Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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ENTRE ASPAS >

Mehane Albuquerque Ribeiro

31/08/2004 na edição 292

‘Lamentável a falta de preparo dos nossos jornalistas esportivos, principalmente os da tevê, ao narrar ou comentar a participação dos atletas da vela brasileira nos Jogos Olímpicos de Atenas. As informações sobre a carreira dos velejadores, que eles provavelmente ‘estudaram’ na véspera através de material de arquivo, foram, quando muito, básicas. Ficou visível que o desconhecimento sobre o esporte — as classes (que alguns insistiram em chamar ‘categorias’), o mecanismo das regatas, os barcos, etc. — era quase total.

Também foi grande a falta de informação sobre os velejadores de ponta de outros países, principais adversários dos brasileiros. A dupla Marcelo Ferreira e Torben Grael, por exemplo, tinha entre os rivais o canadende Ross Macdonald, casado com Márcia Pellicano, irmã do medalhista de bronze da Tornado, Henrique ‘Kiko’ Pellicano, e ex-integrante da equipe olímpica brasileira na Classe Europa. Ross esteve várias vezes no Brasil e não apenas treinou como ‘sparring’ dos nossos iatistas, como também ministrou clínicas de vela a convite da FBVM (Federação Brasileira de Vela e Motor).

Outro adversário da ‘Dupla de Ouro’ da Classe Star, o americano Paul Cayard, um dos velejadores mais famosos do planeta, tático reconhecidíssimo no mundo da vela, integrante da tripulação de barco oceano campeã na Admirals Cup, de 1995, e da Whitbread, regata de volta ao mundo, em 1998, foi meramente citado, sem qualquer comentário a seu respeito. Já se fosse jogador de futebol…

No caso do Robert Scheidt, os jornalistas (e narradores) começaram errando a pronúncia do nome do velejador, que é alemão e não inglês, e tem o som do ‘o’ fechado. E não é preciso falar alemão para saber disso. Qualquer repórter que já tenha conversado com Dona Karen, mãe do iatista da Laser, aprendeu a pronúncia correta, já que ela, assim como a mãe do Nalbert do vôlei, sempre faz questão de frisar esse detalhe. Foi hilário ouvir o Kleber Leite dizer que ‘Robert tem sangue brasileiro correndo nas veias’, quando todos estão carecas de saber da descendência germânica do atleta. É claro que Scheidt, apelidado pelos amigos de ‘Alemão’, é brasileiro e tem muito orgulho disso. Mas que soou engraçado, soou.

A narração das regatas só não foi pior, graças à presença de iatistas convidados, que teceram comentários pertinentes e salvaram a pátria da vela. Se os repórteres tivessem se esmerado mais, porém, poderiam ter passado informações interessantes aos espectadores, como o fato de que o Ricardo Winnick, o Bimba, foi ouro no Campeonato Mundial da Juventude, em 97; ou que, no mesmo ano, o Maurício Santa Cruz, hoje representante do Brasil na Tornado, foi ouro no Mundial de Snipe; ou, ainda, que na pré-olímpica de 98 a Classe 49er fez sua estréia em competições oficiais por aqui e correu com apenas uma equipe, pois não existia ninguém interessado no barco, considerado por muitos àquela época ‘invelejável’. E por aí vai…

Infelizmente essa é uma história que se repete há vários Jogos Olímpicos e, realmente, não dá para entender por que, mesmo sabendo-se que o iatismo é o esporte que tem trazido mais medalhas de ouro ao Brasil, os jornalistas não se interessam tanto pela vela quanto pelo futebol que, cá entre nós, nem está com essa bola toda.

Os veículos nem se deram ao trabalho de contratar, ainda que em caráter temporário durante os Jogos, profissionais que pudessem dar conta direito do recado. E olha que nós temos excelentes jornalistas especializados em vela, que certamente ilustrariam melhor as paupérrimas narrativas que tivemos que engolir. É o caso do Roberto Falcão, que acaba de escrever um livro sobre o centenário do Botafogo, mas que é fã incondicional da vela. Ele integra a equipe de assessoria de imprensa do COB e já foi assessor da FBVM. Temos, ainda, o Célio Albuquerque, que escreve a coluna Náutica do Jornal do Brasil; o Fernando Duarte, ex-editor da revista Off Shore; o Mário Pereira, que durante anos assinou coluna de naútica em O Globo; o Ary Pereira Junior, da Rádio Eldorado de Sampa; o Murillo Novaes, assessor do Lars Grael, que escreve um boletim diário de iatismo via e-mail e também é velejador, só para citar alguns.

Essa falta de interesse (e de informação) por parte da imprensa, pode ser uma das causas do iatismo ser tão pouco apreciado pelo povão. Claro que se trata de um esporte de elite, de difícil compreensão para o espectador leigo e impossível de ser acompanhado de uma arquibancada, já que as disputas são travadas no meio do mar e longe das vistas do público. Mas a televisão, com tanta tecnologia, câmeras digitais que fazem mágica e lentes de longuíssimo alcance, bem que poderia ajudar a mudar esse quadro. Atualmente, o único programa nacional sobre iatismo é o Mar Brasil, da ESPN, dirigido por Alexandre Haddad, um dos melhores cinegrafistas especializados em vela (e talvez único) do país. Além deste, só são veiculados por aqui programas estrangeiros, assim mesmo em canal de TV por assinatura.

Vamos ver se depois da conquista de mais duas medalhas de ouro, os repórteres e narradores de chuteiras, assim como o jornalismo esportivo brasileiro — futebolístico por excelência —conseguirão dar mais atenção e espaço a este esporte que, infelizmente, só é lembrado pela grande imprensa a cada quatro anos.’



José Paulo Lanyi

‘Namorada interesseira’, copyright Comunique-se, 26/8/04

‘Daiane dos Santos me pareceu antipática, na primeira vez que a ouvi. Já se falava muito nela. A ginasta se apresentava no Brasil e fora estúpida com um profissional de rádio que acabara de chegar para entrevistá-la. ‘De novo? Mas isso eu já respondi!’- dissera ela, sem entender que cada repórter fala para o seu próprio público.

O jornalista não engoliu e comentou no ar: ‘É preciso ter mais humildade, a vida dá muitas voltas’. Talvez as palavras fossem um pouco diferentes, mas essa era a essência.

Vieram os Jogos Olímpicos e com eles a expectativa – palavra que garante reportagens mil, e isso sempre será assim, ainda que com os exageros de praxe. Tornamo-nos o País da Ginástica, o País do Iatismo e por aí vai.

Eu não acreditava em um bom desempenho de Daiane, e era o que dizia aos meus colegas, que me acusavam de ser pessimista. Para mim era óbvio: cirurgia no joelho, marcas apenas razoáveis nas primeiras piruetas olímpicas e, mais importante, um Brasil inteiro sobre as suas costas de menina.

Na final, belíssimos saltos e duas conclusões ruins que lhe custaram a medalha. Depois de tudo, mais uma de suas entrevistas. Não, a mais lúcida, que pode ser sintetizada neste trecho de uma matéria da Folha de S. Paulo assinada por Edgard Alves, Guilherme Roseguini e Roberto Dias. ‘Não se ouviu reclamação por falta de estrutura. Não se ouviu reclamação da arbitragem. Não se ouviu reclamação da sorte. ‘Eu errei. É uma coisa que acontece. É esporte, erra-se às vezes’, disse Daiane dos Santos, 21, após não ter confirmado o favoritismo no solo da ginástica artística. Uma cena rara em um país acostumado a lamentos e justificativas’.

Bem que se tentou arrancá-los da moça. Vários repórteres quiseram saber se o problema tinha sido o joelho. ‘Não’. Então, foi a ordem de apresentação. ‘Não’. Estava nervosa? ‘Não’ (mas para outros disse que sim). Sentiu-se pressionada? ‘Não’. Duvido.

A mídia é como a namorada interesseira que se casa com um futuro promissor. Um dia percebe que o dote (dinheiro, hein…) era menor do que esperava. Chiliques de desengano…

Espero que a gente aprenda, que não precise mais de um pedido de desculpas do Bimba, o quarto melhor do mundo, dourado pela antecipação da nossa ansiedade; que não precise mais de um pito do Torben, o campeão que, antes da prova de hoje, disse à mídia que controlasse a sua expectativa. ‘O quinto lugar é a melhor colocação da história da ginástica artística brasileira. Daiane comemorou o fato de ter chegado à final. Festejou também por ter homologado o duplo twist esticado. Ao executá-lo nos Jogos, tornou-o parte do código de notas da ginástica, no qual ocupa o valor mais alto e leva o nome de ‘Dos Santos’, como o carpado. Feitos obtidos graças a uma nova realidade do esporte no país. Que traz medalhas e, prova Daiane, maturidade’. Lúcido, não?’



André Petry

‘Baixem a bola’, copyright Veja, 1/9/04

‘A conquista de uma medalha olímpica, ao contrário do que os locutores fazem parecer, não é um misto de grito e sorte. É mais que isso’

É quase da natureza dos locutores e comentaristas encarar disputas esportivas como se fossem duelos em que estão em jogo a vida e a morte. As televisões, talvez pela facilidade com que seu som e imagem podem mexer com os sentimentos, têm um irrefreável pendor para explorar a emoção onde quer que ela aconteça – na tragédia, na vitória, na derrota, na glória. Nas transmissões das Olimpíadas de Atenas, porém, apareceram alguns sinais de que talvez as emissoras brasileiras estejam começando a perceber seus exageros de vibração, que oscilam entre o entusiasmo pueril e o ufanismo às tontas. O sinal mais conhecido veio da gaúcha Daiane dos Santos, logo depois de ficar em quinto lugar na ginástica de solo. Com sua maturidade esportiva, Daiane disse que errou – e errar acontece. Não culpou a ordem de apresentação, os juízes, as cirurgias, o patrocínio. Culpou a si própria com a naturalidade de uma menina falível. Para a TV, a simplicidade das palavras de Daiane são como o estrondo de um raio. Ela tratava a ginasta como a personificação de ‘uma medalha de ouro inédita’. Daiane não era. No esporte, como em qualquer aspecto da vida, erra-se.

Uma cena mais constrangedora aconteceu durante entrevista com o atleta Torben Grael, quando se preparava para uma regata na qual poderia obter a medalha de ouro por antecipação. A emissora já festejava a medalha de ouro – que acabaria mesmo no peito de Torben Grael -, mas o próprio atleta lembrou com humildade que ainda havia uma prova pela frente. Na entrevista, pediu que não o pressionassem tanto e fez questão de mencionar especificamente ‘a pressão da mídia’. É chato quando um entrevistado tem de dizer ao entrevistador como deve se comportar.

E o que dizer das semifinais do vôlei feminino? Com 2 sets a 1, as meninas do Brasil disputavam o quarto set na partida com a Rússia, estavam com uma bela vantagem no placar, 24 a 19, e faltava 1 ponto para ganhar a partida e ir à final. Um narrador de televisão esqueceu-se desse detalhe. Começou a vibrar, a comemorar a prata que se garantia com aquela vitória e já celebrava a possibilidade do ouro na final – fosse com quem fosse, pois, afinal, somos imbatíveis. Esqueceu-se o locutor de que a equipe brasileira tinha ainda de marcar 1 ponto. E não marcou. E deu Rússia.

Por que Daiane dos Santos e Torben Grael têm de mostrar às emissoras de televisão do país que suas transmissões esportivas podem ser empolgantes, mas não precisam alçar-se ao exagero de ignorar a realidade? Por que um locutor dá por encerrada uma partida, e conquistada uma vitória, quando o jogo ainda não acabou? A conquista de uma medalha olímpica, ao contrário do que as televisões fazem parecer, não é apenas um misto de grito e

sorte. É mais que isso. Não é por acaso que o locutor Galvão Bueno é a estrela esportiva da Globo. Alvo de críticas e elogios apaixonados, Galvão Bueno é um profissional completo: tem voz e dicção, imprime altíssima rotatividade emotiva em suas narrações, conhece o riscado e tem boa cultura geral para pronunciar com desenvoltura nomes de atletas estrangeiros – e, melhor que tudo, nunca terminou um jogo antes do fim. Nem quando o vôlei masculino conquistou diante dos Estados Unidos o direito de disputar a medalha de ouro contra a Itália.’

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