Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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ENTRE ASPAS > TODA MÍDIA

Nelson de Sá

12/07/2005 na edição 337

‘Nos dois canais de notícias, rádios e sites, o domingo foi de Tarso Genro, o gaúcho que é a nova cara do Partido dos Trabalhadores.


Ele prometeu maior controle das finanças, a investigação das denúncias etc. Mas sobretudo fez um esforço de ‘humildade’. Dele, nos canais:


– Nós sabemos que é um abalo no prestígio do partido. Nós vamos recolher a lição com muita humildade e reconstruir nosso perfil político.


O novo perfil do PT, segundo o novo presidente:


– Um partido entre outros, não é somente o Partido dos Trabalhadores… um partido que entre outros quer ser referencial da ética pública e política no nosso país.


Está aí, o PT é só mais um.


Mas é cedo para proclamar a refundação e começar assim a ‘reconstruir a imagem’, na manchete da Folha Online para o plano de Genro.


Outra imagem, a da ‘cueca’, que foi insistentemente usada nas manchetes das Globos todas desde sábado, permanece no ar, como piada.


Eduardo Suplicy, que estava ‘de bom humor’ após as trocas do fim de semana, ‘gargalhou’ na Jovem Pan ao questionarem se trazia dólares na cueca, ele que foi à Argentina.


E no ‘Pânico na TV’ de ontem o suspense recorrente, durante todo o programa, foi:


– A gente consegue colocar US$ 100 mil [de uma mala] na cueca da Sabrina?


No fim do programa, sim, eles conseguiram.


Chamado de ‘um símbolo’ petista, José Genoino deixou a direção da legenda saudado no sábado por uma escalada de manchetes demolidoras no ‘Jornal Nacional’:


– Cai o presidente do Partido dos Trabalhadores. Depois das acusações de envolvimento no ‘mensalão’ e de financiamento ilegal de campanha; depois dos empréstimos ao PT assinados por ele e o empresário Marcos Valério; depois de ver o assessor do irmão preso com dinheiro, Genoino se afasta… E o homem preso com US$ 100 mil na cueca é demitido pelo PT.


E a coisa continuou ontem, na escalada do ‘Fantástico’:


– Escândalo! O homem que carregava os dólares na cueca apagou a memória do celular, logo depois de ser preso.


O FUTURO


Na cobertura ainda pontual no exterior, tanto ‘Washington Post’ como ‘New York Times’ deram breves registros sobre a queda da direção petista. Já o espanhol ‘El País’ manteve os despachos quase diários.


E a novidade foi o ‘Wall Street Journal’, com longa e preocupada reportagem na sexta, em sua pág. A5. O inquérito, segundo o enunciado, ‘se espalha e põe em perigo a agenda de Da Silva -e o seu futuro’. Entende-se a preocupação:


– Mr. da Silva é visto por Wall Street e Washington como um pragmático que se esforça em combinar rigor macroeconômico com justiça social.


O site do ‘Financial Times’, de sua parte, anunciou que a semana é de lançamento do plano de Lula para reorganizar gastos, ‘em uma tentativa desesperada de deslocar a atenção dos escândalos’.


Divisão


A eleição do novo presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento, BID, chega à sua fase final, anunciou ontem o ‘Financial Times’.


E desta vez um embaixador colombiano apoiado pelos EUA deve levar, não o brasileiro João Sayad, pois Argentina e Brasil, ao contrário do que aconteceu anteriormente na eleição da OEA, se dividiram.


Azedume


O ‘Miami Herald’ voltou a dar destaque à ‘corajosa’ política externa de Lula, que ‘elevou o perfil do Brasil’, mas também outros resultados:


– Ele está transformando o país num pólo de poder, mas as relações do Brasil com vizinhos azedaram.


Em especial, apontou também o jornal, com a Argentina de Néstor Kirchner.


UM PREÇO ALTO


O ‘New York Times’, o site Editor & Publisher e blogs americanos noticiaram com alarme, no fim de semana, que o jornal ‘The Plain Dealer’, de Cleveland, desistiu de publicar duas reportagens de denúncia, baseadas em fontes de governo, após a prisão da repórter Judith Miller por não identificar suas fontes. No momento, a repórter do ‘NYT’ dorme no chão da cela.


Do editor do ‘Plain Dealer’, em texto no jornal:


– Cadeia é um preço muito alto para pagar.’




TERROR EM LONDRES
José Paulo Lanyi


‘Um relato de Londres’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 7/7/05


‘As más notícias literalmente explodem quando eu estou dormindo. Foi assim no dia 11 de setembro. Eu tinha acabado de acordar (sim, tarde, como quase sempre) quando o Serginho Carvalho Filho, meu parceiro de teatro, me ligou:


– Jogaram dois aviões contra o World Trade Center, outro caiu no Pentágono.


– Serginho, não me encha o saco – respondi, dando risada.


Claro, não lhe dei crédito, a gente vivia fazendo textos imaginários do 007. Hoje, oito e pouco da manhã, minha namorada me ligou para falar de amor. Bom acordar assim… Mas a desgraça veio junto, minutos depois, quando ela me contou das explosões em Londres.


Desta vez, acreditei…


Não tinha amigo em Nova York, mas tenho na Inglaterra. Logo pensei na Tônia. Nós trabalháramos juntos, anos atrás. Às vezes, no meu rodízio, ela me dava carona no fusquinha dela. Morávamos perto um do outro, lá no Brooklin. Sensacional, aquele fusquinha azul! Mítico…


Tônia Azevedo se formou na Cásper, em Jornalismo, e fez locução no Senac. Na Rádio Gazeta AM, foi editora e produtora na área esportiva; na Globo AM, produtora-executiva, também em Esportes. Foi, ainda, repórter e produtora da Rádio 2 e assessora de imprensa do São Paulo e da Portuguesa de Desportos, a Lusa, entre outras missões.


Levantei e fui para o computador. Felizmente, ela já havia tranqüilizado os amigos. Em meio a tanta estupidez, uma boa notícia: a minha amiga estava inteira.


Pedi-lhe um relato. Ei-lo:


‘A gente nem lembrava mais que isso podia acontecer. Por um tempo, depois do atentado ao World Trade Center, ou ‘nine-eleven’, como sai no noticiário em inglês, todo mundo que eu conheço aqui em Londres tentou evitar usar ônibus, metrô e trens ao máximo, mas no dia-a-dia isso se torna impossível: escola, trabalho, responsabilidades, tudo exige que você se locomova e, numa cidade desse tamanho, poucas pessoas podem se dar ao luxo de não precisar de algum meio de transporte público.


Hoje eu estava na escola, eram dez horas da manhã. Antes de sair de casa, enquanto tomava café e me vestia, eu tinha assistido ao noticiário matutino da BBC, como faço todo dia. Até as 9h30, ninguém tinha falado nada. Foi no meio da minha aula de computação que a amiga de outra aluna brasileira ligou e deu a notícia. Deixei a escola a pé e voltei para casa (umas oito quadras), peguei a bicicleta e vim trabalhar. Cheguei sem fôlego porque estou (como sempre) fora de forma, mas nada de pegar ônibus hoje…


Jornalista no Brasil, em Londres trabalho como recepcionista numa universidade, chamada Imperial College, em South Kensington, considerada Região 1, já no centro da cidade, mas longe da área das explosões. Os prédios do College foram fechados, a segurança entrou em alerta, a rua ao lado (Exhibition Road, bem perto do Hyde Park) também foi fechada. Houve rumores de bombas em estações de metrô que não teriam sido noticiadas, mas nada foi confirmado. Uma colega colombiana, Carolina, não conseguiu chegar porque toda a rede de metrô foi paralisada e os ônibus que cruzam o centro de Londres, impedidos de circular na região.


Outra amiga brasileira, Adriana, socióloga formada pela USP, estava limpando uma casa em High Street Kensington quando a dona da casa voltou, coberta de fuligem: ela estava em Edgware Road, estava exatamente no trem onde explodiu uma das bombas, uns quatro vagões para trás daquele onde ocorreu a explosão. Ela não se feriu, mas chegou em casa bem abalada. Porém, descrevendo para a Adriana o que tinha acontecido, ressaltou que incrivelmente não houve pânico: os ingleses, treinados durante anos pelos atentados cometidos pelo IRA, sabem como se comportar em caso de terrorismo…


Tentei ligar para a maioria dos amigos e conhecidos mas, apesar dos problemas para usar o sistema de telefonia celular, totalmente sobrecarregado, felizmente parece que nenhum deles esteve naquela região da cidade. Minha preocupação imediata foi com um casal de amigos do Brasil, João e Alessandra Fonseca, ele de Belo Horizonte, ela de Barueri-SP, que trabalham como cobradores naqueles ônibus antigos que são um dos símbolos de Londres, chamados ‘routemasters’. Eles trabalham em linhas que cruzam o centro de Londres mas, felizmente, não chegam até a região onde houve a maioria das explosões. Depois de muita unha roída, consegui falar com a Alessandra. Ela disse que estava perto do Hyde Park quando a garagem chamou todos os ônibus pelo rádio, mandando parar, evacuar os passageiros onde estivessem e voltar. O João também está bem, graças a Deus.


Quanto aos outros amigos, os que ainda não contatei, o jeito é esperar: as empresas de telefonia celular estão com excesso de chamadas e o sinal cai com freqüência. Mas, como diz a sabedoria popular, ‘notícia ruim chega cedo’. Então, como ainda não recebi nenhuma, tenho mais que agradecer. Katia e Luis Fonseca, Peter e Rose Kalytta, Adriana Morais, Ricardo Ramos, Nilton Mattos e Roberta, Luciana Yuri, Bianca e Kamil, Andressa, Renata, Benedito, Cristina, Dayhan, Drica, Nalu Chaves e Paulo, Leandra, Marcia, Paula, Severina e Fábio, Valéria e Tony, Victor, Ximena, tantos outros…


Tantos amigos feitos nesses quatro anos de Londres, dos quais a maior parte só sei o primeiro nome, porque não se precisa de sobrenomes nessa vida de imigrante… Com alguns já falei, com outros ainda não, mas o pensamento está Lá em Cima para que estejam todos bem.


O clima durante o dia foi de expectativa, todo mundo com o ouvido colado no rádio, o olho na TV. Eu, que estava trabalhando, dependia das atualizações das páginas da BBC na Internet para saber as últimas notícias. A sensação é aquela de ‘eu sabia…’, mas que estava quase esquecida, afinal são quase quatro anos e, ao contrário de Nova York e Madri, ‘hoje não é dia 11’. Porém, com o encontro do G8 na Escócia, a Scotland Yard, o MI5, o policiamento todo foi para Gleneagles, Londres foi deixada desguarnecida e, logicamente, os terroristas sabiam disso.


Como aconteceu depois dos ataques nos Estados Unidos, as TVs abertas mantiveram o noticiário direto sobre os eventos no ar sem interrupção desde cedo. Correspondentes na Escócia mostraram a reação dos membros do G8, enquanto outros, em Singapura para acompanhar a escolha de Londres como sede olímpica, colocaram o prefeito Ken Livingstone para falar. Rádios FM interrompiam a programação a cada dez minutos com atualizações. Mas fica aquela impressão de que ‘não estamos sabendo de tudo’ e que, talvez, vocês aí no Brasil acabem mais bem informados do que nós…’’




A HORA DOS BLOGS
Cora Rónai


‘Terrorismo e tecnologia’, copyright O Globo, 11/7/05


‘Quando o World Trade Center veio abaixo há quatro anos, os blogs, que até então eram conhecidos por meia dúzia de pessoas e, ainda por cima, tinham pecha de diários de adolescente, vieram para a luz da ribalta. O atentado permitiu ao grande público descobrir o extraordinário poder de comunicação da ferramenta singela mas versátil; e, de lá para cá, a blogosfera nunca mais foi a mesma. Centenas de milhões de adolescentes continuam a fazer blogs, mas hoje também é através deles que circulam as notícias mais quentes. Os principais jornais do mundo os adotaram, e já há até jornalistas independentes conseguindo sobreviver graças a blogs que mantém sozinhos, o que é uma reviravolta extraordinária no mundo das comunicações — onde, até outro dia, a informação era produto exclusivo de grandes empresas.


Em linhas semelhantes, o atentado de Londres acaba de consolidar uma outra tecnologia: a das câmeras e filmadoras de telefones celulares, com todos os seus defeitos e sua falta de definição. As imagens captadas pelos usuários que viveram a tragédia não têm o foco, a resolução e o enquadramento que teriam sido obtidos com equipamentos profissionais, mas têm a emoção da hora, e nos mostram o que, de outra forma, não poderíamos ver. Elas não são imagens estéticamente perfeitas — sim, há imagens de horror perfeitas esteticamente — mas são informação em estado bruto. A tal ponto que muitas ganharam as primeiras páginas dos jornais no dia seguinte, e vários minutos filmados em celulares foram exibidos por emissoras do mundo inteiro, a começar pela BBC.’




Marcelo Tas


‘Repórteres de si mesmos’, copyright O Estado de S. Paulo, 11/7/05


‘Três anos, 9 meses e 26 dias: foi o intervalo entre os aviões-bomba despencando sobre os Estados Unidos, em 2001 e as explosões em Londres na semana passada. Em ambas ocasiões, os terroristas escolheram um dia bonito e ensolarado. Com todo mundo na rua, a caminho do trabalho.


As semelhanças acabam aí. Em Nova York, a tragédia ganhou um design cruel e espetacular. Assistimos impassíveis a um filme de efeitos especiais hollywoodiano. Só que transmitido ao vivo, em tempo real, pela televisão.


Em Londres, ao contrário, a informação não estava na tela da TV. Os fatos chegavam a conta-gotas. Ironicamente, ao vivo na CNN, a veterana repórter Christiane Amanpour, famosa pelas coberturas de guerras nos lugares mais inóspitos do mundo, não conseguia nos trazer nada do que acontecia ali na porta da sua casa, no centro da capital da Inglaterra.


De repente, um turbilhão de imagens, histórias e a indignação dos cidadãos explodiu na internet. Através dos blogs e celulares das próprias vítimas, que se transformaram em câmeras e repórteres da tragédia.


Menos de duas horas após a primeira explosão, havia mais de 1.300 novos textos sobre os atentados espalhados pela rede. A contagem é do buscador Technorati, especializado em blogs, que também registrava: entre os 10 assuntos mais procurados, 8 eram relacionados às bombas em Londres.


Nada contra a TV (logo eu!), mas enquanto repórteres ajeitavam as gravatas e escolhiam onde colocar a câmera; os blogs e portais já traziam imagens e histórias acachapantes dos fatos.


Muitos da janela do escritório, viraram repórteres fotográficos com visão privilegiada das ruas esvaziadas pela polícia. Os moblogs, blogs específicos para fotos de celular (moblog.co.uk), cresciam exponencialmente com o passar das horas.


Aliás, por conta do excesso de uso, a rede de celulares em Londres abriu o bico. Fato que transformou muitos blogs em relatos entusiasmados, emocionantes e até divertidos de gente dando sinal de vida, para amigos e parentes distantes.


Apesar de conhecer bem – e admirar – o tal humor inglês, fui surpreendido com a ousadia de alguns depoimentos. Justificavam a tranqüilidade elegante por conta do longo histórico de guerras, atentados e invasões ao longo dos séculos. É, pode ser. Mas não é surreal, pouco tempo depois das explosões, já ter gente capaz de fazer a seguinte piada: ‘Aqui está tudo bem, o problema é que esses franceses são uns maus perdedores!’? Uma insinuação (brincadeira, é claro) de que os tradicionais rivais, preteridos na disputa para sediar as Olimpíadas, eram os culpados pelas explosões. Como já é tradição, os jornais ingleses e a BBC deram destaque especial para os blogs. Alguns, como o Pfff (www.pfff.co. uk/weblog), foram parar na capa da edição eletrônica do The Guardian (blogs.guardian.co. uk). Tal a precisão e a emoção do relato dele como passageiro de um vagão descarrilado do metrô antes da batida final. O texto tinha título sugestivo: Sobrevivendo a um ataque terrorista.


Outro destaque da cobertura de anônimos foi o Wikinews (pt. wikinews.org). O portal, em dezenas de línguas inclusive o português, é o braço de notícias da Wikipedia, a enciclopédia online comentada aqui na semana passada.


A BBC criou uma área especial no seu site de notícias para armazenar imagens de celular (news.bbc.co.uk). Muitos desses vídeos impressionantes foram parar na matéria principal do telejornal da noite! Será que isso tudo é aquilo que ouvimos há anos: a fusão das mídias? Chegou a vez de o cidadão contar a sua própria história? Atenção crianças: preparem seus blogs, câmeras e celulares.’

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