Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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ENTRE ASPAS >

O Estado de S. Paulo

14/10/2008 na edição 507

CAMPANHA
Ana Paula Scinocca, Guilherme Scarance e Vera Rosa

Kassab e Marta retomam disputa na TV com horário eleitoral e debate

‘Trunfo para virar um jogo difícil ou cartada para acabar de vez com a partida, a propaganda eleitoral gratuita volta hoje à TV e ao rádio em São Paulo, reinaugurando a disputa entre os finalistas Gilberto Kassab (DEM) e Marta Suplicy (PT). O prefeito retoma a corrida à reeleição, na dianteira, com o jingle ‘Sorria!’ e o seu símbolo de campanha, o boneco Kassabinho. Já a petista tem de reverter o placar e aposta todas as fichas na proximidade com o presidente Lula e em duras cobranças. Nesse cenário, hoje à noite, os dois se encontrarão pela primeira vez, frente a frente, sem outros adversários, para um debate na TV.

No horário eleitoral, as condições do enfrentamento agora são idênticas. Os dois candidatos dispõem de 20 minutos de programa cada um, diários, para destrinchar propostas, contestar o adversário e consolidar ou reverter o placar do primeiro round. A propaganda vai até o dia 24, antevéspera da votação. Cada concorrente terá mais 15 minutos diários, repartidos em inserções de até 60 segundos.

O placar que surgiu da primeira pesquisa do segundo turno mostrou uma vantagem de 17 pontos do prefeito sobre a ex-ministra do Turismo. Sondagem do Datafolha assustou a equipe do PT ao apontar 54% dos votos para Kassab e 37% para Marta. Só 5% dos paulistanos pretendem votar em branco ou anular o voto e 3% não têm candidato. A mesma sondagem mostrou que 61% dos paulistanos aprovam a gestão Kassab e 74% dos eleitores de Geraldo Alckmin (PSDB) votariam no prefeito.

O horário eleitoral, portanto, é crucial para Marta. A propaganda vai dizer que Kassab não usa recursos federais à disposição por inépcia.

Informações em poder do PT indicam que 30% das famílias que deveriam estar no Bolsa-Família não recebem o dinheiro por falta de técnicos cadastrados. Além disso, o ProJovem teria recursos, mas não usados. Outro exemplo: o Mobilidade Urbana, de acesso ao transporte público, não teria saído do papel, apesar de a cidade ter direito a R$ 25 milhões do projeto.

Do lado do prefeito, uma equipe de 300 pessoas, comandadas pelo marqueteiro Luiz Gonzalez, tenta consolidar a vantagem do DEM. A idéia é não fazer grandes mudanças no programa, pois o saldo foi positivo.

DEBATE

Kassab e Marta estarão hoje à noite frente a frente, sem adversários, pela primeira vez. A Band inaugura o ciclo de três debates do segundo turno na TV, às 20h50. Nos encontros anteriores, havia um total de oito concorrentes. Além de Marta, Kassab e Alckmin, ainda participavam dos programas, por exigência da Lei Eleitoral, Paulo Maluf (PP), Soninha (PPS), Ivan Valente (PSOL), Ciro Moura (PTC) e Renato Reichmann (PMN).

Soninha já fechou com Kassab e Maluf deu sinais nesse sentido, embora o PP não tenha se posicionado. Nos três debates anteriores, já estava delineado um quadro de isolamento da petista, alvo de constante bombardeio, principalmente de Maluf. Kassab ou era poupado pelo candidato do PP ou até mesmo elogiado, nos dias seguintes.

Agora o cenário é outro e, face a face, Marta dirá que é a única parceira de Lula, confrontará propostas e ligará Kassab a Maluf e ao ex-prefeito Celso Pitta, de quem foi secretário. ‘Vai haver um enfrentamento de idéias, de posicionamentos, trajetórias. Nós fomos duas candidaturas com trajetórias muito diferentes’, declarou a petista, na quinta-feira passada, adiantando a estratégia para hoje.

Marta lembrou o histórico de troca de apoio entre ela e o PSDB na eleição estadual de 1998, quando aderiu a Mário Covas no segundo turno, e citou a briga municipal de 2000, desta vez apoiada pelo tucanato. O PSDB, no entanto, já fechou com Kassab e Alckmin não deve se envolver mais na eleição.’

 

 

REDE
Ethevaldo Siqueira

WiMax revoluciona a banda larga e o celular

‘Vivemos a era das redes. A maior delas é a da telefonia celular, com 4 bilhões de usuários. A segunda é a internet, que conecta mais de 2 bilhões de seres humanos em todos os continentes. A terceira é a da telefonia fixa, com mais 1,1 bilhão de usuários no mundo. Mas as telecomunicações contam ainda com uma longa lista de redes de acesso sem fio, que permitem a conexão à internet, celular, vídeo sob demanda, TV sobre protocolo IP (IPTV) e outros.

A rede sem fio para curtas distâncias tem o nome de Bluetooth e alcança de 15 a 30 metros. Opera na freqüência de 2,4 Gigahertz (GHz) e é usada para conectar dispositivos móveis, como o celular, câmeras digitais e periféricos sem fio, como mouse, teclados e caixas acústicas. Para distâncias maiores, são utilizadas as redes WiFi (de Wireless Fidelity), com alcance de 30 a 100 metros, em ambientes internos ou externos.

A GRANDE REDE

WiMax é a sigla do inglês Worldwide Interoperability for Microwave Access, rede metropolitana sem fio, padronizada com o código 802.16 pelo Instituto de Engenharia Elétrica e Eletrônica (IEEE), dos Estados Unidos, que utiliza o protocolo IP (Internet Protocol) e possibilita o acesso sem fio a distâncias de até 50 quilômetros, para estações fixas, e de 5 a 15 km, para estações móveis, a velocidades que vão de 10 a 100 Megabits por segundo (Mbps), com excelente confiabilidade e pouca interferência.

Milhões de usuários de laptops no mundo já utilizam placas de celular de terceira geração (3G) para acessar a internet em alta velocidade pela tecnologia High Speed Packet Access (na sigla inglesa HSPA), de 3,6 Mbps até 14,4 Mbps.

Ampliando essa possibilidade, diversos fabricantes – como Lenovo, Toshiba, Acer e Asus – já anunciaram o lançamento de notebooks dotados de novos microprocessadores, como o Centrino-2 da Intel, desenvolvidos para assegurar também o acesso às redes WiMax.

Os celulares mais avançados da transição 3G-4G também poderão acessar as redes WiMax. Em resumo: a incompatibilidade entre plataformas digitais – seja internet, rede telefônica fixa ou celular – está com os dias contados.

‘As redes WiMax – afirma o professor Luiz Carlos Moraes Rego, presidente do WiMax Forum no Brasil – são essenciais para acelerar o processo de inclusão digital, para ampliar a oferta de serviços de banda larga a custos mais baixos em todos os municípios brasileiros. Elas beneficiarão, seguramente, as camadas mais carentes da população brasileira, em especial as que vivem em milhares de localidades com menos de 5 mil habitantes do País.’

Embora não tenham sido concebidas com o propósito de substituir a rede celular 3G, as redes WiMax podem fazê-lo do modo mais completo. Sua utilização mais provável, entretanto, deverá ser como alternativa avançada para a banda larga. Assim, ambas as redes poderão conviver e complementar-se.

O celular 3G, por sua vez, evolui aceleradamente, como tecnologia de acesso de alta velocidade por pacotes (HSPA, na sigla inglesa de High Speed Packet Access), com etapas futuras a serem cumpridas, chamadas genericamente de evolução de longo prazo (LTE, de Long Term Evolution) ou 4G. E com velocidades que poderão superar os 100 Mbps.

Na arena do mercado, contudo, é provável que venha a ocorrer o confronto entre as tecnologias WiMax e LTE. Mas, dificilmente, haverá exclusão de uma dessas tecnologias. O mais provável é que elas venham a conviver e encontrar espaços próprios, de uma e de outra.

Com sua popularização, os serviços WiMax poderão ser vendidos em lojas de varejo com a mesma facilidade com que compramos serviços de banda larga do tipo DSL (linha digital de assinante), como as versões comerciais brasileiras Speedy (Telefônica), o Ajato (TVA) ou o Vírtua (NET-Embratel).

Por sua simplicidade de uso, o terminal WiMax é muito parecido com o rádio FM, que sintonizamos para ouvir música ou notícias. Mas, em lugar de uma estação de rádio, existe ali uma estação radiobase (rádio e antena), que transmite informação (acesso à internet, Voz sobre IP ou IPTV) captada por equipamentos da empresa-cliente. A grande diferença é que, com WiMax, os serviços são interativos ou bidirecionais.

Num horizonte de cerca de 10 anos, é bem provável que as redes WiMax venham a exercer papel relevante na infra-estrutura de telecomunicações, pois poderão ser utilizadas em configurações tais que substituam tanto as redes telefônicas fixas tradicionais de cabo, como a rede celular, as redes de coaxiais da TV a cabo, ou ainda as redes dos provedores de serviços de internet.

LONGA ESPERA

Investidores, indústria, empresas operadoras e usuários aguardam a decisão da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) quanto à reabertura da licitação de freqüências de 3,5 GHz e 10,5 GHz para as redes WiMax, interrompida por ação judicial e cancelada pela agência, para que o País possa contar com uma das opções mais eficientes e econômicas, tanto para a cobertura de pequenas cidades como de vastas regiões metropolitanas com essa rede sem fio de alta velocidade.’

 

 

INTERNET
Roberta Pennafort

Sem poeira, sebo online atrai novos e velhos leitores

‘Amados por colecionadores, os sebos sempre foram vistos pelo leitor comum como lugares empoeirados, com livros fora de ordem, onde só se encontram os títulos desejados depois de muita procura. No Rio, embora sebos tradicionais tenham fechado nos últimos anos, o mercado de livros usados ou raros se mantém quente. A internet, que já reúne bons acervos há alguns anos, ajuda a aquecê-lo ainda mais.

Em portais especializados, é possível encontrar as publicações desejadas sem espirrar nem ter trabalho – não só na sua cidade, mas em todo o Brasil. O Estante Virtual (www.estantevirtual.com.br), o pioneiro e mais conhecido deles, disponibiliza informações sobre acervos de mais de mil sebos, distribuídos por 200 e tantos municípios brasileiros. Hoje, comemora seu terceiro aniversário, com marca superior a 3 milhões de livros disponíveis para compra. O portal registra 60 mil visitas por dia.

O Estante fica com 5% do valor do pedido, que pode variar de R$ 5 a cifras altas, pagas por edições raras. Com a venda diária de 3 mil livros, o faturamento do site já chega a R$ 1 milhão por mês. Também é cobrada uma mensalidade de cada estabelecimento cadastrado no portal e todos têm de oferecer pelo menos 40% de desconto sobre o preço de capa.

Histórias de sucesso como a do Estante Virtual começam, aos poucos, a surgir na internet. Criado há um ano, o Sebos OnLine (www.sebosonline.com) anuncia também vinis, CDs, revistas, gibis e fitas em VHS usados. O Gojaba (www.br.gojaba.com) nasceu em fevereiro na Rússia e na Suécia e, em junho, chegou ao Brasil e à Polônia. O internauta brasileiro pode comprar de sebos desses e de outros países.

‘Essa novidade é muito boa. Hoje estou mandando um livro para Maceió e outro para Sepetiba, aqui no Rio, onde não tem sebo. Os sebos que ainda não se adequaram estão ficando para trás’, diz Roberto Nogueira, funcionário da Livraria Amorim e livreiro particular, com 28 anos de experiência no ramo, inscrito no Estante, no Sebos OnLine e no Gojaba.

Em qualquer um desses sites, nada impede que o leitor do Rio Grande do Sul feche uma compra com um sebo do Ceará. Onde quer que o pedido seja entregue no País, o preço do frete de livros é fixo pela modalidade de encomenda ‘impresso normal’. Os pagamentos normalmente são efetuados por meio de depósito bancário.

Atualmente já existem comerciantes que dependem das vendas online para a sobrevivência do negócio. ‘Metade das minhas vendas é pela internet. Vendi para os Estados Unidos e o Canadá’, diz Amauri Mapa, dono do Sebo da Torre, do Recife, o primeiro a aderir ao Estante. ‘A exposição online é ótima para o livreiro e mais ainda para o consumidor: o mesmo livro pode ser encontrado por R$ 5 e R$ 50’, diz o comerciante. Em se tratando de livros usados, o preço varia de acordo com o estado de conservação e a data da publicação.

Carlos Cardiano, sócio do sebo carioca O Acadêmico do Rio, fundado há 37 anos e auto-intitulado ‘o mais antigo da cidade no mesmo endereço’, diz que o mercado vem piorando desde os anos 1990. ‘Há dez anos existiam três ou quatro sebos aqui na Rua da Carioca (no centro do Rio, região que mais concentra sebos na cidade), mas foram fechados. Se eu tivesse dinheiro para investir neste momento, não investiria nisso (sebos).’

O INVENTOR

Obviamente, André Garcia, jovem pai do Estante Virtual – foi ele quem teve a idéia e desenvolveu o site, depois de aprender como fazê-lo por conta própria -, discorda. ‘Hoje, funcionamos como uma junta comercial dos sebos. Todo dia recebo pedidos de novos cadastros. As livrarias estão cada vez mais restritas a best sellers, concentrando 80% das vendas em 20% dos livros de que dispõem. A gente, não.’ Os títulos mais vendidos são tão distintos quanto Vidas Secas, de Graciliano Ramos, A Profecia Celestina, de James Redfield, e A Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado.

A partir da experiência no site, Garcia, que tem apenas 30 anos de idade, viu surgir sebos em cidades antes desprovidas desse tipo de comércio. E também livreiros fecharem as portas por decidirem vender só pela internet. E ainda colecionadores sem loja física optarem por se aventurar na rede. Tudo começou quando ele estudava para uma prova do mestrado em Psicologia Social. Não conseguia achar os Freuds e Lacans de que precisava, ou, quando encontrava, custavam caro demais – decidiu agir por conta própria.

OS LEITORES

‘Rato de sebo’ desde a adolescência, o professor Antonio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras e autor do Guia dos Sebos, editado pela primeira vez há dez anos e atualmente com acervos de 14 capitais brasileiras, não deixa de freqüentá-los, mas também compra pela internet. ‘O aumento no número de sebos na internet é diário. Alguns são amadores, mas isso é democrático.’ No guia do acadêmico, São Paulo aparece em primeiro lugar, com 76 estabelecimentos listados; o Rio é o segundo, com 52.

Aos 72 anos, o economista Carlos Lessa, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES), lamenta o fechamento de algumas casas tradicionais do Rio, mas ressalta que, se umas foram extintas, outras foram abertas – como a Babel Livros, com duas filiais na capital fluminense, que figura entre seus sebos preferidos. Com Lessa, a internet não tem vez. ‘Sou um analfabeto digital e gosto muito de pôr a mão no livro. Gosto de garimpar. Se não fossem os sebos, não teria hoje a coleção que tenho.’’

 

 

PSICANÁLISE
Rinaldo Gama

Freud – De pai para filha

‘‘Por ti eu vejo agora como estou velho, pois tens a idade da psicanálise. Ambas me trouxeram preocupações, mas no fundo espero mais alegrias de ti do que dela’, escreveu Sigmund Freud para a filha caçula, Anna, a única que o seguiu na carreira, três dias depois de seu 25º aniversário, isto é, a 6 de dezembro de 1920. Freud considerava 1895 como marco do surgimento da psicanálise – embora só haja empregado o termo pela primeira vez em 1896 – porque fora em julho daquele ano que tivera o famoso sonho cuja explicação representou a chave de sua revolucionária ciência. Anna dizia que ela e a psicanálise eram irmãs gêmeas, disputando, desde o nascimento, as atenções do pai. A imagem não poderia ser mais precisa. A conseqüência disso foi a formação de um ‘triângulo amoroso’ especialmente particular – e histórico. Alguns dos nós desse intricado laço de três pontas podem ser revistos a partir da leitura de Correspondência 1904-1938, de Sigmund e Anna Freud, volume organizado por Ingeborg Meyer-Palmedo (tradução de Kristina Michahelles; L&PM Editores; 512 páginas; R$ 83).

Como Anna nunca abandonou propriamente a casa do pai, a maior parte da correspondência que trocou com Freud – cartas, bilhetes, postais e telegramas, num total de quase 300 mensagens de ambas as partes – se deu em períodos de férias e durante viagens para tratamento de saúde ou compromissos de trabalho. Não se espere, portanto, desta obra, uma coleção de revelações estarrecedoras, debates teóricos inflamados ou longas reflexões íntimas. Para se ter uma idéia, a polêmica análise que Anna fez com o pai – primeiro, de 1918 a 1922, e, depois, esparsamente, de 1924 a 1925 – só é mencionada numa carta dela, escrita em 24 de julho de 1919. O livro, no entanto, permite ao leitor, por meio de seu alentado conjunto de notas de rodapé, ter diante de si um panorama das décadas inaugurais da psicanálise, com suas hesitações, controvérsias e limites; um retrato da vida em família dos Freuds; além, é claro, da trajetória profissional e afetiva de Anna – traçada, cada vez mais, em direção ao próprio pai.

‘Decerto não podes imaginar o quanto estou sempre pensando em ti’, confessou ela a Freud em uma missiva datada de 9 de agosto de 1920. Na realidade, o pai sabia bem disso; inquietava-se até – contudo, também se sentia enredado. ‘Às vezes, eu gostaria que ela encontrasse logo um bom marido, mas em outros momentos recuo diante da perda’, admitiu Freud à sua amiga e confidente Lou Andreas-Salomé, numa carta de 3 de julho de 1922, citada em Correspondência.

Tal sentimento ajuda a compreender por que o criador da psicanálise, anos antes, fez questão de alertar Anna sobre o iminente assédio de seu amigo e futuro biógrafo Ernest Jones: ‘Eu sei através das melhores fontes que o dr. Jones tem séries intenções de te fazer a corte. (…) E eu me embalo na esperança de que terás mais dificuldades em tomar uma decisão sobre a tua vida sem antes estar certa da nossa (neste caso: da minha) concordância’ (16 de julho de 1914). ‘Minha Anna é tão insensata e se agarra ao velho pai. Minha filha me preocupa. Como suportará a vida solitária? Será que conseguirei fazer sua libido sair do nicho em que se escondeu?’, alarmava-se Freud, em 1924, noutra missiva endereçada a Lou Andreas-Salomé. ‘Temo que sua genitalidade suprimida possa algum dia lhe pregar uma peça ruim. Não consigo fazê-la desprender-se de mim, e ninguém me ajuda’, queixou-se à sua fiel interlocutora no ano seguinte.

Lou acabaria se aproximando de Anna, a pedido de Freud – ‘Como parece ter sido barrada por mim no que se refere aos homens, também teve pouca sorte em suas amizades femininas’ -, e iria se tornar um misto de amiga, mãe e entusiasta dela nos primeiros passos de sua atuação no campo psicanalítico, notadamente na clínica de crianças.

A atividade como analista, influenciada, num certo sentido, pelo período em que cuidou dos sobrinhos pequenos, depois da morte prematura da irmã Sophie, em 1920, trouxe para Anna outras amigas. Em 1925, ela conheceu a americana Dorothy Burlingham, que fora para Viena, com os quatro filhos, em busca de tratamento analítico, depois de separar-se do marido maníaco-depressivo. A ‘camaradagem serena e agradável’ entre ambas, conforme a definiu a filha de Freud em carta para ele pai datada de 23 de abril de 1927, e que duraria até a morte de Dorothy, em 1979 – três anos antes de Anna -, encontrou no criador da psicanálise um apoio fundamental. ‘As presentes cartas revelam que Freud deve ter trabalhado duro para vencer sua imagem original da feminilidade’, observa Ingeborg Meyer-Palmedo na introdução de Correspondência. ‘Foram necessários vários anos de lutas internas até ele abrir mão do seu ideal de ?vocação feminina? para a filha mais nova’, sublinha ela.

Há mais do que isso delineado no corpo da obra organizada por Ingeborg – a questão da homossexualidade de mulheres na teoria freudiana, por exemplo. Em 1919, Freud atendeu a uma paciente que passou à história como ‘a jovem homossexual’. A experiência rendeu-lhe o ensaio Sobre a Psicogênese de Um Caso de Homossexualidade Feminina (1920), texto clássico retomado por Jacques Lacan no Seminário 10 – A Angústia, no qual ele procura explicar o porquê do ‘fracasso’ da análise de Freud. A paciente – Margarethe Csonka-Trautenegg, como se soube em 2004 – tem sua vida romanceada em outro livro, Desejos Secretos, de Ines Rieder e Diana Voigt, recém-lançado no Brasil (tradução de Laura Barreto; Companhia das Letras; 432 páginas; R$ 59). Nele, as autoras frisam que sua personagem foi atendida na mesma época em que Freud analisava a filha caçula – e se preocupava com os rumos de sua sexualidade. Ou seja, nas duas situações, para além do pai da psicanálise, estava em cena, inevitavelmente, o pai de Anna. A paternidade, sabe-se, ocuparia um lugar central nessa trama – e contra isso, Freud pouco pôde fazer.

Como pouco pôde fazer em relação à sua crescente dependência de Anna, após a descoberta, em 1923, de um câncer na boca, que o mataria 16 anos mais tarde. Conforme se lê na nota final da derradeira carta do criador da psicanálise incluída em Correspondência, com data de 3 de agosto de 1938, foi para a ‘querida Anna’ que ele quis transmitir, e submeter, por intermédio do médico Max Schur, o seu último desejo: que lhe abreviassem o sofrimento e lhe permitissem morrer rapidamente. Relutante, ela concordou. Assim, nos dias 21 e 22 de setembro de 1939, Schur aplicou no paciente injeções de morfina acima da dose sedativa normal; às 3 h da madrugada de 23 de setembro, Freud morreu. Até o fim da vida, Anna o realizou, plena e concretamente. Parece lícito afirmar que ela, tal como o pai imaginara que seria, lhe trouxe mais alegrias do que a psicanálise.

Rinaldo Gama, doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), é formado em psicanálise pelo Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP) e autor de O Guardador de Signos: Caeiro em Pessoa’

 

 

MODERNISMO
Francisco Quinteiro Pires

O imobilismo que desafia a imaginação

‘O Brasil continua um instigante segredo. Na início do século 20, os modernistas batalharam para entender o que era este país e, o mais importante, no que ele devia se transformar. Até hoje, eles fazem sombra nos rumos artísticos nacionais. A explicação pode estar na dificuldade não superada, talvez porque seja insuperável, de enquadrar o Brasil em alguma definição.

Não por acaso, a Revista IEB 47 (230 págs., R$ 20) traz alguns artigos sobre o modernismo. O novo projeto gráfico é inaugurado com 5 das 9 obras do modernista Ismael Nery, pertencentes ao acervo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), criado por Sérgio Buarque de Holanda em 1962.

Cinema = Cavação, Cendroswald Produções Cinematográficas é o texto de Carlos Augusto Calil, professor da USP e secretário municipal de Cultura, sobre um projeto do escritor suíço Blaise Cendrars. Em parceria com Oswald de Andrade, ele pretendia fazer um ‘filme de propaganda sobre o Brasil’. Mas uma revolução em julho de 1924, em São Paulo, liderada pelo general Isidoro Dias Lopes, estragou os planos. A revista publica O Filme 100% Brasileiro, sugestões de Cendrars e Oswald sobre a obra, que foram endereçadas ao escritor Paulo Prado.

Mário de Andrade é tema de dois ensaios. Professora da Universidade La Sapienza, de Roma, Maria Caterina Pincherle estuda, em O Linguajar Multifário, o refinamento com que o autor de Macunaíma registrou a fala dos estrangeiros no Brasil.

Autor de Nacional Estrangeiro, História Social do Modernismo Artístico em São Paulo, Sergio Miceli aparece com Feição e Circunstância de Mário de Andrade. De saída, ele aponta para o fato de que a ‘radical renovação do campo de produção cultural em São Paulo’ se realizou num contexto de crise. Aí emerge a figura de Mário, que acreditou na vocação universalista da cultura. ‘Tal postura lhe permitiu uma visada intelectual moderna ao questionar, do seu jeito desempenado e sentimental, as ciladas classistas?, escreveu Sergio Miceli. O momento atual pede a reinvenção. Mergulhado na treva do imobilismo, o homem tem de recorrer à imaginação para fazer a luz. O céu e a terra já foram criados no Brasil. Fiat lux!’

 

 

NOBEL
Gilles Lapouge

Uma recompensa para o ‘escritor viajante’

‘Um francês conquistando o Prêmio Nobel de Literatura, Jean-Marie Gustave Le Clézio, isso não acontece todos os dias. No século passado, a recompensa suprema apreciava bastante os escritores franceses, agraciando François Mauriac, Albert Camus e Jean-Paul Sartre. Houve ainda Claude Simon em 1985, e mais nada. Vinte e três anos sem Nobel. Por que esse eclipse? Os escritores franceses teriam emburrecido? É possível. Ademais, a Academia Sueca repentinamente descobriu que os grandes escritores nem sempre eram franceses, ingleses ou americanos, o que nos valeu ser obrigados a admirar, por exemplo, Wislawa Szymborska, em 1996!

Os americanos, com Faulkner, Singer, Hemingway, etc., construíram um lugar considerável na seleção do Nobel, e merecidamente. Mas neste ano a Academia Sueca decidiu reagir contra a maré americana. ‘Os Estados Unidos são muito insulares’, declarou há uma semana o secretário perpétuo da Academia Sueca, Horace Engdahl, ‘e seus escritores ignorantes demais para se equiparar à Europa em matéria literária’.

Frase estúpida, com certeza. Como esse Engdahl pode proferir semelhante asneira? Os escritores americanos são ignorantes! Será que ele pode explicar-nos também que William Faulkner é um autor secundário? Ou Hemingway? Por que não dizer que Herman Melville, Henry James ou Edgar Allan Poe eram analfabetos, primitivos, em suma, ‘americanos’? Neste ano, a Suécia queria que o balancim voltasse à Europa. A escolha de Le Clézio é acertada? Sem nenhuma dúvida. Le Clézio é um homem muito digno, sério, trabalhador e bom escritor. Ele é bonito e simpático. Sua linguagem é sólida, poética, ágil, e suas inspirações generosas, com freqüência debruçadas sobre povos deserdados, México, Tailândia, homens e mulheres pobres, os abandonados.

É o que chamamos de ‘escritor viajante’. Na primeira parte de sua obra, após seu primeiro sucesso estrondoso (Le Procès Verbal, de 1963), ele se consagrou a explorar os entornos da loucura, os problemas da escritura, o que lhe valeu a admiração de Michel Foucault. Após 1970, sua inspiração se alarga, apaziguada. Ele volta a suas viagens, suas errâncias. Ele associa a escritura e o deslocamento, o exílio. Seu último livro, Ritournelle de la Faim, é um retorno à sua infância, sua adolescência. É um dos mais belos. Alguns certamente criarão caso. Eles dirão que o poeta francês Claude Bonnefoy, o poeta libanês Adonis, o escritor italiano Claudio Magris, o antropólogo centenário Claude Lévi-Strauss, sem falar dos americanos Philip Roth, John Updike, Joyce Carol Oates têm obras mais consistentes que as de Le Clézio.

Mas os mesmos críticos teriam protestado da mesma forma se o Nobel tivesse agraciado Bonnefoy, Magris ou Carol Oates. Nomear o melhor escritor do ano é sempre um exercício de alto risco. A própria Academia Sueca não preferiu, outrora, o escritor francês absolutamente nulo Sully Prudhomme ao russo Lev Tolstoi? Na seqüência, esse mesmo Nobel preteriu Franz Kafka, Robert Musil, Joseph Conrad, Jorge Luis Borges, Ismail Kadaré, etc…. uma bela lista de mancadas!

Um francês, portanto! Isso inspirou Jean d?Ormesson, brilhante acadêmico francês, a fazer um pouco de ‘patriotismo’: ‘Isso prova que a cultura francesa não está tão decadente quanto os americanos pretendem.’ Era de se esperar mais de D?Ormesson. Era de se esperar que as escolhas do Nobel ficassem acima, muito acima, das querelas nacionalistas. TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK’

 

 

 

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