Quarta-feira, 21 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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O Globo

15/08/2006 na edição 394

ELEIÇÕES 2006
Rodolfo Fernandes

Doze minutos e dez segundos para a história

‘Foi uma entrevista histórica, 12 minutos e dez segundos que criam um novo paradigma para coberturas políticas no país. Nunca, na TV brasileira, um presidente da República foi confrontado com questões tão espinhosas quanto as que foram colocadas na quinta-feira, no ‘Jornal Nacional’, para o presidente Lula.

Respeitosamente, como deve ser, mas sem aliviar em nenhuma pergunta, Lula teve que se manifestar sobre todos os temas que freqüentaram e freqüentam o noticiário político no período de seu mandato – a maioria dos quais nunca havia sido diretamente levada a ele. Perguntas que, de resto, foram feitas aos demais candidatos. Nelas, Alckmin errou nos números de um tema tão importante como a educação; e Heloísa Helena praticamente rasgou ao vivo o programa de seu recém-fundado partido.

O Brasil conheceu o padrão de entrevistas que o jornalismo americano adota, em que o entrevistado tem que dar satisfações claras sobre qualquer questão pública, por mais dura que seja. Se a pauta do país é corrupção, que responda sobre corrupção. E azar de quem não tenha as respostas adequadas. Para quem passou dois dias inteiros preparando-se para esses 12 minutos, o presidente Lula demonstrou nervosismo e desconforto em excesso, revelados através da boca seca, do olhar irritado e da enorme confusão com números e fatos.

Três momentos podem entrar na antologia das entrevistas de TV no Brasil. Quando Lula tentou se comparar a um chefe de família que não poderia saber do erro de um filho, para justificar eventuais desconhecimentos de escândalos em seu governo, Fátima Bernardes interrompeu:

– Mas o senhor acha que o eleitor espera o comportamento de uma mãe zelosa ou de alguém que possa administrar e coordenar o governo?

Depois, quando tentou fazer prevalecer a tese de que as investigações foram levantadas pelo seu governo, o que não é exato, foi a vez de William Bonner afirmar, com uma desconcertante naturalidade, possível apenas a quem se preparou bem para a entrevista:

– Na verdade o governo não denunciou nada – informou o entrevistador, lembrando que tudo começou com o escândalo dos Correios e a denúncia de Roberto Jefferson.

Ou ainda a pergunta de Bonner sobre as diferenças de Lula como acusador, na oposição, e como vítima, no governo:

– O que fez o senhor mudar tanto de comportamento?

A campanha eleitoral começou efetivamente com a série do ‘JN’. Os entrevistadores fizeram seu dever de casa e estudaram antes de sentar diante dos entrevistados. Os candidatos, não. Pouco importa o efeito político posterior dessas entrevistas, que pode ser até nenhum. O importante é que foi uma afirmação do jornalismo. Os eleitores só têm a ganhar com entrevistas como essas.’



***

Para Planalto, Lula Não Vai A Debates No 1º Turno

‘Candidato à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não vai participar do primeiro debate entre os presidenciáveis, na TV Bandeirantes, segunda-feira. A avaliação do Planalto e do comando da campanha é de que Lula não deve participar de debates no primeiro turno para evitar o esquema ‘todos contra um’. A decisão teria sido fortalecida pelo desempenho de Lula na entrevista de anteontem ao ‘Jornal Nacional’, da Rede Globo, quando ele estava nervoso, tropeçando nos números e nas palavras.

Para o comando da campanha de Lula e ministros, os tropeços se deveram ao nervosismo do candidato. Os erros de dados e na construção de frases foram classificados como ‘atos falhos’, que não comprometeram o seu desempenho.

Segundo assessores do Planalto, Lula já estava bastante nervoso antes da entrevista, pois era o último candidato a participar da série e os entrevistadores já haviam sido duros com os antecessores. A avaliação é de que a candidata Heloísa Helena, do PSOL, soube aproveitar melhor a entrevista usando a tática de falar sem parar, para gastar o tempo e deixar poucas oportunidades para perguntas.

O ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, reconheceu que a entrevista foi ‘tensa’, mas, diferentemente de avaliação mais pessimista no Planalto, disse que o presidente se saiu bem e que não teria perdido apoio da população por passar quase dez minutos respondendo a acusações de corrupção em seu governo.

– O presidente não teve prejuízo na sua imagem. Considerando-se que foi uma entrevista tensa, porque é um debate entre os entrevistados e os candidatos, o presidente se saiu muito bem. Ele deu uma demonstração de como esse governo trata a corrupção sistêmica. Ele não perdeu um milímetro na sua posição (de líder nas pesquisas) – disse Tarso, acrescentando que o presidente não será julgado por atos falhos, como quando falou em ‘combater a ética’ e que o salário estava ‘caindo’.

Tarso ainda considerou natural Lula ter mudado a versão e ter afirmado que demitiu os ex-ministros José Dirceu e Antonio Palocci:

– O importante é o que o presidente afirmou politicamente, ou seja, que ele pediu os cargos. E fez isso sem prejulgamento. Agora, é óbvio que (a formalização da saída) é a gosto dos ministros – disse Tarso, se referindo a como a demissão é publicada no Diário Oficial.

Na entrevista, Lula errou a extensão da costa brasileira e se atrapalhou dizendo que o governo ‘combate a ética’, em vez da corrupção, e que ‘o salário é a única coisa que cai’, referindo-se à inflação.

‘Derrapadas freudianas’

O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), subiu à tribuna para destacar o nervosismo e as ‘derrapadas freudianas’ de Lula na entrevista ao ‘JN’. Para o senador, faltaram respostas precisas sobre corrupção envolvendo petistas e ministros do governo Lula.

– Lula afirmou que o salário foi a única coisa que caiu em seu governo e que seu governo foi o que mais enfaticamente combateu a ética. É verdade. Ele não deu trégua à ética. O governo dele não perdoou a ética, não deu colher de chá à ética. Esse é um fato: jogou duro contra a ética. Essa afirmação foi uma derrapada ou foi de uma coragem sensacional – afirmou o senador.’

Aydano Motta

Desempenho fraco

‘O Lula espontâneo, que abusa dos improvisos e das metáforas, não parecia ser o mesmo que deu entrevista anteontem ao ‘Jornal Nacional’. O desempenho do candidato do PT à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, foi considerado o mais fraco entre os dos quatro entrevistados esta semana por especialistas consultados pelo GLOBO. Segundo eles, o presidente pareceu nervoso, cometeu tropeços diante de perguntas mais incisivas e não conseguiu apresentar propostas.

– Em termos de construção de imagem, não houve ganhos para Lula – avalia o especialista em marketing político André Torreta, da República Comunicação.

Torreta acha que o fato de o presidente ter ficado quatro anos sem dar entrevistas ao vivo pode ter contribuído para o seu fraco desempenho.

– Não deu entrevistas ao vivo antes porque não agüenta pressão. Cometeu atos falhos. Surpreendeu mais pela intranqüilidade do que pela qualidade das respostas – acrescenta.

O candidato pareceu tenso ao responder sobre o escândalo do mensalão e episódios envolvendo ministros de seu governo, avalia o professor do Departamento de Filosofia e Política da PUC-Rio Ricardo Ismael. Para ele, Lula teve dificuldade porque, além de ter dado poucas entrevistas nos quatro anos de seu governo, quando falara com jornalistas fora num padrão diferente, sem réplicas ou contraditórios.

– Heloísa Helena foi a melhor. Lula e Alckmin, mais pressionados, ficaram na defensiva e não conseguiram apresentar suas propostas. Mas isso não deve ter impacto sobre o eleitorado de Lula, já consolidado. Pode alterar só as intenções de voto dos indecisos – opina Ismael.

Lucas Pacheco, da Vitória Marketing Político, acha que Lula poderia ter aproveitado melhor o tempo na TV pois é candidato à reeleição e foi o único que não precisou ir ao estúdio para ser entrevistado.

– Mas ele falou numa biblioteca escura, sentado numa cadeira que o fez parecer baixo em relação aos entrevistadores. O cabelo e a barba estavam mal cortados e o terno mal escolhido – analisa Pacheco, especialista em marketing político.

Pacheco gravou a entrevista de Lula e reviu sem som. Achou que o presidente gesticulou demais, parecendo estar esbravejando.

– Se fosse um debate ele teria perdido. Alckmin também não foi muito bem e Cristovam conseguiu pelo menos colocar a agenda da educação na pauta. Só quem ganhou mesmo foi Heloísa Helena. Os demais ficaram no zero a zero – conclui Pacheco.’



******************

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Doze minutos e dez segundos para a história

‘Foi uma entrevista histórica, 12 minutos e dez segundos que criam um novo paradigma para coberturas políticas no país. Nunca, na TV brasileira, um presidente da República foi confrontado com questões tão espinhosas quanto as que foram colocadas na quinta-feira, no ‘Jornal Nacional’, para o presidente Lula.

Respeitosamente, como deve ser, mas sem aliviar em nenhuma pergunta, Lula teve que se manifestar sobre todos os temas que freqüentaram e freqüentam o noticiário político no período de seu mandato – a maioria dos quais nunca havia sido diretamente levada a ele. Perguntas que, de resto, foram feitas aos demais candidatos. Nelas, Alckmin errou nos números de um tema tão importante como a educação; e Heloísa Helena praticamente rasgou ao vivo o programa de seu recém-fundado partido.

O Brasil conheceu o padrão de entrevistas que o jornalismo americano adota, em que o entrevistado tem que dar satisfações claras sobre qualquer questão pública, por mais dura que seja. Se a pauta do país é corrupção, que responda sobre corrupção. E azar de quem não tenha as respostas adequadas. Para quem passou dois dias inteiros preparando-se para esses 12 minutos, o presidente Lula demonstrou nervosismo e desconforto em excesso, revelados através da boca seca, do olhar irritado e da enorme confusão com números e fatos.

Três momentos podem entrar na antologia das entrevistas de TV no Brasil. Quando Lula tentou se comparar a um chefe de família que não poderia saber do erro de um filho, para justificar eventuais desconhecimentos de escândalos em seu governo, Fátima Bernardes interrompeu:

– Mas o senhor acha que o eleitor espera o comportamento de uma mãe zelosa ou de alguém que possa administrar e coordenar o governo?

Depois, quando tentou fazer prevalecer a tese de que as investigações foram levantadas pelo seu governo, o que não é exato, foi a vez de William Bonner afirmar, com uma desconcertante naturalidade, possível apenas a quem se preparou bem para a entrevista:

– Na verdade o governo não denunciou nada – informou o entrevistador, lembrando que tudo começou com o escândalo dos Correios e a denúncia de Roberto Jefferson.

Ou ainda a pergunta de Bonner sobre as diferenças de Lula como acusador, na oposição, e como vítima, no governo:

– O que fez o senhor mudar tanto de comportamento?

A campanha eleitoral começou efetivamente com a série do ‘JN’. Os entrevistadores fizeram seu dever de casa e estudaram antes de sentar diante dos entrevistados. Os candidatos, não. Pouco importa o efeito político posterior dessas entrevistas, que pode ser até nenhum. O importante é que foi uma afirmação do jornalismo. Os eleitores só têm a ganhar com entrevistas como essas.’



***

Para Planalto, Lula Não Vai A Debates No 1º Turno

‘Candidato à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não vai participar do primeiro debate entre os presidenciáveis, na TV Bandeirantes, segunda-feira. A avaliação do Planalto e do comando da campanha é de que Lula não deve participar de debates no primeiro turno para evitar o esquema ‘todos contra um’. A decisão teria sido fortalecida pelo desempenho de Lula na entrevista de anteontem ao ‘Jornal Nacional’, da Rede Globo, quando ele estava nervoso, tropeçando nos números e nas palavras.

Para o comando da campanha de Lula e ministros, os tropeços se deveram ao nervosismo do candidato. Os erros de dados e na construção de frases foram classificados como ‘atos falhos’, que não comprometeram o seu desempenho.

Segundo assessores do Planalto, Lula já estava bastante nervoso antes da entrevista, pois era o último candidato a participar da série e os entrevistadores já haviam sido duros com os antecessores. A avaliação é de que a candidata Heloísa Helena, do PSOL, soube aproveitar melhor a entrevista usando a tática de falar sem parar, para gastar o tempo e deixar poucas oportunidades para perguntas.

O ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, reconheceu que a entrevista foi ‘tensa’, mas, diferentemente de avaliação mais pessimista no Planalto, disse que o presidente se saiu bem e que não teria perdido apoio da população por passar quase dez minutos respondendo a acusações de corrupção em seu governo.

– O presidente não teve prejuízo na sua imagem. Considerando-se que foi uma entrevista tensa, porque é um debate entre os entrevistados e os candidatos, o presidente se saiu muito bem. Ele deu uma demonstração de como esse governo trata a corrupção sistêmica. Ele não perdeu um milímetro na sua posição (de líder nas pesquisas) – disse Tarso, acrescentando que o presidente não será julgado por atos falhos, como quando falou em ‘combater a ética’ e que o salário estava ‘caindo’.

Tarso ainda considerou natural Lula ter mudado a versão e ter afirmado que demitiu os ex-ministros José Dirceu e Antonio Palocci:

– O importante é o que o presidente afirmou politicamente, ou seja, que ele pediu os cargos. E fez isso sem prejulgamento. Agora, é óbvio que (a formalização da saída) é a gosto dos ministros – disse Tarso, se referindo a como a demissão é publicada no Diário Oficial.

Na entrevista, Lula errou a extensão da costa brasileira e se atrapalhou dizendo que o governo ‘combate a ética’, em vez da corrupção, e que ‘o salário é a única coisa que cai’, referindo-se à inflação.

‘Derrapadas freudianas’

O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), subiu à tribuna para destacar o nervosismo e as ‘derrapadas freudianas’ de Lula na entrevista ao ‘JN’. Para o senador, faltaram respostas precisas sobre corrupção envolvendo petistas e ministros do governo Lula.

– Lula afirmou que o salário foi a única coisa que caiu em seu governo e que seu governo foi o que mais enfaticamente combateu a ética. É verdade. Ele não deu trégua à ética. O governo dele não perdoou a ética, não deu colher de chá à ética. Esse é um fato: jogou duro contra a ética. Essa afirmação foi uma derrapada ou foi de uma coragem sensacional – afirmou o senador.’

Aydano Motta

Desempenho fraco

‘O Lula espontâneo, que abusa dos improvisos e das metáforas, não parecia ser o mesmo que deu entrevista anteontem ao ‘Jornal Nacional’. O desempenho do candidato do PT à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, foi considerado o mais fraco entre os dos quatro entrevistados esta semana por especialistas consultados pelo GLOBO. Segundo eles, o presidente pareceu nervoso, cometeu tropeços diante de perguntas mais incisivas e não conseguiu apresentar propostas.

– Em termos de construção de imagem, não houve ganhos para Lula – avalia o especialista em marketing político André Torreta, da República Comunicação.

Torreta acha que o fato de o presidente ter ficado quatro anos sem dar entrevistas ao vivo pode ter contribuído para o seu fraco desempenho.

– Não deu entrevistas ao vivo antes porque não agüenta pressão. Cometeu atos falhos. Surpreendeu mais pela intranqüilidade do que pela qualidade das respostas – acrescenta.

O candidato pareceu tenso ao responder sobre o escândalo do mensalão e episódios envolvendo ministros de seu governo, avalia o professor do Departamento de Filosofia e Política da PUC-Rio Ricardo Ismael. Para ele, Lula teve dificuldade porque, além de ter dado poucas entrevistas nos quatro anos de seu governo, quando falara com jornalistas fora num padrão diferente, sem réplicas ou contraditórios.

– Heloísa Helena foi a melhor. Lula e Alckmin, mais pressionados, ficaram na defensiva e não conseguiram apresentar suas propostas. Mas isso não deve ter impacto sobre o eleitorado de Lula, já consolidado. Pode alterar só as intenções de voto dos indecisos – opina Ismael.

Lucas Pacheco, da Vitória Marketing Político, acha que Lula poderia ter aproveitado melhor o tempo na TV pois é candidato à reeleição e foi o único que não precisou ir ao estúdio para ser entrevistado.

– Mas ele falou numa biblioteca escura, sentado numa cadeira que o fez parecer baixo em relação aos entrevistadores. O cabelo e a barba estavam mal cortados e o terno mal escolhido – analisa Pacheco, especialista em marketing político.

Pacheco gravou a entrevista de Lula e reviu sem som. Achou que o presidente gesticulou demais, parecendo estar esbravejando.

– Se fosse um debate ele teria perdido. Alckmin também não foi muito bem e Cristovam conseguiu pelo menos colocar a agenda da educação na pauta. Só quem ganhou mesmo foi Heloísa Helena. Os demais ficaram no zero a zero – conclui Pacheco.’



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