Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

ENTRE ASPAS > FOTOJORNALISMO

Maria Hirszman

09/11/2004 na edição 302

‘Uma imagem flagrada através de arames farpados enrolados que servem de defesa a uma prisão norte-americana no Iraque mostra uma cena ao mesmo tempo pungente e terrível: um homem, com a cabeça encapuzada consola uma criança assustada, de 4 anos de idade. Essa cena retratada por Jean-Marc Bouju é ao mesmo tempo uma síntese do horror dos conflitos em que o mundo parece mergulhar – feita em 31 de março do ano passado, essa foto antecipa em alguns meses o escândalo provocado pelo vazamento das imagens feitas por soldados americanos das torturas nas prisões iraquianas – e um exemplo perfeito de fotojornalismo, com suas enormes possibilidades de denúncia e mobilização.


Esta e outras 200 imagens vencedoras da edição 2004 do World Press Photo poderão ser vistas a partir de amanhã no Sesc Pompéia, compondo um interessante painel da produção de fotojornalismo em todo o mundo ao longo do ano passado. Afinal, essa exposição é considerada a mais importante do gênero no mundo, ganhando o apelido de Oscar da fotografia mundial. Da 47.ª edição, que chega somente agora ao País, participaram 4.116 fotógrafos de 124 países, com o volume impressionante de 63.093 imagens.


‘A mostra fala muito da condição, dos problemas e desejos do homem’, afirma Martha Mamede Batalha, produtora responsável pela realização da mostra este ano no Brasil. Não se trata de uma estréia do World Press Foto em território nacional. As fotos vencedoras em outras edições do evento já foram mostradas por aqui, mas de maneira intermitente. A última dessas mostras ocorreu em 2002, no Sesc Vila Mariana.


Com sua produtora, a Desiderata, especializada em publicações e eventos relacionados ao fotojornalismo, Martha descobriu o trabalho da World Press Photo em viagem que fez a Portugal em 1998 e desde então vem querendo incluir o Brasil de forma definitiva na rota de exposições realizadas pela organização fundada na Holanda em 1955.


Inicialmente seu projeto era levar a exposição para o Rio e promover um ciclo de debates em parceria com a PUC sobre as várias questões suscitadas pelo uso da imagem jornalística no mundo contemporâneo. Infelizmente, por falta de patrocínio, o projeto teve de ser adiado e, felizmente, o Sesc aceitou custear a vinda da exposição para São Paulo, que passa a participar da lista de 80 cidades ao redor do mundo que receberão a mostra. O objetivo da Desiderata é obter um patrocínio fixo para viabilizar as próximas edições.


Da mesma maneira que o público do Brasil conhece apenas de forma intermitente a seleção promovida anualmente pela World Press Photo, os brasileiros entram também de maneira esporádica no circuito do evento. Tivemos premiados, como Sebastião Salgado, e jurados – Monica Maia, do Estado, participou da 42.ª edição. Talvez a inclusão da mostra de forma permanente no calendário de exposições seja uma maneira de tornar essa presença mais constante, acredita Martha.


As inscrições para quem quiser participar da próxima edição, com prêmios em dinheiro, passagens e materiais de fotografia da patrocinadora Canon, já estão abertas e se encerram em 13 de janeiro. Podem participar imagens feitas ao longo de 2004 para serem publicadas.’


***


‘De olhos bem abertos’, copyright O Estado de S. Paulo, 3/11/04


‘É inevitável a sensação de estupor diante de parte das imagens selecionadas para a exposição que será aberta amanhã no Sesc Pompéia: o pai encapuzado que consola o filho (do francês Jean-Marc Bouju), a mulher afegã que tocou fogo no próprio corpo porque quebrou a televisão do marido e, com medo, aplicou ela mesma o castigo (Stephanie Sinclair/USA); o pai iraniano que carrega os dois filhos mortos no terremoto para serem cremados (Atta Kenare/Irã); ou até mesmo a imagem – mais leve, porém sufocante – da burocracia na Índia (Jan Banning/Holanda) mesclam denúncia e lirismo, impacto visual e perplexidade diante de um mundo que muitas vezes nos deixa atônitos.


Mas nem só de denúncias vive o fotojornalismo. Dentre as dez categorias temáticas criadas pelo World Press Photo há vários segmentos de caráter bem mais leve, divertido, como as pernas dos jogadores de rúgbi, entre as quais antevemos a cabeça de um dos jogadores (Tim Clayton/Austrália), ou uma imagem absolutamente extemporânea, que parece extraída de um álbum dos anos 50, de um Elvis reencarnado num fim de semana de rock retrô em Hemsby, na Inglaterra (Erik Refner/Dinamarca).


Os esportes são uma das categorias mais destacadas, depois dos eventos políticos e sociais. Uma das categorias dedica-se aos chamados esportes em ação, ao desafio de congelar num determinado instante o calor da hora. Aí também entra o peso determinante da tecnologia, sem a qual seria impossível registrar momentos como faz o australiano Craig Goldin na foto que tirou o terceiro prêmio e que mostra uma figura perdida no meio do oceano azul.


Um aspecto interessante desse prêmio é que ele permite acompanhar ano a ano a evolução da produção internacional de fotojornalismo, também do ponto de vista tecnológico e não apenas temático. Um dado impressiona: das 63.093 imagens inscritas nesta última edição – volume recorde de inscrições no World Trade Photo – 80,7% tinham formato digital. Ou seja, um crescimento de quase 12 pontos percentuais em relação ao ano anterior. Serviço


World Press Photo. Sesc Pompéia. R. Clélia, 93, Pompéia, 3871-7700. 9h30/20h30 (dom. até 19h30; fecha 2ª). Grátis. Até 5/12. Abertura amanhã, às 20 h’




Camila Molina


‘Cartier-Bresson e a fotografia brasileira em Porto Alegre’, copyright O Estado de S. Paulo, 3/11/04


‘A fotografia também comparece em peso em Porto Alegre. Até 24 de dezembro, o Santander Cultural apresenta a exposição Olho Vivo, que se desmembra nas mostras 50 Anos de Arte Fotográfica Brasileira – com obras do acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) – e Os Europeus, uma série de 165 imagens realizadas pelo francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004), considerado o maior fotógrafo do século 20.


Cartier-Bresson morreu há pouco tempo, no começo de agosto. Estava para completar 96 anos e nas últimas décadas sua dedicação era quase toda para o desenho e a pintura. Mas com as imagens que realizou com sua Leica – ‘a foto é uma ação imediata’, como disse ele ao Estado, há oito anos, em entrevista para a crítica Sheila Leirner -, foi por meio de seu olhar imediato, poético e preciso sobre o mundo e o cotidiano que ele é imortalizado. Ainda nas palavras da crítica, com sua pequena máquina comprada em 1932 o francês pôde captar ‘o instante e a eternidade’.


No Brasil, agora esta é a primeira oportunidade de se ver essa série de fotos datadas desde 1929. Organizada em parceria com a Fundação Cartier-Bresson, a mostra com mais de 100 fotos em preto-e-branco nos apresenta os europeus de diversos países. Estão eles registrados em meio a curiosos recortes de arquitetura, estão eles também captados com olhar jornalístico – por exemplo, em 1947, Cartier-Bresson fundou com Robert Capa, George Rodger e David Seymour a agência Magnum.


Ao mesmo tempo, por meio de uma seleção da coleção do MAM podemos ver a produção brasileira que vem sendo feita desde a década de 50. Ao todo, são 97 imagens de 36 fotógrafos, entre eles, grandes nomes como Thomaz Farkas, Geraldo de Barros, Maureen Bisilliat, Miguel do Rio Branco e Claudia Andujar.’




Eder Chiodetto


‘Nata da produção fotojornalística volta a SP’, copyright Folha de S. Paulo, 4/11/04


‘A Guerra do Iraque, os conflitos em Gaza, o terremoto no Irã, a guerra civil na Libéria e o blecaute em Nova York estão entre os principais fatos e as melhores fotos que a exposição do World Press Photo mostra a partir de hoje no Sesc Pompéia, em São Paulo, numa reunião do supra-sumo da produção fotojornalística mundial realizada no ano passado.


Fundado em 1955 e com sede em Amsterdã, na Holanda, o World Press Photo realiza anualmente um concurso em escala mundial com a finalidade de ‘estimular repórteres-fotográficos e manter as pessoas atentas acerca dos acontecimentos no mundo’, como afirma Bart Schoonus, gerente de projetos do WPP que veio ao Brasil para acompanhar a montagem das 201 imagens que formam essa 47ª edição.


Nesta última competição houve número recorde de inscrições: 63.093 imagens feitas por 4.116 fotógrafos de 124 países. Para escolher as vencedoras, é convocado anualmente um júri internacional composto por 13 membros. O WPP é o maior e mais influente concurso do gênero. Terminada a seleção, são montadas três exposições com a totalidade dos trabalhos vencedores para viajar por 80 cidades em 40 países.


Neste ano, graças à ação da jornalista e produtora cultural Martha Batalha, o Brasil foi incluído no roteiro oficial. A mostra já havia vindo para cá por quatro vezes, sendo que a última foi no Sesc Vila Mariana em 2002. Batalha tenta agora um patrocinador fixo para que o Brasil seja um ponto obrigatório de passagem da mostra todos os anos.


Categorias


Tanto o concurso quanto a exposição são divididos em dez categorias, além do grande prêmio, que abarcam desde ‘Principais Fatos do Ano’ até ‘Retratos’ e ‘Esportes e Ação’. Vistos em perspectiva, reunidos e condensados, os grandes fatos do ano passado, que dominaram o jornalismo, traduzidos em imagens vibrantes, formam um painel que narram como caminha a humanidade neste início de século. O tom predominante, como não poderia deixar de ser, é o da denúncia.


O grande prêmio desta edição, no valor de US$ 15 mil foi para o fotógrafo Jean-Marc Bouju, pela imagem de um prisioneiro iraquiano consolando seu filho.


Além de premiar imagens avulsas, o WPP também contempla, em todas as categorias, histórias narradas numa série de fotos, como foi o caso do impressionante trabalho do fotógrafo francês Noël Quidu, da agência Gamma, que realizou um ensaio sobre a sangrenta guerra civil da Libéria para a revista ‘Newsweek’. Para a mesma publicação destaca-se também a série de fotos do blecaute em Nova York, da finlandesa Ilkka Uimonen, da Magnum.


Humor


Mas nem tudo são horror e iniqüidade no mundo do fotojornalismo. É o caso do divertido ensaio do dinamarquês Erik Refner sobre o encontro de roqueiros retrô, que ocorre duas vezes por ano no vilarejo de Hamsby, na Inglaterra. Os participantes se vestem e se portam tal qual a geração de seus pais ao som de Elvis Presley, por exemplo. Refner fotografou em preto-e-branco e com uma estética que também remete ao fotojornalismo dos anos 50. Faturou assim o segundo lugar na categoria ‘Daily Life Stories’.


Na mesma linha de humor -e também em preto-e-branco, como a maior parte das fotos da mostra-, a renomada fotógrafa Mary Hellen Mark registrou duas irmãs em um concurso de gêmeos em Ohio, nos Estados Unidos.


Na categoria ‘Retratos’ o vencedor foi o inglês Nick Danziger, com a imagem que mostra o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, olho no olho com o presidente americano, George Bush.


Feita para a ‘Saturday Times Magazine’, um dia antes de as tropas americanas invadirem o Iraque, a fotografia sugere a leitura de Bush se olhando no espelho e vendo a imagem de Blair refletida no lugar da sua. Oportuna.


Nesta edição não há brasileiros premiados. Sebastião Salgado, porém, é um dos maiores vitoriosos do WPP, com três premiações nos anos de 85, 89 e 92.


WORLD PRESS PHOTO 2004. Onde: Sesc Pompéia (r. Clélia, 93, SP, tel. 0/xx/ 11/3871-7700). Quando: abertura hoje, às 20h, para convidados. De amanhã até 5 de dezembro (de ter. a sáb., das 9h30 às 20h30; e dom. e feriados, das 9h30 às 19h30). Quanto: entrada franca. Patrocinadores: TNT, Canon e Sesc.’


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‘Registro da guerra é grande vencedor’, copyright Folha de S. Paulo, 4/11/04


‘A cena: sentado no chão entre arames farpados, encapuzado e algemado, um civil iraquiano pede a um soldado americano que solte suas mãos para que ele possa enxugar as lágrimas de seu filho de quatro anos que, apavorado, chora ao seu lado na base do Exército americano em Najaf (Iraque).


Flagrada pelo fotógrafo francês Jean-Marc Bouju, da agência internacional Associated Press, em 31 de março do ano passado, essa imagem, que foi capa de muitos periódicos no mundo todo, foi a grande vencedora do WPP 2004.


Quando o júri optou por premiar essa fotografia, ainda não tinham vindo à tona as imagens da tortura imposta por soldados americanos e britânicos aos iraquianos na prisão de Abu Ghraib, que narram de forma mais veemente o lado obscuro da guerra.


Feitas pelos próprios soldados, as tais fotografias não são fruto de um esforço de reportagem que busca a denúncia, embora tenham resultado nisso. Foram geradas pela perversão de pessoas que, não contentes em humilhar detentos sem reação, fotografaram com o intuito de ostentar um mórbido troféu.’




BATALHA NA CÁSPER LÍBERO
José Paulo Lanyi


‘‘La Cásper c’est moi’’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 4/11/04


‘O professor Erasmo de Freitas Nuzzi deve estar feliz. Tempos atrás ele processou o pivô da crise que afastou 17 professores da Cásper Líbero, em setembro do ano passado. Todos eles pediram demissão.


Agora Marco Antônio Araújo foi condenado, em primeira instância, a pagar ao diretor cinqüenta salários mínimos de indenização por danos morais, fora os honorários advocatícios. A conta processual pode chegar a R$35 mil.


O queixoso não gostou de uma entrevista de Araújo nesta coluna (leia ‘Nuzzi perdeu a liderança, diz Araújo’). Na época, a Cásper parecia vir abaixo. Abri espaço para os dois explicarem o rebuliço acadêmico. Araújo desceu-lhe o verbo. Erasmo foi chamado de mentiroso. Ficou bravo e foi para cima.


Atitude cômoda, essa. Alguém aí deve se lembrar da polêmica com o (pseudo)jornalista Olavo de Carvalho. Ele e seus sequazes escreveram cinco ou seis artigos contra mim. O conjunto caracterizava a tríade calúnia, injúria e difamação. Uma das manchetes no ‘blog obscuro’ (como disseram alguns) do Olavão foi ‘JP Lanyi, um Difamador Eletrônico’ (com tradução para o espanhol, hehehe). Poderia tê-lo processado. Mas preferi o combate das idéias e, junto com vários outros companheiros, fui de corpo e alma para uma ‘batalha campal’ aqui no espaço de comentários do Comunique-se.


Erasmo optou pelo silêncio. Pergunto-me por quê. Ele não precisava responder no mesmo tom, ou mesmo polarizar com Araújo. Mas tinha a obrigação de explicar o que, afinal, estava acontecendo sob a sua gestão na Cásper Líbero. Não o fez, silenciou e frustrou o público interno e a opinião pública. Marcou a entrevista e, sem dar satisfação ao repórter, sumiu do mapa. Talvez o professor, depois de tantos anos, tenha chegado à conclusão de que a Cásper é dele. Ou que ele é a Cásper. ‘La Cásper c’est moi’.


Nada tenho contra a Justiça. Está aí para resolver pendências entre os cidadãos e pôr a casa em ordem. O problema é que, num caso como esse, dá-se importância ao foco e perde-se a abrangência das acusações do oponente. Resume-se assim: Fulano me chamou de mentiroso. Eu, que não tenho intenção de explicar os meus atos, priorizo a briga pessoal, poso de vítima e processo Fulano. Pode ser interessante para um só (e para os que o apóiam), mas é péssimo para todo o grupo, que permanece na obscuridade.


Os professores que saíram da faculdade em protesto contra o descumprimento de uma série de acordos (eufemismo?) vão fazer um churrasco para apoiar Araújo. Ao mesmo tempo, um desagravo e a arrecadação de recursos para o pagamento dos valores determinados pela Justiça.

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PRIMEIRAS EDIçõES > CÁTEDRA OCTAVIO FRIAS

Maria Hirszman

Por lgarcia em 17/04/2002 na edição 168

ARTES PLÁSTICAS

"Os 50 anos da Bienal: uma análise crítica e incômoda", copyright O Estado de S. Paulo, 14/04/02

"A Revista da USP acaba de publicar um número especial dedicado à Bienal de São Paulo, que reúne textos imperdíveis para quem quer conhecer um pouco mais sobre essa cinqüentenária instituição. Todos os aspectos relativos à mostra, iniciada em 1951 sob os auspícios modernizantes de Ciccillo Matarazzo, são discutidos na publicação, em artigos assinados por especialistas que conhecem a fundo a história recente da arte brasileira.

O professor de estética da Faculdade de Filosofia da USP e representante do conselho editorial da revista, Victor Knoll, inicia a publicação contextualizando a importância da Bienal para a formação do público e da produção artística nacional. Essa pequena introdução abre espaço para que Décio Pignatari, Luiz Marques, Stella Teixeira de Barros, Teixeira Coelho, Maria Bonomi, Ana Luisa Escorel, Evelyn Ioschpe – estas duas tratando especificamente de questões relativas ao campo do design e da arte-educação, entre outros, analisem o complexo fenômeno Bienal, orgulho dos brasileiros (principalmente dos paulistas), que espelha de maneira paradigmática a imaturidade e as fragilidades da arte contemporânea brasileira.

Não falta também na Revista o depoimento daqueles que conheceram a Bienal por dentro. Pelos menos três colaboradores tiveram experiência à frente da curadoria da Bienal: Sheila Leirner, Paulo Herkenhoff e Ivo Mesquita. Este último não chegou a concluir seu projeto de exposição por causa de uma série de divergências com a direção do evento.

Das informações históricas, que permitem às novas gerações saberem melhor o que ocorreu ao longo dos últimos 50 anos neste que é considerado o mais importante evento das artes plásticas na América Latina, às análises mais esmiuçadas acerca das contradições de um evento desta dimensão (como as pressões antagônicas por um maior afluxo de público, e pela conseqüente espetacularização da mostra, e pela preservação do evento como um local de experimentação de novas linguagens), a publicação tenta manter-se distante dos fatos conjunturais e propor uma reflexão mais vasta sobre o tema. Tanto que vários desses ensaios foram escritos há um ou dois anos. Males de Nascença, de Stella Teixeira de Barros, escrito em novembro de 2001, talvez seja um dos textos mais relacionados com acontecimentos recentes, como as recentes crises da Bienal e o crescente enfoque mercadológico e globalizante adotado por instituições culturais no País.

Questões similares são tratadas por Marques, que chega a afirmar que desde o final da década de 60 a Bienal só faz declinar. E diagnostica: ?Como as demais Bienais e congêneres, a de São Paulo formulou-se paulatinamente como uma contradição nos termos: ser a instituição dedicada a referendar e a atribuir o selo de ?bom para comércio? aos objetos (ou ?trabalhos?) selecionados exatamente por terem sido julgados marginais à instituição ou (ainda) não sufragados por ela.?

Mas essa espécie de homenagem crítica à Bienal – que inclui até mesmo uma parceria com o arquivo da instituição, representado pelo texto e uma série de documentos organizados para a Revista por seu atual coordenador, Dalton Sala – parece não ter agradado à direção da 25.? Bienal.

Se dizendo incomodada com o tom crítico dos textos – como convém a uma coletiva de ensaios que pretendem ajudar a compreender um fenômeno cultural complexo como este -, a Bienal teria desistido de realizar em suas instalações o lançamento oficial da Revista (na prática, a publicação já está à venda, por R$ 16, em algumas livrarias e bancas de revista). Pior.

Segundo o editor da Revista, Francisco Costa, um representante da direção da Bienal chegou a informá-lo que eles devolveriam os cem exemplares enviados para serem vendidos na livraria do evento.

Posteriormente, a instituição voltou atrás e manifestou seu desejo de continuar divulgando a obra da Livraria da Bienal, apesar de ?lamentar a não participação da Bienal como instituição (…) que envolve diretamente todo o universo da produção de arte contemporânea?. Essa carta explicativa, endereçada ao professor Victor Knoll depois que a reportagem contatou a Bienal para ouvir sua versão sobre o tema, não menciona a questão do lançamento. A direção da Bienal também negou que tenha agido autoritariamente e tomado qualquer atitude contra a publicação."

 

CÁTEDRA OCTAVIO FRIAS

"Participação da Folha na abertura é debatida", copyright Folha de S. Paulo, 10/04/02

"A participação da Folha no processo de abertura política durante o regime militar e a atuação do jornal na campanha das Diretas-Já foram discutidas ontem em seminário realizado pela cátedra Octavio Frias de Oliveira da faculdade de jornalismo da Fiam (Faculdades Integradas Alcântara Machado).

O seminário ?Projeto Folha, Abertura Política e Diretas-Já? contou com a participação do ex-ministro da Justiça José Carlos Dias, do professor da ECA-USP Ciro Marcondes Filho e do professor de ciência política da USP e repórter especial da Folha André Singer. O mediador foi Milton Belintani, professor da Fiam.

André Singer fez um retrospecto da atuação do jornal desde 1974, ano em que, segundo ele, começou a abertura política do regime militar (1964-1985), até a campanha das Diretas-Já, iniciada em 1983/1984.

Para Singer, tanto em relação à abertura quanto à campanha que mobilizou a sociedade brasileira por eleições diretas para presidente da República, o jornal se antecipou aos concorrentes. ?A Folha teve uma percepção antecipada, em relação aos demais órgãos da imprensa, de que o movimento pelas Diretas-Já iria se transformar num movimento de massa?, afirmou.

O advogado e ex-ministro José Carlos Dias destacou a truculência do regime militar -?houve muita tortura e muita morte?- e afirmou que, no caso das Diretas-Já, ?o crescimento da Folha acompanhou o crescimento dos movimentos da sociedade civil. A campanha das Diretas-Já foi uma das coisas mais emocionantes que o povo brasileiro já viveu e o grande momento da Folha.?

Para Ciro Marcondes Filho, foram veículos da ?imprensa conservadora, como o ?Jornal da Tarde? e ?O Estado de S. Paulo?, que estimularam o movimento pelas Diretas-Já?.

Segundo disse, a Folha ?teve um papel ambíguo e só apoiou o movimento quando ele estava no ápice?, naquilo que ele classificou como uma atitude ?oportunista?."

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