Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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ENTRE ASPAS > FSP vs. ISTOÉ

Milton Coelho da Graça

10/08/2004 na edição 289

‘Uma coisa que os jornalistas aprendem com a experiência é que, ao procurar alguém ou alguma entidade envolvida em determinado assunto, a recusa de comentá-lo é sinal muito provável de culpa no cartório. A regra de ouro vale para, no mínimo, 95% dos casos, e é simples: quem não tem o que esconder fala.

O ombudsman da Folha de São Paulo, Marcelo Beraba, também correu atrás do estranho caso de ISTOÉ. que preferiu exaltar na capa uma óbvia matéria paga de 21 páginas do que uma reportagem que já derrubou um diretor do Banco Central e é forte candidata a prêmios de jornalismo. Tanto para Beraba como para mim, Governo do Estado e Federação das Indústrias do Rio de Janeiro preferiram silenciar e não dar qualquer explicação sobre possível uso de dinheiro público na badalação de um duvidoso superdesenvolvimento, comandado, segundo os criativos artistas gráficos de ISTOÉ, pelo próprio Cristo Redentor com capacete de operário.

E aí, de Campos, vêm estranhas coincidências anotadas por um atento leitor desta coluna. O atual Secretário de Segurança do Rio, Anthony Garotinho, começou na cidade de Campos dos Goitacazes a notável carreira que o levou ao comando polítco do Estado do Rio e até a uma candidatura presidencial. No início, Garotinho trabalhava na rádio da empresa ‘Folha da Manhã’ e era apoiado pelo jornal do mesmo nome. Mas, alguns anos depois, a relação se deteriorou. Em 2000, foi lançado em Campos o ‘Diário’, sob o comando de pessoas notoriamente ligadas a Garotinho, com presença nas bancas todos os dias da semana, inclusive às segundas, quando a ‘Folha’ não circula.

Diante da crescente concorrência, a ‘Folha’ lançou às segundas-feiras o semanário popular ‘A Hora’, voltado especialmente para o noticiário esportivo e policial.

O ‘Diário’ replicou, no início de abril deste ano, com um notável enriquecimento de sua edição de segunda-feira, que passou a oferecer ao leitor, sem aumento de preço (60 centavos nos dias úteis e R$ 1 aos domingos), a revista ISTOÉ (que custa R$ 6,90). A promoção durou três meses – até junho – e, aproveitando o embalo, o ‘Diário’ passou então a oferecer a seus leitores a assinatura semestral por 80 reais com direito a um brinde especial: a assinatura de ISTOÉ pelo mesmo período, inteiramente grátis. A ‘Folha’ decidiu recorrer à Justiça, alegando concorrência desleal.

Tudo, como dito acima, pode ser uma coleção de estranhas coincidências. Mas, a pessoas preocupadas com a independência de nossa imprensa, pode soar como advertência para possíveis ligações perigosas com o poder político, muito além da generosidade publicitária.’



TODA MÍDIA
Nelson de Sá

‘Surpresa’, copyright Folha de S. Paulo, 6/08/04

‘Antes que a concorrência o fizesse, o site da ‘Veja’ entrou no meio da tarde:

– Henrique Meirelles usou doleiros investigados por lavagem de dinheiro.

Em mais detalhe:

– CPI do Banestado tem documentos que mostram que o presidente do BC enviou em 2002 pouco mais de US$ 50 mil para conta de doleiros nos EUA.

Em poucos minutos, foi parar nas manchetes do UOL e da Globo On Line. E no pregão da Bovespa. Da Bloomberg:

– No Brasil, Bovespa tem a maior queda em três meses, por Meirelles.

Avaliações parecidas surgiram no UOL News e outros.

Encerrado o pregão e o dia, saiu finalmente uma nota de Meirelles, respondendo à nova denúncia. Serviu para os telejornais da Record e da Band.

No Jornal Nacional, ele mesmo apareceu para falar, sorrindo, mas tenso. O telejornal não deu como primeira manchete. Foi a quarta e dizia assim:

– Novas denúncias contra o presidente do Banco Central. Meirelles se defende.

Em contraste, a primeira manchete na Record:

– Nova denúncia agrava situação de Meirelles.

On line, a notícia não demorou e virou confronto político.

Um dos líderes do governo, Professor Luizinho, tentou responsabilizar o PSDB, segundo o site da Agência Estado, dizendo que o partido controla a CPI do Banestado e até setores do BC e da Polícia Federal:

– Querem criar confusão para melar o crescimento econômico. É uma atitude orquestrada. É muita irresponsabilidade. Estão namorando o perigo.

Ele tinha um alvo não expresso: o tucano Antero Paes de Barros, presidente da CPI.

O qual correu a se defender. Disse à Globo On Line que a denúncia não saiu da CPI, que não tem informações sobre Meirelles. Foi ao plenário e pediu ‘calma’, argumentando que se trata da autoridade monetária. Disse, segundo a Jovem Pan:

– Para mim é até surpresa.

O blog de Ricardo Noblat, ironizando o tucano como um dos ‘atores principais das eleições deste ano’, reproduziu declaração que teria ouvido dele, nos corredores do Senado:

– Desconheço as informações que a ‘Veja’ atribui à CPI. Se fazem parte do acervo, não fui responsável pelo vazamento.

E o blog:

– Para quem crê em fadas, o senador diz a verdade.

De certo mesmo, no episódio, só que o PT está provando prova do próprio veneno.

Não só agia de forma idêntica, quando na oposição, mas o próprio nome de Antero Paes de Barros, para presidente da CPI, passou pela aprovação do ministro José Dirceu. Aliás, segundo ‘O Globo’, ontem:

– Antero Paes de Barros começou sua vida política no PT de Mato Grosso.

Outra agenda

Antes do rastro de pólvora iniciado na internet com a denúncia do dia contra Henrique Meirelles, bem que os ministros da Fazenda e da Casa Civil tentaram impor, em especial na cobertura da Globo e Globo News, uma agenda positiva, voltada principalmente para a infra-estrutura.

Não deu, por maior que fosse a boa vontade da cobertura.

Vendas

Também acabou ficando para trás durante o dia, esquecida, a notícia que chegou a ser destaque nas Globos e no UOL:

– Vendas das montadoras são as maiores em seis anos.

Agosto

Larry Rohter, o repórter do ‘New York Times’ que terminou por se tornar celebridade nacional, parece ter acertado sem querer. Ontem, escreveu uma longa reportagem sobre a história de más notícias, algumas trágicas, do mês de agosto. Do título:

– No Brasil, é de dar medo.

Até o fim

José Serra foi ao ataque, em entrevista ao SPTV, num prólogo para o debate da noite, na Band. Questionou o ‘empreguismo’ e as taxas de lixo e luz. Disse que vai ‘revisar’ as taxas e que pode até ‘acabar se for o caso’.

Mas o mais significativo que saiu, das entrevistas de Serra e de Marta Suplicy, um dia antes, foi a garantia de que ambos não deixam o cargo, se venceram.

Cópias

Marta copiou um projeto de saúde do prefeito do Rio, Cesar Maia -aliás, uma idéia de Serra. E agora, segundo ‘O Globo’, Maia copia um projeto de transporte de Marta, o Bilhete Único -aliás, como insiste o senador Eduardo Suplicy sempre que pode, uma idéia dele.

Café

Por falar no Rio, Lula, segundo os sites, se encontrou ontem com o candidato petista, Jorge Bittar. Se era para prestigiar, um ‘café da manhã’ foi pouco.’

***

‘Mais uma’, copyright Folha de S. Paulo, 5/08/04

‘Na manchete do Jornal Nacional, ‘Brasil consegue mais uma vitória’. No UOL, ‘Brasil vence europeus’. Na Bloomberg, ‘vitória para o Brasil’. No ‘Times’, ‘doce vitória do Brasil’.

Mas nenhum ufanismo, ontem, rivalizaria com a manchete do argentino ‘Ámbito Financiero’:

– Lula é líder mundial dos países em desenvolvimento.

Para o jornal, em contraste com o argentino Néstor Kirchner, o presidente brasileiro ‘está a caminho de ser um estadista, sem cair no estatismo nem no clássico populismo latino-americano’:

– O Brasil uniu, junto a si, China e Índia na luta pela eliminação dos subsídios dos EUA e Europa. Graças à sua gestão, conseguiu-se, depois de 60 anos de luta.

O jornal falava do acordo na Organização Mundial do Comércio, mas acrescentou depois, no site, sobre a decisão de ontem da OMC contra o açúcar europeu:

– Outra vitória de Lula.

Outros saíram exaltando Lula, mas o ‘Financial Times’ se concentrou em Celso Amorim.

O jornal vinha de publicar artigo do chanceler, ainda em destaque na home, e na reportagem de ontem deu apenas a sua reação -de que a decisão é ‘outro passo importante na eliminação das distorções no mercado mundial’.

No artigo para o ‘FT’, o chanceler usa a retórica lulista da ‘nova dinâmica no comércio mundial’, um eco da ‘nova geografia’.

Com tamanha exposição, Lula e Amorim deixaram para o ministro Roberto Rodrigues (Agricultura) os louros midiáticos da vitória sobre o açúcar europeu.

Do JN aos portais, foi ele o protagonista da boa nova, bradando ‘o Brasil é o país mais competitivo do mundo em açúcar’ etc.

Mas ninguém pense que mais uma ‘vitória’ de tal repercussão será aceita sem algum troco.

Deverá beneficiar o país. Segundo o ‘FT’, ‘a decisão deverá ter impacto nas negociações de Doha e do acordo entre o Mercosul e a União Européia’. O ‘Wall Street Journal’, ontem no site, adiantou uma avaliação semelhante.

Mas o representante da UE, Pascal Lamy, já ‘estuda’ como responder. E um representante dos produtores americanos partiu para o ataque, na Bloomberg:

– O Brasil quer desviar a atenção dos seus subsídios e dirigir a atenção contra EUA e Europa.

KIRCHNER, NÃO

A Argentina entregou os pontos. Depois do trauma da Copa América e das barreiras contra a indústria brasileira, por falta de competitividade local, a manchete de seu maior diário econômico proclamou o presidente brasileiro ‘líder mundial dos países em desenvolvimento’

Sem comentários

O presidente do Banco Central voltou a expor sua defesa através de ‘O Globo’, ontem:

– Minha transparência é absoluta. Não tenho problema algum porque sou um grande contribuinte e faço tudo da forma mais conservadora possível.

Então, por que não vai logo ao Congresso? Henrique Meirelles ‘se nega a comentar’.

Convite

Mas não vai ter jeito. Lá pelo meio do JN, ontem:

– O presidente do Banco Central será convidado a prestar esclarecimento no Senado.

Madrugada

Não é à toa que Lula fala demais e até afronta o Congresso. Manchete do Jornal da Record:

– Mais de 80% dos empresários paulistas estão otimistas.

E do Jornal da Band:

– Indústria bate recorde de produtividade. As fábricas contratam funcionários para o terceiro turno, na madrugada.

Avanço do PT

E, na manchete do UOL, ‘pesquisas indicam avanço do PT’. Com base em pesquisas de 34 cidades, levantadas por Fernando Rodrigues, ‘já é visível que o PT pode não se sair tão mal’.

Tranquila

Ontem foi a vez de Marta Suplicy no SPTV. ‘Respondeu tranqüilamente’, sublinhou seu site. Também, eram perguntas como:

– Uma de suas principais ações foi no transporte. A senhora criou o Bilhete Único. Pode reduzir a tarifa?… Criou os CEUs, investiu em transporte escolar, uniforme. Que outras propostas tem, a partir daí, na educação?

Ok, também perguntaram das taxas e da dívida. Mas coisa leve.

Eleição nacional

É hoje a largada de fato, com o debate na Band, da campanha paulistana. Em rede nacional.’

***

‘Um tema local’, copyright Folha de S. Paulo, 4/08/04

‘O alarme eleitoral soou pela boca da própria Marta Suplicy, publicamente, há três semanas:

– Não estou satisfeita com a saúde em São Paulo.

Mas o alarme interno das campanhas é anterior e foi dado pelas pesquisas. O ‘Valor’ fez as contas, com os levantamentos do Ibope pelo país.

Saúde seria o maior problema para os eleitores de 11, entre 14 cidades. No Rio de Janeiro, só perde para a violência. Em São Paulo, perde para desemprego por 66% a 60%.

A declaração de Marta iniciou uma ofensiva petista que levou até à adoção de uma bandeira tucano-pefelista, de entregar medicamentos em casa, como destacou a Folha.

E tome saúde. Em entrevista à ‘Gazeta Mercantil’, anteontem, a prefeita saiu dizendo que ‘falta muito a fazer, em especial na saúde’. Em entrevista ao site do PT, prometeu ‘revolucionar a saúde’.

Disse que quer ‘ser prefeita de novo para fazer por áreas como a saúde’ o que fez em educação. Falou de ‘um verdadeiro CEU para a saúde’:

– Para o próximo mandato, eu garanto uma revolução na saúde.

De concreto, um hospital aqui, uma informatização ali.

José Serra, o ex-ministro da Saúde elogiado até por petistas, também passou a concentrar discurso na área.

Ontem, andou por um bairro e a manchete, no site do diretório municipal do PSDB, foi:

– Moradores de Cid. Ademar querem mais saúde.

Uma eleitora, ‘de muletas’, elogiou os genéricos para Serra. E o candidato:

– Aqui a gente vê a extrema falta de bom atendimento na saúde.

A um passo do debate na Band, em meio às entrevistas na Globo, o tucano consegue afinal ir além de comentar o Bilhete Único ou as obras da prefeita. Está com a bola.

ATÉ O PAS

A saúde foi assunto de boa parte das entrevistas, ontem, nos telejornais regionais da Globo em São Paulo e Rio. Paulo Maluf atacou de cara, dizendo que ‘hoje você vai a um posto de saúde e não tem mais remédio nem médico’. E fez a sua promessa:

– O PAS vai voltar. Mas o meu PAS, o PAS decente.

No Rio, Cesar Maia gastou mais tempo para falar de saúde do que de violência, dizendo que é a área ‘que leva o eleitor com mais convicção a votar em mim’. Não pelo programa de levar remédio até em casa, copiado em São Paulo, mas pela ‘crise da saúde pública, que vem de fora para dentro da cidade do Rio’. Afirmou:

– Aquilo que me distingue mais é a minha capacidade para enfrentar, resolver e dar uma volta por cima na crise da saúde.

São ‘temas locais’ como a saúde, segundo o ‘Valor’, que vêm prevalecendo em todas as entrevistas da Globo, não só em São Paulo e Rio de Janeiro, mas também Curitiba, Belo Horizonte, Recife.

Vai-não-vai

Prosseguiu na cobertura a confusão quanto aos próximos passos de Henrique Meirelles, presidente do Banco Central.

Começou no Bom Dia Brasil com a oposição ‘cobrando’ as explicações. Daí para o ministro Márcio Thomaz Bastos, dizendo que Meirelles ‘irá com certeza’ se explicar ao Congresso. Só que o próprio ‘fugiu dos jornalistas e evitou confirmar’, segundo a Folha Online. Por fim, no JN, surgiu o ministro José Dirceu e, em nome de Lula, chamou as acusações de ‘infundadas’.

E atacou a oposição.

Amigos

Pelo menos um comentarista, Merval Pereira, na rádio CBN e no jornal ‘O Globo’, afirmou que as denúncias feitas contra Meirelles seriam ‘fogo amigo’, ou seja, coisa de petista.

Alerta eleitoral

Nas manchetes de ontem no ‘Washington Post’ e no ‘New York Times’, a informação de que os dados que levaram ao alerta antiterror são anteriores ao 11 de setembro dominaram a cobertura da eleição americana, até mesmo na Fox News.

Os repórteres do ‘WP’ e do ‘NYT’ deram entrevistas ontem -o primeiro para leitores, no site do jornal, o segundo à rede PBS, com reprodução também no site do jornal. Ambos foram, então, bem mais críticos quanto ao viés eleitoral do alerta.

Fazer valer

E ontem o ‘NYT’, o ‘Miami Herald’ e outros americanos também deram seus editoriais sobre o acordo na Organização Mundial do Comércio. Fizeram os elogios e, como novidade, partiram para cobrar que os EUA façam valer o acordo.’

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