Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

ENTRE ASPAS > CRISE POLÍTICA

Maria Rita Kehl

12/08/2005 na edição 341


‘Quais as conseqüências da crise dita do PT (mas que envolve integrantes de quase todos os outros partidos) sobre a sociedade brasileira? Tomemos uma cena corriqueira ocorrida em julho, quando o também réu Roberto Jefferson denunciava um esquema de corrupção armado dentro do Partido dos Trabalhadores.


Em uma calçada de Copacabana, dois rapazes pobres engraxavam os sapatos de um turista. Finda a operação, um deles anunciou o preço: ‘Fifty, mister’. Parei para ver o desfecho da negociação: estariam mesmo cobrando 50 reais por um lustre nos sapatos do turista? Intimidado, o estrangeiro ofereceu uma nota de dez. Nisso, o engraxate esticou a mão e arrancou a nota ‘certa’ -50 reais- da carteira do freguês, que teve o bom senso de sair fora. Quem não teve bom senso fui eu, que não consegui deixar de protestar: ‘Cara, você vai cobrar 50 reais por engraxar os sapatos do gringo?’.


É óbvio que os dois achacadores vieram para cima de mim. Enquanto o engraxate berrava: ‘Se eu quiser, cobro cem, cobro mil e a senhora não se meta com a gente’, o outro argumentou: ‘Vai buscar seu ‘mensalão’, madame, que esse aqui é o nosso’.


Não: o PT não é (diretamente) responsável pela existência dos achacadores em Copacabana. Nem pelo tráfico de drogas, nem pelas quadrilhas do crime organizado, nem pela violência gratuita que só faz aumentar no Brasil. Os esquemas de caixa dois, as compras de votos e os casos particulares de enriquecimento com dinheiro público não foram inventados pelo PT nem inauguraram a violência social brasileira.


Mas não é difícil compreender que a bandidagem escancarada entre representantes dos interesses públicos que se elegeram em nome de ideais de esquerda autorizam definitivamente a delinqüência no resto da sociedade. O termo ‘mensalão’ já se tornou sinônimo de patifaria generalizada: se até ‘eles’, os petistas, metem a mão no dinheiro público, estamos todos à deriva. É a lei do ‘salve-se quem puder’ interpretada à luz (luz?) da desilusão.


Há quem pareça feliz por descobrir que o PT, que sempre cobrou ética na política quando era oposição, agora também se revela corrupto. Para esses, é como se o pior crime cometido por integrantes do partido não fosse a corrupção atual, e sim as exigências de transparência do passado. Pior que um moralista, só um falso moralista: fingindo indignação, políticos do PFL, do PSDB, do PP e até do Prona vêm a público dizer, como a formiga à cigarra: você não cantou no verão? Pois agora dance!


Mas a indignação da sociedade, que pode rapidamente descambar em autorização cínica da falta de ética (ou restaura-se a moralidade…), tem outro sentido. A desilusão e a revolta contra o PT são mais graves do que contra outros partidos que, agora ou em outros tempos, tenham se revelado corruptos porque foi o PT que acenou com a bandeira da transparência e do respeito ao bem público, que não é outra senão a bandeira da democracia verdadeira, exercida em nome do povo.


É compreensível que, quando o governo eleito em nome da esperança e da transformação se revela tão corrupto quanto os outros (a roubalheira de Collor, a ‘privataria’ de FHC), a decepção seja muito maior.


O presidente Lula, que demorou a reagir ante os escândalos denunciados na CPI dos Correios, parece ter retomado o pulso, não sobre seu governo, mas pelo menos sobre si mesmo, tentando retomar sua antiga ligação com as camadas pobres da população.


As elites querem desestabilizar o governo, vem dizendo Lula em discursos recentes, enquanto o seu, o nosso partido (pois ainda me identifico com a banda não-podre do PT) hesita em expulsar Delúbio Soares e fica nas mãos do presidente da Câmara dos Deputados, o malufista Severino Cavalcanti, para adiar parte das cassações anunciadas.


A culpa é das elites? Que elites? Há um setor das elites, antigos inimigos do Partido dos Trabalhadores, que pouco se incomoda com as bravatas do presidente, a quem ‘engolirão’ novamente de bom grado se os juros continuarem favorecendo a enorme concentração de capital em suas mãos.


Mas há também uma nova elite no país: somos nós, os petistas no poder. Não participo do governo, mas escrevo ‘nós’ para não me descomprometer com o partido em que sempre votei e ajudei a eleger em 2000 e em 2002.


A elite, hoje, somos nós. Não me refiro aos novos ricos do PT, aos que aumentaram o patrimônio ou ganharam carros importados de empresários ‘amigos’. Refiro-me à elite governante, responsável por democratizar a relação do Estado com a população, por construir o país por meio de concorrências públicas limpas, por gerir o dinheiro do povo em nome dos interesses do povo.


Essa elite tem o dever de tomar o pulso da situação. Punir responsáveis. Pedir desculpas à sociedade. Modificar radicalmente a estrutura burocrática e de poder dentro do partido, como pretende o atual presidente Tarso Genro. Há uma enorme diferença simbólica quanto aos efeitos sobre o tecido social entre os crimes políticos e os crimes comuns. Quando a elite governante não respeita a lei que ela própria representa, a desmoralização que se instaura corrompe a sociedade inteira.


Maria Rita Kehl, 53, é psicanalista e ensaísta. Escreveu, entre outros livros, ‘Ressentimento’ (Casa do Psicólogo).’



Fernanda Krakovics, Leila Suwwan e Silvio Navarro


‘Duda diz que caixa 2 do PT pagou campanha’, copyright Folha de S. Paulo, 12/08/05


‘Em depoimento surpresa na CPI dos Correios, o publicitário Duda Mendonça admitiu ter recebido do PT, por meio de Marcos Valério de Souza, dinheiro de caixa dois referente à campanha eleitoral de 2002, inclusive com depósitos feitos em uma conta em um paraíso fiscal no exterior.


Marqueteiro de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, Duda disse acreditar, no entanto, que a campanha do presidente, parte de um ‘pacote’ de serviços prestados por ele ao PT, tenha sido paga com dinheiro ‘oficial’ (legalmente registrado), já que houve ‘alta arrecadação’. Ele não apresentou provas da origem lícita desses recursos, mas se comprometeu a disponibilizar dados de sua empresa.


Duda revelou ter recebido R$ 15,5 milhões do PT em 2003. Não emitiu nota fiscal, a pedido do partido, segundo ele. Do total, 11,9 milhões teriam vindo de Valério e R$ 3,6 milhões diretamente do então tesoureiro do partido, Delúbio Soares. Os pagamentos de Valério teriam sido feitos com depósitos de R$ 10,5 milhões no exterior e o saque de R$ 1,4 milhão em espécie, de forma parcelada, no Brasil.


Os recursos seriam referentes a dívidas das campanhas de 2002 e também a serviços prestados em 2003. ‘Esse dinheiro era claramente de caixa dois, a gente não é bobo. Nós sabíamos, mas não tínhamos outra opção, queríamos receber’, disse ele, em depoimento de quase dez horas que terminou às 22h10.


No caso específico da campanha presidencial, no entanto, ele teria emitido notas fiscais, mas não as apresentou à CPI. ‘Eu não posso garantir, mas acredito que a campanha do presidente Lula foi toda paga com dinheiro oficial’, disse. ‘É só cruzar as faturas que eu emiti com a contabilidade do PT para ver se a campanha de 2002 foi paga por dentro ou por fora.’


Ao ser indagado se chegou a comentar esses pagamentos por meio de caixa dois com o presidente, Duda mais uma vez buscou isentar Lula. Segundo o publicitário, os contatos financeiros eram feitos apenas com Delúbio.


A dificuldade alegada pelo marqueteiro para discriminar o dinheiro recebido da campanha presidencial deve-se ao fato de ele ter montado um pacote para o PT em 2002 incluindo as campanhas de Lula, de José Genoino ao governo de São Paulo, de Aloizio Mercadante ao Senado, de Benedita da Silva para o governo do Rio de Janeiro e de um senador pelo Rio de Janeiro que não soube especificar.


Além de tentar separar a campanha presidencial das demais, Duda também procurou isentar o senador Aloizio Mercadante (PT-SP), argumentando que o custo da prestação de serviço a ele teria sido baixo pelo fato de sua empresa de marketing político já estar com uma estrutura montada em São Paulo.


Provocado pela oposição, Duda disse acreditar na honestidade do presidente Lula em meio ao atual escândalo de corrupção que abala seu governo e seu partido. ‘Se ficar provado de alguma forma que esse não é o presidente dos meus sonhos, eu nunca mais faço campanha política’, disse ele, que trabalha para o PT desde 2001.


Duda possui três empresas: a CEP Comunicação e Estratégia Política, de marketing político; a Duda Propaganda, que sucedeu a DM-9; e a Promark, que presta consultoria na área de marketing.


Estava previsto ontem apenas o depoimento da sócia do marqueteiro, Zilmar da Silveira, que foi convocada pela CPI para explicar o saque em dinheiro de R$ 15,5 milhões das contas das empresas de Marcos Valério. Ela acabou depondo junto com seu sócio.


A estratégia de Duda foi colaborar com a comissão parlamentar de inquérito para não ser acusado de conivência com o esquema montado pelo PT e Marcos Valério. O marqueteiro chorou algumas vezes durante o depoimento ao falar de sua trajetória e do constrangimento pelo qual estaria passando.


O deputado José Carlos Aleluia (PFL-BA) disse que o marqueteiro confessou crimes e pode ser enquadrado nas leis do ‘colarinho branco’ e da lavagem de dinheiro.


Ao final do depoimento, Duda Mendonça perdeu a paciência e começou a retrucar. Ao tucano Julio Redecker (RS), que fez menção aos filhos de Duda, levantou a voz: ‘Não ponha meus filhos. Eu não mereço isso’.


Sentido-se julgado moralmente pelo deputado José Rocha (PFL-BA), disse: ‘Pomba! Eu tô morto. Dormi só duas horas nesta madrugada. Desculpe se estou estourado, mas é um massacre’.


PARAÍSO FISCAL – Segundo os depoentes, ao cobrar dívidas do PT em 2003, Zilmar teria sido orientada por Delúbio a procurar Marcos Valério. Ele teria pedido à sócia de Duda para abrir uma conta bancária no exterior, onde seriam depositados recursos.


Duda disse que procurou o BankBoston e foi orientado a abrir uma offshore -empresa em que os sócios não são identificados- nas Bahamas. Na conta da empresa, chamada de ‘Dusseldorf’, Valério teria feito depósitos provenientes do BAC Florida Bank, Banco Rural Europa, Israel Discount Bank de Nova York e de uma empresa chamada Trade Link.


Duda entregou à CPI cópias de faxes recebidos das empresas do publicitário mineiro com comprovante dos depósitos feitos no paraíso fiscal. Ele disse que possui esses documentos porque, em um certo momento, os números não fechavam e foi preciso fazer um balanço.


Segundo o marqueteiro, esses recursos continuam aplicados no exterior. Ele não teria como trazê-los de volta porque não declarou sua saída. ‘Na Itália existe uma lei que permite repatriar valores a 3% [de imposto], eu pagaria até 50%’, disse ele.


Duda negou a versão divulgada ontem por Valério de que já possuía essa offshore anteriormente. ‘Essa conta foi aberta 100% para receber o dinheiro dele’, disse o marqueteiro na CPI.


SAQUES – De acordo com Duda e Zilmar, ao fecharem um contrato com o PT em 2003 de R$ 7,3 milhões para fazer comerciais partidários, havia uma dívida remanescente de R$ 11,5 milhões das campanhas de 2002. Delúbio orientou então Zilmar a procurar Marcos Valério.


Ela teria ido ao Banco Rural da avenida Paulista, em 24 de fevereiro de 2003, para receber uma parcela desse débito, no valor de R$ 300 mil, a pedido de Valério. ‘Cheguei na tesouraria do Rural e o rapaz me trouxe um pacote de dinheiro. Eu me assustei porque pensei que ia receber um cheque administrativo’, disse Zilmar, que ainda voltou ao banco para receber mais duas parcelas de R$ 300 mil nos dias subseqüentes.


Além da remessa de R$ 10,5 milhões para as Bahamas no mesmo ano, foram sacados R$ 900 mil em espécie no Banco Rural e R$ 3,6 milhões restantes foram recebidos do ex-tesoureiro do PT.


DÍVIDAS – Mesmo com a dificuldade em ter os serviços pagos, Duda firmou novo contrato com o PT em 2004, no valor de R$ 24,7 milhões, para as eleições municipais. O partido estaria devendo até hoje R$ 14,7 milhões. Apesar da dívida, o publicitário acertou prestação de serviço novamente neste ano, no valor de R$ 300 mil, para fazer programas partidários na TV e no rádio.


ORIGEM – Segundo Zilmar, Delúbio disse a ela que a origem do dinheiro pago a eles, sem nota fiscal, seriam empréstimos feitos por Marcos Valério. Ela negou conhecer o policial David Rodrigues Alves, que sacou cerca de R$ 5 milhões das contas do publicitário mineiro. Segundo Valério, esse dinheiro seria para Zilmar.


LULA – Duda concentrou toda a responsabilidade pelas operações atípicas realizadas pelo PT em Delúbio e disse que nunca comentou esse assunto com o presidente Lula. O publicitário afirmou ainda que perdeu contato com o presidente depois da eleição. ‘Desde que foi eleito recebi apenas um telefonema dele’, disse.


A oposição insistiu que isso não seria verdade e Duda retrucou: ‘Vocês aceitam bem o que eu digo quando convém. A verdade às vezes é boa, às vezes não é. Não tinha intimidade para cobrar o presidente’.


Questionado se estava arrependido de ter contribuído para a vitória de Lula, respondeu: ‘Não. Do fundo da minha alma também estou triste com o que está acontecendo, mas acho que este presidente é um homem de bem e acredito que ainda vou ter muito orgulho da campanha que fiz. Nem sempre as coisas ruins que acontecem a gente pode culpar o chefe. É difícil controlar até mesmo a própria família com os dedos da mão, imagina o resto?’


Questionada por integrantes da CPI, Zilmar negou que tenha pago despesas pessoais do presidente Lula ou da primeira-dama, Marisa Letícia. ‘Só custo de campanha, como paletó e figurino’, disse ela. Questionado se pagou um terno da grife Ricardo Almeida para a posse do presidente Lula, Duda negou e acrescentou que nem sempre os ternos mais caros são os melhores nas gravações.


CAIXA DOIS – O marqueteiro não conseguiu discriminar os valores de cada campanha realizada em 2002. Disse ainda que, ao efetuar os pagamentos, Delúbio não dizia a que serviço era referente. ‘O Delúbio sempre dizia que dinheiro não tem carimbo’, disse ele. O publicitário afirmou que não emite notas frias em suas empresas.


O líder do PSDB, deputado Alberto Goldman (SP), questionou a legalidade das campanhas municipais do ano passado, já que foram declaradas como quitadas nos Tribunais Regionais Eleitorais e Duda afirmou ter ainda uma dívida de R$ 14,7 milhões com o partido referente a esses pleitos.


VALÉRIO – O marqueteiro disse ter encontrado Marcos Valério apenas duas vezes, uma no comitê da campanha presidencial, no final de 2002, e outra posteriormente, no diretório do PT. A responsável pela parte financeira seria Zilmar, que teria mais contato com o publicitário mineiro.


TUCANOS – Duda trabalhou na campanha de reeleição ao governo de Minas Gerais do hoje senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), em 1998, e disse acreditar que não houve caixa dois nessa ocasião. Ele afirmou também não lembrar de Valério nesta época.


‘A sensação que temos é que Azeredo pagou tudo oficial, não veio nada por fora. Não estou dizendo que não houve, pode ter havido porque não é uma coisa nova’, disse.


Valério revelou à CPI que tomou empréstimos bancários e repassou para a campanha de deputados coligados à campanha de Azeredo. Esses recursos não foram declarados, mas o senador tucano afirma que não tinha conhecimento do caixa dois. Azeredo colocou a responsabilidade no tesoureiro de sua campanha, Cláudio Mourão.


Duda e Zilmar tentaram minimizar a afinidade com o petista ao afirmar que possuem atualmente o mesmo número de contratos com a administração federal do que no governo Fernando Henrique Cardoso (1994-2002), mas admitiram que recebem agora o dobro do valor.


Eles possuem os contratos da Petrobras, da Secom (Secretaria de Comunicação Social) e do Ministério da Saúde; no governo FHC possuíam os da Telebrás, do Banco Central e da BR Distribuidora.


SIGILOS – Falando em nome próprio e no de sua sócia, Zilmar Fernandes, ele afirmou que aceita a quebra do seu sigilo bancário e fiscal, o da sócia e o das suas empresas. ‘Sem o menor problema, perfeitamente. Só que o meu advogado me sugeriu que ele quer ver exatamente como’, disse, ao ser perguntado pelo deputado Onyx Lorenzoni (PFL-RS).


LEGISLAÇÃO ELEITORAL – Para Duda, a legislação eleitoral é ‘hipócrita’ e se os integrantes da CPI quiserem tirar um saldo positivo do episódio teriam que modificá-la. Uma das sugestões dadas pelo marqueteiro para baratear as campanhas é substituir os programas políticos na televisão por debates semanais.


‘É baratinho, isso aí custa zero, não há influência do poder econômico. O que vai prevalecer é só o conhecimento dele [do candidato], o carisma’, disse o marqueteiro.


SILÊNCIO – O publicitário disse que havia ficado calado até agora para preservar seu cliente, o PT, e também para se preservar. Teria mudado de idéia ao ver notas na imprensa referentes à offshore ‘Dusseldorf’ e interpretou isso como uma chantagem de Marcos Valério, porque só ele, Duda e Zilmar saberiam dessa conta no exterior.


‘Estávamos sendo usados. Nossa história é diferente da do Marcos Valério e eu não nasci para mentir. Prefiro dizer o que sei e ir dormir. Hoje [ontem] eu vou dormir’, disse ele.


GALOS – Duda foi questionado sobre sua prisão pela Polícia Federal durante uma rinha de galo no Rio de Janeiro em outubro passado. Segundo o deputado Eduardo Paes (PSDB-RJ), o afastamento dos delegados posteriormente comprovaria o trânsito de Duda com o presidente. Duda contestou e se irritou com o episódio da rinha. ‘Na verdade o que aconteceu ali foi perseguição política. Se eu tivesse influência no governo não teria sido preso.’’



Luciana Nunes Leal Eugênia Lopes


‘Valério pagou campanha petista de 2002 em paraíso fiscal, diz Duda ‘, copyright O Estado de S. Paulo, 12/08/05


‘O publicitário Duda Mendonça abriu o jogo. Quase metade do valor das campanhas do PT no ano da eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi pago pelo empresário Marcos Valério Fernandes de Souza com remessas não declaradas para o exterior e sem emissão de notas fiscais. No mais impressionante depoimento tomado pela CPI dos Correios, Duda revelou ontem que, do pacote de R$ 25 milhões fechado com o PT em 2002, R$ 10,5 milhões foram pagos no ano seguinte por Valério, que alegou não ter alternativa a não ser pagar por caixa 2.


‘Não vou dar uma de santinho: ou eu recebia daquele jeito, ou tomava o cano’, disse Duda. ‘Marcos Valério não permitiu que faturássemos. Claramente era dinheiro pago de caixa 2; a gente não tinha opção.’ Até quarta-feira, ele negava ter recebido dinheiro de Valério. Ontem, Duda e a sócia, Zilmar Fernandes Silveira, também contestaram a versão de Valério de que nunca enviou dinheiro ao exterior: apresentaram à CPI fax com ordens de pagamento emitidas pela SMPB, agência de publicidade de Valério.


Outros R$ 3,6 milhões, de um contrato de R$ 7 milhões feito com o PT já em 2003, primeiro ano do governo Lula, também foram pagos, segundo Duda, ‘por fora’, em dinheiro vivo. O contrato foi firmado para consultoria, organização de seminários e criação de programas.


Duda e Zilmar revelaram detalhes de um grande esquema de pagamentos não declarados das dívidas de campanha e causaram tensão e alvoroço na sala. Oposicionistas falavam em comprometimento irremediável do presidente. Do pacote de quatro campanhas feitas para o PT por Duda, a principal era a de Lula. As outras foram para José Genoino, ao governo de São Paulo, a ex-senadora Benedita da Silva, no Rio, e o senador Aloizio Mercadante (PT-SP).


Diante da insistência da oposição em vincular Lula aos pagamentos ilegais, Duda disse acreditar que o gasto da campanha presidencial do PT foi todo declarado à Justiça Eleitoral. ‘Ao que sei, a campanha do presidente foi paga com dinheiro oficial, assim como a do Mercadante.’ Explicou que fazia parte do pacote pagar as roupas do candidato. ‘Eu pagava custos de figurino, paletó. Outros gastos não fazia.’ Ele contou que gastou R$ 100 mil na festa da posse, pelos quais foi reembolsado, e não pagou despesas da primeira-dama, Marisa Letícia.


No fim de 2002, garantida a vitória de Lula, os dois pressionaram o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares para receber os R$ 11,5 milhões que faltavam. No início de 2003, segundo Duda, ‘Delúbio passou a bola para Marcos Valério’. A primeira remessa, de R$ 900 mil, foi sacada em três levas de R$ 300 mil por Zilmar, em dinheiro vivo, na agência do Banco Rural da Avenida Paulista, em São Paulo, em fevereiro de 2003. ‘Em março, Valério disse que estava difícil fazer os pagamentos e eu precisava fornecer o número de uma conta no exterior. O Duda resolveu isso’, disse Zilmar.


Duda contou que, diante da exigência, procurou o BankBoston, onde é correntista antigo e abriu uma empresa chamada Dusseldorf Company Ltd., com conta no BankBoston nas Bahamas. ‘A conta já veio pronta, uma pessoa trouxe tudo pronto de lá. Entregamos o número da conta (00-100-12877) para o Valério e ele fez as remessas.’ Por meio de vários bancos, entre os quais o Banco Rural Europa e o Banco de Israel, Valério enviou cerca de R$ 10 milhões para a conta de Duda. O publicitário disse que abriu a conta nas Bahamas ‘exclusivamente’ para receber as dívidas do PT.


Mesmo com remessas regulares para o exterior, em abril de 2003 Valério ainda pagou duas parcelas de R$ 250 mil, sacadas por Zilmar em dinheiro no Rural da Paulista. Os R$ 3,6 milhões pagos depois, do contrato de 2003, foram remetidos no Brasil, segundo Duda, por Delúbio. ‘Recebi do Delúbio por pessoas que vinham entregar’, disse Zilmar. Outros R$ 3 milhões foram pagos legalmente, segundo o publicitário, pelo PT nacional.’



O Globo


‘O homem que construiu a imagem de Lula agora ajuda a desconstruir’, copyright O Globo, 12/08/05


‘O publicitário Duda Mendonça usou ontem em benefício próprio toda a experiência adquirida ao longo da carreira na área de marketing. Com gestos e discurso estudados, começou seu depoimento à CPI dos Correios agradecendo a oportunidade de ‘poder abrir o coração’ e revelar sua participação no esquema de Marcos Valério de Souza. Apelando para a emoção, marca registrada da maior parte das peças publicitárias que criou, chorou três vezes, franziu o cenho, tremeu os lábios e afirmou que o compromisso que assumia de dizer a verdade não era só seu, mas de toda a sua família, que o assistia naquele momento.


Foi o suficiente para que lágrimas brotassem, ainda que com certo esforço, em seu rosto. Depois de sua fala chorosa, entretanto, logo voltou a sorrir para a sócia Zilmar Fernandes. Quando a sócia ia começar a falar, ele a abraçou e fez em sua testa um sinal da cruz.


– Fico impressionado como o presidente Lula incorporou os seus trejeitos, ou como Vossa Senhoria incorporou os trejeitos do presidente Lula ao se emocionar e falar da família para se defender – ironizou o deputado Eduardo Paes (PSDB-RJ).


– Com sua vinda aqui hoje, Vossa Senhoria prova que é o maior marqueteiro do Brasil – disse Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP).


De Maluf ao PT, por dinheiro


Sem se abalar com ironias, Duda deu detalhes de sua carreira de sucesso, citando como exemplo o ano em que teve o passe disputado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o atual presidente Lula e o ex-prefeito Paulo Maluf.


– Sem falsa modéstia, galguei uma posição no cenário nacional e internacional que muito me orgulha. Talvez não tenha prêmio de publicidade no mundo que não tenha ganhado – disse, apesar de todas as irregularidades e crimes que confessou ontem ao revelar participação no esquema de caixa dois e lavagem de dinheiro. – O meu dinheiro é limpo. Tenho uma vida boa, mas tudo isso é fruto do meu esforço, do meu trabalho.


Duda admitiu, porém, que decidiu mudar a versão sobre os R$ 15 milhões recebidos por meio do esquema montado por Valério por ter se sentido chantageado na última terça-feira, ao assistir ao depoimento do empresário à CPI do Mensalão:


– Sei que dizer a verdade implica riscos. Meus advogados me advertiram. Mas pior risco é comprometer uma imagem construída ao longo de 30 anos. Posso ter cometido um lapso fiscal, mas não moral. Assumo minha parte da culpa, mas ao sair daqui posso ir para casa beijar meus filhos com a consciência tranqüila.


Foi um dos depoimentos mais prestigiados até agora. Duda disse que, apesar de ter trabalhado para diversos partidos, sempre veste a camisa quando assume uma nova campanha.


– Gosto de ganhar em tudo, até em jogo de bola de gude – disse ele, que durante a campanha eleitoral do ano passado, quando trabalhava, entre outros, para a prefeita Marta Suplicy (PT) em São Paulo, chegou a ser preso no Rio por participar de uma rinha de galo.


Não foi a primeira vez que Duda comprometeu Lula, embora a de ontem tenha sido muito mais grave: na campanha de 2002, após um debate na TV Globo, o publicitário comemorou com os petistas o desempenho de Lula abrindo um Romanée-Conti num restaurante do Rio. Um vinho de R$ 6 mil para o candidato que explorava a imagem de homem simples e sua origem humilde.’


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PRIMEIRAS EDIçõES > LAÇOS DE FAMÍLIA

Maria Rita Kehl

Por lgarcia em 20/01/2001 na edição 105

QUALIDADE NA TV

LAÇOS DE FAMÍLIA

"Baixaria e realismo", copyright Folha de S. Paulo, 14/01/01

"Gustave Flaubert, um dos maiores escritores do romance realista, nos idos do século 19, já tinha entendido: a realidade não é feita de ‘fatos’, mas de linguagem. Não são as coisas que nos acontecem na vida, mas o modo como as interpretamos e consequentemente reagimos, ou não, a elas que faz a realidade. Flaubert vivia em um mundo em que as palavras e o pensamento tinham uma importância muito maior do que têm hoje na determinação da vida social. Hoje, quem dá as cartas, predominantemente, são as imagens; e as imagens, aparentemente, pertencem ao domínio dos ‘fatos’. A novela ‘Laços de Família’, da Globo, por exemplo, vem conseguindo mobilizar mais de 32 milhões de espectadores apaixonados pelo seu implacável ‘realismo’, segundo a revista ‘Veja’ da semana passada.

No que consiste o realismo, do ponto de vista da televisão brasileira? Em primeiro lugar, como todos sabem, são consideradas realistas todas as formas de exploração de nossas mazelas sociais. Ratinho exibe o vídeo de uma criança sendo estuprada pelo padrasto? Realismo. Silvio Santos permite que os participantes de alguns de seus jogos se humilhem (voluntariamente) por dinheiro? Realismo. As pessoas ‘são’ assim. ‘Linha Direta’ promove nosso gozo com o espetáculo da morte e da violência? Realismo; como se as imagens fossem neutras, como se o sofrimento não estivesse sendo brutalmente estetizado, como se as emissoras não lucrassem vendendo pânico para a classe média.

Em segundo lugar, consideramos realista a resignação com os fatos; quem não quiser passar por otário deve aceitar ‘a vida como ela é’. Pobre Nelson Rodrigues, que não viveu para ver sua soberba ironia transformar-se em cinismo.

Da mistura desses dois ingredientes nasce o ‘realismo’ da telenovela de maior audiência no país, neste começo de milênio. Bem, com a doença de Camila não se pode discutir; doenças e morte, apesar da poderosa ciência, ainda fazem parte do inexorável da vida. O resto, são os elementos sensacionalistas de costume: uma menina de classe média que se prostitui para dar ‘conforto’ aos pais; uma mulher adulta que esconde durante 20 anos a paternidade da filha; um machão mal-humorado que costuma surrar uma órfã malcriada, apaixonada, sabe-se lá por que, pela cara feia dele; uma socialite decadente (que novela pode passar sem uma socialite decadente?) que se mantém com a fortuna dos sobrinhos órfãos etc.

O aperfeiçoamento do realismo na novela de Manoel Carlos não está, portanto, nos ingredientes escandalosos, que dependem da maior ou menor imaginação de cada autor; está escondido no modo como os personagens conversam sobre o que lhes acontece. Ou melhor: não conversam. A baixaria em ‘Laços de Família’ não está onde costumamos procurar (e encontrar) na televisão brasileira, isto é, nos programas dirigidos para as classes C e D. Está na burrice cultivada, ‘fina’, razoavelmente educada, de personagens que o autor faz falar e falar, mas não consegue fazer dialogar.

Vejamos: no casamento de Camila, Clara dá uma baixaria, sobe no palco e denuncia a presença de Capitu, cuja vida de garota de programa até então era desconhecida dos próprios pais. ‘Chega, Clara, você já foi longe demais’, interrompe o marido, interpretado por uma espécie de boneco inflável que a imprensa especializada já escolheu como ‘sex symbol’ do ano. Nenhum argumento, nenhuma fala razoável se faz ouvir em oposição ao discurso fascistinha de Clara. No capítulo seguinte, Fred repreende a esposa porque não tinha o direito de… estragar a festa da Camila! Algum aspecto da ‘realidade’ foi calado nesse episódio, ou não?

O sucesso de audiência determina a duração das novelas. Quando são espichadas, o autor tem de escrever incontáveis cenas apenas para preencher o tempo. Mas essas cenas redundantes, em que os personagens repetem as mesmas falas sem dialogar, não estão excluídas do efeito ‘realista’ da obra. ‘Quero falar com você’, diz Íris a Pedro. Pedro: ‘Não me amole, saia daqui’. Íris: ‘Mas eu preciso falar com você’. Pedro: ‘Não me amole, saia daqui’. Íris: ‘Mas eu quero muito falar com você’. Pedro: ‘NÃO ME AMOLE, SAIA DAQUI!’ e corre atrás de Íris com o chicote na mão. Corta.

O efeito da repetição de centenas de cenas como essa é que os fatos ‘da vida’ impõem-se aos personagens, que estão sendo construídos sem a capacidade humana, normal, de falar inteligentemente uns com os outros e com isso furar o bloqueio totalitário da ‘realidade’. Não que eu esteja exigindo demais. Os personagens de ‘Terra Nostra’, por exemplo, argumentavam uns com os outros, trocavam pontos de vista, convenciam-se mutuamente, mudavam de atitude depois de uma discussão. Mas, pelo jeito, não obtiveram o mesmo sucesso da ficção totalitária de ‘Laços de Família’.

E, por falar em totalitarismo, a Globo poderia responder que não se discute com um ibope de 32 milhões de espectadores. Ou se discute? (Maria Rita Kehl é psicanalista e ensaísta, autora de, entre outros, ‘Deslocamentos do Feminino’ – Imago)"

"A brincadeira é bolar um final para a Íris", copyright Jornal da Tarde, 16/01/01

"Que final você daria para Íris, personagem da telenovela dos enlaces da família carioca? Este é um joguinho que está rolando em turmas dos barzinhos paulistanos quando baixa a falta de assunto. Coincidentemente, saiu no Telejornal, no Estadão de domingo, uma materinha especulando qual seria o destino de Íris, pois o próprio autor já não sabe se entregará aquele anjo ao sensível Pedro. Deve ser porque os roteiristas já fizeram a garota aprontar tantas que não teria muita lógica alguém querer ficar com ela. O jornal diz que um final possível seria ela sofrer um acidente de carro (mais um, na novela), ser levada agonizante para um hospital, arrepender-se de todas as suas maldades (pois o perseguidor de cristãos Paulo não se arrependeu no caminho de Damasco?), pedir perdão a todos e doar a medula para Camila. Não é uma maravilha?

Então, seguindo a linha de imaginação dessa materinha, deixo aqui uma modesta contribuição para ‘a galera’ (palavra adorada por todos os nossos criativos apresentadores de televisão) dos barzinhos. Acho que as sugestões abaixo se equivalem àquela publicada no jornal.

Íris suicida-se no mesmo capítulo em que Helena se casa com Miguel, Cíntia com Pedro, Camila comunica-lhe que está curada e grávida novamente, Alma volta para Danilo e a expulsa do haras, convencida de que ela traz maus fluidos.

Um bispo de uma igreja dos novos tempos tira o capeta do corpo dela num grande show de tevê, aos gritos de ‘Xô, Satanás!’

Íris desaparece com aquele garoto arrumadinho que vai ao haras de vez em quando (Marcos Fercondini) que, de repente, revela-se um serial killer e a pica em pedacinhos.

Ela cai do cavalo, literalmente, e fica tetraplégica (papel difícil demais para a atriz canastroninha), para ver o que é bom.

Pedro amarra-a com arreios, a veterinária Cíntia retira a dose salvadora de medula dela, e Pedro corre para salvar a filha.

Ela fica com câncer, para ver o que é bom.

Ela converte o bondoso Miguel ao satanismo, casam-se e dão uma banana para Helena e Pedro, em meio a risadas demoníacas.

Essa é ótima: depois de conseguir transar com Pedro, fica sabendo que também é filha do garanhão inseminador, e foge correndo pela praia desesperada e fura os dois olhos, como Édipo.

Ela perde o dinheirinho da herança, escorraçada por todo mundo, vira sem-teto e fica viciada em drogas.

Quando vê Severino dar uma coça na namoradinha, fica doidinha por ele, fogem e vivem felizes para sempre. Através das janelas, a vizinhança ouve-a implorar como personagem de Nélson Rodrigues: ‘Me bate! Me bate!’

Fica louca. (Não acho ruim. Acontece muito nos romances de Dostoievski e em alguns de José Lins do Rego.) Íris torna-se ninfeta sadomasô requisitadíssima da central de garotas e tias de programa montada por Pedro com o objetivo de organizar a sacanagem, troca-troca e prostituição reinantes, na qual ele é um cafifa dominador, e onde trabalham Helenas, Cíntias, Capitus, Simones, Ritas, telefonistas, todas com motivos válidos para cair na vida (sustentar os filhos, claro) tendo a mãe de Capitu como cafetina gerente.

Íris apaixona-se perdidamente por Camila, que diz para a mãe ‘pode ficar com o Edu’, que abraça Gaby (em participação especial) e diz para a Helena ‘pode ficar com o Pedro’, que diz para a Cíntia ‘pode ficar com o Paulo Zulu’, que diz para a Glória ‘pode ficar com o Danilo’, que diz para a Alma ‘pode ficar com os gêmeos’, que dizem ‘papai!’ para J. Pinto Fernandes, que não tinha entrado na história."

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