Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ENTRE ASPAS >

Milton Coelho da Graça

26/07/2005 na edição 339

‘A coluna de Miriam Leitão desta terça-feira (19/7), no Globo, deveria ser republicada com as assinaturas de todos nós, jornalistas brasileiros – ela pode ser lida também aqui no Comunique-se. Miriam foi precisa e concisa ao mostrar que a entrevista do presidente Lula a uma companheira nitidamente sem experiência maior em nosso país, a serviço de uma produtora francesa (quem pagou o serviço?), com perguntas combinadas, reflete bem o que vai na cabeça da assessoria de imprensa do Planalto. A linha geral da fala presidencial seguiu a mesma linha dos pronunciamentos de Delúbio Soares e Marcos Valério, e nosso Presidente fugiu o tempo todo de falar com os muitos e competentes jornalistas que o acompanharam na viagem à França. Por favor, não deixem de ler a coluna de Miriam.

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A pelegada é sempre a mesma

Coincidência interessante ainda não comentada por nossa imprensa. Todos (ou quase todos pelo menos) os envolvidos na trama Delúbio-Marcos Valério, no assalto aos fundos e nas ‘bocas’ das estatais são ou foram dirigentes sindicalistas e, mesmo assim, o presidente Lula achou que devia coroar o presidente da CUT, Luiz Marinho, como Ministro do Trabalho. Tudo que Marinho falou até agora é igualzinho ao que dizia o famoso Ari Campista, sempre pronto a se ajoelhar diante de quem estivesse no poder. Paulo Pereira da Silva, da Força Sindical, não fica nada atrás, e foi figura de destaque na solidariedade (!) aos sonegadores da Daslu. O ex-presidente da Força, Luiz Medeiros, é hoje milionário e deputado federal. Vicentinho, ex da CUT, continua aparentemente sério mas é parlamentar sem brilho, o que lhe custou a derrota nas eleições municipais.

Nossa estrutura sindical é viciosa – tanto na área dos trabalhadores como na dos patrões -porque foi construída para isso mesmo, para a submissão ao poder político de plantão, Mussolini ou Stalin, ditador militar ou ex-metalúrgico. E nós não ficamos fora disso. Durante a ditadura e mesmo antes, sindicatos de jornalistas também foram ninhos de vigaristas. O Sindicato do Rio, mesmo depois da abertura democrática, teve uma diretoria que avacalhou a Lei da Anistia, distribuindo documentos falsos para gente que nunca teve qualquer participação ou prejuízo profissional na resistência aos ditadores. Numa outra gestão, o jornal do sindicato publicou um artigo em que criticava os ‘altos salários’ dos correspondentes estrangeiros do GLOBO. Interrompi uma militância de quase 30 anos, porque como aceitar que meu sindicato pedisse a redução de meu salário? E – o mais triste -o ‘aparelhamento’, a busca da vitaliciedade nos cargos e a conquista de cargos nos governos em todos os níveis tornaram-se ou continuaram a ser comuns. A reeleição – tanto quanto na área política – é certamente um dos fatores indutores desses problemas.

Nossa legislação sindical vem do Estado Novo, com inspiração fascista. Lá na Itália acabou mas aqui sobrevive. Quem gosta da proximidade com o poder sonha agora com o fortalecimento das centrais e maior controle sobre quem realmente trabalha. Nossos ‘dirigentes’ ainda sonham com o Conselho Federal de Jornalismo. A idéia não morreu, foi apenas engavetada.

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Bush também está se enrolando

Para defender o seu Duda Mendonça, o companheiro e guru Karl Rove, o presidente George W. Bush cada vez se enrola mais. Matthew Cooper, repórter da revista Time, aceitou revelar a um promotor que foram Rove e Lewis Libby (chefe de gabinete do vice-presidente) as fontes que lhe deram em ‘off’ a identificação de uma agente da CIA, um crime grave na legislação americana.

Bush, como o nosso Presidente, prometera ‘demitir imediatamente’ qualquer pessoa ligada à Casa Branca que a Justiça apontasse como envolvida no assunto. Mas, também como o nosso Presidente, deu ontem (18/7) outra redação à promessa:

‘Se alguém aqui cometeu um crime, não vai mais trabalhar em meu governo.’ Se, daqui a pouco, Bush disser que a identificação de agentes da CIA sempre foi ‘generalizada’, podemos começar a desconfiar que há uma linha direta entre Duda e Rove ou entre o Planalto e a Casa Branca.’



Érica Fraga e Pedro Dias Leite

‘Mídia internacional cobre pouco crise e se preocupa mais com a economia’, copyright Folha de S. Paulo, 24/7/05

‘Embora a crise política brasileira não tenha ganhado cobertura ampla pela imprensa européia, os veículos que têm acompanhado o caso com maior freqüência já o tratam com preocupação e um certo desencanto com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Esse tom foi bem sintetizado por reportagem publicada na última quinta-feira pelo jornal britânico ‘Financial Times’, um dos que melhor cobrem os acontecimentos da América Latina. Com o título ‘O escândalo de corrupção no Brasil acossa Lula’, o texto chega a dizer que, embora a economia vá bem e investidores externos mantenham a confiança no país, ‘em casa, no entanto, a crise ameaça seriamente as perspectivas de reeleição do senhor Lula da Silva e poderia até forçá-lo a renunciar’.

Em outro trecho, o ‘Financial Times’ afirma que o fato de que ‘a fortuna do senhor Lula da Silva possa ser comparada àquela do senhor [Fernando] Collor é um desastre para um homem que alegou ser representante de um um estilo mais limpo, mais representativo de governo’.

O jornal também ressalta que a estabilidade econômica pode acabar sendo afetada pela crise.

‘Até agora a economia brasileira tem parecido se manter imune à crise. Por várias razões isso pode, no entanto, se tornar impossível de manter.’

Essa não foi a primeira reportagem do ‘Financial Times’ sobre a crise brasileira. A britânica e respeitada revista’The Economist’, também vem cobrindo o assunto. Na edição da semana passada, o escândalo de corrupção mereceu um editorial e uma reportagem. Dizia que as histórias são ‘dignas das novelas pelas quais o Brasil é famoso’.

A ‘The Economist’ ressaltou, no entanto, que a popularidade de Lula não havia sido afetada pela crise e que o Brasil tem uma chance de sair dos problemas atuais com sua democracia reforçada, caso sejam tomadas, por exemplo, medidas que tragam maior transparência ao financiamento das campanhas eleitorais.

Na Espanha, o jornal ‘El Pais’ tem feito uma cobertura freqüente da crise brasileira. Na edição do último dia 21, deu destaque para a pesquisa do Ibope que revelou que 42% dos brasileiros acham que Lula talvez perca o mandato.

A visita do presidente brasileiro à França há uma semana ajudou a colocar os holofotes da imprensa européia sobre os escândalos brasileiros. Outro jornal espanhol, o ‘El Mundo’, afirmou, em tom de ironia em editorial, que enquanto Lula assistia ao desfile comemorativo da queda da Bastilha, em Paris, ‘seu país seguia recordando a França jacobina’:

‘As cabeças de figuras destacadas do PT e do governo não param de cair’, afirmava o diário.

Os franceses ‘Le Figaro’ e ‘Libération’ também comentaram a crise que o presidente Lula enfrentava à distância, enquanto visitava Paris durante o Ano do Brasil na França.

Estados Unidos

Nos EUA os principais jornais tratam o escândalo principalmente pelo lado da economia, que até agora foi pouco afetado.

O ‘Wall Street Journal’, jornal da Costa Leste que cobre mais regularmente e com mais destaque a crise, publica matérias em um ritmo semanal, sempre com enfoque na economia, mas ao mesmo tempo contando todos os lances do escândalo político.

Em artigo publicado no dia 8 deste mês na sua página cinco, o ‘Journal’ afirmou que ‘o escândalo cobra uma taxa do Brasil’. O longo texto dizia que ‘um crescente escândalo político de corrupção está paralisando o governo de Lula, frustrando suas aspirações de liderança no exterior e jogando uma nuvem sobre suas perspectivas de reeleição’.

O ‘New York Times’, um dos mais importantes do mundo também, tem dado pouco destaque à crise. Afora pequenas notas em sua seção internacional, houve apenas um texto, assinado pelo correspondente Larry Rohter, que atestava que o ‘líder brasileiro vai para a defensiva, enquanto o escândalo se espalha’.

O ‘Washington Post’ também tem publicado pequenas matérias, mas na terça-feira passada entrou para valer no assunto, ao menos na sua seção de opinião. O editorial, que reflete a posição oficial do jornal, era intitulado ‘Dos golpes à corrupção’. Para os editorialistas do jornal norte-americano, Lula é ‘uma lúcida exceção na política comum do Brasil -e também na América Latina’.

O texto do ‘Washington Post’ afirma que o presidente brasileiro conciliou rigor econômico com preocupação social, mas lembra que ‘um integrante de seu partido foi preso tentando embarcar em um avião com US$ 100 mil escondidos na cueca’. O editorial conclui que, ‘apesar do escândalo político no Brasil, a economia está navegando bem’.’



Fernando Rodrigues

‘Agora é Lula’, copyright Folha de S. Paulo, 25/07/05

‘Como diria o marqueteiro malufo-petista Duda Mendonça, ‘agora é Lula’. Assim como na campanha eleitoral de 2002 houve um ‘momentum’ a favor do candidato do PT, na conjuntura atual o cenário é totalmente invertido.

Todos os esforços de quem investiga o caso do ‘mensalão’ são para comprovar de uma vez aquilo que o cidadão comum tem o direito de saber: há ou não envolvimento do presidente da República? Ou se houve, no mínimo, desídia e inépcia por parte do principal mandatário do país.

As reportagens na mídia impressa do fim de semana, as declarações de congressistas ao longo dos últimos dias e as atitudes do Palácio do Planalto demonstram a formação de um caldo de cultura da pior espécie para Lula. O presidente, é certo, segue com sua popularidade em um patamar para lá de razoável, como mostrou o Datafolha. Ocorre que esse patrimônio virá abaixo no minuto seguinte ao aparecimento de alguma evidência material contra Lula.

Por enquanto, há indícios. O espetáculo do crescimento econômico do filho Lulinha. A operação de empréstimo do PT para Lula que o Palácio do Planalto se recusa a explicar. As faturas de cartões de crédito ainda sumidas da vista do público.

Esse caso do empréstimo do partido a Lula é grave e emblemático.

O presidente recebeu R$ 29,4 mil de empréstimo do PT. A Folha passou uma semana perguntando ao Palácio do Planalto como se dera a operação. Até porque aparece um pagamento de parte desse empréstimo por meio de um ‘depósito online’ sem especificar a origem do dinheiro.

Eis o que responde o governo: ‘A Presidência da República não tem conhecimento dessas informações, que devem ser buscadas junto ao Partido dos Trabalhadores’.

Esse escárnio com a opinião pública certamente tem razão de ser. Algo está sendo ocultado. Ou somos todos obrigados a acreditar que o presidente da República desconhece quem paga suas contas pessoais.’



Paulo Sotero

‘Para ´Newsweek´, o que salva é Palocci’, copyright O Estado de S. Paulo, 24/7/05

‘Em meio à turbulência política, amplamente noticiada na mídia brasileira e internacional, parece consenso a confiança dos investidores na capacidade do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, de manter o barco da economia flutuando com estabilidade. Uma longa reportagem sobre o chefe da equipe econômica, publicada na semana passada na edição internacional da revista Newsweeek, descreve um Palocci fortalecido com a crise, qualificando-o de ‘o ministro indispensável’ para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e fazendo votos para que surjam novos Paloccis. O economista brasileiro Paulo Vieira da Cunha, do HSBC em Nova York, partilha da avaliação positiva que outros analistas fazem sobre as condições macroeconômicas favoráveis e não se mostra preocupado com a possibilidade de a crise criar uma situação de desequilíbrio. ‘Mas ela já começou a ter impacto negativo na economia real’, alertou ele. ‘A expectativa de novos investimentos entre os empresários , medida pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), já está tão baixa quanto foi em 2002’, disse. Vieira da Cunha chamou a atenção também para o fato de que o adiamento das reformas ‘aumentará imensamente a demanda por elas, principalmente nas áreas fiscal e da Previdência, no primeiro semestre do mandato do sucessor de Lula.’ O economista parte, obviamente, da premissa de que Lula não conseguirá se reeleger. Nesse ponto, ele diverge da avaliação do diretor-gerente para mercados emergentes da Pimco, maior administradora de fundos dos EUA, Mohamed ElErian, para quem ‘os mercados presumem que as chances de reeleição de Lula não se alteraram substantivamente’. Vieira da Cunha está convencido de que Lula sofrerá uma forte perda de popularidade até as eleições presidenciais do ano que vem, mas aposta que a debacle do líder do PT não diminuirá as chances de o País aprender e melhorar com a crise. ‘Ao contrário, as condições estruturais estão dadas para atravessarmos essa crise e sair dela com nova liderança, capaz e politicamente em condições de levar adiante as reformas que todos sabemos que precisam ser feitas.’’



Folha de S. Paulo

‘O Show da CPI’, editorial, copyright Folha de S. Paulo, 25/07/05

‘É inegável que a CPI dos Correios vai cumprindo satisfatoriamente o seu papel. Contrariando prognósticos mais céticos -manifestados, entre outros, por esta Folha- de que teríamos uma comissão de inquérito ‘chapa branca’, os trabalhos até o presente momento têm contribuído para esclarecer os fatos e estabelecer o ‘modus operandi’ do amplo esquema de corrupção e lavagem de dinheiro que se instalou no país com a participação de membros do governo e do PT -além de empresas, políticos aliados e alguns integrantes de legendas da oposição.

É impossível, porém, não notar o quanto a comissão tem cedido ao espetáculo da disputa e da promoção política. Transmitidas por rádios e emissoras de TV, as sessões têm sido utilizadas por diversos parlamentares como palanque para tiradas demagógicas e demonstrações afetadas de moralismo, não raro inconvincentes e caricaturais. De um modo geral, os 15 minutos concedidos aos integrantes da comissão para que formulem questões aos depoentes têm servido para exibições constrangedoras de histrionismo, hipocrisia e estudada agressividade.

O exibicionismo assume várias formas, do insulto irado ao revanchismo, passando pelo cinismo de alguns que mal conseguem disfarçar a intimidade com práticas assemelhadas às que condenam em suas intervenções. Além disso, o afã em causar sensação tem gerado erros, como a convocação de suspeitos antes de a comissão contar com documentação suficiente para embasar as questões mais relevantes.

Era esperado que em alguma medida os holofotes da CPI fossem iluminar o show característico de deputados e senadores em busca da imagem de paladinos da ética. Seria preciso muita candura para crer que, em ano pré-eleitoral, congressistas ávidos por publicidade fossem desprezar a chance de gozar de seus 15 minutos gratuitos de fama na mídia.

Talvez possa parecer igualmente ingênuo cobrar mais compostura e sobriedade nos interrogatórios, mas é o que seria desejável para revestir as apurações de um pouco mais de credibilidade e eficiência.’

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