Quarta-feira, 13 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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O Estado de S. Paulo

20/10/2009 na edição 560

ADAPTAÇÃO
Renato Cruz

Grupos de mídia têm de se globalizar, diz pesquisador

‘‘Quando os jornais impressos desaparecerem, o café da manhã deixará de fazer sentido’, afirmou Jeffrey Cole, diretor do Centro para o Futuro Digital da Universidade do Sul da Califórnia. Ele acrescentou que diz isso de uma maneira bem humorada, mas não se trata de uma piada. ‘Cresci com o hábito de ler jornais, e essa leitura faz parte do ritual do café da manhã.’ Cole participou do evento Futurecom, em São Paulo.

Há 10 anos ele estuda como acontece a adoção das tecnologias digitais e como elas afetam a vida e comportamento das pessoas. ‘Minha vida profissional começou na televisão e lá atrás, quando a televisão foi lançada, perdemos a oportunidade de se fazer esse tipo de estudo’, disse, acrescentando que a oportunidade não foi perdida com a internet. O centro tem parcerias com universidades ao redor do mundo, e atualmente o estudo é feito em 30 países, com o acompanhamento de 2 mil pessoas em cada país. No Brasil, Cole está perto de fechar um acordo com uma universidade do Rio de Janeiro.

Ele disse que nenhuma mídia vai desaparecer, mas que a tendência dos meios tradicionais é se tornarem menores. ‘O impresso tem um futuro terrível, mas não as notícias’, afirmou. ‘Toda vez que um leitor de jornal morre, ele não é reposto.’

Na visão dele, a maioria dos jornais impressos americanos vai desaparecer em cinco anos. Em outros mercados, como o Brasil e a Austrália, esse período deve ser maior, de 10 a 15 anos. Ele afirmou que os profissionais americanos estão deixando de dizer que estão no negócio de jornais (newspapers), para dizer que estão no setor de notícias (news).

O problema dessa transição é que existe menos dinheiro, pelo menos por enquanto, no mundo digital do que no tradicional. ‘São os dólares tradicionais e os centavos digitais’, disse. Isso está levando a uma consolidação do mercado de mídia, e a uma necessidade de internacionalização. ‘O Brasil deve ficar com duas ou três companhias brasileiras de mídia com atuação global, que terão como mercado todas as pessoas que falam português no mundo.’

Muita gente aponta que, com o fim do impresso, as pessoas deixarão de ser surpreendidas por notícias importantes para a sua vida, mas relacionadas a temas sobre os quais normalmente não têm interesse. Para Cole, isso não vai acontecer pela vontade que as pessoas têm de participar, de consumir e de gerar conteúdos. ‘Atualmente, recebo muitos e-mails de amigos indicando links de notícias’, afirmou. ‘Antes da internet, qual era a única pessoa que iria se dar ao trabalho de recortar uma notícia no jornal para enviá-la pelo correio? Provavelmente sua mãe.’

Ele destacou, como argumento para a necessidade de as empresas se tornarem globais que as pessoas estão expostas a conteúdo do mundo todo. E não é só isso: ‘Hoje nós temos amigos no mundo todo, com quem podemos nos comunicar fácil e diretamente’, disse. ‘E, ao contrário do que alguns temiam, esses amigos se somam aos amigos que moram próximos de você, em vez de substituí-los.’

Muito se discutiu, durante a Futurecom, o problema da exclusão digital.Na visão de Cole, esse problema está desaparecendo rapidamente. ‘Em países como os EUA, a Inglaterra, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia, só não tem banda larga quem não quer’, disse o pesquisador. ‘No Brasil, já começa a ser assim nos grandes centros.’ Se é assim, por que os EUA estão elaborando um plano de banda larga? ‘Porque nós estamos muito atrás de outros países’, disse Cole. ‘O governo americano percebeu que a banda larga não é somente uma questão de velocidade de acesso, mas que pode ter um papel importante na democracia.’

Como exemplo do fim do papel, Cole contou que decidiu doar 2 mil livros que tinha em casa, quando se mudou. ‘Eram livros lindos, todos os meus livros’, afirmou o pesquisador. Ele conservou somente 30 – os autografados.’

 

Felipe Machado

Redes sociais são novo alvo da mídia

‘Se você está acostumado a utilizar o Facebook e Twitter apenas para se comunicar com os amigos, prepare-se: as empresas de mídia estarão cada vez mais presentes nas redes sociais da internet, tanto de maneira corporativa quanto por meio de ferramentas como o marketing viral. Essa foi uma das tendências apresentadas na última quarta-feira no 4º Digital & Social Media, evento em Nova York que teve pela primeira vez a participação do Brasil.

Segundo dados do U.S. Census Bureau, a comunidade hispânica nos EUA tem hoje 46 milhões de pessoas e ultrapassará os 100 milhões em 2050, o que significa que um entre quatro americanos terá origem latina. A conferência, que reuniu presidentes e executivos de empresas de mídia com conteúdo voltado para latinos que moram nos EUA, discutiu como será o reflexo dessa influência na sociedade e no mercado.

‘Não podemos apresentar apenas o lado negativo dos latinos que é sempre ressaltado pela imprensa sensacionalista’, afirmou Joe Uva, presidente da Univision. ‘É nossa responsabilidade mostrar exemplos de latinos bem-sucedidos nos EUA.’

Apesar de abordar novas maneiras de atingir com mais eficácia a comunidade hispânica, muitas das tendências apresentadas no evento podem ser aplicadas em qualquer lugar do mundo, independentemente da origem da população.

A palestra de abertura foi feita por Janet Robinson, CEO do New York Times. Primeira mulher a ocupar o cargo, Janet ressaltou a importância das minorias e da imigração na construção da sociedade americana e afirmou que o crescimento da comunidade hispânica já pode ser sentido na cobertura mais abrangente do jornal e nos esforços da área de marketing para entender esse mercado.

Divididos em oito painéis, os palestrantes discutiram temas como os avanços tecnológicos, a educação à distância e os novos formatos de mídia, mas a maioria expôs como suas empresas planejam estar cada vez mais em redes sociais como YouTube, Facebook e Twitter. Criados como sites de relacionamento, esses (relativamente) novos gigantes da internet permitirão que as empresas de comunicação se aproximem de consumidores e tenham acesso a gostos pessoais e padrões de comportamento.

Agências de publicidade e empresas da mídia ‘tradicional’, como jornais e TV, também ressaltaram sua intenção de atuar de maneira mais agressiva na internet. Além das redes sociais, duas áreas devem receber mais investimentos: vídeo pela internet e conteúdo para celular.

‘Graças à banda larga, o vídeo pela internet terá um crescimento incrível’, disse Cathy Tamraz, presidente da empresa de comunicação Business Wire. Segundo ela, a web também verá cada vez mais sites jornalísticos oferecendo conteúdo ‘premium’ como forma de viabilizar suas operações.

Embora tenha elementos que os diferenciem em relação as outros grupos de origem latina, os brasileiros que vivem nos EUA também são vistos como mercado com potencial de crescimento. No entanto, a intenção das empresas na conferência esteve mais voltada para o Brasil, e não para os brasileiros que vivem no exterior.

Responsável pela presença do País no evento, o CEO da Neolink International, Manoel Baião, ressaltou que há espaço para uma integração maior entre hispânicos e brasileiros. ‘Apesar da diferença de idioma, há um espaço enorme para o crescimento das relações entre empresas latinas e brasileiras.’’

 

TELEVISÃO
Rosa Costa

Corregedoria vai apurar se Suplicy quebrou decoro

‘A Corregedoria do Senado vai abrir uma sindicância para investigar se o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) infringiu o decoro parlamentar ao desfilar pelas dependências da Casa trajando uma sunga vermelha sobre o terno. O corregedor Romeu Tuma (PTB-SP) espera receber até a terça-feira fotos e imagens do senador no momento em que simulava ser um super-herói – provavelmente o Super-Homem -, a pedido da apresentadora Sabrina Sato, do programa Pânico na TV.

Tuma entende que o episódio atrapalha a tentativa do Senado de transmitir para a população ‘uma imagem de seriedade’. ‘Eu já soube que tem fotografia mostrando a Sato vestindo a calcinha nele’, disse. Para o senador, a situação se torna mais grave por ser protagonizada por um parlamentar de grande aceitação popular e não por outro ‘sobre quem já pesem acusações’. ‘Pelo que ele representa para a população, pelo respeito de que ele goza, o efeito é muito mais forte do que se fosse alguém que já tenha acusações’, explicou. ‘Ele goza da respeitabilidade de vários segmentos sociais.’

O corregedor acredita que o Senado ‘está, sim, devagarinho, recuperando uma imagem de respeitabilidade’ no País, após ser alvo das críticas provocadas pela existência de atos secretos para nomear parentes e afilhados políticos de senadores, inclusive do presidente José Sarney (PMDB-AP).

Suplicy, que estava no interior paulista para participar de uma banca universitária, reagiu à decisão de Tuma. Queixou-se do fato de não ter sido ouvido pelo corregedor e argumentou que o episódio não passou de uma brincadeira. ‘O senhor Romeu Tuma, antes de tomar qualquer decisão, deveria ter o bom senso de me ouvir, para saber exatamente o que aconteceu. Não apenas agir instigado pelo senador Heráclito Fortes’, rebateu o petista, citando o senador oposicionista do DEM. ‘Foi apenas uma brincadeira. Não tem sentido quererem transformar isso em uma coisa séria.’

Dizendo-se ‘muito tranquilo’, Suplicy afirmou que deixou Sabrina lhe vestir a sunga após a apresentadora ter dito que o considerava um herói por defender a criação da Renda Básica de Cidadania. Disse ainda que, ao ser questionado se acreditava que há muitos heróis no Senado, respondeu que existem na Casa ‘muitas pessoas que batalham por seus ideais e merecem respeito e admiração’.

REAÇÃO

O líder do PSDB, senador Arthur Virgílio (AM), por sua vez, divulgou nota na qual qualifica o gesto do colega petista de ‘impensado e grave’. ‘Merece séria advertência e exige retratação pública’, sugeriu, mas lembrou que o Conselho de Ética, que se responsabilizaria por um eventual processo contra Suplicy, ‘não reúne a mínima condição para abrir processo contra ele’, por ter arquivado sumariamente ‘gravíssimas denúncias apresentadas contra o presidente José Sarney’. ‘O senador cometeu falta muito grave, mas é reconhecidamente um homem de bem’, afirmou. Outro tucano, o senador Álvaro Dias (PR), acha que seria ‘um exagero’ a abertura de um processo contra o petista. ‘Mas com certeza sua atitude não ajuda a melhorar a imagem já desgastada da Casa’, constata.

Não é a primeira vez este ano que Eduardo Suplicy vira alvo de polêmica por conta de seu comportamento na Casa. Em setembro, a Corregedoria se deteve no episódio dele ter transformado seu gabinete numa espécie de pensão para abrigar 15 manifestantes que vieram a Brasília para acompanhar o julgamento do pedido de extradição do italiano Cesare Battisti, em julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O processo não foi adiante, mas resultou na sugestão do corregedor Tuma de responsabilizar os senadores pelo que ocorre nos seus gabinetes fora do período norma de expediente, de 22 horas às 7 horas. Criticado pelo primeiro-secretário Heráclito Fortes (DEM-PI), Suplicy alegou que quis ajudar os manifestantes que, como ele, acreditam na inocência de Battisti.

Colaborou Clarissa Oliveira’

 

Keila Jimenez

Prazer, João Dória !

‘A Record está gravando uma espécie de currículo do novo apresentador de O Aprendiz – Universitário para apresentá-lo ao grande público. O empresário João Dória Jr., substituto de Roberto Justus – hoje no SBT – no comando da atração já vem tendo sua rotina registrada em um vídeo que fará parte dos primeiros episódios do reality show.

Na semana passada, o programa gravou imagens de Dória na República Dominicana, onde ele comandou um grande encontro entre empresários e chefes de Estado. O ‘currículo eletrônico’ do novo apresentador deve contar com imagens dele em suas várias atribuições.

Dória tem uma empresa de comunicação, uma editora, um shopping, um centro de convenções, preside o grupo de líderes empresariais Lide e comanda a Casa Cor. A ideia é aproximá-lo do grande público, assim como foi feito na primeira edição de O Aprendiz com o empresário Roberto Justus, que até então era desconhecido pela audiência média da TV.

A sétima edição de O Aprendiz, que já contabiliza mais de 100 mil inscritos, está prevista para estrear na Record em abril. As inscrições vão até novembro.’

 

LIBERDADE DE IMPRENSA
Moacir Assunção

‘Censura é kafkiana’, diz cientista político

‘O cientista político Cláudio Couto, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), classifica de ‘kafkianas’ as decisões do Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJ-DF) que mantêm, desde 31 de julho, o Estado e o site estadao.com.br censurados no caso da Operação Boi Barrica. A referência de Couto é ao famoso romance O Processo do escritor checo Franz Kafka, em que o personagem principal, Josef K., se vê envolvido em uma questão jurídica sem sentido ou razão. ‘Os atos do tribunal desde o começo dessa história são de um completo absurdo. Como é possível, por exemplo, se declarar incompetente para julgar uma causa, mas manter a decisão anterior?’, questionou. A decisão foi criticada por vários juristas.

Na opinião de Couto, não há base jurídica para as decisões tomadas pelo tribunal. ‘O que dá para perceber é que, ao manter a decisão de censura mesmo após a declaração de incompetência, o TJ-DF demonstrou um corporativismo da pior espécie, cuja intenção é proteger a decisão do desembargador do tribunal, Dácio Vieira, totalmente ligado à família Sarney.’

Na Operação Boi Barrica, a Polícia Federal investigou o empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Vieira tem relações pessoais com o senador e, após recursos do Estado, foi declarado suspeito por seus pares. Mesmo assim, sua decisão de censurar o jornal foi mantida. Ao mesmo tempo, o TJ-DF determinou a remessa do processo à Justiça Federal do Maranhão, Estado onde os Sarney exercem grande influência.

Fernando Sarney foi indiciado pela PF por lavagem de dinheiro, tráfico de influência, formação de quadrilha e falsidade ideológica. Além disso, o empresário, responsável pelos negócios da família, tratou da distribuição de cargos no Senado.

CREDIBILIDADE

O corporativismo, para o cientista político, repercute negativamente na imagem do tribunal e do próprio Poder Judiciário, afetando sua credibilidade. ‘Com todos os absurdos que cercam esse processo, o corporativismo me parece o mais grave’, assinalou ele, para quem os juízes de primeira instância têm produzido com certa frequência, em vários casos pelo País, ‘sentenças estapafúrdias’, principalmente em questões que envolvem liberdade de imprensa e de opinião. ‘Ao assumir a sentença de Vieira, o próprio colegiado do TJ-DF diz que concorda com a decisão. Daí, a decisão reflete a defesa de interesses não da população, como seria de se esperar, mas de um membro do tribunal em particular.’

Muitas dessas decisões, na visão de Couto, têm demonstrado o que chama de ‘excesso de criatividade’ ao interpretar a legislação. ‘Não há amparo legal para censurar um jornal e temos visto isso ocorrer em todo o País. Tudo somado, o caso é um completo absurdo e constitui uma demonstração de abuso de poder.’’

 

SUSTO
Reuters

Pai de ‘garoto do balão’ nega farsa

‘Richard Heene, pai do garoto de 6 anos cujo suposto voo em um balão caseiro levou o governo a lançar uma grande operação de resgate na quinta-feira no Estado americano do Colorado, negou ontem que o episódio tivesse sido uma farsa para chamar atenção. ‘De jeito nenhum, não foi um trote’, afirmou, visivelmente irritado a um programa de TV da rede NBC. ‘O que eu ganharia com isso?’

As suspeitas de que tudo tenha sido uma armação começaram quando o garoto, Falcon, disse à CNN que ficou escondido no sótão da casa, mesmo com as pessoas chamando por ele, ‘por causa do programa’ – numa possível referência ao reality show que a família participou em março.

O delegado responsável pelo caso, Jim Alderden, disse que não há indícios de farsa, mas avisou que a família será interrogada novamente. ‘Se tiver sido um trote, pediremos uma compensação pelos gastos com a operação de resgate.’

Falcon teria sido visto por seu irmão subindo em um balão de hélio caseiro, que voou desgovernado por duas horas. Mas, na verdade, ele estava escondido em sua casa.’

 

FUTEBOL
Jamil Chade

Fifa vai punir Maradona por destempero: multa e gancho

‘Irritada com o comportamento de Maradona, a Fifa anunciou ontem que abrirá um processo diante de suas declarações após a classificação da Argentina para a Copa de 2010. Durante a conferência de imprensa após a partida contra o Uruguai, o técnico argentino agrediu verbalmente os jornalistas que o criticaram nos últimos meses. ‘Aos que não achavam que iríamos à Copa, com perdão às damas aqui presentes, que chupem e continuem chupando’, disse. ‘Isso é para os que me trataram como lixo.’

O presidente da Fifa, Joseph Blatter, confirmou que haverá punição. A multa mínima é de R$ 33 mil. Maradona seria avaliado pelo código da Fifa que proíbe ‘humilhações ou discriminações’. ‘Segundo o artigo 58, alguém que por meio de atos ou palavras fira a dignidade de uma pessoa pode ser punido’, afirmou Blatter. Além disso, o técnico argentino pode ser suspenso por até cinco partidas.

Em Buenos Aires, o presidente da Associação de Futebol da Argentina (AFA), Julio Grondona, respaldou Maradona. Ontem, voltou a dizer que a reação foi normal: ‘Acho que ele ficou irritado com alguém, pois foi espontâneo em seus dizeres.’

Maradona afirmou que não pedirá desculpas por suas declarações, já que as considera um desabafo. Enquanto isso, continuam as dúvidas sobre sua permanência no posto de técnico.

De passagem em Brasília para inaugurar a vila olímpica da cidade-satélite de Samambaia, Pelé foi condescendente com a ira de Maradona. ‘É normal de uma pessoa que está na guilhotina e aí suspendem a execução’, afirmou. ‘Achou que podia dizer o que quisesse.’ COLABORARAM ARIEL PALACIOS, de BUENOS AIRES, e VANNILDO MENDES, de BRASÍLIA’

 

FRANKFURT
Ubiratan Brasil

Escrita como liberdade de expressão

‘Essencialmente econômica, a Feira do Livro de Frankfurt utiliza garotos-propaganda de renome para atrair a atenção mundial. É o que justifica o desfile de ganhadores do Prêmio Nobel, que se apresentaram ontem no evento. O mais disputado foi o da mais recente vencedora, a romena naturalizada alemã Herta Müller, que atraiu uma pequena multidão para uma entrevista pública. No mesmo horário, o vencedor de 1999, o também alemão Günther Grass, participou da homenagem aos 50 anos de sua obra maior, O Tambor. E, pouco mais tarde, foi a vez do ganhador de 2000, o chinês Gao Xingjian.

Herta, no entanto, atraiu mais atenção – para onde mirassem seus grandes e tristes olhos azuis, havia uma câmera, uma filmadora, ao menos um olhar de curiosidade. Ela falou durante meia hora sobre sua mais recente obra, Atemschaukel, que, como as demais, trata essencialmente da luta do homem contra a opressão.

‘Aqui está um bom exemplo sobre o que se trata a minha literatura’, disse ela ao Estado, quando apresentada ao único livro publicado no Brasil, O Compromisso (Globo). Aqui, como em Atemschaukel, os personagens principais vivem no fio da navalha, oprimidos por regimes opressores – experiência, aliás, semelhante à da própria Herta, obrigada a deixar a Romênia nos anos 1980, oprimida pela censura do governo comunista de Ceausescu.

Leopold, protagonista de Atemschaukel, é um homossexual enviado para um campo de trabalho forçado antes do início da 2ª Guerra Mundial. Lá, obrigado a esconder sua preferência sexual, passa por provações e uma necessidade extremada. ‘Entrevistei homens e mulheres que sofreram horror semelhante’, contou Herta a um público atento, o que explica o detalhismo e a emoção que caracterizam sua descrição do campo de trabalho. ‘As vivências individuais me permitiram criar diferentes perspectivas.’

Talvez o mais atraente por ser justamente o mais aterrador é a forma como os personagens encaram a fome, uma necessidade que, de tão atávica, acaba personificada. ‘Para enfrentar o sofrimento, um dos caminhos encontrados é transformar a fome em um companheiro, porque está sempre presente.’

Quando fala, Herta mantém seus grandes olhos erguidos, revelando uma tristeza infinita, como se estivesse vivenciando o que narra. Sua pequena estatura é mantida imóvel, o que acentua as feições, aparentemente moldadas em função exclusiva do olhar azulado.

Leopold, como a narradora de O Compromisso, carrega os traumas e as ambições de sua autora. ‘Ele sobrevive especialmente porque é um homem que pensa’, avalia. ‘As palavras lhe soam como um alimento, que o mantêm vivo nos momentos mais desesperadores.’

Embora more na Alemanha desde 1987, Herta mantém o reflexo de quem viveu sob o terror: ontem, durante a sessão de autógrafos, ela discretamente acenou para um segurança quando um homem lhe falou em romeno. Sua tranquilidade só voltou depois do afastamento do sujeito, aparentemente satisfeito com o autógrafo.

A garantia da segurança é sempre um dos tópicos de sua conversa. Ontem, Herta Müller aproveitou para novamente defender os escritores chineses que sofrem com a repressão em seu país – na quinta-feira, ela tinha visitado o estande de autores dissidentes. ‘É importante que todos tenham sua proteção garantida, o que pode acontecer especialmente com aqueles cujos nomes foram mencionados durante a feira, ganhando notoriedade.’

Gao Xingjian concorda – diante de uma plateia também grande, ele falou sobre a experiência de viver em uma cultura diferente da sua. Afinal, ele mora em Paris há 21 anos, fugindo da censura do governo chinês. Para Xingjian, não existe liberdade plena em nenhum ponto do mundo. ‘Mas é evidente que há lugares melhores que outros’, disse. ‘E, como o escritor é um ser privilegiado, pois pode criar a sua liberdade, é preciso apenas que ele saiba enfrentar os obstáculos.’

Xingjian promove também um encontro de formas de expressão, ao também pintar. ‘O que não consigo expressar em palavras, transformo em imagens’, revela ele, reafirmando a necessidade da liberdade de pensamento. ‘Sem isso, ou a arte não existe ou é completamente falsa.’’

 

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