Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > INTERNET

Michael Stanton

15/04/2005 na edição 324


‘Vinton G. Cerf ou, simplesmente, Vint é uma pessoa cuja biografia corre em paralelo com a história da Internet. Como pesquisador do projeto ARPANET, publicou em 1974 uma artigo com Bob Kahn que definiu a arquitetura fundamental do que viria a ser a Internet. Neste artigo seminal eles propuseram estruturar grandes redes de computadores como uma coleção de sub-redes menores, onde cada sub-rede usaria uma tecnologia específica para comunicação interna, por exemplo Ethernet ou ATM. O grande pulo dado por Cerf e Kahn era nas interconexões entre as sub-redes, que seriam feitas através de equipamentos hoje conhecidos como roteadores, que têm a função de receber mensagens chegando em uma sub-rede e reenviá-las por outra. São os roteadores que suportam a heterogeneidade das redes, possibilitando a interconexão de sub-redes de tecnologias diversas. Hoje chamamos de inter-rede uma coleção de redes interligadas por roteadores, e a maior de todas é escrita em inglês com letra maiúscula – a Internet. A tecnologia que habilita esta costura é também conhecido pelo nome de um dos seus padrões técnicos – o Internet Protocol, ou IP.


Cerf acompanha até hoje a evolução da sua criança. Depois da Internet virar negócio no início dos anos 1990, tornou-se executivo da MCI, originalmente uma operadora de telefonia de longa distância dos EUA que optou vigorosamente pelo caminho de redes de dados, quando isto ainda não era tão comum. (A MCI também chegou a comprar a Embratel na época da desestatização do setor de telecomunicações nacionais, mas já a vendeu para a Telmex.) Cerf também vem participando ativamente em atividades mais públicas: ajudou a criar e foi presidente da Internet Society (www.isoc.org), uma organização dedicada à cultura e à tecnologia da Internet, e hoje ele é presidente da ICANN, organização civil que supervisiona a infra-estrutura báscia da Internet – seus endereços e nomes de domínios (www.icann.org).


Em reconhecimento das suas contribuições científicas Cerf e Kahn foram nomeados para o prêmio Turing da sociedade profissional, a Association of Computing Machinery (ACM) (www.acm.org). Este prêmio, que honra o matemático inglês, Alan Turing, um dos pioneiros da computação digital, é dado anualmente desde 1965, e é considerado o equivalente para a computação de um prêmio Nobel.


Cerf já esteve algumas vezes no Brasil, mais recentemente como presidente da ICANN, que se reuniu no Rio de Janeiro em 2003. Entretanto sua primeira visita foi a São Paulo em 1975, para demonstrar o uso da ARPANET na USP. Há uma curta descrição desta visita no seu sítio particular em global.mci.com/us/enterprise/insight/cerfs_up/transitions/uncapher, onde ele fala das dificuldades enfrentadas nesse período para estabelecer uma conexão intercontinental de 300 bits por segundo para permitir usar um terminal ‘teletipo’. Esta seguramente deve ter sido a primeira vez que se fez transmissão internacional para um computador a partir do Brasil. A comunidade acadêmica nacional ainda teve que esperar mais 13 anos antes de implantar uma rede de computadores aqui, que pudesse se comunicar com outras redes congêneres no exterior, e mais 3 anos para realizar sua primeira comunicação através da Internet.


Como Cerf se manteve ligado (em todos os sentidos) aos assuntos da Internet, tem uma visão bastante ampla da maneira que ela vem evoluindo para expandir seu alcance. Recentemente esteve numa conferência em Washington sobre conectividade onde falou sobre alguns dos seus pensamentos a respeito das tendências das comunicações no mundo (v. www.isp-planet.com/news/2005/cerf_f2c.html). Neste discurso fez várias considerações interessantes sobre a tecnologia Internet e suas conseqüências.


Uma era a ubiqüidade da Internet, que hoje se estendeu para permitir a integração física de todo tipo de tecnologia de comunicação ao nível das sub-redes componentes. Um exemplo disto é a incorporação na teia mundial da Internet das novas redes que utilizam comunicação sem fio: telefonia celular, WiFi, WiMax e Bluetooth. Desta forma um equipamento que utilize qualquer uma destas tecnologias de comunicação poderá fazer parte da Internet. O outro lado da moeda seria garantir que este equipamento consiga usar todas as possibilidades interessantes para a comunicação que a Internet abre.


Aqui a chave é o padrão de comunicação entre pares (peer to peer, ou P2P), que é diferente da assimetria da relação tradicional cliente-servidor, onde os papéis dos dois computadores são fixos, sendo que um dos dois computadores (sempre o mesmo) pede algum serviço do outro. No P2P os dois computadores em comunicação se tratam como iguais ou pares. Em relações entre pares, qualquer um dos dois computadores poderá servir ou ser servido, ou, juntos, eles podem implementar um serviço simétrico, como é o caso em teleconferências, de voz e de vídeo. O interessante deste tipo de aplicação é a grande liberdade para criação que abre. Entre pares, não há necessidade de seguir padrões existentes, e as novas aplicações poderão explorar criativamente as oportunidades assim abertas. Por exemplo, o Skype (aplicação de telefonia IP – v. a coluna de 30 de novembro de 2003) procura brechas em paredes corta-fogo que admitem passar tráfego WWW, simplesmente usando o mesmo caminho, tornando difícil seu controle por administradores de rede.


Muitas das novas aplicações P2P são hoje usadas para distribuição de conteúdo digital. Entre estas, a mais importante hoje é o Bit Torrent, que já ultrapassou o KaZaA nas preferências dos usuários. Um estudo realizado recentemente em vários países, mencionado por Vint Cerf em seu discurso, mostra que dois terços de todo o tráfego Internet hoje é de aplicações P2P, sendo uma boa parte destas de transmissão de vídeo. Em redes de acesso, a proporção sobe para 80% de todo o tráfego (v. www.isp-planet.com/research/2004/cachelogic_data.html).


Uma característica importante destas novas aplicações P2P, enfatizada por Vint Cerf, é a simetria dos fluxos de dados. Da mesma forma que uma relação P2P é simétrica entre o par de computadores, o volume de tráfego também tende a ser igual nas duas direções, com o volume de dados recebidos sendo parecido com o volume transmitido. Isto ocorre porque cada nó combina as funções de cliente e servidor. Por exemplo, além de receber conteúdo digital, os usuários de Bit Torrent também o distribuem. Isto traz outro desconforto para a tecnologia das redes de acesso hoje usadas. As mais comuns usam ADSL (como Speedy ou Velox) ou sistemas de TV a cabo (como Virtua ou Ajato). Em ambos estes casos, a rede de acesso é assimétrica, supondo-se que o volume de informação entregue ao usuário (download) excede o que ele transmite (upload). Isto simplesmente não vale hoje em dia, por causa das novas aplicações. De certa forma esta tendência casa bem com novas redes de acesso baseadas em canais ópticos, que começam ser usadas em alguns países, e onde a largura de banda é simétrica entre os dois sentidos de transmissão. Isto ainda é distante da nossa realidade atual, mas normalmente não ficamos com muitos anos de atraso comparado com a situação de outros países. É bom que já esteja sendo apontado o caminho da evolução futura!


Vint Cerf já fez muitas contribuições a nossa mundo atual. É bom ver que continua bem ativo e pensante. Que sirva de inspiração para nós outros que laboramos nesta seara.


Michael Stanton (michael@ic.uff.br), que é professor do Instituto de Computação da Universidade Federal Fluminense e também Diretor de Inovação da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), escreve neste espaço desde junho de 2000 sobre a interação entre as tecnologias de informação e comunicação e a sociedade. Os textos destas colunas estão disponíveis para consulta http://www.ic.uff.br/~michael/SocVirt.htm.’





MURDOCH & JORNALISMO


O Estado de S. Paulo


‘Jornais precisam se ajustar à era da internet, diz Murdoch ‘, copyright O Estado de S. Paulo, 15/04/05


‘O chefe de uma das maiores empresas de comunicações dos Estados Unidos conclamou os editores de jornais a aceitar e incorporar a internet. Rubert Murdoch, executivo-chefe da News Corp, que gerencia o canal Fox News, disse que seus colegas da imprensa escrita estão ‘assistindo sentados’ a uma nova geração de consumidores digitais se distanciar dos jornais.


Ele citou um recente relatório da Carnegie Corporation, uma fundação sem fins lucrativos, mostrando que 44% das pessoas entre 18 e 34 anos acessam sites na internet em busca de notícias pelo menos uma vez por dia. Segundo Murdoch, é preciso mudar a forma como as notícias são apresentadas.


Quando a internet surgiu nos anos 1990, Murdoch chamou ele mesmo e outros executivos de ‘imigrantes digitais’ porque não tinham crescido surfando na internet, mas precisavam aprender a gerenciar o negócio. ‘Do mesmo modo que se começa hoje o dia com café e jornal, no futuro, vai se começar com café e web site.’’






TV GLOBO


Daniel Castro


‘Futura novela das sete será um faroeste ‘, copyright Folha de S. Paulo, 15/04/05


‘Reviravolta na Globo. A próxima novela das sete, que substituirá ‘A Lua me Disse’ (que estréia segunda), será um faroeste do escritor Mário Prata, e não mais uma comédia da estreante (no horário nobre) Andrea Maltarolli.


A decisão foi tomada anteontem por Mário Lúcio Vaz, diretor-geral artístico da emissora. Vaz, a rigor, voltou atrás. O contrato de Prata já previa que ele escreveria a novela das sete que entrará no ar em outubro. Mas, como a produção seria dirigida por Luiz Fernando Carvalho, que está ocupado com a segunda edição de ‘Hoje É Dia de Maria’, Vaz optou por ‘Por Aí’, de Maltarelli, que agora ficou para maio de 2006.


A novela que marcará o retorno de Prata, autor de ‘Estúpido Cupido’, à Globo se chamará ‘Bangue Bangue’. A direção será de Ricardo Waddington e José Luiz Villamarin (‘Mad Maria’).


‘Bangue Bangue’ será um faroeste com direito a saloon e todos os elementos de novela das sete, como Romeu e Julieta, heranças. A diferença é que estou mudando o cenário quarto-e-sala para o saloon, o cabaré, a rua’, diz Prata. A cidade cenográfica será de filme de western. A trama se passa num Velho Oeste, mas não é dito que fica nos EUA. Os personagens terão nomes ingleses.


No início dos anos 70, Prata sugeriu ao SBT algo parecido com ‘Bangue Bangue’, que não foi adiante. A primeira novela-faroeste foi ‘Irmãos Coragem’.


OUTRO CANAL


Reforço Baseada em pesquisas, a Record está desenhando uma nova programação dominical. A principal novidade é que o segundo ‘O Aprendiz’ entrará aos domingos (às 20h30 ou 22h) e terças (e não mais às quintas). O novo programa de Eliana também será aos domingos, das 14h30 às 16h, após o ‘Domingo da Gente’.


Ajuste 1 Glória Perez já reescrevia cenas de ‘América’ desde a semana passada, antes do afastamento, a pedido dela, do diretor de núcleo Jayme Monjardim. Perez arrumou, no novo texto, um pretexto para Sol (Deborah Secco) abandonar Tião (Murilo Benício) e viajar para os EUA, onde entrará clandestinamente.


Ajuste 2 Sol decidirá viajar para ganhar dinheiro para uma cirurgia em Mariano (Paulo Goulart), seu padrasto. Assim, Perez corrige uma falha imperdoável para um folhetim: a heroína, que era egoísta, passa a ser altruísta e tem uma razão forte para ir aos EUA.


Queda O capítulo de anteontem de ‘América’ deu média de 40 pontos, a menor de um dia útil (menos sábados) desde a estréia, em 14 de março. E ‘Xica da Silva’, no SBT, cresceu em cima do futebol na Globo e marcou sua melhor média (15 pontos) e maior pico (20).


Vaga O ex-jogador Bebeto, um dos ‘heróis do tetra’, será o terceiro jurado de ‘Joga 10’, ‘reality show’ da Nike na Band, ao lado de Zagallo e Dunga.’




O Globo


‘Universidade Federal do Ceará faz homenagem a Roberto Marinho’, copyright O Globo, 15/04/05


‘O jornalista Roberto Marinho foi homenageado ontem com o título de título de doutor honoris causa in memoriam pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Em solenidade na Academia Brasileira de Letras (ABL), na presença do governador do Ceará, Lúcio Alcântara, o diploma, em reconhecimento à contribuição de Roberto Marinho ao desenvolvimento da educação e da cultura no Brasil, foi entregue a seu filho José Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo e presidente da Fundação Roberto Marinho.


– O diploma traduz a gratidão da Universidade Federal do Ceará e o reconhecimento dos méritos de Roberto Marinho – disse René Barreira, reitor da UFC.


A proposta do título, explicou o reitor, era um projeto antigo da universidade. O conselho da UFC já havia aprovado a proposta por unanimidade há 20 anos, quando Martins Filho era o reitor. Ontem a universidade formalizou a entrega do diploma.


– Hoje (ontem), estamos resgatando essa dívida histórica. A Universidade Federal do Ceará cultiva como um dos seus princípios mais sagrados o reconhecimento, a gratidão. Foram exatamente esses os sentimentos que nos inspiraram a conceder o título de doutor honoris causa ao jornalista Roberto Marinho – disse René Barreira.


Reitor destaca atuação da Fundação Roberto Marinho


O reitor citou o importante papel da Fundação Roberto Marinho na difusão da cultura e a significativa atuação do Sistema Globo de Comunicação no campo da educação, com programas como o Telecurso 2000. Na solenidade, José Roberto Marinho lembrou a paixão que seu pai tinha pelo conhecimento e seus esforços para o desenvolvimento da educação, da arte, da ciência e da tecnologia, além da consciência dos valores culturais e históricos:


– Meu pai já não está entre nós para sentir-se recompensado, agradecido ou envaidecido, até. Mas a mensagem que esta homenagem carrega será recebida e entendida por muitos. Uma mensagem que revela, como sabemos, que a paixão pela vida pode mudar o mundo. Recebo esta homenagem à memória de meu pai com grande orgulho e sentimento de responsabilidade.


José Roberto acrescentou que é responsabilidade dele e de seus irmãos o desafio permanente de continuar exercendo um papel relevante em tantas áreas, como fez o pai.


– A aventura do conhecimento, a aposta na educação como valor essencial, permeia toda a ação social das empresas Globo e é a própria razão de ser da Fundação Roberto Marinho – concluiu.’





TVE


Etienne Jacintho


‘TVE Brasil leva o País ao exterior ‘, copyright O Estado de S. Paulo, 15/04/05


‘Desde o começo do ano, a TVE está investindo em uma nova imagem. Mudanças de vinhetas e cenários se unem às melhorias no sinal – com a compra de novos transmissores – e às negociações para que o canal volte para o line-up da Net e da DirecTV.


Ao mesmo tempo, a TVE se movimenta para gerar maior e mais variado conteúdo. Ainda este ano entrará no ar uma série de episódios do personagem mais famoso de Ziraldo, O Menino Maluquinho, sob direção de Cao Hamburger e roteiro de Ana Muylaert. Além do infantil, a rede pública ainda prepara um boletim semanal com o que está acontecendo na França. O projeto, em nome do ano Brasil-França, é uma espécie de intercâmbio cultural via TV com a França, que também receberá notícias brasileiras. E a América Latina está no foco do canal com o Recorte Cultural, que estreará ainda este mês, com jornalistas latinos.


O objetivo é divulgar o País – e a produção brasileira – no exterior. A diretora do canal, Beth Carmona, diz que a TVE levará uma série de produções nacionais à MIPCom, a feira internacional de TV. São documentários de temas variados – alguns dos vencedores do DocTV – e produções infantis do Curta-Criança, que teve sua segunda edição realizada recentemente.


100% Brasil


No segundo semestre, a TVE promete colocar no ar o resultado de uma parceria de 2 anos com a National Geographic, o 100% Brasil. Em 28 episódios, o País será mostrado na telinha de uma forma diferente. ‘Será uma revista com tecnologia e cultura sob um ponto de vista não estereotipado’, conta Beth Carmona, que dá como exemplo um programa sobre o carnaval na Bahia abordando não só a festa, como o aspecto da segurança. ‘Representantes de alguns países estiveram aqui para ver como trabalha a segurança, pois o evento, que reúne tanta gente e bebida, não sofre com muitos incidentes.


Outro capítulo da série mostrará a produção de borracha no País e a moda das Havaianas, além de contar a história do látex. Até a caipirinha e a cachaça serão objetos de investigação da série, que será exibida internacionalmente, como todas as co-produções da National Geographic.


‘Será uma nova TVE, com identidade cultural e diversidade de assuntos para crianças e adultos’, explica Beth, que destaca ainda programas que já são bem-sucedidos como o Expedições, com Paula Saldanha e a Revista do Cinema Brasileiro, com Julia Lemmertz.


Algumas produções como o Curta Criança serão exibidas também na TV Cultura. A partir do dia 25, a Cultura participará, duas vezes por semana, do Atitude.com, um programa para jovens sobre comportamento e música. Outra atração que está no foco é o Programa Especial, sobre inclusão de deficientes físicos e mentais.’


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PRIMEIRAS EDIçõES >

Michael Stanton

Por lgarcia em 20/09/2000 na edição 98

GOVERNO NA INTERNET

"Informação e o governo federal", copyright Tecnologia da Informação <www.estadao.com.br/tecnologia>, 11/09/00

"Uma das características marcantes da época em que vivemos é o uso da tecnologia de informação pelos governos. Em muitos países, incluído entre eles o Brasil, a Internet contou desde o início com o apoio explícito de agências oficiais, e, com o passar do tempo, tem sido sempre crescente o envolvimento do próprio governo como usuário. Hoje o governo federal centraliza no portal <www.brasil.gov.br> o acesso organizado a boa parte dos sites operados pelo governo federal e dos estados. (Infelizmente, a apresentação dada por este portal suprime o toolbar do browser, dificultando o manuseio das páginas encontradas: para contornar este problema, pode-se usar a URL <www.brasil.gov.br/html/main_h.htm>).

A coleção de informações disponíveis via este portal é uma mina preciosa para conhecer o que passa no país, no governo e na vida pública. É até difícil imaginar como era possível ter acesso a estas informações e serviços antes da Internet. Em destaque estão os textos da Constituição e de boa parte da legislação federais, acessíveis através da página da Presidência da República <www.planalto.gov.br>. Aliás, esta página é o centro de informações sobre o poder executivo federal, com links para os ministérios. Outras páginas disponíveis incluem as dos poderes legislativo e judiciário, do Ministério Público, dos governos estaduais e municipais, e de ?outros órgãos? federais.

Uma descoberta feliz é encontrar o registro das discussões dentro de comissões do congresso sobre futura legislação. Já comentamos na coluna de 10 de julho a tramitação dentro da Câmara dos Deputados do projeto de lei sobre o comércio eletrônico. A comissão especial que examina este assunto, presidida pelo deputado Arolde de Oliveira e tendo como relator o deputado Júlio Semeghini, já realizou quatro audiências públicas com a participação de dez especialistas, representando diferentes interesses da sociedade/ Estes incluem, entre outros, a OAB, o Comitê Gestor Internet Brasil, a Universo Online, a Assespro, a Receita Federal, o Bradesco, o grupo Pão de Açúcar e a loja virtual Submarino. As transcrições destas audiências documentam um verdadeiro seminário sobre a comércio eletrônico e estão publicamente disponíveis via WWW na URL <www.camara.gov.br/Intranet/comissao/index/esp/ctrami.htm#CEPL1483>. Recomenda-se aos leitores conhecer esta testemunha viva do funcionamento do nosso congresso.

Algumas agências do governo federal abraçaram com entusiasmo o uso da Internet para se relacionar com seu público externo. Destas a mais conhecida é seguramente a Receita Federal <www.receita.fazenda.gov.br>, cuja maior façanha vem sendo a preparação de software, disponível via a Internet, para a declaração anual do Imposto de Renda de Pessoa Física. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do MCT <www.cnpq.br> também aderiu ao uso de formulários eletrônicos para a submissão de projetos e atualização dos currículos dos pesquisadores do país. Para os currículos foi adotado recentemente a chamada Plataforma Lattes, que permite uniformizar a coleta destas informações, simplificando a geração de sumários sobre a comunidade de pesquisa no país.

Podemos então dizer que a Internet já vem sendo usado pelo governo federal para difundir informações, e também para agilizar os contatos com seus clientes, os contribuintes e os beneficiários do governo. Esta utilização promete aumentar muito no futuro, especialmente na prestação de serviços à sociedade. O programa Sociedade de Informação do MCT <www.socinfo.org.br> vem debatendo a estratégia a ser indicada para futuras ações. Em breve deve ser tornado público o seu Livro Verde, que sintetiza o trabalho em mutirão de centenas de pessoas para definir esta estratégia.

Portanto, se quisermos criticar o uso feito da Internet pelo governo, deve-se concentrar na forma, mais do que no conteúdo. Já foram mencionadas acima as restrições de manuseio de páginas compostas pelo portal do governo, as quais dificultam o pleno aproveitamento do recurso. Adicionalmente pode-se observar que alguns dos sites governamentais utilizam recursos avançados de páginas WWW, tais como animação com Java ou ?Flash?, o que tende a onerar o tamanho e tempo de carga destas páginas, sem aumentar a informação disponível. Outra crítica que deve ser feita é da prática de usar documentos em formatos proprietários, tais como o DOC ou RTF (Rich Text Format) de Word da Microsoft, ou o PDF (Portable Document Format) da Adobe. O problema com estes formatos é que eles requerem software específico para sua visualização. No caso do PDF, a Adobe até criou versões gratuitas do seu Acrobat Reader para diversas plataformas diferentes. O mesmo não vale para os formatos usados por Word, e muitos usuários, especialmente de Linux, não teriam acesso a estes documentos. O correto seria usar formatos padronizados na Internet, tais como ASCII ou, melhor, ISO 8859-1 (Latin-1) para textos simples, e HTML para documentos estruturados, com uso de fonts variados e inclusão de imagens gráficas. O uso do HTML tem a vantagem que é simples ajustar o tamanho do font usado para visualizar o documento na tela, o que certamente facilita a vida de nós que temos problemas de vista. Caros webmasters, pede-se sua colaboração para tornar excelente o que já está bom."

VIOLÊNCIA POR DENTRO

"Com arma ou com (in)formação?", copyright Jornal da Tarde, 11/9/00

"É comum a filosofia e a ciência contrariarem as explicações propostas pelo senso comum. Sem técnicas reconstrutivas adequadas e sem distanciamento crítico o espetáculo do mundo não tem como ser compreendido. Os dados, sem uma teoria a integrá-los, nada informam sobre si mesmos. Fatos tomados em seu significado aparente só confundem o espírito. A olho nu vê-se o objeto, não a força que o criou e o faz ser o que é. O primeiro passo para entender alguma coisa é recusar o saber à primeira vista. O olhar sem o telescópio e o microscópio fica confinado à circunstância imediata. A lonjura cósmica e o detalhe ínfimo demandam instrumentos sofisticados para captar sua intimidade. Prisioneiras da encenação das aparências, as explicações espontâneas não têm como penetrar no núcleo essencial da realidade ao qual só as complexas teorias da filosofia e da ciência têm acesso.

Para o advento da ciência foi decisiva a idéia, surgida na aurora da filosofia grega, de que o conhecimento é uma forma especial de construção intelectual que não endossa o tipo de informação acriticamente acolhido pelo senso comum. Mesmo os que respeitam o senso comum como uma fonte primeira de conhecimentos têm consciência da necessidade de ultrapassá-lo. A tese moderada, normalmente abraçada por empiristas, de que a ciência é senso comum refinado procura evitar que se abra um abismo entre o saber espontâneo da cultura e a pesquisa ?artificial?. Mas, na prática, raros são os estudiosos que acolhem com simpatia interpretações ?leigas?. Paira sobre elas a suspeita de impressionismo, de achismo presunçoso, de racionalização de interesses, etc.

É de justiça reconhecer que quando estão em questão temas psicossociais nem sempre se justifica virar as costas para o senso comum. As teorias grandiloqüentes, com seu radical desprezo pelo dado imediato, costumam ser pouco explicativas e pouco práticas na proposição de soluções. No Brasil, é forte a tendência a supor que as grandes teorizações não precisam prestar atenção aos fatos a que se apega a visão comum. A megalomania explicativa, na qual a ciência dá lugar à retórica em nome do fim das ilusões, é mais sedutora que o raciocínio balizado por ?fatos?. A dialética tortuosa autoriza que se desconsidere a realidade desde que se professe a ideologia certa. Felizmente, ninguém está condenado a optar entre o gongorismo de uma razão martirizada e a literalidade, eventualmente enganosa, dos sentidos. A ciência não tem o monopólio da verdade nem o senso comum está, em princípio, impedido de contribuir para o avanço do conhecimento.

Faço tais considerações a propósito de uma entrevista veiculada há algum tempo no programa apresentado por Caco Barcelos na Globo News. Nele, um jovem favelado deu um depoimento que dá o que pensar. Com lucidez incomum, afirmou que há duas formas de acesso aos bens de consumo e às roupas de grife: o revólver e a informação. Além da capacidade de apontar um fator crucial no processo que leva à criminalidade, o depoente enfatizou que a via armada é a mais fácil. A seu juízo, a informação só pode ser buscada pelos que se preparam. Trata-se, acrescentaríamos, de processo penoso que envolve vários tipos de investimento pessoal e comunitário. O que espanta nessa fala contundente é que sua aparente obviedade sociológica é tratada pelos bem pensantes como se fosse uma tese reacionária dos que não têm sensibilidade para perceber que o fator determinante da violência é a pobreza.

À diferença do que pensam os ?materialistas históricos?, as formas mais comuns de criminalidade não são produto da falta do básico, e sim da busca, por meios violentos, do ?ganho fácil?. Guardadas as proporções, a corrupção e a criminalidade derivam do mesmo tronco causal. A corrupção, protagonizada por Lalaus e bagrinhos, obedece à mesma lógica do mercado do crime: onde a punição é remota, roubar é mais vantajoso que ?ralar?. Como o mundo atual exige cada vez mais preparo para que se possa ter o supérfluo, a opção armada abrevia o processo. Talvez essa seja a razão por que aumenta o número de delitos praticados por jovens, inclusive de classe média, bombardeados por apelos consumistas em ambientes que relativizam valores morais basilares. Assusta constatar que já não é suficiente prover boa (in)formação para crianças e adolescentes. E que a sociedade tudo precisa fazer para impedi-los, mais por meios persuasivos que punitivos, de recorrer ao revólver como o modo mais fácil e rápido de conquistar os bens de consumo desejados. (Alberto Oliva é professor de Filosofia da UFRJ)"

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