Quarta-feira, 18 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 12 E 13/4

O Estado de S. Paulo

15/04/2008 na edição 481

GOVERNO
Vera Rosa

Lula escala publicitário João Santana para orientar Dilma

‘Preocupado com os efeitos do tiroteio na direção da ministra Dilma Rousseff, escolhida como alvo da oposição após o vazamento de dados sigilosos de gastos do governo Fernando Henrique, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escalou o publicitário João Santana, consultor do governo, para ajudar a ‘mãe do PAC’. Lula avalia que Dilma é ‘vítima’ de conspiração orquestrada por adversários, temperada pela guerra de grupos dentro da Casa Civil, e está disposto a defendê-la não só nos palanques domésticos como no exterior.

‘Não sei qual o incômodo que as pessoas podem ter com a Dilma’, afirmou o presidente, ontem, durante entrevista em Haia, na Holanda. Ao ser questionado se a chefe da Casa Civil ainda está forte, Lula respondeu com outra pergunta: ‘E qual a razão para ela não estar forte?’ Com um discurso recheado de elogios à ministra, o presidente insistiu em que Dilma é ‘extremamente importante’, além de ‘coordenadora excepcional’, com ‘função primordial’ no governo. ‘É a mulher que faz o PAC acontecer 24 horas por dia, e por isso eu disse que ela é a mãe do PAC.’

Lula sabe, porém, que o episódio do dossiê – chamado no Planalto de ‘banco de dados’ – causou grande desgaste à imagem da ministra, que, apesar da turbulência, continua sua favorita para disputar a sucessão presidencial de 2010. Foi para blindá-la que ele pediu a assessoria de Santana. O marqueteiro dá orientações a Dilma desde o lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em janeiro de 2007. A crise do dossiê, porém, aproximou ainda mais os dois.

Santana aconselhou Dilma a sair da defensiva e enfrentar a oposição: ontem mesmo, a ministra mandou ofício à Comissão de Infra-Estrutura do Senado, aceitando prestar esclarecimentos sobre a usina hidrelétrica de Belo Monte e as obras do PAC. O publicitário também orientou a chefe da Casa Civil a manter sua agenda administrativa como gerente do PAC.

Vestindo esse figurino, Dilma participará da abertura do encontro de prefeitos do PT, na segunda-feira, em Brasília. Três dias depois, acompanhará Lula na viagem a Belo Horizonte para inaugurar novo lote de obras do PAC.

Mesmo assim, o governo vai tirar Dilma da vitrine eleitoral até a temperatura da CPI dos Cartões baixar. ‘Dilma exerce uma função primordial no governo como coordenadora da administração, das execuções dos projetos, e faz isso com uma competência que, eu diria, poucas pessoas são capazes de fazer’, argumentou Lula. Ao destacar que a ministra continua forte, ele também fez uma deferência a Dilma, bastante diferente daquela prestada ao ex-poderoso ministro José Dirceu, abatido pelo escândalo do mensalão, em 2005. Motivo: lembrou que sempre dizia não existir ministro forte no regime presidencialista.

O vazamento de dados secretos do governo FHC agravou a briga de grupos no Planalto, como revelou o Estado ontem. Em conversas reservadas, servidores ligados a Dirceu afirmam que Dilma berra, humilha e distribuiu broncas na Casa Civil. Segundo eles, os ataques de nervos atingem não apenas funcionários como importantes secretários e ministros. Sustentam, ainda, que a secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra, cumpriu ordem de Dilma para montar o dossiê antitucano e repassou a determinação aos subordinados.

Na outra ponta, funcionários mais afinados com Dilma querem jogar a crise no colo do secretário de Controle Interno da Casa Civil, José Aparecido Nunes Pires, auditor do Tribunal de Contas da União (TCU), levado para o cargo por Dirceu em janeiro de 2003.

Em mais um dia sem dar entrevistas, sob alegação de que só falará depois de concluída a investigação da Polícia Federal sobre o vazamento do ‘banco de dados’, Dilma viajou ontem para Porto Alegre, enquanto a agenda divulgada à imprensa garantia que ela passaria o dia em ‘despachos internos’.’

 

PARANÁ
O Estado de S. Paulo

Requião vai ao STF contra veto a TV

‘O governador do Paraná, Roberto Requião, do PMDB, ajuizou no Supremo Tribunal Federal recurso contra o Tribunal Regional Federal da 4ª Região e um desembargador que determinaram que a Rádio e TV Educativa do Paraná – e mais especificamente o programa Escola de Governo – não divulgassem manifestação do governador. Segundo Requião, a medida é inconstitucional pois ‘contraria a livre manifestação do pensamento’.’

 

TV PÚBLICA
O Estado de S. Paulo

Estréia novo âncora da TV Brasil

‘Dez dias após a demissão do jornalista Luiz Lobo, que denunciou suposta interferência do Palácio do Planalto nas reportagens do Repórter Brasil, o noticiário noturno da estatal TV Brasil estreará na segunda-feira nova editora-chefe em Brasília e um terceiro âncora em São Paulo. A jornalista Antonieta Goulart assumirá a chefia do telejornal e, na bancada de apresentador, Lincoln Macário substituirá Lobo.’

 

CUBA
O Estado de S. Paulo

Fidel alerta para ‘retrocesso’

‘O líder cubano Fidel Castro fez um alerta à população da ilha de que uma volta ao capitalismo eliminaria os ganhos sociais de sua ‘revolução’. Num artigo publicado no jornal oficial ?Granma?, Fidel lembrou as grandes fortunas e desigualdades que hoje existem na Romênia para criticar os ‘teóricos do acesso fácil’ aos bens de consumo, ‘que também existem em Cuba’, e os que ‘se rendem ao culto do egoísmo’. ‘Olhos e ouvidos imperiais estão atentos a esses sonhos’, afirma Fidel no artigo ‘Bush, os milionários, o consumismo e o subconsumismo’.

‘Recordemos que a Romênia era um país socialista onde havia petróleo e uma indústria petroquímica bastante desenvolvida, solos generosos e clima propício para a produção de alimentos’, disse Fidel – afastado do poder desde julho de 2006, quando se submeteu a uma cirurgia de emergência no intestino.’

 

INVESTIMENTOS
O Estado de S. Paulo

Revista ensina a planejar a aposentadoria na praia

‘Aposentar-se e seguir para merecidos anos de descanso à beira-mar é o sonho de muitos profissionais – mas apenas aqueles que se planejarem conseguirão se mudar em definitivo para a praia. A edição de abril da Revista Estadão Investimentos, a partir de hoje nas bancas, traz um roteiro dos caminhos que conduzem à aposentadoria no litoral.

Escolher o local certo para cada perfil, mostrar a experiência de quem chegou lá, assim como as estratégias recomendadas por economistas e especialistas no mercado imobiliário, fazem parte do roteiro. É preciso levar em conta também a possibilidade de abraçar uma nova atividade remunerada que consuma menos tempo e se preparar para gastos que, após os 60 anos, crescem significativamente em proporção à renda, como com planos de saúde.

‘O planejamento financeiro para a aposentadoria não pode mais ser feito com horizonte de 10 ou 20 anos, mas levando em conta que se vai viver ao menos 30 anos além do tempo de aposentadoria’, afirma o especialista em envelhecimento demográfico Joseph Coughlin, diretor do MITAgeLab, do Massachusetts Institute of Technology.

A conseqüência mais visível, dizem Coughlin e outros especialistas, é que o planejamento para a aposentadoria requer hoje um perfil mais ativo dos poupadores, com maior exposição ao risco, para que os investimentos tenham melhor desempenho. Os fundos de previdência privada são ferramentas importantes, mas devem ser combinados com outros investimentos que apontem para rentabilidade maior no longo prazo, como as ações.

A Revista Estadão Investimentos mostra também o que o investidor deve esperar da Bolsa e dos fundos em tempos de crise. Em entrevista, o economista Gustavo Franco, que presidiu o Banco Central entre 1997 e 1999, avalia que o Brasil, assim como outros países emergentes, está hoje mais firme para agüentar a conjuntura externa desfavorável do que na década passada e que o melhor na Bovespa ainda está por vir.

Estadão Investimentos traz também dicas sobre como arrematar bons imóveis em leilões. Boas pechinchas podem ser encontradas em leilões, mas os riscos devem ser bem estimados para que a promessa de lucro não vire prejuízo.

Uma boa avaliação também é essencial quando se decide comprar uma bela jóia. Especialistas contam os segredos para que esses objetos de desejo tenham efeito duradouro – e não doam no bolso e causem arrependimento pouco tempo depois de adquiridos.

A edição de abril ensina ainda a estabelecer a prioridade para cada momento de vida, seja o planejamento da aposentadoria, a compra do imóvel ou mesmo a aquisição de um sonho de consumo, como uma jóia cara. É essencial estabelecer prioridades, que mudam enormemente conforme a idade e os objetivos de vida.

Consultores em finanças demonstram como conciliar as demandas com as escolhas certas, em relação a investimentos, endividamento, composição de reservas de emergência, educação, entre outros aspectos.’

 

INTERNET
O Estado de S. Paulo

Google ganha com a oferta da Microsoft pelo Yahoo

‘O cerco indesejado da Microsoft ao Yahoo está virando uma novela dramática que, segundo analistas, dá grande vantagem ao rei de buscas na internet – o Google. Enquanto a gigante do software dos EUA diz que o domínio do Google é o motivo pelo qual está ávida para comprar o Yahoo, as tentativas da empresa da Califórnia de afugentar a Microsoft deixam o Google livre para se concentrar em fortalecer sua supremacia.

‘Nossa grande vantagem agora é, que à medida que a situação vai ficando mais confusa, isso parece solidificar o prestígio do Google na indústria’, disse Derek Brown, analista da Cantor Fitzgerald.

Esta semana, foram anunciadas várias manobras da Yahoo para repelir a Microsoft. Na quinta-feira, surgiu a informação de que a Microsoft explora uma aliança com a News Corporation, de Rupert Murdoch. As condições da possível transação incluem uma contribuição em dinheiro da News Corp. para ajudar a comprar a Yahoo e depois incorporar o site de relacionamento MySpace. A aliança seria uma mudança de lado da News Corp., que esteve entre os possíveis salvadores que a Yahoo procurou em busca de socorro, depois que a Microsoft surgiu com uma oferta de US$ 44,6 bilhões em fevereiro.

Neste ínterim, a Yahoo anunciou que iniciará um teste com a AdSense da Google para o serviço de busca, o que, no fundo, significa que a Yahoo está verificando o quão melhor o Google é em gerar dinheiro decorrente de publicidade online.

Os analistas concordam que uma aliança entre Google e Yahoo seria reprimida pelos órgãos de regulamentação dos EUA, já que as duas controlariam cerca de 90% do mercado de anúncios online. ‘A empresa que quer vir em socorro é o Google, mas eles sabem que os responsáveis pela regulamentação explodirão se fizerem isso’, diz o analista da Gartner, Van Baker.

Também circula a notícia de que a Yahoo está se aproximando de um acordo com a America Online para juntar as duas operações de internet, que passam por dificuldades, e assim bloquear a tentativa de aquisição da Microsoft. A Time Warner, dona da AOL, pagaria por uma parcela de 20% da empresa combinada e a Yahoo usaria o dinheiro recomprar ações de seus próprios acionistas, que a Microsoft está ameaçando cortejar.

Se o Yahoo fizer uma aliança com a AOL e depois for comprado pela Microsoft, os recursos conjuntos abarcariam uma formidável área de sites quentes na Web. ‘A Microsoft e a Yahoo podem não ser uma ameaça para o Google, mas se Murdoch entrar no jogo, então será uma ameaça digna de crédito’, disse Enderle.

Na segunda-feira, a Yahoo rejeitou o prazo de três semanas determinado pela Microsoft para aceitar a aquisição. Disse, porém, que está aberta a uma proposta mais ‘adocicada’ da gigante do software ou de outra proponente.

‘Creio que é inevitável’, disse Baker, sobre a aquisição pela Microsoft. ‘Minha preocupação é que a Microsoft estrague tudo, e acabemos com o Google controlando 90% de setor de anúncios de qualquer forma e que a cultura do Yahoo desapareça’.’

 

TELES
Gerusa Marques

Anatel anuncia mudança de regras para permitir compra da BrT pela Oi

‘O presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Ronaldo Sardenberg, disse que em menos de uma semana será divulgada a proposta da agência para as novas regras para a telefonia fixa e mudanças no Plano Geral de Outorgas (PGO).

Em entrevista ontem à Globo News, Sardenberg afirmou que o novo PGO vai demandar contrapartidas das empresas. As mudanças recomendadas pelo Ministério das Comunicações e que estão em estudo pela Anatel viabilizam a eventual compra da Brasil Telecom (BrT) pela Oi.

Segundo Sardenberg, as fusões entre empresas resultam em ganho de escala e ganhos de gestão. ‘De maneira que já há dois tipos de desenvolvimento, em termos de lucratividade e de renda das empresas ,que podem ser partilhados com a sociedade’, afirmou.

Ele ressaltou que há necessidade de atualizar o modelo de telecomunicações porque o setor passou por diversas mudanças desde que as regras atuais foram criadas, em 1997. Sardenberg lembrou que hoje o Brasil é o quinto mercado mundial no setor de telefonia, com 35 milhões de linhas fixas e mais 120 milhões de celulares.

‘As coisas vão mudando. Não podemos continuar com um modelo simples, de um país que estava implementando a telefonia pela primeira vez na história, para valer, em termos de massa. Hoje a telefonia está massificada.’

Ele também defendeu uma maior participação das empresas de telefonia em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias.

‘Esse esforço deve chegar ao mercado e, portanto, contribuir para baixar os preços’. Ele ponderou, no entanto, que ainda não está certo o que vai ser exigido no Plano Geral de Outorgas.

Na avaliação de Sardenberg há hoje no mercado brasileiro dois grupos grandes (Telefônica e Embratel) e dois pequenos, referindo-se à Oi e à BrT. Se houver a fusão entre Oi e BrT, segundo ele, haverá três grandes grupos. ‘Com três grupos grandes vai haver mais competição do que com dois grupos grandes e dois pequenos. De maneira que esse grupo grande terá melhores condições de competir.’

Sardenberg lembra que a divisão entre esses grupos resulta em uma participação de mercado equivalente para cada um deles. ‘A repartição entre eles é muito próxima de um terço de mercado para cada um. Então, a expectativa é de haverá competição’, afirmou, ressaltando que por meio da competição se baixam preços e melhora-se a qualidade dos serviços.

Os técnicos da Anatel, segundo Sardenberg, estão fazendo uma avaliação dos impactos que as mudanças no PGO terão sobre todo o setor. ‘Estamos fazendo uma avaliação pesada, forte. Estamos verificando regulamento por regulamento, para ver se é preciso mudar ou se é preciso criar regulamentos novos’, disse.’

 

Nilson Brandão Junior

BrOi enfrenta o desafio da fusão

‘O principal desafio depois da venda da Brasil Telecom (BrT) para a Oi, prevista para ser anunciada semana que vem, será a integração de pessoal das duas empresas. A avaliação é de consultores em processos de fusão e de executivos que trabalharam nas duas companhias. Embora as duas empresas não tenham superposição geográfica de atuação, haverá duplicidade de funções em áreas administrativas.

A questão preocupa o governo. Esta semana, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, afirmou que o governo está preocupado em proteger empregos. Perguntado sobre o risco de demissões, o presidente da Oi, Luiz Eduardo Falco, disse que ‘não há sobreposição, é muito pouca’, entre as duas empresas, pouco depois de participar de um evento no Palácio Guanabara, anteontem. Ainda assim, consultores dizem que haverão cortes.

CORTES NA ADMINISTRAÇÃO

A avaliação é que estruturas como de recursos humanos, administrativa, diretorias, financeira, tecnologia da informação tendem a gerar áreas com duplicidade de funções.

‘É na área administrativa em que há mais duplicidade de função. Agora, na linha de frente, na operação e vendas, desde que estejam crescendo, quase nada acontece’, disse um consultor.

Um executivo que trabalhou em uma das empresas diz que o corte nos escritórios deverá acontecer, ainda que leve algum tempo.

‘É uma das grandes vantagens disso tudo’, afirmou. ‘As empresas devem reduzir custos para aumentar a lucratividade’. A Oi, diz ele, tem uma estrutura mais enxuta com funções administrativas centralizadas no Rio, enquanto a BrT tem algumas funções distribuídas regionalmente. A BrT informa que o custo com pessoas vem caindo nos últimos anos e é enxuta, levando em conta a relação pessoal direto e terceirizados sobre a receita líquida.

CALL CENTER

A BrT atua nas regiões Centro-Oeste e Sul e emprega 4.819 pessoas. Levando em conta as outras empresas do grupo, o número de empregados chega a 16.769 pessoas, das quais pouco mais de 10 mil são da Brasil Telecom Call Center. Já a operadora Oi tem 8.776 empregados diretos. Além destes, os trabalhadores indiretos somam 75 mil. Destes, 30 mil são empregados da Contax – empresa de call center controlada pelos mesmos donos da Oi – que trabalham para a operadora. A Contax tem 61.397 mil empregados ao todo e atende outros clientes.

O diretor da consultoria Teleco, Eduardo Tude, argumenta que de fato deverá haver algumas funções administrativas duplicadas. ‘Agora, na maior parte, as empresas atuam em áreas diferentes e a estrutura operacional deve ser mantida.’ Uma fonte que acompanha o negócio cita que outra dificuldade será manter a motivação do pessoal da BrT. ‘É a empresa que vai ser comprada. Sempre há um nível de tensão nesses casos, pessoas com medo de ser demitidas. Afinal, é um processo de fusão’, afirmou.’

 

OLIMPÍADAS
Cláudia Trevisan

China admite pressão em seus atletas

‘A China permitiu ontem que a imprensa estrangeira se aproximasse pela primeira vez de alguns de seus atletas olímpicos e visitasse as instalações do centro de treinamento de judô, lutas, hóquei na grama, handebol, tênis e levantamento de peso. Nas paredes das instalações cobertas estava o slogan de incentivo aos atletas, escrito em enormes ideogramas vermelhos separados por uma bandeira da China: ‘Lutar unidos e arduamente pela glória do país.’

Trazer a ‘glória’ à China é um dos objetivos, de acordo com o vice-presidente do Comitê Olímpico local, Cui Dalin, também o segundo homem na hierarquia do Ministério dos Esportes. Dalin reconheceu que os atletas chineses estão sob enorme pressão pelo fato de a Olimpíada ser disputada no país. Segundo ele, as equipes providenciaram assistência psicológica a seus integrantes e foram orientadas a reduzir o grau de estresse dos grupos.

Ainda que Dalin tenha dito que a busca de medalhas não é o único objetivo da delegação, a ‘glória’ da China será proporcional ao número de vezes que seus atletas subirem ao degrau do pódio olímpico. O vice-ministro se recusou a dizer quantas medalhas a China espera ganhar, mas fez referência a estimativas veiculadas na imprensa estrangeira sobre o número que os americanos, os principais rivais dos anfitriões, podem levar para casa: 42 das 108 medalhas de ouro.

Os chineses vêm subindo no ranking de medalhas de maneira veloz desde os Jogos de Atlanta, em 1996, quando ficaram em quarto lugar, atrás de EUA, Rússia e Alemanha. Em 2000, alcançaram a terceira posição e em Atenas encostaram no número de medalhas de ouro dos Estados Unidos, que definem a classificação final: 32 a 36. No total de medalhas, a diferença foi bem maior: 102 a 63 a favor dos americanos.

A China terá na Olimpíada a maior delegação de sua história, com 580 atletas que competirão nas 28 modalidades. Além de levar a glória para o país, os vencedores receberão prêmios em dinheiro, cujos valores não estão decididos, mas que serão superiores aos pagos em Atenas. Na época, a medalha de ouro foi premiada com 200 mil yuans (R$ 50 mil), a de prata com 120 mil (R$ 30 mil) e a de bronze, com 80 mil (R$ 20 mil).

Separado do Estádio Olímpico por uma das vias expressas de Pequim, o centro de treinamento visitado ontem tem um hotel onde estão hospedados 430 atletas. Segundo Dalin, eles ‘vivem, treinam e comem’ juntos. O local não inclui a maioria das modalidades nas quais os chineses são favoritos, como tênis de mesa, badminton, saltos ornamentais e ginástica.

Cinco atletas chineses participaram da entrevista coletiva ao lado de Dalin. Quando uma jornalista perguntou sobre o impacto dos protestos no percurso da tocha olímpica pelo mundo, a capitã do time de handebol, Liu Yun, disse que os atletas não foram afetados pela polêmica: ‘Toda nossa atenção está voltada para a Olimpíada.’’

 

Ariel Palacios

Tocha tem um raro dia de paz

‘Pela primeira vez desde que saiu de Atenas, a tocha dos Jogos de Pequim conseguiu, ontem, em Buenos Aires, realizar um percurso sem incidentes relevantes, ao contrário do ocorrido em Londres, Paris e San Francisco. Os únicos problemas foram registrados no início do trajeto quando, pouco depois de passar pela Catedral, um manifestante arremessou uma bexiga d?água contra o símbolo olímpico, interceptada por um segurança. Além disso, ocorreram breves trocas de insultos entre manifestantes pró-Tibete e cidadãos chineses residentes em Buenos Aires.

O esquema de segurança para a passagem da tocha, com mais de 5.500 pessoas, superou o que foi implementado para a proteção de diversos estadistas que visitaram a Argentina, incluindo a do então secretário de Estado dos EUA, Alexander Haig, em 1982, em plena Guerra das Malvinas e a do papa João Paulo II, que visitou a Argentina duas vezes nos anos 80.

Ao pé do Obelisco, 300 manifestantes a favor da independência do Tibete, junto com integrantes da seita Falun Gong, seguravam cartazes com fotos de prisioneiros políticos e pessoas torturadas pelo exército chinês. No mesmo local, mais de mil chineses residentes na Argentina, com bandeiras de seu país, esperavam a passagem da tocha, para saudá-la. Portavam cartazes com os dizeres ‘Olimpíadas, te esperamos!??

Ao longo dos quase 14 quilômetros de percurso, a tocha foi carregada por 80 atletas, entre eles Emanuel, o jogador brasileiro de vôlei de praia, que foi a Buenos Aires acompanhado de seu parceiro, Ricardo, a quem presenteou com a tocha que portou. ‘Foi uma experiência totalmente diferente, especial. Ainda posso sentir o cheiro da tocha, mistura de cheiro de tinta nova e combustível??, disse, emocionado, ao Estado. ‘Eu a levei mais ou menos um minuto e meio… mas pareceu que foi muito menos, rápido demais.??

Emanuel começou seu desfile quase na esquina da rua Dorrego com avenida Figueroa Alcorta. Pouco depois, a tocha foi depositada no ponto final pela tenista Gabriela Sabatini. A chegada do símbolo ao ponto final no bairro de Núñez, foi seguida de um show musical com artistas argentinos.

Maradona, que deveria abrir o revezamento, não participou, pois estava no México a trabalho e não chegou a tempo. No lugar dele, o primeiro atleta a empunhar o artefato foi o iatismo argentino Carlos Espínola. Ele deixou claro que, embora estivesse ‘contra aquilo que acontece na China?? por ser defensor dos direitos humanos, considerava que a tocha é uma ‘mensagem de fraternidade e de paz entre os povos??.

Depois da capital argentina, a tocha segue rumo a Dar es Salaam (Cidade da Paz), capital da Tanzânia, na costa oriental da África.’

 

CULTURA
Beth Néspoli

Classe teatral quer leis

‘O teatro está em pauta. Provoca polêmicas, discussões, reuniões em Brasília. Discutem-se mecanismos de financiamento. Parcela da classe artística organiza-se. No mínimo dois anteprojetos de lei de fomento ao teatro devem ser debatidos nos próximos dias junto ao poder público, ambos elaborados por artistas e produtores e apresentados em audiência pública na Comissão de Educação e Cultura do Senado. Os dois foram entregues à comissão presidida pelo senador Cristovam Buarque no dia 18 de março, em Brasília.

Um deles, a Lei do Teatro, foi elaborado pela Associação de Produtores Teatrais do Rio de Janeiro (APTR), entidade que agrega 140 produtores do Rio, e tem como base a renúncia fiscal, o modelo de captação do cinema, e prevê a criação de uma secretaria especial para o teatro. O outro foi elaborado pelo Redemoinho – movimento que agrega 70 grupos teatrais de diferentes Estados -, e tem como fonte de financiamento os recursos públicos.

Duas propostas de lei, por enquanto. O presidente da Funarte, Celso Frateschi, quer apresentar em breve uma terceira proposta, abrangendo todas as artes. Isso significa que a classe teatral está dividida? ‘Dá a impressão que cada setor pede o seu quinhão, um pouco é verdade, mas o que esses anteprojetos refletem é a diversidade de modos de produção’, diz o diretor paulista José Fernando, um dos integrantes do Conselho do Redemoinho. Para a produtora Andréa Alves, representante da Associação dos Produtores Teatrais do Rio (APTR), as duas leiss, se aprovadas, não seriam excludentes. ‘Eu mesmo tenho produções que jamais conseguiriam captar por meio de lei de incentivo.’ Na sua opinião, fundos públicos, regidos por editais, cumpririam a função de apoiar esses projetos que não interessam ao mercado.

Embora muito criticada, poucos defendem a extinção de Lei Rouanet. Por quê? Esse mecanismo coloca à disposição dos captadores R$ 1 bilhão anuais, praticamente o mesmo valor do orçamento total do Ministério da Cultura. Se essa verba fosse recolhida através do Imposto de Renda não seria destinada à Cultura – este é o raciocínio. ‘Se toda essa mobilização servir para iniciar um necessário debate sobre a função pública do teatro e seu papel na sociedade será um avanço’, diz José Fernando.’

 

***

Duas leis: divisão ou diversidade?

‘Se o movimento da classe teatral ganhou os holofotes nas últimas semanas, ele não começou ontem. Representante da APTR, Andréa Alves enfatiza que a discussão teve início há cerca de cinco anos, nas câmaras setoriais. ‘Em outubro de 2005 conseguimos, numa audiência pública, incluir o teatro na Comissão de Educação e Cultura. Abrimos essa porta’, diz. O anteprojeto de lei do Redemoinho também é de 2005 e já rendeu reportagem no Estado ao ser apresentado no 2º encontro da rede, realizado em Belo Horizonte, no Grupo Galpão.

Por que a disputa parece mais acirrada agora? Em parte pelas diferenças de propostas nos anteprojetos (leia abaixo), em parte pela própria mobilização da classe teatral. No dia 27 de março, dia do teatro, manifestações foram feitas em 11 cidades de diferentes Estados, planejadas pelo movimento Redemoinho em parceria com a Cooperativa Paulista de Teatro. Na próxima quinta-feira, o conselho do Redemoinho, formado por diretores de São Paulo, Porto Alegre, Natal, Belo Horizonte e Salvador, tem encontro marcado com o secretário executivo do MinC, Juca Ferreira, para discutir o anteprojeto de Lei de Fomento. Em maio haverá outra reunião na comissão do Senado para debater a Lei do Teatro. ‘Com certeza o movimento está mais maduro, propõe projetos, coloca o teatro em pauta e isso é um avanço’, diz Andréa.

Mas não unificado. São contradições que se repetem ao longo da História. Se há debate, livre, democrático, as diferenças aparecem. Algumas radicais como se pode constatar pela leitura dos artigos da página ao lado. Por outro lado, se há maturidade, o debate resulta frutífero. ‘No Brasil, é erro comum a confusão entre distribuição de verba e política cultural. Sempre se discute o primeiro. Enquanto não houver esse entendimento, a discussão não avança’, já argumentava Eduardo Tolentino, do Grupo Tapa, em reportagem do Caderno 2 de 11 de março de 2005, sobre a concentração de renda na captação feita por meio da Lei Rouanet. As reportagens também se repetem agora.

É ponto importante – a lei de incentivo é apenas um mecanismo de financiamento. Que serve, bem ou mal, a uma parcela da produção artística. Para além dos grupos organizados e dos artistas cuja simples presença no Senado repercute na mídia, há uma maioria silenciosa lutando para produzir e aprimorar a arte teatral em todo o País. Para levar O Avental ao festival de Curitiba, o grupo baiano Teatro de Bastidores fez uma via-crúcis por órgãos públicos e, ao final, contou sobretudo com seu público. ‘Teve até um espectador que pagou uma das passagens’, diz a produtora Graça Regina Souto Silva. Viajaram sem cenário, que recompraram em Curitiba (R$ 270) e lá deixaram. ‘Nosso projeto foi aprovado na Rouanet, mas não captou.’ Um caso, entre muitos. E era um espetáculo de autor premiado, Marcos Barbosa.

‘Só vai mudar quando as escolas levarem seus alunos ao teatro e ao cinema’, diz Andréa. ‘Ainda há executivos da área de Marketing que não têm noção do que é teatro.’ Com qual freqüência empresários, médicos, engenheiros ou políticos vão ao teatro? Talvez uma pesquisa séria de público revelasse que sua ausência nas salas não é mera questão de poder aquisitivo. Uma cena teatral forte e diversa pede mapeamento, políticas públicas planejadas para desenvolver a atividade em toda a sua amplitude, inclusive na formação, no sentido mais profundo, de público.

Se há consenso nesse ponto, não há sobre quais mecanismos dariam conta dessa amplitude. Ney Piacentini, presidente da Cooperativa Paulista de Teatro, enfatiza: ‘É preciso conhecer para criticar. A lei federal que propomos, por exemplo, não é só para manutenção de grupos, mas para produção de espetáculos e circulação. O que considero importante pôr em discussão é que fundo público tem de ter destinação pública. Lei de incentivo, da forma como está, é loucura brasileira, não existe em país nenhum.’

‘O atual debate é bom porque pode servir para afiar o diagnóstico, única chance de se chegar a boas soluções. Reações acirradas costumam ser provocadas por diagnósticos precários’, diz o consultor cultural João Leiva Filho. ‘Um dos problemas é que o funcionamento da lei piorou’, diz o produtor Claudio Fontana. ‘Antes a análise de um projeto levava no máximo dois meses, agora leva seis. Teoricamente, a criação de uma secretaria não é uma boa idéia, mas se na prática melhorar o atendimento eu aprovo’, argumenta.

‘Um dos problemas da Lei Rouanet é ser única’, diz o presidente da Funarte Celso Frateschi. ‘Cerca de 90% do que é aprovado não capta, é trabalho perdido’, diz. Claudio Fontana sugere que a dedução possa ser feita também sobre o lucro presumido – e não só sobre lucro real – o que facilitaria a captação e o investimento, nas pequenas empresas. ‘O Ministério da Cultura tem consciência de que mudanças vêm sendo solicitadas há cinco anos. Mas não se constrói política cultural com uma cartada. É preciso maturação. Acho que chegamos a esse ponto’, diz Celso Frateschi.

Recentes críticas de Frateschi à Lei Rouanet, segundo ele responsável pelo encurtamento das temporadas, provocaram uma reação em cadeia. ‘Estou convencido de que ainda vou convencer os produtores teatrais de que estou a favor deles’, diz ele. ‘Do jeito que está a Lei Rouanet não lhes serve.’

Produtores apontam a meia-entrada obrigatória para estudantes e idosos como uma das causas dos altos custos de produção. Onera e não atinge quem deveria. ‘Não é por ser estudante ou idoso que há carência financeira’, diz Beatriz Segall. ‘Sem contar que qualquer curso e até pizzaria dá carteira de estudante.’ Fontana aponta ainda os altos aluguéis das salas de espetáculo.

Celso Frateschi considera forte entrave no funcionamento da Rouanet o perfil dos captadores e a concentração de renda (leia quadro nesta página). ‘Não vou falar pelos outros, mas pela própria Funarte. Os prêmios Miriam Muniz, de teatro, e Klauss Vianna, de dança, foram realizados com captação pela Lei Rouanet. Como um produtor independente vai concorrer com Estados e com prefeituras?’ Uma lei geral para as artes vem sendo gestada no Ministério da Cultura. ‘No máximo em dois meses será posta em discussão com a classe’, diz Frateschi. Ele acredita que embora não seja uma lei específica para o teatro, vá servir entre outras coisas para desonerar a Lei Rouanet. ‘E terá especificidades que respeitam as diferenças de necessidades entre as áreas.’

Mais uma etapa dessa discussão certamente se dará no dia 5, quando Frateschi participa de um debate, aberto ao público, no Centro Cultural São Paulo, para discutir Políticas Públicas para o Teatro.’

 

Paulo Pélico

Um debate que só se canibaliza

‘Cem anos atrás Euclides da Cunha criou a expressão ‘emigrado virtual’, indivíduo que sob forte influência de uma cultura estrangeira experimenta ‘uma espécie de colonialismo de espírito, vivendo, estéril, no ambiente fictício de uma civilização de empréstimo’. É espantoso que o autor de Os Sertões tenha usado tal vocabulário há um século sem ter conhecido vestígios de fenômenos como a indústria cinematográfica, rock’n’roll, televisão e internet.

Naqueles tempos o grande escritor fluminense desassossegava-se com a onda quase epidêmica do ‘cosmopolitismo’ que, àquela altura, estava para o campo do pensamento como a globalização está hoje para o campo econômico. Tratou-se de algo irresistível para a intelectualidade brasileira de então, voraz consumidora de livros, jornais e revistas científicas provenientes do velho mundo. Em suas pregações, Euclides da Cunha não se cansava de chamar a atenção para as diferenças decisivas entre o mundo europeu e a sociedade mestiça que se erguia timidamente nestes trópicos e recusava com energia a importação de pensamento em bruto, um erro em qualquer época. E notem que a produção cultural que vinha de além-mar naqueles tempos era magríssima e defasada. Chegava ao consumidor brasileiro depois de cruzar o oceano em embarcações a vapor e, dos portos, seguia para o interior do País viajando em lombo de burro, condições bem diferentes das atuais. Porém, nada disso impediu que aqueles consumidores vivessem a sua ‘civilização de empréstimo’, com a pele amorenando-se sob o sol tropical e a mente flanando pelos valores e ideais europeus que marcaram uma era.

O intercâmbio cultural nunca fez mal a nenhum povo. Antes, é imprescindível para a oxigenação de qualquer cultura, na exata medida em que visitar países estrangeiros enriquece a formação de um indivíduo. O problema começa quando este indivíduo deixa de ser turista, merecedor de bom tratamento e respeito, e passa para a condição de retirante. Foi no que nos transformamos nestes grotões do terceiro mundo após a 2ª Guerra Mundial. Uma espécie de pau-de-arara do imaginário norte-americano: sem uma identidade cultural definida, partimos em massa rumo ao american way of life na esperança de sermos mais felizes. Não somos e pagamos o devido preço dessa severina condição. Os nossos acadêmicos deveriam se dedicar mais ao estudo da sociologia econômica envolvida neste fenômeno. Veríamos, então, à luz da ciência, os escaninhos que ligam o PIB dos EUA com o rock ‘n’ roll e as salas escuras dos cinemas.

Mas entre nós sempre predominou outra compreensão sobre estes sofisticados assuntos. Uma pequena mostra disso é este desconjuntado debate em torno das leis de incentivo fiscal à cultura atualmente em curso. Não conseguindo escapar das escaramuças internas, a discussão canibaliza-se prendendo-se aos recursos incentivados conseguidos por um grande musical ou um filme nacional que fracassou na bilheteria. Em virtude da grande visibilidade da área, a sociedade brasileira fica com a impressão de que a produção cultural é a grande cliente destes mecanismos, desconhecendo o fato de que o governo brasileiro gasta anualmente cerca de R$ 30 bilhões em benefícios tributários repartidos entre numerosos segmentos da economia e que o setor da cultura é o primo pobre no fim desta fila. Em 2006 ficou com menos de 2% do aporte. Isso não é nada comparado com as vultosas somas movimentadas por outros setores que jamais brigam entre si: quanto mais aquinhoados, mais discretos. Com os recentes anúncios de criação de incentivos fiscais para a pesada indústria naval do Rio de Janeiro, a participação proporcional da cultura deverá decair ainda mais.

O nó da questão é que nos parece razoável renunciar impostos para produzir TV de plasma, mas acharemos sempre uma extravagância gastar dinheiro público com a produção de espetáculos teatrais e concertos que desaparecerão ao fim da temporada, nada importando neste julgamento os valores intangíveis envolvidos no processo, estes sim bem mais duradouros que qualquer eletrodoméstico. Assim, continuaremos chamando de política desenvolvimentista os incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus e de desperdício os recursos destinados a uma ópera que cumpriu curta temporada.

O pensamento imediatista aplicado às coisas da cultura desconsidera o fato de que não enfrentaremos a concorrência da avassaladora indústria cultural americana apenas promovendo a literatura de cordel ou estimulando o bumba-meu-boi. Ao lado da preservação da nossa cultura de raiz é urgente estruturarmos as bases de uma indústria cultural brasileira competitiva. A alternativa a isto será avançarmos na direção do prognóstico euclidiano. Achar normal, por exemplo, que dos filmes vistos no país 90% sejam produtos importados é admitir que o domicílio cultural da nação já se transferiu para um outro continente.

Paulo Pélico é dramaturgo, autor da peça Viva O Demiurgo – Notícias de Um Artista do Terceiro Mundo, produtor de cinema e de teatro’

 

TELEVISÃO
Alline Dauroiz

Ó Paí, Ó: flashback

‘Os preparativos da série baseada no filme Ó Paí, Ó estão em ritmo acelerado, para que as gravações comecem ainda neste semestre. ‘Talvez a gente grave no fim de junho’, conta a diretora do longa-metragem, Monique Gardenberg. Ainda sem data prevista de estréia, o seriado é uma co-produção entre a Dueto – produtora que pertence a Monique – e a Globo.

O enredo da série, assim como no longa, envolverá a comunidade que vive no cortiço do Pelourinho, em Salvador (BA).

Segundo a diretora, que comandará o programa ao lado de Mauro Lima, Olivia Guimarães e Carol Jabor , a idéia é mostrar histórias novas, que aconteceram ‘antes’ do filme. ‘Portanto, com a presença de Cosme (Vinícius Nascimento) e Damião (Felipe Fernandes)’, explica. N o longa, os meninos cometem pequenos delitos e um deles acaba vítima de uma tragédia.

De acordo com Monique, faltam fechar detalhes de texto, elenco – o mesmo do filme – e datas. ‘Quanto ao Wagner (Moura), ainda não falei com ele. Estou aguardando ele ganhar intimidade com Hamlet (o ator viverá o personagem de Shakespeare no teatro) para introduzir as novas histórias de Ó Paí, Ó.’’

 

HQ
Sérgio Augusto

Quando os gibis conheceram o fogo da inquisição

‘Dr. Fredric Wertham. A maioria dos aficionados das histórias em quadrinhos o conhece de nome e reputação; assim como muitos cinéfilos ao menos de fama conhecem um senhor chamado Will H. Hays. O moralizante Hays emprestou seu nome ao código de autocensura imposto ao cinema americano nos anos 1930, e em vigor até 1967. Wertham não emprestou seu nome a nada, mas entrou para a história dos quadrinhos como um vilão mais temido que Lex Luthor e o Dr. Silvana.

Wertham combateu, implacavelmente, todos os super-heróis do seu tempo. E sem precisar entrar nas histórias em quadrinhos (ou comics, como os americanos as chamam); apenas escrevendo e fazendo palestras, no início dos anos 1950. Principal paladino da maior cruzada contra os gibis, Wertham levou para o túmulo (em 1981) o epíteto de ‘o Joseph McCarthy dos quadrinhos’.

Atuante na mesma época em que o senador McCarthy se notabilizou como o mais fanático (e leviano) caçador de comunistas da América, Wertham publicou, em 1954, uma diatribe contra os quadrinhos, Seduction of the Innocent (Sedução do Inocente), que também aqui exerceu forte influência junto aos moralistas de plantão. Ainda que nenhuma editora brasileira tenha se interessado em traduzi-la, suas idéias básicas – divulgadas em inúmeras publicações de larga circulação, até pela Seleções do Reader’s Digest – serviram de bússola a artigos, livros (vide Literatura Infanto-Juvenil, do professor paulista Antonio d’Ávila, 1957) e sermões contra os ‘efeitos nocivos’ dos quadrinhos. Carlos Lacerda, Dinah Silveira de Queiroz, Ary Barroso e Jânio Quadros foram alguns dos mais notórios inimigos do gibi por estas bandas.

Wertham, que era psiquiatra e não sociólogo, tentou demonstrar, sem provas convincentes, que a leitura dos comics desencaminhava crianças e adolescentes para os esconsos da delinqüência. Outras afirmações incendiárias alinhava (os gibis glorificavam a violência e o sexo, incentivavam, subliminarmente, o homossexualismo, etc.), misturando alhos com bugalhos, transformando as exceções em regras, abusando de contradições, hipérboles (‘Hitler era um amador se comparado com a indústria dos quadrinhos’) e dados sem embasamento científico. Sua vulnerabilidade analítica talvez explique por que não veio a público numa publicação acadêmica, mas numa revista popular, como o Ladies’ Home Journal, entre reportagens sobre almôndegas e aflições conjugais.

No clássico sobre os quadrinhos, Shazam, lançado pela Perspectiva em 1970, Alvaro de Moya qualificou Seduction of the Innocent de ‘terrificante’, de ‘uma versão moderna da danação dos infernos da Divina Comédia’. Wertham tampouco teve sua reputação alterada em A Guerra dos Gibis, esplêndido inventário da formação do mercado editorial brasileiro e a censura aos quadrinhos entre 1933 e 1964, feito por Gonçalo Junior e publicado há quatro anos pela Companhia das Letras. Sua aparição no romance Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay, de Michael Chabon, traduzido pela Record em 2002, não o tornou menos nefando aos olhos dos aficionados dos quadrinhos. E, no entanto, Wertham não foi um sujeito inteiramente desprovido de qualidades e boas, embora equivocadas, intenções.

Nascido na Alemanha, com estudos na Inglaterra e Áustria, naturalizou-se americano em 1929, e deu aulas na prestigiosa Universidade Johns Hopkins. Interessado na vida e na cultura afro-americanas, no jazz e outras modalidades de arte popular, fez-se amigo íntimo dos escritores negros Richard Wright e Ralph Ellison. Foi, a seu modo, um baluarte contra o segregacionismo racial. Numa época em que nenhum psiquiatra de Baltimore aceitava negros como clientes, Wertham tratou de graça todos aqueles que o legendário advogado Clarence Darrow lhe enviava. Em março de 1946, abriu no Harlem, em Nova York, a primeira casa de saúde multirracial dos EUA, a Clínica Lafargue, assim batizada em homenagem ao jornalista e ativista político de origem cubana Paul Lafargue, genro de Karl Marx.

Revelações como essa fazem de The Ten-Cent Plague (A Peste de 10 Centavos), recém-lançado nos EUA pela Farrar, Straus & Giroux, uma sucessão interminável de surpresas e uma leitura plena de deleite, só aqui e ali truncada por um acúmulo de detalhes preciosistas, perfeitamente dispensáveis, até porque muitas vezes irrelevantes. A aludida peste são os gibis de antanho, que custavam, em média, 10 centavos de dólar e não só foram alvos de sucessivas perseguições como ajudaram a mudar a América. Daí o subtítulo do livro: The Great Comic Book Scare and How It Changed America.

Seu autor, David Hajdu, crítico da revista The New Republic e autor de uma excelente biografia do parceiro e factotum de Duke Ellington, Billy Strayhorn, conseguiu o que parecia impossível: ressuscitar e revigorar a história das histórias em quadrinhos. Com 334 páginas de texto, mais uma centena ocupada por apêndices, notas, bibliografia e índice remissivo, The Ten-Cent Plague (já por US$ 17.16 na Amazon) é uma pesquisa exaustiva sobre o impacto dos quadrinhos no ethos e na cultura dos EUA. Para Hajdu, foi a sociedade americana que, paulatinamente, transformou os quadrinhos, não o contrário. Entenda-se por sociedade aquela representada pela Igreja, por filistinos de variadas plumagens, políticos à cata de votos e pedagogos de meia-tigela.

Hajdu não inocenta Wertham. De tal tarefa desincumbiu-se o canadense Bart Beaty, biógrafo revisionista do professor, que em Fredric Wertham and the Critique of Mass Culture (University of Mississippi Press, 2005, US$ 22), ignorado por Hajdu, retratou-o como um intelectual progressista, colecionador de arte moderna e radicalmente contra qualquer censura. Mais: como um corajoso e quixotesco combatente de ‘uma indústria milionária’, especializada em encher a cabeça da garotada de ‘propaganda racista, sexista e imperialista’. Quantos gibis não comprovam isso?

Wertham nem sequer foi o primeiro cruzado contra os comics, nos EUA. Cinco anos antes de sua catilinária ganhar lombada, outro professor, Gershon Legman, havia liderado uma feroz campanha de difamação dos quadrinhos, seriamente afetada pela descoberta de um manual sobre sexo oral, por ele assinado com pseudônimo. E antes mesmo de Legman erguer sua demagógica voz, o autor de livros infantis Sterling North (lembrado por Gonçalo Junior em A Guerra dos Gibis), o bispo John Francis Noll e o padre jesuíta Robert E. Southard já haviam tomado de assalto os mais variados tipos de púlpito e palanque para execrar os gibis e suas ‘insidiosas mensagens’ pagãs, materialistas, fascistas – e, por que não?, comunistas.

North abriu fogo em 1939. Numa indisfarçável investida pro domo sua, acusou os editores de quadrinhos de difundir o sexo e o terror em série e afastar a petizada da boa (e ‘sadia’) literatura infanto-juvenil. A seu ver, as crianças da América, mentalmente debilitadas pelos comics, estariam se tornando ‘presas fáceis do fascismo’. Esquecera-se de que o governo fascista italiano dissera o mesmo dos fumetti americanos.

Também em 1939 surgiu a National Organization for Decent Literature (Organização Nacional pró Literatura Decente), versão atualizada à cultura de massas do Index Librorum Prohibitorum do Vaticano inquisitorial. À frente dela, John Francis Noll, bispo de Fort Wayne (Indiana), empenhadíssimo em proteger a juventude da dissipação sensualista e do materialismo dialético. Três anos antes, o historiador e crítico de cinema francês Georges Sadoul, stalinista do topete aos sapatos, publicara um panfleto acusando os quadrinhos de ‘propaganda capitalista’.

De uma feita caricaturado com uma vassoura na mão, a varrer das bancas de jornais as revistas que o desassossegavam, o bispo Noll cismou, acima de tudo, com as indumentárias sugestivas da Mulher Maravilha. Não faltou quem cismasse com essa e outras ‘saliências’ dos quadrinhos – e até com a ‘nefasta influência’ sobre eles do Zaratustra de Nietzsche, o pai filosófico do Super-Homem. Os paralelos, sem fundamentos, puramente paranóicos, com o nazi-fascismo ainda eram freqüentes, quando, em novembro de 1945, as freiras de um colégio do Wisconsin patrocinaram a incineração de 1.567 gibis. Sim, algum fundamento havia. Só não estava no gibi.

Em dezembro de 1947, idêntico auto-de-fé, que a muitos lembrou a histórica queima de livros de autores judeus ocorrida na Alemanha, em maio de 1933, teve como corifeus uma horda de estudantes de Chicago. Três mil revistas em quadrinhos viraram fumaça. Com a participação de 600 jovens, Spencer (Virgínia Ocidental) ‘purificou’ em praça pública 2 mil comics, em outubro de 1948.

A mais estrepitosa cerimônia do gênero ocorreria em 10 de dezembro de 1949, na Academia de St. Patrick, espartana instituição católica de Binghamton (Nova York), com a madre superiora Anne Frances a puxar um hino, que não era Horst Wessel, mas um cântico religioso, em nome ‘da bandeira, da fé e Cristo Rei’.

Àquela altura, Bill Gaines e Al Feldstein, dois baluartes dos quadrinhos, já eram sócios na EC (Educational Comics, mais tarde, Entertainment Comics). Na vazante deixada pelo fim da guerra e pelas férias compulsórias de alguns heróis criados para combater o Eixo, a EC e outras editoras haviam derivado para os gibis de crime e terror (The Crypt of Terror, The Vault of Terror, Horrific, etc.), sanguinolentos e nada edificantes, embora muito bem produzidos graficamente. No final de 1952, quase um terço dos comics era do gênero macabro.

A indignação recrudesceu e novos templários vieram juntar-se aos zeladores da moral, dos bons costumes e do bom gosto, forçando a recém-fundada associação dos editores de quadrinhos, CMAA (Comics Magazine Association of America), a criar um código de autocensura ainda mais draconiano que o que regulava a produção cinematográfica. Indignado, Gaines, idealizador da CMAA, resolveu lutar sozinho.

Sozinho, e de moto próprio, Gaines enfrentou o comitê especial do Senado sobre as causas da delinqüência juvenil, comandado, a partir de novembro de 1953, pelo republicano de Nova Jersey Robert C. Hendrickson. Por coincidência ou maquiavelismo, puseram Wertham e Gaines para depor no mesmo dia (19 de abril de 1954), um depois do outro. Entupido de estimulantes para não perder o prumo, Gaines enfiou os pés pelas mãos. Defendeu as imagens de cabeças degoladas e testas esburacadas por balas como sendo de ‘bom gosto’, estetizando uma discussão que era meramente política, fulcrada na liberdade de expressão e na capacidade de discernimento dos leitores. Gaines parecia ter esquecido que o desrespeito ao bom gosto sempre fora uma das pedras de toque dos quadrinhos.’

 

 

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