episódio ocorrido com a diretora Daniela Thomas para ilustrar, com a participação de Baby do Brasil, a originalidade. Beto Brant voltou-se para um menino que serve de ponte entre o avô e a avó, que brigam entre si, para falar sobre a confiança. Daniel Filho colocou seus pais idosos no centro de uma trama familiar para mostrar a alegria. Parente é serpente – as famílias brigam, mas há um tipo de alegria que só a vida familiar pode oferecer. Os sete filmes juntos têm a cara do Brasil. E, na maioria, mostram o País dos humildes. São uma prova do humanismo do cinema brasileiro, segundo Cacá Diegues.’



Clóvis Rossi

‘É para desistir’, copyright Folha de S. Paulo, 22/12/04

‘Às vezes bate uma vontade enorme de desistir. De que adianta ficar criticando o governo, qualquer que seja o governo, se as coisas não mudam ou mudam tão pouco que, à essa altura da vida, já dá para perceber que não terão alterações significativas até o fim dos tempos (os meus tempos, claro)?

Sou pago para isso, é verdade, mas houve tempo em que acreditava que jornalismo era algo mais do que garantir o pagamento das contas no fim do mês.

Ganha-se também antipatia, especialmente no mundo oficial, o que não me incomoda em absoluto. Mas às vezes dá vontade de experimentar o outro lado, ou seja, ser governista, só para ver que gosto tem.

Ganha-se também lambada de leitor, que reclama do mau humor, do excesso de críticas, até com alguma razão. Mas é, garanto, mau humor profissional. Como pessoa física, só tenho motivos para ser imensamente bem-humorado. Fui mais longe do que jamais sonhei, mesmo nos sonhos mais alucinados.

Mas não dá para manter o bom humor quando você acorda com a seguinte informação, perdida no fim da notícia mais recente sobre a tola polêmica ‘obesos x pobres’: ‘85% das famílias responderam que tinham dificuldades para chegar ao final do mês com sua renda’ (a resposta foi dada na POF, a pesquisa sobre orçamento familiar). Oitenta e cinco por cento não é um baita escândalo? Mas ninguém liga mais.

Tanto não liga que Paulo Rabello de Castro lembra, em seu artigo de ontem nesta Folha, que a renda do trabalho não chega a 40% da renda do país, quando já foi de 60% -pouco mais ou pouco menos (dados colhidos também pelo IBGE).

Ou seja, o país piorou em um dado que é essencial na vida das pessoas, ao contrário do risco-país. Mas o governo, diz a Folha, tem champanhe para festejar a queda deste a menos de 400 pontos.

Não é melhor beber junto com eles e ligar o ‘dane-se’ para os que não podem comprar nem guaraná?’



Folha de S. Paulo

‘Cineastas farão campanha do BB’, copyright Folha de S. Paulo, 22/12/04

‘Começa a ser veiculada nesta sexta-feira a campanha de final de ano do Banco do Brasil, ‘Valores do Brasil’, que ressaltará sete virtudes na visão de cineastas brasileiros. Carla Camurati, Daniel Filho, Beto Brant, Cacá Diegues, Jorge Furtado, Fernando Meirelles e Andrucha Waddington falam dos temas afeto, alegria, confiança, conhecimento, fraternidade, identidade e originalidade. Cada um recebeu R$ 700 mil por três minutos de curta-metragem.

Como alguns dos diretores responsáveis pelos curtas se mostraram contrários ao projeto do Ministério da Cultura que cria a Ancinav (Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual), a campanha chegou a ser vista como uma forma de apaziguar os ânimos entre o governo e os cineastas. Os diretores consideraram a hipótese de mau gosto e injusta.

Andrucha Waddington, que ainda não tem posição sobre o projeto do Ministério da Cultura, diz que ‘é complicado poucos diretores de uma agência regularem todo o audiovisual do país’, como proporia o projeto.

A campanha, segundo Waddington, é totalmente publicitária, com verba para publicidade e não de incentivo à cultura. Waddington disse ainda que os valores pagos aos cineastas pelas peças são modestos. Segundo ele, o preço por 30 segundos de campanha no mercado fica em torno de R$ 2 milhões. ‘Eu só fiz por amor ao projeto’, disse.

O custo total da campanha, de R$ 13 milhões, inclui as inserções em horário nobre da TV, até o dia 4 de janeiro.

‘Valores do Brasil’ é semelhante à campanha ‘O Melhor do Brasil é o Brasileiro’, lançada neste ano pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom). Estão oficialmente desvinculadas. Mesmo assim, o Banco do Brasil informou que as peças poderão ser posteriormente usadas pelo governo na mesma campanha.

Jorge Furtado, cujo curta teve como tema ‘fraternidade’, disse que não chegou a ver a campanha da Secom. ‘Não há nenhuma interferência’, disse. Apesar de se dizer favorável ‘em tese’ ao projeto da Ancinav, disse que não leu o texto recém-reformulado pelo Ministério da Cultura.

‘Pessoalmente eu torço para que este governo dê certo, mas a pessoa pode ser totalmente contra o governo e fazer um comercial para o Banco do Brasil’, disse.

Segundo Furtado, o banco faz todos os anos uma campanha de final de ano e sempre contrata produtora e diretores. Por isso, chamar sete produtoras e diretores de cinema é uma inovação. ‘Ninguém me perguntou se eu era a favor ou contra o projeto [da Ancinav] antes de me chamar para fazer o comercial’, disse.’

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