Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > SKY & DIRECTV

Luiz Eduardo Borgerth

16/11/2004 na edição 303

‘Apesar de décadas de pesquisas, teses e discursos, a despeito da farta literatura, não obstante tantos McLuhans, Bourdieus, Barthes e Buccis, o chocolate ainda é mais importante do que a mídia, o cacau mais precioso do que o audiovisual, a Nestlé maior do que a News Corp., o bombom Garoto mais importante do que a Globo.

Não fosse assim, a notícia da fusão da Sky com a DirecTV, associadas à Globopar no Brasil, teria inundado o país com pronunciamentos, confundido os especialistas, provocado os conselhos e, certamente, o governo teria se mobilizado imediatamente para estabelecer normas que neutralizassem os efeitos do mais desastroso e maléfico monopólio que se poderia imaginar fosse estabelecido no Brasil.

Sim, porque da fusão em diante só a produção e a programação de televisão que for do agrado da Globopar (Globo) e da News Corp. (Rupert Murdoch) será entregue às casas brasileiras diretamente por satélite. Esse grupo passará a ter, no mínimo, 95% do mercado direto por satélite e, em breve, de todo o mercado de televisão paga no Brasil. Ironia das ironias! Incapaz de manter a maioria do capital da Sky quando havia concorrência, a Globo passa a ter exclusividade de mando nos ‘céus do Brasil’ com apenas 28% do capital e livre de investimentos!

Em terra, pela televisão aberta, a Globo tem a bagatela de quase 50% da audiência e 75% de todo o dinheiro aplicado em televisão, aí pelos R$ 4 bilhões do total de R$ 5 bi e pouco. Não vai mais investir em hardware. Da fusão para a frente, DTH, televisão direta para sua casa, é o nome do jogo.

Com o monopólio do satélite, fica em perspectiva o monopólio de toda a televisão no futuro -pois poucos duvidam de que a televisão, inclusive a que hoje chamamos ‘aberta’, será recebida via satélite no Brasil. Continuará ‘aberta’, já que quase todos terão acesso a tudo quando todos tiverem acesso ao satélite.

Para começar, basta presentear o ‘assinante’ com um receptor, uma caixinha; a televisão paga não é obrigada a ser paga, pode ser uma oferta do operador. Originalmente, o cabo foi inventado e empregado para retransmitir os canais abertos para áreas de má ou sem recepção. Não tendo programas próprios, não faria sentido que tivesse publicidade além da que aparecia nos canais que retransmitia. Agora, tendo monopólio e associado a programador e produtor nacional, o operador fará o que quiser, remunerando-se pela publicidade.

Ainda mais que o satélite, ao contrário do cabo, nem precisa retransmitir as emissoras locais. Nos EUA podem obrigar. Como lá não permitiriam a um mesmo grupo operar cabo, satélite e televisão aberta num mesmo mercado. Nem sequer jornal e televisão num mesmo mercado. É que lá a Constituição não proíbe, como a nossa, monopólio em comunicação social. Deve ser por isso que o grupo Globo tem jornais, revistas, rádio, televisão, cabo, satélite, editora, gráfica, discos, programadoras, tudo cruzado, descruzado e, se deixarem, monopolizado. E agora acrescente-se telefonia, pelas mãos salvadoras do mexicano Carlos Slim Helu, que associa-se à Net (sem dizer com que participação), o dono da Embratel, Claro e Vésper. Quem diria, a novela da Globo acaba mexicana…

No Brasil as salvaguardas impostas aos protagonistas da fusão, até decisão final do Cade, são inadequadas, mas não sei que outras poderiam ter sido impostas. Talvez nenhuma. Manter funcionando duas empresas dos mesmos donos, fingindo que concorrem, é ridículo e insustentável. Sejamos machos: monopólio é monopólio. É melhor do que ficar a DirecTV, com sua quota permitida de 300 mil assinantes, também equipados com receptores da Sky (que ninguém é de ferro), fingindo competir, apresentando para meia dúzia de assinantes recalcitrantes a programação rejeitada ou obrigada a ficar fora do satélite ‘classe A’.

Por que 300 mil? Porque, em documento apresentado à Securities and Exchange Commission americana, assinado por Sky,Globopar e DirecTV, 123 mil dos 423 mil assinantes da DirecTV passarão imediatamente (120 dias) para a Sky, sob pena de multa por cada assinante que lá não estiver no prazo estipulado. Dará um quase-nada de despesa, mas vale a pena manter essa ‘concorrente’, uma caixa de descarte que terá a função de manter a possível concorrência fora da Sky.

Há sinais de oposição. Na Venezuela, por exemplo, o grupo Cisneros entrou, no dia 18 passado, com uma ação nos EUA contra Sky, DirecTV, Globo e Televisa, pedindo a dissolução da fusão e uma indenização de US$ 1 bilhão, coisa pouca. Tudo indica, pelos trechos publicados, que o ‘agreement’ é um documento de interessante leitura. Deveria ser dado a público no Brasil: temos muito o que aprender.

Esse assunto tem implicações irreversíveis, exige audiências, depoimentos e esclarecimentos públicos claros e definitivos; é matéria de interesse nacional, e não ‘questão de Estado’. Da solução que lhe for dada -e é claro que é possível encontrar soluções- depende a sobrevivência, a médio prazo, da mídia independente brasileira e, a curto prazo, a esperança de sobrevivência de toda a televisão brasileira fora do universo que a Globo desenhar. É difícil entender que, num momento como este, haja quem concentre suas energias criando Ancinavs ou buscando no ‘Cidade Alerta’ e no Gugu os males da TV brasileira.

Luiz Eduardo Borgerth, 72, advogado, consultor de empresas de radiodifusão, é assessor na Rede Bandeirantes.’



HOJE É DIA DE MARIA
Daniel Piza

‘Um cineasta no país da infância’, copyright O Estado de S. Paulo, 15/11/04

‘Luiz Fernando Carvalho, 1,95m, está ao lado da câmera, um olho no monitor e o outro na cena, dirigindo Carolina Oliveira (‘Faço 9 anos em dezembro’), a linda menina que encarna Maria. Ela caminha por uma trilha, feito Dorothy ou Alice em meio a um milharal caipira, cantarolando (‘Ocê diz que sabe tudo/ Mas não sabe namorá/ Quero que ocê me diz… ole lê/ Quantos peixe tem no mar’). O diretor refaz, como sempre, cinco ou seis vezes, dizendo ‘Tudo certo, vamos de novo’; pega na mão de Carolina, que trata o tempo todo por Maria, e pede pequenas coisas, como andar mais pelo centro da trilha ou começar a cantar assim que passar pela árvore. Na tomada seguinte, diz para ela rir, rodopiar, brincar com as plantas, ser alegre. Pelo monitor, o contraluz e a névoa recortam tudo de modo lírico.

A cena fará parte do último capítulo de Hoje É Dia de Maria, a minissérie de oito capítulos que Carvalho grava até dezembro para estrear no dia 11 de janeiro na TV Globo. Diretor do belo filme Lavoura Arcaica, de séries como Os Maias, de novelas como Renascer e Esperança e especiais como Mulher Vestida de Sol, há mais de dez anos ele vinha imaginando entrar no tema da infância, que considera muito maltratado na mídia brasileira. Com um elenco de primeira – Fernanda Montenegro, Rodrigo Santoro, Stênio Garcia, Osmar Prado, Gero Camilo, Letícia Sabatella (que faz Maria quando jovem) -, a produção, visitada com exclusividade pelo Estado, tem um caráter ‘off-Projac’, o centro dos estúdios e cidades cenográficas da Globo. E isso também a faz especial.

Do outro lado da avenida, num terreno baldio que também pertence à emissora, foi colocada a cúpula de lona usada para eventos como o Rock in Rio. Com 26 metros de altura e 55 de diâmetro, o ‘domo’, como está sendo chamado, se transformou num estúdio peculiar. Incorporou algumas árvores e um pequeno bambuzal que já estavam ali; ganhou o milharal, um casebre e um riacho. E mais importante: um painel de dez metros de altura que percorre todos os 170 metros do perímetro. Pintada por Clécio Régis, que distribuiu ali outras casas, céus e montanhas, a falsa paisagem funciona como um ciclorama, a exemplo do que Fellini utilizava na Cinecittà. Com isso, o domo significou a vasta possibilidade de utilizar luzes e cenários distintos sem filmagem externa. ‘Assim posso construir os planos, fugir do linear, ter uma perspectiva livre como numa pintura em movimento’, diz Carvalho. ‘Todos os elementos do quadro ganham função. É como usar pontos e vírgulas.’

Não há risco de artificialidade? Carvalho quis correr esse risco. Só assim poderia trabalhar com transições entre real e imaginário, o que seu tema pede. Ele vê a infância como um mundo onde tudo é novo e difuso. ‘Quando viajo para qualquer canto do País’, conta, ‘sem fazer força nenhuma, olhando as crianças nas ruas, nas estradas e brincando soltas, acabo sempre me lembrando de um tempo remoto que nem sei ao certo se vivi.’ São essas sombras alegres da memória infantil que ele acentua na adaptação da história de Carlos Alberto Soffredini (o mesmo autor de A Marvada Carne) roteirizada por Luís Alberto de Abreu. ‘A infância me interessa pelo primeiro olhar, o que me leva para o plano dos mitos, dos arquétipos’, continua Carvalho. ‘Não poderia abordar esse tema de forma naturalista. E estou propondo ao espectador um jogo, um exercício com as visibilidades.’

Tipos dos folclores regionais passam ao longo de toda a história de Hoje É Dia de Maria. Depois de perder a mãe e ser renegada pela madrasta (Fernanda Montenegro), a menina, acompanhada de Nossa Senhora do Rio, sua protetora, vai atrás das ‘franjas do mar’ e, na caminhada, cruza com o Pássaro Incomum, ave de metal que a segue, atravessa a País do Sol a Pino e conhece figuras como Zé Cangaia, o príncipe, a dupla de saltimbancos e Asmodeu (Stênio Garcia), o Diabo de sete faces, que quer roubar sua sombra e também sua infância. Nessa viagem, Maria não encontra apenas os contos regionalistas, mas também referências da cultura universal. ‘O que me interessa não é o folclore à la Ariano Suassuna, não é o regionalismo, mas o que está por trás disso. A ancestralidade é o que há de mais moderno. É uma memória lúdica que nos habita, e tudo se reflete nela. E está no patrimônio genético do Brasil.’

Carvalho é da espécie de diretores que sabem muito bem o que querem antes de começar a filmar, justamente para poder assimilar alternativas e acasos felizes durante a filmagem. Fala com suavidade e usa o ‘por favor’ com freqüência bem superior à da média dos diretores. Mas é o maestro desses 30 técnicos reunidos na gravação, sabe dar ordens (‘Vamos, tá muito lento!’) e se irrita em diversos momentos, quando passa as mãos no cabelo ou na barba. E, antes de mais nada, enfrentou a descrença de muitos executivos da rede em relação ao projeto – em especial à execução da idéia do domo, que sofre nada menos que oito mutações ao longo das gravações.

Conhecido por seu perfeccionismo e versatilidade, Carvalho, para fazer a série como sonhava, chamou o fotógrafo José Tadeu Ribeiro (de Os Maias) e a diretora de arte Lia Renha (de Renascer) e explicou o que queria em termos de luz, cor e conceito. Organizou pesquisas nas obras de Câmara Cascudo, Mário de Andrade e Sílvio Romero; mandou montar ao redor do domo os ateliês para os bonecos do Giramundo, para os artesanatos de Raimundo Rodrigues e para os figurinos de papel de Jum Nakao; mergulhou com a equipe em livros sobre Portinari, butô e Goya, em músicas coletadas por Villa-Lobos e Guerra-Peixe. Para não falar das referências à Commedia dell’Arte, Calderón de la Barca e outras.

Carvalho participou, em suma, de todos os aspectos do trabalho. A continuísta, Lúcia Fernanda, conta que até a vareta que Maria usa para carregar a trouxa de roupas foi escolhida pelo diretor. ‘Ele não faz concessão’, dizem, em momentos diferentes, Fernanda Montenegro e Stênio Garcia. Ela, que trabalhou com o diretor em três novelas, acrescenta: ‘O Luiz é um artista puro, um obstinado. A equipe é muito boa e se entrega a ele porque confia em seu talento, em seu nível de exigência.’ Também ressalta que o trabalho dele é ‘experimental, mas com a estrutura que só a Globo pode dar’ e ‘revela a riqueza cultural imensa da história do interior do Brasil’. Stênio Garcia diz que só faz um papel como o de Asmodeu, com o trabalho que implica estudo e maquiagem, porque é para Luiz Fernando Carvalho, que chega a mostrar a espécie de dança que espera do personagem. Na gravação, Stênio improvisa: anda mais rápido e solta um berro de bode. Carvalho o abraça. ‘O Luiz é realmente especial.’ Na versão da estreante Carolina, que mora em São José dos Campos (SP): ‘Ele é muito legal.’

José Tadeu e Lia Renha estão em atividade constante no set. Com ele, Carvalho conversa o tempo todo, pedindo ajustes na luz (‘Sobe mais, sobe 10% só na debaixo’), e busca os tons de terra. Tadeu conta que estão utilizando câmera cinealta – Carvalho nunca usa mais que uma câmera – e filmando em HD super, tecnologia digital que permite captar a baixa luz. E diz que ele é o melhor tipo de diretor com quem se pode trabalhar, porque ‘sabe do que fala’. Lia Renha também: ‘Há diretores que são bons no trabalho com os atores, mas não têm muita dimensão espacial. O Luiz tem as duas qualidades.’ Ela acha que a formação dele em arquitetura – faculdade que largou para se dedicar à TV e ao cinema – e o interesse por pintura e literatura fazem a diferença.

Há outro consenso entre técnicos e atores: o formato da minissérie é perfeito para Carvalho, que sofreu muito com a escala industrial das telenovelas que dirigiu. Além disso, foi assessor de Walter Avancini, o diretor de grandes adaptações literárias para a TV como Grande Sertão: Veredas e O Tempo e o Vento. Carioca, filho de mãe cearense, Carvalho passou parte da infância na Serra de Friburgo. Desse período entram vários elementos na série, como a porteira, a luminosidade, algumas plantas e pedras. Como sempre, o que filma é antes de mais nada algo que lhe é pessoalmente caro.

E que ninguém pense que estará diante de uma simples história infantil, de moral edificante e enredo superficial. Há momentos de muita tristeza na travessia de Maria, assim como críticas ao machismo de contos de fada. ‘Num dos episódios’, antecipa o diretor, ‘invertemos a moral da Cinderela: Maria prefere o desconhecido a ficar com o príncipe.’ Para Carvalho, a infância vale como metáfora da própria vida, com suas felicidades, decepções e dúvidas. ‘É uma pequena tentativa de trabalhar num espaço misterioso.’’



MTV
O Estado de S. Paulo

‘MTV convence 14% da platéia a desligar a TV’, copyright O Estado de S. Paulo, 15/11/04

‘A campanha Desligue a TV e vá ler um livro, da MTV, parece estar surtindo efeito. De acordo com dados do Ibope, 1.259.491 pessoas assistiram à vinheta entre 1.º e 8 de novembro, quando entrou no ar a segunda fase da campanha. Nela, após estampar a frase na tela, a emissora realmente tira sua programação de cena e mantém o áudio de um zumbido chatinho durante 15 minutos. Cerca de 8% desse total (100.346) desligaram a TV – não mudaram de canal, e sim desligaram, segundo o Ibope. Considerando apenas o público-alvo do canal (classes A/B, entre 15 e 29 anos), essa porcentagem aumenta para 14%, ou seja, das 289.819 pessoas neste perfil, 41.586 desligaram o aparelho.

‘Se foram ler um livro, não sei dizer, mas pegaram o espírito da coisa’, disse o diretor-geral da emissora, André Mantovani, ao Estado. Para ele, esta é a campanha mais anti-TV que já viu. ‘É a menos hipócrita.’ O objetivo, segundo ele, é levar o jovem a ler mais e conseqüentemente melhorar a escrita, a forma de se expressar e de construir opiniões. ‘Só assim poderá ser crítico, ser culto.’

A campanha da MTV vai ao ar diariamente entre 13 e 15 horas. Mantovani explica que a faixa foi escolhida por comodidade – não compromete a grade – e também pela boa audiência. É a hora que muitos adolescentes chegam em casa, após as aulas. ‘Queríamos fazer uma campanha que funcionasse de fato e não fosse algo do tipo faz-de-conta.’

Além das inserções na TV, a iniciativa está na internet, no site da emissora (mas aí, o incentivo é para desligar o computador, claro!), e será tema de destaque na nova edição da revista da MTV, nas bancas em dezembro. Na reportagem, oito funcionários da casa que desligam a TV para ler, dão algumas dicas – Léo Madeira é o único VJ da matéria.

Mantovani explica que não deixou de exibir os comerciais programados para esses 15 minutos de pausa. Foram acomodados em outros horários. Mas a MTV deixou de faturar. Em 15 minutos, ele calcula que teria cerca de dois breaks, com 12 comerciais – 30 segundos, entre 13 e 15 horas, aos domingos, custam em média R$ 1.640,00. De segunda a sexta, saem por R$ 4.830,00.

‘Não fazia sentido, depois do aviso, continuar a programação’, justifica Mantovani. Quando a campanha teve início, a tela ficava escura apenas por alguns segundos após a exibição da vinheta. Outro canal que saiu do ar voluntariamente foi o Nickelodeon. Durante três horas, no dia 2 de outubro, nos Estados Unidos, para incentivar a criançada a ir para a rua brincar e praticar esportes.’

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PRIMEIRAS EDIçõES > TV PAGA EM DEBATE

Luiz Eduardo Borgerth

Por lgarcia em 17/10/2001 na edição 143

TV PAGA EM DEBATE

"O conteúdo da convergência", copyright Folha de S. Paulo, 11/10/01

"Agora tudo ficou claro. Já que pode ser problemático para companhias estrangeiras de telecomunicação fornecer TV por cabo mediante uma simples ?resolução? da Anatel, vamos autorizá-las por lei. Nada mais simples. A convergência fica para depois.

Segundo informou a Folha, na sua cobertura sobre a convenção da ABTA (associação das empresas de TV paga), o ?setor? deseja mudar a lei e permitir que empresas de TV paga possam ser 100% estrangeiras. Não há o que reclamar. É o ?setor? que deseja, são cidadãos brasileiros os que querem que o ?setor? se desnacionalize. Tudo muito de acordo com a globalização. Até a Anatel quer. Não se sabe por que motivo a lei não permite a estrangeiros ter mais de 49% do capital das TVs por cabo. E, se o ?setor? deseja , assim seja.

A mesma reportagem diz que o ?setor? acumulou prejuízos que chegam a R$ 2,1 bilhões. Como sabemos, lucro se aumenta; prejuízo diminui-se. Mas, vá lá, que seja, que os prejuízos acumulados sejam um mero bilhão de dólares. Nada mais justo, portanto, que o ?setor? deseje que os estrangeiros participem desse prejuízo, pois, como sabemos, as companhias estrangeiras estão aqui para nos ajudar, para ajudar o ?setor? a realizar nossas aspirações nacionais.

Aliás, já que estamos falando nisso, não atino para a razão de a Constituição brasileira exigir que rádios, TVs, jornais e revistas pertençam exclusivamente a brasileiros, 100%. Pior ainda: não servem nem empresas de brasileiros -do capital, 70% têm de pertencer a pessoas físicas brasileiras, pessoas em pessoa (se me permitem o pleonasmo), com cabeça, tronco e membros brasileiros, identificáveis, com nome, documentos, RGs, CPFs e, se possível, sonhos e amores brasileiros. Estrangeiros, nem 1%.

Segundo muitos, essas preocupações já não refletem a realidade atual, globalizada. Tanto assim que até as companhias telefônicas já podem ser estrangeiras. É um argumento ponderável: equipara o fio telefônico à conversa telefônica. Se um pode ser estrangeiro, por que não o outro? Eu, aliás, nunca entendi as razões de os jornais não poderem pertencer a estrangeiros, já que a indústria do papel pode.

Outros dizem que é um absurdo que cada qual -telefônicas, TVs a cabo etc.- tenha a sua própria rede. A tecnologia já permite compartilhar (olha a convergência aí de novo) redes, já permite que uma ?plataforma? única execute todos os serviços. O moderno é compartilhar, convergir. Uma única empresa fazendo tudo, TV a cabo, telefonia, internet, o que for!

Tudo em beneficio do cliente, do povo (é claro), que vai poder, num único terminal, com um único controle remoto, ver TV, receber internet, usar o computador, fazer suas compras e comprar o futebol ?pay-per-view?. Hoje, somos 160 milhões de brasileiros tendo de possuir 2, 3 ou até 4 televisores, ocupando nossas mentes e mãos a manejar uma multidão de controles, recebendo um caminhão de contas, que pagamos num universo de bancos! Pensem bem. Tudo em um só ?terminal?, com um único controle remoto, com uma só conta no fim do mês. Tudo em benefício do cliente, é claro. Que beleza! Já estou vendo a promoção: ?Uma empresa, um televisor, um controle!? Alguém já usou promoção parecida? Coincidências.

Não que isso não possa ser feito com cada companhia fazendo o seu serviço. É claro que pode. Mas aí não fica tão bonitinho. Ademais (dizem), TV paga não é TV; a preocupação dos constituintes (dizem) era com a ?mídia?, com comunicação social, com a TV a que todos teriam acesso. TV paga não é mídia, não é social, é comunicação capitalista. Pronto! Achou-se a saída.

É verdade que jornal também é pago e é mídia. Mas está na lei que a TV que é paga chama-se ?telecomunicação? -e o que manda é o nome dado pela lei, e não a natureza do serviço ou de seu objetivo (dizem). É verdade que a classificação resultou do desejo dos pretendentes ao serviço. A lei não tem nada a ver com o desejo. Vale o escrito. Se os constituintes quisessem preservar a TV a cabo, deveriam ter escrito. É verdade que, em 1988, quando foi feita a Constituição, não havia TV a cabo no Brasil. Nem sequer algum meio de TV paga.

Assim, há quem ache -por mais incrível que pareça- que, se o ?Show do Milhão? chega na sua casa pelo cabo, ele está excluído das determinações que regem a radiodifusão. Só estará sujeito às normas constitucionais se chegar pelo ar. E, como o show (e toda a TV aberta) chega por cabo em todas as residências que têm TV a cabo, como é que ficamos? ?Mude-se a Constituição?, já se disse. Não é genial?

Antecipando-se aos desejos do ?setor?, o senador Ney Suassuna (PMDB-PB) já entrou com um projeto para permitir que empresas de TV por cabo -ou qualquer do sistema ?paga?- tenham a composição acionária que a Anatel entender, caso a caso. Essa pode ser 100% estrangeira, a outra só pode 37%, aquela, 1%.

Vamos deixar de bobagens. Afinal, o que é cultura? A globalização colocou a cultura nos museus de antropologia. O mundo moderno é da tecnologia. Alguém já disse que, quando ouve falar em cultura, saca uma arma -salvo erro, uma Luger 9 mm. Aqui, quando ouvirmos falar em cultura, vamos sacar uma TV a cabo 100% estrangeira! A CNN já é mesmo estrangeira.

Quando o World Trade Center tragicamente desabou, as antenas de quase todas as TVs abertas de Nova York desabaram com ele. Mas o povo, horrorizado, assistiu ao vivo as cenas terríveis pela TV. Pelas ABCs, CBSs e NBCs ?abertas? e pela indefectível CNN ?fechada?. Como é possível caírem antenas e transmissores e os telespectadores continuarem recebendo as imagens? Qual a diferença entre a TV paga e a ?aberta?? Quem sabe? Podem pedir ajuda aos universitários. Tem muito a ver com o que estou falando. (Luiz Eduardo Borgerth, 68, é presidente de honra da International Association of Broadcasters e consultor do SBT.)"

    
    
                     
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