Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 7 E 8/01

O Estado de S. Paulo

10/01/2006 na edição 363



JK NA GLOBO
Daniel Piza

De JK a Lula

‘No domingo, a entrevista de Lula no Fantástico; na terça, a estréia da série JK. Até o mais incauto dos espectadores deve ter sentido o contraste. A grandeza de Juscelino Kubitschek é mitificada ao extremo pelo estilo novelão, mas a pequenez de Luiz Inácio teve uma de suas mais chapadas demonstrações. A mãe de Nonô dizia: ‘A única herança que vou deixar para você é a educação.’ Lula, que já chorou por sua mãe ter ‘nascido analfabeta’, desdenha o estudo e não citou uma única herança educacional de seu governo. O primeiro, apesar de não ter feito um governo notável pela educação, ao menos sabia onde estava e aonde queria ir. O outro não sabe nem o que se passa fora de sua sala.

Mas o contraste não pode ofuscar as numerosas meias-tintas. O JK da realidade era outro. A série, bem produzida, mas de texto ingênuo e toques de ‘realismo mágico’ (mortos que aparecem, etc.), promete muito e entrega pouco, a julgar pelos dois primeiros capítulos. Juscelino é um herói quase sem defeitos, e o ‘quase’ entra aí mais para reforçar o heroísmo do que para relativizá-lo. É o filho perfeito, o irmão perfeito, o aluno perfeito, o amigo perfeito. É a conciliação sem conflitos entre o pai sonhador e a mãe prática. Como candidato a médico em meio a um surto de gripe espanhola, não teme nem erra. Mesmo que freqüente bordéis e atrase o pagamento da pensão em Belo Horizonte, não deixa de ser como um samaritano. A invenção de um personagem irreal, o coronel Licurgo, que prega moralidade puritana e transa com negras e rameiras grunhindo como um escravocrata anacrônico, serve para dividir em a.J. e d.J. a história do Brasil. Ouvir alguns minutos de bordões nacionalistas dos modernistas num lobby de hotel é suficiente para que Juscelino encarne a utopia do país do futuro, dengoso por natureza.

Há muitos capítulos pela frente. Divulga-se que os erros de JK como político serão devidamente mostrados, mas está dado o tom. Na criação de Brasília, por exemplo, talvez se ouçam críticas ao custo inflacionário da empreitada. No entanto, dificilmente será contestada como idéia. Os autores, Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira, atribuem o desenvolvimento do centro-oeste à construção da capital futurista. Os fatos dizem que isso só foi acontecer nos últimos 15 anos graças à abertura comercial, ao fim da inflação alta, ao investimento de agronegociantes do sul e sudeste e ao trabalho de pesquisa da Embrapa. Não foi por decreto, de cima para baixo.

É nesse aspecto que JK ganha uma dimensão que não tem, mas que o faz parecido com tantos presidentes antes dele, como Getúlio, e depois, como FHC e Lula, que muitas vezes disseram nele se espelhar, ainda que na época a dita ‘esquerda’ o tenha criticado ferozmente por franquear o Brasil às multinacionais. Eis o conceito: as conquistas do país são menos da sociedade que do Estado; o processo de desenvolvimento é uma obra artificial dos chefes de governo, como uma locomotiva a puxar o trem. Alguns biógrafos de JK parecem atribuir a ele até a bossa nova, o cinema novo, o surgimento de Pelé, todo o saudoso momento de explosão cultural do Brasil pós-1954. Lula atribui a si próprio o boom das exportações e até os dissídios salariais acima da inflação, como se estivesse ainda no alto de um caminhão com megafone.

Pedro Bial fez uma entrevista muito boa porque, ao contrário dos outros, contestou e acuou o presidente. Lula passou recibo – ‘como nunca antes’, para usar sua expressão messiânica de costume. Abatido e gaguejante, não conseguiu nem mesmo seguir a cartilha que os marqueteiros lhe prepararam desde que a crise estourou. Sim, mais uma vez se disse traído, sem identificar por quem, e mais uma vez afirmou que o PT cometeu erro gravíssimo, sem dizer qual a punição que cabe ao partido. Mas precisou repetir tantas vezes que uma pessoa é inocente até prova em contrário, mesmo diante das provas citadas por Bial, que o público viu o vazio de seu governo, viu o despreparo e a desfaçatez de seu representante. Lula não tem noção do cargo que ocupa; desconhece o sentido da responsabilidade pública. Em qualquer país um ministro que faz o que José Dirceu fez, do caso Waldomiro até o favorecimento à ex-mulher, para não falar dos caminhos abertos para Marcos Valério aos cofres públicos, seria afastado imediatamente. Se fosse para esperar nossa Justiça, ficaria três mandatos no cargo até a sentença final… E o problema não é parecer honesto; é ter condições de responder a denúncias tão consistentes.

Só faltaram intervenções semelhantes no bloco de perguntas sobre economia. Lula não foi instado a explicar como é que o Brasil pode ter um crescimento de 2,4% num momento em que a economia mundial está como está. (Atenção, analistas oficiais: a principal causa da queda do risco-país não são as virtudes da economia brasileira.) Nada fez pela infra-estrutura, pelos investimentos produtivos, pelas reformas estruturais. Esvaziou as agências reguladoras, não conseguiu as PPPs, aumentou impostos e despesas públicas. Aproveitou o deserto de notícias na mídia de fim de ano para plantar ações como um plano emergencial para estradas que não é mais que isso, emergencial, e que exige contrapartidas que os Estados não podem dar. O único objetivo de seus gastos é tentar salvar sua campanha de reeleição.

JK, para o bem e para o mal, foi um fazedor. Não fez muita coisa que dizem ter feito – e, iludido ou não, apoiou o golpe militar de 1964 -, mas soube captar o momento da nação. Raposa, tirou o bode da sala brasileira e apelou à sua índole otimista e compassiva. Não ficou soltando bazófias por ter ‘vindo de baixo’, não fez comparações mentirosas com governos anteriores, não disse ser mais ético que todas as pessoas que votaram nele. Estudava e enfrentava os problemas e parecia acreditar nos rumos escolhidos, os quais não confundia com as concessões necessárias. É por esses motivos que não existe, e nunca existirá nem mesmo nas teleficções, uma Era Lula.

É muito feliz a iniciativa da Nova Fronteira de comemorar seus 40 anos reeditando 40 dos melhores livros de seu catálogo, de autores como Guimarães Rosa, João Ubaldo Ribeiro e Antonio Callado até Balzac, Baudelaire e Thomas Mann. Num país onde as livrarias só possuem o que foi lançado nos últimos seis meses, e onde não raro você se depara com um ‘esgotado’ quando procura por algum livro importante, é preciso comemorá-la.

Da mesma editora, no final do ano, esqueci de registrar a publicação de Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, que o navegador português escreveu entre 1569 e 1580. Ler essa prosa, como ando lendo também a de Frei Luís de Souza, é mergulhar num português de cadências saborosas, de sonoridades frescas.

UMA LÁGRIMA

Para Gianni Ratto, cenógrafo que fez muito pela modernização do teatro brasileiro. Outra para Aurora Miranda, irmã de Carmen, pessoa destituída de inveja e voz talentosa de Cidade Maravilhosa.

VALORES VIRTUAIS

Tenho visto muitos blogueiros colocando ‘filtros’ nos comentários postados pelos visitantes, devido à grosseria de alguns. Muita gente anda abandonando o Orkut por motivo parecido ou por ciúmes das mensagens deixadas por estranhos ou por antigos namorados. E me lembro que, quando coloquei o e-mail no alto desta coluna, Ivan Lessa me perguntou como é que eu tinha coragem, porque iria aparecer um monte de amolação. Claudio Abramo dizia, antes da internet, que quem escreve carta para jornal ou é doido ou gostaria de ser articulista. Não se pode atribuir o problema à tecnologia, mas o fato é que ela facilita. Tem sempre dois ou três que simplesmente xingam ou dizem ter ‘ojeriza’; querem que a gente perca o emprego, patrulham a liberdade de escrever sobre mais de um assunto, ou então tiram proveito de um lapso ou erro menor para descartar o cerne do argumento. Bem, simplesmente não leia. A maioria dos que escrevem está muito mais interessada em trocar idéias e dicas – e oxalá continue assim.

POR QUE NÃO ME UFANO

Enquanto Paulo Coelho tratava José Dirceu à tripa forra em seu castelo nos Pirineus, um funcionário do Ministério da Cultura chamava Ferreira Gullar de ‘stalinista’ (ora, ora) por ter criticado a desastrosa gestão de Gilberto Gil e, na mesma semana, se sabia que o governo cortou patrocínio do Banco do Brasil ao telejornal de Boris Casoy, demitido pelos chefões evangélicos. Os petistas nunca entenderam o conceito de liberdade de expressão, nem assim deixaram de ser sempre prestigiados por intelectuais e artistas. Não por falta de aviso.’



ENSAIOS DE CARPEAUX
Luiz Zanin Oricchio

Carpeaux, fenômeno intelectual

‘A publicação neste começo de 2006 do Volume II dos Ensaios Reunidos de Otto Maria Carpeaux deveria ser saudada como grande acontecimento literário. E por quê? Porque nesses 205 textos, publicados em vários jornais (incluindo o Estado), e mais três prefácios, encontram-se exemplos de um ideal poucas vezes atingido – a conciliação de um saber universitário e sistemático com a agilidade e a simplicidade da linguagem jornalística.

A editora do volume (de 942 páginas), Christine Ajuz, escreve na introdução que o livro deveria ter sido lançado antes. Os atrasos se deveram ao estado precário dos documentos, o que tornou difícil a tarefa de escanear os artigos. Havia frases truncadas e rasuras, que às vezes tornavam o texto ininteligível. Christine teve de pesquisar na Biblioteca Nacional e finalmente conseguiu restabelecer a íntegra desses textos, que se estendem ao longo de 23 anos de trabalho intelectual. O primeiro data de 19 de maio de 1946 e o último de 7 de junho de 1969. Já os três prefácios reproduzidos foram escritos para obras de Manuel Bandeira (1946), Goethe (1948) e Hemingway (1971).

O projeto de edição das obras completas de Otto Maria Carpeaux pela Topbooks foi iniciado com a publicação de um primeiro volume em 1999, contendo os seis livros de crítica publicados em vida pelo autor. Agora surge este, com os artigos dispersos, prefácios e introduções a livros. Já existe material suficiente para um terceiro volume, ainda sem data de publicação.

Carpeaux foi um escritor incansável. Mas a primeira coisa que chama a atenção do leitor neófito em Otto Maria Carpeaux não é tanto a quantidade como a diversidade de assuntos abordados pelo autor. Numa época como a nossa, na qual especialização é virtude, cabe admirar esse ecletismo que inclui filosofia, literatura, história da religião, sociologia, artes plásticas, música. Mais: lendo-se os artigos descobre-se que, no interior de um mesmo texto, Carpeaux costumava saltar de uma área do conhecimento a outra para que a diversidade de abordagens, temas e referências se iluminassem reciprocamente, em benefício do todo. Quer dizer, era um intelectual capaz de mobilizar todo o seu enorme capital de cultura em benefício de um artigo de jornal. Isso num tempo em que os espaços eram mais generosos do que hoje, mas mesmo assim…

No excelente ensaio introdutório de Ivan Teixeira, Mestre Carpeaux, lemos exatamente uma descrição desse método: ‘O que se vê nesses ensaios, e em diversos outros que integram a coletânea, é aquele astucioso procedimento de Carpeaux que consiste no entrelaçamento de determinada obra literária com os múltiplos contextos que lhe deram origem, estabelecendo assim um mosaico que nos lembra muito de perto aquele continuum que T.S. Eliot definia como um ‘fenômeno de cultura’…’.

À medida em que vamos lendo os artigos, começamos a nos dar conta do formidável avanço de cosmopolitismo que significou a presença de Carpeaux no Brasil dos anos 40 em diante. Seus ensaios falam, é claro, dos grandes nomes da cultura ocidental. Estão lá os clássicos, Dante, Shakespeare e Cervantes, mas também Eliot, Graham Greene, El Greco, Bach, Beethoven, Mozart, a Bíblia, Büchner, Pound, Koestler, Huxley, Wagner, Joyce, Sartre, Kafka, Heine. É um programa completo de divulgação cultural, realizado em páginas de periódicos – essas mesmas que a auto-ironia dos próprios jornalistas diz que embrulham peixe no dia seguinte. Conversa: as páginas estão aí.

E elas falam também dos brasileiros, pois afinal um intelectual de respeito não divulga apenas o que existe de excelente no mundo, também se debruça sobre o seu país. Mais ainda quando se adota um país, como aconteceu com Carpeaux.

E, assim, Carpeaux escreveu sobre Murilo Mendes, Vieira, Machado e Bandeira, Gilberto Freyre e Graciliano Ramos, além de textos mais gerais como aquele sobre as Tendências do Moderno Romance Brasileiro ou outro, Canudos como Romance Histórico – este a propósito de um romance de João Abade sobre essa emblemática tragédia social brasileira. Carpeaux relembra que, em Euclides da Cunha, temos o ponto de vista do homem civilizado, ‘assustado pelo fanatismo e pela ferocidade do homem inculto do interior.’ O texto de Carpeaux acaba se transformando em reflexão sobre o significado do romance histórico, tomando exemplos como Memórias de Adriano (que ele cita em francês, no original, pois o livro de Marguerite Yourcenar não havia sido ainda traduzido naquele ano de 1958, quando Carpeaux escrevia o artigo no Estado) e autores que se serviram do gênero como Hugo, Vigny, Balzac, Manzoni, José de Alencar, Pushkin e Gogol, entre outros. Mas a novidade de João Abade, o romance de João Felício dos Santos, é que procura um ponto de vista interno, ‘ver Canudos por dentro’ e não com o horror do civilizado diante daquilo que ele não conhece, teme e não compreende.

Esse é um exemplo entre outros e, por acaso, fala de um livro pouco lido hoje em dia. Mas denota o apreço de Carpeaux pelo esforço em compreender as coisas por dentro e não com olhar distanciado e estrangeiro. Talvez um pouco da sua própria história pessoal esteja contida nesse tipo de atitude compreensiva. Em 1938, ainda Otto Karpfen, engajou-se na Áustria, sua terra natal, na luta contra o nazismo. Quando o país foi anexado pela Alemanha, viu-se obrigado a fugir e escapou primeiro pela Antuérpia, mas teve de deixar a Bélgica em seguida, quando os nazistas avançaram. Imigrou para o Brasil e, durante a viagem de navio, a guerra estourou. Chegou aqui sem falar português e sem qualquer contato anterior com a literatura brasileira. Aportou como imigrante comum e foi destinado ao Paraná, candidato ao trabalho na lavoura, apesar dos vários diplomas que trazia na bagagem. Em 1941 enviou uma carta ao crítico Álvaro Lins, oferecendo um artigo sobre Kafka, a quem havia conhecido pessoalmente na Europa. Não apenas o artigo foi aceito e publicado no Correio da Manhã, como Carpeaux passou à condição de colaborador fixo do jornal. Começava ali, em 1941, sua carreira jornalística brasileira. Para sorte de todos nós.’



JORNALISTA SEQÜESTRADA
O Estado de S. Paulo

Jornalista americana é seqüestrada em Bagdá

‘A jornalista americana Gill Kelly, enviada especial do jornal Christian Science Monitor, foi seqüestrada ontem por um grupo de homens armados em Bagdá, que mataram seu intérprete iraquiano.

Gill foi capturada quando ia entrevistar o líder sunita Adnan al-Dulaimi, de acordo com fontes iraquianas citadas pelas agências de notícias France Presse e EFE. Procurado por jornalistas, no entanto, Al-Dulaimi negou que tivesse alguma entrevista marcada para ontem.

Os seqüestradores detiveram o carro em que ela estava em um bloqueio erguido numa rua do bairro de Al-Adel, na zona oeste da capital.

Antes de forçá-la a deixar o veículo, seus captores atiraram no intérprete iraquiano que a acompanhava. Segundo o Ministério do Interior iraquiano, o tradutor, que também era jornalista, foi identificado como Alen Ghazi Chak.

Desde março de 2003, quando o regime de Saddam Hussein foi derrubado no Iraque, dezenas de iraquianos e estrangeiros foram seqüestrados por grupos radicais – incluindo o engenheiro brasileiro que trabalhava para o Grupo Odebrecht, José João Vasconcellos Júnior, desaparecido desde janeiro do ano passado.

Ao mesmo tempo, o secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, Jack Straw, iniciava ontem uma série de reuniões com dirigentes iraquianos. Após um encontro com o presidente em fim de mandato, Jalal Talabani, Straw insistiu na formação de um governo de união nacional, com os membros do Parlamento eleitos em dezembro. ‘Não basta que os representantes políticos digam, como é o caso de hoje, que deve haver um governo de unidade nacional, é preciso assegurar que esse governo funcione’, disse.

‘Devem pensar na forma como um governo baseado num amplo consenso vai trabalhar, como serão tomadas as decisões. Se o governo apenas reproduzir as divisões do país, não será eficaz’, advertiu.

Straw chegou na sexta-feira a Basra, cidade do sul do Iraque onde estão baseados cerca de 8.000 soldados britânicos. Além de Talabani, ele se reuniu também com o primeiro-ministro Ibrahim Jaafari.

‘Recebo com muita satisfação o que você e outros políticos estão fazendo para a formação de um governo de união nacional’, declarou o chanceler britânico a Jaafari.

Straw disse ainda que se reuniria com representantes dos partidos políticos que questionam os resultados das eleições legislativas de dezembro, que deram a vitória aos xiitas religiosos. Straw também declarou que uma retirada progressiva das tropas britânicas do Iraque era ‘questão de meses’.

‘Ficaremos aqui o tempo que o governo iraquiano quiser. Na prática, esperamos poder iniciar uma retirada progressiva das tropas britânicas, que começaria não em Basra, mas sim em outras áreas sob nossa responsabilidade’, afirmou.

‘Esta retirada terá de ser planejada com os iraquianos quando estiverem seguros de que suas próprias tropas poderão assumir plenamente a responsabilidade destas áreas. É uma questão de meses. Estamos aqui para libertar o Iraque, não para colonizá-lo’, acrescentou o ministro britânico. REUTERS, AFP, EFE E AP’



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O Estado de S. Paulo

Sábado, 7 janeiro de 2006



POLÊMICA CULTURAL
Beatriz Coelho Silva

Não me passou pela cabeça brigar com o Gil, diz Ferreira Gullar

‘Se depender da maioria dos intelectuais envolvidos na querela com o secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, Sérgio Sá Leitão, o caso se encerra em breve. Esta é a opinião do poeta Ferreira Gullar, pivô da questão, que recebeu solidariedade num manifesto assinado por personalidades como Fernanda Montenegro, Oscar Niemeyer, João Ubaldo Ribeiro e Caetano Veloso. ‘Estou surpreso que essa história dure tanto’, comentou Gullar ontem.

‘Não me passou pela cabeça brigar pessoalmente com Gil (ministro da Cultura), que conheço desde sua chegada ao Rio, nos anos 60. Esse menino (Sá Leitão)não agiu com inteligência, pois criou mais um problema para o presidente Lula, que já está apanhando de todos os lados.’ Anteontem, irritado, o ministro Gilberto Gil reagiu à polêmica publicamente. ‘Peçam minha cabeça ao presidente’, disse. E defendeu seu secretário de Políticas Culturais. ‘O que é que Sá Leitão fez de errado? O que ele fez em nome do ministério que não esteja de acordo com a orientação do ministério? Por que não pedem a minha cabeça em vez de pedir a dele?’, provocou.

A querela começou com um comentário de Gullar, em sabatina no jornal Folha de S. Paulo, em 21 de dezembro, sobre as críticas que ouvia a respeito da gestão do músico Gilberto Gil como ministro. Sá Leitão tomou as dores de Gil e definiu o poeta como defensor ‘dos finados regimes stalinistas’. Gullar replicou que a frase parecia saída do Serviço Nacional de Informação (SNI, órgão central de repressão da ditadura militar) e, segundo disse ao Estado, considerou o assunto encerrado.

Mas outros intelectuais fizeram manifesto em seu favor. Um abaixo-assinado de apoio ao poeta foi encaminhado no dia 30 de dezembro ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro Gil. Caetano Veloso foi além. Declarou-se publicamente preocupado com o ‘risco de totalitarismo’.

Depois disso, o companheiro do movimento tropicalista de Gil fez novos comentários, assim como o escritor João Ubaldo Ribeiro. Já o cineasta Zelito Viana ressaltou que o assunto não deve ‘render mais’, mas acrescentou que Sá Leitão errou ao tentar situar foco da querela no cinema. ‘Não é nada disso. O que não se concebe é um funcionário público ofender quem critica o governo’, reclamou. ‘Ninguém tem direito de desqualificar outra pessoa só por uma opinião divergente. Nosso protesto é contra isso.’’



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Polêmica reacende discussão da Ancinav

‘Ferreira Gullar diz que a polêmica acabou. Sérgio Sá Leitão argumenta que não quis ofender o poeta. Como um comentário sobre a suposta centralização na pasta de Gilberto Gil e a resposta do Minc qualificando a crítica de stalinista vão parar na discussão sobre a Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav) é que são elas. ‘Boa pergunta’, diz Sá Leitão ao Estado.

O secretário de Políticas Culturais afirma que a reação raivosa à sua resposta a Gullar foi orquestrada pelo cineasta Luiz Carlos Barreto, a quem chamou de ‘ex-privilegiado’. Barreto, uma das vozes mais fortes do meio cinematográfico, estaria descontente com as regras para distribuição de verbas das estatais, como Furnas e Eletrobrás, que unificaram seus patrocínios em editais.

Totalitarismo e stalinismo à parte, a coisa toda antecede um novo round na política para o cinema brasileiro: a Lei do Audiovisual expira em 2006 e o governo terá de mandar em breve um novo projeto para o Congresso. Como vai ser? Começam as apostas, as inseguranças e as pressões.’



INTERNET
O Estado de S. Paulo

Google terá loja para venda de vídeos pela internet

‘A próxima grande estréia do Google na internet será uma loja online para a venda de download de vídeos de esportes, entretenimento e notícias, um serviço batizado de Google Video Store, segundo o jornal Financial Times (FT). Os primeiros vídeos em oferta trarão programas do canal CBS, clipes musicais da Sony BMG, noticiários do ITN e material da NBA, a liga de basquete dos EUA.

O objetivo do Google, segundo o FT, é criar um mercado aberto, no qual qualquer um que produza vídeos possa vendê-los. Os downloads serão feitos por meio de um software ao estilo do iTunes, da Apple.

O FT diz ainda que o Google deve participar de um pacote de softwares que será distribuído gratuitamente online por várias empresas rivais da Microsoft, na tentativa de enfraquecer o lançamento do Windows Vista.

Além disso, a Motorola anunciou ontem que vai permitir o acesso ao Google por meio de alguns de seus novos modelos de celulares. As companhias disseram que querem encorajar mais usuários de celular a acessar o Google utilizando os telefones da Motorola.’

BBB 6
Keila Jimenez

BBB 6 elimina antes da estréia

‘O Big Brother Brasil 6 nem começou e já teve uma eliminação. Leandro Moraes, de 30 anos, chegou a ter sua foto divulgada na quinta-feira como um dos concorrentes da nova edição do reality show da Globo, que estréia na terça, mas, horas depois, foi sacado do programa pela própria rede. Motivo: a relação de Leandro com alguns funcionários do canal, o que teria facilitado sua entrada no programa. Essa é a historinha da Globo para o caso.

O fato é que em outras edições do BBB foi descoberta a proximidade de participantes do reality com produtores e diretores da emissora e nem por isso eles foram eliminados. A Globo alega que Leandro omitiu que conhecia funcionários da rede. Em seu lugar entra o advogado paulista Carlos, de 28 anos. O novo participante estava em uma espécie de ‘lista de espera’ dos BBBs, pessoas que passam em quase todas as etapas da seleção para a atração e ficam de sobreaviso.

Com relações na Globo ou não, o caso é que se sabe pouco sobre Leandro. Na internet, o carioca aparece em fotos com uma suástica pintada no braço, conta que é lutador de jiu-jítsu e que teve um irmão assassinado.’



TV DIGITAL
Marcelo Migliaccio

‘Padrão não é o mais importante’

‘No momento em que começa a pegar fogo a discussão sobre o padrão de televisão digital a ser adotado no Brasil, o diretor-executivo da Associação Brasileira de TV por Assinatura (ABTA), Alexandre Annemberg, diz que mais importante é definir um modelo de negócios e serviços que melhor atenda ao perfil do telespectador brasileiro. Homenageado pelo Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo com o título de Personalidade Tecnológica na categoria Cultura e Entretenimento, Annemberg, de 64 anos, acha que é hora de debater a regulamentação da convergência de mídias, pois, cada vez mais, a programação televisiva estará disponível em celulares e computadores. Com passagens pela NET, TVA e Anatel, o executivo da ABTA comemora o crescimento de 7% na base de assinantes de TV paga e de 12,5% no faturamento em 2005, mas acha que o momento é de planejar o futuro pela ótica das novas parcerias.

Como o sr. vê a questão da definição do padrão de TV Digital a ser adotado no Brasil?

A definição do padrão de TV Digital coloca um falso problema. Somos instados a escolher um padrão sem que tenhamos discutido um modelo de negócios e de serviços. Qual é o modelo que atende a um mercado de baixo poder aquisitivo, de dimensões continentais, com alta taxa de analfabetismo, em que a TV aberta tem extraordinária importância no cotidiano de enorme parcela da população? Estas são alguma das perguntas que deveriam ser respondidas antes da definição do padrão de transmissão.

Na UFRJ, na Unicamp e em outras instituições estão sendo desenvolvidos protótipos do que seria um sistema de TV Digital genuinamente brasileiro. O sr. acha viável?

Acompanho o trabalho de várias das entidades e algumas soluções propostas são de excelente qualidade técnica. Porém ainda não vi estudos econômico-financeiros que garantam a economicidade de muitas das soluções propostas. Corremos o risco de propor brilhantes soluções tecnológicas que podem ser inviáveis do ponto de vista econômico ou, o que é pior, que coloquem a TV Digital brasileira em um nível inacessível para a grande massa da população.

Qual o prazo para a definição do padrão a ser adotado aqui e, depois disso, em quanto tempo o sr. acha que os brasileiros estarão usufruindo da tecnologia de TV Digital?

Na realidade os brasileiros já dispõem de TV Digital. A Sky, a Directv, a NET, a TVA, a Vivax, a Acom, entre outros, já oferecem uma rica programação digital. A base atual de assinantes de TV por assinatura digital poderia representar uma excelente alavanca para uma maior disseminação e capilarização da TV Digital aberta e gratuita.

A convergência de mídias é cada vez mais real. O conteúdo da TV passa a interessar às empresas de telecomunicações e telefonia, já que estará acessível nos celulares, computadores. Como isso deve ser regulado?

É um dos maiores desafios dos órgãos reguladores no mundo inteiro. Para enfrentá-lo será indispensável rever e repensar modelos de negócio. Os atualmente vigentes, especialmente no Brasil, de separação entre as telecomunicações e a radiodifusão não fazem mais sentido.

Qual a posição das TVs por assinatura, e TVs abertas, sobre o assunto. Haverá disputa ou parcerias?

A solução para esse imbróglio está indiscutivelmente vinculada a parcerias entre os vários atores. As parcerias são a forma mais eficaz de desenvolver um modelo ‘ganha-ganha’ em que as competências específicas de cada um são potencializadas. Um interessante exemplo está na parceria entre Globo, Embratel, NET Serviços e Claro. Neste exemplo, temos cada macaco no seu galho: produtor de conteúdo audiovisual, distribuidor de conteúdo audiovisual, operador de voz, e assim por diante.

Como garantir a competitividade nesse novo mercado que está surgindo?

A competitividade é estimulada e definida pela concorrência entre as tecnologias disponíveis no mercado. Na TV por assinatura a concorrência existe entre os operadores das diferentes tecnologias: cabo, MMDS, satélite e, logo mais, TV sobre internet (IPTV). Cabe mencionar que a IPTV é uma modalidade de acesso à TV que trará enormes modificações no cenário da competitividade para a distribuição de conteúdo audiovisual.

Por quê?

A IPTV oferece alternativas novas para a fruição de serviços de televisão. Viabiliza a recepção e a transmissão de e para qualquer parte do mundo; a personalização e segmentação da programação para atingir públicos específicos, abrindo caminho para uma publicidade cada vez mais endereçável; a televisão ‘on demand’; canais interativos. E tudo isso já está ao alcance da mão, via internet.

A produção de conteúdo nacional para os canais pagos no Brasil já é suficiente?

A produção de conteúdo nacional para os canais pagos ainda é insuficiente. Mas a solução para isso não está na obrigatoriedade da TV paga carregar mais este ou aquele canal, nem em forçar porcentuais de conteúdo nacional. A solução está, por um lado, na criação de mecanismos de fomento para a indústria do audiovisual que viabilizem a produção independente, a produção local, a produção regional. E, por outro lado, é imprescindível desonerar a carga tributária incidente tanto sobre os produtores de conteúdo como, principalmente, sobre os distribuidores de conteúdo.

Como a TV por assinatura pode incentivar o incremento do conteúdo nacional?

Estimulando a criação de canais locais e regionais. Afinal essa é a principal característica da TV paga: ela é segmentada e dirigida a públicos específicos. É exatamente o contrário da TV aberta, que pretende atingir grandes audiências sem maiores preocupações com sua identidade. Dirigindo-se a públicos locais e regionais a TV paga ganha uma personalidade própria e viabiliza a manifestação de produções com essas características.

No Rio hoje há uma polêmica sobre o pagamento ou não dos pontos adicionais de TV a cabo numa mesma residência. Como o sr. vê essa questão?

O movimento contra o pagamento do ponto extra começou por iniciativa do Ministério Público de Minas que, sem base técnica, emitiu Nota Técnica sobre o assunto sem informar-se melhor. O Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional e a própria Anatel já se pronunciaram sobre a legalidade da cobrança do ponto extra. Nem poderia ser diferente. O ponto extra em TV paga tem custos aferíveis que obviamente precisam ser cobrados como, por exemplo, a necessidade de um decodificador para cada ponto bem como a carga que esse ponto representa na arquitetura da rede.

Como está a TV por assinatura no Brasil atualmente em termos da base de assinantes. Há uma recuperação? Quais os caminhos para que mais pessoas tenham acesso?

O número de assinantes de TV paga ultrapassou os 4 milhões, aumento de 7% sobre 2004. Em faturamento a TV paga atingiu R$ 4,5 bilhões, um aumento de 12,5% sobre o ano anterior. E, outro dado importante, os assinantes de banda larga já superam 600 mil (65% de aumento em relação a 2004). A maior barreira para o crescimento acelerado é a carga tributária: o pacote de TV por assinatura carrega carga de impostos de cerca de 40%. Uma das causas é a indevida tributação pelo ICMS quando o correto seria tributar o setor pelo ISS. Além disso há o ônus das taxas de uso do solo, do aluguel de postes, do Fust. O caminho é a desoneração do setor.

A programação oferecida pelos canais pagos ainda está a reboque do dólar, ou seja, com dólar alto mais reprises e menos conteúdo inédito?

Hoje o dólar não representa mais a carga que representou no passado. Além da apreciação do real, todos os contratos de programação com programadores estrangeiros foram renegociados em moeda nacional.

Como o sr. definiria um perfil do telespectador da TV paga e da TV aberta, se é que isso é possível hoje no Brasil?

O telespectador da TV aberta é um telespectador genérico do qual só se conhece, muito superficialmente, suas preferências e expectativas. Já o telespectador da TV paga tem nome, endereço e um perfil perfeitamente identificável. Por isso o assinante da TV paga é um telespectador muito mais exigente quanto à qualidade do serviço e ao conteúdo que lhe interessa.’



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