Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
Menu

ENTRE ASPAS >

O Estado de S. Paulo

28/10/2008 na edição 509

ELEIÇÕES NOS EUA
Timothy Garton Ash

Os perigos de uma campanha suja

‘Onde você estava quando Obama foi morto? Essa é a pergunta que rezamos para não ter de fazer, e até hesitei em escrever, como se a simples menção disso pudesse ser um convite para a calamidade. Contudo, o medo tem tomado conta de nós quando vemos Barack Obama no meio da multidão.

Durante semanas, assisti à cobertura das eleições nos 24 ou 27 canais noticiosos da Grã-Bretanha, examinando exaustivamente todas as reportagens sobre a campanha, mas nem uma vez ouvi alguma coisa a respeito ser mencionada. Quase diariamente, em conversa com as pessoas, o assunto sempre vem à tona, especialmente quando me encontro com jornalistas.

A autocensura da mídia é correta? Eu não devia estar escrevendo sobre isso? Tem muita gente influenciável e instável por aí. Os especialistas podem discutir o impacto psicológico da cobertura da mídia de assuntos como este, mas é claro que há algum influência.

No início do ano, uma blogueira observou que o tema ‘assassinar Obama’ tinha aparecido numa lista dos cem principais itens de busca no Google. Ela insinuou que reportagens de jornais sobre o perigo é que provocaram o aumento das buscas – e o seu blog podia fazer o mesmo. Como também este artigo. No entanto, ignorar a questão é omitir algo importante.

E é só tendo esse pavor como um pano de fundo sombrio é que se consegue avaliar a total irresponsabilidade dessa mudança de foco da campanha de John McCain e Sarah Palin, que passaram a atacar o caráter, a biografia e o patriotismo de Obama – ataques que, em outro contexto, não hesitaríamos em descrever como ‘linchamento moral’.

A acusação feita por Sarah de que Obama esteve ‘associado a terroristas’, as mensagens telefônicas gravadas que o associam com o ‘terrorista doméstico’ Bill Ayers, a insinuação de que ele é um estrangeiro antiamericano, rimando Obama com Osama, o fato de não se reprimir imediatamente quando algum idiota no comício de Sarah grita ‘terrorista’ ou ‘matem-no’.

PROTEÇÃO

Os partidários de Sarah podem dizer que isso são EUA, não a Europa. Lutamos ferozmente, e lutamos para ganhar. Arrancar os olhos de alguém enquanto você rola na lama é ótimo nesta terra de homens de verdade. No entanto, republicanos mais responsáveis não concordam com isso. E, segundo eles, se você colocar de fato ‘o país em primeiro lugar’ – que é o lema da campanha de McCain -, não deve seguir por esse caminho.

Não foi por acaso que Obama recebeu proteção da polícia secreta durante as primárias. Ao verem o apoio eloqüente e ponderado de Colin Powell a Obama, muitos devem se lembrar que a razão pela qual ele não se candidatou à presidência foi o receio de sua mulher de que ele fosse assassinado. Nenhum analista sério vai discordar que a ameaça a Obama, por mais eficaz que seja a proteção da polícia, seja maior do que seria se ele fosse um candidato branco.

Claro que loucos, xenófobos e racistas estão por toda a parte. A questão é que ninguém jamais poderá dizer que a campanha republicana não os encorajou. Acho importante registrar que ouvi vários republicanos afirmarem como seria ótimo para os EUA terem um presidente negro.

CRESCIMENTO

A crítica da maldosa mudança de foco da campanha republicana poderia perder um pouco de força se a campanha de Obama também tivesse feito ataques similares. Os democratas também fizeram uma campanha negativa e o excelente site factcheck.org declarou que o próprio Obama, por vezes, distorceu as posições políticas de McCain.

Ele nunca recorreu, porém, a ataques pessoais tão baixos. No último debate, Obama se absteve de questionar as qualificações de Sarah para ser vice-presidente. Sua mensagem silenciosa foi esta: cabe ao povo americano julgar. Assim, a campanha McCain-Palin vem brincando com fogo.

As apostas nessa eleição aumentam a cada dia. É como um jogo de pôquer com pilhas de fichas se acumulando sobre a mesa. Tanto as perdas como os ganhos são enormes. E o melhor de tudo não é só o enorme avanço simbólico de eleger o primeiro presidente negro dos EUA, mas também a chegada ao mais importante cargo do mundo de uma pessoa que tem as qualidades necessárias para fazer um excelente trabalho.

Nem sempre pensei dessa maneira. Ano passado, Obama ainda me parecia inexperiente. Contudo, a cada desafio, ele ganhou estatura. Para começar, mostrou uma extraordinária força e resistência. Por causa da longa e interminável disputa com Hillary Clinton durante as primárias, ele está em campanha há quase dois anos ininterruptos. Durante todos os altos e baixos da campanha e a crise financeira das últimas semanas, ele tem se mostrado calmo, controlado e firme como uma rocha. São qualidades que apreciamos num presidente.

Nos debates, Obama foi sério, bem informado e maduro, fazendo com que McCain parecesse um jovem temperamental. O democrata elogiou os ataques dos antigos pilotos de combate com um sorriso irônico, o que visivelmente deixou McCain louco.

HABILIDADE

Obama tem um desprendimento enigmático, que é um trunfo para qualquer presidente. Pessoalmente, é um homem equilibrado e enraizado. Você sente que é uma pessoa que sabe quem é. Não porque sempre soube, como é o caso do herdeiro da ‘longa linhagem dos McCains’, mas porque conseguiu chegar lá pelo caminho mais difícil, como está registrado em seu livro autobiográfico Dreams from my Father.

Obama também deixou de lado a verborragia observada no início da campanha. Em política, ele demonstrou um claro domínio intelectual dos assuntos, uma capacidade para absorver e sintetizar conselhos de especialistas e um foco consistente em algumas prioridades estratégicas, como a situação econômica da classe média, saúde, educação e energia.

Após o último debate, alguns especialistas da CNN reclamaram que ele tinha sido ‘professoral’ demais. O que eles têm contra professores? Depois vieram as pesquisas e se verificou que eleitores indecisos gostaram do tom ‘professoral’.

Após oito anos convivendo com ‘o tipo de cara com quem você gostaria de beber uma cerveja’ (Bush), talvez a presença de alguém que mostre uma nítida compreensão de assuntos tão complexos não seja tão ruim.

Sem cantar vitória antes do tempo, Obama já vem preparando suas escolhas políticas para compor o governo – determinado a iniciar seu primeiro mandato de modo melhor do que Bill Clinton. A cada semana, meu respeito por ele cresce mais.

Claro que nunca se sabe realmente como serão as coisas até que elas aconteçam. Será ele corajoso o bastante? Conseguirá fazer com que as engrenagens de Washington, incluindo os membros de seu próprio partido, sejam eficazes?

Tudo o que nos foi mostrado até agora, porém, sugere que ele tem as qualidades necessárias para ser um bom presidente, talvez até um grande presidente. Essas são algumas das razões pelas quais nenhuma eleição americana, desde 1932, foi cercada de um medo tão profundo e de tão grandes esperanças.

*Timothy Garton Ash é professor de estudos europeus da Universidade de Oxford e bolsista sênior da Hoover Institution, da Universidade de Stanford’

 

 

LIVRO
Antonio Gonçalves Filho

Uma viagem ao mundo arcaico

‘Aos 58 anos, o prestigiado escritor e médico cearense Ronaldo Correia de Brito, autor de três livros de contos incensados pelos críticos, As Noites e os Dias (1996), Faca (2003) e Livro dos Homens (2005), lança finalmente seu primeiro romance, Galiléia (Alfaguara, 240 págs., R$ 34,90). Há oito anos em preparo, ele sai da gaveta com carga explosiva, detonando o mundo arcaico do sertão com personagens vindos de um mundo laico, globalizado. O tema é o encontro de três gerações de uma família. Seus integrantes convergem para o sertão de Inhamuns para comemorar o aniversário do patriarca moribundo. As velas do bolo, no entanto, viram as de seu funeral e seus descendentes acabam topando com um cadáver ambulante, em decomposição, enquanto se revela a podridão moral da família.

Correia de Brito conhece bem esse universo. Nascido no mesmo sertão de Inhamuns, quase um deserto bíblico no Crato, o escritor, que vive hoje no Recife, jamais teve uma visão romântica do agreste. Quando faltava água, ele e os irmãos lavavam os túmulos dos ancestrais na esperança de chover. Galiléia é um acerto de contas com esse mundo arcaico. Avança numa vereda aberta por Guimarães Rosa, a das relações de caráter homoerótico entre personagens embrutecidos que parecem ter saído de alguma tragédia grega ou dos cafundós de Faulkner. Em outras palavras: ele fala de um mundo em ruínas, que desmorona com seus brasões e hoje vê suas crianças prostituídas por caminhoneiros de passagem pelo inferno.

A primeira impressão de quem lê Galiléia é de que o livro foi escrito para ter uma seqüência. Parece uma obra à espera de conclusão.

Galiléia era um projeto maior. Afinal, foram oito anos de trabalho, iniciado em janeiro de 2000, e muita reflexão sobre os livros anteriores. O projeto era de um livro com muito mais páginas. Aí fui cortando, cortando e, no final, Galiléia ficou com 100 páginas a menos. Optei por um livro mais curto para manter a tensão dramática. Decidi, também, fazer um livro aberto, que não termina, e construir um certo ritmo narrativo para cada um dos personagens. A narrativa de Davi, por exemplo, é bem diferente da narrativa de Natan. Além de toda a preocupação metafísica, queria fazer um livro sobre o choque de culturas, de gerações. Afinal, depois de Grande Sertão: Veredas, que completou 50 anos no ano passado, e de Vidas Secas, o que se poderia escrever mais sobre esse universo?

Tive a impressão que essa travessia dos Inhamuns em Galiléia tem algo da travessia do sertão rosiano, um acerto de contas com uma certa idéia de sertão, mas também uma revisão das relações afetivas em Grande Sertão, do amor homoerótico algo camuflado em Rosa.

Muitas vezes fui maltratado por conta de desmascarar a solução final de Grande Sertão, aquele final milagroso de transformar Diadorim em mulher. Há, de fato, esse acerto de contas e havia sem dúvida um projeto de fazer uma leitura inteiramente contemporânea desse universo, dentro de questões fortes, atuais. Tanto que opto por um personagem que viveu na Inglaterra, outro na França e outro na Noruega, uma realidade que se contrapõe aos fantasmas desse mundo arcaico, ou de quase-mortos, como o patriarca Raimundo Caetano, um mundo em que as mulheres lutam para sair da periferia.

Todos os personagens de Galiléia têm nomes bíblicos, conservando às vezes algumas características de seus modelos, mas, de modo geral, eles representam a imagem inversa dessas figuras do Antigo Testamento, a começar por Davi, que não corresponde ao que se espera de um ungido. Qual é a origem dessa associação ou contraposição?

Ela surgiu de uma história real, da recusa de um nome, na hora do batismo, por parte de um padre anti-semita que desaprovou um prenome judeu. Há no Ceará um orgulho muito grande de uma suposta ascendência judaica e, mais que isso, uma forte suspeita de que essa foi responsável por nossa herança moral. A força da cultura, a presença forte dessa moral judaico-cristã é notada desde os guardadores de rebanhos que viviam se matando nesse universo sertanejo. No romance, houve um cruzamento de histórias. Ismael é, sem dúvida, um proscrito, e a nudez de Davi remete muito à história do rei entrando nu em Jerusalém. Mas, no livro, ele é vítima de um incesto e ainda transfiro parte de suas características para o patriarca Raimundo Caetano. Sempre vi, por exemplo, a relação do Davi bíblico com Jônatas como uma experiência homoerótica, algo como a relação de Aquiles e Pátroclo.

E não só você. Thomas Burnett Swann escreveu há 30 anos um livro inteiro sobre essa relação amorosa em How Are the Mighty Fallen, descrevendo Jônatas como amante de Davi e descendente de uma espécie de semideuses alados.

Pois é. É como se descobrisse uma irmandade ao ver tantos autores tratarem a Bíblia como literatura. Aprendi a ler na Bíblia. É um livro que me marcou muito. É fatal que essa questão bíblica aparecesse. Mas a questão de Davi em Galiléia é de outra ordem, prepara o leitor para uma revelação, a do seu lado mais perverso, enquanto Ismael é que é visto como a ovelha negra da família, um proscrito que será morto por Adonias e que, no entanto, dá sua vida para salvá-lo. Nada remete a uma realidade mensurável. Vai do plano mítico para ela. Esse foi meu grande desafio: o de transformar a realidade, a história real de Davi e de Ismael em boa literatura e cruzar tudo isso num único personagem, o de Maria Raquel.

E aí entram reminiscências da escola realista italiana, em particular o Pratolini de Cronaca Familiare, na seqüência em Ismael rememora o episódio do avô juntando as cabeças dos dois meninos, dizendo que ele tinha uma dívida com Adonias.

Li os realistas italianos, mas essa cena veio menos como citação literária e mais como reminiscência. Esse hábito de colocar a mão sobre as cabeças para selar uma reconciliação é também muito nordestino. Não aconteceu comigo, mas testemunhei uma dessas reconciliações. Adonias, obviamente, não sou eu, mas tampouco deixa de ser um personagem contaminado pela minha memória. Ele é meio pessimista, impregnado pelo existencialismo de Cioran. Há, sim, algumas referências cinematográficas no livro, como uma cena do Mahabharata de Peter Brook, quando Adonias avança em direção ao quarto onde está Ismael para o matar.

Voltando um pouco ao Grande Sertão: Veredas e à sexualidade ambígua de seus personagens, como você interpreta o silêncio crítico sobre esse aspecto particular quando se comemorou, no ano passado, o cinqüentenário do livro?

Li o livro da primeira às últimas páginas, aquelas que trazem a grande revelação, sem saber que Diadorim era mulher, acreditando que estava acompanhando o amor de dois homens. Para mim isso era muito natural, muito poético. Esse momento da revelação, para mim, como médico, foi como uma aula de anatomia patológica. Tive um estranhamento muito grande. Não vejo essa como uma revelação do lado feminino de Diadorim. Para mim, ele continua sendo homem. Não compreendo a saída do Rosa. Mas Grande Sertão não é um romance homossexual, como escreveram algumas pessoas. É um livro de trama elaborada, cheio de poesia, metáforas e muita metafísica. E que tem por enredo o amor entre dois homens: Riobaldo e Diadorim. Dizer que se trata de um romance homossexual é reduzi-lo a uma única vereda de leitura.

Esse mundo arcaico, de delírios incestuosos, é uma resposta ao orgulho nordestino da heráldica sertaneja, ao regionalismo que defende uma cultura hierarquizada e isolada, mais ou menos a crítica que faz outro escritor nascido no sertão, o pernambucano Raimundo Carrero. Que relação você tem com seus contemporâneos nordestinos?

Sou amigo de Carrero, mas li pouca coisa dele. Raimundo Caetano é um personagem real. Era um patriarca, que visitei como médico. Os filhos, netos e bisnetos rodeavam sua cama e notei que em cada um desses círculos se falava uma linguagem diferente. Os filhos vinham de avião particular, os bisnetos não largavam o laptop. Fiquei impressionado como esses círculos eram impenetráveis, como se houvesse uma guerra de morte entre eles. Quis justamente escrever um romance sobre essa relação, sobre a incomunicabilidade entre o mundo arcaico e o contemporâneo.

Esse abismo não é só retórico, é moral. Você toca num ponto traumático que é o da exploração do corpo infantil no Nordeste, que começa com essas relações incestuosas e acabam nos postos de gasolina à beira das estradas, onde meninos e meninas se entregam a caminhoneiros em troca de comida.

No meu trabalho como médico acompanho de perto esse grave problema, que atinge todo o Brasil. Na semana passada atendi um garoto de 16 anos que se prostitui desde os 13. O Davi de Galiléia poderia mesmo ser um desses meninos que se prostituem pela internet.

A doença do patriarca é quase uma metáfora do estado de deterioração moral de uma sociedade que não poupa ninguém, nem mesmo crianças. Você escreve que a mesma infecção que destrói sua carne parece também arruinar a terra. Naturalmente, Galiléianão é o primeiro livro a usar a doença como metáfora – é só lembrar de Saramago e a alegoria de seu Ensaio Sobre a Cegueira. Como médico, de que maneira vê essa metaforização da doença?

Outro dia, lendo uma crônica de Manuel Bandeira sobre Novalis, percebi como a tuberculose foi realmente a metáfora do romantismo. Creio que a última tentativa de associar uma doença a uma determinada época foi a aids. Em Galiléia, a morte do patriarca está associada a uma premonição que o leva a construir para si e Maria Raquel dois túmulos, um ao lado do outro, a premonição de que nem o avanço da ciência e da técnica poderá impedir que a doença esteja ligada a uma idéia de castigo, de punição. A geração mais jovem parece mais distante desse estigma, livre desse ‘castigo’, mas a de Raimundo amarga o remorso – e ele, particularmente, por se alegrar quando o filho mais mimado pela mulher morre, um episódio bíblico tirado de Davi. Essa transgressão retorna como um possível castigo e optei pela Bíblia como poderia ter optado pelas histórias dos pacientes de Freud.

O livro fala também da austeridade sertaneja, recorrendo a uma crítica formal ao comentar a falta de curvas no mobiliário das casas do sertão, associando as linhas retas ao poder masculino que dita as normas do desconforto e da tirania. Que personagem carrega mais que os outros os traços dessa cultura?

O tio Salomão é a representação desse mundo. Ele teve, por intermédio de Marina, uma paulista mais iluminada, a chance de escapar desse universo de brasões e ferros de marcar boi, mas é um personagem muito preso a esse mundo, a essas leis que se refletem na genealogia, no couro, nas paredes, nas portas. E é no coração de sua casa que se esconde um assassino.’

 

 

CALIBÁN
Francisco Quinteiro Pires

O mundo criado pela força poética

‘O traço essencial de um poeta é conceber a linguagem como aquela que é capaz de instaurar o real. Os poetas amam as palavras porque são palavras. Daí a recusa, segundo Jean-Paul Sartre, em aceitar a língua como um instrumento prático de comunicação. Seu poder não é o da opressão social, é o da transfiguração de mundo. Zé Limeira e Mário Pederneiras, dois encantados pela força poética, ganham textos críticos na 11ª edição da Calibán – Uma Revista de Cultura (168 págs., R$ 20).

Com Zé Limeira e Mário Pederneiras, mais uma vez se percebe a poesia como possibilidade de recriar o elo do homem com a realidade. Mas antes de refazer essa ligação o poeta lança, daquele canto onde se metem os homens perplexos, sua mirada crítica sobre o mundo.

Zé Limeira, A Alucinação Rústica da Linguagem é a resenha de Muniz Sodré sobre o livro de ensaios Zé Limeira, Poeta do Absurdo, de Orlando Tejo. Para o professor da UFRJ, ‘a Poesia de Limeira produz uma espécie de contra-sentido da erudição beletrista’. Zé Limeira viveu na Chapada do Teixeira, interior da Paraíba, e produziu versos, que ‘julgam e exasperam, com a crueldade lúcida do louco, com o lirismo dessabido da criança, com a ousadia lúdica do analfabeto e com o ritmo interno do poeta, o discurso pedante’.

André Seffrin assina o artigo Poesia Reunida de Mário Pederneiras. O carioca Mário Pederneiras (1867-1915) foi uma das figuras mais importantes do simbolismo. Uma das novidades que ele trouxe à cena poética nacional foi a de corajosamente praticar a simplicidade do verso, dispensando a retórica e o preciosismo da técnica.

Mas ele não chegou a esse estilo mais solto logo de cara. Seus dois primeiros livros – Agonia (1900) e Rondas Noturnas (1901) -, segundo a crítica, traziam cacoetes simbolistas, ‘em seus aspectos mais facilmente imitáveis’, como o vocabulário elevado e pomposo, além do prazer pela criação de atmosferas mórbidas, de acordo com o crítico e poeta Antonio Carlos Secchin. A libertação vem com Histórias do Meu Casal (1905). Pederneiras até envia uma carta a João do Rio, na qual se abre em comentário breve: ‘Vai ser, espero, o meu melhor.’ Consciência, portanto, havia. O idílio confessional de Histórias do Meu Casal aparece em seus últimos livros – Ao Léu do Sonho e À Mercê da Vida (1912) e Outono (1921).

Seffrin aponta o ‘tom prosaico, imaginação limitada, visão ingênua do mundo’ de Mário Pederneiras. Ao mesmo tempo, diz que não é bom esquecer que Pederneiras foi um dos precursores dos modernistas, por ter sido o introdutor do verso livre na poesia brasileira. Segundo Seffrin, Pederneiras teria calcado sua arte na vida simples de poeta do subúrbio: ‘Viver assim, sem luxo e sem as penas/ Que a vida farta da cidade encerra;/ Sem ambições e sem fortuna – apenas/ Dono de um pouso e de um torrão de terra.’ À sombra de uma árvore, o poeta resume sua noção de existência. ‘A minha vida agora é esta,/ Agora é este o meu pequeno mundo/ Nesta vivenda simples e modesta/ Com Mar à porta e Árvores ao fundo.’ São trechos do poema Velha Mangueira, que encantou Rubem Braga.

Qualquer associação com os sambistas cariocas da primeira metade do século passado pode não ser mera coincidência. A essa altura, valeria para Mário Pederneiras o que Vinicius de Moraes disse em O Haver: ‘Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade/ De não querer ser príncipe senão do seu reino.’’

 

 

 

******************

Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

Comunique-se

Carta Capital

Terra Magazine

Agência Carta Maior

Veja

Tiago Dória Weblog

O Globo

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem