Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 2 E 3/1

O Estado de S. Paulo

05/01/2010 na edição 571

PRESIDENTE
Luciana Nunes Leal

Mais crítico, livro sobre Lula relembra mensalão

‘O leitor desavisado que visse na vitrine a capa do livro Lula do Brasil – a história real, do Nordeste ao Planalto poderia achar que fosse o roteiro do filme Lula, o Filho do Brasil, uma ode à história do presidente da República que chegou aos cinemas ontem. Embora no cartaz do filme a figura central seja a atriz Glória Pires, que interpreta Dona Lindu, mãe de Lula, e a capa do livro seja o próprio Lula, a inspiração é a mesma. O conteúdo, no entanto, tem diferenças.

O filme relata a trajetória do presidente da infância à militância no movimento sindical. É inspirado em outro livro, com o mesmo título, da jornalista Denise Paraná. Lançado na onda da badalação da obra do cineasta Fábio Barreto – que sofreu um acidente na noite do dia 19 e está internado no Rio de Janeiro – o livro Lula do Brasil, do pesquisador e brasilianista inglês Richard Bourne, traça a biografia do presidente do nascimento até a reeleição, em 2006. Tem uma visão bem mais crítica. O saldo, porém, é positivo para o presidente.

Bourne cita o mensalão, pior escândalo do governo Lula, o fracasso do programa Fome Zero e o ‘recado’ dos eleitores, que levaram o presidente ao segundo turno em 2006. Também revela a proximidade de Lula com o ex-presidente da Câmara Severino Cavalcanti, que renunciou em meio a denúncias de cobrança de propina para prorrogar contratos de restaurantes da Casa. O livro cita também os negócios obscuros do filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, à frente da empresa Gamecorp.

O autor diz que havia uma dúvida permanente na sociedade sobre o quanto Lula sabia do esquema de caixa 2 e suposto pagamento a parlamentares. ‘Se ele sabia, então era cúmplice. Se não sabia, era um administrador negligente’, diz Bourne. Para o autor, o trabalho de Lula ‘como construtor da democracia e de uma sociedade mais justa está visivelmente incompleto’ e ‘a primeira presidência de Lula foi obscurecida pela sombra negra do papel oculto do dinheiro na política’.

O livro de 360 páginas – mais 90 de fotografias -, lançado pela Geração Editorial, dá ênfase à trajetória do menino pobre que chegou à liderança do movimento sindical, à fundação de um partido e à Presidência da República. ‘Se Abraham Lincoln fora para os americanos do século 19 um símbolo de que era possível começar a vida numa cabana de lenhador e terminá-la na Casa Branca, a história de Lula, o migrante oriundo de um lar desfeito que perdera o dedo num acidente de fábrica parecia igualmente inacreditável e inspiradora’, diz o autor.’

 

***

‘Não é propaganda contra’

‘No prefácio do livro Lula do Brasil – a história real, do Nordeste ao Planalto, o pesquisador inglês e ex-repórter do jornal The Guardian Richard Bourne, professor de estudos políticos na Universidade de Londres, diz que se apaixonou pelo Brasil em 1965, quando ganhou uma bolsa de estudos e passou seis meses no País. Ao ‘Estado’, por e-mail, disse o que considera a diferença entre sua obra e outras biografias. Ressaltou que procurou enquadrar a carreira de Lula no cenário político e econômico nacional. ‘Não é propaganda contra ou a favor do presidente.’ Embora tenha dito que não assistiu ao filme Lula, o Filho do Brasil, ele acredita que ‘pode ter sido feito para ajudar o PT em um ano eleitoral’. Para ele, o esforço para atender a população pobre e a promoção do Brasil no exterior foram os destaques do governo Lula. Entre os pontos negativos, ele cita ‘a tolerância à corrupção e o fracasso em desenvolver a educação pública’.’

 

Gustavo Chacra, de Nova York

Para Al Jazeera, presidente substituiu traficantes por médicos e dentistas

‘A rede de TV árabe Al-Jazira, em seu canal em inglês, exibiu uma reportagem especial com uma série de elogios ao presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, chegando a dizer que, daqui a cinco anos, ele deve retornar à Presidência para um terceiro mandato. Começando com cenas do filme sobre a vida do líder brasileiro, a repórter afirma que , ‘com apenas um ano de mandato pela frente, sua história de sucesso político e econômico será difícil de se repetir’.

Segundo a reportagem, problemas como a corrupção, a miséria e a criminalidade urbana continuam graves, mas, ‘pela primeira vez em 500 anos, o crescimento econômico ocorre ao mesmo tempo em que se reduz a desigualdade social’.

A jornalista Lucia Newman esteve no morro Santa Marta, no Rio, e afirmou que, um ano atrás, seria impossível visitar o local sem ser alvo de disparos de traficantes. ‘Eles foram expulsos e seus lugares foram ocupados por médicos, dentistas e até músicos e professores de caratê, graças ao programa de inclusão de Lula’, relata a repórter. Em seguida, moradores da favela dão entrevistas falando bem do presidente. Uma delas afirma temer que a situação não continue ‘tão boa depois que ele deixar o poder’.

A jornalista diz que o Brasil tende a crescer nos próximos anos e a Petrobrás pode se tornar ‘a maior do mundo’ no setor energético. Para a Al-Jazira, ‘Lula se tornou um porta-voz do Terceiro Mundo, na promoção da democracia, na discussão de mudanças climáticas e das reformas na ONU e no FMI’.

Principal canal de notícias do Oriente Médio, a Al-Jazira lançou há alguns anos o seu canal em inglês, que adota uma linha mais moderada do que a versão em árabe. O canal é exibido em diversos países do mundo e sua audiência é composta especialmente por expatriados residentes no mundo árabe.’

 

CONCESSÃO
Outorgas de rádio e TV são maioria no Senado

‘O Senado aprovou 2.364 matérias em 2009, volume 88% maior que o registrado em 2008 (1.258). Levantamento da Casa mostra que o aumento da produtividade legislativa foi puxado pela aprovação de atos de concessão ou renovação de outorgas de emissoras de rádio e de televisão (901) e requerimentos dos mais diversos tipos (688).’

 

MATERNIDADE
Clarissa Thomé

Revistas difundiram novos hábitos

‘A maternidade como é exercida hoje não tem nada de ‘natural’ ou ‘intuitiva’. Hábitos simples e corriqueiros – como o uso de termômetro, berço individual, quarto arejado, a prática de ferver chupetas e bicos e de dar banhos diários nas crianças – surgiram a partir de 1920. É a chamada maternidade científica, fruto de uma aliança entre mulheres e médicos, forjada nas páginas das revistas ilustradas que proliferavam na época.

Essa nova maternidade surgiu no período da Primeira República. Havia um discurso político, apoiado pelo movimento feminista, de se criar uma nova nação. O pensamento era de que a mulher deveria ser ‘educada’ para ser mãe. E as revistas ilustradas cumpriam esse papel. ‘Nesse período também se construiu a carreira do puericulturista. Mais do que tratar das doenças das crianças (o pediatria tinha surgido um século antes), ele fazia um acompanhamento para garantir o desenvolvimento sadio. Esse profissional precisava se legitimar na sociedade, e isso aconteceu por meio das revistas ilustradas’, diz a médica Martha Freire, que estudou o tema a partir de duas dessas publicações, Vida Doméstica e Revista Feminina. O trabalho é sua tese de doutorado em história das ciências e da saúde pela Fiocruz e se transformou no livro Mulheres, Mães e Médicos – Discurso Maternalista no Brasil (FGV Editora, R$ 35).

Em artigos muitas vezes assinados pelos médicos, como Germano Wittrock, que chegou a ser articulista da revista Vida Doméstica, as mães eram orientadas a deixar para trás antigas crenças e hábitos – como chazinhos, simpatias e amas de leite. ‘Antes, as mães sabiam que os filhos cresciam porque a roupa apertava. A febre era verificada com a mão. Tudo isso foi desqualificado e ferramentas científicas passam a ser usadas, como a balança e o termômetro.’

Essas mudanças, porém, não foram absorvidas imediatamente. ‘Elas não aceitavam tudo acriticamente. Era uma relação negociada. Os médicos não conseguiram, por exemplo, acabar com a crença de que diarreia era doença da dentição.’

Outro exemplo foi a distribuição de leite esterilizado. Os médicos defendiam o aleitamento materno, mas faziam concessão pois sabiam que ele já era consumido pelas crianças.

Esse caminho para a ‘construção de uma nova nação’, em que mães eram incentivadas a educar-se para melhor cuidarem da família, também abriu espaço para a valorização da mulher. O campo de trabalho, antes restrito às atividades domésticas e ao magistério, foi estendido à enfermagem e nutrição, entre outras carreiras. ‘Elas conseguiram legislação que as protege, como licença maternidade, e melhores condições de educação.’’

 

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