Segunda-feira, 25 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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ENTRE ASPAS > CRÔNICA ESPORTIVA

Marcelo Russio

15/02/2005 na edição 316

‘Olá, amigos. Sempre muito lúcidas as colunas de Soninha na Folha de São Paulo. Gosto muito do seu ponto de vista e das suas abordagens sensatas a temas dos mais diversos. Nas últimas, li algo que me chamou a atenção. Será que a torcida do Corinthians não cansa de ver seu presidente sendo desmentido a torto e a direito após cada declaração? Será que não existe algo que se possa fazer pra que o seu presidente pare de se enrolar a cada pergunta feita?

Uma hora ele se engana sobre a duração do contrato de Tévez, depois fala de um investidor que a MSI diz que não existe. Mostra-se deslumbrado com dinheiro em profusão como se ser milionário ou bilionário significasse idoneidade e honestidade. Em seguida, critica a MSI e já se noticia que foi acionado um escritório de advocacia para estudar o rompimento com a MSI, pelo contrato, que era excelente para o clube, agora não ser mais tão excelente assim.

A sugestão dada, para que se contratasse um intérprete para Alberto Dualibi, foi uma das melhores dos últimos tempos.

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Depois de algum tempo o Ministério do Trabalho avisa que o iraniano Kia Joorabchian, cappo da MSI no Brasil, terá de seguir os trâmites legais para abrir uma empresa etc… Será que só agora eles viram que o cara estava na situação em que está? Não leram jornais nem assistiram a TV? Há quanto tempo Kia circula no Brasil dizendo que ele é quem assina cheques e contrata jogadores para o Corinthians? Por que a demora em verificar se a sua situação no país é legal ou não?

É por essas e outras que a burocracia segue emperrando um país inteiro. Em países mais organizados e desenvolvidos essa averiguação seria rápida, e o iraniano já teria tudo regularizado ou teria sido convidado a fazê-lo antes de exercer qualquer cargo no país. Uma coisa ou outra, mas de forma rápida e eficiente.

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O jogo entre Brasil e Hong Kong foi caça-níqueis sim, ninguém duvida. Joseph Blatter ter vindo a público dizer isso, no entanto, chega a ser ridículo. O presidente da Fifa precisa opinar sobre os amistosos comerciais de seus afiliados? Não. Precisa dar pitaco sobre o modelo de negócios dos patrocinadores da Seleção Brasileira e de sua patrocinada? Também não.

Mas ficar bem com os clubes europeus é uma boa pra ele, né? Ainda mais tendo um Mundial Interclubes no fim do ano no Japão com clubes dos quatro cantos do mundo. Logo, critica-se um amistoso do Brasil com Hong Kong lá na Ásia, e esquece-se do antigo discurso da Fifa, de desenvolver o futebol em centros de menor tradição.

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Por falar no amistoso do Brasil, Cléber Machado bem que poderia ter tomado um cafezinho antes de ir pra transmissão, pra acordar. Ele chamou Hong Kong de China e/ou Coréia uma dúzia de vezes, até se cansar e dar uma bronca em si mesmo no ar. Mas deu bronca apenas quando chamou Hong Kong de Coréia. As vezes em que chamou de China passaram em branco.

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Leio que a imprensa presente ao amistoso entre Brasil e Hong Kong brincou de levantar a taça da partida, esquecida lá pelos jogadores e pela comissão técnica, como se estivessem comemorando a conquista da Copa do Mundo. Tem colega que não perde a chance de pagar um mico…

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Pra finalizar, a imprensa espanhola diz que Luxemburgo é um baita técnico, mas que não se entende uma palavra do que ele fala. Segundo os jornais locais, o pior mesmo é quando ele fica nervoso. Aí, segundo eles, nem adianta tentar entender, porque a coisa segue para o campo do Luxemburgonhol.

Cabe aqui a pergunta: por que raios o Real não contrata um intérprete para o seu técnico até que ele tenha condição de falar em público. Ou eles acham que o Luxemburgo fala espanhol como só ele acha que fala?’



LÍNGUA PORTUGUESA
Deonisio da Silva

‘Eles falam assim. E nos representam!’, copyright Jornal do Brasil, 14/02/2005

‘O Congresso deve providenciar algumas oficinas de língua portuguesa. Pelo menos para evitar vexames como os que seguem. Afinal, respeitada a vontade popular que elegeu parlamentares tão despreparados, resta à elite que dirige a Casa ocupar-se de qualificar os colegas.

Quem ensina português ensina a pensar, não apenas a falar e a escrever. E que dizer de quem não aprende a língua portuguesa e vai exercer ofício em que ela é ferramenta de trabalho indispensável para fazer leis que todos devem cumprir?

É o caso de muitos parlamentares que, em intervenções estapafúrdias, mostram que não dominam a norma culta do idioma nacional. Mais do que isso, infringem comezinhas regras de lógica, falando sem sentido e assustando os ouvintes.

Pior do que a ignorância de sua ferramenta de trabalho e a insensatez dos arrazoados, é, porém, a arrogância que acompanha alguns juízos, como o deputado que, defendendo ‘emendas fisiológicas e paroquiais’, disse o seguinte: ‘ó, ignaros e rudes, não compreendem que o povo mora nos municípios e não no estado e na nação!’.

Pensando bem, além da oficina de português, é indispensável também um breve apanhado de noções clássicas do que se entende por Estado, Nação, União, e estado, município, região, pelo menos para que saibam diferenciar as designações.

A Igreja Católica, de cuja organização Sua Excelência retirou o conceito de paróquia, rebaixou bastante a formação dos sacerdotes, mas ainda não se deixa representar por quem confunde diocese com paróquia, ou capela, sua subdivisão, com o Vaticano.

O mesmo parlamentar, fazendo elogio fúnebre, disse do morto o seguinte: ‘homem antítese, dele se pode dizer que aumentou a população ao nascer e reduziu-a sensivelmente ao desaparecer’. Nenhum dos presentes ousou explicar a declaração do colega.

Um senador deu curiosa aula de literatura brasileira. Comentando o romance Iracema, de José de Alencar, fez a exegese da abertura e concluiu que a virgem dos lábios de mel era piauiense: ‘além, muito além daquela serra que ainda azula no horizonte, só pode ser o Piauí’.

Outro deputado, em ataque de modéstia inaudita e incompreensível, começou assim: ‘estou profundamente decepcionado comigo mesmo’. Até aqui, tudo bem, mas a emenda arrasou o soneto: ‘reduzi-me, gradualmente, a uma figura microscópica, pela impossibilidade de ser, e como gostaria de ser o que já fui e o que o penso que deveria ser’. Eis um dos terríveis resultados da supressão da análise sintática nas aulas de português!

Inconformado com a falta de cortesia, um deles comparou os colegas a bichos: ‘uns passavam pelos outros sem se cumprimentar, como que animais. Aliás, os animais ainda se cheiram…’

Tendo deixado de apertar o botão que mostraria seu voto no painel, um deles justificou-se ao presidente da Casa: ‘fui criado no sertão, trabalhando na enxada, e não consigo mais colocar a impressão digital com o indicador’. Qual a ligação entre o trabalho anterior e o atual? Não teve tempo de fazer os nexos devidos, pois sua preocupação era outra: ‘pergunto como ficará minha situação, pois, de tanto montar jegue e trabalhar no sítio, perdi a impressão digital e talvez não possa mais nem ir aos Estados Unidos, país que exige identificação’.

Interlocutores e leitores concluam onde estava localizado o dedo do nobre parlamentar.

E alguns deles se apresentaram aos eleitores como professores e doutores! Quer dizer, antes dos eleitores, houve gente qualificada que, por ignorância ou perfídia, outorgou-lhes diploma de curso superior.’



CRÔNICA
Carlos Heitor Cony

‘Itinerário alternativo de sucesso’, copyright Folha de S. Paulo, 11/02/2005

‘Sempre acreditei em mim. Tinha a certeza de que, um dia, o mundo, o povo, todos compreenderiam o meu valor. Foi assim que, desde criança, comecei a tocar violão, pandeiro, fagote e guitarra elétrica. Com tanta mistura e tantos caminhos abertos para o meu futuro, impossível que não desse certo num deles, ou em todos, como era do meu desejo. Mesmo assim, custou-me chegar ao ponto ótimo que pretendia. Não me desesperei. Trazia na testa o sinete da vitória.

Nem me surpreendi quando, aos 24 anos, finalmente os caras me descobriram. Durante muito tempo, eu denunciava sempre que podia e mesmo quando não podia a deslavada decadência da música popular brasileira. Tirando eu, o Manteiga e o Edu, que já tocou num show do Ricardinho Monteiro, mas logo se vendeu ao consumo e chegou à ignomínia de fazer arranjos para o Roberto Carlos, tudo é porcaria. E digo porcaria para não dizer o que todos dizem: uma merda.

Já gramei muito baixo-astral por aí. Houve tempo em que, para comer, tinha de pedir emprestado aos velhos e aí pintava aquela sujeira toda, eles queriam que eu estudasse para executivo, o velho era amigo de um cara da Petrobras que ganhava os tubos, prometera me contratar e rastrear; não culpo minha família, era careta havia mil gerações, ela achava que artista era tudo drogado, tudo homossexual. Eu dizia aos velhos que nem todo mundo era gay, citava o caso do Vinícius de Moraes, do Pixinguinha, mas eles cismavam com as minhas roupas, com os trecos que eu usava no pescoço e nos tornozelos, não gostavam dos meus amigos, um deles foi proibido de freqüentar a nossa casa porque, no Carnaval de 1998, desfilara na passarela do Paulistinha, no Baile dos Enxutos, vestido de ‘Cleópatra e as Raízes da Floresta Amazônica’ -uma edição gay da revista ‘Fatos&Fotos’ deu a foto em página dupla, foi um escândalo; o pai, que no fundo curtia a revista, ficou possesso, dava gritos na hora do jantar: ‘Esse veado nunca mais põe os pés nesta casa, casa de família!’.

Por simetria, também eram contra a maconha, revistavam minhas coisas e roupas pensando que eu aderira à erva que eles consideravam maldita, nunca desconfiaram que não me passava para droga de fodido, nunca transei com a erva, meu negócio era o pó, mas coroa não entende a hierarquia, quem é quem e o que é o que, nunca puderam me compreender, cheguei a pensar num analista. Tomei informações, me aconselharam um dr. Carneiro, famoso em Ipanema, era analista da Leila Diniz, do Cazuza, de todo o povo eleito.

Para fazer a vontade da turma, transei uma de análise, saí de casa e cheguei a morar com um cara que entendia de Freud, de Lacan, de Hélio Pellegrino, tentei descobrir meu id, meu ego -esses caras que não entendem de nada e não sabem levar ninguém a lugar algum. Uma noite me pegaram na rua, eu procurava a explicação para um complexo antigo, saber os motivos que os outros tinham para serem diferentes de mim, os caras da polícia me estranharam, passei cinco dias numa cela onde todo mundo era gay, mas foi lá que encontrei um sujeito muito bacana que me abriu o caminho -todos os caminhos.

Quando fomos soltos, fizemos uma romaria à Menininha do Gantois, depois fizemos o caminho de Santiago, tomamos o santo-daime e tomamos outras coisas -e aí tudo foi ficando mais fácil. Voltei para o Rio, onde me catalogaram, apesar de ser mineiro de Montes Claros, como o único baiano da Constelação do Urso Maior, um quinteto da pesada que tocava num inferninho da galeria Alaska, e eu só naquela, esperando a boca, até que o quinteto virou quarteto, depois terceto, depois duo, finalmente tudo ficou concentrado e resumido em mim, carreira solo, mais densa, autêntica, realmente nova.

Gravei um disco experimental, a crítica malhou, quer dizer, não tomou conhecimento, mas aí eu já não estava mais naquela de sucesso, queria pesquisar caminhos novos. E foi aí que pintou a glória, aquela música do ‘Tomara que Aconteça um Troço’, a Globo me convidou para um tape, eu esnobei, mas aceitei aparecer num show alternativo nas areias do Arpoador. Um tremendo sucesso, não foi mole o que choveu de proposta em cima de mim, mas recusei me vender ao mercado. Você saca, apressado come cru e eu não queria comer nada, minha fome era outra.

Depois, sim, veio o aniversário da morte de Elis Regina, um ano, sabe, como pode? Ela foi embora e tudo continuou, o sol nascendo todas as manhãs, a chuva chovendo, o mar no seu lugar, não compreendi como o mundo podia continuar sendo o mesmo e fiz o meu protesto, a minha obra-prima, ‘Ellis, a Comedora de Estrelas’. No início, fiquei em dúvida se usava o ré menor ou o dó maior, mas minha guitarra elétrica estava em curto e apelei para algo mais tradicional.

Saiu o que saiu. Fui considerado um divisor de águas. Um crítico especializado declarou que, desde Mozart e Walter Alfaiate, não surgia nada de tão definitivo. E aí fui entrevistado pelo Pedro Bial.’



DIÁRIO SELVAGEM
Maurício Dias

‘A palavra boêmia’, copyright Carta Capital, 15/02/2005

‘José Carlos Oliveira, jornalista e escritor, era um capixaba baixo, magro, feio, tímido e talentoso. Sumiu da vida aos 52 anos. As razões visíveis foram a pancreatite e as complicações advindas da diabetes. Os motivos invisíveis foram a frustração e o desengano. Esses últimos não constam do atestado de óbito, mas estão registrados, do princípio ao fim, nas 518 páginas do Diário Selvagem, que ele escreveu de novembro de 1971 até abril de 1986, nove dias antes de morrer.

O Diário (lançado pela Record e a partir do dia 18 nas livrarias) é um relato da via-crúcis do homem e do escritor Carlinhos Oliveira, como ficou conhecido. A linguagem é cruel, às vezes vulgar, eventualmente sofisticada e inteligente e quase sempre emocionada. Ora encharcada pelo ódio, ora pelo carinho. As notas feitas à mão em cadernos – exceto durante um curto período em que foram gravadas devido à dificuldade física – retratam o mundo pela ótica de um homem que se dizia vítima de tripla enfermidade: espiritual, psíquica e física. O escritor, no entanto, foi liquidado pelo mundanismo. Foi levado pela vida boêmia de Ipanema (bairro que retrata nas crônicas de O Homem na Varanda do Antonio’s – quadro na edição impressa), vestido numa falsa capa de inconformismo e irreverência.

Carlinhos Oliveira foi incluído na linhagem dos artistas malditos. Alguma coisa próxima a Jean Genet, Lima Barreto, Van Gogh, Jimi Hendrix, Jack Kerouac, entre outros ‘marginais talentosos e autodestrutivos’, como anota Jason Tércio, organizador do Diário – uma pilha de cadernos em poder da família de Carlinhos. Quanto a essa aura da maldição, quase ao final da sua caminhada, Carlinhos de Oliveira rasgou a fantasia: ‘A mediocridade brasileira, todavia, faz de mim um escritor maldito. Eles me malditizam por imitação’.

Houve um tempo, no entanto, em que ele se agarrou à imagem como se ela fosse real e não um reflexo. Carlinhos tinha virado moda. E até usou uma gíria da ocasião para registrar que sua popularidade ‘no Leblon e Ipanema’ estava ‘tinindo’: ‘Tipo Normam Mailer. Cronista maldito, profundo’.

Ele foi, na verdade, o ícone de uma geração que expressava o desbunde dos anos 1960/1970 e não exatamente a maldição. Em geral, essa era a face alegre e politicamente alienada que fazia contraponto àqueles que se meteram na luta armada. Carlinhos, por exemplo, só leu o Manifesto Comunista quando tinha mais de 40 anos e deslumbrou-se, conforme anotação de 27 de junho de 1980: ‘Me fascina e coloca meu pensamento numa perspectiva nova, há muito buscada’.

Na intimidade do Diário, por outro lado, atacava os comunistas que, naquele momento, eram caçados pela ditadura. Acusava-os de manter o controle do mundo artístico-literário e fazer algumas vítimas como Glauber Rocha e Caetano Veloso.

‘Estou tentando lançar na praça o neologismo ‘glauberizar’ ou ‘caetanizar’, a propósito do terror cultural dos comunas na imprensa.’ Uma leitura conservadora (até no jargão ‘comuna’) e equivocada. Havia, sim, o maniqueísmo da Guerra Fria e da vulgata marxista que imperava. Um sopro da ignorância do País e não necessariamente exclusividade da ignorância de alguns militantes comunistas.

Nessa seqüência o Diário revela tropeços abissais. Um deles, muito possivelmente, no rastro do equívoco de Glauber Rocha que, num momento de divagações delirantes, identificou o general Golbery do Couto e Silva (arquiteto da abertura política e eminência parda do governo Geisel) como ‘gênio da raça’. Assim, a nomeação de um amigo de infância, Élcio Álvares, para governador do Espírito Santo, indicaria para o escritor a ‘boa índole do general Geisel e, por extensão, boa parte da entourage presidencial’. Tomado pelas ingênuas emoções, reflete: ‘Seriam (serão?) homens de boa-fé servindo a um sistema pobre na raiz e ancho da mais horrenda crueldade’.

Na intimidade das angústias registradas no diário, ele exorcizava a maldição de ter de viver como escritor. Desabafo em 1974: ‘Tenho medo de ser despedido e cair na miséria’. Em 1978: ‘Ando ultimamente muito preocupado com dinheiro, aquele medo antigo de voltar à miséria’. Em julho do mesmo ano: ‘Que farei da minha vida? Vem aí uma crise econômica medonha’.

O escritor maldito precisa da carteira assinada e ansiava pelo 13º salário no fim do ano. O marginal, enfim, não queria viver à margem das leis do mercado.

O Diário Selvagem deixa tudo isso à mostra. Intencionalmente. Como queria o escritor: ‘Tudo dito, nada retórico’. Assim, ele não esconde as contradições. E fez bem. Afinal, são elas que diferenciam os homens dos animais e dão a dimensão humana das pessoas. Todo mundo é assim. Com exceção de Roberto Marinho quando biografado por Pedro Bial.

Projetado no Caderno B do Jornal do Brasil, Carlinhos Oliveira manejava com talento a crônica ligeira, irreverente, moleque. Após ver e ouvir a multiplicidade de sons em um show de Hermeto Pascoal era capaz de observar, com sagacidade e humor, que o músico ‘seria capaz de dar um tiro na cabeça para ver o som que sairia’. Mas ele queria mais. Achava que havia ‘um lugar reservado’ para ele na literatura brasileira. Aí começa o dilema que o acompanhou: o rigor da vida intelectual ou a fascinação da fama do jornalista que tinha lampejos de grande lucidez. Como este: ‘A delicadeza é um verniz que mal disfarça a vilania do caráter brasileiro’.

Alguns flagrantes que expõem o conflito de Carlinhos: ‘Estou doido para trabalhar 11 horas por dia’; ou ‘Devo aplicar toda a minha energia no objetivo de me tornar não digo o maior, porém, o mais original dos escritores brasileiros’, se contrapõem a ‘me afeiçôo ao risco calculado que consistiu em lançar na praça algumas gírias de patota, palavras deslocadas de sua tradicional função’, e ao conformismo de ‘mas não é assim a vida do artista em luta contra seus instintos selvagens, sua boemia, seu aniquilamento mundano?’

Enfim, ele nunca deu, como pretendia, um adeus definitivo ‘à gandaia’. Seduzido pelo elogio fácil dos amigos o Carlinhos autoconfiante confidenciava ao cético Carlinhos: ‘Na moita vou me tornando o maior escritor brasileiro em atividade. Muitos já se dão conta disso’.

Talvez pudesse ter sido. Basta ler o que escreveu, em Paris, onde foi tentar a cura para a pancreatite. Um trecho que revela também o início de um processo de conversão religiosa promovida pelo suplício das dores lancinantes que o atacaram numa noite, subindo a rue de la Montagne Saint-Geneviève: ‘Recurvo como um canivete nem aberto nem fechado, recebendo na cabeça o chuvisco gelado da madrugada, pedindo a Deus, a Deus – a quem mais poderia pedir? – que por caridade me arrancasse de dentro daquele corpo que me torturava’.

Conseguia arrancar graça ao falar de sua decrepitude física: ‘O meu canino à esquerda, no qual se sustenta um dente postiço, está bastante avariado. Também não posso palitar a dentadura superior, quase toda postiça. O palito desentorta o arame lá no fundo da boca, enroscado num último e solitário dente, e se esse estragar, adeus dentadura falsa, adeus aparência! Estarei velho e desdentado’.

Uma tragédia para os devaneios homossexuais que o perseguiam. E muito mais para o machista que olhava a liberdade das moças de Ipanema – que publicamente cultivava com elogios – com uma visão vulgar e execrável. Irreproduzível.

Mesmo assim – ou melhor, também por isso – este Diário Selvagem, como escreve o organizador, é de inegável valor histórico-cultural e revela, efetivamente, trechos do talento que, no entanto, não pôde brotar plenamente do Carlinhos bon vivant. Dessa forma, a realização plena do escritor não foi possível.’

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