Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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O Estado de S. Paulo

21/10/2008 na edição 508

HISTÓRIA
Elias Thomé Saliba

História de muitas vozes

‘‘A história do Brasil dá a idéia de uma casa edificada na areia. É só uma pessoa encostar-se na parede, por mais reforçada que pareça, e lá vem abaixo toda a grampiola.’ Assim Capistrano de Abreu, no longínquo ano de 1920, confessava seu fracasso em vislumbrar o sentido geral da história brasileira. Noventa anos depois, será que o extraordinário desenvolvimento das pesquisas históricas e a massa de publicações conseguiram construir alicerces sólidos para sustentar a grampiola de Capistrano?

A possível resposta pode vir após a leitura de História do Brasil – Uma Interpretação, de Adriana Lopez e Carlos Guilherme Mota, uma extensa, bem documentada e provocadora síntese da história brasileira. Atenuando o maremoto das biografias, ela chega no momento oportuno, apostando numa história que revele, por trás do sincopado dos eventos políticos, biográficos e anedóticos, as forças profundas e os significados peculiares da história do Brasil. É a mais abrangente possível, cobrindo desde os primitivos habitantes dos sambaquis até o segundo governo do presidente Lula. A explicação dos grandes processos predomina sobre a narrativa do miúdo e do incidental, a informação é sempre pertinente e provocadora, iluminando os tempos atuais, através das várias faces dos episódios, dos diversos pontos de vista, das muitas versões – e algumas subversões.

Já no clássico Ideologia da Cultura Brasileira (publicado em 1977 e agora reeditado), Mota articulara uma instigante crítica da cultura brasileira, identificando seus velados conteúdos senhoriais e conciliadores que encobriam as lutas sociais, falseavam rupturas, escamoteavam conflitos e contribuíam para perpetuar as enormes desigualdades do País. Mas o clima de forte suspeita daquela época e a autêntica metralhadora giratória que o livro disparou sobre alguns nomes intocáveis da cultura brasileira obscureceram a percepção de certa linha interpretativa da história que, por linhas tortas, já ali se desenhava. Neste novo livro, dividindo a autoria com a historiadora Adriana Lopez, já é possível perceber-se, mais explícita, aquela linha interpretativa que se constrói de forma um tanto oblíqua, ‘do contra’, ou pelo lado negativo: a história brasileira não é conciliadora, nem harmoniosa nem incruenta. Como no livro de 1977, a noção de uma ‘Cultura Brasileira’ não passa de um estratagema, uma alegoria retórica que mantém o balança-mais-não-cai da grampiola de Capistrano. As elites nunca ultrapassaram os ‘marcos extremos do reformismo liberalizante’ e – salvo raras exceções – os seus esquálidos quadros políticos só foram pródigos naquela esperteza – bem definida pelo humorista Luis Fernando Verissimo – em ‘simular uma História justamente para não ter que fazê-la’. ‘Elites camaleônicas’, segundo Lima Barreto. Ou com perfil daqueles eternos ‘chuchus’ – como na irônica descrição que Faoro fez de Getúlio Vargas: ‘Chuchu sem gosto e inodoro, que assume o sabor do molho com que o condimentam: ele protela, procrastina, transfere, demora, adia, prorroga esperando ninguém sabe o quê. Bem ele sabia o que esperava.’

Há uma ênfase proposital nos registros e nas fontes que destacaram os aspectos cruentos, predatórios, conflituosos ou violentos da história brasileira. Registros de cronistas, viajantes e outros testemunhos de época são criteriosamente usados não apenas para comprovar, mas também como elementos de denúncia dos massacres, genocídios e outros eventos que evidenciaram os contrastes sociais e a violência velada, quando não simplesmente omitida da história brasileira. Tome-se o capítulo das invasões francesas no século 16. Lá está o perfil do ouvidor Martim Leitão, na impiedosa pena de Capistrano: ‘Arvorado em general, indiferente à aquisição de escravos, trucidou os prisioneiros que pôde, arrancou as roças, devastou as aldeias, impossibilitou a resistência e até residências nas cercanias. De intérprete das leis converteu-se em anjo do extermínio.’ Ou a denúncia afiadíssima de Euclides da Cunha, referindo-se às populações nordestinas banidas para a Amazônia, em 1890: ‘Os banidos levavam a missão dolorosíssima e única de desaparecerem…’

Heróis ou estadistas, de Pombal a d. Pedro II, de Floriano a Collor, são reduzidos às suas verdadeiras proporções numa narrativa que, sem falsear a história, se esforça por revelar outros personagens duplamente omitidos: na tessitura dos acontecimentos e na narrativa historiográfica – que quanto mais se institucionaliza, mais se vê incapaz de desgrudar-se do mito de uma história que se quer incruenta. Mas as trajetórias biográficas jamais se sobrepõem à torrente dos eventos, e os autores não hesitam em incluir em todos os capítulos um item que há muito não se via em livros de história do Brasil: ‘O sentido do processo.’ Bom para o leitor, que nunca perde o eixo. E ainda ótimo reforço para a grampiola de Capistrano não desabar de vez. A periodização também é provocadora, sobretudo em relação à história mais próxima de nós. Inspira-se propositalmente na desassombrada (e nem sempre bem aceita) leitura proposta por Darcy Ribeiro, para o período 1946 a 1964, a ‘República Patricial’, assim chamada por ele porque ‘o patriciado político tradicional se aliou a grupos internacionais promovendo modernizações conservadoras com efeitos desnacionalizantes’.

Adriana Lopez e Carlos Guilherme também não omitem nem controvérsias nem diferentes interpretações. Acompanhando uma articulada narrativa da história dos acontecimentos, vem o relato breve da trajetória de algum intérprete marcante daquele tema. Porque muitas vezes a história de uma interpretação ou de um intérprete ajuda a entender a própria história. Ganha outra vez o leitor, pois como já dizia Marc Bloch, ‘O espetáculo da pesquisa, com seus sucessos e seus revezes, raramente entedia’. Lá estão Charles Boxer, Vitorino Magalhães Godinho, José Maria Bello, José Honório Rodrigues, Douglas Teixeira Monteiro, Dante Moreira Leite, Raymundo Faoro, Joaquim Barradas de Carvalho e outros notáveis estudiosos. Aliás, quem melhor definiu o simpático Barradas foi o próprio Fernand Braudel quando disse que a obra deste ‘historiador provou que, afinal, não se compreende Portugal, senão estando no Brasil.’

Outras personagens da história brasileira destacam-se não apenas porque foram vítimas de injustiças e violências, mas também porque ousaram testemunhá-las ou registrá-las. ‘Por aqui, relações de litígio só podem ser resolvidas por quem pode, quer e manda.’ Outro diagnóstico cortante, saído da pena de Luís dos Santos Vilhena, um simples professor régio, titular da cadeira de grego em Salvador, no início do século 19. Instado a vôos mais altos, foi dos poucos que optaram por manter impoluto seu campo ético: ‘Escrevo cartas, e não histórias’, alfinetou. Vilhena, Evaristo da Veiga, Amaro Cavalcanti, Sérgio Milliet (carinhosamente apelidado por Agrippino Grieco, de ‘juste Milliet’), Darcy Ribeiro, Goffredo da Silva Telles – mas também as esquecidas personagens femininas, como Pagu, Maria Eugênia Franco e tantas outras. Todos operários da democracia real, que se recusaram limitar-se ao mero papel de obedientes funcionários da democracia retórica. Raras mentes esclarecidas, que mantiveram coragem e equilíbrio nos momentos mais difíceis da história brasileira – e que olhavam para um futuro aberto e destravado – ainda que mal se equilibrassem na gangorra conciliadora das elites, ciosas dos privilégios e sempre prontas para defenestrá-las. Entre tantas, estas as vozes que mais se ouvem na densa reconstrução realizada por Carlos Guilherme e Adriana Lopez.

Vozes que ainda ecoam no presente, talvez porque continuem nos ensinando a nunca misturar o ético com o político. E não porque a política não tenha nenhuma dimensão ética, mas porque o reino da ética, se politizado, deixa de funcionar como checagem autônoma da política. Lição virada, revirada, inventada e reinventada por tantos remoinhos do tempo e por tantas histórias esquecidas – mas que ainda pode iluminar, como um brilho emancipador, o Brasil do presente – que é, afinal, onde toda vocação do historiador começa e para onde toda história deve retornar.

Elias Thomé Saliba, professor de Teoria da História na USP, é autor, entre outros, de Raízes do Riso’

 

 

BIOGRAFIA
Luiz Zanin Oricchio

Os mistérios do ‘sistema Zidane’

‘Quando um ex-jogador de futebol se torna capa de uma importante revista francesa? Resposta: quando ele se chama Zinedine Zidane e quando chega às livrarias uma biografia não-autorizada que, por pouco, deixou de ser impressa. Zidane – une Vie Secrète, da jornalista Besma Lahouri, ostenta essa condição controversa em sua capa – ‘Le Livre que vou avez failli ne jamais lire’ (o livro que por pouco você deixou de ler). Entre as peripécias da obra, estão um assalto à casa do editor e outro, à da autora, ocasião em que foram levados os computadores contendo cópias do manuscrito. Por sorte, havia um back-up em lugar mais seguro. Os crimes ainda não foram apurados.

Com esses precedentes policiais, e mais o renome do biografado, entende-se o interesse da revista. O espaço, de 11 páginas (entre textos de jornalistas, excertos do livro e fotos), na semanal L?Express, tem introdução assinada por Philippe Broussard que, logo de início, adverte a quem busca fofocas e escândalos fáceis. ‘As 420 páginas não desvelam qualquer fato escandaloso da vida privada de Zidane’, escreve.

O livro também não pode ser considerado exatamente um modelo de exercício estilístico além de conter erros e generalidades, típicos de quem se sente pouco à vontade no universo do futebol, continua Broussard. Apesar disso, o volume deve ser lido porque é o estudo mais completo já feito sobre o ‘sistema Zidane’, ou seja, a organização gerencial montada em torno do mais bem-sucedido jogador francês de todos os tempos. Mesmo essa afirmação é controversa pois existe quem dê o título a Michel Platini. Polêmicas futebolísticas à parte, o fato é que Zidane atuou num tempo muito mais midiático e, portanto, amealhou mais dinheiro e poder que o antecessor. Esse dinheiro e esse poder são os objetos maiores de preocupação de Besma Lahouri ao longo do que parece ser uma investigação exaustiva.

Mas sempre sobra espaço para o ato final da vida profissional de Zizou, a famosa cabeçada em Materazzi na final da Copa do Mundo contra a Itália, em 2006. O livro revela que Zidane abandonou o estádio em companhia de seus dois irmãos, jantou num restaurante modesto sem dizer palavra e recolheu-se ao hotel de madrugada. Profundamente arrependido do que fizera.’

 

 

 

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