Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > TERÇA-FEIRA, 30/3

Morre o jornalista Armando Nogueira

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 30/03/2010 na edição 583


Leia abaixo a seleção de terça-feira para a seção Entre Aspas.


 


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Folha de S. Paulo


Terça-feira, 30 de março de 2010


 


LUTO


Morre o jornalista Armando Nogueira, 83


‘Criador do ‘Jornal Nacional’, testemunha em 1954 do atentado ao político Carlos Lacerda (1914-1977), jornalista esportivo, escritor, cronista e piloto de ultraleve, Armando Nogueira, 83, morreu ontem ao amanhecer em seu apartamento na zona sul carioca. Sofria de câncer cerebral havia três anos.


‘Armando foi um companheiro maravilhoso, cativante e adorável. Ele mudou a linguagem do telejornalismo brasileiro com rigor fantástico na precisão da informação e na qualidade do texto. Ele nos deixa inspiração para o futuro’, declarou o vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho.


Companheiro de Nogueira na emissora, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, definiu-o como ‘polivalente’. ‘O jornalismo moderno de televisão foi implantado com um trabalho de luta do Armando Nogueira, uma preocupação constante com o texto jornalístico.


É a pessoa mais importante para o jornalismo na televisão’, disse Boni. Acreano de Xapuri (a 200 km da capital Rio Branco), nasceu em 14 de janeiro de 1927. Foi para o Rio 17 anos depois. Formou-se em direito, mas preferiu trabalhar como jornalista.


Armando Nogueira trabalhou na Rede Globo entre 1966 e 1990, onde dirigiu a Central Globo de Jornalismo, sendo responsável final por coberturas criticadas como o chamado ‘escândalo da Proconsult’ em 1982 (fraude na contagem de votos da eleição para o governo do Estado do Rio, com suposto acobertamento da emissora) e a cobertura restrita da campanha das Diretas em 84 (quando suas equipes foram orientadas a não veicular imagens abertas dos comícios para não dar dimensão da adesão popular ao movimento).


Embora tenha trabalhado em variadas áreas do jornalismo, Nogueira se notabilizou na cobertura esportiva. Cobriu 13 Copas do Mundo -a primeira, em 1954- e seis Olimpíadas, a última em 2004.


Em 1954, dois episódios distintos marcaram o jovem jornalista. Na Copa, relatou e fotografou a histórica briga entre a delegação brasileira, recém-derrotada pela Hungria por 4 a 2, com suíços e húngaros. A confusão entrou para a história do futebol brasileiro com o título de ‘A Batalha de Berna’. No mesmo ano, publicou em primeira pessoa relato do atentado que, na véspera, 5 de agosto, presenciara contra o jornalista e deputado Carlos Lacerda na rua Tonelero (Copacabana).


Ele voltava para casa quando, por acaso, testemunhou o ataque a Lacerda, baleado no pé. O atentado acirrou mais ainda a crise política da época, que culminou em 24 daquele mês com o suicídio do então presidente Getúlio Vargas, contra quem Lacerda se opunha.


Seu estilo de texto, no jornal e na televisão, buscava aproximação com a crônica e a poesia. Nogueira escreveu dez livros, a maioria sobre esportes, entre eles, ‘O Homem e a Bola’.


O velório ocorreu no estádio do Maracanã. O enterro será às 12h de hoje no cemitério São João Batista, em Botafogo. O jornalista deixa um filho, Armando Augusto Nogueira. Prefeitura e Estado do Rio, assim como a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), decretaram luto de três dias.’


 


 


Nelson de Sá


Foi comunicador habilidoso


‘Em meio às edições do ‘Jornal Nacional’ voltadas aos 40 anos do programa, cinco meses atrás, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, chegou a se declarar ‘triste’ em seu blog pela omissão do significado histórico de Armando Nogueira para o telejornal.


Mas a importância do ‘comandante’ Armando Nogueira foi expressa, afinal, pela voz de João Roberto, um dos filhos de Roberto Marinho. E ontem o telejornal abriu lembrando ‘o líder da equipe que criou o ‘Jornal Nacional’.


Boni, Nogueira e Alice-Maria criaram o ‘JN’, que unificou o Brasil sob o regime militar a partir de 1969. O formato de telejornal nacional, tomado das redes americanas, ‘foi defendido’ pelos três contra a ‘corrente que queria que cada Estado tivesse seu narrador’.


De 1966 a 1990, ao longo de praticamente toda a ditadura, ele chefiou o jornalismo da Globo, quando a rede se tornou hegemônica. Pelo relato de colegas, resistia aos ‘depoimentos montados’ pela repressão e era habilidoso ao dialogar em defesa da informação.


Com a abertura a partir da anistia, atravessou sem maiores arranhões coberturas controversas como a apuração das eleições de 1982, no Rio, e a manifestação pelas Diretas em 1984, em São Paulo.


Mas, em 1989, veio a eleição para presidente e Armando Nogueira viu Alberico Sousa Cruz, estrela ascendente no jogo político interno, realizar a célebre edição do debate entre Fernando Collor e Lula, no ‘JN’. Poucos meses depois, perdeu o cargo para Sousa Cruz e deixou a Globo.


Foi o momento histórico de maior relevância de que participou. Quase uma década depois, ainda defendia Roberto Marinho no episódio:


‘Na edição Collor-Lula eu fui um marido enganado. O cara que dirigia a área fez modificações à revelia do próprio empresário. Fez aquela manipulação por jogada pessoal, porque era ligado ao Collor’, declarou, negando assim que fosse, como descrito até então, ‘o homem que sabe demais’.’


 


 


TODA MÍDIA


Nelson de Sá


Finalmente


‘Entre as reportagens, ‘Não balance o barco’ , sobre a ‘mensagem clara’ dos brasileiros na eleição, ‘Queremos mais do mesmo’. Em outra, ‘Escorregando no palco global’ , o alerta de que, ‘subitamente, o que o Brasil diz e faz importa no exterior. Mas ele está pronto para o papel?’. Também ‘Internet pega velocidade’ , sobre como é ‘aflitivamente atrasado’ em banda larga, ‘mas o governo quer mudar’


Na capa do ‘Wall Street Journal’, acima do logotipo, ‘Para o Brasil, finalmente é o amanhã’. Era chamada para o caderno especial que abria com o mesmo título, mais o enunciado ‘Como o país do futuro finalmente conseguiu -e o que falta fazer’. Como nas edições especiais de ‘Financial Times’, ‘Economist’ e outros, o ‘WSJ’ destaca que ‘os brasileiros estão ocupados demais, comprando máquina de lavar, carro e televisor de tela plana, para sequer perceber a crise’. De um dos editores, em vídeo: ‘A ascensão do Brasil como um gigante econômico é um dos maiores temas de nosso tempo. Não está somente redefinindo a América Latina, mas também a economia do mundo inteiro.’


1 TRI


Na manchete do UOL ao longo da tarde, ‘Lula admite que menos de 50% do PAC foi cumprido’. Na submanchete da Folha Online, ‘Dilma chora ao dizer que o país não perderá conquistas de Lula’.


Na manchete da Reuters Brasil, ‘Novo PAC prevê investimentos de quase R$ 1 tri’. No alto das buscas pelo Yahoo News, com Bloomberg, ‘Plano de crescimento do Brasil busca investir R$ 959 bilhões’.


E no ‘Financial Times’, ‘Brasil vai gastar R$ 1 tri em infraestrutura’. No original, ‘R$1,000bn’.


MUNDO OTIMISTA


Do Globo Online ao ‘FT’, ecoou a pesquisa KPMG em ‘17 das principais economias’. No primeiro, ‘Empresários do Brasil são os mais otimistas’.


Já o jornal financeiro, sob o título ‘Empresas estão mais confiantes na recuperação’, diz que ‘o Brasil está no topo, com seis indústrias com visão positiva para cada uma preocupada’ com 2011. ‘Mas Brasil e outros emergentes, inclusive China, Índia e Rússia, não estão sós na confiança empresarial.’ Até os EUA reagem.


ENFRENTANDO WASHINGTON


Sob o título ‘Brasil enfrenta Washington’, a ‘Forbes’ postou relatório da Oxford Analytica sobre as ‘medidas ainda não testadas’ com que o país quer retaliar os EUA. Avalia que ‘podem se mostrar efetivas em pressionar Washington a mudar sua política de subsídio ao algodão’, estimulando lobbies opostos.


E a BBC Brasil deu que a vice representante comercial dos EUA chega esta semana a Brasília, ‘para negociar uma maneira de evitar’ a retaliação.


MUITO BARULHO


Da BBC à CNN, do site Market Watch ao argentino ‘La Nación’, ‘Petróleo das Malvinas [ou das Falklands] decepciona’ e as ações da britânica Desire Petroleum já ‘perdem metade do valor’


HABILITADOR


Com a ilustração ao lado, no ‘Washington Times’, Armando Valladares, ex-preso político em Cuba e ex-integrante dos governos Reagan e Bush pai, publicou ‘O habilitador brasileiro de ditadores’, com o subtítulo ‘A ‘moderação’ do presidente Lula dá poderes aos inimigos da América’, de ‘Estados islâmicos’ a ‘assassinos comunistas como Chávez e Evo Morales’.


Dias antes, o também conservador ‘Miami Herald’ publicou em editorial que ‘a postura do Brasil sobre o Irã é perigosamente obtusa’.


OUTRO LADO


No ‘Canal Livre’ e em vídeo no UOL, o chanceler Celso Amorim defendeu sua estratégia como ‘pró-paz, não pró-Irã’ -e que se quer, com o apoio econômico a Cuba, ‘um regime mais democrático’’


 


 


CONDECORAÇÃO


Lula faz homenagem a Octavio Frias de Oliveira


‘O empresário Octavio Frias de Oliveira foi homenageado de forma póstuma ontem pelo governo com a Ordem do Mérito das Comunicações Jornalista Roberto Marinho, condecoração a personalidades que se destacaram no setor de comunicações no país.


A comenda foi concedida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no grau de grã-cruz, a mais elevada de suas cinco classes. Frias, publisher do Grupo Folha, morreu aos 94, em abril de 2007.


O governo homenageou também os jornalistas Alberto Dines e Armando Nogueira, que morreu ontem, aos 83.


Maria Cristina Frias, colunista da Folha, recebeu no gabinete do presidente a homenagem a seu pai. O ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, também participou da solenidade.


Pela Folha, estavam presentes Sérgio Dávila, editor-executivo do jornal, e Melchiades Filho, diretor-executivo da Sucursal de Brasília.


‘Uma das maiores contribuições do meu pai foi a de que um veículo de comunicação precisa ser independente e pluralista, porque o público quer conhecer todos os lados dos fatos e isso era muito da personalidade dele, uma pessoa sempre pronta a ouvir o outro lado’, disse Maria Cristina.


‘Escolhemos três nomes que são realmente ícones da imprensa brasileira. Convivi muito pouco com ‘seu’ Frias, porém o bastante para me lembrar de seus gestos muito atenciosos’, disse o ministro Hélio Costa (Comunicações).


Dines, que dirigiu o ‘Jornal do Brasil’ nos anos 60 e introduziu a crítica regular do jornalismo no país, afirmou que ‘foi uma cerimônia sem grandes pompas, mas teve uma mensagem muito clara do presidente, que ele tem o maior respeito pela imprensa nas suas duas vertentes: um publisher e um jornalista de batente’.’


 


 


SINDICALISMO


CUT questiona a liberdade de imprensa


‘Convidado pelo governo a falar ontem no lançamento do PAC 2, o presidente da CUT, Artur Henrique, sugeriu a realização de debates sobre a democratização dos meios de comunicação: ‘A liberdade de imprensa não pode ser só a liberdade privada da imprensa brasileira’, disse ele, interrompido por aplausos dos presentes ao evento: ‘Nós precisamos debater a liberdade de imprensa neste país’, disse.’


 


 


DEFESA


Filho de Sarney escreve artigo para se defender


‘O empresário Fernando Sarney, filho do senador José Sarney (PMDB), publicou um artigo no jornal ‘O Estado do Maranhão’ de domingo no qual diz que não cometeu crime algum, mas é vítima de uma ‘tentativa de linchamento moral’ de fundo político.


Fernando afirma que há três anos é alvo de uma das ‘maiores devassas’ já feitas no país e que teve seus direitos de cidadão violados de ‘maneira violenta’.


No artigo, Fernando diz que há uma tentativa leviana de envolver sua família, especialmente seu pai, nas investigações.


Ele não cita diretamente que o governo da Suíça bloqueou uma conta de US$ 13 milhões que ele controla, como revelou a Folha na semana passada.


A investigação é um desdobramento da Operação Faktor, da Polícia Federal, que já indiciou o empresário sob acusação de formação de quadrilha, gestão financeira irregular, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. O empresário e o seu advogado não comentam o caso alegando segredo de Justiça.’


 


 


TELEVISÃO


Andréa Michael


‘José do Egito’ será a quarta minissérie bíblica da Record


‘Em ritmo industrial, a Record já tem pronta a sinopse de ‘José do Egito’, a quarta na sequência de minisséries de inspiração bíblica que levará ao ar. A primeira, ‘A História de Ester’, termina na quinta. Depois, estreiam, também com direção de João Camargo, ‘Sansão e Dalila’ e ‘O Rei Davi’. ‘Descobrimos esse filão que tem histórias muito boas, e vamos investir nisso’, diz Hiran Silveira, diretor de teledramaturgia da emissora. Responsável pela cadeia de produção, Silveira já se preocupa em encontrar um Sansão para começar a gravar em maio. ‘Ele tem de ser fisicamente forte. E juntar isso à interpretação não é fácil. Nessa hora, já começamos a perder o sono’, brinca ele, que desde 2005, ano da inauguração do Recnov, acompanhou 20 novelas. Já ‘Vivendo o Amor’, a mais nova parceria entre a casa e a Televisa, terá Edwin Louise como um metrossexual. A produção inaugurará a faixa de novelas das 19h após a Copa. Dono de um bar, Louise integrará o núcleo pobre da trama ao lado de Cristina Mullins, mãe da protagonista (atriz ainda a definir), uma moça de 22 anos que vivia em um orfanato até ser adotada, aos 14. O grupo estará ambientado em uma vila simples, no Rio de Janeiro, que será reproduzida na cidade cenográfica da Record -construída a um custo de quase US$ 3 milhões (cerca de R$ 5,43 milhões).


CLIQUE


Na semana em que foi a julgamento, Alexandre Nardoni foi do 1.607º para o quinto lugar entre as personalidades brasileiras mais acessadas na internet segundo o Celeb.com.br.


IMPEDIMENTO


No lançamento da campanha da TV digital, em SP, surgiu a dúvida: por que usar apenas uma cena de futebol, em ano de Copa? Frederico Nogueira, vice da Band e presidente do Fórum de TV Digital, explica: como os direitos da Copa são da Globo, outras TVs poderiam boicotar.


REALITY


A Conspiração produz para o E! a série ‘Histórias Verdadeiras’. Dos quatro capítulos -previstos para maio-, um será sobre mulheres de jogadores de futebol e outro sobre atrizes que foram capa da ‘Playboy’.


TROFÉU 1


Eleita a melhor atriz de 2009 por ‘Viver a Vida’, anteontem, no ‘Domingão do Faustão’ (Globo), Alinne Moraes disse já ter planos para depois da novela, que, ‘graças a Deus’, não têm a ver com televisão.


TROFÉU 2


Dira Paes, melhor atriz coadjuvante por ‘Caminho das Índias’, será a modelista Marta em ‘Ti Ti Ti’. Trabalhará com Victor Valentim. Sobre ‘A Diarista’, nada. ‘Solineuza não me seduz mais. Teve seu tempo.’


RIMA


Ricardo Hofstetter, autor de ‘Malhação ID’ (Globo), apresentou à casa uma sinopse de novela das 19h. A trama conta a história de repentistas nordestinos que vivem no Rio.


com Clarice Cardoso’


 


 


Luciana Coelho


Paradoxos de Jack Bauer, da série ‘24 Horas’, não cabem no governo Obama


‘De tudo o que a ficção americana pariu nos anos Bush, nada é tão significativo e interessante quanto Jack Bauer e sua missão de salvar os EUA de ameaças terroristas cataclísmicas. Quando o reloginho digital bipar na tela os últimos segundos do oitavo dia na vida do personagem, daqui a dez episódios, muito mais do que uma série de TV terá acabado.


O que está se vendo agora é a lenta transição de um modo de pensar. E nos EUA de Barack Obama já não cabe Jack Bauer e os paradoxos nele contidos. Nem é que muito tenha mudado na prática -o Iraque apaziguou um tanto, mas no Afeganistão a guerra acirrou; Guantánamo segue aberta; e mesmo com um acordo para o desmantelamento nuclear assinado, os EUA estão longe de abdicar do arsenal. Não são tempos de paz.


Mas as prioridades são outras. O heroísmo hidrófobo de Jack já não serve mais.


Sua flexibilidade ante a lei e a moral comum, para seguir a sua própria por uma causa até então dita urgente, já não pode ser admitida em um país onde o medo de pagar as contas se tornou mais premente do que o de se explodir em um avião. Contraterrorismo não pode ser pop, ainda que siga necessário.


É verdade que o agente imaginado por Robert Crochan e Joel Surnow -e que o ator Kiefer Sutherland trouxe brilhantemente ao mundo quando ainda estávamos estarrecidos com o 11 de Setembro- estava cansado, perdido até. Os roteiros nas últimas três temporadas já não hipnotizavam como no início. No máximo ficou aquele interesse medido pelas desventuras de um sujeito que se tornou bizarramente familiar dado seu cotidiano de executar o chefe e ameaçar matar os filhos de suspeitos em troca de confissões.


A verossimilhança havia deixado de ser uma preocupação. E, com o fim da era Bush, é notório como tornar o agente crível se tornou mais custoso. ‘24 Horas’ sempre foi uma coisa só: Jack Bauer e sua missão solitária de salvar o mundo. Se Jack não é mais aceitável nem verossímil, então não há do que se continuar falando. Não por isso, porém, será menor seu papel no imaginário pop político recente dos EUA.’


 


 


 


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O Estado de S. Paulo


Terça-feira, 30 de março de 2010


 


LUTO


Luiz Zanin


Adeus ao mestre Armando Nogueira


‘Frases como essas você deve conhecer: ‘Para Garrincha, a superfície de um lenço era um latifúndio’ e ‘A tabela de Pelé e Tostão confirma a existência de Deus’. São exemplares do estilo de Armando Nogueira, mestre da crônica esportiva, que nos deixou ontem aos 83 anos. Armando foi homem de televisão e atuou em diversos veículos impressos, inclusive aqui mesmo no Estado.


Como todo homem – e homem de poder que foi – Armando Nogueira teve também suas facetas controversas, em especial na época em que dirigia o jornalismo da Globo, onde implantou o Jornal Nacional e o Globo Repórter. Neste espaço, prefiro lembrar o cronista esportivo, por certo seu melhor e mais duradouro legado.


Armando Nogueira era talvez o último representante de uma corrente da crônica esportiva que poderíamos chamar de ‘literária’. Pelo respeito que todos lhe tínhamos, representava o elo entre essa escola, que tivera em Nelson Rodrigues seu expoente máximo, e a moderna crônica, que se deseja mais objetiva, mais técnica, talvez mais informativa que opinativa. Cito Nelson Rodrigues apenas porque o dramaturgo representou o tipo ideal desse tipo de escrita sobre o futebol, na qual brilharam também artistas do nível de José Lins do Rego, Paulo Mendes Campos e Carlos Drummond de Andrade.


Armando Nogueira vinha na linha direta de sucessão de Nelson Rodrigues, o maior entre os pensadores da bola. Como seu mestre, Armando não hesitava em usar a hipérbole se alguma jogada ou atleta lhe parecessem tão descomunais que merecessem adjetivo à altura. Preferia o risco do exagero à mesquinhez da parcimônia. E, como estava atrás do principal e não do acessório, não via qualquer razão para ser objetivo ao escrever sobre esporte tão subjetivo como o futebol. Falo do futebol em particular, embora Armando tivesse ficado íntimo do vôlei, do tênis e de outros esportes. Mas era no futebol que exercia melhor seu estilo poético, mesmo porque, ainda que sem sugerir hierarquias entre modalidades, o futebol continua a ser, de longe, o esporte que mais mobiliza a paixão do brasileiro e de muitos outros povos.


O campo da bola é o território do afeto, talvez mais do que possam ser os outros jogos. E então, entendia Armando Nogueira, deveria ser abordado da mesma forma como se apresentava ao torcedor, e medido com os instrumentos da paixão para que pudesse ser compreendido. Era apenas dessa maneira, entendendo a vocação secreta do seu objeto, que o escritor poderia situar-se à sua altura, sem traí-lo. Esse, sabemos, é o desafio maior para quem aceita o risco de pôr em palavras algo que, na origem, parece ser apenas da ordem do esforço atlético e da competição.


Armando intuía o poético que havia nesse jogo. Enxergava o quanto o esforço físico comportava de balé, e como a competição podia traduzir as grandezas e eventuais baixezas do espírito humano. Alargou nossa percepção com suas frases lapidares e sua compreensão do jogo como drama que se desenrola em palco gramado, tendo uma inquieta plateia por testemunha. Como poeta, isso é óbvio, ele amava o futebol jogado à brasileira, muito mais que o futebol-força, o império do vigor físico e da disciplina tática. Era um romântico, no melhor sentido do termo. Isto é: alguém que percebia a grandeza da experiência humana e suas formas de expressão.


Com sua visão poética, ele nos ajudou a ver um jogo que estava além do jogo. Ao contrário dos tecnocratas que só veem números, Armando buscava no esporte aquilo que ele podia revelar da beleza e da contradição humanas. Da mesma forma que Nelson Rodrigues, Armando Nogueira conseguiu enxergar a essência do jogo. E sabia transmiti-la em sua prosa poética. Isso, nós lhe devemos.’


 


 


TELEVISÃO


Keila Jimenez


Band quer polemizar com A Liga


‘Edição de videoclipe, bastidores da notícia à Profissão Repórter e muita polêmica. Assim será A Liga, atração jornalística da Band que estreia em 4 de maio. Os primeiros programas terão como tema moradores de rua, a morte e tribos urbanas. A novidade está na narrativa – às vezes triste, outras, divertida – da história, vista por quatro ângulos diferentes. Exemplo: em tribos urbanas o programa vai atrás de emos, metaleiros, histórias absurdas dessas tribos, mas também ouvirá especialistas sobre o assunto. Formato da argentina Cuatro Cabezas, a mesma do CQC, A Liga será formada por Rafinha Bastos (CQC), Thaíde (rapper), Débora Villalba (jornalista) e Rosanne Mulholland (atriz).


MÉDICOS E LOUCOS. Ney Latorraca (dr. Solano), Fernanda de Freitas (dra. Evelin), Mauro Mendonça Filho (diretor-geral) e Bruno Garcia (dr. Wando) no hospital surtado de S.O.S Emergência, a série com pinta de Scrubs, da Globo, que estreia no dia 4 abril.


29 pontos de ibope alcançou o Fantástico anteontem, o recorde de audiência do programa este ano


‘Os machões que produzem o BBB devem estar felicíssimos, se vingaram do Jean Willys’


O autor Aguinaldo Silva, no twitter, sobre Dourado ter eliminado Dicesar


A Justiça de São Paulo negou pedido de indenização de um homem que processou a Globo por danos morais, após ter aparecido em uma reportagem sobre o ronco, no Fantástico.


Na ação, o autor do processo diz ter sido alvo de piadas no trabalho após aparecer na reportagem dormindo em ônibus, roncando e quase caindo do banco.


Gugu retomando sua antiga forma – com gincanas no lugar de assistencialismo – recuperou o segundo lugar em audiência no domingo, e registrou média de 10 pontos no horário na Record.


Viver a Vida deveria abrir uma sessão de achados e perdidos para o seu elenco. Não são poucos os personagens que simplesmente desaparecem da trama. Por onde anda Oswaldo (Laércio Freitas) pai de Helena (Taís Araujo)?


Em nova temporada, o Por Toda Minha Vida, da Globo, quer retratar os grandes movimentos musicais do Brasil. Tropicália, Jovem Guarda e Bossa Nova estão na fila.


Sim, a Record pensa mesmo em trazer o programa Geraldo Brasil de volta. Geraldo Luís tem sido visto todos os dias na emissora em longas reuniões.


A exibição do Troféu Imprensa, anteontem, no SBT, rendeu apenas 8 pontos de média no horário, alcançando o terceiro lugar em ibope.


Com direito a entrega de prêmio de melhores do ano, o Domingão do Faustão registrou 21 pontos de média. Foi o último domingo com a atração dividida em duas partes. Na próxima semana, Fausto Silva irá ao ar só depois do futebol na Globo.


A animação Funérea, da MTV, entrevista hoje, às 0h15, no Infortúnio MTV, Toninho do Diabo.’


 


 


CRIME


Diego Zanchetta


Para ABI, condenação por morte de jornalista ajuda a imprensa


‘O presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Maurício Azêdo, afirmou ontem que a condenação dos quatro PMs acusados de matar, em 2007, o jornalista Luiz Carlos Barbon Filho, de 37 anos, pode ajudar a acabar com a impunidade das ameaças feitas contra a liberdade de imprensa no interior do País.


Barbon era repórter do Jornal do Porto, de Porto Ferreira, cidade de 30 mil habitantes a 224 km da capital. Em 2003, ele revelou um esquema de aliciamento de garotas menores de idade mantido por vereadores, comerciantes e policiais militares da cidade. Barbon foi assassinado cinco anos depois, três dias antes de publicar uma nova série de reportagens sobre o envolvimento de PMs com o roubo de cargas na região de Ribeirão Preto. O julgamento dos réus terminou na madrugada de sábado.


‘Exercer a profissão em cidades interioranas ainda é um exercício de coragem para muitos repórteres. Uma condenação que coíbe esse tipo de crime ajuda na evolução da profissão em locais onde os interesses econômicos muitas vezes ainda ditam as regras dos jornais’, disse Azêdo.


Outras entidades, como a Repórteres Sem Fronteiras e a Unesco, manifestaram satisfação pela condenação. Segundo o promotor Andre Bogado Cunha, falta ainda o julgamento do soldado da Força Tática Valnei Bertoni, acusado de ter atirado contra Barbon.’


 


 


DIA DA MENTIRA


Tutty Vasquez


O jornal de quinta


‘Que notícia você gostaria que, depois de amanhã, se revelasse uma pegadinha de 1.° de abril? Os católicos adorariam que o New York Times saísse na quinta-feira com a manchete ‘Papa caiu feito bobo’, desfazendo a denúncia contra Bento XVI por acobertar um serial pedófilo da Igreja nos EUA. ‘Ufa!’


Meio mundo respiraria aliviado se também o Lula aproveitasse o Dia da Mentira para mostrar como é fácil enganar a imprensa: nenhum jornal percebeu que sua viagem ao Irã, programada para maio, não passa de uma grande brincadeira. O presidente nem pensa em ir a Teerã!


Imagine o Dunga rindo de quem acreditou que ele vai mesmo levar o Josué à Copa. Sabe a censura ao Estadão? Caiu 1.º de abril! Quem dera, né não? Mas tem gente que não perde a esperança na reversão de alguma má notícia por obra e graça da efeméride. O carioca de voto consciente, por exemplo, tem quase certeza de que Fernando Gabeira estava só pregando uma peça em seu eleitor ao anunciar que enterrará sua trajetória política numa aliança com Cesar Maia. Dá pra acreditar? Particularmente, acho que é mais fácil fazer sol na Semana Santa, embora a meteorologia não tenha a mesma previsão.’


 


 


 


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