Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ENTRE ASPAS >

Nelson de Sá

26/07/2005 na edição 339

‘A morte de Jean de Menezes por ‘acidente’, com cinco tiros na cabeça, à queima-roupa, foi a manchete dos principais jornais britânicos -do prestigioso ‘Observer’, que é a edição dominical do ‘Guardian’, ao tablóide ‘News of the World’, dominical do ‘Sun’.

Foi a manchete até do ‘New York Times’, do outro lado do Atlântico.

Na televisão, desde o sábado à tarde se manteve como a notícia central dos canais BBC e Sky News, ambos britânicos, além CNN e Fox News, os principais americanos.

Ao menos duas grandes redes abertas dos EUA, NBC e ABC, divulgaram com destaque a confirmação de que a polícia londrina havia assassinado ‘um brasileiro inocente’.

Nos EUA, os programas de domingo de repercussão, como ‘Late Edition’, de Wolf Blitzer, e ‘Fox News Sunday’, debateram o tema longamente.

Mas foi no ‘Sunday with Adam Boulton’, da Sky News, também de Murdoch, que saiu a entrevista mais controversa do dia.

‘Sir’ Ian Blair, o comissário de polícia de Londres, defendeu e afirmou que vai continuar com a política de ‘atirar para matar’. Com bom inglês, soou brutal na argumentação:

– Nós estamos confortáveis, a política é a correta. Mas é claro que são tempos fantasticamente difíceis e temos que concentrar em pegar a tragédia, lamentá-la profundamente e seguir em frente.

Mais do mesmo:

– Não faz sentido atirar no peito, porque é lá que vai estar a bomba. Não faz sentido atirar em nenhum outro lugar, porque podem cair e detonar… Tiramos isso da experiência de outros países, como Sri Lanka. O único jeito de lidar com isso é atirar na cabeça.

No mesmo tom e com atenção semelhante, o ‘News of the World’ publicou longo artigo assinado por ‘Lord’ Stevens, que foi o comissário de polícia responsável pela implantação da ‘política’.

Duas frases, destacadas pelo próprio tablóide:

– ‘Atirar para matar’ salva vidas… Uma tragédia não vai mudar isso.

Ao longo da cobertura, dois ministros britânicos, do exterior e da justiça, ecoaram os chefes de polícia.

E na imprensa os primeiros editoriais, inclusive aqueles dos jornais chamados de prestígio, evitaram condenar os policiais ingleses ou a ‘política’. Pediram investigação.

Em oposição às palavras de Ian Blair e seus colegas, só a avó e outros parentes de Jean. Eles e a cobrança do chanceler Celso Amorim, na Sky News como na BBC e CNN:

– É evidente agora que era uma pessoa inocente e pacífica. Até na luta contra o terror temos que cuidar para evitar a perda de vida inocente.

Além das vozes brasileiras aqui e ali, vale sublinhar, o site do britânico ‘Financial Times’ fechou domingo com manchete para a ‘pressão crescente’ sobre a chefia da polícia, por parte da ‘comunidade islâmica’ e até de ‘alguns políticos’ britânicos. Não deu nomes.

NO AR Acima, imagens de Jean de Menezes na BBC, do Reino Unido, na ABC, dos EUA, e no sinal americano da CNN, entre outras redes que cobriram exaustivamente o assassinato. Abaixo, na britânica Sky News, de Rupert Murdoch, o comissário de polícia de Londres, ‘Sir’ Ian Blair, defende a política nacional de ‘atirar para matar’ e, em especial, ‘atirar na cabeça’

Bagunça

Em meio ao choque da morte do brasileiro, o ‘Financial Times’ publica hoje um editorial sobre o escândalo no Brasil, intitulado ‘O desafio de Lula’:

– Eleito para tornar o Brasil e o governo mais eficientes, limpos e justos, o presidente Lula parece estar caindo nas três questões. Não obstante um ininterrupto otimismo no mercado, o governo está em uma bagunça.

Estabilidade

Após resumir as notícias, o ‘FT’ foi ao ponto:

– Por enquanto, a economia está isolada dessas dificuldades… Mas existem alguns sinais de que o panorama se deteriora.

Por fim, conselhos:

– Como primeiro passo, deve reconhecer o tamanho da crise e aceitar alguma responsabilidade por permitir que ele acontecesse. O presidente Lula precisa, então, reorganizar o seu governo em torno de um projeto que assegure estabilidade.

Polígrafo

Vexado pela entrevista que caiu do céu, no domingo anterior, o ‘Fantástico’ comparou Lula ao Clinton do caso Lewinsky e ouviu até especialistas em ‘mentira’. Chegou muito perto, inspirado por Claudio Humberto, mas não apelou ao polígrafo.’



LIBERDADE DE IMPRENSA
Urariano Mota

‘A liberdade de imprensa em Pernambuco’, copyright Agência Carta Maior, 19/7/05

‘Ninguém é louco de dizer que em Pernambuco não há liberdade de expressão. Todos pernambucanos pensam o que der na telha, quem quer escreve, do vivido ao imaginado, com a mais absoluta liberdade. A única restrição é que nada se publica do que tão livremente é pensado.

Os últimos fatos é que foram notícia. No dia 21 de junho, Cícero Belmar, editor do Jornal do Commercio no Recife, perdeu o emprego. Razão: autorizou a publicação de texto sobre a libertação de 1.200 trabalhadores, que exerciam trabalho escravo nas terras de Eduardo Queiroz Monteiro, dono de outro jornal, o Folha de Pernambuco. E no dia 30 de junho, o mais grave. José Cândido de Amorim Filho, radialista na Rádio Alternativa em Carpina, perdeu a vida. Razão: denunciava a prática de nepotismo, a doação dos melhores empregos públicos para os familiares do Prefeito de Carpina. Dezoito tiros.

O mal, que chamamos de Liberdade Imprensa em Pernambuco, vem de mais longe. Com renovações as mais livres, todos os dias.

Invasão de jornal

Para não ir muito longe, vamos a um marco, ao marco zero da cidade do Recife. No ano da graça de 1999, o artista Francisco Brennand esculpiu e pôs na entrada do porto da cidade uma coluna cilíndrica, firme e subida. Trinta e dois metros de argila e bronze, uma flor alta, segundo Brennand. Para quê? Comentou-se na cidade que a esposa do prefeito, uma senhora evangélica, vira na coluna aspectos pouco recomendáveis aos bons costumes. Porque ela, a obra, mais se parecia a um falo, acrescentaram alguns loucos pouco amantes da vida. Daí que o colunista social do Jornal do Commercio escreveu uma pequena nota, sem citar nomes de autoridades, porque louco não era, chamando a atenção para a censura que estaria havendo à obra de Brennand. Para quê?

Em 9 de agosto de 1999, o prefeito da cidade invadiu o Jornal do Commercio absolutamente fora de si. Escrevemos invadir, mas devemos corrigir. Autoridades não invadem um jornal no Recife, apenas entram sem convite. Ou melhor, autoridades no Recife sempre estão mui bem convidadas. O fato é que o atual deputado federal pelo PFL passou por cima de porteiro e portaria, com o paletó aberto e revólver à mostra na cintura, porque homem é homem. Subiu, dirigiu-se ao chefe de redação, e mandou vir à sua presença o colunista social Orismar Rodrigues. Autoridade é autoridade. E lhe perguntou, com o revólver exibido:

– O senhor quer viver mais alguns anos? Quer?! Então tome cuidado, preste muita atenção ao que escreve.

As testemunhas desse ‘diálogo’ dizem que a fala não se deu nesse tom, acreditem, civilizado. Que o colunista foi tratado pelo vocativo baby. Que o prefeito gritava, irado e possesso a ponto de matar. Porque ali estava um homem disposto a reparar a honra da sua, dele, família.

O fato, o falo, se estendeu, para maior desespero do prefeito, que à época era candidato a novo mandato, que perdeu, em razão desse falho. Todos os jornais do Recife noticiaram a ameaça ao jornalista, todos, educada, censurada e elipticamente. Bem, mal, todos, menos o Jornal do Commercio, a vítima. O colunista, por sua vez, sequer prestou queixa à polícia. Porque precisava do emprego e da vida por mais alguns anos.

Índice dos jornais

Acontece com os jornais de Pernambuco um fenômeno que certamente é universal: as melhores reportagens, as melhores notícias, os melhores textos se transformam em autênticos palavrões, porque não são publicáveis. Mas aqui em Pernambuco, valha-nos a redundância, temos uma censura autenticamente pernambucana. A saber, neste índex censório:

1. Não se fala mal de amigo, do dono do jornal. Mas, à Pernambuco, falar mal do próprio amigo pode, é até prova de bom caráter. ‘Quanta independência!’, comenta-se.

2. Se alguma vez, alguém, inadvertidamente, coitado, falar mal de um desses amigos do amigo do dono, perde não só o emprego, como é comum em várias partes do Brasil. Em Pernambuco, pernambucanamente, perde o direito ao uso do próprio nome. O macarthismo é real, é cotidiano, é recente.

3. Os jornalistas, de modo geral, são muito ferozes, destemidos, fora do seu ofício, fora do seu batente. Isto é universal. Mas em Pernambuco a qualidade moral da coragem confunde-se com a macheza. Se alguém é macho para falar mais alto longe da redação, ótimo, pode sobreviver na maior vileza.

4. O interesse público acima de tudo. E o interesse público, como em outros lugares, é o interesse da autoridade, do rico, do amigo do rico, do poderoso ocasional. Mas tamanha é a sombra do poder, que a tudo invade em Pernambuco, que às vezes, numa tradução arretada, respeita-se a sombra do poderoso errado. ‘Não me avisaram’, dizem os surpreendidos editores.

A melhor imprensa de Pernambuco

Entre os fatos que seriam noticiados no melhor dos jornais pernambucanos destacaríamos, em ordem cronológica:

1. No tempo das máquinas de datilografia, a diretora de redação do Diário de Pernambuco fiscalizava, ostensivamente, o texto que estava sendo escrito pelos redatores e repórteres. Antes mesmo de ser apresentado a ela, para o imprima-se. No ato, na própria máquina de escrever, enquanto o repórter batia, intimidado, as teclas. As laudas, entremeadas por carbono, eram levantadas, mais despudoradamente que saias de mocinha virgem em praça pública. Nenhuma voz máscula, em riste, se levantava contra semelhante abordagem. Quem era louco? A feitora, melhor, a diretora, estava no uso das suas prerrogativas.

2. Depois da demissão de um colega, que chamara a atenção para o desrespeito a direitos trabalhistas, os repórteres da Folha de Pernambuco iniciaram, mui timidamente, alguma coisa parecida a uma movimentação de protesto, de solidariedade…. Para quê? O diretor de redação (sempre ele) desceu até os malucos e gritou, em alto, imperial e bom som: – ‘Vocês são meus. Ouviram? Vocês são meus! Quem estiver insatisfeito, levante-se e vá embora’. Como prova de propriedade, com muita propriedade ninguém falou. Dizem até que houve quem demorou a ir ao banheiro. Para evitar qualquer equívoco.

3. No recente protesto do sindicato dos jornalistas contra a demissão de Cícero Belmar, o diretor de redação (sempre ele!), comentou aos bons e solícitos ouvidos de sempre: – ‘Eu não entendo por que vieram protestar na porta do Jornal do Commercio. Deviam ir protestar nos outros jornais. Nós até publicamos a notícia!…’. Ninguém lhe fez ver que exatamente por isso o editor fora demitido. Ninguém é louco.

A liberdade que temos

Ninguém é louco de dizer que em Pernambuco não há liberdade de expressão. Todos pernambucanos pensam o que der na telha, quem quer escreve, do vivido ao imaginado, com a mais absoluta liberdade. A única e pequenina restrição é que nada se publica do que tão livremente é pensado. Porque nenhum editor ou diretor é louco. ‘Somos responsáveis’, dizem-se. Tal responsabilidade, de publicar o publicável, de não publicar o pensamento livre, traz conseqüências danosas, terríveis. Afeta a própria inteligência coletiva, que deveria se ver e ser estimulada a pensar em meios que se dirigem ao público.

Gera-se a mediocridade coletiva, a plena satisfação com o abaixo do razoável. Gera-se até mesmo a elevação do baixo a categorias ontológicas. Gera-se a comédia, diríamos, se isto não encerrasse pequenas tragédias individuais. De um ponto de vista particular, da categoria dos jornalistas, mais que o medíocre, gera-se o texto uniforme, em escala e produção industrial. Porque não há nem pode haver qualidade e riqueza de pensamento onde prospera o medo. É um equívoco a crença de que o pensamento bom, criativo, é uma condição de mentes privilegiadas, geniais. Não. O pensamento, livre em seu nascedouro, só quer uma coisa para crescer e ser digno do nome: não ter medo, vencer o medo, ir às últimas na sua expressão. Ora.

Numa terra de três jornais, de vigilância cerrada, feudal, sobre o que escreve ou tenta escrever a massa de jornalistas, ora, sempre se diz, com suave perfídia a qualquer leve rebeldia, que ‘há centenas de jornalistas prontos a ganhar menos de mil reais’. Ora. Se ‘a primeira liberdade da imprensa consiste em que ela não seja um ofício’, como acentuava Marx, o que dizer quando existe uma desproporção brutal entre o número dos que desejam ter esse ofício e o número de proprietários da nobre função? Com a palavra o presidente do Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco, que assim se referiu à grande massa de colegas de Belmar que não vieram participar do protesto contra a demissão de um semelhante:

‘Entendo por que os jornalistas da redação não estão presentes. É muita pressão. É uma ameaça permanente de perda do emprego. Sei que de coração todos eles são solidários à causa, mas a sobrevivência fala mais alto’.

Ou seja, em Pernambuco, a liberdade de imprensa termina por se confundir com a defesa do emprego. Que é pouco, mal remunerado e medíocre. E que se perde, ainda assim. Em silêncio, ‘por favor não gritem, por favor não citem nomes’. O que afinal quer dizer, por favor não pensem, por favor não escrevam, mas se escreverem, pelo amor de Deus, não publiquem. Liberdade de Imprensa para quê? Ninguém é louco.’



O Estado de S. Paulo

‘Fonte confidencial’, copyright O Estado de S. Paulo, 24/7/05

‘De há muito e não sem razão os parâmetros da sociedade norte-americana em relação às garantias institucionais da liberdade de expressão, e particularmente de imprensa, têm sido um marco básico da responsabilidade da atividade jornalística, nos países que desfrutam de regimes políticos democráticos. E isso porque, em gênero, a liberdade de imprensa é ínsita ao próprio conceito da Democracia e, na espécie, foi nos EUA que primeiro se cristalizaram as regras que asseguram o pleno direito de transmissão de informações e notícias, sem restrições ou censura. Tem-se hoje por fundamento jurídico maior, da liberdade de imprensa norte-americana, a interpretação que a Suprema Corte deu à 1ª Emenda à Constituição daquele país (no caso Red Lion, de 1969), ao afirmar que o assegurado não é o direito de os veículos de comunicação e os jornalistas informarem, mas sim o direito de a sociedade ser informada. E é nesse contexto que se insere a momentosa questão da preservação da confidencialidade das fontes, na captação de informações que fazem os profissionais de imprensa.

Por terem se recusado a revelar suas respectivas fontes anônimas, em matérias que publicaram divulgando a identidade da agente secreta da CIA Valerie Palme (e é crime, nos EUA, a identificação de agente secreto), os repórteres Judith Miller, do New York Times,e Matthew Cooper, da Time, haviam sido condenados, por um tribunal de primeira instância, a 18 meses de prisão. Cooper evitou a prisão ao se mostrar disposto a revelar ao Grande Júri sua fonte – que era o assessor presidencial Karl Rover – mas Judith foi presa dia 6, por ordem do juiz federal de Washington, Thomas Hogan, por não ter se disposto a fazer essa revelação.

Como não poderia deixar de ser, o assunto transformou-se em intensa polêmica, porque grande parte, se não a maior parte, das pessoas que prestam informações a jornalistas, sobre temas controvertidos, que envolvam irregularidades governamentais ou de outras ordens, nos mais diversos seto res de atividade, exigem o sigilo para sua própria segurança – ou seja, para que não venham a sofrer perseguições, demissões, processos judiciais ou outros tipos de represálias, por parte dos que se sintam atingidos ou prejudicados por tais informações. Bem é de ver, pois, que não só nos Estados Unidos, mas em qualquer lugar do mundo, a ‘fonte confidencial’ é fator essencial no respeito ao direito de a opinião pública ser informada.

A questão levou à elaboração de um projeto de autoria de democratas e republicanos (projeto bipartidário), já bem recebido pela Comissão de Justiça do Senado dos EUA, destinado a evitar que os jornalistas sejam forçados a revelar suas fontes. Como era de se esperar, o governo do presidente George W. Bush faz uma dura objeção ao projeto. Em audiência naquela Comissão o vice-secretário da Justiça, James Comey, definiu o chamado ‘escudo’ para jornalistas como ‘má política pública’, que prejudicaria a capacidade de as autoridades públicas e os sistemas de segurança do Estado norteamericano de dar combate ao terrorismo.

Desconsidere-se, aqui, a versão segundo a qual o próprio governo Bush teria estimulado – de forma sub-reptícia – a divulgação da identidade da agente Valerie Palme, porque estaria interessado em desacreditar seu marido, o ex-embaixador Joseph Wilson, que acusara publicamente a Casa Branca de ter manipulado as informações disponíveis sobre o arsenal iraquiano. Independentemente das motivações que levaram à celeuma, o fato é que se fez vir à baila uma discussão que tem que ver com importante manancial de informações da imprensa livre – e, como tal, é de real interesse na vida prática das Democracias. Pelo novo projeto o jornalista só será obrigado a divulgar sua fonte confidencial quando for necessário para impedir uma ameaça iminente à segurança nacional. É possível que a definição do que seja ‘uma ameaça iminente à segurança nacional’ acabe recaindo no campo ambíguo da subjetividade, comportando maior ou menor estreitamento de limites, e claro está que, sob Bush, tais limites são estreitos. De qualquer forma, é bom que as forças dos dois partidos já demonstrem a intenção de criar resistências legais a possíveis cerceamentos à liberdade de expressão, em nome da ‘segurança nacional’.’



O GLOBO / 80 ANOS
Bernardo Araujo

’80 anos de notícia’, copyright O Globo, 24/7/05

‘Muita coisa acontece ao longo de 80 anos. Um país, por exemplo, que pouco tempo antes tinha passado de Império para República, pode passar por várias ditaduras, ver presidentes renunciar e ter uma dúzia de moedas diferentes. Um jornal, que se propõe a acompanhar o dia-a-dia deste país em especial e do mundo em geral, se vira em mil (ou, mais realisticamente, em cerca de 29 mil) para contar a história. Aliás, a História. Os 80 anos do GLOBO, que se comemoram no dia 29 de julho, estarão representados no Centro Cultural Banco do Brasil a partir de terça-feira, dia 26, na exposição ‘80 anos de História nas páginas do GLOBO’, com curadoria de Luiz Garcia. A mostra, reunida a partir do Centro de Documentação do jornal, o CDI, é multimídia e tem cenários de Abel Gomes e Rose Ferreira e textos de Sérgio Rodrigues. Fecomércio e Brasil Telecom são os patrocinadores do projeto.

— A exposição é dividida em estações, representando os anos 20, de 1925 a 1929; os anos 30, de 30 a 39; e assim por diante — explica Cláudia Lisboa, da equipe responsável pela montagem. — Cada uma tem um equipamento que chamamos de botoeira, um conjunto de botões que permite ao visitante passar as páginas expostas com a velocidade desejada, enquanto um áudio explica o que está representado.

Além das estações divididas através dos anos, uma última dá informações a respeito do jornal. A primeira página da edição de estréia do GLOBO está exposta ao lado da capa do jornal no dia 1 de janeiro de 2005 — que será trocada pelo dia 29 de julho, data exata dos 80 anos do jornal, quando ela chegar.

Segundo Garcia, ‘a seqüência de boletins diários sobre a vida de uma cidade, um país e o mundo tem importância transcendental: ela produz a matéria-prima da História’. Embora não se comprometa a contar tudo o que aconteceu — o que seria impossível — ‘80 anos de História nas páginas do GLOBO’ confirma os compromissos do jornal com a verdade, o bem-estar da comunidade e os interesses nacionais. Além de, como lembra o curador em seu texto de apresentação, jamais abrir mão do direito de opinar. ‘O GLOBO tem credenciais para isso, e as usa, abertamente. Mas reconhece seu dever de expor ao leitor as alternativas válidas, as outras opções’.

Sendo assim, a exposição conta, na medida do possível, a História do Rio, do Brasil e do mundo — e, conseqüentemente, a do próprio jornal — em páginas como a que relata o primeiro Fla-Flu após o lançamento do jornal, dia 9 de novembro de 1925; a morte do cangaceiro Lampião, em 28 de julho de 1938; e o sucesso da cantora Marlene, apontada a Rainha do Rádio em 1949; até — já com a sofisticação da impressão colorida e de toda a tecnologia disponível na apuração das notícias — fatos mais recentes como o 11 de setembro de 2001 em Nova York, a morte do Papa João Paulo II e até a crise política atual. A exposição ‘80 anos de História nas páginas do GLOBO’ fica em cartaz no foyer do CCBB, na Rua Primeiro de Março 66, de terça a domingo, das 10h às 21h, até setembro.’



O Globo

‘Em busca do leitor antes da edição nº 1’, copyright O Globo, 25/07/05

‘Há exatamente 80 anos os cariocas eram apresentados ao GLOBO. Em 25 de julho de 1925, quatro dias antes da circulação do primeiro número do jornal, um boletim gratuito foi distribuído pelas ruas do Rio. Ele trazia o relato da cerimônia de bênção das instalações do GLOBO, no prédio da Rua Bettencourt da Silva 26 (endereço onde hoje está o edifício da Caixa Econômica Federal), no Centro. ‘Não quiz O GLOBO, preparadas embora as suas machinas, concluídas todas as suas installações, e trepidantes de impaciência todas as suas pennas, que se imprimisse e circulasse a sua primeira edição, sem que antes as bênçãos da religião da religião viessem sagrar todos os seus dynamos, banhar de seus celestiais influxos todos os elementos da matéria e da intelligencia’, informava (com o português usado na época) o boletim.

A reportagem também contava como surgiu o jornal dirigido por Irineu Marinho e explicou o processo de escolha do nome da nova folha vespertina carioca. ‘(…) procuramos entrar em contacto com o público, valendo-nos da occasião mais significativa, qual seria a da escolha do próprio título, visto que não nos serviria nenhum nome que não viesse prestigiado de inequívoca preferência do povo’, explicava o boletim.

Logo adiante, ressaltava a importância do apoio que recebeu dos futuros concorrentes: ‘(…) abrimos um concurso por intermédios dos nossos presados collegas, matutinos e vespertinos, e concurso este que, malgrado a exiguidade do prazo que fomos forçados a fixar, teve um êxito retumbante e consagrou afinal o título do jornal a sahir’. O boletim gratuito também informava que a primeira iniciativa do GLOBO na área cultural foi anterior ao primeiro número: um concerto ‘transmittido graças à gentileza das beneméritas associações Rádio-Sociedade e Rádio-Club’.’

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