Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 8 E 9/12

O Estado de S. Paulo

11/12/2007 na edição 463

TV PÚBLICA
Wilson Tosta

TV Brasil dará 15 mil celulares para ´repórteres espontâneos´

‘A TV Brasil distribuirá de 10 mil a 15 mil telefones celulares, com recursos de gravação de vídeo e som, para criar uma rede de ´repórteres espontâneos` e abastecê-la com material produzido em todo o Brasil. A informação é de Orlando Senna, diretor-geral da nova emissora pública, que estreou no último domingo.

Ele diz que a iniciativa reproduz experiências de outras TVs, em geral públicas, no exterior, especialmente Itália e América Latina, e visa a ´dar outra dimensão à informação´. Senna lembra que já são usadas, esporadicamente, imagens do gênero nas TVs comerciais, mas diz que a TVB pretende induzir as matérias dos não-profissionais.

A TV pública é mais um ponto de atrito do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que a criou por uma medida provisória que ainda não foi votada, com a oposição. O Palácio do Planalto garante que a nova emissora será independente, mas o DEM e o PSDB a acusam de ser apenas destinada a fazer propaganda oficial – uma ´TV Lula´, provocam os opositores.
Para mudar a programação, a partir de março – por enquanto, o único produto novo é o Repórter Brasil, noticiário exibido das 21 às 22 horas, ancorado em Brasília e no Rio -, Senna pretende ouvir o público. Possivelmente no início de 2008, fará reuniões com setores específicos.

Senna quer criar, ainda, um núcleo em que as crianças ajudarão a definir os programas dirigidos à sua faixa etária. ´Quero trabalhar baseado muito em um grupo infantil de trabalho.` Segundo ele, a nova emissora tende a ser um canal ´muito experimentalista, muito aberto a experiências, idéias novas, novos formatos. A TV Brasil trabalha com as novas gerações, impregnadas pelo digital´, declara.

Ele quer substituir o atual conceito de rede por um desenho horizontal, em que qualquer integrante do conjunto de televisões poderia assumir o comando. A base da futura rede – o início da TV Brasil é baseado só em São Paulo, Rio, Brasília e Maranhão, com colaborações de televisões regionais, como as TVs Educativas do Ceará e da Bahia – será formada pelas integrantes da Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais (Abepec).
Para Senna, ´o mais difícil é trabalhar a mudança de concepção do telespectador´. ´Nosso telespectador consome uma coisa pronta, embalada, é um espectador-consumidor. Queremos o espectador-cidadão.´’

 

Oposição vai ao ar, d. Luiz não

‘Nas primeiras edições, o Repórter Brasil, a única novidade da TV Brasil, teve entrevistas com autoridades, como o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, mas deu espaço a oposicionistas. A ação do DEM contra a emissora foi noticiada dois dias seguidos. Mas uma reportagem sobre o Rio São Francisco ignorou a greve de fome de D. Luiz Cappio. ´Se você só encontrou esse problema, fico feliz´, diz o diretor-geral, Orlando Senna. Ele afirma que a questão técnica pesou, principalmente a falta de equipamento.’

 

MÍDIA & GOVERNO
O Estado de S. Paulo

Ministério não atendeu a pedido de entrevista

‘O Ministério do Planejamento não atendeu ao pedido, feito várias vezes durante cerca de duas semanas, para conceder uma entrevista ao Estado para discutir em maior profundidade e detalhe a questão do aumento das despesas salariais do governo federal e as críticas contidas no trabalho do economista Samuel Pessôa, assessor do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). Apesar da alegação do jornal de que a contabilidade pública é muito complexa, e de que havia questões técnicas a esclarecer, o Planejamento aferrou-se à postura de não destacar ninguém para discutir o tema e esclarecer as dúvidas.

O ministério limitou-se, depois do pedido de entrevista, a enviar uma nota escrita rebatendo o trabalho de Pessôa. A nota foi utilizada nas matérias do Estado. O jornal, porém, enviou mais uma série de perguntas sobre o tema e renovou, com grande ênfase, o pedido de entrevista. O objetivo era fazer com que o conteúdo da reportagem fosse o mais completo, preciso e equilibrado possível. Mas o ministério comunicou que não faria mais nenhum comentário sobre o tema, nem mesmo por escrito.’

 

Carlos Marchi

Prêmio Caixa de Jornalismo abre polêmica

‘O Prêmio Caixa de Jornalismo, que oferece R$ 75 mil aos vencedores, sob patrocínio da Caixa Econômica Federal, tem uma categoria especialíssima este ano – o prêmio especial do júri brindará um entre os cinco trabalhos que melhor retratarem o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Isso é um estímulo ao bom jornalismo ou propaganda oficial disfarçada? ´É uma indução à exaltação dos valores oficiais´, opina o jornalista Maurício Azedo, presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). ´Com este governo, que faz marketing em tudo, é muito complicado´, constata o professor de Ética em Comunicação da Universidade de Navarra, Carlos Alberto di Franco.

Alguns prêmios de reportagem ou de jornalismo formaram tradição, como o Prêmio Esso de Jornalismo, que existe desde 1956, o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, atribuído em São Paulo, ou o Prêmio sobre a Biodiversidade da Mata Atlântica, promovido pela Conservação Internacional – o primeiro, de uma empresa privada, o segundo, de entidades profissionais, e o terceiro de uma ONG.

´Torna-se uma pauta feita para estimular matérias elogiosas´, opina o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), jornalista de profissão e pauteiro do Jornal do Brasil antes de cair na clandestinidade, no seqüestro do embaixador americano Charles Ellbrick, em 1968. Ele afirma que matérias críticas dificilmente vencem os prêmios oficiais. ´É o estilo Pravda de fazer jornalismo´, classifica mais duramente o professor de Ética da Unicamp Roberto Romano.
Os prêmios jornalísticos têm se multiplicado na área oficial. ´O fato de o governo ter descoberto essa ?mina? mostra que isso virou bagunça, porque os prêmios são dados com dinheiro do contribuinte´, critica o jornalista Alberto Dines, do Observatório da Imprensa. Dines é contra qualquer prêmio e sugere que as empresas jornalísticas proíbam seus profissionais de concorrer.

O ministro da Secretaria de Comunicação Social, jornalista Franklin Martins, concorda: ´Tenho dúvidas se são importantes para estimular o bom e crítico jornalismo, embora não tenha dúvidas de que eles estimulam o chamado ?jornalismo de prêmios?. Prefiro o jornalismo visceralmente apegado aos fatos.´

Esses concursos são forte atrativo para jornalistas, em especial os jovens e do interior, que ganham baixos salários. Muitas redações conhecem o ´caçador de prêmios´, que se esmera para produzir matérias que se encaixem nos regulamentos. ´Virou fonte de renda para jornalistas que ganham pouco´, conta Sérgio Murillo Andrade, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

O jornalista Gabriel Nogueira, gerente de imprensa da CEF, garante que a grande maioria das matérias vencedoras do Prêmio Caixa nas edições anteriores não trouxe elogios ao governo.
Nos últimos anos, surgiram o Prêmio Sebrae de Jornalismo, que distribui R$ 100 mil, o Prêmio Embrapa de Reportagem, que oferece R$ 30 mil; a partir de 2008, entra em campo o Prêmio Petrobrás de Jornalismo. O governo do Piauí promove o Prêmio Carlos Castello Branco de Reportagem.’

 

BIOGRAFIA
Daniel Piza

O físico como astro

‘Albert Einstein (1879-1955) não é o tipo de personagem sobre quem se pergunte ´para que uma nova biografia?´. O pai da teoria da relatividade foi também uma figura pública célebre e controversa, além de ter se tornado a própria imagem do gênio. Logo, sua história nunca será suficientemente explicada e será sempre tema de biografias e estudos sem-fim. Além disso, a abertura no ano passado de cartas inéditas escritas por ele, que estavam no espólio de sua enteada, lançou alguns feixes de luz sobre seu comportamento.

Na biografia de Walter Isaacson, Einstein – Sua Vida, Seu Universo (Companhia das Letras, 675 págs., R$ 64), que acaba de chegar ao Brasil e já é best-seller em vários países, essas cartas servem para mostrar como ele foi ainda mais rebelde em relação às convenções – científicas, mas também sociais. Aparece, como nunca antes, arrogante, mulherengo e antinacionalista. Ao mesmo tempo, Isaacson dá grande atenção a seu desejo de um universo mais ordenado e previsível do que o sugerido pela mecânica quântica e associa esse desejo a um impulso religioso.

É como se, para lidar com esse Einstein atrevido, que às vezes parece julgar moralmente (como quando o repreende por não ter paciência para ´os problemas dos outros´), o autor precisasse dar ênfase ao contraponto. Biógrafo de Benjamin Franklin e Henry Kissinger, Isaacson – que concedeu entrevista ao Estado por e-mail – fez de Einstein um homem com vocação para astro, tentou ser muito didático com suas idéias e dedicou boa parte dos capítulos à sua vida nos EUA. Embora não mencione a visita do físico ao Brasil, o livro tem tudo para fazer muito sucesso também por aqui.

Em muitos sentidos, Einstein não era o gênio do estereótipo: não era criança prodígio, não era estudante fenomenal, não era um romântico ´outsider´. A revolução estava dentro dele. Será por isso mesmo que continuamos a ler as biografias dele? Ou o sr. não escreveria seu livro se não fosse pelas novas cartas?

O gênio de Einstein vinha de sua imaginação e criatividade. Ele era capaz de pensar fora do esquadro e visualizar as coisas de modo diferente. Parte disso veio do fato de ter demorado a começar a falar: ele pensava em imagens mais do que em palavras. Isso também se deve ao fato de ser intelectualmente um rebelde: ele desafiava a autoridade e contestava o dogma dominante. E isso fica muito claro nessas novas cartas.

Sua biografia também soa nova ao descrever fatos em outra perspectiva. Por exemplo, o sr. diz que trabalhar com patentes num escritório da Suíça foi bom para ele, pois as questões da vida real o ajudaram a lidar com a teoria. O sr. não diria que a diferença foi que desde adolescente ele se concentrava em poucos e fundamentais problemas?

Desde quando era adolescente, ele tentava visualizar como seria viajar ao lado de um raio de luz. E se ele fosse pego numa onda de luz? Ela não pareceria estacionária a ele quando a olhasse? Mas as equações de Maxwell dizem que isso não é possível. A onda tem de viajar sempre à mesma velocidade. Ele meditou sobre isso durante anos. No escritório de patentes, ele observava um monte de aplicativos para equipamentos que poderiam ser usados para sincronizar relógios distantes. Isso o fez pensar sobre o significado da simultaneidade e se as pessoas em diferentes estados de movimento definiriam de modo diferente o que era simultâneo. Ele percebeu que elas definiriam, sim, e isso o ajudava a responder o dilema sobre a velocidade constante da onda de luz e seria um passo em direção à teoria especial da relatividade.

O sr. dá muita atenção às dúvidas dele sobre Deus, religião, unidade. Einstein escreveu que era um agnóstico, que a idéia de um legislador moral não era necessária (carta para M. Berkowitz, em 25/10/1950). Por que a discussão?

Einstein disse que era religioso, que acreditava que existe um espírito manifesto nas leis do universo, um espírito diante do qual ele se sentia humilde e admirado. Esse era seu sentido de fé. Não acreditava num Deus pessoal a quem pudesse rezar para que fizesse milagres por nós. Mas ele também dizia que odiava ser chamado de ateu. Sua visão era muito interessante, e é por isso que devoto um capítulo inteiro a seus escritos sobre Deus.

Sua busca de uma teoria unificada não era uma busca científica e filosófica, em vez da busca por uma nova religião? Suas teorias foram um grande baque para visões holísticas, não?

Sim, sua busca por uma teoria unificada foi motivada por seu realismo científico. Ele acreditava que havia leis que determinavam o que acontece no universo, e a incerteza e a probabilidade e o acaso no coração da mecânica quântica o deixavam desconfortável.

O sr. acha que o gênio de Einstein era o de combinar a razão e a imaginação em alto grau, onde as fronteiras entre arte, ciência e humanidades já não existem? Ele não era como Darwin, totalmente aberto a novas questões genéricas em vez de específicas?

Acho que o gênio dele vinha da capacidade de ver coisas – como a gravidade – de uma forma totalmente nova.

O sr. escreveu que ´ele tinha pouca inclinação ou talento para dividir os problemas dos outros, e compensava concentrando-se no que era importante para ele´. Não seria o contrário? Ele tinha uma mente tão concentrada em problemas complexos que naturalmente tinha pouca paciência para os problemas do cotidiano. No Brasil, ficou bem aborrecido com os discursos e bajulações…

Sim, ele às vezes se referia a assuntos não-científicos como ´meramente pessoais´. Ele dizia que escapava dessas distrações mergulhando na ciência.

Embora não fosse tão bom marido ou pai, ele não era um homem agressivo ou frio, era? Depois de ler seu livro, sentimos mais afeto por ele, não apenas pelo que ele fez.
Ele era um homem gentil, um grande humanista. Ele era, especialmente no começo da vida, frio com seus familiares. Mas depois se tornou mais e mais caloroso à medida que envelheceu, assim como uma alma caridosa com a humanidade em geral.

Muitas pessoas dizem que a teoria de Einstein significa ´tudo é relativo´. Que livros além do seu o sr. recomendaria a elas que lessem? Bertrand Russell e Kip Thorne fizeram introduções; há as biografias de Abraham Pais e Albrecht Folsing. E o que sr. acha de livros que tentam interpretá-lo ficcionalmente, como o de Alan Lightman (Os Sonhos de Einstein)?

Há dúzias de livros maravilhosos sobre Einstein. Eu recomendaria o livro que ele mesmo co-escreveu com Leopold Infeld chamado A Evolução da Física. Recomendaria as maravilhosas biografias de Folsing e Pais. E também as análises científicas de Jeremy Bernstein (Albert Einstein and the Frontiers of Physics) e Peter Galison (Einstein´s Clocks, Poincaré´s Maps), assim como o livro delicioso de Lightman.

Desde a morte de Einstein, a física quântica foi se tornando mais e mais forte, embora ninguém ainda a tenha tornado compatível com a relatividade. Em face de novas evidências, Einstein não faria uma revisão de suas idéias?

Einstein, creio, admiraria a mecânica quântica por seu grande sucesso, mas se estivesse vivo suspeito que ainda estaria procurando por uma teoria do campo unificado que a reconciliasse com a relatividade.’

 

Lee Smolin

A personalidade do homem por trás do mito

‘Para que mais livros sobre Albert Einstein? Dois anos atrás, celebramos o centenário de seus grandiosos trabalhos de 1905, incluindo aqueles sobre a relatividade especial e a teoria corpuscular da luz. Já há uma biografia científica definitiva, de Abraham Pais. A interessante vida pessoal de Einstein também já não é novidade desde que The Private Lives of Albert Einstein, de Roger Highfield e Paul Carter, e Einstein in Love, de Dennis Overbye, foram publicados. Em seu novo livro, Einstein – Sua Vida, Seu Universo, Walter Isaacson explica que estudar Einstein pode ser valioso porque ´nos ajuda a permanecer em contato com aquela capacidade infantil de se maravilhar… vital para este novo século de globalização, em que nosso sucesso dependerá de nossa criatividade´. Sentimentos nobres, e justificativa suficiente para continuar promulgando mitos enaltecedores da ciência e seus heróis. Mas, o que tem isso a ver com o caráter e a vida reais da pessoa real?

Não há dúvida de a tentativa de compreender quem foi Einstein e o que ele realmente fez é dificultada pela cortina de fumaça criada por seus executores testamentários, seus colegas, biógrafos, e, talvez, pelo próprio Einstein. O mito de Einstein nos oferece um sábio ancião, um proto-hippie jocoso de cabelos longos, sem meias, e modos desajeitados. Como escreve Isaacson: ´Sua humanidade singela contribuía para sua aura. Sua certeza íntima era temperada pela humildade de alguém que se maravilha com a natureza.` Isso descreve um papel que o velho Einstein poderia ter escolhido para interpretar para se defender do massacre da fama e da responsabilidade. O que Isaacson está descrevendo é, contudo, um papel, não um ser humano. Quem foi a pessoa por trás desse papel?

Dos livros novos, o de Jürgen Neffe, Einstein: A Biography (Farrar, Straus and Giroux), é o mais vigoroso. Sua prosa é viva e a organização pouco convencional de seu livro, por tema e não por cronologia, conta uma versão envolvente da história de Einstein. Neffe não teme especular sobre a personalidade do homem por trás do mito, ainda que nem todas suas hipóteses sejam convincentes. Ao mesmo tempo, Neffe também conta a história heróica dos pesquisadores contratados pelo Einstein Papers Project para catalogar e publicar as obras coligidas de Einstein enquanto eles lutavam contra, processavam, e bajulavam executores testamentários e familiares para ter acesso às cartas de que precisavam para fazer o seu trabalho. Como Neffe explica, ´não se sabe ao certo quantos documentos foram retirados do espólio de Einstein após sua morte. Não há dúvida, porém, de que documentos que mostravam Einstein sob uma luz desfavorável, ao menos na opinião dos curadores de seu espólio, foram eliminados.´

Leitores que queiram uma introdução à história de Einstein com as revelações mais recentes de cartas acharão proveito na leitura da habilidosa biografia de Isaacson. Eu, porém, achei esse relato prejudicado por tentativas pouco convincentes de nos tranqüilizar quanto às asperezas de Einstein. Por exemplo, Isaacson se preocupa em nos garantir que as críticas de Einstein à mecânica quântica, que levaram a sua discordância da teoria que a maioria de seus colegas considerava o maior avanço do período, foram resolvidas desde então – uma afirmação que surpreenderá muitos cientistas hoje. Isaacson também nos diz de que as preocupações de Einstein com o macarthismo foram ´exageradas` porque ´nas circunstâncias, a democracia americana se corrigiu, como sempre fez… Einstein não estava acostumado com sistemas autocorretivos… e não avaliava plenamente quanto a democracia americana pode ser resistente e como ela alimenta a liberdade individual´. Por que Isaacson se sente na obrigação de nos dizer para não levarmos muito a sério as visões políticas de Einstein?

O problema que se apresenta a todo biógrafo é que o conhecimento sobre Einstein ainda está se livrando de décadas de mitificação. Embora seja possível extrair o quadro de uma pessoa real dos livros recentes, isso dá muito trabalho porque os próprios escritores ainda parecem embasbacados demais e ainda aceitam com facilidade a versão limpa e domesticada do espírito feroz e rebelde que foi o maior cientista de que se tem memória. Para desenredar a pessoa do mito, precisamos começar pelas partes do mito que são inconsistentes e inacreditáveis. Primeiro: o jovem Einstein, aquele que fez as grandes descobertas que associamos ao seu nome, não tem nada do sábio maduro descrito durante seus anos em Princeton. Ele era visto pelos contemporâneos como arrogante, carismático, bem-apessoado, manipulador, e engajado em suas relações com mulheres, seus filhos, suas amizades, sua música. O desprezo do jovem Einstein por qualquer autoridade era intensamente manifestado e talvez tenha prejudicado sua carreira. A questão que precisa ser respondida é como esse revolucionário arrogante e carismático se transformou no sábio espiritual. O homem que já foi visto como pueril se tornou admirado por ser pueril. Como isso aconteceu? Einstein teria se resignado depois de sofrer tragédias políticas e pessoais, ou seu novo personagem, como tanto Overbye como Neffe suspeitam, foi, ao menos em parte, um espetáculo: ´Einstein o gênio solitário´, nas palavras de Neffe, ´era, em parte, uma invenção sua.´

As discrepâncias no mito de Einstein são importantes porque apontam também para contradições na percepção de seu legado científico. O jovem Einstein era impetuoso e revolucionário. Seu pensamento era intuitivo, centrado na busca de princípios gerais e feito com mão leve que empregava o mínimo de matemática possível. O trabalho posterior de Einstein, a partir do início dos anos 1920, seria diferente, uma busca quase aleatória por catálogos de fórmulas matemáticas deselegantes, na vã esperança de descobrir uma unificação de forças físicas diferentes. É fato que muitos matemáticos e físicos fazem seu melhor trabalho quando jovens. No trabalho posterior de Einstein, porém, vemos algo muito mais extremo que a degradação usual. Como o maior físico desde Newton se transformou num fracassado jogador de jogos matemáticos?

Como afirmou Freeman Dyson, Einstein foi um líder de uma geração de revolucionários. A exemplo de alguns de seus colegas refugiados europeus, Einstein representava uma abordagem mais antiga, filosófica, da ciência, baseada na tentativa de pensar fundamentos da realidade como a natureza de espaço, tempo e causalidade. Mas nos EUA, ele encontrou uma nova geração de conservadores, entre eles Dyson. Eram conservadores porque achavam que a revolução havia terminado e sua tarefa era desenvolver as aplicações da física quântica que eles tomavam como o principal legado da revolução. Para Einstein e outros que não aceitavam a mecânica quântica, a revolução ainda não havia terminado. Assim, embora todos os desdobramentos subseqüentes da física do século 20 fossem baseados no trabalho inicial de Einstein, pode-se também dizer que Einstein deixou um legado pequeno de seu trabalho final na comunidade científica. A maioria de suas opiniões tardias não foi levada a sério. A grande questão e, portanto, se suas visões tardias estavam corretas.

Mas parece que a influência do mito de Einstein diminuiu em relação à que parecia ter. Para compreender como e por que isso aconteceu, teríamos de perguntar quem se beneficiou com a diminuição do legado de Einstein. Primeiro, seus executores testamentários. Eles viam como seu papel estabelecer o legado de um dos maiores cientistas da história. O homem em si era embaraçoso, porém. Na política, havia apoiado causas como socialismo, pacifismo e justiça racial, então consideradas marginais ou pior. A vida pessoal de Einstein também era um embaraço, ao qual os executores responderam destruindo documentos ou restringindo o acesso. O resultado foi que fatos decisivos sobre a confusa vida pessoal de Einstein ficaram escondidos até essas cartas chegarem às mãos de pesquisadores nos últimos anos – e o que há nessas cartas é banal: seus dois casamentos não foram muito diferentes dos de muitas pessoas criativas de hoje.

Os colegas cientistas de Einstein tiveram ainda mais a ganhar com o estabelecimento de um mito que o deixava honrado, mas ignorado. Durante seus anos como professor e diretor do Instituto de Física Kaiser Wilhelm na Universidade de Berlim até 1933, Einstein foi um obstáculo aos que tentavam estabelecer a mecânica quântica como paradigma inquestionável da nova física. Isso tanto porque seus argumentos eram os mais difíceis de responder, como por seu inquestionável status de figura intelectual dominante da ciência do século 20. Mas, quando Einstein mudou para o Instituto de Estudos Avançados em Princeton, ele já não era visto como uma figura dominante entre os cientistas. Para a ciência, a questão a ser respondida é o paradoxo dos últimos anos fracassados de Einstein. Eu sugeriria que a solução desse paradoxo é que a discordância de Einstein da mecânica quântica e a imersão na busca de uma teoria do campo unificado não foram fracassos, mas antecipações. Afinal, mesmo que muitos teóricos das cordas discordem de Einstein sobre a incompletude da mecânica quântica, boa parte do que tem surgido em teoria das cordas hoje se parece com o que Einstein estava fazendo em seus anos de Princeton, que era tentar encontrar novos recursos matemáticos que pudessem estender a relatividade geral para uma unificação de todas as forças e partículas na natureza.

Segundo a mecânica quântica, quando dois sistemas interagem, eles devem ser considerados dali em diante como sistema único, com propriedades conjuntas, mesmo que se separem e permaneçam muito separados. Esse aspecto notável da física quântica (não considerado antes dele) se tornou a base de uma busca de novas tecnologias chamadas comunicação quântica, computação quântica e criptografia quântica que, durante as próximas décadas, poderão transformar nosso mundo tanto quanto as tecnologias elétricas em que pai e o tio de Einstein foram pioneiros. Se isso ocorrer, pode-se imaginar que Einstein, cuja revolução na ciência caminhou de mãos dadas com seu trabalho no escritório de patentes, observando a transformação de ciência em tecnologia, teria se orgulhado.’

 

CULTURA
Daniel Piza

Crítica da crise

‘Volta e meia ouço afirmações ou perguntas sobre a tal ´crise cultural` que vivemos, pois hoje já não temos tantos talentos nas artes e nas idéias em comparação com ´eras de ouro` sempre na ponta de língua para citar. Mesmo quem não tem muito interesse em obras do passado – ou simplesmente anteriores a seu nascimento, hábito para lá de comum entre os jovens – de vez em quando solta uma frase nostálgica dessas. Concordo em boa parte com isso, e não consigo me livrar dessa sensação de que não vivemos grandes tempos criativos; basta ver a literatura brasileira sem Rosas nem Machados. Mas me recuso a entrar na ladainha do ´nunca mais´, no discurso que parece sugerir que exista um impedimento geral e irrevogável de que obras-primas apareçam.

Na semana passada, o crítico franco-americano Jacques Barzun completou cem anos e muitos textos foram escritos sobre seu trabalho mais conhecido, Da Alvorada à Decadência (editora Campus), em que a alvorada é o Renascimento do século 15 e a decadência começa na segunda metade do século 20 – algo como ´de Leonardo a Picasso´. Apesar de todo o brilho de Barzun, e da obrigatoriedade de reconhecer que a cultura européia viveu um ciclo único nesse arco de tempo, acho nociva essa opinião radical de que os pensadores e artistas já não ambicionam – porque não podem, mais do que não querem – tal escala de grandeza. Afinal, há aí uma contradição: é como se tudo isso que foi inventado e realizado até há pouco só pudesse ter o efeito de diluir nossos talentos.

Também na semana passada, comentei que, em meio a essa relativa mediocridade cultural, há algumas áreas como o cinema e a arquitetura que trazem ousadias, que surpreendem nossa percepção. Acho que há dois motivos para isso: a tecnologia e a internacionalização. De Frank Gehry a Renzo Piano, os arquitetos de hoje podem imaginar e usar formas e materiais que antes não podiam; e são convidados a fazer suas obras nos cenários mais variados. Quanto ao cinema, a tecnologia digital também permite experimentos como os de David Lynch e Michael Gondry, e a produção dividida em vários países tem sido cada vez mais freqüente. Outro sinal de vitalidade atual, repito, são os intérpretes – não só músicos que relêem grandes obras, mas também atores e cantores que, em alguns casos, nada deixam a dever a suas referências. E o que dizer da ciência, em que há tantas novidades como a biogenética?

Além disso, não se vive apenas de obras-primas que durarão 500 anos. Há muitos criadores interessantes em atividade, dos quais talvez um dia se diga que pertencem ao tal ´cânone´. Listei muitos desses nomes no ano passado, quando esta coluna completou dez anos. Para ficar num só exemplo, quantos dos que lamentam pelo ´fim da música erudita` – de Bach a Stravinsky, diria Barzun – se dão ao trabalho de ouvir Arvo P?rt ou John Adams? Eles podem não ter a mesma estatura dos citados, mas fazem algo que fala à sensibilidade contemporânea com intensidade e integridade. Não vamos muito longe subestimando a minoria que se salva e nos salva, por mais que hoje os responsáveis pela produção cultural ajam somente segundo critérios populistas ou marqueteiros. A crise não pode ser desculpa para a mesmice.’

 

LITERATURA
Antonio Gonçalves Filho

A despedida melancólica de Mailer

‘É preciso reconhecer: Norman Mailer, que morreu há um mês, aos 84 anos, sempre foi um autor ambicioso e esperto. Após ter escrito as biografias de Marilyn Monroe, Picasso e Jesus, era inevitável que elegesse outro nome imediatamente reconhecível em qualquer parte do planeta. Escolheu Hitler, mesmo sabendo que jamais escreveria algo remotamente parecido com as melhores biografias do líder nazista, as de Joachim Fest e Ian Kershaw. Oportunista, sentiu que a infância do maior carrasco do século 20 poderia render um calhamaço de mais de 400 páginas, agora lançado pela Companhia das Letras (O Castelo na Floresta).

O livro é uma mistura de tratado de demonologia, ensaio sobre perturbações mentais, pesquisa sobre relações incestuosas e livre interpretação de teorias psicanalíticas sobre líderes com um só testículo. Desse cruzamento bizarro só poderia mesmo ter resultado um monstruoso romance pseudobiográfico e narrado por um demônio de segundo escalão, chamado no livro de Dieter. O ajudante do diabo incorpora num nazista a serviço de Himmler e revela, logo no prólogo, que, após deixar o corpo de seu ´cavalo´, foi morar nos Estados Unidos. Provavelmente na casa de Rosemary, aquela do bebê de Polanski, ou na de Mailer, a julgar pela liberdade com que assume o papel de narrador onisciente dessa biografia maluca, fixada em coprofagia e apicultura.

Mailer, também de ascendência judaica como Hannah Arendt, desprezou sua teoria sobre a banalidade do mal ao partir para a extensa pesquisa sobre a infância de Hitler e seus pais incestuosos. Arendt nem aparece na bibliografia de quase uma centena de autores lidos para a elaboração do livro – entre eles Milton, Nietzsche e Gobineau, numa combinação explosiva de demonologia, especulação filosófica sobre vontade de potência e pureza racial. Mailer, ao contrário de Arendt, não veria Eichmann como um burocrata moderno executando ordens de um líder lunático. Mais que um monstro, conclui Mailer, Eichmann e Hitler teriam sido demônios a serviço de Satã (chamado de ´Maestro´, no livro). Convencido de ser o crítico mais profundo e bem-sucedido de Deus, escandalosamente batizado de D.K pelo autor – uma abreviatura da palavra alemã Dummkopf, ou ´imbecil´, em português -, Mailer atira para a terra e para o céu, mas acaba acertando o próprio pé.

É preciso ter paciência para ler essas quatro centenas de páginas, entre elas as de números 95 e 96, vencedoras do prêmio Bad Sex in Fiction Award, pela pior descrição de um ato sexual na literatura de ficção em inglês (um ´69` entre dois barrigudos, o pai e a mãe de Hitler, Alois e Klara). Causa estranheza que um jornalista de seu porte e um escritor que deu ao mundo Os Nus e os Mortos tenha escolhido um tema como os traumas da infância de Hitler para encerrar a carreira, elegendo como porta-voz um oficial da SS. Ainda mais porque a palavra final cabe ao diabólico Dieter, que até justifica a origem do título escolhido por Mailer (O Castelo na Floresta) como prova de humor – o título é uma tradução de Das Waldschloss, nome dado por prisioneiros a um campo de concentração, numa tentativa de não renunciar à ironia e agregar força moral numa situação adversa.

No entanto, não há força moral que suporte a ironia um tanto rudimentar do escritor. Mailer foi um caso crônico de auto-indulgência. É preciso lembrar o caso do assassino Jack Abbott, que há 30 anos, solícito, escreveu uma carta ao autor de A Canção do Carrasco, oferecendo sua experiência para que ele escrevesse um livro sobre o mundo do crime. Em busca de polêmica, Mailer disse que Abbott era tão talentoso que seria um ´crime` ignorá-lo. Resultado: seis semanas após sair da prisão, o homem matou um garoto de 22 anos. Foi um dos vários erros de avaliação que cometeu em sua carreira de jornalista e escritor.

Voltando a Hitler, os dados históricos conferem: a história começa em 1837, quando nasce Alois, pai do Führer. Funcionário da alfândega austríaca, Alois casou-se em terceiras núpcias com uma prima de segundo grau, Karla, que pode ter sido sua filha e com quem teve seis filhos (dois sobreviveram, Adolf e Paula). Mas está claro, desde o começo, que a longa linhagem e a frustração desse ditador fotofóbico interessa pouco ao escritor. No fundo, Mailer parece mais atento às pesquisas de Himmler sobre as tentações de sangue do camponês médio, a conexão entre incesto, degeneração genética e intervenção demoníaca, pois seu demônio Dieter fala dela com freqüência. No fundo, Mailer apenas adota o ideário eugenista de Gobineau, tentando associar as anomalias dos produtos de incesto com ingredientes genéticos que eventualmente circulam no sangue alemão (Hitler, vale lembrar, era austríaco, mas isso é detalhe).

Mailer, em sua cosmologia um tanto burlesca, feita de demônios do primeiro e segundo grau, ainda evoca Freud para explicar a saudação nazista e o bigodinho de Hitler (recorte de uma genitália feminina, segundo ele), coroando sua parábola com uma analogia entre a vida nas colméias e o cotidiano dos alemães no Terceiro Reich. As abelhas, explica o pai ao hiperativo Adolf, obedecem a uma única lei e sabem que a colônia precisa sobreviver. Nenhum de seus integrantes ousaria ser preguiçoso, exceto os zangões, que estão ali por um único propósito. Depois são liquidados, sem misericórdia, escreve Mailer. Triste despedida.’

 

Rosane Pavam

Novas luzes em uma tragédia mal explicada

‘Organizar e apresentar os autos do processo criminal de Dilermando de Assis, o homem que matou o escritor essencial Euclides da Cunha (1866-1909) e, sete anos depois, seu filho, Quidinho, pode parecer, à primeira vista, uma tarefa destinada à apreciação fria da corte dos especializados em Letras. Mas Walnice Nogueira Galvão, professora que é autora de 11 livros ligados à vida e à obra do escritor, desfaz a aparência eminentemente acadêmica do empreendimento ao apresentá-lo neste volume para um leitor comum.

Crônica de Uma Tragédia Inesquecível (Editora Terceiro Nome, 229 págs., R$ 36), em que Walnice, sob consulta jurídica de Domício Pacheco e Silva Neto, expõe em seqüência cronológica os autos do processo (doado em fotocópia a Ruy Mesquita Filho por Jorge Calixto), resulta em narrativa intensa, com ardor ficcional, disposta a construir uma história a partir de pontos de vista diferentes, como num inteligente roteiro fragmentado de cinema vanguardista.

É como se os dois assassinatos de membros da família Cunha por um mesmo homem, ´escândalo criminal mais horrível ocorrido no Brasil´, segundo diz em entrevista a especialista em Euclides, não se tivessem esgotado aos olhos tristes de quem os acompanha desde a escola secundária. Aqui, a morte do escritor em 15 de agosto de 1909 ganha uma rememória detalhada, sob muitas perspectivas ainda quentes. No livro, falam todos, os imaginados e os impossíveis (entre estes, uma testemunha de 9 anos a quem os juízes do processo não deram um peso maior, mas cujo testemunho sugere que Dilermando, atirador emérito, teria respondido com truculência contra um escritor expulso da Escola Militar por insubordinação republicana que, apesar de oficial, mal manejava sua arma de calibre 22).

Walnice faz reparos a todas essas histórias, que ela admite, em algum ponto, ´mal contadas´. Nesses autos, lemos documentos de defesa das testemunhas e dos envolvidos na cena do crime. ´E documento de defesa é libelo de acusação contra o outro´, ela lembra. No entanto, não passa pela cabeça de Walnice reparar qualquer deliberação feita pelo júri da época, que primeiro incriminou Dilermando depois decidiu por sua ação em legítima defesa. ´O júri trabalhou a partir de todos os documentos, decidiu à vista deles.´

Mas será cabível, em algum momento, remontar a história exata da morte desse escritor amado em todo o Brasil, numa espécie rara de amor da nação por um beletrista? O livro não nos diz isso exatamente, e mesmo sobrevive na direção contrária, a de deixar transparecer crescentes dúvidas sobre como de fato agiram tais personagens naquele momento crucial de nossas mazelas. Como pôde ter-se atrevido a tamanha ingenuidade o fundador da caracterização do sertanejo (que somos todos) como um forte, antes de tudo?
Três vezes, por exemplo, depõe nos autos organizados a esposa Ana, que traiu Euclides com esse belo Dilermando 16 anos mais novo, de quem engravidou e cujo filho morreu porque ela deixou de amamentá-lo, segundo seu depoimento, por imposição do escritor enciumado; identicamente, o filho de Euclides, Solon, que permanecia com a mãe na casa de Dilermando quando Euclides foi procurá-lo armado de revólver e disposto ´a matar ou morrer´, fala algumas vezes sem muito dizer, emparedado por convenções testemunhais, ele que morreria jovem, enquanto delegado na Amazônia, no mesmo ano de 1916 em que cairia seu irmão Euclides Filho. Família plena de melancolia: quando lemos este livro, imaginamos que um pai à procura do filho também possa ter constituído razão plausível para um crime.

Continuam a falar pessoas como Dinorah, o irmão mais novo de Dilermando, presente na cena do crime em Piedade, no Rio. A ele, Euclides possivelmente atacara em primeiro lugar, o que provocara uma reação nervosa por parte do militar, então decidido a desferir um último tiro na região pulmonar do escritor, com isso retirando-lhe as chances de sobrevivência finais. Circula também pelos autos a informação incômoda de que Ana usava o dinheiro de Euclides para pagar a lavanderia do belo aspirante à carreira de oficial. ´Mas essa gente era toda curta de dinheiro, então não há por que acreditar que se relacionasse por interesse´, sustenta a professora Walnice contra os vitupérios antigos.

Tudo é um pouco lenda, ainda, apesar do ar de oficialidade dos boletins de ocorrência e depoimentos à Justiça cuidadosamente arquivados, agora deixados à luz. ´É preciso ler dois argumentos aqui, os de defensores de Euclides, que até aventariam a hipótese não comprovada de Dilermando, à época do crime, estar já morando com Ana na casa do escritor, e dos defensores do próprio Dilermando. É preciso tomar cuidado com os argumentos todos, formulados, ao fim, por advogados de defesa´, diz Walnice, para quem as peças que lemos, ´tendenciosas´, apenas podem sugerir caminhos por onde uma futura pesquisa trilhar. ´Depois de ter feito tantos livros sobre Euclides, não sei exatamente que livro resultaria deste´, ela afirma. No seu caminho, contudo, já está a organização da correspondência passiva do escritor, uma atividade nos moldes da correspondência ativa já organizada por ela, depois de uma pesquisa de sete anos.

Embora todo o cuidado seja recomendado, um leitor não deixará de conjecturar a partir de fatos inteiros deixados em aberto por essa leitura cronologicamente encadeada dos autos do processo da ´tragédia de Piedade´, até mesmo sobre a extensão da proximidade entre Euclides e seu algoz. Na página 158 do livro, está a voz de Euclides, numa carta enigmática (não se sabe que resposta Dilermando deu a ela, nem o que a motivou) em que o escritor, três anos antes do crime, supostamente tranqüiliza seu futuro algoz sobre a crença na traição de sua esposa. ´Esta carta, a única encontrada de autoria de Euclides para Dilermando, só nos autoriza a inferir pelo avesso que ele não acredita nos boatos. Mas a carta, em si, existe justamente em função da boataria.` E onde estariam os documentos que nos explicariam com algum grau de certeza o que se passou entre os dois homens?

Nos autos, Dilermando quer sair-se livre de uma acusação que lhe é recorrente em toda a primeira metade do século 20. Ter matado Euclides e seu filho de mesmo nome, que tentara vingar o pai em circunstâncias semelhantes, não foi algo que pudesse ter dado paz a esse militar sempre disposto a restabelecer a verdade diante da opinião pública, por meio de um advogado como Evaristo de Moraes. O povo amou Euclides não só por sua adesão ao republicanismo desde a primeira hora, mas porque, em Os Sertões, como fazem os grandes escritores, ele lhe deu uma história. Diante disso, é como se todo o mal patrocinado pelo homem de letras empalidecesse.

As tragédias são múltiplas, como os pontos de vista, e uma terrível fama pesou sobre Dilermando por toda a vida, ele que teve filhos com Ana e a quem posteriormente abandonou, por um novo matrimônio e uma nova descendência. ´Mas não há dúvidas de que ele tenha amado a Saninha´, diz Walnice, com essa intimidade dos estudiosos que encarnam personagens do passado, chamando-lhes pelos apelidos que ganharam em vida.

Rosane Pavam é jornalista, autora de Ugo Giorgetti: O Sonho Intacto’

 

Eduardo Muylaert

A importância do exercício destemido do direito de defesa

‘Mesmo absolvido por duas vezes pelo júri popular, que reconheceu ter ele agido em legítima defesa, nunca o tenente Dilermando de Assis se livrou da pecha de assassino do glorioso dr. Euclides da Cunha. Euclides foi ter, no dia 15 de agosto de 1909, à casa na Estrada Real de Santa Cruz onde moravam Dilermando e seu irmão Dinorah, ambos cadetes. Transtornado, carregava um revólver calibre 22 e havia dito que vinha ´para matar ou morrer´.

Os dois militares sobreviveram aos tiros recebidos da pequena arma do escritor. Este, porém, sucumbiu ao disparo do revolver calibre 38 de Dilermando. Tivesse Euclides matado o aspirante, seria com certeza absolvido, com base na tese então predominante da legítima defesa da honra.

Soube-se, efetivamente, para surpresa geral, que durante os longos afastamentos de Euclides do lar, mais atraído pelos ´sertões` do que pela vida doméstica, sua esposa, d. Anna Emilia Solon da Cunha, conhecida como d. Saninha, teria iniciado uma relação amorosa com o belo e jovem Dilermando, que conhecera em São Paulo.

Ao voltar de uma estadia de mais de um ano na Amazônia, Euclides encontra d. Saninha grávida de vários meses. O filho Mauro só viveu uma semana. Nova gravidez, nasce Luiz, que o escritor apontava como ´uma espiga de milho no meio do cafezal` e que mais tarde adotaria o sobrenome Assis, do pai biológico. Só esses episódios já dão uma idéia da tensão existente nesse casamento em que não faltaram acusações de maus-tratos e abandono.

O caso já foi apresentado em publicações e até mesmo numa série de televisão. Quase cem anos depois, entretanto, é a primeira vez que se publicam as peças principais do processo instaurado contra Dilermando Cândido de Assis. Sua leitura permite voltar à cena da tragédia, avaliar os depoimentos, inteirar-se dos fatos e formar convicção sobre o célebre acontecimento. Panorama mais amplo, situando a tragédia na história do Brasil, é traçado pela professora Walnice Nogueira Galvão na apresentação da obra, que destaca o predomínio das fardas no período que vai da Guerra do Paraguai ao conflito de Canudos, passando pela Proclamação da República.

Euclides da Cunha gozava de tal prestígio que mesmo o tribuno Evaristo de Moraes, chamado a defender Dilermando, relutou, impressionado pelos comentários dos jornais. Ao inteirar-se dos fatos, entretanto, assumiu a defesa intransigente do cadete, a despeito das dificuldades para acalmar as paixões populares. Evaristo chegou a ser ameaçado de morte. Como observou mais tarde Evaristo de Moraes Filho, defender Dilermando não significava diminuir a figura do autor de Os Sertões na história literária brasileira. O delegado de polícia que conduziu o inquérito e o promotor encarregado da acusação queriam a condenação de Dilermando e procuraram descaracterizar a legítima defesa, sem sucesso.

Na transcrição dos autos do processo encontram-se todos os depoimentos, tanto os colhidos pela polícia como aqueles colhidos pelos juízes. Cada testemunha, assim, é ouvida várias vezes e nos é possível ir observando as nuances que vão aparecendo. Impressionam, e muito, os depoimentos da viúva, d. Saninha, de início discretos e depois revelando sua visão e os bastidores da história. Também o depoimento do filho Solon, que mais tarde seria delegado de polícia e morreria assassinado no Acre.

Absolvido Dilermando, casou-se com d. Saninha e tiveram outros filhos, antes que ele a abandonasse. Como numa continuação da tragédia, em 1916 Euclides da Cunha Filho, também militar, atira em Dilermando, que revida e o mata. Mais uma vez defendido por Evaristo de Moraes, Dilermando volta a ser absolvido por legítima defesa. Embora tenha sempre procurado reabilitar sua imagem, Dilermando continuou até sua morte, em 1951, associado à ?tragédia da Piedade´, quase sempre no papel de vilão.

É rara a oportunidade dada ao leitor de colocar-se dentro do processo judicial, com acesso a todos os elementos e depoimentos, mesmo tanto tempo depois. Só não constam dos autos as manifestações do advogado e da promotoria, que não foram transcritas na época. Além disso, a meu ver duas lacunas podem ser supridas na próxima edição: de um lado, a reprodução dos croquis dos peritos, que ajudaria a compreender a descrição que fazem da cena do tiroteio. De outro, até como homenagem, a transcrição das sete páginas que sobre o episódio escreveu o advogado Evaristo de Moraes nas suas Reminiscências de um rábula criminalista.

Ao saciar nossa curiosidade a respeito da ´tragédia inesquecível´, a leitura mostra que muitas vezes os gênios e os heróis não conseguem na vida familiar e afetiva o sucesso que alcançam no imaginário popular e mesmo na história do País. Por outro lado, descobrimos os limites que as peças de um processo têm ao tentar desvendar as circunstâncias e os bastidores do drama.

O processo demonstra, por fim, a importância do exercício destemido do direito de defesa. Sem a coragem do advogado de buscar a realidade dos fatos, superar a visão preconcebida que recebera da opinião pública e dos jornais, enfrentar as paixões desenfreadas e vingativas, o resultado do julgamento poderia ter sido outro. O júri popular absolveu Dilermando. Agora, cada leitor pode formar sua própria convicção.

Eduardo Muylaert é advogado criminal e foi secretário da Justiça e da Segurança Pública no governo de Franco Montoro, juiz efetivo do TRE/SP e presidiu o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária’

 

Caio Blinder

Arsenais de medos e ambições frustradas

‘Com o título editorializado Arsenais da Insensatez (Knopf, 386 págs.), fica claro que Richard Rhodes não tem paciência com as esquemáticas e assépticas racionalizações da doutrina nuclear que marcaram a guerra fria. Corrida nuclear foi e continuará sendo loucura até o fim do mundo.

Autor prolífico e premiado por seus livros sobre a era nuclear, Rhodes nos traz agora o terceiro volume de um trabalho épico de narrativa de não-ficção, com foco na corrida nuclear entre EUA e a finada URSS durante a guerra fria. O tema é árido e aterrador. Mas, por exemplo, as 20 páginas iniciais sobre a tragédia na usina nuclear de Chernobyl em abril de 1986 são simplesmente cativantes. Para Rhodes, o desastre em Chernobyl foi vital para convencer Mikhail Gorbachev a encarar o establishment linha-dura em Moscou e lutar pelo fim da corrida nuclear, num heroísmo compartilhado pelo presidente americano Ronald Reagan.

Mas, vamos ao começo. A corrida nuclear na guerra fria foi uma história de ´medos e ambições` deflagrada quando os soviéticos romperam o breve monopólio americano em 1949. Os dois lados entraram em pânico, fruto de rivalidades genuínas, erros de percepções, paranóias e o que Rhodes chama de ´inflação da ameaça´.

Muita gente entendeu a insensatez. O general-presidente americano Dwight Eisenhower advertiu que ´nós não podemos ter este tipo de guerra´. ´Não há buldozers suficientes para remover os corpos das ruas´, disse. No entanto, a corrida nuclear tinha sua própria lógica insana e a consagrada premissa acadêmica de que a guerra não seria travada. Em situações como a crise dos mísseis em Cuba em 1962, porém, houve a ameaça de um confronto nuclear entre as duas superpotências. Vamos saltar para 1983, outro ano assustador. Na vida real, os paranóicos velhos déspotas do Kremlin, abalados pela retórica belicista de Reagan, o rápido aumento dos gastos militares americanos e um representante militar da Otan chamado Able Archer chegaram à perigosa conclusão que um ataque nuclear estava sendo planejado.

Também abalado, Reagan sinalizou para Moscou que não era bem isso. Determinado a reduzir a ameaça, apesar de sua obsessão com o projeto de defesa antimísseis Guerras nas Estrelas, mais tarde ele se engajou com Gorbachev em negociações nucleares sem precedentes. Inicialmente não foram frutíferas, mas descortinaram o fim próximo da guerra fria.

A ficção incrementou o medo na vida real. Outro fator decisivo em 1983 para assustar Reagan foi o filme The Day After, sobre as conseqüências da guerra nuclear em uma cidade do Kansas. Sem ironia, Rhodes diz que o ex-ator de Hollywood ficou mais empenhado para endurecer sua posição contra assessores dispostos a acelerar a inflação da ameaça soviética. Reagan se convenceu que sua missão era acabar com a ameaça nuclear.

Rhodes ainda deve escrever um quarto volume do seu épico, sobre a proliferação nuclear no mundo pós-guerra fria. Nos velhos tempos, na expressão clássica do negociador americano Paul Warnke, as duas superpotências se comportavam como ´gorilas na esteira` na corrida por vantagens nucleares. Velhos gorilas reaquecem os músculos e gorilinhas como Mahmoud Ahmadinejad, se pudessem, entrariam na cada vez menos seleta academia de ginástica nuclear.

Robert McNamara, o ex-secretário de Defesa americano que tanto contribuiu na construção dos ´arsenais da insensatez´, disse a Rhodes que, durante a guerra fria, ´cada decisão individual adotada ao longo do caminho parecia racional, mas o resultado foi insano´. Essa aula de sensatez histórica não parece ajudar nos dias de hoje.’

 

CULT
Francisco Quinteiro Pires

O sentido da arte e o da vida passam pelo consumismo

‘O sentido da existência dos seres humanos pode ser localizado em qualquer vitrine de grandes centros urbanos – lá estará a grife de um produto. Essa é a percepção do filósofo francês Gilles Lipovetsky, entrevistado pela revista Cult deste mês (edição 120, 66 págs., R$ 9,90).

De formação marxista, Lipovetsky se interessa obviamente pela compreensão da História e da vida social, mas seus objetos de estudo fogem à regra no mundo da filosofia. Ele estuda fenômenos do cotidiano considerados frívolos, como a moda, a publicidade e o luxo.
Essa recusa dos filósofos, sobretudo os seguidores do esquema marxista, se deve ao escândalo que o luxo provoca. Embora reconheça um senso moral de justiça nessa rejeição, uma vez que é difícil conceber como normal uma realidade de profundas desigualdades, Lipovetsky está preocupado em entender como a busca e a conquista do luxo exprimem a cultura, a psicologia e a natureza da sociedade atual.

E o filósofo francês não se interessa pelo luxo inalcançável à maioria esmagadora da humanidade. Ele chegou à seguinte conclusão: existe no mundo globalizado uma democratização do luxo, situação em que se podem adquirir produtos como batom, bolsa e perfume a preços exorbitantes, mas não impossíveis para a grande parte dos mortais. Esse acontecimento é o alvo das suas pesquisas.

Lipovetsky não critica o acesso maior a artigos luxuosos. ´O que o luxo diz é que o homem não se contenta apenas com a satisfação de suas necessidades naturais.` E, quando o indivíduo busca o requinte extremo, ele está atrás de beleza e de sensualidade. Ele explica: ´O que chamo de erótico implica um certo gozo na percepção das coisas, no amor das coisas.` Ele dá o exemplo de uma mulher numa loja de cosméticos, tocando e cheirando os produtos, sendo protagonista de uma simbiose sensual.

O problema é que na ´hipermodernidade` as pessoas vêem no consumo a razão de existir. À medida que o desejo por mercadorias cresce, a felicidade encolhe. E ser feliz significa relacionar-se com os outros e não com produtos. Embora sejam causa de sofrimentos e humilhações, somente os outros podem dar a felicidade genuína, ainda que passageira. ´O que precisa ser mudado é o seguinte: as pessoas (…) precisam ter objetivos que relativizem a marca e o consumo. (…) Mas se não temos trabalhos interessantes, se estamos desempregados, se não temos nada na vida que nos interesse, então o consumo preenche esse vazio.´

Depois de pensar o que o excesso de consumo causa na vida humana e ponderar sobre a democratização do luxo, o francês planeja um livro sobre o lugar da estética na ´hipermodernidade´. Intitulado História e Conceitos da Estética, o dossiê da Cult trata também desse ramo da filosofia, desde os gregos antigos. O professor da USP Vladimir Safatle reflete sobre a arte dentro do capitalismo. Aponta como uma obra artística se torna simples, divertida, sexy e glamourosa em um mundo marcado pelo paradigma da segurança. O mundo não pode se sentir inseguro diante da arte que produz, essa é a tese.

Segundo Safatle, o elemento terrorista, que violenta esquematizações mentais, existente na arte é domesticado pela sociedade do capital. Não existe mais a desorientação. A estética contemporânea se presta à reprodução inconteste do estado de coisas. Se angústia existe, ela é tratada como patologia mental, e nada melhor do que um remédio para curá-la. Vê-se por aí que nem só a estética é vítima de domesticação.’

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Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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