Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > QUINTA-FEIRA, 12/01

Lula manterá Kucinski no
cargo, informa o Estadão

Por Luiz Antonio Magalhães em 12/01/2006 na edição 363

A entrevista do professor Bernardo Kucinski à Agência Repórter Social, reproduzida neste Observatório, continua repercutindo na grande imprensa. Nesta quinta-feira, O Estado de São Paulo informa: ‘O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não afastará o jornalista Bernardo Kucinski da tripla função de crítico interno do governo, crítico de jornais e de jornalistas e de conselheiro pessoal para assuntos relacionados com os meios de comunicação. De acordo com um assessor do Palácio do Planalto, é o próprio presidente quem incentiva Kucinski a fazer críticas a ele (Lula), aos ministros e à forma como o governo se relaciona com a imprensa.’


Outros assuntos que estão nas edições do dia são a TV Digital, na coluna de Luís Nassif na Folha de S. Paulo; a boa audiência do Big Brother Brasil 6 e a polêmica iniciada por Ferreira Gullar no meio cultural, sobre a gestão do ministro Gilberto Gil – ambas no Estadão.


Leia abaixo os textos desta quinta-feira selecionados para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Quinta-feira, 12 de janeiro de 2006


CRISE POLÍTICA
Thiago Guimarães


Duda recebeu do PSDB ‘por fora’, diz tesoureiro


‘O tesoureiro do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) na disputa pelo governo de Minas Gerais em 1998, Cláudio Mourão, reafirmará hoje, em depoimento à Polícia Federal, o caixa dois na campanha daquele ano. Confirmará que o publicitário Duda Mendonça, contratado por Azeredo, recebeu R$ 3,8 milhões ‘por fora’, por meio de empréstimos do publicitário Marcos Valério.


A PF está desde ontem, em Belo Horizonte, ouvindo suspeitos de envolvimento na montagem do caixa dois do PSDB na campanha de 1998. Será o quarto depoimento de Mourão desde o início do escândalo do ‘mensalão’. Ele já foi ouvido por PF, CPI dos Correios e Ministério Público de Minas. A PF e a Promotoria investigam se o caixa dois tucano foi abastecido com dinheiro público.


Mourão reconheceu, em depoimento, que a campanha de Azeredo custou R$ 20 milhões, dos quais R$ 8,5 milhões foram declarados. Afirmou que o caixa dois teve origem em empréstimos obtidos por Valério no Banco Rural.


Mourão disse ontem à Folha que pagou os R$ 3,8 milhões a Duda -o valor do serviço foi R$ 4,5 milhões- de ‘maneira não-oficial’ a pedido do publicitário. Em novembro, Mourão dissera à Promotoria que ele e Valério repassaram dinheiro a Duda.


O advogado de Duda, Tales Castelo Branco, negou a solicitação do pagamento ‘não-oficial’.’


TV DIGITAL
Luís Nassif


TV digital e regulação


‘Um dos nós centrais na discussão sobre a TV digital é o modelo regulatório. Caminha-se inexoravelmente para um quadro de convergência digital, em que diversas mídias competirão pelos mesmos serviços. TVs abertas e fechadas poderão oferecer serviços de telefonia, empresas de telecomunicações estarão aptas a fornecer conteúdo, haverá rádios e TVs transitando sobre protocolo IP (internet), além dos sistemas móveis, como wi-fi e wimax.


Ocorre que o setor, hoje em dia, está submetido a dois documentos legais: para as telecomunicações, a Lei Geral de Telecomunicações, que depende da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações); para a radiodifusão, uma regulamentação das concessões de rádios e TVs, de 1962, que depende do Ministério das Comunicações.


Além das empresas de telecomunicações e de radiodifusão, integram esse mercado empresas de software, portais de internet, datacenters e o mundo da informática em geral. Um bom início de discussão sobre a nova regulamentação será identificar claramente três funções distintas nesse universo de convergência:


a) Produção de conteúdo: nas mãos das redes de rádio e televisão, de produtores independentes em geral, como produtoras de vídeo, rádios comunitárias e TVs educativas.


b) Distribuição de conteúdo: empresas de TV paga, que juntam um conjunto de produção e distribui conteúdo. É o caso da Net, da TVA e da Sky.


c) Operação de rede: empresas que possuem cabeamento ou satélites, trabalhando na infra-estrutura de distribuição. É o caso das empresas de telefonia.


TVs abertas oferecem produção e distribuição. TVs por assinatura oferecem distribuição e operação de rede. Embora exista esse entrelaçamento de funções, as três operações são distintas e merecem regulações específicas.


No Brasil, por exemplo, o modelo da TV aberta é totalmente vertical. As emissoras produzem seus programas, efetuam a distribuição e a comercialização. Cada qual tem sua própria rede de retransmissores e torres de transmissão.


Na Europa, o modelo é diferente, havendo espaço para a produção independente. Na Austrália, em cada grande cidade há uma única torre, que serve a todas as TVs abertas, proporcionando grande economia de escala. Há um único operador de rede para todas as emissoras.


Até agora, a Inglaterra tem o modelo mais bem-sucedido de regulação da convergência digital. A autoridade reguladora não dá uma licença específica para telecomunicações. Limita-se a gerir o espectro de freqüência. O concessionário recebe uma licença única e pode operar no que quiser, distribuindo conteúdo, voz ou dados.


A partir daí, há marcos regulatórios específicos para cada atividade. Os produtores de conteúdo são sujeitos às leis de proteção dos consumidor; os operadores de rede, a parâmetros técnicos. Com essas definições, desata-se o nó da disputa entre teles e televisões, permitindo caminhar para um modelo de parceria.


Não é à toa que Carlos Slim, o mais bem-sucedido empresário do continente, tenha se associado à Globo, produtora de conteúdo, à Net na distribuição, tenha adquirido a Embratel, operadora de rede, e a Claro, de telefonia sem fio.’


TELEVISÃO
Daniel Castro


‘Brasil Urgente’ troca o crime pelo social


‘Único sobrevivente dos jornalísticos nacionais de ‘mundo cão’ após a extinção do ‘Cidade Alerta’ (Record) e do ‘Repórter Cidadão’ (Rede TV!), o ‘Brasil Urgente’ (Band) vai mudar radicalmente neste mês. O programa manterá o nome, mas o noticiário de crime será reduzido a ‘quase nada’.


O programa, atualmente exibido entre 18h20 e 19h20, com três pontos de média no Ibope (já deu mais do que o dobro disso), também terá novas vinhetas e cenário _sai o vermelho ‘sensacionalista’ e entram o verde e o amarelo. Ontem, o apresentador José Luiz Datena fez o primeiro teste.


O novo ‘Brasil Urgente’ investirá mais em noticiário geral, de serviço (como trânsito nas grandes cidades) e no que vem sendo chamado na Band de ‘pautas sociais’: reportagens sobre o drama dos aposentados, má qualidade dos serviços públicos (principalmente hospitais) e desemprego.


Diretor de jornalismo da Band, Fernando Mitre relativiza as mudanças. ‘A identidade do programa não vai mudar. O ‘Brasil Urgente’ entra numa nova fase, passará por um aperfeiçoamento, terá seu horizonte ampliado, o conteúdo enriquecido e explorará o potencial de Datena’, afirma.


Mitre admite, no entanto, que o noticiário de polícia será reduzido, porque entrarão novos assuntos no lugar, mas o tema ‘segurança pública’ continuará ‘importante’. ‘O programa terá muito mais qualidade’, diz.


OUTRO CANAL


Fornada Os repórteres Silvestre Serrano (Globo SP) e Emerson Ramos EPTV) são os primeiros ‘globais’ confirmados no novo ‘Jornal da Record’. O experiente Valdir Zwetsch _que já passou pelo ‘Jornal Nacional’, ‘Jornal da Band’, Cultura e estava na Rede 21_ será o editor-chefe, o número um do telejornal.


Festa Pelo segundo ano consecutivo, o Sony foi líder de audiência no horário nobre da TV paga (das 19h às 24h) entre as pessoas das classes A e B de 18 a 34 anos, o público que realmente importa aos canais de séries. Nesse ‘target’, superou o Warner Channel (seu principal concorrente), a MTV, o SporTV e o TNT.


Raiz Vinícius Valverde, o repórter que apareceu entrevistando os participantes de ‘Big Brother Brasil’ na entrada da casa, já é velho conhecido de J.B. de Oliveira, o Boninho, diretor do ‘reality show’. Substituto de Renata Capucci (que está de licença), Valverde é da TV Vanguarda Paulista, onde é chamado de ‘o Jô Soares do Vale do Paraíba’. E Boninho é um dos sócios da Vanguarda.


Trash total Se você acha que o ‘Big Brother’ que vai ao ar na TV é baixaria, então não perca seu tempo visitando o site oficial do programa. ‘Notícia’ das 9h20 de ontem: ‘O vaso está ‘craudiado’. Referia-se à ‘superlotação’ do único vaso sanitário da casa, seguida de uma descrição detalhada desse tipo de ‘conteúdo’.’


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O Globo


Quinta-feira, 12 de janeiro de 2006


CRISE POLÍTICA
Bernardo de la Peña


BB muda ações de marketing após escândalo


‘Seis meses depois da saída do ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, em meio a denúncias de envolvimento com o empresário Marcos Valério de Souza, o Departamento de Marketing do maior banco do país, que no ano passado teve um orçamento de R$ 300 milhões, está concluindo um processo de reestruturação que prevê mais controle sobre os gastos na área de publicidade, promoções e patrocínios.


Como uma das ações do pacote de 12 medidas, o diretor de Marketing do BB, Paulo Rogério Caffarelli, que assumiu em julho, vai reduzir os gastos do setor em 20%. Dos 125 funcionários da diretoria de marketing, dez deixaram o banco. Parte deles afastada pelo que a diretoria do BB classificou de desvios de conduta.


– Estamos em meio ao processo de apuração de responsabilidades – disse o diretor de marketing, que evitou dar mais detalhes sobre o assunto.


De 15 gerentes, apenas três permaneceram no cargo


No processo de reorganização, entre os 15 gerentes, apenas três permaneceram em seus cargos. Os outros trocaram de departamento ou foram remanejados. Dos seis gerentes-executivos, que ficam diretamente subordinados ao diretor, apenas dois permaneceram.


O BB também está renegociando os patrocínios na área esportiva, que consumiram R$ 40 milhões em 2005.


– Nós nos damos ao direito de avaliar a performance dos atletas que o banco patrocina – afirmou o diretor.


Normas e procedimentos da diretoria também foram revistos. Após rescindir contrato com a DNA Propaganda, agência de Valério, o BB ficou com duas agências e até o fim de março pretende concluir a licitação para contratar outras duas. O processo está sendo conduzido diretamente pelo Departamento de Logística. Os pagamentos referentes aos gastos da área de marketing também passarão a ser feitos por outro setor, que vai conferir se os serviços foram prestados e a sua qualidade.


A idéia com a contratação das novas agências é não encomendar todos os serviços de produção de peças publicitárias e de brindes. No caso dos produtos padronizados, o banco poderá fazer encomendas diretamente aos fornecedores. Já para a produção de peças publicitárias, por exemplo, quando as agências são obrigadas a apresentar pelo menos três orçamentos ao BB, a diretoria de Logística ficará responsável por aprovar o levantamento de custos.


Os eventos que eram contratados por intermédio das agências também não serão mais feitos desta forma. O BB pretende usar a BBTur, subsidiária do banco, para realizar os eventos de pequeno e médio porte e fazer uma licitação para contratar quatro empresas que atuam especificamente na área.


Os três centros culturais do Banco do Brasil também terão de reduzir os seus custos – no ano passado foram R$ 32 milhões – em 30% em 2006. O banco contratou ainda uma empresa para auditar se os preços dos eventos culturais patrocinados pelo BB correspondem aos de mercado.’


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O Estado de S. Paulo


Quinta-feira, 12 de janeiro de 2006


ENTREVISTA DE KUCINSKI
João Domingos


Lula mantém assessor que criticou sua relação com jornais


‘O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não afastará o jornalista Bernardo Kucinski da tripla função de crítico interno do governo, crítico de jornais e de jornalistas e de conselheiro pessoal para assuntos relacionados com os meios de comunicação. De acordo com um assessor do Palácio do Planalto, é o próprio presidente quem incentiva Kucinski a fazer críticas a ele (Lula), aos ministros e à forma como o governo se relaciona com a imprensa.


Em entrevista à Agência Repórter Social (www.reportersocial.com.br), Kucinski criticou o fato de Lula não falar com jornalistas. Professor de Jornalismo da USP (licenciado), ele é assessor especial da Secretaria de Comunicação. Goza de imunidade, porque sem ela jamais poderia fazer diariamente a sua Carta Crítica – boletim confidencial para Lula no qual analisa os meios de comunicação, o comportamento do governo e do presidente -, disse o assessor do Planalto. Por isso, informou o auxiliar presidencial, a entrevista será considerada extensão da atividade de Kucinski no dia-a-dia. No ano passado, numa Carta Crítica, Kucinski atacou o relacionamento entre Lula e o ex-ministro José Dirceu. ‘As divergências entre o presidente e Dirceu estão pegando muito mal’, escreveu. Antes, havia batido no ministro da Fazenda, Antonio Palocci. O jornalista está de férias. ‘Não sei ainda a repercussão da entrevista’, afirmou ao Estado.


A ligação de Kucinski com Lula vem desde quando o hoje presidente era sindicalista, em São Bernardo. Em 1998, passou a fornecer a Lula análise sobre a relação do presidente com a mídia, embrião da Carta Crítica.


Kucinski traduziu assim a sua relação com Lula: ‘Ninguém tem coragem para dizer a verdade claramente ao presidente e eu digo’. Sobre a relação de Lula com a imprensa, disse: ‘Sempre foi muito ruim. Ele sempre foi muito maltratado pela imprensa, tirando alguns períodos. Os jornalistas não aceitam um líder político que não tenha diploma.’ Apesar disso, afirmou que o presidente precisa falar com os jornalistas. ‘Lula não soube dissociar sua pessoa, o político perseguido, da figura do presidente, que tem obrigação institucional de receber a imprensa. Lula eliminou a necessidade da imprensa. Ele fala nos discursos e não se submete a questionamentos.’’


POLÊMICA CULTURAL
Beatriz Coelho Silva


‘Bravatas de esquerda migraram da economia para a cultura’


‘O compositor Caetano Veloso está surpreso com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Ele diz que não apostou no sucesso, mas considera o desempenho aquém de suas poucas expectativas. E acredita que as eleições de outubro mudarão os titulares do poder. Caetano poupa o ministro da Cultura, Gilberto Gil, companheiro de mais de quatro décadas, mas acha que o tom do diálogo com os produtores de cultura e entretenimento precisa mudar. ‘Não fica bem, sendo parte de um governo que toca a política econômica do ministro Antonio Palocci, falar no tom do Stédile (João Pedro, líder do MST)’, disse ele ao Estado, em entrevista por e-mail.


Com 40 anos de carreira, Caetano afirma que sua atividade independe do governo, mas tem uma história de manifestar suas discordâncias. Começou em 1986, quando Celso Furtado, então ministro da Cultura do governo José Sarney, proibiu o filme Je Vous Salue, Marie. No caso de Gil, acompanha seu trabalho no ministério mais por causa da antiga amizade entre ambos e também porque ‘as bravatas de esquerda migraram da economia para a cultura. Aí a gente fica mais solicitado’. A seguir os principais pontos da entrevista:


MINISTÉRIO DA CULTURA


‘Não acompanho muito. Recentemente me senti no dever de comentar a resposta dada a Ferreira Gullar pelo assessor do ministro (Sérgio Sá Leitão). Faz tempo, dei palpite na discussão entre Cacá Diegues e os redatores do projeto da Ancinav (Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual). Nos dois casos, estava contra a posição do ministério. Observo mais por ser amigo de Gil. As questões de financiamento de produção de cinema são complicadas. Mas há argumentos de ordem geral que reaparecem no Ministério da Cultura do governo Lula que eu me sinto instado a discutir. Embora eu não tivesse torcido para Gil aceitar o convite, a simples presença dele dá visibilidade e peso ao ministério, nacional e internacionalmente. E Gil usa isso para atualizar o Brasil nos problemas de novas mídias, na busca de novos caminhos jurídicos para os direitos na era da reprodução digital.’


DIÁLOGO


O que precisa mudar é o tom do diálogo com as classes produtoras de arte/entretenimento, com a opinião pública. Não fica bem, sendo parte de um governo que toca a política econômica de Palocci, falar no tom do Stédile. Isso pode mudar. Eu não vejo por que alimentar essa demagogia da descentralização na produção de cinema. E muito menos a idéia de que se deve partir de um desmonte dos quadros que conseguiram se estabelecer.’


BRIGAS


‘Briguei com Celso Furtado por causa de Je Vous Salue, Marie. Sarney, adulando os padres, proibiu o filme de Jean-Luc Godard. Furtado, ministro da Cultura de Sarney, reagiu aos protestos contra essa proibição – principalmente meus -, desqualificando Godard como artista: ‘É um falso gênio’, disse do diretor. Achei inaceitável e disse isso por escrito na imprensa. (Paulo Sérgio) Rouanet deu nome à lei que gera tanta discussão, mas serviu – e serve – para animar muitas áreas de produção de cinema e teatro. (Francisco) Weffort era um petista que ficou muito apagado no governo Fernando Henrique Cardoso, sobretudo pelo próprio Fernando Henrique, que tinha muito mais pinta de ministro da Cultura do que ele. As decisões sobre a Lei do Audiovisual se deram na era FHC, se não me engano. Mas a gente pensa em FHC, não em Weffort. Agora olho um pouco mais porque Gil é Gil. E, não haja dúvida, as bravatas de esquerda migraram da economia para a cultura. Aí a gente fica mais solicitado. Na concórdia ou na discórdia.’


EXPECTATIVAS


É tão óbvio hoje que errou quem apostou no sucesso do PT que eu já começo a duvidar. Sou um sebastianista. O fato de Lula ser uma figura de peso internacional me interessa porque ele é brasileiro. O fato de ele ser de esquerda foi apenas um instrumento para se atingir isso. Não sou idiota. Não acredito na volta de d. Sebastião nem na respeitabilidade real de Lula no grande mundo. Mas a mera respeitabilidade ilusória, o sonho de amor dos europeus com esse líder operário sul-americano já é uma novidade importante. Sobretudo quando se pensa que Lula é também um mediador entre (George W.) Bush e (Hugo) Chávez.’


ELEIÇÕES


O que vai mudar com as eleições? Os titulares do poder. Se pudermos ter um governo que aproveite o que o de Lula significou de bom, será o céu na terra.


CONTRADIÇÕES


‘No momento, vivemos uma dupla inversão: um governo de esquerda mantém uma política econômica tipo Consenso de Washington. Esse governo, na cultura, tenta fazer gestos revolucionários. O que leva os artistas, majoritariamente de esquerda, a brigarem por apoio ou oposição a esses gestos. São esboços de gestos demagógicos que atrapalhariam a produção, mas nada é implementado propriamente – e, digo eu, felizmente. O projeto da Ancinav era mesmo dirigista. A turma chiou, uns esquerdofrênicos reagiram, mas Lula esvaziou. Sérgio Sá Leitão respondeu a Gullar em tom autoritário. Gil segurou a onda dele. Mas isso não se sustentou. Espero que o próprio Gil, em harmonia com sua equipe, saiba reconhecer isso e mudar de atitude. Para que não seja o Lula a ter que fazer. Uma notícia sobre a grana do BNDES para o cinema faz a gente pensar: nenhum dos produtores que tiveram sucessos nos últimos tempos foi agraciado. Se isso se confirma, certamente teremos conflito pela frente.’


CABO ELEITORAL


Já fiz duas aparições na televisão anunciando a possível candidatura de Roberto Mangabeira. Há muito tempo me interesso pelo que ele diz sobre a política no Brasil. Gosto das idéias dele. E gosto da disposição. Ele acredita que há uma forma criativa e independente de tocar a economia sem se submeter às superstições do neoliberalismo. E, diferentemente do PSDB e do PT, ele não saiu da Rua Maria Antônia. É um filho de baiana (neto de Otávio Mangabeira) que tem – não entendo por quê – forte sotaque americano: é famoso professor em Harvard. Eu pagaria para ver. O Brasil não pode simplesmente desprezar a energia que Mangabeira deseja despender com a solução dos nossos problemas. Quando falam que o vácuo deixado pela decepção com o PT pode ser aproveitado por um aventureiro, eu digo que Mangabeira seria um aventureiro do bem.’’


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Gil bem que tenta, mas crise no ministério não termina


‘Acusação de Gullar deu início a bate-bocas e atropelos


No rastro da crise política que abateu o Planalto, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, tem vivido seus dias mais difíceis no cargo. Após atritos com amigos, artistas e intelectuais, Gil veio a público nesta semana cobrar mais trabalho na convocação extraordinária. Soou como um desabafo, após a sucessão de atropelos, bate-bocas e farpas detonada no fim de 2005 pelo poeta Ferreira Gullar. E, pelo tom da entrevista de ontem do músico Caetano Veloso, o nó não será desatado tão cedo.


No dia 21 de dezembro, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, Gullar atacou a ‘centralização’ da política de Gil. Dias depois, veio a reação do secretário de Políticas Culturais do Minc, Sérgio Sá Leitão, acusando o poeta de defender ‘finados regimes stalinistas’. Gullar revidou, comentando que a declaração soava como um comunicado do extinto Serviço Nacional de Informação (SNI).


Gullar deu por encerrada a polêmica. Mas ela só começava. Em apoio ao poeta, foi enviado ao presidente Lula e a Gil um manifesto endossado por nomes de peso, como a atriz Fernanda Montenegro, o arquiteto Oscar Niemeyer, o escritor João Ubaldo Ribeiro e Caetano.


O próprio Caetano jogou mais gasolina na fogueira na semana passada, quando, em carta aberta, alertou que o ministério do ex-parceiro Gil estaria a ‘um passo do totalitarismo’.


CABEÇA


O ministro não deixou por menos: ‘Peçam minha cabeça ao presidente’, reagiu. Disse que Sá Leitão não fez nada em desacordo com as suas orientações: ‘O que ele fez de errado? Por que não pedem a minha cabeça, em vez de pedir a dele?’ ‘Digam, apontem, o que é totalitarismo no ministério? Totalitarismo? É vago, eu não sei o que é, me digam, eu também preciso saber’, afirmou o ministro.


Apesar do tom firme, Gil defendeu o direito da sociedade de criticar o ministério. E acrescentou que levar o caso adiante seria ‘acirrar confronto artificial’. Ponderou que Caetano estava ‘exercendo papel de cidadão’. ‘Vejo com bons olhos, (Caetano) não é como outros, que fazem críticas e ao mesmo tempo dizem que não acompanham o trabalho’, disse, numa referência indireta a Gullar.


Na sexta-feira, Gullar também quis pôr panos quentes no episódio, dizendo-se surpreso com a permanência da polêmica no noticiário. Voltou a criticar Sá Leitão, mas afagou Gil: ‘Não me passou pela cabeça brigar pessoalmente com Gil, que conheço desde a sua chegada ao Rio, nos anos 60.’


ANCINAV


Por trás da alta temperatura no meio artístico, pode estar o acalorado debate já travado nos bastidores em torno da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav), que expira neste ano. O governo precisa mandar novo projeto para o Congresso e o molde não está definido.


O tema é altamente inflamável. Já em agosto de 2004, os termos de criação da agência desagradaram ao setor do audiovisual. O cineasta e crítico Arnaldo Jabor chegou a dizer que o governo Lula era ‘liberal de dia e stalinista à noite’.’


INTERNET
Renata Cafardo


Google lança site acadêmico no País


‘O Google lançou ontem no Brasil o Google Acadêmico, a versão em português do Scholar, uma ferramenta de busca direcionada à educação. O buscador permite a localização de artigos científicos, trabalhos acadêmicos e outras publicações de instituições e entidades brasileiras como Universidade de São Paulo (USP), Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Ensino Superior (Capes) e Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio). Não há trabalhos em outras línguas traduzidos para o português.


O endereço do Google Acadêmico é o http://scholar.google.com.br. A versão para busca de trabalhos em inglês é acessada pelo http://scholar.google.com.


‘Esperamos que pessoas do Brasil usem, mas também que seja utilizado por europeus e americanos que queiram ter acesso a pesquisas brasileiras’, disse ao Estado o criador do Google Scholar, o indiano Anurag Acharya. A ferramenta existe desde 2004 em inglês e já foi criada também em chinês, sueco, norueguês, finlandês e dinamarquês. ‘Acredito que vai ser útil no Brasil. Os brasileiros já usam muito o Google’, disse Acharya, ao ser questionado da razão de lançá-la no País.


O Google Acadêmico funciona filtrando informações que um sistema de busca comum, como o próprio Google, não faria. Blogs, notícias de jornais e outras fontes não acadêmicas ficam de fora do resultado. Segundo Acharya, o buscador é mais utilizado por estudantes de universidades, pós-graduandos e professores. ‘Mas ele também é útil para pessoas comuns que queiram saber mais profundamente sobre câncer, por exemplo’, completa.


COPIAR E COLAR


A divulgação de informações sem limites proporcionada por sites como o Google fez surgir no País um grande problema para as escolas e universidades. Há algum tempo, tornou-se comum a prática de fraudar trabalhos, copiando e colando textos de sites.


Caio (nome fictício), de 25 anos, conta que usou textos da internet para fazer pelo menos metade de seus trabalho no curso de Publicidade de uma grande faculdade particular. ‘Pegava informações em vários lugares, mudava algumas palavras e imprimia’, diz. Nunca foi descoberto pelos professores. Certa vez, copiou da internet um resumo inteiro de O Príncipe, de Maquiavel, e tirou nota 10.


‘A internet é um facilitador para a escola, o que precisamos é ensinar como lidar com ela’, diz a diretora pedagógica da Escola Cidade Jardim/Play Pen, Celia Tilkian. Para ela, se os professores pedirem aos alunos trabalhos reflexivos e não apenas descritivos, fica difícil copiar da internet.


‘O problema está menos no aluno e mais na proposta feita pelo professor’, concorda o coordenador do ensino médio do Colégio Lourenço Castanho, Wagner Borja. Segundo ele, os casos de cópia da internet são comuns a partir da 8ª série.


Para tentar resolver o problema, o colégio já passou a exigir lições feitas à mão. ‘Pelo menos, dá um pouco mais de trabalho’, diz Borja. Além disso, quando desconfia de um texto com linguagem inapropriada para um aluno do ensino básico, o coordenador procura no próprio Google a informação causadora da dúvida. ‘O buscador acaba mostrando certinho onde a informação estava.’


Essa é justamente a defesa de Acharya para os que dizem que seu Scholar poderia propiciar fraudes escolares. Para ele, cópias de livros de bibliotecas sempre existiram e era até mais difícil para o professor descobrir. ‘Hoje, se a informação foi pega da internet, fica mais fácil achar a fonte da cópia’, explica.


O Google não monitora o uso que é feito dos trabalhos científicos ou artigos disponíveis no Scholar. Mas Acharya diz que não há qualquer problema com violação de direitos autorais. A ferramenta só ajuda a encontrar mais facilmente informações já disponíveis na rede. Mesmo assim, ele conta que entrou em contato com instituições como USP, PUC-Rio e com a Capes, responsável pela pós-graduação no País.


O buscador apresenta os resultados da pesquisa por ordem de importância, assim como faz o Google. São considerados relevantes os artigos mais citados na literatura acadêmica e em que publicação ele pareceu. Sempre que possível, o Scholar busca também o texto na íntegra.


O Google existe desde 1998 e foi fundado pelos estudantes de doutorado da Universidade de Stanford, na Califórnia, Larry Page e Sergey Brin.’


Kate Hilpern


E-mail provoca dependência e pode prejudicar a saúde


‘Se um Blackberry (provedor de serviços de internet) constou de sua lista de pedidos de Natal, você pode estar fadado a um 2006 estressante. Segundo uma pesquisa da Symantec Corporation, espantosos três quartos de todos nós acham o e-mail viciante e prejudicial à saúde. O problema é tão grave que uma em cada cinco pessoas entra na categoria de ‘dependente’.


Estas checam compulsivamente seus e-mails e entram em pânico quando ficam sem acesso. Os dependentes fazem sua primeira checagem já às 6 da manhã e só conseguem dar boa-noite à sua caixa de mensagens à meia-noite, segundo o estudo.


‘O e-mail pode nos trazer grandes benefícios e nos ajudar na vida profissional diária, mas os usuários precisam tomar cuidado com a maneira como o utilizam e a quantidade de tempo que gastam nisso’, diz Lindsey Armstrong, vice-presidente sênior da Symantec. ‘O e-mail jamais deveria ser um impedimento.’


Essa recomendação pode ser inócua quando se considera que 2005 assistiu a um aumento sem precedente do número de mensagens com que as pessoas têm de lidar. Nas empresas entrevistadas, o aumento médio do volume foi de 47%.


O resultado é que mais da metade dos indivíduos gasta hoje mais de duas horas enviando e recebendo mensagens, e uma em cada seis gasta seis horas por dia – o equivalente a mais de dois dias de trabalho por semana. Muitas pessoas não deixam de verificar seus e-mails de fora do trabalho mesmo quando estão de férias ou afastadas para tratamento de saúde.


‘Há múltiplos fatores que ajudaram a contribuir para a epidemia de vício em e-mail que estamos vivendo’, diz Lindsey. ‘O e-mail é agora bem mais que uma simples ferramenta de comunicações. Os indivíduos o usam para administrar suas agendas e contatos, delegar ações e até como um registro formal de acontecimentos.’


Os e-mails internos se tornaram uma característica comum na cultura de transferir responsabilidade vigente em empresas. ‘Você não viu o e-mail que eu lhe enviei na semana passada? Estava tudo lá’, é uma resposta comum entre pessoas que tentam cobrir sua retaguarda com os e-mails que enviam.


‘O e-mail se tornou todo um novo playground para administradores maquiavélicos lidarem com toda sorte de problemas’, diz o psicólogo empresarial Andrew West. ‘As pessoas alimentam a idéia de que precisam verificar constantemente seus e-mails para livrar a cara.’


Ele diz que a relação de amor e ódio com o e-mail pode ser difícil de desfazer. ‘Existe um fator confortador em receber e-mails, um sentimento de que as pessoas gostam de você o bastante para enviá-los. Mas os que você não deseja podem deixá-lo muito agitado. É uma relação muito contraditória.’


Uma outra pesquisa revela que nosso vício é tão grande que, às vezes, 30 minutos sem acesso deixam a pessoa irritada. Ou seja, descobriu-se que o e-mail , apesar de todas as vantagens, pode ser um grande catalisador de stress no ambiente de trabalho.


‘O fato de que o dia de trabalho está sendo esticado pela necessidade de administrar o volume crescente de e-mails e de que muitas pessoas sentem que não podem escapar do trabalho mesmo quando estão em suas casas também é ruim para nossa saúde’, diz Guy Bunker, diretor científico da Symantec.’


BBB 6
Etienne Jacintho e Colaborou Shaonny Takaiama


BBB vai bem, mas prejudica JK


‘A estréia da 6ª edição do Big Brother Brasil anteontem rendeu à Globo 45 pontos de média de audiência, segundo o Ibope. A atração teve 63% de participação. O programa começou por volta das 22 horas depois de um longo capítulo da novela Belíssima, que teve mais de uma hora de duração. O primeiro dia do BBB 5, no ano passado na Globo, marcou 46 pontos de média.


A espichada na trama de Sílvio de Abreu só pode ter duas explicações: aumentar a expectativa do público que esperava a estréia do reality show – como ocorre todos os anos – ou a revelação do segredo de Katina (Irene Ravache) por Bia Falcão (Fernanda Montenegro).


Independentemente do motivo para o longo episódio da novela das 9, parte da audiência da emissora foi prejudicada. E os números confirmam.


O ibope da minissérie de Maria Adelaide Amaral, JK, chegou a apenas 27 pontos de média. Uma grande queda, uma vez que JK alcançou cerca de 40 pontos de média por capítulo durante a semana de estréia.


Com a entrada do Big Brother na grade da Globo, não é todo mundo que tem pique para assistir à minissérie que passa a ser exibida bem mais tarde – pelo menos às terças e quintas, quando o reality show tem edições mais demoradas. Essa mudança de horário já afetou a autora Maria Adelaide Amaral em 2004, quando estava no ar sua minissérie Um só Coração.


ESPIADINHA


A estréia de BBB 6 não teve surpresas em comparação aos anos anteriores. Pedro Bial conversou rapidamente com os participantes, que tiveram seus perfis mostrados ao público. Houve o sorteio dos outros dois concorrentes que devem entrar hoje no programa. A única novidade foi a participação de exbig brothers.’


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Agência Repórter Social (www.reportersocial.com.br)


Quinta-feira, 12 de janeiro de 2006


Alceu Luís Castilho


Para Dines, entrevista de Kucinski vai pautar relação entre imprensa e governo


‘O editor do Observatório da Imprensa, Alberto Dines, enxerga uma ‘importância histórica’ na entrevista concedida por Bernardo Kucinski, assessor da Secretaria de Comunicação do governo Lula, à repórter Alice Sosnowski, na Agência Repórter Social. O Observatório tratou do tema em sua edição radiofônica e o levou à manchete da edição on line. Os jornais Folha de S. Paulo e O Globo (coluna Panorama Político), o site Comunique-se e os blogs dos jornalistas Ricardo Noblat e Luiz Weis foram alguns dos que repercutiram a entrevista.


Confira a avaliação de Alberto Dines, enviada por e-mail ao Repórter Social: ‘A entrevista é de uma importância histórica, vai pautar o comportamento do governo com relação à mídia e por isso levar a imprensa a se comportar diferentemente com relação ao governo. Pode-se não concordar com tudo o que Kucinski afirma, mas não se pode ignorar o seu conhecimento, a sua competência e sobretudo a sua honestidade intelectual. Isto é o que se chama ‘observação da mídia’, com o intuito de melhorá-la.


Antes, Dines tinha comentado as declarações de Kucinski no programa de rádio do Observatório. ‘É arrasadora a entrevista do jornalista Bernardo Kucinski à Agência Repórter Social’, disse o experiente jornalista ‘A entrevista é muito mais do que ácida ou crítica. É uma bomba arrasa-quarteirão com efeitos imprevisíveis.’


Segundo Dines, ‘é importante demarcar esta atuação rigorosamente honesta de Bernardo Kucinski da cruzada macartista de alguns articulistas de semanários que hoje procuram desmoralizar jornalistas e a própria imprensa apenas para ganhar os seus 15 minutos de fama’, afirma, referindo-se ao colunista Diogo Mainardi, da revista Veja. ‘Pode-se não concordar com tudo o que afirma Kucinski’, diz. ‘Mas uma coisa é certa: ele tem autoridade moral para falar sobre imprensa.’’


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