Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 14 E 15/01

O Estado de S. Paulo

16/01/2006 na edição 364




EUA / JORNAIS EM CRISE
Douglas McCollam


Uma saída para os jornais?


‘Na primavera de 1971, Fritz Beebe, ex-sócio da firma de advocacia nova-iorquina Cravath, Swaine & Moore e presidente da The Washington Post Company, apresentou um dilema à proprietária, Katharine Graham. A companhia, disse Beebe, estava ficando sem dinheiro. Ao longo dos anos, a Washington Post fora bastante generosa na concessão de opções sobre ações a empregados privilegiados, e o custo da compra dessas opções deixara a empresa em apuros. Mas Beebe tinha uma solução. Seguindo o exemplo de rivais maiores, como Knight Ridder e Times Mirror, ele sugeriu a abertura de capital.


A venda de ações aliviaria a situação financeira, explicou Beebe. Do contrário, a empresa teria de vender uma de suas emissoras de televisão. Graham hesitou. ‘Gostaria de ter entendido a coisa toda melhor do que entendi’, escreveu ela na autobiografia de 1997, sobre a decisão de abrir o capital. ‘Simplesmente acreditei em Fritz e concluí que tínhamos só duas opções: abrir o capital ou vender a WJXT.’ A companhia abriu o capital, fazendo a oferta inicial em 15 de junho de 1971, na mesma semana em que explodiu a polêmica dos documentos do Pentágono. ‘Eu não sabia direito o que representaria ser uma companhia de capital aberto’, escreveu Graham. ‘Mas sabia que haveria obrigações e disciplinas que não eram impostas a empresas de capital fechado.’


No último ano, várias companhias de jornais, incluindo a Washington Post, tiveram de lembrar como as ‘obrigações e disciplinas’ do capital aberto podem ser árduas. Apesar das margens de lucro em torno de 20% – extraordinárias em relação a quase todos os outros setores -, as ações dos jornais estão sendo castigadas. No início de dezembro, as ações da Gannett, maior editora de jornais dos EUA, despencavam 28% no ano. A Tribune Company sofria queda de 29%. A New York Times Company, de 35%. Até a Washington Post Company, cujas propriedades diversificadas a protegeram relativamente do pessimismo do mercado em relação aos jornais, tinha queda de 25%.


No esforço para deter a queda e tranqüilizar os acionistas, praticamente todos os grandes jornais americanos trataram de demitir e reduzir custos agressivamente. O mercado não se impressionou. Em novembro, Bruce S. Sherman, cuja empresa de administração de recursos, Private Capital Management, possui 19% da Knight Ridder, exigiu que a empresa se pusesse à venda. A rodada inicial de ofertas, em dezembro, atraiu o interesse da Gannett, da McClatchy e de outros, incluindo três bancos de investimento privados.


A iniciativa de Sherman sacudiu o mundo dos jornais. A PCM tem fatias significativas de outras oito companhias de jornais, entre elas Gannett, McClatchy e New York Times. Muitos analistas acreditam que o jornalismo só tem a perder com a campanha de Sherman para forçar a venda da Knight Ridder. Se ela fracassar, os investidores podem ficar ainda mais convencidos de que os jornais são péssimos investimentos e abandonar o setor de uma vez por todas. Se tiver sucesso, Sherman ou outros investidores institucionais podem tentar repetir a manobra com outros jornais, obrigando companhias a se leiloar ou fazer cortes mais profundos na tentativa de valorizar as ações.


De qualquer modo, a combinação entre o declínio precipitado dos preços das ações, a inquietação dos acionistas e o pessimismo geral do mercado em relação aos jornais levanta uma questão interessante: existe algum bom motivo para os jornais continuarem sendo companhias de capital aberto?


Fiz essa pergunta a Donald Graham, 60 anos, filho de Katharine Graham e presidente e maior acionista individual da Washington Post Company. Graham pareceu um pouco perplexo com a idéia e disse que não, não consideraria fechar o capital: ‘A propriedade pública foi excelente para nós’. Sem dúvida, isso vale para grande parte dos últimos 34 anos. Após a abertura do capital, em 1971, o preço da ação da Washington Post subiu de US$ 26 para quase US$ 1 mil no fim de 2004. No início de dezembro, contudo, caíra mais de US$ 250 no ano e não parecia ter atingido o fundo.


Graham admite estar preocupado com os desafios de negócios, que considera os maiores de sua história, mas não lamenta a decisão da mãe de abrir o capital. Ele observa que a medida atraiu o guru do investimento Warren Buffett, a quem Graham (e outros) dão crédito considerável por tornar a Washington Post uma companhia de sucesso, e diz que dá atenção ao preço das ações, mas se concentra no longo prazo. ‘Nosso foco não é no preço das ações, mas no valor da companhia.’


Sentimentos similares foram expressados pelo publisher do New York Times, Arthur Sulzberger Jr., que, como Graham, acredita que o capital aberto foi uma bênção para a companhia, apesar das recentes dificuldades. ‘Há um valor real no fato de as empresas não serem isoladas artificialmente das exigências do mercado. Isso impõe um certo tipo de disciplina.’ Ele admite que tem sido difícil suportar essa disciplina recentemente e diz que o setor dos jornais nos EUA enfrenta a pior crise em seus 400 anos de história. Mesmo assim, Sulzberger não vê o capital fechado como solução. ‘Mudar a estrutura do capital não nos salva dos problemas que enfrentamos.’


A própria estrutura do capital da Times indica que a companhia não confia totalmente no mercado. Como a Post, a Dow Jones, a McClatchy e outras empresas de jornais sob controle familiar, a Times tem duas séries de ações – a classe A com direito a voto, de posse da família, e as ações classe B, dos investidores de fora. Esse tipo de propriedade oferece uma camada de isolamento entre o jornal e as forças do mercado e imuniza a companhia contra o tipo de tática de venda forçada que Sherman usa na Knight Ridder, que tem só uma classe de ações. Dito isso, a empresa de Sherman tem 15% da New York Times Company, o que o transforma numa força que Sulzberger não pode ignorar. ‘Mesmo que a família tenha ações com direito a voto no bolso’, diz John Morton, analista e consultor de jornais, ‘ela ainda desenvolve uma cultura de capital aberto com a obrigação de responder a Wall Street – isso contamina o modo como ela conduz os negócios.’


Como essa ‘contaminação’ se manifesta? Em geral, Wall Street se importa com um ponto: crescimento. Não está interessada em como você foi ou como está indo, mas em como você irá no futuro. Essa perspectiva explica por que os investidores se apaixonaram pela internet no início e continuam apaixonados pelo Google e outros acrobatas hi-tech. Com reduzido histórico de ganhos e sem obstáculos evidentes ao crescimento, o mercado enxerga um potencial virtualmente ilimitado e recompensa tais companhias generosamente. Os jornais, em contraste, são negócios maduros com potencial de aumento limitado.


Em resposta, muitos jornais tentam desesperadamente convencer o mercado de que também são companhias atraentes e hi-tech. Para agradar ao mercado, companhias como a Knight Ridder têm feito quase tudo o que os grandes acionistas pedem – cortam pessoal, fazem reportagens mais amigáveis ao leitor, buscam estratégias de internet que possam transformar milagrosamente os ultrapassados jornais em queridinhos da nova mídia. Nada funcionou ainda. Não funcionou porque o verdadeiro apetite dos acionistas é pela maior lucratividade a curto prazo, e não pelo investimento estratégico de longo prazo.


Isto é um claro impedimento, numa hora em que os jornais enfrentam a transição do monopólio do século 20 para a participação ativa no mundo da mídia do século 21, onde a concorrência vem de todas as direções – uma mudança que envolve quebra-cabeças complexos, como o envolvimento dos leitores jovens, que não podem ser resolvidos rapidamente. Como diz Paul Ginocchio, analista de mídia do Deutsche Bank: ‘É mais fácil aumentar os lucros operacionais no curto prazo com cortes de custos agora do que aumentar as receitas futuras com investimentos estratégicos que prejudicam os lucros no curto prazo’.


Nos anos 80, quando companhias rejeitadas se viam subvalorizadas e incapazes de alterar o preço de suas ações, elas freqüentemente davam as costas aos acionistas e fechavam o capital, usando a chamada aquisição alavancada, um modo requintado de dizer que elas emprestavam um bom dinheiro de investidores privados e o usavam para comprar todo o estoque dos acionistas, trocando dívida por participação. As aquisições alavancadas, contudo, ganharam má reputação, associadas pelo público a investidores agressivos e vendedores de títulos de alto risco, alguns dos quais acabaram na cadeia.


No início dos anos 90, a recessão, os escândalos de informação privilegiada e a crise da poupança deram um fim na onda de aquisições. Mas, 15 anos depois, os investidores em participação em empresas estão de volta – mais comedidos, e com mais dinheiro. ‘Cada vez mais vemos firmas de investimento em participação comprando companhias, em oposição a outras companhias comprando companhias’, diz Dean Singleton, diretor do Media News Group. ‘Há muito dinheiro vindo de fundos de pensão, planos de previdência da geração do baby boom, de companhias de seguro. Há mais dinheiro do que o mercado de ações pode absorver.’


Em muitos aspectos, observam Singleton e outros, os jornais são candidatos ideais a aquisições alavancadas, pois têm altas margens operacionais, podendo pagar o serviço de grandes dívidas sem se afogar nelas. E não precisam fazer grandes investimentos em ativos fixos, como pesquisa e desenvolvimento ou infra-estrutura. Como disse Doug Arthur, analista do setor no Morgan Stanley: ‘Esses jornais geram um tremendo fluxo de caixa, e ser uma companhia de capital aberto é muito estressante. Se a Knight Ridder já fosse de capital fechado, não passaria por isso agora.’


Como não precisa ser guiada pelos lucros a curto prazo, a propriedade privada tem o potencial de dar aos jornais o espaço de que eles precisam desesperadamente para planejar e investir em estratégias de longo prazo, tanto no lado dos negócios quanto no editorial. ‘Não se pode ver este negócio como qualquer outro’, diz James Rutherfurd, um diretor do Veronis Suhler Stevenson, banco mercantil que se concentra em propriedades de mídia. ‘Para fazer isso e ter sucesso, é preciso entender que o lado editorial é a parte fundamental da atividade.’


Rutherfurd lembra como, graças ao racionamento do papel na 2ª Guerra, os jornais tiveram de escolher entre a publicação de anúncios ou notícias. Alguns, como o New York Times, escolheram as notícias e absorveram as perdas, enquanto os concorrentes optaram pelos anúncios. No fim da guerra, observa Rutherfurd, o Times já havia obtido um domínio de mercado que mantém até hoje. ‘Quem investe por cinco ou dez anos, como nós, pensa em vários anos’, diz. ‘Não ficamos nos contorcendo por causa do que aconteceu no último trimestre.’


Rutherfurd afirma estar ciente das ameaças que companhias como Google e Craigslist representam para os jornais, especialmente para os anúncios classificados, mas acredita que os jornais têm algumas vantagens embutidas. ‘Eles têm múltiplas fontes de renda, boas marcas, ótimo acesso à informação em seus mercados principais. Eles começaram antes. Só não têm sido bons em inovação.’


Se Rutherfurd representa a versão do fechamento de capital mais favorável ao lado editorial, sobram firmas de investimento em participação que recorrem à estratégia do tipo ‘melhorar e liquidar’, promovendo cortes profundos para aumentar os ganhos e embelezar o balanço patrimonial e depois passando a companhia para outro comprador.


Considerem uma análise da venda da Knight Ridder feita pelo Morgan Stanley e amplamente divulgada. Falando sobre o potencial para a aquisição alavancada da companhia, o Morgan oferece vários potenciais desfechos, baseando-se principalmente em quanto o comprador paga pelo estoque. De um ponto de vista jornalístico, quanto menos o comprador pagar pela companhia, melhor será para a saúde da redação. Na análise do Morgan Stanley, se um comprador pagasse US$ 65 por ação pela Knight Ridder, um pouco abaixo da avaliação histórica para os jornais, ele poderia, com cortes modestos, obter uma taxa de retorno interna de cerca de 25% sobre o investimento. Mas, se o comprador pagasse US$ 75 por ação, a taxa de retorno cairia dramaticamente – a menos que o comprador promovesse cortes draconianos, como o fechamento de alguns dos jornais menos lucrativos.


Como os jornais mantiveram margens operacionais saudáveis, os compradores sempre se dispuseram a pagar um preço alto para adquiri-los. Com ameaças crescentes a essas gordas margens, alguns analistas e investidores acreditam que o preço precisa baixar. O problema, diz Rutherfurd, é que alguns investidores querem ver os jornais valorizados, elevando o preço e praticamente assegurando que qualquer comprador teria de enxugar a operação para fazer o negócio valer a pena. Isto, diz ele, é falta de visão. ‘É fundamental que as expectativas das pessoas se ajustem. Você pode enxugar produção e entrega, mas, se não tiver um bom produto, ninguém vai comprá-lo. Fazer isso diariamente requer bons repórteres e editores e alguma visão do que as pessoas querem.’


O que os jornais precisam, acima de tudo, é de uma propriedade que valorize o jornalismo e entenda que o trabalho de coletar, escrever e publicar as notícias é um negócio inerentemente ineficiente que passa por um período de profunda transição. O barão privado da imprensa do passado podia ser um fanfarrão propagandista com a ética de um rato de praia, mas pelo menos amava o negócio. Comparado com a turma de administradores e mandarins desumanos que hoje arrancam a vida do jornalismo, Charles Foster Kane parece maravilhosamente bom. Embora não haja garantia de que a propriedade privada de hoje reconheceria o valor do jornalismo, já ficou provado que Wall Street não reconhece. Talvez seja hora de corrermos o risco.


*O autor é editor colaborador do Columbia Journalism Review’




MEMÓRIA / ORESTES BARBOSA
Antonio Gonçalves Filho


Pisando nos astros


‘O poeta Manuel Bandeira não tinha motivos para invejar seus colegas de ofício, mas, em 1957, escreveu: ‘Se se fizesse um concurso aqui no Brasil para apurar qual o verso mais bonito da nossa língua, talvez eu votasse naquele de Orestes em que ele diz: Tu pisavas os astros distraída…’ O concurso nunca foi realizado. Nem precisou. Dificilmente alguém contestaria Bandeira. Ao citar a letra de Chão de Estrelas, sucesso do poeta, jornalista e compositor Orestes Barbosa (1893-1966), Bandeira prestou a maior homenagem que um brasileiro poderia receber (a ponto de fazer o autor trocar a frase pisar nos astros por pisar ‘os’ astros, submetendo-se à sintaxe do mestre). Seguindo seus passos, o músico, pesquisador e engenheiro carioca Carlos Didier homenageia mais uma vez o cronista carioca com a biografia Orestes Barbosa.


É um trabalho dedicado de Didier, também co-autor (com João Máximo) da esgotada biografia de Noel Rosa (que a Agir pretende reeditar este ano). Exigiu dele 12 anos de pesquisa atrás de 1.061 crônicas, reportagens, notas e livros de Orestes Barbosa. Isso sem contar os 134 depoimentos de pessoas que conviveram com o cronista e a leitura de mais de 1.000 artigos de outros autores, organizando um banco de dados que cruzou 8.833 registros. Uma tarefa para titãs, que Didier assumiu correndo riscos. O personagem era bom, mas nem mesmo o próprio se atreveu a contar sua vida. ‘Não escrevo minhas memórias porque irão dizer que é ficção’, disse Barbosa numa entrevista concedida há exatamente meio século.


Lendo a biografia de Didier, é mesmo difícil imaginar personagem tão contraditório e que traduza tão bem o estilo de vida boêmia no Rio de Janeiro entre os primórdios da República e o advento da bossa nova. Contemporâneo da geração que iria provocar a revolução modernista, Barbosa não se deixou impressionar pelos discursos dos filhos bem pensantes da burguesia. Egresso da rua, onde viveu como garoto pobre da zona norte, filho de um oficial de Polícia aposentado, ele aprendeu a cartilha da malandragem e, ainda adolescente, foi encora jado – pelo menos é o que diz a lenda – a ler bons livros por Lima Barreto, seu vizinho no subúrbio de Todos os Santos. A despeito do nome, o bairro não era nenhum lugar iluminado. Os que ficaram à sombra, perderam o emprego ou faliram nos negócios constituíam a massa de moradores desse ‘refúgio dos infelizes’, segundo Barreto (em Clara dos Anjos).


Lima Barreto foi sua primeira grande influência. Mais tarde adotaria como modelo o cronista João do Rio. Não fosse uma figura tão isolada dos companheiros de Redação, esse modelo poderia ter sido Ruy Barbosa, que trabalhava no Diário de Notícias, jornal em que o jovem Orestes Barbosa aprendeu a ser um ‘jornalista de combate’, descobrindo sua vocação para a polêmica. Preso algumas vezes, não se intimidou. Ao contrário: escreveu livros para contar a experiência atrás das grades. Como repórter policial, recebeu ameaças e foi agredido. Escapou de punhais e de capoeiristas, mas não dos presídios em que testemunhou a vida miserável dos proscritos.


Até 1930, ano da Revolução, Orestes Barbosa permaneceu Orestes Barbosa. Depois, ele pode ter inventado uma persona para enriquecer o anedotário. ‘O mais provável é que ele mesmo plantasse algumas sementes e se deliciasse vendo a lenda evoluir’, argumenta o biógrafo, em resposta a uma pergunta do Estado sobre as versões fantasiosas de sua vida, que Orestes não se dava ao trabalho de corrigir. Didier lembra que, em 1936, ele concedeu uma entrevista para a Carioca. Nela, o repórter perguntava se ele havia fugido do seminário, refugiando-se no quartel onde seu pai era major. Orestes desconversou, fingiu que não ouviu e respondeu com uma frase de Santo Agostinho: ‘Verdade é o que dá a conhecer o que uma coisa é.’


Sem vocação para a batina, ele estava mais para Agostinho antes da conversão. Freqüentava prostitutas e reclamou das portuguesas quando esteve na terra de Guerra Junqueiro. Voltou, aliás, frustrado por não poder entrevistar o poeta, autor de A Velhice do Padre Eterno. Mais ainda por não ter prazer com as ‘vagabundas da Mouraria e da Alfama’, que, segundo ele, nasceram para mães de família, e não ‘depravadas como as francesas’. Ele diz isso numa das crônicas de Portugal de Perto! (em 1923!), que os lusitanos – com justa razão – abominaram. Orestes não gostava dos portugueses e os portugueses não gostavam de Orestes. Didier cita uma passagem da crônica Mendiga, que integra o livro e justifica a razão da mútua antipatia. O brasileiro acusa os lusitanos de indiferentes à miséria. Não contente, ainda denuncia a farsa da amizade luso-brasileira no segundo livro sobre o tema, O Português no Brasil, antes de escrever outra obra para defender o indefensável: o Estado Novo de Getúlio. Contradição era com ele mesmo.’




***


O homem que falava carioquês


‘O jornalista Sérgio Augusto compara Orestes Barbosa a Vinicius de Moraes, cujo pai, aliás, teria ensinado o garoto da zona norte a ler. A aproximação com o criador dos versos de Garota de Ipanema é perfeita. Vinicius ajudou a formatar a bossa nova, suavizando a música brasileira – até então marcada pelo império do vozeirão e da letra dramática. Orestes tirou o pó da língua, inventando uma forma direta de se comunicar com o leitor, tratando-o não como um parente distante, mas um confidente. Sem muita reverência, ele já começa a carreira, aos 18 anos, como revisor. Embora cometa erros gramaticais a granel e deixe passar outros tantos, Orestes insiste na profissão e estréia com o pé esquerdo, ao denunciar a esculhambação que era o Ministério da Guerra em 1912. Foi o bastante para ter a entrada proibida no prédio ministerial e embarcar na reportagem policial.


De revisor ele passou a repórter do Diário de Notícias no mesmo ano, substituído mais tarde pelo sensacionalista O Século e, depois, pela Gazeta de Notícias, do qual o cronista João do Rio foi diretor. Farejador, foi atrás do ‘caso da hora’ para conquistar os ‘deuses’ dos seus ‘devaneios infantis’. Um deles era, evidentemente, o autor do livro A Alma Encantadora das Ruas, João do Rio. Nele, o escritor recomenda a quem queira compreender a psicologia do homem comum que seja um vagabundo curioso, disposto a praticar ‘o mais interessante dos esportes’, a arte de flanar. Nas reportagens de Orestes para a Gazeta, são os tipos populares que dominam a cena. Mas logo ele descobriria que uma celebridade atrai mais leitores.


A biografia escrita por Didier destaca um dos casos mais rumorosos da carreira do jornalista, a defesa do tenente Dilermando Candido de Assis, o homem que matou Euclides da Cunha. Contra tudo e contra todos, Orestes resolve desmontar a versão oficial e defende que Dilermando foi uma vítima do destino por matar o autor de Os Sertões em legítima defesa. Escândalo nacional. Euclides já era cultuado como um dos nossos maiores escritores após reunir, em sua obra-prima, as reportagens que fez da rebelião de Canudos, em 1897.


Como explicar que um poeta sensível, capaz de escrever a história de uma cabrocha que pisa nos astros refletidos no chão de um barracão de zinco, possa ter embarcado na reportagem sensacionalista? O biógrafo Didier recorre a José do Patrocínio Filho. Em Cronista da Casa Silenciosa, o filho do abolicionista justifica que, aos debutantes, como Orestes Barbosa, só restava o recurso de entrar para os pequenos jornais que vivem da difamação e do escândalo. A resposta de Patrocínio Filho ainda assim é insatisfatória. Mesmo nos romances, como A Fêmea, que inaugura um gênero (a mistura de fato e ficção, memória e invenção), o objetivo claro de Orestes parece mesmo o de chocar burgueses escandalizáveis e comprometer moralmente figuras públicas, como o escritor Júlio César de Mello e Souza (mais conhecido como Malba Tahan)- que, compreensível, querem surrar e processar o atrevido. O escândalo, no entanto, rendeu. Em 1924, a edição do livro com a história da paixão adúltera do jornalista Lauro Bragança (alter ego de Orestes) pela tuberculosa Noemia esgotou em três dias.


Mulherengo e briguento, Orestes andava sempre com a bengala pronta para o ataque – como o escritor que recentemente agrediu José Dirceu. Para garantir, ainda levava o revólver e um punhal. Adorava um caso passional, sendo o seu preferido o do ‘pierrô verde’, a história do espanhol Manoel Martinez que, num dia de carnaval, matou a mulher a punhaladas em Copacabana. Ao entrevistá-lo na prisão, em 1926, antecipando-se em muitos anos ao Truman Capote de A Sangue Frio, Orestes perguntou se ele a amava. A resposta: ‘Matei! Sem aquele sorriso, sem aquela mulher, por que viver?’ ‘Então, por que não se matou?’, retrucou o repórter. ‘Acha?’, respondeu o assassino. Para o poeta, a resposta era puro Oscar Wilde. Todo homem mata o objeto da sua paixão e, ao fazê-lo, decreta a própria morte.


Didier define seu biografado como um homem amargurado. ‘Resisti à idéia de recorrer à psicologia, mas não deu para escapar de Freud’, resume. O escritor seria um angustiado, que, ao deixar a vida pública e se refugiar em Paquetá, assinou seu atestado de morte social. ‘Orestes é uma aula de como o ser humano funciona ao contrário, de como é preciso que ele enfrente adversidades para ultrapassar limites’, diz. Sua obra se confunde com a vida justamente em função de tais dificuldades. ‘Desde o primeiro livro de poesia os críticos já notavam uma certa melancolia que se acentuou com o tempo.’ E uma certa mitomania também. Já aposentado, deu entrevistas em que inventou ser arrimo de família e filho único de um pai, oficial do Exército, que morreu cedo. Caetano Barbosa, lembra o biógrafo, era oficial da PM e morreu velho. O biógrafo diz se tratar de um fato isolado, que não caracteriza mitomania. José do Patrocínio Filho, sim, segundo ele, era um mentiroso contumaz.


Verdadeira mesma era sua solidariedade aos proscritos. Entre seus livros sobre a vida na prisão e a mudança do perfil do malandro carioca (respectivamente Na Prisão e Ban-Ban-Ban) ele, segundo seu biógrafo, endireita a roupa e confunde-se com a população, ao defender que há criminosos de alma nobre. Um ano depois de Ban-Ban-Ban, isto é, em 1924, o presidente Artur Bernardes assinou um decreto concedendo livramento condicional a condenados com penas leves. As denúncias de que as famílias dos presidiários agonizam aqui fora e se corrompem por falta de assistência do Estado funcionou. Nunca é demais lembrar que há 82 anos ele já alertava que a sociedade brasileira estava entrando num labirinto onde o ódio domina tudo e o crime vira a razão de ser do povo. Antes dele, seu mestre e sombra João do Rio, disse praticamente o mesmo. Mas o Brasil não quis ouvir.’




***


Pesquisa chega a detalhes, mas evita Freud


‘A biografia escrita por Carlos Didier é resultado de uma pesquisa minuciosa da vida de Orestes Barbosa. E quando se diz minuciosa é preciso destacar que em poucas obras do gênero um biógrafo arriscaria escrever que seu personagem, numa viagem a Lisboa, saiu de tal lugar às 2 da madrugada, desceu tal rua, jantou num restaurante perto do Rossio, comeu bife e bebeu vinho. É preciso ler tudo, absolutamente tudo sobre o biografado para conhecer esses detalhes. E Didier leu. Mais de 300 livros sobre Orestes e o Rio de Janeiro de sua época, auxiliado com uma bolsa da Fundação Vitae. ‘Minha idéia era fazer a pesquisa e escrever em dois anos’, conta. Gastou 12 até reunir todos os documentos e informações necessários.


É certo que as pesquisas para a biografia de Noel Rosa há 15 anos ajudaram um bocado, mas os remanescentes da época de Orestes não puderam colaborar na nova empreitada. Nássara já estava fazendo hora extra no planeta e seus contemporâneos tampouco se sentiam lá muito bem. A alternativa foi uma pesquisa solitária, em que o biógrafo acabou descobrindo que um certo Luís Peralta era, na verdade, pseudônimo do criador de Chão de Estrelas. Tal descoberta se deu ao cruzar crônicas no computador (Didier localizou uma delas, de 1912, assinada com nome inventado e publicada posteriormente no livro Ban-Ban-Ban).


Outro mito desfeito pela biografia é o do suposto desleixo do biografado. O pesquisador cita o caso do livro Samba – Suas Histórias, Seus Poetas, Seus Músicos, Seus Cantores que, lançado em 1933, figura como um estudo rigoroso e pioneiro sobre o gênero musical. Ao contrário do autor do prefácio de Samba, o jornalista Martins Castello, Didier não considera a obra um ‘estudo melódico e definitivo’. Concorda, sim, que é poético e pioneiro, acrescentando que se trata mais de uma crônica sobre o Rio que de um livro sobre samba. O andar da carioca, a ginga do malandro, o nacionalismo e o combate à tradição, entre outros temas, têm igual peso no corpo do texto.


Combatente, ‘ma non troppo’, o Orestes político é visto com mais reserva, embora nunca julgado pelo biógrafo. É o caso, por exemplo, de sua controvertida parceria com Pandiá Pires na feitura de Não se Compra Entrada na História, livro que celebra o Estado Novo e garantiu ao oportunista Pandiá um bom lugar de procurador no Ministério da Fazenda e o cargo de diretor da Rádio Nacional. Segundo Didier, a obra não pretendeu biografar Getúlio Vargas nem explicar sua chegada ao poder, mas ‘divulgar as conquistas da revolução e justificar a implantação do Estado Novo’.


De acordo com o livro de Orestes e Pandiá, o Estado Novo, ao se opor ao comunismo e ao fascismo, para implantar um nacionalismo forte, permitiria dar um ‘salto’ na história. Um salto que foi dado com a ajuda americana, a dupla de oportunistas não se esqueceu de repisar, citando a viagem de dom Pedro II aos EUA (‘para beber democracia’) e a cópia do modelo da Constituição americana de 1891 por Ruy Barbosa.


Didier cansou de passar as tardes na confeitaria Colombo à espera de Pandiá, que morreu sem dar entrevista ao biógrafo, mas ele garante que a participação de Orestes na elaboração do texto é clara. Pelo estilo, capítulos inteiros foram escritos por ele, que, como se sabe, apoiava as idéias de Vargas e não era nada simpático aos comunistas. Tanto é verdade que Didier cita uma crítica aos marxistas feita dois anos antes da implantação do Partido Comunista. Nela, o jornalista e compositor define os militantes como gente de boas roupas que conta com proteção policial, enquanto o operariado ‘pega no pesado’.


A imagem que fica do criador da letra de Chão de Estrelas é a de um homem que viveu em conflito a vida inteira, dividido entre a crítica ao positivismo (título de um famoso samba em parceria com Noel Rosa) e uma vontade genuína de gozar a vida. Didier resistiu à tentação de jogar Orestes no divã de Freud, mas arrisca um palpite sobre o silêncio dos anos finais em Paquetá: ‘Ele não se reconhecia mais nesse Rio, que não era mais uma viagem da zona norte ao centro.’ Orestes, conclui o biógrafo, ‘ encolheu, fechou-se em sua concha’.’



BBB 6
Daniel Hessel Teich


Big Brother sai da TV, ganha as ruas e vira bom negócio no Brasil


‘No livro 1984 , do inglês George Orwell, as pessoas são vigiadas por um sistema opressor e tirano que controla a tudo e a todos por meio de um aparelho chamado teletela – mistura de câmeras com telas de TV. Por todo o livro, o angustiado personagem principal, Winston Smith, tenta descobrir formas de burlar essas onipresentes engenhocas que não são desligadas jamais. No mundo real de 2006, a convivência com câmeras de vigilância é muito mais amigável.


A indústria do Big Brother não tem números oficiais no País mas algumas empresas dizem que o negócio de segurança eletrônica, incluindo alarmes, câmeras e serviços de monitoramento, movimentou R$ 900 milhões em 2004. Considerando-se instalações de infra-estrutura, como cabeamento de fibra ótica, esse valor pode ser multiplicado por até cinco vezes. Multinacionais do porte da alemã Bosch, das a americanas GE e Honeywell e empresas locais como a Comtex disputam o novo filé mignon desse mercado, que é a instalação de sistemas públicos de vigilância.


‘Em vez de considerarem as câmeras uma invasão de privacidade, as pessoas se sentem seguras onde existem esses equipamentos, principalmente num país onde a questão de segurança é tão importante como o Brasil’, diz o gerente de Projetos e Sistemas de Segurança da Bosch, Marcos Menezes.


O mercado brasileiro de sistemas digitais de segurança é tão promissor para a empresa que ela se tornou uma das raras multinacionais a montar uma divisão especificamente para cuidar da área. Outras empresas mantêm apenas representantes e área de assistência técnica.


Para a Bosch, o mercado de sistemas de segurança pública é o mais significativo de todos. A empresa equipa cerca de 80% dos aeroportos do País e ainda é responsável pelas câmeras do sistema de vigilância instalado no centro de Curitiba.


Tome-se o exemplo de Praia Grande, no litoral paulista. Com 190 mil habitantes a cidade teve um dos piores índices de criminalidade do Estado em uma pesquisa do Instituto Fernand Braudel em 2002. A prefeitura decidiu apelar para a eletrônica para resolver o problema, instalando 1,2 mil câmeras de segurança tanto em prédios públicos como na orla marítima. Só para a temporada 2006 foram instaladas 423 aparelhos. Valor da conta: R$ 6,5 milhões.


‘Viramos uma espécie de referência para os fabricantes desse tipo de produto. Hoje, cada um vem bater na nossa porta para mostrar uma câmera mais moderna e avançada que o do concorrente, mesmo porque esse é um tipo de tecnologia que precisa de constante atualização’, diz José Marques Trovão Neto, subsecretário de Segurança da prefeitura. É uma disputa agressiva. Atualmente, de acordo com o subsecretário, já está em teste na cidade uma câmera de última geração da Bosch que já está de olho na possibilidade de substituir as câmeras recém-instaladas pela nacional Comtex, sediada Petrópolis.


No Rio de Janeiro, o projeto de vigilância eletrônica é bem mais ambicioso. O número de câmeras é bem menor que o do balneário paulista, só 220, mas conta com uma estrutura de apoio que interliga polícias Militar e Civil, Corpo de Bombeiros e Defesa Civil num amplo projeto de gestão de crise inspirado no programa criado na Grécia para as Olimpíadas de Atenas. O objetivo é deixar tudo pronto até o fim do ano para os Jogos Pan Americanos de 2007. A conta do projeto é de R$ 52 milhões, dos quais o governo já arcou com R$ 12 milhões para a instalação de um grande centro de monitoramento inaugurado em junho e de 38 câmeras nos bairros de Copacabana, Leblon e Ilha do Governador. Outros R$ 20 milhões virão de uma parceria com a Embratel, que graças a uma nova lei poderá investir no projeto parte do dinheiro que seria recolhido como ICMS. O compromisso da gigante de telefonia é instalar 10 câmeras em 19 áreas da cidade. ‘Esse é um mercado que cresce assustadoramente’, diz Isídio Pitini Filho, diretor-industrial da Comtex, que instalará as câmeras no Rio . A empresa também já equipou áreas públicas de Sorocaba (SP) e Juiz de Fora (MG).


Segundo os dados de Menezes, da Bosch, mesmo com a demanda aquecida do mercado de segurança pública, nos próximos três anos, as empresas que fornecem sistemas eletrônicos de vigilância atenderão a apenas 5% da demanda existente. ‘Isso dá a medida do potencial.’


Além da área pública, o setor de vigilância eletrônica é promissor em outros segmentos. Um deles é a segurança doméstica e comercial. Estima-se que apenas em São Paulo existam 460 mil prédios monitorados por sistemas de vigilância com câmeras e alarmes, menos de 10% dos potenciais 5,1 milhões de prédios que poderiam ter esse tipo de equipamento.


Na área bancária foram investidos em 2005 R$ 400 milhões só em segurança eletrônica, segundo os dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Na área de varejo, outro mercado-chave, a Federação do Comércio do Rio de Janeiro estima que tenham sido gastos em segurança eletrônica no ano passado pelos supermercados, armazéns, empórios e lojas do Estado cerca de 2,5% do total faturado.


‘O mais importante do setor de segurança eletrônica é a convergência que começa a existir entre as áreas de equipamentos, tecnologia de informação e telecomunicações’, explica Menezes. ‘Hoje existem câmeras que acompanham automaticamente um pessoa caminhando pela rua ou equipamentos extremamente simples que transmitem imagens digitais para monitoramento em rede pela internet’,diz o executivo da Bosch. Nem Orwell imaginou que as teletelas pudessem ir tão longe.’




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O Estado de S. Paulo


Sábado, 14 janeiro de 2006




POLÊMICA CULTURAL
Jotabê Medeiros


‘Críticas do Gullar são muito genéricas, no vácuo’


‘No Ceará para inaugurar obras de restauro em Icó (370 quilômetros de Fortaleza) e para o ato simbólico de tombamento da casa de Antonio Conselheiro em Quixeramobim (220 quilômetros de Fortaleza), o ministro da Cultura, Gilberto Gil, foi ovacionado ao cantar na praça de Icó para 6 mil pessoas, acompanhado de um sanfoneiro. Em meio a canjas, afagos do povo e cumprimentos de políticos, ele falou ao Estado sobre as críticas que sua gestão tem recebido de estrelas da cultura – entre elas, seu amigo Caetano Veloso. Gil demonstrou satisfação com o desempenho da pasta. ‘Gastamos 99,5%, cerca de R$ 400 milhões do nosso orçamento, superamos nosso índice de 2005. Talvez sejamos o ministério com o maior índice da Esplanada’.


As críticas que estão surgindo contra o Ministério da Cultura vêm de diversas áreas. Do teatro, com o Paulo Autran, da literatura, com o Ferreira Gullar, agora veio o Caetano, o Luiz Carlos Barreto… O Ferreira Gullar não fez crítica como literato. Ele nem mesmo disse assim: a política do livro, da leitura, de bibliotecas… Eu o vi dizendo que tem informações de que os projetos não andam, de que o Ministério da Cultura propôs e apoiou a criação do Conselho de Jornalismo – coisa que nem se deu, não é nem fato. As críticas eram muito genéricas, no vácuo. Uma das queixas que eu poderia ter a um certo conjunto de críticas é a falta de qualificação delas.


Quando seu ministério recebe a pecha de autoritarismo, como reage?


Eu fico pedindo explicações a respeito disso. Onde é que está a centralização? Onde é que se identifica isso? Que ações do ministério podem indicar um desejo que seja de uma ação centralizadora? A gente está tentando redistribuir fluxos de verbas pelo País inteiro, e estamos conseguindo. Aumentamos a presença da lei de incentivo no País inteiro, no Centro-Oeste, no Norte. As políticas do audiovisual estão se espalhando pelas cidades. As políticas de museus estão se estendendo desde Corumbá, do interior de Minas, e também por São Paulo, Rio. O que é que é centralização?


Há de fato uma ênfase maior nos projetos alternativos, como se acusa o MinC?


Nós criamos políticas públicas para atender à formação de platéias, de novos talentos, não necessariamente desatendendo a outros setores. Quem é que atendia tradicionalmente ao grande teatro ou ao grande cinema? Não eram os recursos do Fundo Nacional de Cultura, nunca foram. Eram as estatais, grandes companhias privadas, institutos, bancos. Isso continua existindo. Se você passa a praticar políticas públicas com editais, concursos, com competição saudável entre os postulantes, isso traz equilíbrio.


E a crítica de Caetano Veloso?


Caetano acha que você não pode punir setores que conseguiram uma acumulação significativa na produção cultural do País através de um modelo de acesso direto a recursos. Não pode punir esses setores com uma democratização via editais, via mecanismos de abrangência, tem de fazer as duas coisas ao mesmo tempo, buscar equilíbrio. Mas fico me perguntando: quais os grandes recursos do MinC que estão sendo desviados para essas áreas de atendimento mais universal? As estatais que financiavam o cinema continuam fazendo, só criaram conselhos, comissões julgadores, estão avaliando. Acho que Caetano acompanha bem. Dá preferência ao setor do audiovisual, do qual está próximo, com o qual teve envolvimento a partir da mulher, Paulinha (Lavigne), que é produtora de cinema. Não vi Caetano se referir à política de museus, do livro, da leitura. Fez elogios à política digital, à política geral de propriedade intelectual. As críticas de Caetano buscam uma qualificação cada vez maior. Não pertence a esse conjunto de críticas desqualificadas.


Em nenhum momento o sr. viu endereçamento político nas críticas?


Não me interessa. Não é para isso que estou no ministério. Estou lá para realizar um trabalho. Não é porque se está em ano eleitoral que vão usar críticas ao governo como instrumento de política eleitoral. O presidente Lula não vai permitir que seus ministros façam política, não é justo. Portanto a oposição também não pode querer, para poder justificar sua ação política.


Quando seu assessor Sérgio Sá Leitão respondeu às críticas, ele também não incorreu no erro de politizar essas questões?


Acho que sim, um pouco. Mas não acho que as críticas, mesmo que justas, ao que ele fez justifiquem uma demissão ou coisa desse tipo.’


UM HOMEM CHAMADO MARIA
Ubiratan Brasil


Livro resgata as paixões de Maria


‘Em seu recente Quase Tudo (Companhia das Letras), a colunista Danuza Leão retrata com um misto de paixão e apreensão sua relação com o jornalista Antônio Maria (1921-1964), por quem se apaixonou em 1960, um escândalo para a época. Afinal, ela trocara Samuel Wainer, o todo-poderoso dono do jornal Última Hora, homem refinado e influente, por um de seus empregados, o colunista da seção Romance Policial de Copacabana, um pernambucano mulato, gordo, mal vestido, que suava muito mas era imbatível na lábia e na escrita. Para muitos, uma comprovação de que o amor pode realmente ser cego.


Danuza, porém, via nele um homem de personalidade exuberante, inteligente, sensível. A moldura de um quadro tão perfeito só começou a rachar quando Maria passou a mostrar sinais de ciúme doentio, capaz de protagonizar cenas absurdas como lhe dar bronca por se ‘exibir’ para o locutor quando passava de trajes íntimos em frente do aparelho de televisão. ‘Danuza flagra uma relação de casamento por dentro com uma sinceridade poucas vezes vista em pessoas tão famosas’, observa, em entrevista ao Estado, o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, autor de Um Homem Chamado Maria (Relume Dumará), primoroso trabalho biográfico do cronista. ‘Mas ela ressalta apenas os problemas dessa relação.’


Lançado em 1996 e há cinco anos esgotado, Um Homem Chamado Maria volta na quinta-feira às livrarias, agora sob a chancela da editora Objetiva (192 págs., R$ 33), acrescido de mais 50 páginas. É que Santos, responsável por uma coluna diária no jornal O Globo, aproveitou para conversar com amigos de Maria, que estranharam o perfil do cronista delineado por Danuza – segundo ele, Maria se isolara deles.


O material faz a diferença na nova versão do livro, escrito em texto refinado. A maior revelação, que Danuza omitiu em seu texto, é sobre a gravidez descoberta quando já estavam separados. Em férias em Paris, ela preferiu não se pronunciar sobre a obra, mas concorda com o homem traçado por Santos, um dos melhores cronistas brasileiros, pioneiro na televisão e parceiro de músicos em canções famosas como Ninguém me Ama ou Manhã de Carnaval, homem, enfim, como ele mesmo gostava de dizer, com duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar durante a vida inteira.


Por que a inclusão dessas novas 50 páginas em Um Homem Chamado Maria? Por que não constavam na edição original?


Desde a publicação da primeira edição do perfil de Antônio Maria, em 1996, surgiram muitas informações novas. Uma biografia é obra em constante reavaliação. É natural que surjam personagens dos bastidores da vida do focalizado com dados que numa primeira passagem ficaram de fora. Quando eu lancei o perfil de Maria, ele estava esquecido. Nenhum livro nas livrarias. Hoje ele tem três, mais a biografia. Uma fonte importante de informação foi o diário íntimo que ele escreveu a partir de 1957 e só em 2003 foi revelado pela família. Tive acesso a novos depoimentos de amigos, parentes, e no ano passado Danuza Leão, uma de suas mulheres, lançou uma biografia com novas luzes sobre a relação dos dois. Entrevistei Danuza e consegui informações, dramáticas, que ela preferiu não colocar no livro dela. Consegui também cartas inéditas de Maria, publiquei dois livros de crônicas dele, recuperando inclusive seu lado de grande escritor de humor. O perfil de 1996 estava esgotado, depois de vender 10 mil exemplares. Acho que hoje há muito mais interesse sobre Maria do que em 1996 e uma necessidade de levar sua vida aos leitores. Antes, as listas de cronistas clássicos parava nos mineiros. Agora todas, sem exceção, incluem Maria também.


Como você analisa a forma como Maria é apresentado no livro de Danuza Leão?


É a visão da Danuza, e não tem ninguém que possa analisar as cenas que ela narra. Maria, o outro que poderia, está morto desde 1964. Acho um livro extraordinário, de grande sensibilidade e texto de primeira. Flagra uma relação de casamento por dentro com uma sinceridade poucas vezes vista em pessoas tão famosas. Na visão de Danuza, Maria se sai extremamente mal. Um possessivo, ciumento. Todos achavam que eles tinham vivido um dos maiores romances do século. Ela agora diz que foi contrário e confirma a frase do Millôr: como são felizes esses casais que a gente não conhece bem. No livro, dou a versão dos amigos do Maria, que acusam Danuza de ter transformado Maria em outro homem. Falei também com gente surpresa de ela ter revelado apenas o lado complicado da relação. Pelo menos em público, as cenas eram de grande ternura.


Maria morreu mesmo de amor?


Maria morreu de um pacote de complicações. Era gordo, não se cuidava, adorava comida gordurosa, tinha tido um enfarte, trabalhava feito um louco. Ser abandonado pela mulher também não ajuda nada, mas ele antecipou seu fim trágico. Não foi por falta de aviso. Os médicos alertavam, ele mesmo cansou de escrever sobre sua cardiodisplicência. A chamada morte anunciada.


E a relação de Maria com a bossa nova? Teria sido ele um pré-bossa-novista?


Maria fazia samba-canção sofisticado num momento em que Tom Jobim também estava nessa. Eram todos personagens das músicas de boate do Rio do início dos anos 1950, todos tentando descobrir uma coisa nova, mas que ninguém conseguiu saber direito o que era até que João (Gilberto) tocasse no violão. Maria foi escolhido como alvo da bossa nova, principalmente por causa da frase ‘ninguém me ama ninguém me quer’. A bossa nova era de garotões da zona sul que pegavam todas as garotas. ‘Todas me amam, todas me querem’. Era o contrário. Acho que em breve, se Maria tivesse mais tempo, se encontrariam. Maria era amigo de Vinicius, tem composições com Bonfá que são tipicamente bossa nova. Sinfonia de Uma Cidade também tem um brilho solar da bossa nova. Maria era um cara invocado, brigou com Ronaldo Bôscoli, que era outro e, machões típicos dos anos 1950, se tornaram inimigos mortais. Bobagem. Iam acabar se aproximando. As letras do Maria tinham uma sofisticação que cabia na bossa nova. Mas não se esqueçam também que ele era mulato, nordestino, gordão e a turma da bossa nova era de garoto zona sul que fazia pesca submarina.


Como foi trabalhar com a escassez de maiores referências sobre Maria?


Fiz um perfil, mais do que uma biografia. Não sou leitor de biografias clássicas. Acho que enchem o leitor de um acúmulo de detalhes que atravancam o progresso da leitura. Fiz um perfil, ou seja: Maria está lá com tudo que lhe é de direito, com todas as informações básicas sobre sua vida e obra. Mas sem aborrecer o leitor com minúcias da infância, o nome do garçom que lhe serviu o primeiro drinque no Vogue. Tentei valorizar as informações mais saborosas e preciosas para que a leitura ficasse agradável. Não queria fazer uma biografia em que o leitor fica pulando trechos para ir ao que interessa. Tive muitas informações sobre Maria, a família foi gentil no acesso aos dados, os amigos ainda estão vivos por aí. Não tenho do que reclamar. Mas preferi apresentar a vida do gordo de um jeito mais seco e sem a impostação da biografia minuciosa em que o biógrafo está mais preocupado em exibir a pesquisa do que dar prazer ao leitor.


Restou pouco do tudo que Maria criou, mas, mesmo assim, ele continua como uma forte referência cultural. Como explicar isso?


A obra do Maria cronista e músico é bem conhecida. Eu gostaria de publicar novas seleções de crônicas dele. Caetano Veloso gravou recentemente Manhã de Carnaval. Valsa de Uma Cidade foi eleita num concurso do noticiário RJTV a música mais bonita sobre o Rio de Janeiro. É uma pena que tenham desaparecido seus programas de televisão. Não há imagens de Maria em cena. Foi um grande homem de rádio, e há fitas em lojas do Rio com alguns de seus programas. Era um profissional do texto. Tudo que escreveu, com exceção do diário, tinha um editor fungando no cangote como inspiração. Não deixou baú de inéditos. Deixou milhares de crônicas, quase todas com algum interesse para os que gostam do bom texto leve e sentimental que caracteriza a crônica brasileira.’




JORNALISMO LITERÁRIO
Luiz Zanin Oricchio


Antologia traz crônicas e contos do pioneiro João do Rio


‘Já se disse que a crônica é um gênero tipicamente brasileiro. Esse tipo de escrita descompromissada, uma quase conversa com o leitor, sem objeto fixo, meio ao sabor dos acontecimentos, mas também da memória e da sensibilidade do autor, é, como diria Noel Rosa, ‘coisa nossa’. Noel, aliás, foi um imenso cronista musical. No âmbito jornalístico, propriamente dito, quem fala em crônica se obriga a lembrar de João do Rio, o provável patrono desse gênero nacional. Sai agora, pela José Olympio Editora, uma excelente coletânea de textos de João do Rio.


A antologia apresenta uma série de crônicas e contos, além de reportagens. Quer dizer, ficção e jornalismo. Mas, no caso de João do Rio, a distância entre esses dois gêneros tendia a ser encurtada, quando não abolida. Muito antes que se falasse em ‘jornalismo literário’, gênero que se considera tipicamente americano, João do Rio já o praticava. Ou praticava coisa semelhante. Não hesitava em tratar de maneira literária os assuntos jornalísticos e vice-versa.


No texto introdutório, Luís Martins faz uma pequena biografia de João do Rio, cujo nome verdadeiro era João Paulo Alberto Coelho Barreto. Carioca, nasceu no dia 5 de agosto de 1881 e morreu 39 anos depois, em 1921. João do Rio, nom de guerre que adotou em 1900, escreveu muitas crônicas, contos, um romance e entrou para a Academia Brasileira de Letras, ‘numa idade em que a maioria dos escritores lança o livro de estréia’, escreve Martins.


Angariou também muitos amigos e inimigos. Entre seus pares da Academia, era descrito como um perfeito cavalheiro. Mas Antônio Torres o descreve assim, e post mortem, transgredindo o velho preceito de que dos mortos só se diz o bem: ‘Paulo Barreto foi uma das criaturas mais vis, um dos caracteres mais baixos, uma das larvas mais nojentas que eu tenho conhecido.’


João do Rio era um dândi numa cidade que se tornava metrópole. ‘O Rio civiliza-se’, era o mote de então, afirmação orgulhosa de uma cidade à européia, que se urbanizava com as obras de Pereira Passos e vivia intensamente a sua belle époque.


Nada escapava à observação desse flâneur. João do Rio passeava pelas ruas da cidade, entrava nas casas, freqüentava a sociedade. E transcrevia o que seus olhos viam e seus ouvidos escutavam em textos límpidos, às vezes cheios de ironia. Olhava os pobres (A Fome Negra) e os trabalhadores humildes (Velhos Cocheiros); notava que o progresso técnico introduzia novidades na convivência urbana (A Era do Automóvel) e que os costumes iam mudando até mesmo na prática esportiva (Hora de Futebol).


Esse texto, aliás, é precioso para quem se interessa pela história do nosso esporte mais popular. João do Rio o escreve em 1916, e o pretexto é a inauguração do antigo campo do Flamengo, na Rua Paissandu. Um aperitivo do estilo do cronista: ‘Há de fato uma coisa séria para o carioca – o futebol! Tenho assistido a meetings colossais em diversos países, mergulhei no povo de diversos países, nessas grandes festas de saúde, de força e de ar. Mas absolutamente nunca eu vi o fogo, o entusiasmo e a ebriez da multidão assim. Só pensando em antigas leituras, só recordando o Coliseu de Roma e o Hipódromo de Bizâncio.’ Tivesse João do Rio escrito com mais regularidade sobre o futebol e seria precursor direto de Nelson Rodrigues.’




CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA
Taíssa Stivanin


MJ dispõe link de classificação


‘O Ministério da Justiça disponibilizou um link de classificação indicativa automática para filmes em seu site. Basta acessar o endereço www.mj.gov.br/classificacao, entrar em ‘sistema de classificação’ e digitar o nome do filme. Além de dados básicos como título original, ano de produção, elenco e direção, o Ministério indica para qual faixa etária o filme é recomendado, com justificativa.


Nem sempre a recomendação é coerente. A comédia estudantil American Pie – O Casamento, por exemplo, é indicada para quem tem 14 anos ou mais. A justificativa: conflitos psicológicos, insinuações de sexo e temática adolescente.


O Bebê de Rosemary, um filme de suspense de Roman Polansky dos mais tensos da história do cinema, em que a protagonista está grávida do Demônio, recebeu a mesma classificação, também por conter conflitos psicológicos. Carrie, a Estranha, outro filme de terror, é recomendado para quem tem 16 anos. Você pode opinar se concordou ou não com as orientações do Ministério, mas a página não exibe a porcentagem de ‘sims’ e ‘nãos’ que a classificação recebeu.


COLABORADORES


O Ministério da Justiça também está procurando voluntários para analisar programas de TV e outras obras audiovisuais e ajudar na classificação indicativa para a televisão.


O grupo vai auxiliar na determinação de um horário adequado para a exibição das atrações. Os grupos de trabalho atuam principalmente em Brasília, mas pessoas de outros Estados podem participar. Não existem pré-requisitos para participar. Para se candidatar a uma vaga no grupo é preciso preencher um formulário no site e enviá-lo com seu currículo por e-mail para: djctq.snj@mj.gov.’




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