Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > JORNAL DA IMPRENÇA

Moacir Japiassu

16/11/2004 na edição 303

‘O Jornal Nacional desta quarta, 10/11, divulgou uma notícia deveras espantosa acerca dos milagres da campanha do desarmamento:

(…) O Ministério da Justiça calculava que seriam entregues 80 mil armas até o fim do ano. Já foram 170 mil, mais que o dobro do que era esperado. Quase 30 mil só no Paraná, onde começou a campanha, em janeiro deste ano. O desarmamento mudou a estatística da violência. Os crimes cometidos com arma de fogo diminuíram 17% no estado (…)

Mais perplexo e atordoado do que Vanderley Luxemburgo, horas depois do JN, na realidade crua da Vila Belmiro, Janistraquis balbuciou:

‘Considerado, o Paraná é governado pelo Roberto Requião, que não chega a ser a criatura mais delicada e gentil deste mundo, mas, pelos dados divulgados, os paranaenses são uns verdadeiros monstros; ora, depois que entregaram suas garruchas e espingardas pica-pau, os índices de criminalidade desabaram dramaticamente. Isso significa que, antes, viviam a atirar nos vizinhos, parentes, amigos…’

É verdade. Depois, falam mal das favelas do Rio de Janeiro.

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Abanando o rabo

Nosso considerado Roldão Simas Filho, diretor da sucursal desta coluna no Planalto, de onde é possível observar um grupo de derrotados nas últimas eleições a abanar o rabo para José Dirceu, Roldão lia a proverbial Tribuna da Imprensa quando deparou, semi-enterrado sob o título Cães não eram maltratados, o seguinte, com perdão da palavra, texto:

‘Ela explicou que o extinto de proteção da mãe dos filhotes, nascidos havia duas semanas, pode ter aumentado o nível de estresse dos animais.’

Extinto de proteção!!! Extinto materno!!! ‘Nem tenho palavras para comentar’, indignou-se nosso diretor, ao que Janistraquis contrapôs:

‘Então, considerado, só nos resta latir…’

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Bushianas

O considerado Fausto Ryo Osoegawa, que se votasse nos EUA teria cravado o nome de John Kerry, como de resto todo o Brasil alfabetizado, envia matéria do The Boston Globe que o UOL News traduziu e cujo título, vê-se logo, é o chamado rastilho de pólvora:

Crescem teorias de que fraudes reelegeram Bush

Janistraquis lamenta que não se possa fazer nada, porque nem aqui o senador ACM conseguiu reverter a injustiça contra seu candidato a prefeito de Salvador, porém eis o link para o leitor avaliar a situação: Buuuuuuu!!!

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Chapeuzinho

Saiu em tudo quanto é mídia:

Jovem acusada de tramar com o namorado a morte dos pais pede liberdade para cuidar da avó de 85 anos.

Meu secretário, que há anos e anos desconfia da competência do Judiciário, reagiu:

‘Considerado, o analfabetismo anda tão democrático que veste terno e gravata, farda, batina e toga, mas não é possível que nossos magistrados não tenham lido nem mesmo a história de Chapeuzinho Vermelho!!!’

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BeneficiÊncia

Discreta chamadinha na capa do UOL:

Música pelo Sudão: McCartney participará de gravação beneficiente.

Janistraquis ficou desolado:

‘Considerado, que tristeza!…; beneficiente, gratuííííto, fluííído…, cada vez aumenta mais a família dos que não têm nenhum respeito pela língua portuguesa.’

(A honestidade manda dizer que o pessoal do UOL corrigiu com a devida rapidez, porém esses dribles do jornalismo dito eletrônico são que nem a calcinha da Luana Piovani: bastou um flash para o mundo saber que não existe.)

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Iraque, urgente!

O considerado Ruy Alberto Paneiro, do Rio, envia texto quentíssimo sobre a invasão do Iraque, segundo o site http://resistir.info, o qual deveria estar entre os favoritos de todos os jornalistas:

36 AMERICANOS CAPTURADOS !

Os alto-falantes de Faluja anunciaram dia 8 a captura de 36 militares americanos e 107 soldados da tropa colaboracionista iraquiana. Os soldados americanos capturados (alguns deles mulheres) foram filmados pelos resistentes de Faluja e o vídeo foi oferecido às estações de TV Al-Jazeera e al-’Arabiyah. No entanto, ambas as estações recusaram-se a divulgá-lo por temor de represálias da parte do governo americano (…)

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Coroa fraquinha

José Truda Júnior, considerado leitor que do seu observatório instalado nos altos de Santa Teresa flagra Deus e o mundo, despachou via bondinho:

‘Com tudo o que se tem falado da política monetária do governo Lula, ao menos em um canto do planeta nosso real vale. É na Dinamarca, e vale mil vezes mais, como ensina a triste notícia publicada na excelente coluna de Ancelmo Gois, n’O Globo:

Fora do carnaval

O jornal ‘Berlingske Tidende’, um dos maiores da Dinamarca, informou que a Fundação Hans Christian Andersen e a Casa Real desistiram de apoiar o carnaval da Imperatriz em 2005.

A imprensa de lá questionava o patrocínio, alegando que o patrono da escola, Luizinho Drummond, é ligado ao crime.

Em tempo…

A Hans Christian Andersen iria investir na Imperatriz 1,1 milhão de coroas dinamarquesas, uns R$ 541.

Além disso, o príncipe Frederick, herdeiro do trono da Dinamarca, viria assistir ao desfile.

Truda, que não arrisca fezinha no jogo do bicho, mesmo assim está mais otimista do que o vice José de Alencar no Ministério da Defesa:

‘Mostrei a nota para a rapaziada aqui da rua, a turma fez uma vaquinha e já temos R$ 41. Os outros quinhentos, até o Carnaval damos um jeito…’

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Noticiário da Moda

Segundo a Reuters, eis um trecho do perfil de Rui Falcão, candidato derrotado a vice de Marta Suplicy, hoje artífice da transição na prefeitura de SP:

Fala mansa de vice de Marta esconde articulador afiado

(…) Entre 1970 e 1973 ele esteve confinado numa cela numa ilha no litoral do Rio Grande do Sul. Ao sair, de volta a São Paulo, retomou, discretamente, a militância com colegas do sindicato dos jornalistas, entre eles alguns ex-presos políticos, e conseguiu um emprego na antiga TV Tupi, como redator da editoria de internacional.

Passou ainda pelos jornais DCI, Jornal da Tarde e comandou a revista Exame. Leitor de Gramsci, Marx, Mao Tse-Tung, Che Guevara e Regis Debray, chegou a trabalhar como freelancer para revistas de conteúdo ameno como Nova e Playboy(…).

Janistraquis, amigo e admirador de Falcão, ficou desolado:

‘Considerado, por que ele omitiu que foi redator do Noticiário da Moda? Será que trabalhar numa revista tão feminina, no meio daquele mulherio todo, não combina com o perfil de um perigoso guerrilheiro comunista?’

Talvez não combine. Naqueles anos (1973/74), Rui Falcão, este colunista e o saudoso repórter Uirapuru Mendes, o Puru, trabalhamos juntos no Noticiário, sob as ordens de Leonel Kaz; o dono da revista, depois comprada pela Editora Abril, era Mário Ernesto Humberg, hoje presidente da CL-A Comunicações. Bons tempos, bons tempos…

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Apelo do Janistraquis

O colunista roga aos colaboradores que enviaram notas nos últimos quinze dias: vejam se é possível reenviá-las, porque tivemos problemas no outlook e aquele material foi perdido. Não acontecerá novamente; agora, já escaldado, Janistraquis arquivará tudo em pasta separada. Trata-se de providencial medida; afinal, se devemos desconfiar de todas as fontes, é dolorosa insânia confiar-se em computador!

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Nota dez

O texto da semana foi publicado no Observatório da Imprensa e é, mais uma vez, da lavra deste mestre de todos nós, Deonísio da Silva (este humilde colunista é citado mas, por favor, relevem, pois não há vaidade que resista à idade…):

JORNALISTA-ESCRITOR

As pontes de Mario Pontes

O que faz um jornalista depois de tanto escrever na imprensa? Muitos fazem o que faz Mario Pontes: escreve livros. Jornalista não pode cansar de escrever. Escrever é seu ofício(…)

A integra do necessário artigo está aqui.

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Errei, sim!

‘FARÇA CURTURA – O leitor Waldir Bíscaro, RG 2.587.057, de São Paulo, envia coluna da revista Veja na qual estava assinalado o seguinte trecho: ‘(…) E o que é um Menem? Um palimpsesto político, palavra que se pode ler da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, porque não faz diferença’.

‘Ah!, essa farça curtura!’, comenta o malvado Bíscaro. É que a tal palavra que se lê de qualquer jeito é palíndromo’. Janistraquis também enfiou o dedo: ‘Engraçado, considerado… esse pessoal da Veja gosta de complicar, porque palíndromo é bem mais fácil de escrever que palimpsesto’.

E que diacho é palimpsesto? Entre outras acepções, trata-se de uma espécie de pergaminho.’ (fevereiro de 1994)’



CRÔNICA
Carlos Heitor Cony

‘Chapéu na mão’, copyright Folha de S. Paulo, 14/11/04

‘Três vezes a porta bateu, três vezes ninguém atendeu. Há 20 anos venho tentando escrever um romance que comece e termine com essas poucas palavras. Volta e meia sento em frente ao computador e deixo na telinha a frase, isenta e destacada: três vezes a porta bateu, três vezes ninguém atendeu.

Uma frase que deve estar errada. O certo seria: bateram três vezes à porta, ou na porta. Tanto faz. A trama, o drama, estão todos aí. O romance resume-se exatamente nessa frase, princípio, meio e fim, a porta que bate três vezes e por três vezes ninguém atende.

Um enigma, uma constatação da incomunicabilidade, ninguém ouve, ninguém atende? Um crítico lúcido e descompromissado poderia escrever longo e profundo ensaio sobre a impenetrabilidade da vida moderna: três vezes a porta bateu, três vezes ninguém atendeu.

Fica sendo, desde Homero, que iniciou a ficção na história, o romance mais curto e bastante da literatura universal. Assumo-o e dele terei orgulho, mas sem vaidade. Terei problemas, sim, em encontrar editor que se disponha a publicá-lo. Pior: será impossível encontrar leitores que o comprem e, comprando, que o leiam. E, lendo, que o compreendam. Pior para os outros: por três vezes a porta bateu, por três vezes ninguém atendeu.

Nada a ver com aquela Terezinha de Jesus, que por três vezes foi ao chão. Nada a ver com os três cavaleiros que a acudiram, todos os três de chapéu na mão. Importa é que três vezes a porta bateu e três vezes ninguém atendeu.

Quem será que bateu à porta? Vinha pedir esmola? Avisar que o rei morreu? Que a esperança nasceu? Mais uma vez, não importa. E tanto faz, porque ninguém atendeu. O importante é saber: por que não atenderam à porta? Não havia ninguém ou todos estavam mortos?

Tão temeroso estou, e tão sozinho, que nem reparei: a porta bateu três vezes e três vezes ninguém atendeu.’



TROFÉU RAÇA NEGRA
O Globo

‘Festa reúne 1.300 para o Troféu Raça Negra’, copyright O Globo, 13/11/04

‘Autoridades, personalidades e representantes da comunidade negra do país se reuniram ontem à noite em São Paulo para a entrega do Troféu Raça Negra 2004, que premiou os destaques em 15 categorias, principalmente na área artística e cultural. José Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo, presidente da Fundação Roberto Marinho e vice-presidente de Responsabilidade Social das Organizações Globo, ganhou o troféu na categoria ‘Contribuição à temática do negro’ pelo trabalho que a Rede Globo faz para o desenvolvimento da raça negra no Brasil.

Também foram premiados, na categoria, os ministros do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio de Mello e Joaquim Barbosa; o governador Geraldo Alckmin; Sandra Lia Simon, procuradora-geral do Ministério Público Federal do Trabalho; e Timothy Martin Mulholland, vice-reitor da Universidade de Brasília.

O troféu, concedido pela Sociedade Afrobrasileira de Desenvolvimento Sócio Cultural (Afrobras), foi idealizado para comemorar o Dia Nacional da Consciência Negra, que acontece no próximo dia 20.

Antes da cerimônia de premiação, José Roberto Marinho, disse que estava emocionado com a premiação. Os premiados foram escolhidos por voto popular no site da Afrobras e na revista ‘Raça’, promotoras do evento.

— Este troféu é muito importante. Estou me sentindo muito à vontade aqui. Fiz capoeira durante cinco anos. Tenho sangue negro também. Inclusive, há 40 anos, um político que estava ofendendo meu pai colocou entre as coisas que achava que eram ofensivas o fato de meu pai ter descendência afro. Obviamente que a família achava que era um elogio — disse José Roberto Marinho.

Ao receber o troféu Raça Negra, José Roberto ficou emocionado.

— Quero agradecer o recebimento deste prêmio em nome de todos os meus companheiros da TV Globo — disse.

Além da ‘Contribuição à temática do negro’, o troféu Raça Negra foi concedido em outras categorias: melhor cantor, cantora, sambista, grupo musical, ator, atriz, revelação, futebol, atleta, destaque especial, homenagem póstuma, conjunto da obra e destaque internacional e carreira política. A festa começou no fim da noite e entrou pela madrugada.

Cerca de 1.300 convidados compareceram à festa. Antes do evento, os convidados especiais se reuniram no Hotel Holiday Inn, no Centro de São Paulo, de onde saíram para a Sala São Paulo, onde houve a entrega do prêmio.

Ator diz que evento melhora auto-estima dos negros

O ator Milton Gonçalves, um dos convidados, disse que a festa ajuda a melhorar a auto-estima dos negros.

O cantor Luiz Melodia, finalista, disse que o prêmio serve para reduzir o preconceito racial no país.

— O prêmio não tem esse objetivo, mas qualquer prêmio sempre é bom, principalmente quando vem da nossa própria raça — disse o cantor.

A cantora Preta Gil, filha do ministro da Cultura, Gilberto Gil, disse que não gosta muito de rótulos e de guetos.

— Gostaria que este prêmio evoluísse para o troféu Raça Brasil, para premiar negros, brancos e verdes — brincou a cantora.

A sambista Leci Brandão, outra finalista, disse que a festa era importante por estar sendo promovida inclusive pela UniPalmares, a Universidade Zumbi dos Palmares, pioneira na inclusão dos negros.’



CAHÚ NO DCI
Eduardo Ribeiro

‘Traços de Cahú migram para o DCI’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 10/11/04

‘Nunca tive o prazer e o privilégio de ser apresentado à ilustradora Maria Conceição Cahú, mas por alguma razão qualquer, que não consigo materializar, ela figura no meu imaginário há pelo menos duas décadas como uma das mais talentosas ilustradoras da imprensa brasileira. Aprendi a admirá-la – e muito – desde que passei a acompanhar de perto, como leitor, a Gazeta Mercantil – isso lá pelos Anos 80, tempo em que por força de minha atuação em assessoria de imprensa – primeiro na Villares e depois no Sindipeças – adquiri o hábito de acompanhar o noticiário e os veículos especializados em Economia. De seus traços serenos, delicados e ao mesmo tempo vigorosos brotaram perfis de centenas de autoridades, de empresários, de fontes que a sociedade brasileira aprendeu a respeitar.

Onde havia uma matéria e uma fonte importante, lá estava o bico de pena cravado por Cahú. Perfeito. Irretocável. Absoluto. Era e sempre foi uma marca registrada da Gazeta Mercantil, desde que o jornal adotou o projeto gráfico que o acompanharia por décadas, até os dias de hoje. De lá para cá, muita coisa na empresa e no jornal mudou, mas o uso de bicos de pena permanece.

O talento de Cahú vicejou ao encontrar no caminho um jornal como a Mercantil, que apostou no lúdico, no desenho, para quebrar um pouco a sisudez de seu conteúdo e tratar com graça e leveza temas e discursos áridos, embora consistentes. O jornal fez escola e fortuna, impondo-se como um dos mais importantes do País, graças ao talento de centenas de jornalistas, com suas pautas, textos e edições impecáveis, mas também graças ao talento de seus artistas e ilustradores que, na retaguarda, ajudaram a compor uma fórmula vencedora e até hoje respeitada no mundo inteiro, a despeito da grave crise que abalou os alicerces do veículo e que levou de roldão fortuna e uma parte do prestígio.

Nesse time, Cahú não era a única, mas sempre foi seguramente uma das mais requisitadas e prestigiadas. E, pelo que sei, foram muitos os frilas que acabou fazendo, fruto desse reconhecimento interno e externo.

Cahú foi embora da Mercantil e com ela o jornal perde o que talvez seja um dos seus últimos ícones, uma de suas colaboradoras mais fiéis e talentosas, uma força visual e jornalística que certamente fará falta – se não para os atuais administradores, que vêem a estética pela ótica da matemática, ao menos para seus leitores que, fiéis à marca e ao estilo, estão um pouco mais órfãos, deixando de reconhecer nesta Gazeta Mercantil o jornal que aprenderam a admirar e a respeitar no passado. Alguns, quem sabe, migrem com ela.

Cahú levou seus traços para o DCI, jornal relançado sob os auspícios de Orestes Quércia e que tem no comando Getúlio Bittencourt, como diretor de Redação, e Márcia Raposo, como editora-chefe, ambos praticamente formados pela romântica e instigante escola de jornalismo econômico que foi a Gazeta Mercantil nos anos 70 e 80.

Indaguei à editora-chefe Márcia Raposo se era verdade que o DCI a havia contratado. Olhem só a resposta curta, grossa e definitiva: ‘Sim, dudu, contratamos a Maria Conceição Cahú, a melhor ilustradora de bicos de pena que qualquer jornal já teve!’

Fim de um tempo, recomeço de um outro. Quem sabe um dia desses eu tenha a oportunidade de trocar um aperto de mão, um abraço ou mesmo os tradicionais dois beijinhos paulistas com Cahú e aí vou poder dizer-lhe tudo isso pessoalmente. Mas até lá vou continuar me encontrando com ela, acompanhando-a por onde estiver.’

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