Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > QUINTA-FEIRA, 27/12

Lula fala na TV sobre ‘vitórias’ do ano

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 28/12/2007 na edição 465

Leia abaixo a seleção de quinta-feira para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Quinta-feira, 27 de dezembro de 2007


DISCURSO DE LULA
Janio de Freitas


Em boa hora


‘O FIM DE ano (ou o ano mesmo?) está salvo: o presidente vai falar ao país ‘ainda nesta semana’. Estávamos tão ansiosos por ouvi-lo, passado todo este ano de ausência do seu rascante equilíbrio e da veracidade imperturbável, que ficou justificada a reunião ministerial onde surgiu a informação aos presentes, e não surgiu mais nada.


O sempre atento jornalismo noticiou que o presidente fez aos ministros uma exposição dos resultados positivos do ano. A notícia é tão interessante quanto a própria reunião, porque os ministros é que dão ao presidente as informações que acaso tenha do seu governo e, se inevitáveis, do país.


A gentileza do presidente será completa, e ainda mais adequada a um final leve do nosso ano, se a sua fala não for preparada por um daqueles fracotes escribas palacianos, mas de improviso. Bem autêntica e farta, porque essa fase do ano é a estação de seca para o jornalismo.’


 


Sem CPMF, Lula vai à TV com discurso otimista


‘Apesar de já começar 2008 com a pendência de R$ 38 bilhões gerada pelo fim da CPMF, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fará na noite de hoje um pronunciamento otimista, em rede nacional de rádio e TV, sobre as ‘vitórias’ que obteve neste ano e as que espera ter no ano que vem.


Na manhã de ontem, Lula se reuniu com seus principais ministros para preparar o texto final. Decidiu-se que o discurso não deve abordar diretamente derrotas do Planalto em 2007.


‘Vai ser um pronunciamento dividindo com os brasileiros a alegria que [Lula] tem tido com o desempenho do país. Vai ser um presente de Natal. Os dados que serão apresentados apontam para um ano bom’, disse o ministro José Múcio (Relações Institucionais) após a reunião.


‘Ele não vai falar sobre aumento de impostos e cortes. Época de Natal não é de se falar em imposto.’ A gravação estava prevista para ocorrer de manhã. Lula deseja falar principalmente do surgimento de uma nova classe média no país.


Os ministros aproveitaram a reunião de ontem para reafirmar a necessidade de cortes para fechar o orçamento de 2008. De acordo com Múcio, Lula voltou a dizer que não deve haver redução nas verbas do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), do Pronasci (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania) e programas sociais.


Durante o encontro, Lula e ministros decidiram que o projeto de reforma tributária deve ser enviado em fevereiro. Também marcaram para janeiro a nomeação de indicados por partidos aliados para ocupar cargos no segundo escalão.


Na reunião, Lula disse que ‘não tem pressa’ de tomar as medidas, mas que elas devem se concentrar primeiro em cortes de despesas.’


 


POLÍTICA & GOVERNO
Clóvis Rossi


Lições cubanas


‘SÃO PAULO – Vem do Partido Comunista Cubano (quem diria?) lições de democracia para a esquerda brasileira e o PT. Eliades Acosta, chefe do Departamento de Cultura do Comitê Central, postou o seguinte no site ‘Cubarte’: ‘Deve ficar para trás essa prática de silenciar os problemas, em torno da qual nem sempre está a boa intenção de ajudar a revolução, mas também a de preservar cargos ou posições, [além de] posturas acomodatícias e lesivas ao clima ético de uma sociedade’.


Mais: ‘Cuba deve desejar uma sociedade que fale de seus problemas em voz alta, sem temor, em que os meios [de comunicação] reflitam a vida sem triunfalismo, em que os erros sejam ventilados publicamente para buscar soluções’.


A esquerda, brasileira ou internacional, sempre calou sobre a ditadura cubana, usando o argumento de ‘ajudar a revolução’ e/ou negar armas ao imperialismo. Tolice rematada, posto que o imperialismo não precisa dessa arma para fazer o que bem entender.


As observações de Acosta parecem ter sido feitas a propósito do ‘tumor fétido’ que o PT cevou, para usar expressão de Frei Betto. Em vez de encarar os fatos tal como eram, petistas, jornalistas e intelectuais chapa-branca preferiram inventar a teoria estúpida e de má-fé da conspiração da mídia. Como diz Acosta, referindo-se a Cuba, nada mais era do que ‘preservar cargos e posições’, adotando comportamento ‘lesivo ao clima ético de uma sociedade’.


Se ainda resta alguém intelectualmente honesto no PT, que leia o seguinte trecho de entrevista de Canek Sánchez Guevara, neto do Che, ao jornal espanhol ‘El País’: ‘O acriticismo militante foi nefasto para a esquerda. Sem ser crítico, não se pode ir a nenhum lado, se reproduz o pior. Para mim, ser de esquerda não significa estar contra a direita, mas contra o poder, seja quem for que o exerça’.’


 


TELEVISÃO
Eduardo Graça


O bobo da corte


‘Ao deparar-se com o comediante britânico Ricky Gervais, 46, no entra-e-sai de um elevador cenográfico, a primeira reação da reportagem é de surpresa. Ele parece menos redondo do que na TV, na qual criou dois personagens únicos, David Brent, da versão britânica de ‘The Office’, e o acre-doce Andy Millman, de ‘Extras’, indicada ao Globo de Ouro.


Gervais é hoje um midas do humor britânico prestes a estrear em Hollywood. Além das duas séries, que escreve e dirige ao lado de Stephen Merchant, ele estrelou três bem-sucedidas turnês de stand-up comedy. ‘The Ricky Gervais Show’, que o ator comanda ao lado de Merchant e Karl Pilkington, foi o podcast mais baixado em 2007, segundo o ‘Guiness’, enquanto sua série de livros ‘Flanimals’ alcançou a condição de best-seller.


No Youtube, dá para ver Gervais em diversas facetas. Basta fazer a busca por seu nome sozinho ou ao lado de Stephen Merchant, também um excelente provocador de risadas.


‘Não tenho prazer algum em ver meu rosto gordo na tela. Também não me interessa ficar podre de rico e muito menos famoso. O que quero é criatividade, criatividade e mais criatividade. Esta é a recompensa diária que busco o tempo todo’, disse Gervais à Folha, no estúdio onde roda ‘The Ghost Town’, o primeiro filme que protagoniza em Hollywood.


No longa, com Greg Kinnear e Téa Leone no elenco (e que deve estrear no Brasil em setembro), Gervais vive o dentista Bertram Pincus, que ressuscita sete minutos depois de ser declarado morto e passa a ver e ouvir fantasmas.


O diretor David Koepp, que assina o roteiro do novo ‘Indiana Jones’, revelou que tinha em mente Jim Carrey para o papel principal do filme.


A aposta em Gervais, que estréia na direção em 2008, é o reflexo de seu imenso poder de fogo na indústria cultural americana. Seu novo espetáculo cômico, ‘The Out of England Tour’, tem ingressos esgotados em Nova York e em Los Angeles, apesar de as apresentações só acontecerem em julho de 2008. Nem Chris Rock poupa elogios sobre o ator britânico. ‘Gervais é o comediante mais engraçado do planeta’, disse.’


 


‘Meu senso de humor é uma arma’, diz Gervais


‘Exibido amanhã no Reino Unido, o último episódio de ‘Extras’ trouxe um Ricky Gervais ácido, esculhambando as celebridades em uma dura -mas não menos hilariante- análise da televisão atual. ‘De certa forma, encaro meu senso de humor como uma espécie de arma. Minha comédia nasce de meu desejo de desabafar, de subverter o próprio meio em que circulo’, disse Gervais à Folha, em uma conversa que contou com outros jornalistas, no estúdio onde filma ‘Ghost Town’. Leia a seguir os principais trechos:


Comando


Não ter o controle do que eu vou falar, não ter escrito o roteiro do filme, não estar dirigindo, é duro pacas! É barra-pesada para mim não estar no comando, não poder dizer às pessoas o que fazer.


Futuro


Não me vejo como um ator, desses que a gente contrata para fazer um filme. É muito, muito difícil, eu embarcar em um projeto que não seja o meu, sabe? Quando penso em mim profissionalmente, me vejo como um escritor acima de tudo. Um roteirista, um escritor, um cara da caneta e do papel, sabe? Depois vem o diretor e o ator, nessa ordem.


‘The Office’


Gosto muito da versão norte-americana de ‘The Office’. Steve Carrell é sensacional e o personagem é dele, uma outra coisa. ‘The Office’ era um projeto caseiro, mínimo. Nossa pretensão era a de levar para a TV algo que não havia sido tentado antes na Inglaterra. Até resistimos ao fato de sermos aprovados por um canal grande [a BBC], porque temíamos não ter a liberdade para fazer tudo o que pretendíamos. E, ironicamente, ele se transformou neste imenso produto.


Estréia na direção


No ano que vem dirijo meu primeiro filme, ‘This Side of the Truth’. Vai ser passado em uma destas Springfields da vida. Nesta cidade, por uma questão genética, ninguém mente, é um mundo de honestidade completa e absoluta. Mas meu personagem descobre, para horror próprio, que, por conta de uma mutação, ele agora é capaz de mentir.


E isso o transforma em um super-homem! Ele se sente invencível e claro, passa por poucas e boas até aprender algumas lições de vida.


Processo de criação


Com ‘The Office’ e ‘Extras’, o processo de criação foi bem parecido. Eu e Stephen (Merchant) nos reunimos e fomos guardando tudo num gravador. Depois ouvimos de novo, fizemos anotações. Foi assim também quando fomos convidados para escrever um episódio de ‘Os Simpsons’ (em que seu personagem faz uma famosa serenata para Marge).


Estrela de Hollywood


Fala-se muito nesse mito de fazer o protagonista de um filme. Mas aqui eu não faço um típico mocinho de filme de ação ou tento parecer mais novo do que sou. Estou apenas fazendo comédia e encarnando um idiota. O que, modéstia à parte, eu faço bem pacas, né?’


 


Lucas Neves


Carell é força de ‘The Office’, ano 3


‘Ricky Gervais, o bobo da corte da capa da Ilustrada de hoje, fez mesmo escola na arte de talhar personagens socialmente ineptos: a prova é a terceira temporada da versão americana da série ‘The Office’ (lançada recentemente em DVD), que traz um Steve Carell cada vez mais preciso na composição de Michael Scott, o excêntrico executivo a quem é confiada a gerência regional de uma distribuidora de papel.


No ano três, convicto de que está contribuindo para tornar o ambiente de trabalho menos inóspito, ele só faz ampliar seu repertório de embaraços: beija um funcionário gay depois de fazê-lo sair do armário, distribui brindes meia-boca aos empregados da filial absorvida pela sua e submete o estafe a provas à la ‘No Limite’ para apontar seu sucessor.


Oscilando com notável fluência entre olhares de comiseração (em que se lê: ‘o sofrimento da minha equipe é o meu sofrimento’) e largos sorrisos (‘quanto orgulho devem sentir de mim e de minhas idéias’), Carell inscreve seu personagem na galeria dos mais adoráveis picaretas das sitcoms americanas. Não é à toa que o ator já recebeu um Globo de Ouro e duas indicações ao Emmy (Oscar da TV).


Entre os coadjuvantes, a terceira fornada verá o descompensado Dwight Schrute (Rainn Wilson) ganhar concorrência na bajulação a Michael e aprofundar sua relação com a colega Angela -que, à moda de uma Lady Macbeth corporativa, ‘envenenará’ o amante para tomar o posto do chefe.


O ‘vai-não-vai’ de Jim e Pam tem novos desdobramentos com a entrada em cena de Karen, que o rapaz conhece na rápida passagem pela filial de Stamford. Quando as duas unidades se fundem, a convivência com ela deixa Jim balançado. Pam tentará (e não entregaremos aqui nada mais…) virar o jogo no apagar das luzes da temporada.


O escritório Dunder Mifflin está de portas fechadas desde o início de novembro: a série foi uma das primeiras a ter sua produção interrompida devido à greve dos roteiristas em Hollywood. Michael, digo, Carell logo apareceu fazendo piquete em frente a estúdios de Los Angeles. Resta saber quantas faces deixou coradas…


THE OFFICE – 3ª TEMPORADA


Criadores: Stephen Merchant e Ricky Gervais


Distribuidora: Universal


Quanto: R$ 99,90′


 


Folha de S. Paulo


Gloria Maria se afasta do ‘Fantástico’


‘A apresentadora Gloria Maria deixou a apresentação do ‘Fantástico’, da TV Globo. De acordo com uma nota da Central Globo de Comunicação, ela pediu um período sabático de dois anos para se dedicar a projetos pessoais, como escrever um livro, viajar a lazer e se dedicar às aulas de canto.


Gloria estava à frente da atração havia dez anos. Neste domingo, ela será substituída por Renata Ceribelli. Patricia Poeta assume o posto a partir de 6 de janeiro.’


 


ARQUITETURA
Folha de S. Paulo


Jornal ‘The New York Times’ traz críticas a Oscar Niemeyer


‘Num artigo publicado ontem, o jornal americano ‘The New York Times’ faz críticas aos projetos mais recentes do arquiteto Oscar Niemeyer, que acaba de comemorar cem anos.


Uma das obras em questão é o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, cujas ‘superfícies de concreto são cruas e mal acabadas’ e cuja ‘estrutura carece do refinamento cuidadoso’ que deu a suas primeiras obras um sinal de que o ‘arquiteto se importava bastante com as pessoas que iriam habitá-los’.


O artigo cita ainda reformas malsucedidas, como a pintura em branco da estrutura de concreto da catedral de Brasília. Ou o projeto do recém-inaugurado Museu Nacional, também no Distrito Federal. O interior do museu, sem entrada de luz natural, seria ‘uma vergonha para um clima como o do Brasil’, que torna o lugar ‘desconfortável para ver arte’.


O texto termina por louvar que Oscar Niemeyer, já centenário, ainda tenha entusiasmo para trabalhar. Mas diz que desfigurar algo como o eixo monumental de Brasília, de importância comparada a das pirâmides do Egito, é uma ‘tragédia cultural, mesmo se a mão do criador é responsável’.’


 


MEMÓRIA
Folha de S. Paulo


Morre editor da Nova Alexandria


‘Morreu no sábado o editor Nelson dos Reis, 49, fundador das editoras Nova Alexandria e Claridade. Ele estava internado no hospital São Luís e morreu vítima de uma doença auto-imune, contra a qual já vinha lutando há anos. O anúncio foi dado ontem. Hoje, às 20h, haverá uma missa em sua homenagem na Igreja Nossa Sra. da Saúde (av. Domingos de Morais, 2.387).’


 


CINEMA
Mariana Botta


‘Eu gosto é de fazer cinema’, afirma Aragão


‘Com o futuro indefinido de ‘A Turma do Didi’, que era exibido aos domingos na Globo, Renato Aragão investe em novos projetos e já tem trabalhos programados até o fim de 2008.


Neste sábado, às 21h30, vai ao ar o especial de final de ano ‘O Segredo da Princesa Lili’, um telefilme, gravado em alta definição, que está em produção desde agosto. ‘A história é um conto de fadas que se passa nos dias de hoje. A princesa é criada da maneira tradicional, mas sonha em ser cantora. Com a ajuda do Didi, consegue escapar do castelo para realizar seu sonho’, diz Aragão.


Além de roteirizar, produzir e atuar, o humorista é pai da intérprete da princesa, Lívian, 8. ‘Fico emocionado, mas não queria que ela tivesse uma carreira artística agora, e sim que estudasse mais. Mas não tenho como segurar, tive de aceitar, mas fico com o pé atrás’, diz.


Aragão se desdobra para dar conta de outro projeto, o seriado ‘Poeira em Alto-Mar’, que será exibido em cinco episódios em fevereiro, por volta das 17h.


‘Esse seriado será uma loucura, nunca ninguém viu um visual igual na TV. É todo feito em externas, com gravações em um navio, em uma floresta, em praias do Ceará.’ Ele afirma que o ‘Poeira’ é um projeto paralelo, com elenco diferente, e que sua estréia não irá substituir seu programa dominical. ‘Pelo que sei, continuo com a ‘Turma do Didi’ e faço o ‘Poeira’ em situações especiais. O que eu gosto mesmo de fazer é cinema. Se fosse juntar os cinco episódio de ‘Poeira’, daria um filme de mais de três horas’, fala.


Aragão, aos 72 anos, já começou a produzir seu próximo filme, ‘O Guerreiro Didi e a Ninja Lili’, que começa a ser rodado em abril. ‘Nunca li em obituário sobre alguém que tenha morrido de tanto trabalhar. Quando se está empolgado com o trabalho, ele vira prazer. É o que acontece comigo.’’


 


INTERNET
Contardo Calligaris


O saber dos poucos e o dos muitos


‘NAS ÚLTIMAS semanas, revisei manuscritos em inglês e em português. Em português, sou enganado pelo meu passado francófono. Em inglês, meu ouvido está enferrujado.


Nos dicionários, a gente nunca encontra exemplos que confirmem exatamente a legitimidade da expressão que queremos usar. Ou, pior, a gente confia em exemplos antigos e acaba usando expressões esquisitas porque Machado já as usou. Fazer o quê? Posso recorrer à internet. Quero saber se uma regência nominal é ‘boa’? É só digitá-la entre aspas na barra do Google e repetir a experiência com regências alternativas. Adotarei a mais usada.


É claro, dessa forma, a freqüência do uso sempre valerá mais que a regra. Mas, afinal, em matéria de gramática, o que é a regra, se não a formalização do uso?


Por esse caminho, a longo prazo, acabaremos escrevendo à força de clichês, numa língua empobrecida. Não seria muito grave (sempre haverá poetas para inventar novos jeitos de se expressar) se uma coisa parecida não acontecesse com as idéias. Como assim?


Saiu, em 2007, ‘The Culture of the Amateur’ (a cultura do amador), de Andrew Keen. Keen não é um tecnófobo; ao contrário, é uma figura do Vale do Silício e colabora com publicações on-line. Apesar disso (ou por causa disso), ele escreveu uma ata de acusação contra a constituição e a difusão do saber na internet.


Resumindo: estamos na era do darwinismo digital das idéias, em que o jeito de sobreviver é fazer barulho, ocupar espaço. O sonho de uma informação produzida pelos próprios cidadãos, sem intermediários, desaguou no pesadelo de centenas de milhões de cidadãos escrevendo indiscriminadamente sobre qualquer aspecto do passado, do presente e do futuro do mundo (segundo os cálculos de Keen, nasce um blog a cada segundo).


Nunca foi tão fácil plantar notícias falsas e criar consensos ao redor de opiniões estapafúrdias: a difusão multiplica a crença, e a crença dos muitos vira autoridade. Um exemplo: logo depois da inundação de Nova Orleans, as notícias sobre estupros e assaltos no Superdome (onde se hospedavam os refugiados) foram plantadas na net; os jornais acreditaram e repercutiram.


A legislação está perplexa e impotente: mesmo nos EUA, onde é fácil perseguir a imprensa escrita por calúnia, é quase impossível se defender das ‘notícias’ on-line. Quem dispõe de meios técnicos básicos pode manipular qualquer informação, destruir impunemente a reputação de um candidato e por aí vai.


Prova pelo contrário: nos EUA, nas pós-graduações em jornalismo, é regra que nenhum fato pode ser considerado conferido só por ter sido ‘encontrado’, mesmo repetidamente, na internet. As próprias páginas on-line dos jornais são suspeitas: um hacker médio consegue facilmente construir uma ‘sombra’, que imita perfeitamente a página que você imagina estar consultando.


Recebi recentemente, por e-mail, uma coluna ‘minha’ que nunca escrevi. No e-mail, ela aparecia como um ‘copia e cola’ da página on-line do caderno Ilustrada da Folha da quinta anterior. Fato curioso: o texto não afirmava nada de extravagante, nada que eu não pudesse assinar.


Em suma, Keen tem razão. Seus alertas contra o ‘saber’ duvidoso espalhado pelo Google, pela Wikipédia e pela simples proliferação da rede são justificados.


No entanto, seu livro lembra os gritos de alerta que surgiram, no começo do século 19, contra as possíveis perversões da democracia (e, por exemplo, o barateamento do custo da impressão de libelos anônimos). A idéia era que o clamor dos muitos emudeceria a voz dos poucos sábios que, de fato, sabem do que eles falam.


Não há como discordar. Mas resta que, a cada vez que encontro um argumento contra a desordem produzida pela livre e louca circulação de informações e pensamentos, ocorre-me o seguinte: num tribunal, se você for processado um dia, por quem preferirá ser julgado?


Pela expertise (sem ironia) de um juiz ou pela atrapalhada mistura de razões, convicções e sentimentos que animam os membros de um júri popular?


Eu preferiria o júri. Assim como ainda prefiro a bagunça da internet ao privilégio exclusivo de autoridades instituídas. Desejo a todos um 2008 fascinante, confuso e variado como a net -apenas corrigido pela capacidade (e o prazer) de separar, de vez em quando, o joio do trigo.’


 


 


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O Estado de S. Paulo


Quinta-feira, 27 de dezembro de 2007


DISCURSO DE LULA
Vera Rosa


Lula vai à rede de TV hoje exaltar economia


‘Serão cinco minutos de boas notícias. Em pronunciamento que irá ao ar hoje à noite, em rede nacional de rádio e TV, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fará um balanço ufanista sobre as ações do governo neste ano e as perspectivas para 2008. Apesar das dificuldades que o Planalto enfrentará por causa do rombo de R$ 40 bilhões no Orçamento, provocado depois que o Senado impôs grave derrota ao governo ao rejeitar a CPMF, Lula adotará tom de vitória na mensagem de fim de ano.


‘A CPMF é página virada’, disse ele ontem, durante reunião com os ministros que compõem o grupo de coordenação política do governo, no Palácio do Planalto. ‘Os governadores eram a favor da CPMF e mais da metade da bancada do PSDB também, mas foi um jogo. Agora é tocar a vida e tentar melhorar a receita de outro jeito’, completou, cobrando um plano de cortes no Orçamento.


Na lista dos assuntos que Lula abordará no pronunciamento, porém, os obstáculos foram para escanteio. O presidente vai comemorar o crescimento econômico, o aumento do emprego com carteira assinada e os 20 milhões de brasileiros que migraram das camadas mais baixas (D e E) para a classe C, de acordo com pesquisa do Datafolha. Ele dirá que o número de empregos criados neste ano foi o maior da série histórica do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Mais: baterá na tecla do ganho dos salários, da ascensão social, dos investimentos das empresas e do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).


Mesmo sem reeditar a expressão ‘espetáculo do crescimento’ – cuja estréia é aguardada desde 2003 -, Lula insistirá em que o Brasil está preparado para um grande ciclo sustentável. Mesmo intrigado com os possíveis efeitos da crise financeira dos Estados Unidos sobre o Brasil, ele ficou muito animado com informações dando conta de que o Produto Interno Produto (PIB) no terceiro trimestre deste ano foi de 5,7%, maior do que no mesmo período de 2006.


‘Será um pronunciamento otimista, dividindo com os brasileiros os ganhos do País’, afirmou o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro. ‘O presidente vai falar sobre a economia, o crescimento e o momento extraordinário que o Brasil está vivendo.’ O rascunho do texto foi apresentado ontem por Lula aos ministros, na reunião da coordenação política do governo, a última deste ano. Múcio admitiu que o Planalto está preocupado com o impacto da perda do imposto do cheque sobre as contas públicas e reiterou a necessidade de cortes. ‘Mas época de Natal não é época de se falar de impostos’, justificou. ‘Fala-se dos ganhos da economia no cenário mundial, do fortalecimento da classe média… As notícias são alvissareiras, não obstante algumas derrotas e problemas.’


O ministro assegurou que as tesouradas no Orçamento não atingirão a área social, o PAC e o Programa Nacional de Segurança com Cidadania (Pronasci). Embora o discurso do governo seja na linha de que não haverá aumento de tributos, a equipe econômica estuda a possibilidade de elevar as alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). Além disso, é certo o corte nas emendas parlamentares de bancada.


Os ministros da Fazenda, Guido Mantega, e do Planejamento, Paulo Bernardo, devem apresentar a primeira versão das medidas a Lula na segunda quinzena de janeiro.


O presidente aproveitará a mensagem de fim de ano para ‘vender’ as ‘realizações’ de seu governo às vésperas do ano eleitoral de 2008 e agradecer o apoio da população. Em mais uma tentativa de fazer o ajuste entre receita e despesa, o Planalto enviará a proposta de reforma tributária para o Congresso no início do ano legislativo, em fevereiro.


TINTIM


Lula prometeu ontem a produtores de vinhos brasileiros que seu governo vai ajudar a divulgar mais o produto no exterior. Em um evento à noite, na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o presidente disse que o Itamaraty, o Cerimonial da Presidência e as embaixadas vão passar a servir mais vinhos do Brasil em eventos internacionais.


‘Precisamos de mais ousadia’, disse, ao afirmar ainda que o Brasil pode competir em condições de igualdade com países tradicionais na produção de vinho. Ao chegar, brindou com um espumante e comentou que costuma tomá-lo no réveillon. Lula ganhou de presente um balde de gelo e comentou que ‘poderia ter vindo com uma garrafa de vinho’. Em seguida ganhou também um tinto.


COLABOROU LISANDRA PARAGUASSÚ’


 


ROUBO
Felipe Werneck


Ladrões roubam até a roupa de ator da Record


‘Quatro homens armados pararam o Honda Civic do ator André Mattos na noite de sábado na Linha Amarela, via expressa de ligação entre as zonas norte e oeste do Rio. ‘Eles partiram para cima e levaram o meu carro e tudo o que tinha dentro, meus documentos, meu celular e, inclusive, os presentes de Natal que eu tinha comprado para as crianças. Gostaram da minha roupa, do sapato, do relógio e levaram também’, disse o ator da novela Caminhos do Coração, da TV Record, por meio de nota divulgada pela Assessoria de Imprensa da emissora. Ele negou, porém, que tenha ficado nu, como foi publicado ontem na imprensa carioca. Mas não deixou claro se ficou de calça ou apenas de cueca. ‘A cidade está desnuda e desprotegida da segurança que merece.’


Mattos foi reconhecido pelos criminosos – ele trabalhou em novelas como Senhora do Destino e na minissérie O Quinto dos Infernos, da TV Globo. ‘Os homens me reconheceram e disseram para eu entender o lado deles. Disseram que iam resolver algumas coisas e devolveriam o carro. Cheguei a ligar para o celular que ficou no carro, mas eles não atenderam.’


O ator, de 46 anos, estava a caminho de Juiz de Fora, Minas, onde costuma passar o Natal com a família. O crime ocorreu por volta das 19 horas. ‘Depois, fui à 21ª Delegacia de Polícia, onde prestei queixa. A gente sempre trata a violência com distância até o dia que ela se apresenta cara a cara. Tudo o que é bem material pode ser levado, o importante é a vida. Graças a Deus minha mulher e minha filha estavam em outro carro e nada aconteceu com elas.’ Procurado pela reportagem, ele não quis dar entrevista.’


 


TELEVISÃO
Shaonny Takaiama


Globo vende mais no exterior


‘O ano de 2007 foi pródigo em vendas para a Globo TV Internacional. Ao todo, foram vendidas 48 produções para 50 países, traduzidas para 22 idiomas. Foram mais de 23 mil horas licenciadas para o mercado internacional nos cinco continentes.


A Globo TV Internacional já tem um forte posicionamento em Portugal – onde a SIC (emissora portuguesa) exibe todas as suas novelas -, na América Latina e no Leste Europeu. O grande destaque do ano foi a entrada da Globo TV Internacional nos mercados asiáticos e norte-americanos. Neste ano, China, Macau, Índia e Vietnã puderam conhecer as produções da Globo.


A novela Da Cor do Pecado foi negociada com a Tianjin TV Station, reabrindo o mercado chinês depois de quase 30 anos.


Também foi fechado um acordo com o canal indiano Sahara One que prevê a exibição de 260 horas/ano de novelas da Globo durante os próximos quatro anos. Páginas da Vida e América serão as primeiras produções brasileiras a serem exibidas para os indianos.


Já em Macau, foi fechado um acordo com o grupo TDM que permite a exibição de 261 horas/ano de dramaturgia durante os próximos cinco anos. As produções são exibidas em português com legendas em inglês, visando a atingir o maior número de telespectadores possível. No país já foi exibida a minissérie Os Maias e atualmente está sendo transmitida Da Cor do Pecado. O infantil O Sítio do Pica-Pau-Amarelo foi vendido para a WPP do Vietnã com o nome de Pirlimpimpim.


Nos Estados Unidos, foi fechado um acordo com a rede nacional Telemundo Network para a exibição de América. Ao todo, 13 produções (novelas e minisséries) foram transmitidas no mercado americano, como Alma Gêmea, Porto dos Milagres e Da Cor do Pecado.’


 


 


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