Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ENTRE ASPAS > JORNAL DA IMPRENÇA

Moacir Japiassu

29/03/2005 na edição 322

‘Deu na sempre apreciada coluna do considerado Ancelmo Gois:

Severinos do Brasil

Circula no território livre da internet versão nova de uma piada velha que mira na gaiatice e acerta no… preconceito.

É aquela que fala de ‘um dia em que rosinhas serão só flores; garotinhos, só crianças; lulas, só moluscos’ e por aí vai. Agora, dizem que, no tal dia, ‘Severino será só porteiro de prédio’.

Parece discriminação. E é.

Interessante. Leitores de vários rincões deste país de severinos nos enviaram cópias da piada que nem Janistraquis nem eu sabíamos que era, como se diz hoje, reciclada. Talvez por tal razão, rimos muito.

Como os leitores estão carecas de saber, Janistraquis é pernambucano e eu sou paraibano, nascido e criado. Meu pai se chamava Severino. Teve infância e juventude pobres e maltratadas e bem poderia ter sido porteiro de prédio no Rio ou São Paulo; por sorte (?), acabou funcionário público, o que vem a ser quase a mesma…, como direi…, coisa.

Não vimos discriminação alguma na anedota e Janistraquis resolveu cutucar o excelente colunista com a vara curta do asteísmo:

‘Considerado, Ancelmo tá querendo que esse pessoal mais obscurantista transforme o já seboso comportamento politicamente correto em estupidamente correto…’

É, não se deve dar mais munição a esse empedernido pessoal.

Veadagem

O colunista recebeu de FreemanCanorafrancoso@bol.com.br, mensagem intitulada ‘Sou viado’ e com o seguinte texto:

Oiiiii!

Tá fim de me conhecer melhor?

Quem sabe um programinha diferente nesse final de semana?

Beijo,

Robertinho Devassa!

Janistraquis botou a mão no queixo:

‘Considerado eu não disse que quanto mais a gente reza mais assombração aparece? A veadagem tá ‘bombando adoidada’, como dizem os entendidos, né não?’

E, como resposta, enviou ao remetente um pequeno dicionário, mais a Gramática Normativa do professor Rocha Lima, os quais, é óbvio, não lhe servirão de consolo.

Por falar nisso…

O considerado leitor Valdemir Moreira Dias envia titulinho ‘pescado nesse mar de veadagem que é o Mix Brasil, homiziado no UOL’:

21/3/2005

Blair: Inglaterra está pronta para primeiro-ministro homo.

Escreveu o perplexo leitor:

Nota-se que, entre os ingleses, o homossexualismo é uma qualidade tão preciosa que somente agora a nação ‘está pronta’ para ser governada por uma bichona.

Janistraquis leu e comentou: ‘Considerado, imagino como está se sentindo a alma de Henrique VIII, aquele machão da pomba, com essa declaração do Tony Blair…’

Sem imaginação

Deu na sempre bem informada Folha Online:

18/03/2005 – 10h02

Cantor Belo tem o nono habeas corpus negado no STJ

O cantor Marcelo Pires Vieira, o Belo, teve nesta quinta-feira o nono pedido de habeas corpus negado pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça). A decisão da 5ª turma foi de forma unânime.

Belo foi condenado inicialmente a seis anos de reclusão em regime fechado por tráfico de drogas e associação para o tráfico, e teve a pena aumentada pelo TJ (Tribunal de Justiça) do Rio para oito anos.

Janistraquis leu, releu, ficou pensativo por alguns instantes e depois foi ao banheiro, de onde trouxe um já bem malhado exemplar da revista Sexy:

‘Considerado, advogado é bicho sem imaginação, né mesmo? Será que não passa pela cabeça de nenhum deles enviar a Viviane Araújo para solicitar, pes-so-al-men-te, a soltura do marido Belo? Garanto que vai funcionar, pois a Quinta Turma do STJ é constituída de homens de notável saber jurídico, ilibada reputação e extremada sensibilidade viril.’

De costas na capa da revista, arzinho sapeca no perfil, com tudo aquilo bronzeado pelo sol das praias cariocas, Viviane Araújo dava inteira razão ao experiente fauno.

Terrorismo

Estava eu a cuidar das libélulas e beija-flores, abundantes aqui no sítio neste início de outono, quando escutei os rumores de Janistraquis, que pajeava o computador:

‘Essas mulheres se metem em tudo, meu Deus!!!’, clamou ele. E se achegou à porta do escritório: ‘Considerado, dá uma olhada no terrorismo que a Daniela Cicarelli anda fazendo!’.

Fui verificar e li na Folha Online:

AMBIENTE

Nível dos mares continuará subindo e planeta continuará esquentando mesmo se emissões forem estabilizadas

Aquecimento é irreversível, diz modelo.

‘Tá vendo?!’, interrompeu-me a leitura.

— Mas não creio que se trate da Cicarelli, garanti.

— Não?!? Então é a Giselle Bündchen, Ana Hickmann…

Continuei a leitura e lá estava o esclarecimento:

(…) Os estudos vêm de modelos climáticos de computador e, portanto, suas previsões estão sujeitas a incertezas.

Janistraquis ficou revoltado:

‘Ah!, considerado, não agüento mais esses redatores!…’

(A íntegra da curiosa matéria está no Blogstraquis)

Bichos asquerosos

Sugestão da coluna: leiam no blog MEUS SAAAIS!!! como Marcia Lobo encara os morceguinhos do sítio.

Armas do Brasil

Na noite de 17/3/05 o poderoso Jornal Nacional teve a coragem de divulgar esta preciosidade do jornalismo, digamos, comprometido:

Durante dois anos, uma equipe (do movimento Viva Rio) percorreu todo o país. Descobriu, exatamente (o sublinhado é nosso), quantas armas existem no Brasil, entre legais e ilegais (…) Cerca de 1,8 milhão pertencem às polícias e às forças armadas. O restante está com a população: 15,5 milhões.

Para mudar essa situação, os técnicos defendem campanhas, como a do desarmamento, que já recolheu 320 mil armas.

Janistraquis ficou encantado com o exemplar denodo, adorou o exatamente (aqui e acima sublinhado), e lamentou apenas o extraordinário fracasso da campanha do desarmamento ora em curso:

‘Considerado, até um feto anencefálico é capaz de verificar que se até agora a campanha só recolheu 320 mil armas e ainda existem 15,5 milhões em poder da população, não se pode falar em sucesso, né mesmo? Esse disparate só foi dado pelo JN porque ali não se faz jornalismo sobre esse assunto; faz-se apenas publicidade malfeita de um produto ruim!’

Leia a íntegra da espantosa matéria no Blogstraquis.

Pecado mortal

O considerado Roldão Simas Filho, diretor de nossa sucursal no Planalto, de cujo janelão aberto para a esplanada foi possível acompanhar a mais completa reforma ministerial da história da República, Roldão, dizíamos, passava os olhos de águia pelo Correio Braziliense quando leu, abaixo do titulinho PDT escolhe Carlos Lupi:

‘Continuamos fiel às linhas trabalhista e brizolista e contra o governo federal, acima de tudo, declarou Lupi.’

O mestre teceu (teceu é ótimo, né não?) o seguinte comentário:

‘Deus é fiel’, diz o adesivo de determinados crentes, embora eu ache que nós e não Deus é que devemos ser fiéis. Se é empregado o plural majestático, o complemento também tem de ir para o plural.’

Janistraquis está com Roldão e não abre:

‘Deus pode até perdoar esse continuamos fiel, considerado; todavia, perante a integridade do idioma, a esquisita forma é pecado mortal.’

Nota dez

Convido o considerado leitor a visitar o Blogstraquis e ler matéria de Elizabeth Orsini no Caderno ELA, d’O Globo de sábado, 19/3. Ali se conta, com indispensável polimento de prata de lei, um pouco da história do joalheiro e escultor Caio Mourão, raro e fiel amigo que morreu no dia 13 e levou consigo o que restava da Ipanema de nossa juventude.

Tragédia!!!

Desta vez meu computador desligou-se de repente, reiniciou as atividades por conta própria, avisou-me que acabara de me livrar de um problema seriíssimo e sumiu com minhas mensagens. TODAS! Nosso considerado Luiz Sérgio Nacinovic, mestre em computação, está me ajudando a recuperá-las, porém rogo aos colaboradores que, se for possível, reenviem as notinhas dos últimos trinta dias. É mais prudente. Afinal, sou um perfeito analfabeto nessa e noutras áreas, talvez me enrole no ‘passo-a-passo’ enviado pelo gentil Nacinovic e bote tudo a perder e definitivamente…

Errei, sim!

‘REDATOR DENGOSO – Tenebroso título espremido numa coluna da primeira página de O Globo: IBGE apura crescimento em janeiro do desemprego. Janistraquis concluiu que o redator estava, certamente, acometido daquela prostração que precede a dengue. ‘Considerado, era só pensar um pouco e tascar – IBGE apura aumento do desemprego em janeiro’, ensinou. Concordo. Se o leitor arrumar os dois títulos em quatro linhas de dez toques, verificará que são graficamente idênticos. Só que o de Janistraquis soa melhor aos ouvidos, tenho certeza.’ (maio de 1991)’



LÍNGUA PORTUGUESA
Deonísio da Silva

‘Nas telas e telinhas’, copyright Jornal do Brasil, 28/03/05

‘As frases do general Pompeu – ‘navegar é preciso, viver não é preciso’ – atribuídas também a Fernando Pessoa e a Caetano Veloso, conforme a cultura de quem as cita, resumem a situação de milhões de pessoas que trocaram a rua pela casa, onde passam, não a maior parte do tempo, mas todo o tempo.

Não são apenas os jovens que estão conquistando a internet, mas eles parecem hegemônicos na rede mundial, invento tecnológico concebido para o caso de uma guerra nuclear, então uma ameaça ainda mais aterradora do que podemos supor.

Os jovens internautas criaram uma variante para a língua portuguesa, vale dizer, uma gíria eletrônica. Netos de Woodstock e de Maio de 1968, raramente recebem um ‘não!’. Para muitos deles, ultimamente apenas a polícia tem dito ‘não’. Muito reprimidos, seus pais e avós terão fracassado na tarefa de lhes impor limites? Ou há alguma lei em vigor obrigando pais e avós a obedecerem a filhos e netos, a aceitar terríveis prescrições de telas e telinhas?

À internet veio somar-se o telefone celular, que, como sabemos, ainda é usado também para falar, mas essa função primordial foi rebaixada: celular é para tirar fotos, gravar mensagens e, principalmente, enviar torpedos. Em resumo, nunca as pessoas escreveram tanto!

Surgiu, porém, um problema. O carro estava diante dos bois. Os pequenos burgueses tinham internet e celular, mas não dominavam a língua escrita. E por isso criaram a deles. Nada espantoso. Outros usuários também não dominam a norma culta e criam suas gírias, circunscritas a tribos definidas por idade, interesses difusos, classe social, geografia urbana etc.

As legendas de filmes introduzidas recentemente na rede Telecine, nas TVs pagas Net e Sky, presentes no Cyber movie, são escritas na mesma pobreza vocabular e desarrumação comum aos ágrafos que se beneficiaram das novas tecnologias. Hordas de usuários eletrônicos dispensaram o livro e pularam diretamente de uma rústica alfabetização para a rede mundial e para o celular.

Não bastasse o conceito equivocado do novo idioma, perguntemos: o que se economiza com o internetês? A economia é a regra básica da elegância. Movidos por ideais de beleza e saúde, os jovens vivem fazendo regime. E, além do mais, o IBGE mostrou que a obesidade e não a fome é o grande problema. No português da internet pode estar acontecendo coisa semelhante.

O que se ganha com a substituição de ‘não é brincadeira’ por ‘Ñ eh brincadeira’? ‘De jeito nenhum’ por ‘Djeito nenhum’? ‘Não vou correr com vocês’ por ‘Ñ vou correr c/ vcs?’? O glossário mínimo do novo idioma abrevia hora com ‘hr’. Mas por quê, se já temos ‘h’? ‘Onde’ virou ‘ond’. ‘Novidade’ virou ‘9idade’.

A norma culta da língua portuguesa não tem mais quem a defenda nem em legendas de filmes na televisão! A confusão é geral. E a escola deu, por atos, palavras e omissões, grande contribuição ao atual descalabro de que o idioma cibernético é um dos mais óbvios sintomas.

Demos telefones celulares também aos pobres, que podem comprá-los bem baratinhos e em suaves prestações no crediário. Não lhes demos o direito de comprar livros com tamanhas facilidades. Fosse a educação devidamente valorizada, o idioma cibernético teria outra configuração.

É quase uma irresponsabilidade tratar de assunto tão complexo em tão poucas linhas. Mas o contexto é este: os sem-terras e os sem-livros habitam o mesmo Brasil.

Fora da Galáxia Gutenberg, todo mundo será marginal e como tal será tratado. Assim como a gíria não livra os jovens dos seculares males sociais, o idioma cibernético não os livrará da marginalidade em que vivem, da falsa cultura em que se movem, da pobreza vocabular que os leva a esses terríveis insucessos numa simples redação de vestibular.’



MERCADO EDITORIAL
Affonso Romano de Sant`Anna

‘O negócio literário’, copyright O Globo, 27/03/05

‘Antes, era simples: havia os grandes autores e os outros. Hoje, é também simples, porém mais trivial: há os autores ‘bancáveis’ e os outros’. Encontro essa frase na matéria de capa da revista ‘Lire’ deste mês. Aí também está estampado: ‘Como se fazer editar?’ e o anúncio da enquete: ‘O que ganham os escritores’.

É uma edição sintomática das transformações editoriais na França, que parece ir sucumbindo ao modelo mercantilista americano. Tanto assim que uma das matérias tem esse título – ‘O novo monopólio editorial francês’ -, com o subtítulo: ‘Os escritores agora são trocados como produtos. Comprar, vender, ganhar, fechar acordo, o vocabulário é igual ao das finanças’.

A reportagem é instigante, mas seria necessário um estudo que mostrasse mais objetivamente, com dados estatísticos e depoimentos históricos, as diferenças entre ontem e hoje. Pois o livro vem sendo tratado industrialmente como ‘produto’ e não como puro objeto de cultura desde meados do século XVIII quando a publicação deixou de ser controlada e bancada pela Igreja e pelo Estado, para ir se transformando em negócio na sociedade burguesa.

A situação, no entanto, ainda é ambígua. Convive o modelo antigo, mais humano e pessoal, com um modelo novo, massivo e industrial. Por exemplo: como os editores recebem ou descobrem os livros que editam?

Uma editora revela que recebe uns dez originais por dia, e que 90% de seus publicados chegaram-lhe pelo correio. Quer dizer: não foi um agente literário, nem o autor que foi lá pessoalmente seduzir o editor. Enquanto o editor da Stock diz que toda manhã abre os pacotes e vai lendo e escolhendo o que lhe mandam, a Gallimard tem três leitores que fazem a triagem.

(Estou me lembrando que nos anos 70 a Francisco Alves tinha um conselho editorial do qual fazíamos parte Rubem Braga e eu, além de funcionários da editora como Leo Magarinos, Carlos Leal, Paulo Rocco. E os livros viáveis eram discutidos em conjunto baseados em pareceres de leitores especializados e na opinião do conselho.)

Pode um livro mandado pelo correio chegar a ultrapassar a barreira inerte e ansiosa de originais sobre a mesa dos editores? É uma pergunta boa de se encaminhar aos editores brasileiros, caso se quisesse fazer também um levantamento da situação por aqui.

A revista ‘Lire’ lembra um texto de Mireille Calmel, que chegou pelo correio e vendeu 700 mil exemplares. Aqui no Brasil houve recentemente algo parecido. ‘A casa das sete mulheres’, que virou série de televisão, foi uma descoberta da agência literária de Lúcia Riff.

Mas há uma coisa meio patética, com a qual autores e editores têm que conviver. Como diz a Bíblia, muitos são os chamados e poucos os escolhidos. Vender bem, virar best-seller é o quarto mistério de Fátima. Revela a reportagem francesa que, em geral, os romances novos lançados todo ano não vendem, cada um, mais do que 500 exemplares. E que dos 121 títulos lançados na última temporada, só 25 venderam dois mil exemplares.

A seguir, a revista dá uma lista de 15 romances franceses mais vendidos agora. Vejo aqueles nomes, nunca li nada de nenhum deles. Possivelmente não lerei. Devem ser bons para um público médio, que lê livros como se assiste a novela de televisão, como passatempo e diversão. O mais cotado é Marc Levy, que ganhou 1,2 milhões de euros e cujo livro vendeu 285 mil exemplares. O último da lista é Phillipe Grimbert que ganhou 180 mil euros e vendeu 90 mil cópias de sua novela. (Comparados com o mercado brasileiro, até que não é lá grandes coisas).

Vendo essa lista tem-se a impressão de que é uma lista de permutáveis. Que no ano que vem entrarão outros nomes, tão ‘vendáveis’ quanto, e esses desaparecerão. Há uma rotatividade muito grande. Deve ser por isto que a matéria da revista tinha aquela frase que botei no principio: antes havia autores bons e ruins, hoje há os vendáveis e os outros. Essa alta rotatividade, típica da sociedade de consumo, é tanto de livros quanto de autores. Para mim, há qualquer coisa de sazonal, de ‘fast reading’, tipo ‘fast-food’, mais isto do que literatura no sentido antigo.

As coisas estão mesmo mudando. Assim como nas artes plásticas contemporâneas o que conta sobretudo é o marketing e as intermediações do valor-imagem, um editor francês confessou, dentro do maior pragmatismo, que ‘um futuro autor não deve somente propor um bom texto, deve também corresponder a outros critérios: não ser muito velho, nem muito provinciano, capaz de se vender na televisão, de se expressar na rádio e propor outros romances para edificar uma obra’.

Mas a reportagem trás alguns pontos que merecem também destaque. O governo francês dá anualmente cerca de 307 bolsas para escritores escreverem seus livros, totalizando cerca de três milhões de euros. Isto é garantia de boa literatura? O texto da revista lembra que Julian Gracq quando escreveu seu primeiro livro em 1936 – ‘Au château d’Argol’ – tirou apenas 300 exemplares e teve que trabalhar a vida inteira para se manter.

(Há quase 15 anos, quando dirigi a Biblioteca Nacional criamos uma dezena de bolsas semelhantes para escritores; claro, não eram esses quase 40 mil reais que ganha um bolsista francês?).

Tudo isto me leva a uma anotação final, sobre como era o sistema literário ainda há pouco tempo. Em geral, essas questões de mercado e do livro tratam só de ficção. E a poesia? Ah, a poesia? isso é coisa dos deuses ou de condenados. E retomando aquela situação de Julian Gracg, poderia terminar essa crônica transcrevendo umas frases de Manuel Bandeira na sua autobiografia ‘Itinerário de Pasárgada’:

‘Em 1936, aos cinquent’anos de idade pois, não tinha eu ainda público que me proporcionasse editor para os meus versos. A ‘Estrela da manhã’ saiu a lume em papel doado por meu amigo Luis Camilo de Oliveira Neto, e a sua impressão foi custeada por subscritores. Declarou-se uma tiragem de 57 exemplares, mas a verdade é que o papel só deu para 50’.’



LITERATURA & TRABALHO
José Castello

‘Livro toma partido dos trabalhadores’, copyright Valor Econômico, 18/03/05

‘A literatura brasileira está partida ao meio. De um lado, os que apostam na renovação da linguagem, na experimentação, sustentando a idéia de uma literatura isolada do real. De outro, aqueles que, de volta às antigas fórmulas do realismo e do naturalismo, agora adaptadas aos tempos mais velozes da internet e da televisão, fazem uma literatura que ambiciona fotografar, reproduzir, mimetizar o real. Por isso, é muito original o espaço ocupado, hoje, pelo escritor mineiro Luiz Ruffato. Por entender que o mundo atual oferece mais opacidade que claridade, Ruffato investe ferozmente na busca de novas linguagens.

Seu objetivo é encontrar instrumentos capazes de dar conta de uma realidade que já não cabe nos grandes painéis, nem nas fotografias posadas.

Essas qualidades se evidenciam nos dois livros que Ruffato está lançando, na semana que vem: ‘Mamma, Son Tan Felice’ e ‘O Mundo Inimigo’. São partes de um projeto maior, de cinco narrativas, que tem o título geral de ‘Inferno Provisório’. E que pretende reconstruir a história do proletariado brasileiro, desde a década de 1950. O primeiro volume, ‘Mamma, Son Tan Felice’, trata dos problemas enfrentados pela gente do campo, homens da terra e do passado, quando expostos às pressões da modernização. O segundo, ‘O mundo Inimigo’, levando o leitor para uma cidade média, Cataguases (MG), lida com a rudeza da vida urbana e os conflitos entre um mundo que se evapora e outro que se impõe.

O interesse de Ruffato pelo universo operário é bastante singular. ‘A figura do bandido ou do malandro ocupa muito mais espaço no imaginário dos escritores brasileiros que a do trabalhador’, constata o autor. ‘Parece que sempre existiu uma tendência à romantização do marginal e uma recusa tácita de compreender a vida miúda e, portanto, menos afeita à idealização, do trabalhador.’ Enquanto isso, a literatura brasileira deixou os operários, em geral, fora das narrativas.

Os personagens de Ruffato são homens sem importância, sujeitos lutadores e aplicados que, engolidos pela rotina e perplexos diante das agitações do mundo, apenas suportam o que lhes coube viver. Homens sem brilho e sem o glamour romântico que, hoje, envolve a figura dos marginais e, por isso mesmo, personagens que, em uma primeira impressão, parecem pouco atraentes para a cena literária. Ruffato desmente essa idéia. Recorda que o primeiro, e um dos raros, romances brasileiros a lidar com a figura do trabalhador foi ‘O Cortiço’, de Aluísio Azevedo, de 1890. Depois dele, o trabalhador voltou a ter só aparições esporádicas, em contos de autores como Alcântara Machado e Mário de Andrade. E em um romance como ‘Os Corumbas’, do paulista Amando Fontes (1899-1967), publicado em 1933.

Na literatura recente, lembra Ruffato, traçando os limites da própria solidão, poucos escritores, como Domingos Pellegrini, Murilo Carvalho e Roniwalter Jatobá, se dedicam a escrever sobre o operariado. ‘Mesmo grandes autores, como Lima Barreto e Marques Rebelo, que extraíram suas histórias da classe média baixa, têm no pequeno funcionário público o seu motivo, e não o operário’, recorda.

Mas não é só o abismo que separa a literatura do universo operário que Ruffato – que antes de se tornar escritor foi pipoqueiro, caixeiro, balconista de armarinho, operário têxtil e torneiro mecânico – vem romper. Outro tabu que ele enfrenta com coragem é o que separa a literatura realista, dita ‘objetiva’, da literatura confessional, ou ‘subjetiva’. Suas histórias são ambientadas nas terras em que ele cresceu. Suas origens pessoais permeiam cada uma delas. ‘Não acredito em literatura que não seja confissão’, afirma. ‘É sobre a vida que escrevemos, sobre a nossa vida.’

Ruffato reconhece que a realidade de hoje é particularmente pesada, complexa, e que, em conseqüência, oferece graves dificuldades para os escritores. ‘E aí surgiram opções como o escapismo e o hiper-realismo’, diz. A primeira simplesmente foge do real, a segunda o esmaga e achata, na esperança vã de dominá-lo. Ambas são incapazes de lidar com o real.

Ruffato vê sinais de escapismo na ‘literatura egótica pós-adolescente’, que hipervaloriza as experiências pessoais. Do lado oposto, um hiper-realismo que ‘esvazia o conteúdo da realidade, descreve a violência não como denúncia, ou reflexão, mas como fascínio’. A primeira seria uma reciclagem pós-moderna do ultra-romantismo do século XIX. A segunda, uma espécie de reciclagem do parnasianismo, isto é, a forma sem conteúdo.

Contrariando a divisão dos gêneros, Ruffato afirma que não escreve nem romances, nem contos, mas ‘mosaicos’. Não é por outra razão que partes inteiras, ou reescritas, de seus dois primeiros livros, ‘Histórias de Remorsos e Rancores’, de 1998, e ‘(os sobreviventes)’, de 2000, reaparecem agora nos dois livros novos. ‘Não digo que sou um escritor, mas um re-escritor, tal a ânsia com que me lanço no reaproveitamento de histórias.’ No entender de Ruffato, o romance é um gênero superado. Ele surgiu para dar conta da realidade inaugurada em fins do século XVIII, com a consolidação do capitalismo. Hoje, no início do século XXI, com transformações radicais nas relações de trabalho, nas relações pessoais, na percepção do tempo e do espaço, a fórmula clássica do romance já não dá conta do real. ‘Acredito ser praticamente impossível continuar usando a mesma ferramenta para descrever essa nova realidade’, diz.

Apesar disso, Ruffato reconhece influências clássicas, como a de Machado de Assis. ‘A busca de uma harmonia entre forma e conteúdo tem em Machado de Assis o seu grande emulador’, diz. A esse respeito, divide os escritores em duas famílias: os emuladores e os esterilizantes. ‘Há os que permitem o diálogo e o emulam, como Machado, e o fantástico, mas pouco conhecido, Marques Rebelo.’ No lado oposto estariam aqueles que ‘não admitem senão a submissão’, como Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Hilda Hilst. ‘Estes são para conhecer e respeitar – vizinhos cordatos, mas casmurros. Aqueles, para freqüentar a casa – conviver, enfim.’

Luiz Ruffato lamenta, no entanto, que a literatura de hoje esteja povoada de escritores que fogem a esse diálogo. Ao contrário, ela é dominada ‘por autores que assumem a voz das camadas marginais da sociedade – privilegiando o que de mais execrável podemos oferecer, que é o exotismo’. Nesses casos, ele acredita, a literatura abandona sua condição de arte para se tornar simples documentário, ou exercício antropológico. ‘Essa aura romântica, do bandido como herói, tem movido certa produção literária que, por ser simpática, ocupa a mídia.’

Apesar de ser jornalista, Ruffato não se esquiva de dizer que sua literatura ‘é uma tentativa desesperada de antijornalismo’. Ruffato sempre se aborreceu com a ‘espetacularização cada vez mais evidente’, que, a seu ver, os fatos ganham na imprensa. Por meio da literatura, ele busca ‘a humanidade existente para além dos rostos anônimos da multidão’. Por isso, em vez de adotar a linguagem clara e precisa dos jornais, pratica uma linguagem errática, subjetiva, inventiva – ‘portanto, em oposição frontal aos manuais de redação’.

Ruffato é um desses escritores, hoje raros, que continuam a acreditar na eficácia da literatura. Para ele, a arte em geral, e a literatura em particular, têm, ainda uma função: a de ‘interromper a queda do homem rumo ao oceano da inautenticidade’. É uma luta sem fim, que muitas vezes parece fracassada, e que exige grande liberdade interior. Mas que Ruffato, com seus livros, exercita com fúria.’

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