Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 31/12/05 E 1/01/06

O Estado de S. Paulo

03/01/2006 na edição 362



CRISE POLÍTICA
Maria Sylvia Carvalho Franco

O que disseram as metáforas de Lula

‘No aranzel de Lula, a pletora de metáforas mal amanhadas suscita a lembrança de alguns parâmetros desse tropo cujos avatares se perdem nos tempos e cuja teorização se reporta, no Ocidente, pelo menos a Aristóteles. No registro cultural elevado, a metáfora não é inócua – apenas adorno -, mobilizando poderosa força moral, cognoscitiva, política e estética.

A imagem ilumina os nexos internos entre lógica e retórica, representação e conceito, estilo e sentido. A evidência de que a linguagem metafórica precede o ato conceitual, estando em sua origem (P.A. Cahné, Un autre Descartes), coadunase à tese de que o apuro da forma se projeta na constituição da própria matéria literária. ‘Enaltecer os olhos de cristal ou os lábios de cereja em uma jovem são coisas trita et obvia; é preciso descobrir alguma ‘causa sobrenatural’, por onde a pena possa ‘avançar em grau superlativo’. ‘Cause’, nota R. Tuve (Elizabethan and Metaphysical Imagery) é um termo elizabetano difícil, ‘combinando os sentidos de ‘assunto poético’ e ‘intenção do poeta’’. O sentido de ‘sobrenatural’ é determinado pelo seu oposto, o ‘gasto e óbvio’: conota o que difere e está acima do comum, nada implica de misterioso.

Se a beleza formal é intrínseca ao estofo da escrita e da fala, o uso do discurso figurativo não é fortuito, exigindo comedimento e propriedade. Em excesso turva seu objeto, fora de foco torna-se absurdo. Daí ser canônico o discreto uso da imagem e sua adequação contextual, como o pintor que domina a boa disposição de cores e sombras e as distribui com variedade, ‘conforme toda medida e justa proporção’, nos lugares certos. (G. Puttenham, The Arte of English Poesie).

O apuro estilístico aponta para outra norma, também recolhida na retórica antiga: a enárgeia, claridade reveladora de ordem e harmonia. Delicados pormenores visuais tecem a imagem literária, cujos significados se animam nessa trama: no viço exterior manifestase uma vivacidade essencial (G.P. Norton, The Ideology and language of Translation). O elogio da lucidez estilística é a um só tempo apreço ao rigor lógico e à acuidade poética. Os nexos entre eloqüência e sabedoria, assim concebidos, fundam o decorum, diretriz incompatível com a separação de forma e sentido, princípio regulador da imagem conforme estrito ajustamento aos alvos do autor (Tuve, R. Elizabethan?) Essas referências bastam para deslindar a fala do presidente. Suas metáforas são destemperadas, intempestivas e profusas, infensas aos temas de governo. Tal desordem ‘conspira contra o sentido quando existe algum ou esconde os defeitos quando nada há a expor’ (Campbell, G., The Philosophy of Rhetoric). Saltam aos olhos as coisas ‘gastas e óbvias’ que nutrem seu imaginário, sobressaindo a família e o futebol. Face a seu estilo (verborragia atropelando a gramática), poderíamos apenas lamentar que, no governante promissor (o operário que chegou a presidente), a miséria da língua remeta à indigência do pensamento. No entanto, as imagens que mobiliza estão entre as mais complexas da história política – o pai e o jogo – e não é permitido deixá-las passar incólumes.

Lula banaliza o valor social do pater familias: evoca as virtudes férteis e contábeis de Mariza, as brigas de marido e mulher, identifica o espaço doméstico ao sindical, a gestação ao tempo de governo. ‘Emprenhar a galega’, súbito (‘pernambucano não deixa por menos’), e aturar a gravidez são a jóia de suas analogias, justo na medida de seu engenho obtuso e sensibilidade grosseira.

Sem peso ético ou político, sua narrativa cai no vazio. Se boa parte de seus eleitores contou-se entre os ilustrados ávidos de mudanças, nenhuma cumplicidade os prende a tal personagem de fala inócua, que radicaliza para pior e mergulha no escândalo. Com os desvalidos, reina a mentira em causa própria: o mundo fabulado é o melhor possível, a cadeia real de misérias é silenciada. Impossível a confiança, resta a demagogia, no máximo, a caridade. O vazio reflexivo tolhe o circuito de emissão e recepção: a palavra, débil, não atinge as almas.

Mesmo nesse deserto retórico e político, graves implicações práticas entranham-se no vulto paterno, operando na invisibilidade. A história recente dessa imagem evidencia seus resultados. François Duvalier foi Papa Doc, substituído pelo filho, Baby Doc. Evita (apelido íntimo, usado pelos ‘descamisados’ por escolha sua) foi idolatrada: ‘Quando um pibe me chama ‘Evita’ me sinto ‘mãe de todos os pibes’ (…) Quando um trabalhador me chama ‘Evita’ me sinto (…) companheira de todos os homens’ (E. Perón, La Razón de Mi Vida). Eyadéma e Bokassa, ditadores do Togo e do Congo, foram ‘Père de la Nation’. Não custa lembrar Stalin, pai dos pobres, e Getúlio Vargas, pai dos trabalhadores.

A lista, incompleta, é sinistra.

Essa crônica de terror subjaz a uma estrutura semântica e política gigantesca na história moderna. Mesmo na fímbria das Revoluções Inglesa e Francesa que precipitaram a racionalidade burguesa impessoal e burocrática, ressurge a fantástica figura do déspota sustentado pela empatia entre o poderoso e o dominado, na espectral comunhão afetiva em que um ordena e o outro aceita, de bom grado, o mando.

Num só golpe, James I divinizou e laicizou o poder absoluto, articulando o fundamento transcendente – ‘os Reis são como Deuses’- ao secular – ‘Os Reis são como pais de família (…) verdadeiramente Parens patriae, o pai político de seu povo’. (On the Divine Right of Kings) A trindade Deus-ReiPai tem o mesmo atributo e direito ilimitado.

Contra a liberdade e igualdade naturais do homem, pressupostos na ordem burguesa, levanta-se R. Filmer, o paladino do patriarcalismo. ‘Os primeiros reis foram pais de família.’ Com o tempo, a cadeia patriarcal converteu-se na hereditariedade monárquica, que recolhe o apanágio de Pater Patriae,o direito naturalmente exercido pelos ancestrais. Pais e reis identificam-se: um se ajusta aos limites familiares e o outro, ‘como pai de muitas famílias, cuida de preservá-las, alimentálas, vesti-las, instruí-las e defendê-las’. ‘Há e sempre continuará até o fim do mundo o direito natural de um pai supremo sobre a multidão.’ (Patriarcha or the Natural Power of Kings) Essa enorme transferência de posições e atributos (do Céu à Terra, de Deus ao rei e ao pai), audaciosa conversão do secular em sagrado e do divino em terreno, aprestou o absolutismo no Estado moderno, com a ruína dos poderes tensamente compartilhados com a nobreza e o clero. A despeito da crítica laica e revolucionária, esse fantasma percorreu os séculos, ressurgindo, na reação romântica, com a alegoria da família real, em que o soberano é sobretudo cônjuge: desaparece a ‘cama do rei’; só existe o simbólico ‘leito do marido da rainha’ (De Maistre, cit. por Sainte-Beuve, Portraits Littéraires).

Lula é um recorte, em modelo três por quatro do vasto cenário político que descortina as bases das doutrinas patriarcalistas e ditatoriais. Embora menor na cena histórica, sua pretensão desmedida anuncia um perfil tirânico consubstanciado no programa de apropriação partidária do poder. Nos processos contra os ‘companheiros’, Lula ficou alheio às acusações letais que os atingiu e fez-se de ingênuo enganado, salvando-se enquanto outros se danaram. O salário desse egoísmo é a solidão, marca do tirano, mas ainda aí, nesse triste topos, é difícil atribuir-lhe grandeza.

A própria máscara da santidade distraída encolhe seu porte: o gesto soez inconsciente é o pior vício. É complicado alcançar as almas perversas; um dos caminhos possíveis é a velha arte de conhecer o menor, examinando-o no maior. Notan do os desmandos de Lula e sua gente, lembrei-me (em que pese a vertiginosa distância que os separa) de um interessante dedo de prosa a propósito de Ricardo III.

Sua imagem no século 16 (seja ou não propaganda Tudor) é a do monstro, figura secularmente associada ao poder autocrático. Shakespeare rastreia, em Ricardo III, o medo político ingente na época, o golpe de Estado e seu par, o tirano, recriando-o como lancinante ato de reflexão. No final da terceira parte de Henrique VI, o futuro rei evoca seu parto prodigioso e agressivo – nasce de pernas para diante, com dentes crescidos, índole animalesca. O corpo disforme remete, numa explosão de autoconhecimento, à deliberada fealdade da alma. Evocações antigas ressoam nessa montagem, mas sua teia apanha facetas da interioridade moderna, a dolorosa consciência de si e do mundo adverso. ‘Que esta palavra amor, que os velhos chamam divino,/Resida em homens semelhantes um ao outro,/Mas não em mim: sou meu próprio eu, sozinho’.

Esta expressão máxima de lirismo – I am myself alone -osi- tua nos antípodas da atividade unificadora, seu elemento é o ódio . O tema prossegue no início de Ricardo III. No príncipe, o corpo desnaturado e a alma luciferina conjugam-se nos malefícios da vontade: morte, ressentimento, perfídia, astúcia, hipocrisia, ambição, tecem as suas peripécias. Paranatural e intempestivo, nas tréguas do estado de guerra, Ricardo isolase: nenhum prazer lhe resta senão ver a própria sombra ao sol e cantar a própria deformidade. O retrato do tirano expõe um ser essencialmente solitário, atrozmente reflexivo. A visão de si mediada pelo ‘espelho amoroso’, que lhe devolveria a imagem da afeição benevolente e da vontade conciliadora, é-lhe impossível. Ricardo, paranatural e intempestivo, num processo de autoconhecimento e autodeterminação, como um ato de livre-arbítrio, vai constituindo o perfil do tirano.

Esse paradigma sublime da individualidade sem lei nem grei pode funcionar como referência ideal para captar o princípio do mau governo, o egoísmo. Atualizá-lo no concreto, aqui e agora, implica apagar seu lado belo, conservando o terrível. Esteja Lula à deriva, levado pelo movimento das coisas, como faz constar, ou de fato controle as vicissitudes ‘com mão de ferro’, boa coisa não virá, se mantido o poder do pequeno tirano autoproclamado pai.

Se a usurpação de títulos não condiz com nenhum estado de direito, a usurpação do papel despótico pelo presidente anuncia dias aziagos para a triste República brasileira.

* Maria Sylvia Carvalho Franco é professora titular do Departamento de Filosofia da USP e da Unicamp’



GRAMPOS NOS EUA
Dorrit Harazim

George W. Bush, o Grande Irmão

‘Foi um despertar com sobressalto, às vésperas do Natal. Após um sono comatoso e induzido que durou quatro anos, os Estados Unidos acordaram com uma gangrena infiltrada nos alicerces da nação. ‘Poucos meses após os ataques do 11 de setembro de 2001’, revelava reportagem do

New York Times , ‘o presidente Bush autorizou secretamente a Agência de Segurança Nacional (NSA, da sigla em inglês) a espionar cidadãos americanos e outros em território dos Estados Unidos (…) sem o mandado judicial normalmente exigido para espionagem doméstica…’ Para o americano médio, acabava ali o sono confortável que permitiu a George Bush investir-se de autoridade acima da lei. ‘Somos uma nação de leis, não de homens’, rugiu o decano democrata Robert Byrd, do alto de seus oito mandatos no Senado dos Estados Unidos. ‘O presidente alega ter recebido plenos poderes através da resolução que o autorizou a declarar guerra aos perpetradores dos atentados do 11 de setembro. Mas essa resolução não lhe permite espionar nossa gente. Essa resolução não autoriza o governo a criar prisões clandestinas para prisioneiros secretos (…) nem autoriza a tortura de prisioneiros para a obtenção de informações. Também não autoriza administrar cativeiros em outros países para burlar a lei americana. Essa resolução não dá ao presidente poderes reservados a reis e potentados.’ Foi preciso que os americanos acordassem com seus telefonemas, e-mails, correspondência, conversas, encontros, vida privada e liberdades civis potencialmente violados para compreender o tamanho do perigo que ronda a própria casa. ‘O presidente proclama a recente eleição no Iraque como um marco na história da liberdade. Ouso dizer que é no nosso país que estamos perto de um marco. Jamais as liberdades que tanto prezamos pareceram tão ameaçadas.’ Culpa, em parte, do próprio Congresso dos Estados Unidos, que abdicou de sua responsabilidade constitucional no governo Bush, permitindo que o cancro se instalasse. Oportunidades não lhe faltaram. Em outubro de 2002 – antes, portanto, do ataque e invasão do Iraque -, o general Michael Hayden, chefe da Agência de Segurança Nacional, apresentou-se perante os membros da Comissão Mista de Inteligência e recomendou um amplo debate nacional sobre os rumos do país depois dos atentados. Caso se quisesse alterar a lei que impedia sua agência de espionar americanos, alertou, seria bom que fossem tomados todos os cuidados. ‘Preciso que os senhores falem com seus eleitores para sabermos onde devemos traçar a linha demarcatória entre nossa segurança e nossas liberdades civis. Devemos fazer a coisa certa, encontrar o ponto de equilíbrio certo.’ Na época, nem o Congresso, nem a imprensa, nem o Judiciário, nem a opinião pública fizeram o dever de casa, ampliando a brecha na qual navegaria a Presidência Bush. Dois anos mais tarde os porões de Abu Ghraib revelariam ao mundo que o ponto de equilíbrio entre segurança e liberdade havia gangrenado. As cenas de bestialidade e certeza de impunidade dos soldados americanos, reveladas pela internet, chocaram a América, mas não o bastante para transformar indignação em ação. Nem em investigação parlamentar. Entrevistada pelo jornalista Joseph Lelyveld sobre a cobrança do eleitor diante das denúncias de tortura, a senadora Susan Collins foi franca: ‘Acho que o eleitor prefere respostas vagas à verdade’, respondeu Collins no artigo intitulado ‘Interrogating ourselves’ (Interrogando a nós mesmos), publicado na New York Review of Books.

Foi somente em junho de 2005 que uma Comissão Mista do Congresso se debruçou sobre as condições dos suspeitos que a guerra antiterror mantinha (e mantém) aprisionados há anos na base de Guantánamo, sem julgamento. Até então, o Poder Legislativo dos EUA se contentara com as migalhas de informações (falsas) divulgadas pelo governo Bush. ‘Nenhum centro de detenção na história das guerras tem sido mais transparente do que Guantánamo’, chegou a afirmar o secretário da Defesa Donald Rumsfeld, sem corar. Ao mesmo tempo, dados elementares como o número de prisioneiros ali encarcerados, e suas nacionalidades, permanecem segredo de Estado. Coube ao advogado militar Charles Swift, designado para representar um dos prisioneiros no tribunal de fachada montado pelas autoridades, honrar seu uniforme. ‘Um julgamento reflete tanto a sociedade na qual é realizado quanto o indivíduo que está sendo julgado. Os julgamentos realizados nos Estados Unidos refletem quem somos’, declarou, ao revelar que fora instruído a arrancar uma admissão de culpa de seu cliente.

A falta de cobrança do Congresso americano, o conformismo da opinião pública e a docilidade inicial da grande imprensa dos EUA no período crítico e emocional que se seguiu ao 11 de setembro foram um convite à expansão do poder presidencial. E à inseminação da gangrena. George W. Bush estava à altura da oportunidade. O vice Dick Cheney, ardente defensor de um Poder Executivo absoluto, preparou-lhe a escada para subir acima da lei. ‘O mundo em que vivemos hoje exige uma autoridade executiva forte e robusta’, afirma Cheney com convicção. Nos anos 70 integrou o governo Richard Nixon, único ocupante da Casa Branca a ser defenestrado do cargo por abuso de poder. O homem forte do governo Bush tira do episódio uma conclusão singular: ‘O caso Watergate e a Guerra do Vietnã minaram o poder de que um presidente necessita para atuar com eficácia na área de segurança nacional’.

O arcabouço jurídico para vitaminar a Presidência foi montado alguns escalões abaixo de Cheney. Em memorando redigido dez dias após o 11 de setembro, John Yoo, então vice-diretor do Departamento de Assessoria Jurídica do Ministério da Justiça, estabeleceu que o comandante-em-chefe da nação tinha autoridade para grampear cidadãos sem pedir autorização ao tribunal secreto criado para esse fim em 1978. ‘Talvez o governo venha a adotar medidas que em tempos menos conturbados poderiam ser vistas como violações das liberdades individuais’, dizia o texto. Quatro dias mais tarde, novo memorando, tendo por alvo o Poder Legislativo. ‘Segundo nossa Constituição’, ensinava o texto, ‘decisões referentes a ameaças terroristas são da alçada exclusiva do presidente.’ Não cabia ao Congresso ‘limitar as determinações do presidente quanto ao tamanho, método ou natureza da força a ser usada como resposta’.

Paralelamente, construiuse um vocabulário de guerra deliberadamente esterilizado. Espionagem sem autorização virou ‘programa de coleta especial’. Prisioneiro de guerra virou ‘combatente inimigo forada-lei’. A palavra tortura, de compreensão universal e até então associada a regimes ditatoriais ou Estados policiais, foi substituída por ‘tratamento cruel, desumano e degradante’. Ou, preferencialmente, apenas CID. Quanto mais curto e impenetrável, melhor. Joseph Lelyveld revela variantes: HID (para ‘interrogatórios altamente coercitivos’, em inglês), ‘estratégias de contra-insurreição’, divididas em Classe II e Classe III, ‘técnicas de interrogatório profissional’.

Só que mudanças no léxico não alteram o produto. E como lembra o escritor russo Vladimir Bukovsky, excetuando-se a peste, a tortura é o mais antigo flagelo do nosso planeta. ‘Já vi o que acontece com uma sociedade que se encanta com tais métodos na busca por maior segurança’, alertou em artigo recente o dissidente que passou 12 anos confinado em gulags do regime soviético. ‘E sei que, se o vice-presidente Cheney está certo e algum tratamento ‘cruel, desumano ou degradante’ de prisioneiros é ferramenta necessária para a vitória na guerra contra o terrorismo, então a guerra já está perdida. Lá vamos nós de volta às cavernas’, conclui.

Foi em 1776 que o inglês Tom Paine saudou a independência dos Estados Unidos e o nascimento da democracia com um panfleto inflamado. ‘Na América, a lei é Rei’, escreveu. ‘Assim como em governos absolutistas o Rei é a lei, em países livres a lei deve reinar, sozinha.’ Passaram-se 229 anos e 42 presidentes. George W. Bush, o 43º ocupante do cargo, parece convencido da necessidade de testar esses limites.

Poucas horas depois de ter aprovado, a contragosto, o projeto de lei do senador John McCain proibindo a prática da tortura ou ‘tratamento CID’ em prisioneiros dos Estados Unidos, Alberto Gonzales, o ministro da Justiça escolhido a dedo por Bush, esclarecia que cabe ao Poder Executivo definir o que é tortura. Ponto.

Duas semanas atrás, o mesmo americano que dormia tranqüilo enquanto a máquina antiterror atuava em porões longínquos acordou com a notícia de poder estar sendo grampeado e espionado em nome da segurança nacional. Não gostou. Subitamente, guerra, tortura e violação dos direitos individuais se revelaram como ramificações da mesma gangrena.

Quando um governo abre brechas na legalidade passa a valer um ditado que George Bush, como todo ex-alcoólatra, conhece de perto: uma só dose já é demais e mil doses nunca são o suficiente. Desde a revelação da vasta teia de vigilância interna montada pela NSA, inúmeros episódios picarescos, não fossem também alarmantes, vieram à tona. Numa noite de agosto passado, por exemplo, um helicóptero militar de US$ 9,8 milhões e equipamento ótico de última geração espionava um grupo de ciclistas que circulavam pelo Lower East Side de Manhattan. De lambuja, acabou filmando quatro minutos de intimidade de um casal que namorava na cobertura de um prédio.

Cabe perguntar o que faz nos céus de Manhattan um helicóptero de espionagem de US$ 10 milhões, usado na luta antiterror, monitorando cidadãos de bicicleta. Ou como foi possível confundir uma reunião de Quakers da Flórida com um complô para derrubar o governo americano. Ou, ainda, o que dizer a um estudante da Universidade de Massachusetts que foi ‘entrevistado’ por dois agentes federais ao sair da biblioteca de sua faculdade com o Livro Vermelho de Mao Tsé-tung.

Nesse cenário, o mais inquietante é a serenidade do presidente dos EUA ao assumir a responsabilidade pela espionagem doméstica sem o aval da corte especial. Bush defendeu a medida como ‘plenamente consistente com minha autoridade e responsabilidades constitucionais’ e avisou ao país que não vai interromper programa tão vital no combate ao terrorismo.

Com três anos de atraso, o país defronta com uma questão fundamental, que permeia toda a política de guerra antiterror atual – a dos limites constitucionais do poder presidencial.

O debate promete ser feroz e dominar o ano que se inicia. Vale ser acompanhado de perto por cidadãos de qualquer nacionalidade. Como já dizia James Madison, um dos fundadores da nação americana, se homens fossem anjos nenhum governo seria necessário. E, se anjos governassem os homens, governos não precisariam ser controlados de dentro e de fora.’



FRAUDE NA SCIENCE
Mayana Zatz

Do menino Lucas ao ‘doutor’ Hwang

‘O ano de 2005 foi o das células-tronco: das conquistas científicas e políticas aos dilemas éticos. Como julgar? No ano passado participei em Roma de um congresso que lutava pela liberação das pesquisas com célulastronco embrionárias (CTE), proibidas na Itália. Um dos oradores repetia indignado: ‘Enquanto na Inglaterra os cientistas que trabalham com essas células estão concorrendo a um Prêmio Nobel, aqui na Itália eles são candidatos a 20 anos de prisão!’ O comportamento do cientista coreano dr. Woo Suk Hwang, que passou de herói nacional por suas publicações em clonagem terapêutica humana a um possível fraudador, enquadra-se na mesma pergunta: Prêmio Nobel ou cadeia? Roubar, matar ou falsificar dados científicos são comportamentos inaceitáveis por todos, mas outros valores éticos variam em diferentes culturas. Em algumas situações, emitir um juízo de valor pode ser muito difícil. Uma vez informados, cabe a cada um de nós decidir.

Por exemplo, nos Estados Unidos, o governo Bush se posicionou contra as pesquisas com CTE. Os projetos que utilizam células-tronco derivadas de embriões não podem ser financiados com verbas federais, mas permite-se que sejam realizados com outros fundos. Ou seja, aqueles que conseguirem apoio da iniciativa privada poderão fazer suas pesquisas; aqueles que dependem de verbas públicas, não.

Trata-se de um problema ético ou econômico? Para contornar essa situação, dois trabalhos foram divulgados recentemente por grupos americanos na tentativa de conciliar pesquisadores e aqueles que são contra a manipulação de embriões. Uma delas, proposta por Alexander Meissner e Rudolf Jaenisch, do Massachusetts Institute of Technology, é, na minha opinião, muito questionável. Trata-se de silenciar ou anular genes nos embriões de modo que eles não consigam se implantar no útero. Ou seja, são embriões que nunca poderiam gerar uma vida e, portanto, ninguém poderia ser acusado de estar matando-os, defendem eles. Ora, ninguém sabe se a manipulação desses genes, responsáveis pela implantação, não irá interferir em outros genes, comprometendo experimentos científicos realizados com eles. Por outro lado, os pesquisadores não poderiam ser acusados de estar criando embriões estéreis? Não estariam eles caindo no pior dos dois mundos? Isto é, desagradando aos grupos religiosos e com risco de obter resultados científicos questionáveis? Já o cientista Robert Lanza e sua equipe, da Advanced Cell Technology, publicaram uma pesquisa segundo a qual é possível desenvolver linhagens de CTE a partir de uma única célula, isto é, sem matar o embrião. Ora, não é nenhuma novidade que podemos retirar uma célula de um embrião humano sem destruí-lo. É o que se faz no diagnóstico pré-implantação (DPI), para casais com alto risco de vir a ter filhos afetados por alguma doença genética causada por uma mutação já conhecida. O casal submete-se a fertilização assistida e, quando o embrião tem entre 8 e 16 células, é possível retirar uma ou duas e verificar se a mutação está presente ou não.

Na primeira hipótese, sabe-se que o embrião irá desenvolver aquela doença, mas, se ela estiver ausente, ele está livre dela e pode ser implantado no útero. A grande novidade é desenvolver linhagens de CTE a partir de uma única célula, o que foi conseguido pelo grupo do dr. Lanza em camundongos.

Se conseguirmos implantar essa tecnologia com células humanas será sem dúvida um grande avanço. Aqueles que se opõem a pesquisas porque são contra matar embriões não teriam mais argumentos. Ou será que, para eles, essa única célula também seria considerada uma pessoa humana? Para alguns grupos religiosos o DPI também é um procedimento inaceitável. Entretanto, para famílias com alto risco de ter um filho com uma doença genética, pode ser a oportunidade de gerar uma criança normal. Ou até de salvar uma vida. Foi o caso de Lucas, um menino italiano que sofria de talassemia. A única esperança de curá-lo seria por meio de um transplante de célulastronco da medula óssea ou de cordão umbilical, mas não existiam na sua família doadores compatíveis. Os pais de Lucas resolveram então recorrer ao DPI e gerar uma criança que pudesse ser um doador de cordão para Lucas. Após a fertilização in vitro, selecionou-se um embrião compatível e este foi implantado no útero de sua mãe. Assim que o bebê nasceu, as células-tronco do sangue do seu cordão foram retiradas e transplantadas em Lucas, salvando sua vida. Ao invés de perder um filho, o casal ganhou dois. Quem teria coragem de condenar um procedimento como esse? Por outro lado, é ético selecionar embriões no caso de casais sem risco genético, somente para escolha de sexo? O dr. Hwang, a grande ‘estrela coreana’, publicou em 2005 dois trabalhos de grande impacto. Um deles foi a clonagem de um cachorro, Snuppy.

O experimento que gerou Snuppy demonstrava que, utilizando-se a técnica de transferência de núcleos, seria possível fazer qualquer tecido de um cão a partir de uma célula já diferenciada. Como o cachorro é o melhor modelo para o estudo de doenças humanas, isso abre inúmeras perspectivas de pesquisas que poderão nos beneficiar. Mas a grande publicação do ano na revista Science, demonstrando que a clonagem terapêutica é possível com células humanas, está sendo questionada. De acordo com esse trabalho, células de 11 pacientes afetados por diferentes condições tiveram seu núcleo retirado e transferido para 185 óvulos (dos quais o núcleo foi retirado), doados por 18 mulheres voluntárias. A partir daí, geraram-se 11 linhagens de CTE, isto é, com potencial de fabricar todos os tecidos desses pacientes. Foi um resultado espetacular, festejado por todos os pesquisadores da área, ávidos por aprender e dominar essa tecnologia. Mas em dezembro surge uma primeira denúncia: as voluntárias doadoras de óvulos teriam na realidade sido coagidas, ou pagas para doar os óvulos. E, logo em seguida, levantou-se uma suspeita muito mais grave: os resultados publicados na Science teriam sido falsificados. Embora ainda não se conheçam os detalhes do caso, em ciência não existe meia-verdade e o fato de o dr. Hwang ter solicitado a retirada do artigo da revista é uma confissão de culpa. E, se por um lado o modo como os óvulos foram doados pode ser eticamente questionável, a falsificação de dados científicos é um crime inaceitável.

Principalmente quando se considera a importância de tais pesquisas: elas vêm gerando uma expectativa enorme em milhares de pacientes que esperam ser por elas beneficiados.

No Brasil, a aprovação e regulamentação da Lei de Biossegurança, permitindo pesquisas com células-tronco embrionárias, foi a grande vitória de 2005. Mas, enquanto os cientistas insistem na importância das pesquisas antes de falar em tratamentos, já há quem esteja vendendo essas células como uma cura para todos os males. Recebo dezenas de pedidos todos os dias de pessoas desesperadas, implorando para ser cobaias humanas. A maioria tem doenças graves letais ou altamente incapacitantes.

Outros relatam problemas como calvície ou impotência. E, com isso, acabam surgindo os vendedores de tratamentos ‘milagrosos’, tentando aproveitar-se dos ingênuos. E não é só no Brasil. Em inglês já existe o trocadilho: stem-cell ou stemsell? (cell em inglês é célula, enquanto sell significa venda).

Finalmente, não me canso de ressaltar o papel fundamental da mídia na aprovação da Lei de Biossegurança, uma conquista que teve reconhecimento internacional. O envolvimento dos jornalistas foi muito além da informação. Eles abriram as portas para que os cientistas pudessem explicar, educar, desmistificar. E se preocuparam em mostrar aos parlamentares que aprovar a lei era a vontade do povo. Essa atuação da mídia deve continuar forte, divulgando os verdadeiros avanços científicos e alertando a população contra os vendedores de curas milagrosas. E, quando os tratamentos com células-tronco se tornarem uma realidade, todos terão orgulho de ter participado desse processo.

*Mayana Zatz é professora titular de Genética e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano, no Instituto de Biociências da USP’



CULTURA EM 2005
Mario Sergio Conti

O ano da irrelevância e da baixaria

‘Escolha a alternativa: o fato de 2 Filhos de Francisco ter sido a maior bilheteria do cinema no Brasil e elogiado pela maioria dos críticos é o sinal mais espetacular de que 2005 foi: a) um ano formidável ou b) um ano horrendo para a arte e a cultura nacionais.

Os que cravaram a primeira alternativa, os integrados, dirão que 2 Filhos de Francisco marca o triunfo de um certo tipo de filme nacional (de apelo popular e de bom acabamento), capaz de suplantar os Harry Potters e King Kongs. Capaz de mostrar, no seu enredo, que o empenho e o trabalho duro compensam. Capaz de afirmar que os valores aprendidos na infância e no meio rural são as melhores armas para sobreviver e se dar bem nas metrópoles decadentes. O filme celebra, pois, a capacidade da cultura e da arte em servir de contraponto às durezas e bandalheiras da vida brasileira real.

O filme provaria que, estruturalmente, o Brasil existe, não seria apenas uma subcolônia incapaz de ter expressão própria. O País seria complexo o bastante para contrapor determinado produto ao sistema da cinematografia de massa, que tem matriz americana. Se 2 Filhos de Francisco ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro, os integrados terão motivos de sobra para festejar a incorporação positiva do Brasil no capitalismo globalizado.

Os que escolheram a alternativa B, os apocalípticos, notarão que 2 Filhos de Francisco marca o triunfo de uma estética, de uma política e de uma concepção de mundo que podem ser resumidas numa única expressão: Rede Globo. O filme, conservador na forma e no conteúdo, não ilumina nem analisa criticamente a situação nacional. Nem sequer a reflete. Ele a comemora. O filme, afinal, adota como valor fundamental a conciliação do patriarcalismo com o sistema das celebridades (os filhos querem ser ricos, e portanto célebres) e admite a corrupção como estratégia de melhora de vida (o pai manipula um sistema de votação, no concurso promovido pela emissora de rádio, para que os filhos sejam os vencedores).

Nessa linha, o filme seria uma mercadoria cultural que celebra o que o Brasil se tornou, o País onde a ascensão social é um assunto de família, e não social, e para obtê-la vale tudo. ‘Celebrar’ é a palavra-chave. Ela pertence ao repertório tanto de quem elogia como de quem aponta a empulhação de 2 Filhos de Francisco. Como é difícil celebrar o presente nacional (falência do governo, corrupção e complacência em todo o sistema político, persistência da concentração de renda, crescimento econômico medíocre), a comemoração se volta para o passado. Trata-se de uma celebração especial e musical.

Desde os anos 30, a música popular é elemento decisivo da formação nacional. Modinha, marchinha carnavalesca, samba, bossa nova, tropicalismo, toada, rock, canção romântica ou de protesto, punk – a música de feição urbana comentou, satirizou e interpretou a história brasileira. Em 2 Filhos de Francisco ela está presente. Mas, numa vertente menor, aquela saltou direto da idiotia rural para a idiotia da indústria cultural: a música das duplas sertanejas. É a horrenda canção sertaneja que, no filme, serve de coração num país sem coração e faz às vezes de ópio do povo.

Sua mensagem é oca e rebarbativa: ‘É o amor!’ Em 2005, só uma determinada música tentou se haver com o presente, o rock Vossa Excelência, dos Titãs. Ela botava senadores, magistrados, ministros, deputados, vereadores num mesmo saco e os chamava de bandidos, corruptos, ladrões e f. da p. Em que pesem a virulência e o xingatório, o rock afundou em lago plácido, sem formar marolas. A ausência de repercussão de Vossa Excelência é índice da pasmaceira provocada pela política oficial. Os tempos não são de revolta. São de conformismo e adaptação.

Restou à música brasileira se voltar para o passado, por meio de veículos que lhe são exteriores ou servem de apêndice, como o cinema e o DVD. É o caso do documentário Vinicius, que foi visto por mais gente do que seus produtores imaginavam, foi aplaudido em boa parte de suas sessões e obteve um imenso sucesso de estima. O filme de Miguel Faria Jr. não pode, de maneira alguma, ser comparado a 2 Filhos de Francisco.

Ele não é uma mercadoria, para começar. Seu objeto, o poeta e compositor Vinicius de Moraes, é um dos grandes artistas brasileiros do século passado. E o documentário tem um razoável grau de complexidade, oferecendo uma imagem multifacetada do poeta (refiro-me, principalmente, aos depoimentos de Antonio Candido e à parte do depoimento de Chico Buarque, na qual ele se indaga como Vinicius encararia a atual quadra da vida cultural brasileira). Ainda assim, Vinicius é um filme celebratório, satisfeito consigo mesmo e com seu assunto. O Vinicius de Moraes que surge na tela é o surrado estereótipo do artista boêmio, do bêbado simpático cuja vida foi um suceder de casos engraçados. O artista é tratado como celebridade.

No documentário de Miguel Faria Jr., Chico Buarque observa que Vinicius de Morais teria dificuldades com a vida cultural brasileira contemporânea.

Ele afirma que o poeta era uma criatura livre, no sentido que não se atinha a compromissos nem planejava muito seus próximos passos. A noção de carreira lhe seria um tanto estranha. Já o que impera hoje é a noção de cálculo. Praticamente tudo, inclusive obras de arte e criações intelectuais, é feito com o intuito de atingir determinado alvo, que não é primordialmente estético. O que se quer, mesmo, é vender e enriquecer, mesmo que o artista precise, ele mesmo, se tornar uma mercadoria, uma celebridade. Esse mundo de hoje não seria o de Vinicius.

A observação tem sua razão de ser, dado o comercialismo crescente da vida artística.

Mas ela é parcial. Vinicius não viveu há mil anos. O comercialismo, na sua época, tinha já os contornos definitivos e as ambigüidades que se observam hoje. Esse comercialismo, essa máquina de moer humanidades para celebrizá-las, foi tematizada pelo próprio Chico Buarque na peça Roda Viva.

Chico Buarque também lançou em 2005 uma mercadoria bem representativa da malemolência cultural do ano. Foram nada menos que duas caixas, com seis DVDs, que, a pretexto de repassar sua obra musical, na verdade festejaram sua personalidade. Os DVDs só não são absolutamente caça-níqueis porque a obra de Chico Buarque segue de pé mesmo nos esquemas mais comerciais. E também porque, no futuro, elas servirão de testemunho para sua carreira. Mas é constrangedor acompanhar as cenas, em Paris, nas quais o compositor desfila com inacreditáveis sobretudo e chapéu cinza-claro. E tome Paris, Roma e o Rio ao pôr-do-sol.

Se a música popular se calou em 2005, nem por isso seus mamutes se calaram. Caetano Veloso e Milton Nascimento encenaram aquele que foi o pior show deste e de muitos anos. Gilberto Gil, no papel de ministro da Cultura, cantou, dançou, sambou, rebolou e macaqueou a si mesmo em dezenas de shows pelo mundo afora. No falatório, quem sobressaiu foi um compositor de segunda linha, Fagner.

Ele disse que os artistas brasileiros ‘ficam gritando ‘Lula lá!, Lula lá!’ e, depois que o Lula faz essa c… toda, não aparece quase ninguém para comentar’.

A frase é grossa e verdadeira. Só que a situação mudou. Os artistas não vão mais aonde o povo está. Vide o referendo sobre o uso de armas. Lá estavam as figuras carimbadas de sempre, oriundas da Globo e adjacências, embaladas no piedoso pacifismo do Viva Rio, defendendo a proibição do comércio de armas. Foram vexatoriamente derrotadas.

Aos 47 minutos do segundo tempo, consagrou-se uma cantora, Ana Carolina, cujas músicas não dá para escutar, mas que teve seus dez minutos de celebridade ao admitir sua bissexualidade com uma indagação retórica: ‘Sou bi, e daí?’ De fato, e daí? No Brasil do mensalão, nada choca mais. A arte e a cultura deslizaram, como a política, para o terreno da irrelevância.

Da irrelevância e também da baixaria. Com argúcia afiada, o jornalista Sergio Augusto observa que Chico Buarque foi vítima do sistema de celebridades que ele próprio denunciou, numa entrevista na Europa. Aqui, deu-se mais destaque à bela morena com que o compositor apareceu, e trocou carícias, na Praia do Leblon, do que ao que disse sobre a crise política (que a crise do governo despertou os piores preconceitos, sociais e racistas, da sociedade nacional).

Já Caetano Veloso, um extraordinário manipulador da mídia, viu seu casamento com a empresária Paula Lavigne explodir em praça pública, quando ela arrebentou o portão do prédio dele a golpes de BMW blindada.

Assim foi a cultura brasileira em 2005. Tão medíocre quanto o País.’



MEMÓRIA / GIANNI RATTO
Beth Néspoli e Oswaldo Faustino

O teatro brasileiro perde Gianni Ratto

‘Considerado o mais experiente e competente cenógrafo do teatro brasileiro, o italiano Gianni Ratto, de 89 anos, morreu na tarde de anteontem, em sua casa, em São Paulo. Seu corpo foi cremado ontem de manhã, no Crematório da Vila Alpina.

Ele sofria de câncer na bexiga, detectado há dois anos, e morreu de falência múltipla de órgãos. O velório foi em sua casa, no bairro do Pacaembu.

Ratto era casado e deixou três filhos. Segundo um amigo que estava no velório, ‘saiu de cena discretamente, ao seu estilo’. Apesar de ter vivido e trabalhado com os mais famosos artistas do País, Gianni Ratto costumava se pautar pela absoluta discrição.

O cenógrafo nasceu em Milão, na Itália, em 27 de agosto de 1916. Logo no início da carreira, seus cenários foram premiados em Gênova e Veneza. Em seu país, assinou cenários para 130 espetáculos entre 1946 e 1952.

Veio para o Brasil em 1954 para cuidar de uma peça de teatro em São Paulo. Nunca mais deixou o País, onde criou centenas de cenários para espetáculos teatrais, muitos deles premiados. Seu conhecimento em teatro, porém, ia muito além da cenografia. Dirigiu mais de 150 espetáculos e trabalhou em TV. Foi importante também na formação de atores de destaque, como Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi e Sérgio Britto.

No início de 2005, lançou o livro Noturnos e Outros Contos Fantásticos. Já havia publicado outros, como A Mochila do Mascate, sua autobiografia, e Crônicas Improváveis. Considerado o mais experiente e competente cenógrafo do teatro brasileiro, o italiano Gianni Ratto, de 89 anos, morreu na tarde de anteontem, em sua casa, em São Paulo. Seu corpo foi cremado ontem de manhã, no Crematório da Vila Alpina.

Ele sofria de câncer na bexiga, detectado há dois anos, e morreu de falência múltipla de órgãos. O velório foi em sua casa, no bairro do Pacaembu.

Ratto era casado e deixou três filhos. Segundo um amigo que estava no velório, ‘saiu de cena discretamente, ao seu estilo’. Apesar de ter vivido e trabalhado com os mais famosos artistas do País, Gianni Ratto costumava se pautar pela absoluta discrição.

O cenógrafo nasceu em Milão, na Itália, em 27 de agosto de 1916. Logo no início da carreira, seus cenários foram premiados em Gênova e Veneza. Em seu país, assinou cenários para 130 espetáculos entre 1946 e 1952.

Veio para o Brasil em 1954 para cuidar de uma peça de teatro em São Paulo. Nunca mais deixou o País, onde criou centenas de cenários para espetáculos teatrais, muitos deles premiados. Seu conhecimento em teatro, porém, ia muito além da cenografia. Dirigiu mais de 150 espetáculos e trabalhou em TV. Foi importante também na formação de atores de destaque, como Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi e Sérgio Britto.

No início de 2005, lançou o livro Noturnos e Outros Contos Fantásticos. Já havia publicado outros, como A Mochila do Mascate, sua autobiografia, e Crônicas Improváveis. VANGUARDA A atriz Maria Della Costa, contemporânea de Ratto, lamentou a morte do amigo. ‘É uma perda irreparável’, disse. Foi ela quem trouxe o italiano para o Brasil, em 1954, para a inauguração do recém-construído Teatro Maria Della Costa, em São Paulo, com a peça O Canto da Cotovia, dirigida por Ratto. ‘Ele era considerado um dos sete maiores cenógrafos do mundo’, afirma a atriz. ‘Ele trocou seu país pelo Brasil. Era até mais patriota que muitos brasileiros. Era um homem de cultura. Implantou no País um teatro moderno, de vanguarda.’ COLABOROU: RICARDO WESTIN’



TELEVISÃO
Luiz Carlos Merten

Deus nos acuda!

‘Em obras como Besame Mucho, Mario Prata fez o inventário de sua geração, acompanhando 20 anos na vida de dois casais, da juventude à maturidade, atravessando os anos de chumbo da ditadura militar. Não é, nem de longe, um alienado, insensível ao que ocorre no Brasil e no mundo à sua volta. Por isso, causou certo frisson quando Prata voltou às novelas da Globo com uma trama de western. Mas ficou difícil definir o que ele realmente queria dizer com Bang Bang, porque uma doença, verdadeira ou providencial, o afastou da novela, que, desde então, passou a ser escrita a várias mãos.

Autores quase sempre ganham ajuda para conduzir suas tramas extensas. Poucos, como Glória Perez, ainda gostam de escrever as novelas sozinhos. Mas o caso de Bang Bang virou um Deus nos acuda. Atolada na crise de audiência – nos 25 pontos, ante os 35 que costuma fazer na faixa das 7 -, a Globo convocou um especialista no horário, Carlos Lombardi, para resolver o imbróglio. O resultado já está sendo gravado e deve repercutir imediatamente na tela. Para melhor, espera-se.

Lombardi ficou famoso como autor que gosta de recorrer a correrias e brigas, com o mesmo entusiasmo com que despe seus galãs. Suas novelas são uma festa para curtidores(as) de bíceps reforçados e barriguinhas de jacaré. Ele vai ter um monte de brucutus para tirar a roupa em Bang Bang e pode até conseguir incrementar o insosso romance entre Fernanda Lima e Bruno Garcia – claro que dependendo da ajuda que obtiver do diretor Ricardo Waddington. Mas isso não resolve o problema conceitual que está na origem de Bang Bang. Por que uma novela com esse tema?

É bom voltar a Mario Prata. Contemporâneo das chanchadas da Atlântida, Prata com certeza viu como Oscarito e Grande Otelo parodiavam o hegemônico cinema americano em obras que se tornaram clássicas pelo humor chanchadeiro. Hollywood atacava com Sansão e Dalila, a Atlântida rebatia com Nem Sansão nem Dalila. Matar ou Morrer ganhava um monte de Oscars. Lá vinha Matar ou Correr. Quando a gente não é o melhor, como dizia o Bandido da Luz Vermelha de Rogério Sganzerla, a gente esculhamba. A chanchada, que nos anos 1950 era considerada sinal de indigência cultural pelos intelectuais bem pensantes, hoje é revista como uma estética de resistência. E viva a paródia!

A questão é – isso era válido há 50 anos. Mas hoje, por que ressuscitar o faroeste, se no próprio cinema americano o gênero só sobrevive graças às investidas solitárias de renitentes, como o mítico ator e diretor Clint Eastwood? O western, com seu valor de epopéia – a conquista do Oeste, arrancado aos índios -, não resistiu às mudanças ocorridas na sociedade dos EUA a partir da sangrenta Guerra do Vietnã e do escândalo de Watergate. Mas, então, espera aí. Pode ter sido o que seduziu Prata. Voltar a discutir os mitos no momento em que, nos EUA, o estilo imperial da presidência do texano George W. Bush transforma a geopolítica num duelo permanente entre good e bad guys (e ele, claro, é sempre o bonzinho). Simultaneamente, no Brasil globalizado, a submissão ao estilo americano é total (e até produziu uma novela como América). A intenção só podia ser crítica, portanto, mas se perdeu. Salvar Bang Bang vai ser uma operação de guerra. O universo focalizado é estranho ao cotidiano do telespectador, que no Rio já vive em outro far-west (o da guerra entre polícia e tráfico). O humor é bagunçado, meio Trinity, e o elenco, na maioria dos casos, não está nem aí. A solução seria ressuscitar Oscarito e Grande Otelo. Com eles, na fase áurea de Carlos Manga e da Atlântida, Bang Bang ia ser um tiroteio na crise e a grande diversão que não tem jeito de ser.’



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O Estado de S. Paulo

Sábado, 31 dezembro de 2005



TELEVISÃO
O Estado de S. Paulo

GNT testa quadros

‘O GNT entra em 2006 trazendo dois novos quadros a partir desta terça-feira. A estréia das seções Tá na Época e BemStar será no Armazém 41, conhecido laboratório do canal.

O primeiro programete, Tá na Época, será comandado pelo chef Felipe Bronze e vai mostrar as vantagens dos alimentos que estão na época. A cada programa, exibido sempre às quintas-feiras, será apresentada uma receita simples utilizando um ingrediente da estação. Na estréia, o chef vai até Búzios, no Rio, para preparar um prato de verão.

O BemStar também falará sobre qualidade de vida: boa alimentação, exercícios e dicas que conspirem a favor de um cotidiano mais saudável. A equipe do quadro é formada pelos mesmos profissionais que fazem o site BemStar, hospedado no portal Globo.com.

Nesta terça-feira, o BemStar ensina como malhar com segurança e ainda desvenda os mitos e as verdades para quem quer emagrecer.

A proposta do Armazém 41 é lançar novos produtos. Já passaram por lá os chefs Flávia Quaresma e Claude Troisgros, que hoje fazem parte da programação do canal com o Mesa pra Dois e Menu Confiança, respectivamente.’



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