Quinta-feira, 27 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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O Estado de S. Paulo

23/06/2009 na edição 543

IRÃ
AP

Obama condena repressão ‘violenta e injusta’ de Teerã

‘Em seu pronunciamento mais duro desde o início dos protestos em Teerã, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pediu ontem que o governo iraniano pare com a repressão ‘violenta e injusta’ contra os dissidentes.

‘Os direitos universais de assembleia e de livre expressão devem ser respeitados’, disse Obama por meio de um pronunciamento escrito. ‘Os Estados Unidos estarão com todos os que buscam o exercício destes direitos.’

O presidente americano vinha, até então, demonstrando uma reação comedida aos confrontos no Irã, o que irritou os críticos do governo do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad e de membros do Congresso americano. Obama enfrenta o desafio de defender os direitos dos manifestantes sem deteriorar ainda mais o diálogo com Teerã.’

 

***

Cético, cineasta ironiza e despreza drama político

‘O cineasta iraniano Abbas Kiarostami, de 68 anos, fez mais de 40 filmes no Irã. Ele é conhecido como o artista que permaneceu no país após a Revolução Islâmica de 1979, quando muitos outros fugiram para o exterior. A ironia é que há 12 anos nenhum dos seus filmes pode ser exibido no Irã – como se ele fosse um exilado dentro de seu próprio país. ‘A imagem demonizada do Irã no mundo está relacionada ao governo, e não ao povo iraniano’, assegura.

A eleição presidencial do país, precedida de uma acirrada campanha, não entusiasmou Kiarostami. Ele faz parte da minoria de 15% do eleitorado que não se deu o trabalho de votar. ‘Mais do que a República Islâmica, questiono a própria república’, diz ele. ‘Não admito votar em alguém que, depois de eleito, passará dois anos reforçando a própria posição e os dois anos seguintes se preparando para a próxima eleição.’

O comentário sugere um ceticismo desesperado em relação ao processo político iraniano. ‘Hoje pode-se conquistar um mandato de quatro anos com a promessa de um quilo de laranjas’, disse, referindo-se à distribuição gratuita de alimentos e dinheiro vivo que marcou a campanha do presidente Mahmoud Ahmadinejad para conquistar votos.

FRUSTRAÇÃO

Kiarostami nasceu em 1940 na capital iraniana. Depois de obter o diploma em Belas Artes pela Universidade de Teerã, ele trabalhou como desenhista e foi empregado de uma agência de publicidade cinematográfica antes de se juntar ao Centro para o Desenvolvimento Intelectual de Crianças e Jovens Adultos (Kanun), em 1969, estabelecido pela mulher do xá Reza Pahlevi. O departamento de cinema que ele montou, e no qual trabalhou até 1992, o deixou livre para fazer experimentos sem limitações comerciais.

Ele partilhou sua frustração durante a Revolução Islâmica de 1979, que foi sequestrada pelo fundamentalismo religioso. ‘Me envolvi na política apenas duas vezes: quando tinha 15 anos (após o golpe apoiado pela CIA em 1953 contra Muhammad Mossadegh, que restaurou o xá ao poder) e durante a revolução’, diz ele. ‘Nunca mais participarei de eventos políticos. Tenho certeza que a revolução teve motivações legítimas, mas é sempre um processo emotivo e irracional.’

O início dos anos 1980 foi também uma época de ‘revolução interna’, conforme o seu casamento de 1969 com Parvin Amir-Gholi, uma designer, chegava ao fim. A necessidade de cuidar dos dois filhos é em parte o que o manteve no Irã. Ahmad, que hoje mora nos Estados Unidos, trabalha com computadores e faz filmes experimentais, enquanto Bahman é cineasta.

Seu mais novo filme, Shirin, um experimento ousado, consiste em 90 minutos de planos próximos retratando mais de 100 mulheres – entre elas uma Juliette Binoche de lenço na cabeça -, enquanto assistem a um filme inspirado num poema do século 12 de autoria de Nezami Ganjavi sobre um triângulo amoroso envolvendo uma princesa da Armênia e um príncipe persa. A luz proveniente da tela oscila sobre os rostos das mulheres; as expressões delas criam sozinhas o drama.

Shirin não será exibido no Irã, mas deve seguir o roteiro de seus filmes anteriores: depois de lançado no exterior, cópias ilegais e baratas do filme acabam chegando de volta ao país sob a forma de DVDs piratas. ‘Nossa política governamental se concentra no uso do cinema enquanto ferramenta de propaganda e manipulação religiosa’, diz ele. Como exemplo, ele diz que as mulheres são obrigadas a aparecer na tela sempre com o véu. ‘Isso é absolutamente irreal, pois elas não usam o hijab em suas próprias casas’, diz.

FILMES APOLÍTICOS

Os filmes de Kiarostami são com frequência vistos como apolíticos, uma afirmação às vezes ligada à crítica que o acusa de fazer filmes para plateias estrangeiras. Ele disse que as questões políticas envolvidas nas suas produções estão relacionadas à escolha do tema e da locação – os pobres do campo ou o Curdistão iraniano – e acredita que a função do cinema é fazer perguntas, e não respondê-las. ‘Se político significar partidário, eu nunca faria um filme político; não estou tentando obter uma reação das pessoas, e sim chegar a uma verdade da vida cotidiana.’

Muitos de seus filmes foram considerados responsáveis por oferecer ao público ocidental um entendimento mais profundo do Irã.

‘Aquilo que temos dentro de nós – dor e tristeza – é universal. A minha dor de dente é igual à de um americano ou de um palestino. Todos partilhamos das mesmas relações com a emoção e a vida particular.’’

 

PAQUISTÃO
O Estado de S. Paulo

Jornalista americano foge de cativeiro taleban

‘O repórter do jornal americano The New York Times David Rohde escapou na sexta-feira do cativeiro onde era mantido sequestrado havia sete meses pela milícia fundamentalista Taleban, numa região montanhosa do Paquistão conhecida como Waziristão do Norte.

Rohde havia sido capturado no dia 10 de novembro nos arredores da capital afegã, Cabul, quando fazia uma reportagem acompanhado do repórter local Tahir Ludin e do motorista Asadullah Mangal.

O jornalista relatou detalhes da fuga para a esposa, Kristen Mulvihill.. Segundo ela, Ludin acompanhou Rohde na fuga, enquanto o motorista do grupo optou por ficar e fazer parte do Taleban. Os dois jornalistas escaparam do cativeiro pulando o muro da instalação onde eram mantidos cativos. Ludin teria machucado o pé na fuga.

Depois de deixar o local, os dois encontraram uma patrulha do Exército paquistanês que os levou até uma base militar próxima. No sábado, eles foram transportados até a base americana de Bagram, no Afeganistão.

Desde o início do sequestro, o jornal americano tem se esforçado para manter o assunto fora do noticiário. ‘A opinião da família, de especialistas em sequestros, autoridades de diversos governos e outras pessoas que consultamos era de que tornar isso público poderia aumentar o risco para ele e para os outros sequestrados’, disse o editor executivo, Bill Keller.

Rohde, de 41 anos, fazia parte da equipe de repórteres ganhadora do Prêmio Pulitzer pela cobertura realizada no Afeganistão e no Paquistão no ano passado e já havia sido tomado como prisioneiro uma vez, na guerra dos Bálcãs, na Bósnia.

PREMIADO

O jornalista havia chegado ao Afeganistão em novembro para recolher material para um livro sobre a presença americana no país. Ele foi convidado para uma entrevista com líderes taleban na Província de Logar, nos arredores de Cabul, quando foi capturado.

Rohde esteve no Afeganistão pela primeira vez em 2001, apenas três meses depois do 11 de Setembro. Ludin, o repórter de 35 anos que o acompanhava, havia sido contratado como intérprete depois de ter trabalhado para várias publicações.NYT’

 

PUBLICIDADE
Marili Ribeiro

Cannes encolhe sem perder glamour

‘Como na última edição o Festival Internacional de Publicidade de Cannes bateu recorde de peças inscritas e de participantes, este ano – e diante da crise global – ele parece ter encolhido de forma consistente. São 20% menos inscrições nas disputas por troféus em forma de Leões, o que soma pouco mais de 22 mil peças. E 40% menos delegados, algo próximo de 6 mil pessoas.

Por reflexo direto da retração econômica global, a atividade sofreu cortes. Nos EUA, maior mercado publicitário, houve queda de investimentos em propaganda de 14,2% de janeiro a março ante o mesmo período do ano passado. O mercado americano movimentou no período US$ 30,18 bilhões, segundo a empresa de pesquisa TNS Media Intelligence.

Um dos maiores anunciantes globais, a multinacional Procter & Gamble, presente no ramo de alimentos, higiene e limpeza, cortou sua verba publicitária em quase 18% no primeiro semestre, totalizando gastos de US$ 647 milhões no período.

Philip Thomas, responsável pela organização do evento, declarou que, mesmo menor, Cannes não perdeu qualidade. Se as festas e celebrações diminuíram, a qualidade das palestras e seminários se manteve.

A agenda do evento segue cheia de atrações, com figurões do mundo da comunicação, como o presidente do Google, Eric Schmidt, e o também presidente da Microsoft, Steve Ballmer, ou do universo político, como o ex-secretário da Organização das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan, e um dos responsáveis pela campanha do presidente americano Barack Obama, David Plouffe.

A intensa programação 53 seminários e 21 workshops e palestras com alguns dos principais executivos de grandes anunciantes, como Lloyds Banking, McDonald?s, Kraft e a própria Procter & Gamble. Todos dispostos a discutir a recessão global e seus desdobramentos para a indústria e o mercado de comunicação.

O painel com esses profissionais terá a moderação de Martin Sorrel, presidente do maior conglomerado de propaganda, o grupo britânico WPP, e a intenção de encarar o debate sobre: ‘E, quando a recessão passar, o mundo estará mudado definitivamente?’

Na pauta sobre novas tecnologias, este ano, o avanço das redes sociais como mídia dá o tom. A questão é descobrir como essas redes que cresceram na internet vão conviver com as mídias tradicionais. Se o que elas trazem para a vida do consumidor permite a construção de mensagens publicitárias e oportunidades de negócios. Como diz Ruy Lindenberg, vice-presidente de Criação da agência Leo Burnett, em entrevista na TV Estadão (veja no hotsite de Cannes, no portal do jornal), o entendimento de que as mídias são complementares está ficando cada vez mais claro.

DISPUTA

Ao todo, são 11 categorias nas diversas disciplinas de comunicação e propaganda em julgamento até o fim da semana. Os trabalhos foram inscritos por 86 países. O Brasil aparece em terceiro lugar na lista dos maiores participantes, logo atrás dos EUA e Alemanha.

O jornal O Estado de S. Paulo é o representante oficial do Festival de Cannes no Brasil.’

 

APPLE
Agências internacionais, Washington

Steve Jobs fez transplante de fígado e deve voltar à Apple

‘Steve Jobs, presidente da Apple, fez um transplante de fígado há cerca de dois meses, no Tennessee, e espera retornar ao trabalho ainda este mês, segundo o Wall Street Journal. O executivo, que sobreviveu a um câncer no pâncreas, se afastou das operações da fabricante de eletrônicos de consumo há seis meses, citando problemas de saúde, sem especificá-los.

O jornal apontou que, por um ou dois meses, ele pode retornar ao trabalho com jornada reduzida. Tim Cook, diretor de operações, deve continuar responsável por administrar o dia a dia da empresa durante o período. Jobs, de 54 anos, não respondeu a um e-mail pedindo informações. ‘Steve continua na expectativa de voltar no fim de junho, e não há nada mais a dizer’, disse Katie Cotton, porta-voz da Apple, ao jornal.

Alguns acionistas criticaram a Apple foi por revelar poucas informações sobre os problemas de saúde de Jobs. Alguns diretores da Apple sabiam da cirurgia pela qual passou o presidente da empresa. Como parte do acordo que resultou no afastamento de Jobs da Apple, integrantes do conselho recebiam do médico do executivo informações semanais sobre a sua saúde.

Em agosto de 2004, Jobs anunciou que acabara de ser tratado de uma forma rara de câncer pancreático, com uma cirurgia para remover o tumor, e que não precisaria fazer quimioterapia. Em janeiro deste ano, ele disse que sofria de um desequilíbrio hormonal ‘relativamente simples’ e, uma semana depois, que a situação era mais complicada do que imaginava.’

 

PAZ CELESTIAL
Antonio Gonçalves Filho

(Letras da praça)

‘Vinte anos após o massacre da Praça da Paz Celestial (Tiananmen) em Pequim, no qual centenas de manifestantes foram mortos ou feridos pelo Exército do país, três livros de escritores chineses exilados chegam às livrarias brasileiras para discutir um assunto ainda tabu na China: o episódio, ocorrido a 4 de junho de 1989 e que marcou o auge da repressão a um movimento que pedia – inutilmente, parece – a abertura política na superpotência asiática. O advérbio se justifica na medida em que a simples menção do ato de protesto está proibida nos livros, na mídia e nos sites chineses, impedindo que os mais jovens tenham acesso a informações sobre o massacre. O histórico e triste episódio é tema principal de duas obras lançadas pela editora Record – Pequim em Coma, de Ma Jian, e Lago Sem Nome, de Diane Wei Liang – e de Testemunhas da China, livro-reportagem sobre o país nos dias atuais, escrito pela jornalista Xinran e publicado pela Companhia das Letras, que editou no Brasil seus outros trabalhos.

Dois desses escritores, Xinran e Mai Jian, estarão reunidos na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no dia 2 de julho, para debater os rumos do país que deve comandar a economia mundial no século 21. Entrevistados pelo Estado, tanto um como outro têm dúvidas sobre a possibilidade de democratização da China, dividindo esse pessimismo com Diane Wei Liang, que era estudante quando o sangue correu na Praça da Paz Celestial. ‘A China tem um histórico milenar de regimes autocráticos’, argumenta Ma Jian, frisando que a filosofia que guia os chineses, o confucionismo, ‘venera a subserviência aos mais velhos e aos líderes’. Seu livro, Pequim em Coma, é um pesadelo.. Tem como protagonista um ativista político de Tiananmen, Dai Wei, atingido por um soldado enquanto fugia. Preso no cérebro desse manifestante em coma, o leitor embarca numa viagem infernal por seu passado, da infância durante a Revolução Cultural maoísta ao envolvimento no movimento estudantil.

Há cenas chocantes em Pequim em Coma, como a de um ritual canibalístico em que uma garota, Liu Ping, de 16 anos, é morta e tem seu corpo consumido pelos habitantes de um vilarejo durante a Revolução Cultural, incentivados pelas autoridades locais e por um mito ancestral – consumir inimigos para absorver sua força. Numa crítica indisfarçável à China atual, Mai Jian chega a fazer a desesperada mãe faminta do militante em coma vender sua urina como milagrosa. ‘O livro não deve ser lido como uma narrativa histórica, embora eu tenha tomado parte do protesto, mas como uma metáfora do coma em que a China mergulhou após o massacre, induzido pelo governo, que força as pessoas a apagar o episódio da memória’, diz o escritor. Ma Jian, a esse respeito, lembra que não há menção ao massacre nas obras escolares, na mídia chinesa ou na web, controlada pelas autoridades.

A exemplo de Ma Jian, Diane Wei Liang, a autora de Lago Sem Nome participou ativamente dos protestos da Praça da Paz Celestial. Ela deixou a China logo depois, ainda em 1989, buscando primeiro refúgio no interior do país até partir para os Estados Unidos com uma bolsa de estudos. Hoje vivendo em Londres, onde também moram Ma Jian e Xinran, Diane Wei Liang fez de sua trajetória pessoal o assunto de seu livro. Filha de intelectuais ‘reciclados’ pela Revolução Cultural num campo de trabalhos forçados, ela, hoje casada com um alemão e mãe de dois filhos, mudou de nome – o original era Wei -, nacionalidade e língua, mas conserva o idealismo romântico que a fez acreditar numa possível abertura chinesa há 20 anos. ‘A geração mais nova desconhece o que se passou na praça, mas está engajada em outro tipo de luta, a ambiental, o que nos dá certa esperança’, diz, justificando ter escolhido um caminho diferente de seu amigo Ma Jian para falar das ‘contradições’ da China.

Diane Wei Liang escolheu a história de uma separação amorosa, a de dois estudantes engajados, para contar, em, Lago Sem Nome, como o massacre da Paz Celestial abortou não só um projeto de democratização como estimulou uma nova ordem social – ou desordem, para os mais críticos. Líderes estudantis do passado, que estiveram na praça e foram presos, hoje são prósperos empresários num país dominado pelo culto do materialismo. ‘A despeito da prosperidade econômica e dos avanços políticos que garantem hoje certa liberdade de ação, a China ainda parece longe da democracia’, diz a escritora de livros de mistérios, como O Olho de Jade, em que uma mulher detetive, Mei Wang, circula entre proscritos, deserdados sociais e novos-ricos chineses.

Longe de ficção, Xinran preferiu viajar pela China para descobrir a razão de a democracia ter sido massacrada em Tiananmen. Em seu livro, ela entrevista contrarrevolucionários, policiais e até uma mulher general em busca da verdade. Mas seria isso possível num país onde as pessoas falam com dificuldade sobre si mesmas, acuadas pela paranoia e pelo conceito de culpa por associação – em que a família é punida como seu membro infrator? ‘Foi justamente essa dificuldade que me levou de volta a remotos lugares da China numa viagem, antes de tudo, de autoconhecimento.’’

 

***

China atual ainda fala a linguagem do silêncio

‘Os três escritores chineses entrevistados pelo Estado sobre os 20 anos do massacre da Praça da Paz Celestial guardam em comum o fato de suas famílias terem sido perseguidas durante a Revolução Cultural maoísta (1966-1976), o que deixou profundas marcas no trio. Ma Jian conta que seus parentes começaram a ser presos muito antes, em 1949, logo que os comunistas tomaram o poder no país. O escritor, que completou 56 anos, nem havia nascido e o avô já definhava na cadeia, acusado de ser um ‘rico camponês’. ‘Vovô morreu de sede entre as grades e minha família nunca comentou sua morte; meu pai passou o resto da vida com medo e meus irmãos foram impedidos de entrar na universidade’, relata o autor de Pequim em Coma, que voltou ao país natal no ano passado para descobrir, na aldeia do avô, que ele havia sido um líder local, que construiu um teatro e formou uma trupe famosa na região.

Como qualquer adolescente rebelde, Ma Jian não deu ouvidos às queixas dos pais contra o regime. Foi para as ruas gritar slogans maoistas. ‘Só aos 20 anos, quando comecei a trabalhar como fotojornalista em Pequim, comecei a questionar o sistema político vigente’, diz o escritor, definindo o regime comunista chinês como uma ‘máquina’, uma ‘armadilha’ que faz a ‘individualidade desaparecer’. Ma Jian abandonou o emprego e vagou pela China por três anos, numa peregrinação ilegal até o Tibete, onde abraçou o budismo. ‘Acho que foi meu primeiro gesto de revolta’, lembra. O segundo foi a publicação de Mostre a Língua (Stick Out Your Tongue, 1987), imediatamente retirado de circulação por ‘incitar a poluição espiritual’, segundo sentenciou o governo. Todas as cópias foram destruídas. Há 22 anos seus livros estão proibidos na China.

‘Escritores do Ocidente podem se dar ao luxo de ignorar a política, mas na China, onde ela permeia quase todos os aspectos da vida, é impossível abraçar a neutralidade’, conclui Ma Jian, argumentando que o Estado chinês, ao proibir os escritores de revelar a verdade, reprime qualquer tentativa de se criar uma literatura que faça sentido, ‘transformando-a inevitavelmente num ato político.’ Morar em Londres, segundo ele, deve-se a essa lógica. ‘Poderia escrever em Pequim, mas não quero ser surpreendido com a polícia batendo à porta.’

Diane Wei Liang não arriscaria igualmente escrever em Pequim, onde seu pai viúvo ainda mora. Revela ter hoje certa dificuldade para se comunicar com parentes e velhos amigos chineses, mais ocupados em administrar negócios do que com a política. ‘Agora eles podem viajar com maior liberdade; também diminuiu a paranoia de discutir assuntos políticos e ser denunciado pelos vizinhos, mas a China ainda está distante de ser uma democracia.’ Também por isso a autora de Lago Sem Nome faz questão de não ensinar mandarim aos filhos, um menino e uma garota, ambos nascidos na Inglaterra. ‘Ele são filhos de mãe chinesa e pai alemão, ou seja, são frutos do mundo globalizado; não precisam saber que a mãe foi perseguida com pedras na infância’, justifica a escritora, que também é economista.

Histórias de sofrimento e trauma, provocadas pelo autoritarismo, estão presentes tanto no romance de Diane Wei Liang como no livro-reportagem de Xinran, que complementa o balanço ficcional que a autora de Lago Sem Nome e Ma Jian fizeram de um episódio real, os 20 anos do massacre de Tiananmen. Xinran admite ser um trabalho limitado por longos momentos de silêncio de seus interlocutores, que ainda não falam livremente sobre o passado – legado de milênios de totalitarismo imperial e da opressão comunista. ‘Em chinês, a palavra rebelde estigmatiza toda a família de quem comete um delito e a luta pela sobrevivência faz com que essa tradição silenciosa se perpetue’, explica.

Isso não impediu que Xinran conseguisse entrevistar Lin Xiangrei, de 89 anos, filho de mártires revolucionários que caiu em desgraça ao se casar com a mulher errada, a durona heroína Chen Lianshi, amargando 30 anos de prisão e deixando seis filhos nas ruas. É uma história comovente, como outras, mas, à pergunta se faria as mesmas escolhas se pudesse viver de novo, Xiangrei responde com o silêncio, mirando o teto. Essa é a China profunda que desafia o barulho da modernidade.’

 

Luiz Carlos Merten

O país que muda, mas só para os olhos ocidentais

‘Há uma história recente da China que vem sendo contada pelo cinema para os olhos atentos do Ocidente. São filmes que fazem o circuito dos grandes festivais (Cannes, Berlim, Veneza), mas estão interditos para os próprios chineses. Há dois anos, quando homenageado pela Mostra de Cinema, Jia Zhang-ke, entrevistado pelo Estado, disse justamente isso. Seus filmes lhe valeram reputação no Ocidente, ganhou prêmios, reconhecimento, mas permanecia inédito em seu país. Com The World (O Mundo) e Still Life (Em Busca da Vida), Zhang-ke firmou-se como cineasta do tempo e retratista das mudanças profundas que fizeram a China avançar milênios em décadas.

Com sua ficção sobre a construção da represa das Três Gargantas, Zhang-ke podia até ser considerado reacionário. Afinal, o filme conta a história que sintetiza o drama de milhares de pessoas afastadas de sua terra e jogadas no mundo, após as águas inundarem suas casas. O futuro é irreversível e não adianta chorar. Daqui a um século, ou menos, essas histórias estarão esquecidas e a represa terá cumprido seu papel de suprir a China com as fontes de energia necessárias para se consolidar entre as maiores economias do mundo. Hoje, essas histórias parecem terríveis, mas foi sempre assim. A grande história nunca é contada pelos excluídos.

The World é uma obra-prima e seu tema, a globalização. A nova China capitalista construiu esse parque temático com atrações de todo o mundo. O Coliseu, a Torre Eiffel. O público que visita esses locais vê no simulacro – nada mais pós-moderno – um símbolo da pujança do país, mas o parque é só moldura para as histórias de seus funcionários, quase todos desajustados num mundo que, no fundo, os ignora. Homens e mulheres tornam-se descartáveis como objetos. É o mesmo drama dos excluídos em Três Gargantas. O cinema de Jia Zhang-ke busca sempre novas formas de falar criticamente sobre o mesmo tema – a transformação. 24 City, sobre a fábrica que era exemplar sob o maoísmo e demolida para abrigar um condomínio de luxo, reforça essa impressão.

A China capitalista herdou o sistema repressivo da China comunista de Mao. Não é só Zhang-ke que passa essa reflexão para o Ocidente. Outro caso interessante é Lou Ye. Há três anos, ele exibiu em Cannes Summer Palace, Palácio de Verão, sobre garota que abandona a família no interior, em busca de uma carreira em Pequim. Na universidade, ela descobre um mundo de liberdade política e sexual que a leva a participar do protesto na Praça da Paz Celestial. Completaram-se, no começo do mês, 20 anos do protesto que culminou num massacre. As autoridades estabeleceram fortes medidas de segurança no local da tragédia, onde a mobilização de policiais à paisana impediu os jornalistas de gravar vídeos ou tirar fotos, enquanto ONGs denunciavam esforços para apagar a lembrança do incidente. Ao incorporar as imagens da Praça da Paz Celestial à sua ficção, Lou Ye incorreu na ira do governo chinês. Seu registro profissional foi cassado por cinco anos.

Nessa fase, conseguiu fazer clandestinamente outro filme, que integrou a competição do recente Festival de Cannes. Spring Fever seria polêmico de qualquer forma, por tratar de um par gay. Uma mulher desconfia do marido e contrata detetive para investigar se ele tem outra. Descobre que ele tem outro. Lou Ye filmou a Pequim underground, encontros de gays, shows de drag queens. Filmes sobre homossexuais têm problemas com as autoridades chinesas. O problema de Spring é que Lou Ye nem poderia fazer o filme. Em Cannes, ele protestou: que mundo é esse em que um diretor de cinema não pode exercer a profissão? Spring foi escrito por Feng Mei, que já colaborara com Lou Ye em Summer Palace. Ela é uma das vozes dissidentes na nova China. O prêmio de roteiro que recebeu foi atitude deliberada do júri presidido por Isabelle Huppert para fortalecê-la e, talvez, dar mais exposição a Spring Fever, dentro e fora da China.’

 

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