Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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ENTRE ASPAS > CRISE POLÍTICA

Merval Pereira

19/07/2005 na edição 338

‘A única chance de recuperação da imagem do PT como partido político diferenciado é o compromisso com o esclarecimento completo do que aconteceu, analisam cientistas políticos em uníssono. Paulo Roberto Figueira, do Iuperj, acha que ‘para milhões de eleitores que sempre viram no PT um partido diferente dos demais, mudar dirigentes é muito pouco. O partido precisa dar sinais de real compromisso com o esclarecimento total dos fatos, inclusive se antecipando a divulgá-los, e não apenas respondendo laconicamente às denúncias depois que elas surgem na imprensa’.

Para ele, o Campo Majoritário — grupo historicamente ligado a Lula no PT e que comanda o partido — ‘precisa tomar a corajosa decisão de fazer uma autocrítica. Em nome da eleição de Lula, e depois em nome da governabilidade, este segmento do PT defendeu as alianças com os setores historicamente adversários do PT que estão no centro da crise — o PL, o PTB, o PP’.

Paulo Roberto Figueira lembra que enquanto essas alianças davam frutos positivos, ‘o Campo Majoritário se apresentava à sociedade como a parte moderna e não sectária do PT, contrapondo-se à esquerda partidária. Agora seria útil que tivesse a coragem de assumir a responsabilidade política também pela maior crise da história do PT’.

Nesta altura, segundo ele, ‘a inação e a omissão são os piores venenos para o PT. Negar os problemas cada vez mais óbvios é suicídio político e eleitoral. Ajudar de fato a investigar e punir exemplarmente os eventuais culpados é a única possibilidade de o PT diminuir o estrago em sua imagem’.

Para Figueira, ‘os milhões de novos eleitores do PT em 2002 não votaram apenas num discurso mais moderado — votaram também no velho discurso petista de compromisso com a ética. Ou o PT se reencontra com ele por meio de ações concretas, ou corre o risco de perder não apenas os novos eleitores, mas também boa parte dos antigos’.

Leonardo Avritzer, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, é mais benevolente na sua análise e acha que a crise é de acomodação do PT ao presidencialismo de coalizão: ‘O PT tem uma dificuldade a mais com o presidencialismo de coalizão, que é a distância entre a sua agenda política e a agenda e práticas dos partidos da base’.

Mas Avritzer acha que essa crise ressaltou um problema crucial: a distância que separa o partido do governo da maioria. Lula teve 47% dos votos e o PT menos de 20% da Câmara. Para ele, ‘essa distância está na raiz da crise política atual, e deve ser objeto da reforma política’. Ele sugere que uma reforma política dê mais força ao partido do presidente no Congresso.

Para ele, a principal lição dessa crise é que ‘para a esquerda, não existem atalhos para o poder. O atalho pensado por José Dirceu está derrotado. Por um lado, a agenda petista não chegou ao poder, por outro, o partido, com o escândalo, pode ter perdido parte importante das suas bases. Ou seja, o pior dos dois mundos’.

O professor David Samuels, brasilianista da Universidade de Minnesota, não crê que o apoio a Lula, majoritário hoje no Norte e Nordeste, seja devido ao assistencialismo. ‘Não acho que o PT vai se tornar um partido populista tradicional. O Lula não é um Chávez, ou, para dar um exemplo brasileiro, um Garotinho, que são populistas mais tradicionais’. Para ele, o governo Lula usa os recursos do Executivo para disputar espaços, do mesmo modo que Fernando Henrique também tentou se fortalecer com o assistencialismo, ‘e ninguém vai dizer que o PSDB se tornou um partido assistencialista’.

Mesmo que Lula perca a reeleição, David Samuels não imagina que ‘o PT possa se tornar um partido como outros no Brasil, viciado em recursos do Estado para se sobreviver politicamente. Pode acontecer, mas duvido’. Ele admite que o PT enfrenta, sim, a questão do pós-Lula, ‘mas pode esperar mais uns anos. Duvido que essa crise vai acabar com o PT. O PT é bem maior do que essas personagens que estão na mira hoje em dia’, analisa, dizendo que o PT será sempre um partido competitivo no nível nacional. ‘Tem candidatos fortes para prefeito e governador em vários estados, e pode continuar fazendo uma bancada de 100 deputados mais ou menos’.

Fernando Limongi, sociólogo, presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), acha que o PT ‘sempre quis, ou esteve disposto a desradicalizar. Sempre foi um partido eleitoral’. Ele avalia que o que varia é ‘o discurso, dependendo do espaço deixado pela oposição. Enquanto a centro-direita esteve fechada em torno da coligação PFL-PSDB, o PT não tinha como vir para o centro. O que possibilitou a estratégia diversa em 2002 foi a quebra da aliança entre os adversários. Serra foi incapaz de solidificar o bloco de centro-direita como FHC havia feito. Daí porque o PT pôde vir para o centro’.

O tamanho do estrago eleitoral que a CPI trará para o PT ‘é ainda algo em aberto. Tudo depende do que vier à tona e de onde se fechará o círculo’, conjectura Limongi. Embora no momento os prognósticos não sejam alentadores para o PT, ele diz que ‘PFL e PSDB não deixam de correr riscos, uma vez que financiamento de campanha é algo perigoso de ser tocado para todas as forças políticas’.

Hamilton Garcia, sociólogo da Universidade Estadual do Norte Fluminense, acha que ‘a contribuição maior virá com a derrota do pragmatismo de ‘esquerda’, aparelhista e autoritário’. O PT poderia, assim, se definir com mais precisão, ‘compensando seu desinchaço com a formação de uma frente ampla à moda uruguaia. A estabilidade do governo Lula será reforçada se o PT se aproximar do PDT, PPS e PSDB, e também se for capaz de imprimir criatividade à política econômica, que assumiu uma feição tecnocrática’.’



Rodrigo Rangel

‘Sobrou para os aliados’, copyright O Globo, 17/7/05

‘Ao depor na sexta-feira ao procurador-geral da República, o ex-tesoureiro nacional do PT Delúbio Soares confessou a existência de um esquema que pode levar à Justiça dezenas de políticos do próprio PT e de partidos aliados. Delúbio admitiu ter comandado um caixa dois que pagou, com recursos não declarados à justiça eleitoral, campanhas do PT e de siglas aliadas nas eleições de 2002 e de 2004. Entre elas, segundo o advogado de Delúbio, Arnaldo Malheiros Filho, estão o PP, o PTB, o PL, o PCdoB, o PSB e a ala governista do PMDB. Segundo o ex-tesoureiro, o dinheiro era obtido por meio de empréstimos feitos pelo empresário Marcos Valério e, a partir das empresas dele, seguia ilegalmente para diretórios partidários de todo o país.

Segundo Delúbio, os empréstimos de Valério destinados a abastecer o caixa dois do PT foram contratados nos bancos Rural e BMG, os mesmos onde o PT contraiu empréstimos oficiais tendo Valério como avalista.

Segundo Delúbio, apenas a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não foi abastecida pelo esquema paralelo. Do caixa dois, teriam saído recursos para campanhas estaduais e municipais, em 2002 e no ano passado. Teriam recebido dinheiro candidatos a governador, deputado estadual, deputado federal, senador, prefeito e vereador.

Em entrevista ontem ao ‘Jornal Nacional’, da Rede Globo, Delúbio confirmou os empréstimos feitos por Valério, revelou o valor exato da dívida petista — R$ 39 milhões, que corrigidos para valores de hoje chegam a R$ 90 milhões — e eximiu de culpa os outros dirigentes do partido.

— Não há responsabilidade de outros. É entre mim e ele (Valério). Assumi com ele um documento particular, autorizando a fazer os empréstimos. É um documento particular.

O ex-tesoureiro contou que a intenção de Marcos Valério ao intermediar os empréstimos era tornar-se o publicitário do PT. E negou qualquer comparação com a Operação Uruguai, esquema divulgado durante as investigações que levaram ao impeachment de Fernando Collor para justificar o padrão de vida do ex-presidente.

— Não há nada parecido. Discordo totalmente desta comparação. Fomos a dois bancos, pegamos um empréstimo e fizemos os pagamentos das necessidades do Partido dos Trabalhadores, dos partidos da base aliada, para sustentar uma campanha em 2004.

PP e PL estão entre os beneficiados

Dos partidos supostamente beneficiados pelo caixa dois petista, dois aparecem nas denúncias de pagamento de mensalão a parlamentares aliados feitas pelo deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ): PP e PL. O primeiro empréstimo de Valério para abastecer o caixa dois teria sido em 2003, para arcar com restos de dívidas das campanhas de 2002. O mecanismo deu certo e foi mantido em 2004.

Das contas de Valério o dinheiro era distribuído para os aliados. Ora seguia direto aos fornecedores, como produtoras de vídeo e gráficas, ora era depositado em contas indicadas pelos diretórios estaduais ou municipais.

— A intenção do PT era ajudar quem ajudou a eleger o presidente Lula — diz Arnaldo Malheiros Filho, que acompanhou o petista no depoimento prestado ao procurador-geral.

A estratégia de defesa de Delúbio tem como objetivo sepultar a acusação de que o PT fazia repasses mensais a deputados em troca de apoio ao governo no Congresso. Para derrubar a acusação de que chefiava o chamado mensalão, Delúbio alegou ao Ministério Público que os repasses aos partidos aliados não eram periódicos. Teriam como finalidade exclusiva cobrir gastos de campanha. O advogado afirmou que a iniciativa de Delúbio de admitir o caixa paralelo é uma oportunidade para se discutir abertamente o financiamento de campanhas no Brasil.’



O Globo

‘Os fundos na crise’, copyright O Globo, 17/7/05

‘O deputado Roberto Jefferson previu em entrevista a um jornal argentino que o próximo escândalo envolverá fundos de pensão de empresas estatais. Não se sabe se há algo consistente no arsenal de denúncias de Jefferson. Mas para quem conhece o histórico desses fundos, a aposta do deputado faz sentido.

Principalmente quando se considera que um dos alvos do projeto de aparelhamento da máquina pública seguido pelo PT é o controle desses importantes instrumentos financeiros. Hoje, militantes ou simpatizantes do partido ocupam cargos estratégicos em praticamente todos os fundos de estatais de peso, ou nas mantenedoras deles.

Os fundos de pensão como um todo, privados e estatais, já equivalem a mais de 10% do PIB. Apenas o Previ, do Banco do Brasil, o maior da América Latina, tem um patrimônio na faixa dos R$ 60 bilhões. Para qualquer partido ou grupo político com algum projeto de poder ambicioso, faz sentido, portanto, ter acesso ao controle dessas instituições.

Um indício de que Roberto Jefferson também nessa questão dos fundos pode saber do que está falando surgiu na reportagem publicada no domingo passado pelo GLOBO. Nela ficou evidente uma contrapartida concedida por fundos de estatais aos bancos Rural e BMG, por eles terem liberado empréstimos ao PT — e/ou prestado algum outro tipo de serviço ao partido. Com a publicação da reportagem, veio uma previsível enxurrada de notas e justificativas técnicas para o fato de fundos como Petros (Petrobras) e Real Grandeza (Furnas) terem destinado vários milhões a FIDCs desses bancos.

Em certa medida, a operação pode ser defendida tecnicamente, pois os FIDCs são títulos lastreados em empréstimos consignados, pagos por desconto na folha de salário dos beneficiários. Ou seja, o risco é quase nulo. Mas são operações no mínimo vulneráveis do ponto de vista ético — e por isso devem ser esquadrinhadas.

Roberto Jefferson à parte, há décadas esse universo de fundos de pensão de estatais é um mundo de névoas, por onde transitam bilhões sem maiores controles e transparência — salvo as auditorias externas de praxe. Mas estas perderam credibilidade depois dos escândalos empresariais americanos.’



Roldão Arruda

‘Tom ensaiado e contradições em entrevista à mesma TV’, copyright O Estado de S. Paulo, 17/7/05

‘As entrevistas do empresário mineiro Marcos Valério e do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares ao Jornal Nacional, da Globo, foram marcadas por três semelhanças visíveis. A primeira foi o fato de escolherem o mesmo veículo de comunicação, com apenas um dia de diferença. As outras duas estavam no teor das declarações. Um repetiu o outro com tanta precisão, que pareciam ter ensaiado; e os dois caíram em contradição, desmentindo declarações já feitas sobre os mesmos assuntos.

O próprio Jornal Nacional citou algumas das contradições entre o que Marcos Valério disse ao repórter e o que havia dito no dia 6 julho na CPI dos Correios. Um dos exemplos mais notáveis foi quando fez referências ao destino do dinheiro vivo sacado no caixa dos bancos. Na CPI, o empresário disse que se destinava ao pagamento de fornecedores e prestadores de serviços de suas empresas. Na entrevista, porém, sustentou que era usado para pagar dívidas do PT: ‘Eram empréstimos exclusivamente para o PT.’

Outra contradição surgiu quando tratou da quantidade de empréstimos que avalizou para o PT. Enquanto na CPI destacou com toda a seriedade que avalizou apenas um empréstimo e chegou a pagar ao banco uma das prestações não honradas pelo PT, na TV contou outra história: ‘Foram vários (empréstimos).’

Ele também se contradisse ao falar do relacionamento com o ex-tesoureiro. Diante da CPI, quase jurou: ‘Nunca passei dinheiro para o senhor Delúbio Soares.’ No Jornal Nacional, também quase jurou: ‘O montante total dos empréstimos foi para o PT, na figura do tesoureiro e pessoas que ele indicava.’

No caso de Delúbio, vale lembrar que em 30 de junho, em Goiânia, ele tinha tentando desmoralizar as acusações, afirmando que tudo não passava de uma plano para levar ao impeachment de Lula. Ontem disse que tudo é culpa da legislação eleitoral.’



Zuenir Ventura

‘A crise e seus palpites’, copyright No Mínimo (www.nominimo.com.br), 12/7/05

‘Na semana passada, deixei no ar uma questão cuja resposta o leitor José Fernando me cobrou: ‘Continue, por favor, o artigo ‘Um coração indignado’. Você não pode deixar esse seu leitor com a dúvida da frase final. Eu já sou um poço sem fundo de dúvidas. Busco minhas respostas em gente como você, como o Villas. Continue, pois, e responda à sua própria indagação. Deixe de preguiça, pô!’. Eu chamava meu amigo de ‘pessimista’ e concluía: ‘Mas, pensando bem, e se, em vez de pessimismo, toda a sua desesperança for simplesmente realismo?’.

Sou, por natureza, otimista, assim como sou careca. Os dois, a esperança e a calvície, estão inscritos no meu DNA. Mas não sou burro, ou pelo menos não muito. Sei que a atual é uma crise braba, e quem fala já assistiu a muitas outras, desde 1954, quando Getúlio Vargas suicidou-se e o país entrou em convulsão. Depois a renúncia de Jânio, em 61, a queda de Jango em 64, o golpe dentro do golpe de 68, os anos de chumbo, a bomba do Riocentro e a morte de Tancredo nos anos 80, o impeachment de Collor nos 90.

Quando a gente está no meio da crise, seja pessoal, seja coletiva, parece o fim do mundo. Na semana passada me senti meio anestesiado e catatônico diante daquele bombardeio de notícias ruins, cada uma superando a anterior em gravidade. Cheguei a escrever: ‘Tudo é possível, inclusive o improvável e o inverossímil. Diariamente são testados os limites da capacidade de nos espantarmos ou simplesmente de nos surpreendermos. Houve uma espécie de banalização da perplexidade’.

Disse então que só faltava sexo, drogas e rock’in’roll para completar o escândalo. No dia seguinte, apareceu sexo. Tinham encontrado uma fatura de R$ 29,90 paga com um cartão corporativo da Previ, usado por seu diretor. A empresa beneficiada, MHP, é responsável pelo site pornográfico Malícia. Quer dizer, só faltam agora drogas e rock’in’roll.

Temo, evidentemente, o cansaço da opinião pública, o fastio diante de tanta notícia ruim, a indigestão que o excesso de informações produz. Sei que, como sofremos de amnésia crônica, somos ciclotímicos e preferimos a euforia à depressão, há sempre o risco de um ‘chega de mensalão, cansou, tá muito chato’. Mas já pelos primeiros efeitos saneadores, pelo expurgo que o governo está sendo obrigado a fazer, pode-se esperar (ou torcer) que dessa vez não acabe em pizza.

As crises políticas têm uma dinâmica própria que faz de qualquer previsão um palpite. Assim, já que nossa vontade não altera o desfecho, sendo pessimista ou otimista, eu prefiro o mais difícil hoje em dia, que é o otimismo. Acho que, como a vocação do país não é ficar no fundo do poço (ele prefere a beira do abismo), ele vai sair melhor, passado a limpo, depois desse processo de catarse, purgação e depuração. No fundo, trata-se de um careca otimista no meio do ruim procurando pensar no melhor e dizendo: ‘Afinal, podia ser pior, podia ser Londres’.’

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