Quinta-feira, 25 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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ENTRE ASPAS >

Luiz Garcia

20/07/2004 na edição 286

‘O presidente da República estava outro dia coberto de razão, quando denunciou o vazamento de informações no governo e o denuncismo na imprensa.

Para quem chegou agora ao país, o último fenômeno é a divulgação de informações prejudiciais a alguém sem a necessária confirmação ou sem atender ao interesse público. Entenda-se: a notícia negativa sobre uma pessoa precisa atender a ambas as condições: além de ser verdadeira, defender a sociedade contra algo que a prejudica.

Lula também escolheu adequadamente o momento de tocar no assunto. Tomava posse o novo diretor da Agência Brasileira de Informação. Como sabido, são arapongas e ex-arapongas os grandes fornecedores de fitas gravadas e outras formas de documentação de variados doestos.

Abrindo o jogo: a mídia brasileira como um todo não tem defesas inatacáveis a apresentar quanto a denuncismo. É verdade que há veículos quase especializados nisso. E outros, sérios, que desprezam esse tipo de jornalismo mas têm em seu passivo episódios em que fizeram denúncias vazias, por pressa, erro de análise, ou confiança indevidamente depositada em procuradores da Justiça, políticos e autoridades em geral.

Lula erra ao generalizar; como sabido, é rara a generalização inteligente. Equivoca-se também ao não fazer qualquer referência à considerável contribuição da imprensa para a moralização de comportamentos e costumes na Praça dos Três Poderes e na Esplanada dos Ministérios. E se precipita ao chegar muito perto de sugerir que em princípio toda denúncia é leviana.

Na verdade, em princípio e no início a denúncia nada é. Seu valor positivo ou seu potencial de calúnia se revelarão no tratamento que lhe for dado — confirmação dos fatos, verificação dos interesses de quem denuncia, respeito ao direito de defesa etc. etc.

Seria interessante saber como a Presidência e seus arredores avaliam, por exemplo, as denúncias sobre o ex-alto funcionário da Casa Civil Waldomiro Diniz. Lula e o ministro José Dirceu preferiam que a mídia recusasse, por sua origem ilegal, a gravação da conversa em que Waldomiro pedia gorjeta a um bicheiro? Não seria exemplo nítido daquilo que Lula define como ‘informações precipitadas’?

Se o pessoal se sentasse em cima das provas, à espera de prova mais concreta, é bem possível que, quando surgissem indícios de que Waldomiro continuava fazendo das suas — não no Estado do Rio, mas no Palácio do Planalto — essas denúncias ainda o flagrassem trabalhando na Casa Civil.

Também pode ser que o presidente tenha reclamado pensando no vazamento de turras internas — especificamente, recentes desencontros entre Dirceu e o ministro Aldo Rebelo. Se é isso, falou para platéia errada: brigas entre políticos sempre foram e ainda são vazadas por políticos. Em geral, um dos protagonistas. Às vezes, todos.

Resumindo, Lula está certo em condenar o denuncismo, mesmo que ninguém o defenda. Erra quando joga quase todo o peso de suas críticas sobre a imprensa.

Em tempo, uma pequena contribuição. No discurso aos arapongas, o presidente disse que o denuncismo não contribui com a democracia; adiante, fala em fatos verdadeiros. Foram dois lapsos: o verbo ‘contribuir’ trabalha com a preposição ‘para’. Contribui-se para, colabora-se com. E todo fato é verdadeiro, ou fato não seria.

De nada — e que o presidente não se avexe: nossa gloriosa mídia comete esses erros todo dia.’



Walter Ceneviva

‘Denuncismo entre o estilingue e a vidraça’, copyright Folha de S.Paulo, 17/7/04

‘Estou de pleno acordo com o presidente Lula da Silva quando diz que o denuncismo não é bom para a democracia. Digo mais: o denuncismo interessa ao culpado e ofende o inocente. Antes, porém, é preciso que nos entendamos, pois denuncismo não se encontra nos dicionários. A informação responsável, com base em fatos pelo menos razoavelmente comprováveis, é a boa denúncia. Constitui dever de todo cidadão. A informação desprovida de veracidade mínima ou desacompanhada de qualquer elemento de prova, em particular quando difundida por órgãos da mídia, é denuncismo.

Denuncismo, portanto, é a informação escandalosa, sem base, transmitida aos meios da comunicação social, em particular a televisão, para prejudicar alguém. Favorece o culpado e sacrifica a sociedade. A longo prazo, trará prejuízos irreparáveis para a mídia, com a reiterada condenação dos inocentes queimados pelo fogo do escândalo público antes de terem reconhecida a inocência. São prejudicados pela nossa tendência de dar crédito ao que dizem de mau a respeito de alguém.

O dano é conseqüente de outro mal contemporâneo: o declaracionismo. A mídia ouve alguém provido de alguma autoridade pública sem exercer adequado juízo crítico sobre os fatos serem verdadeiros ou falsos. Basta a convicção de ter sido correta a reprodução do declarado. Isso, porém, é insuficiente. Bom jornalismo checa a informação, verifica os dados, ainda que a apuração integral surja no dia seguinte, e se corrige. O mau jornalismo, sob a desculpa da urgência do fechamento, reproduz a declaração e se esquece de a corrigir.

O ‘New York Times’ e esta Folha, há algum tempo, deram bom exemplo desse erro e tentaram corrigi-lo. O jornal americano, por ter acolhido informações do governo Bush sem as apurar, admitiu, em editorial, que foi na onda da patriotada irresponsável para só muito depois constatar que as informações eram baseadas em dados falsos. A Folha acolheu dados aparentemente verdadeiros sobre índices de mortalidade no Brasil. Não eram. Corrigiu-os não em simples nota de ‘erramos’, mas em reportagem reconhecendo a insuficiente verificação feita sobre os dados recebidos. Contudo, no dia-a-dia da notícia, isso raramente acontece, no Brasil e no resto do mundo, sobretudo quando o atingido é pessoa qualquer, é um ‘uomo qualunque’, como diria Papini, o joão-ninguém.

Além de ofender a presunção constitucional da inocência, o denuncismo e sua contraparte, o declaracionismo, geralmente atingem e denigrem as famílias dos denunciados, crianças inocentes nas escolas, parentes no serviço e até amigos em geral. Já o disse e repito: estou com Lula da Silva na crítica referida de início, mas uma ressalva é necessária. Alguns dos modos pelos quais o presidente chegou ao poder foram o declaracionismo e o denuncismo, feitos por companheiros seus quando eram oposição, ajudados pela desatenção da mídia no verificar cuidadosamente as informações prestadas. Nem todos os seus companheiros foram por esse caminho, seja reconhecido. Lembro os Josés (Genoino e Eduardo), as ex-petistas Luiza e Heloisa. Foram exceções louváveis, assim como o próprio Lula. Um dos traços mais fortes da crítica ao denuncismo tem conteúdo ético, só percebido quando se sofrem seus efeitos. Não há nada como um dia depois do outro para perceber a diferença entre ser estilingue ou atiradeira e ser vidraça. Ser vidraça é muito chato. Lula tem razão.’



Romoaldo de Souza

‘Lula critica imprensa ‘denuncista’’, copyright Jornal do Brasil, 14/07/04

‘O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou a posse do novo diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Mauro Marcelo Lima e Silva, para criticar o que chamou de ‘denuncismo’ da imprensa. Lula afirmou que os veículos de comunicação divulgam ‘informações precipitadas’, difamam pessoas, deixam vazar informações sobre o governo e, depois, ‘não se prova nada e ninguém pede desculpa pelo estrago’.

– O denuncismo não contribui com a democracia, como alguns pensam. Uma denúncia só pode se tornar pública quando estiver embasada em fatos verdadeiros e totalmente comprovados – receitou o presidente.

Lula reconheceu que ‘ninguém vai pedir atestado de idoneidade’, mas recomendou ao novo chefe da Abin humildade e mais capacidade de ouvir do que de falar. O presidente lembrou que, numa instituição ‘poderosa’ como a agência, o profissionalismo é imprescindível e afirmou que não vai tolerar atitudes ideológicas, partidárias, religiosas ou ‘futebolística’. Brincando, abriu duas exceções, ‘para o Corinthians e para o Vasco da Gama’, seus dois times.

– Sei que tem muita gente aqui com cara de flamenguista, mas no exercício da função é importante que, antes de tudo, prevaleça o alto grau de profissionalismo – pediu.

Lula também elogiou as Forças Armadas e disse que, nos 18 meses de governo, tem aprendido a conviver ‘não apenas com o general Jorge Amando Félix (chefe do Gabinete de Segurança Institucional), mas com os comandantes e outras personalidades’ ligadas à Defesa.

– Passei parte da minha vida respondendo como eu ia conviver com os militares. Toda vez que estava perto de ganhar uma eleição alguém dizia: Eles não vão deixar. Hoje estou consciente do profissionalismo, da dedicação e do patriotismo que vocês têm – revelou.

Delegado da Polícia Civil de São Paulo, Mauro Marcelo Lima e Silva incorporou as metáforas de Lula ao assumir a Abin ontem. Assegurou que não vai remexer ‘os fantasmas do passado’ e prometeu ‘total engajamento’ com a Polícia Federal ‘na troca de eventuais informações’ no inquérito que investiga as ações do ex-assessor do Palácio do Planalto, Waldomiro Diniz.

Palmeirense, o ‘beque central’ Mauro Marcelo disse a Lula que não será surpresa se ‘no fim do jogo, a torcida pedir bis’, em referência clara à reeleição do presidente.

– Se este governo fosse um jogo de futebol, estaríamos aqui a 34 minutos do primeiro tempo. Tem muito jogo pela frente, senhor presidente. Nós já fizemos muitos gols. É verdade que também tomamos alguns cartões amarelos. A maior parte do estádio está a nosso favor, tem uma pequena torcida muito barulhenta. O jogo é duro, já tomei algumas caneladas antes mesmo de entrar em campo, mas estou assumindo minha posição. Temos de nos antecipar a jogadas e jogar as bolas nos pés do capitão do time para fazer o gol. Vamos ganhar de goleada e, no fim do jogo, a torcida vai gritar ‘é campeão’ – exagerou.

Na entrevista coletiva, o delegado afirmou que a principal meta é que a Abin ‘se antecipe’ para que o governo não ser surpreendido em nenhum momento. O delegado citou o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho, os dois últimos, grupos que atuam dentro dos presídios.

– O MST não é problema para a Abin. O problema é a questão agrária, que precisamos acompanhar. Da mesma maneira que o PCC e o Comando Vermelho não são problemas para nós, mas a segurança pública. É importante se antecipar aos problemas e conseguir traçar uma estratégia para decisões governamentais.

O delegado afirmou ainda que pretende ‘acabar com o manto do segredo’ que cerca as atividades de inteligência no Brasil, garantindo que, ‘dentro dos limites’ terá com a imprensa e a sociedade uma relação de transparência.

– Esse manto de segredo que se põe sobre a atividade de inteligência é que acaba aumentando a desconfiança do que se faz – reconheceu Marcelo.

O chefe da Abin afirmou ter identificado ‘uns cinco grupos’ na agência, mas já conseguiu que todos ‘fumassem o cachimbo da paz’. Entre esses grupos, Mauro Marcelo citou os sindicalistas e ex-funcionários do extingo Serviço Nacional de Informação (SNI), entre outros.

– Não quero afirmar que haja uma situação de conflito, mas há um descompasso que prefiro denominar de fagulhas numa oficina de trabalho – ponderou.

O novo chefe da Abin tornou-se amigo de Lula em dezembro de 1994, quando era delegado de polícia no ABC Paulista.

Na ocasião, Mauro Marcelo intermediou a solução do seqüestro do estudante Marcelo Teixeira, filho do advogado e compadre do presidente, Roberto Teixeira. O refém foi liberado depois de duas semanas no cativeiro e a polícia garantiu que não houve pagamento de resgate.’



Jornal do Brasil

‘Rotina de farpas e reclamações’, copyright Jornal do Brasil, 14/07/04

‘Desde que Lula assumiu o poder, em 2003, a imprensa tem revelado episódios que inquietam o Palácio do Planalto. Na complicada relação com os meios de comunicação, o presidente se equilibra entre elogios e cobranças. Em abril, chegou a cobrar, diante de uma platéia de jornalistas, mais ‘lealdade’ por parte de jornais, revistas e emissoras de rádio e TV.

– Tem gente que gosta de carregar nas coisas que falamos – reclamou.

O ministro Luiz Gushiken, da Secretaria de Comunicação Social do governo, é mais duro nas críticas. Sugere que a imprensa ‘opera com o raciocínio de explorar o contraditório e isso fomenta a discórdia quando, na verdade, são apenas discussões de idéias’. Irritado, pediu que os jornalistas se concentrem na chamada ‘agenda positiva’ do Planalto. Não foi atendido.

Além do escândalo Waldomiro Diniz, que incomoda o governo desde o início do ano, outros casos ganharam as páginas dos jornais. Em maio, uma reportagem revelou que o empresário brasiliense Mauro Dutra, amigo de Lula, emitiu 54 notas fiscais frias ou irregulares. A fraude contra o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) desviou R$ 800 mil, mas nada foi apurado.

Em junho, a imprensa noticiou que funcionários da Abin recebiam informações de jornalistas que trabalham no Palácio. Os dados, repassados a adversários políticos, eram contra o ministro José Dirceu e a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy. A sindicância ainda não concluiu seu relatório.’



Jornal do Brasil

‘Diferenças relevantes’, copyright Jornal do Brasil, 15/07/04

‘O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia de posse do diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), reafirmou a compulsiva inclinação por discursos de improviso – inevitavelmente tisnados por frases desconexas ou desconcertantes disparates. Não deixa de haver uma vantagem nesse traço de comportamento: Lula escolhe alvos com comovente singeleza e primeiro fala, para só depois pensar. Assim vai ampliando a galeria de curiosidades produzidas pela retórica presidencial. O valor é duvidoso. O acervo se mostra bastante vasto.

Neste espasmo recente, Lula esbanjou irritação com a imprensa brasileira. Estava particularmente aborrecido com o ‘denuncismo’ que enxerga nos meios de comunicação. Esse fenômeno, explicou, resulta ‘na divulgação de informações precipitadas, na difamação de pessoas e no vazamento de dados sobre o governo’. Não é só, queixou-se. ‘No fim, ninguém prova nada e nem pede desculpas pelo estrago’, lastimou o presidente. ‘Essa atitude não contribui para a democracia, como alguns pensam’.

Quanto aos conceitos emitidos, nada a objetar: são endossados por quaisquer profissionais decentes. Manda a ética que só sejam divulgadas notícias com fundamento, que se atire ao lixo o rumor improcedente, que se ouçam as partes envolvidas, que se trate com cautela a honra alheia. Tais regras figuram nos manuais do bom jornalismo (nem sempre respeitados, convém ressalvar). Os mesmos manuais determinam que tudo seja apurado com isenção, independência e autonomia intelectual. ‘Denuncismo’ é pecado a combater: o neologismo embute os riscos da pressa, da precipitação. Denúncia, que dispensa aspas, é coisa bem diferente. Fazê-la, quando pertinente, é dever da imprensa.

Caso pronunciado em outro cenário, outro contexto, outros tempos, o discurso de terça-feira poderia até sugerir que, também neste campo, Lula e o PT amadureceram politicamente. Em mais de 20 anos na oposição, com a freqüente conivência de profissionais das redações, o atual presidente da República e seu partido especializaram-se na prática do que o chefe hoje estigmatiza como ‘denuncismo’ (ou acusação sem provas). Ao desistir de candidatar-se à reeleição nos anos 80, por exemplo, o então deputado federal Lula da Silva informou que contabilizara no Congresso ao menos ‘300 picaretas’. Nunca revelou a lista.

Meses depois de reeleito para o segundo mandato, o presidente Fernando Henrique Cardoso foi acusado pelo deputado José Dirceu de ter cometido delitos tão medonhos que não havia solução além do impeachment. ‘Fora FHC’, berravam petistas sob o olhar paternal do companheiro comandante. Naqueles tempos, Lula acompanhava com prazer o noticiário, marcado por histórias tão injustas quanto algumas divulgadas hoje.

Reflexões tardias, sobretudo ditadas por necessidades políticas, também levam a deduções precipitadas – e ao elogio da bobagem. É esse, evidentemente, o equívoco que permeia o discurso de Lula. Ele não está arrependido dos excessos do passado. O problema é que virou vidraça, e tem sobrado pedras de notável solidez e bom tamanho. ‘Denuncismo’, insista-se, é uma espécie de doença que publicações sérias costumam eliminar. De qualquer forma, o Brasil segue à espera de explicações sobre acontecimentos envolvendo ex-integrantes do governo e membros do PT. Fatos até hoje encobertos pela penumbra.

Não é necessário esperar que réus confessem seus crimes para divulgar notícias. Certas evidências bastam.’

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