Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 16 E 17/10

O Globo

19/10/2010 na edição 612

ELEIÇÕES

Não cabe punição à reportagem eleitoral

Entre os fatos relevantes transcorridos até agora nas eleições, destacase a histórica decisão, tomada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), de retirar a mordaça da censura dos programas de humor, bem como dos analistas políticos da mídia eletrônica. O inconstitucional cerceamento da liberdade de expressão decorria de enviesada interpretação da legislação eleitoral, como argumentou junto à Corte a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) na ação direta de inconstitucionalidade que impetrou no STF.

Escolhido relator do caso, o ministro Ayres Britto concedeu liminar às emissoras de rádio e TV, levou seu parecer ao plenário, e lá também saiu vitorioso — como ocorrera em outro julgamento histórico, o da revogação da Lei de Imprensa, um entulho autoritário herdado da ditadura militar. Foi vitorioso, como devia, o direito constitucional à liberdade de expressão, embora continue contemplada na legislação uma equivocada discriminação contra veículos de imprensa que dependem de concessão pública. Ora, existe concessão a rádios e TVs por mera questão técnica — evitar a interferência entre ondas de transmissão —, e por isso o detalhe não pode justificar qualquer ingerência do Estado no conteúdo desses meios.

A correta e bem-vinda decisão do Supremo enfrenta agora um teste com a entrada na Justiça Eleitoral de um pedido da campanha do tucano José Serra de punição à TV Record, devido a uma reportagem veiculada no início do mês, num jornal da emissora, considerada tendenciosa pelos advogados do candidato, uma propaganda a favor da petista Dilma Rousseff.

A reportagem trouxe depoimentos de eleitores de Serra e Dilma, colhidos em regiões abastadas e pobres na cidade de São Paulo, de uma forma entendida pela campanha tucana como manipuladora. A reclamação terminou aceita pela vice-procuradorageral eleitoral, Sandra Cureau, e a Record corre risco de ser punida por advertência e/ou multa.

A vice-procuradora ultrapassou, assim, limites estabelecidos pelo Supremo. Sandra Cureau merece todo o respeito pela postura assumida diante de uma campanha de difícil fiscalização e de aplicação da lei, pelo fato de o chefe do Executivo, Lula, ter decidido misturar os papéis de presidente de um Poder com o de cabo eleitoral e líder partidário.

Cureau não se atemorizou e agiu como era preciso diante da tentativa presidencial de usar a popularidade como salvo-conduto para a inimputabilidade. Mas erra ao enquadrar a Record numa legislação eleitoral já reinterpretada pelo Supremo. Sem entrar no mérito da tendenciosidade ou não da reportagem, não cabe ao poder público, em qualquer de suas instâncias, avaliar supostas intenções de editores, repórteres, colunistas, de quem produz qualquer tipo de conteúdo. No caso específico, que o telespectador analise o que assiste e ouve; se não gostar, acione o controle remoto e mude de canal.

O candidato José Serra há pouco agrediu verbalmente um repórter do jornal ‘Valor’, acusando-o de se guiar pela ‘pauta do PT’. A irritação do candidato se deveu a uma pergunta sobre alegado desvio de recursos da campanha tucana, um tema jornalístico, independentemente de ter sido levantado por Dilma Rousseff. Junto com a iniciativa de reclamar da Record na Justiça, a explosão de mau humor do candidato faz temer como poderá ser o seu relacionamento com a imprensa caso vença no dia 31.

 

JORNALISMO

Zuenir Ventura

A mídia premiada

Uma das críticas que se faz ao jornalismo atual — vamos ficar apenas nessa — atribui a ele incompetência ou preguiça em esgotar ou mesmo aprofundar os assuntos tratados. Entre leitores mais velhos e até entre profissionais jovens há a crença de que antigamente, na minha época, digamos, as reportagens eram mais completas e melhores. Hoje, com o advento das novas tecnologias de comunicação e a aceleração do tempo, muitos acreditam que não há mais lugar para as matérias grandes. Nem os leitores teriam mais paciência de lê-las e nem os jornalistas, de escrevê-las. Exagerando, pode-se dizer que um texto com mais de 140 caracteres já começa a cansar. Isso, porém, só é verdade entre aqueles que acham que pelo Twitter é possível escrever até ‘Os Lusíadas’.

Acabo de participar como jurado de dois prêmios de jornalismo (o 10oAyrton Senna e o 12oEmbratel), e o que li, vi e ouvi desmente essa impressão de inferioridade da imprensa de hoje em relação à de ontem. Ao contrário, sob muitos aspectos ela aprimorou a prática de ir fundo nas coisas. Tanto em um quanto em outro concurso, houve mais de mil trabalhos inscritos apresentando níveis de excelência que em alguns casos chegaram a dificultar a escolha dos premiados.

Essas duas amostras autorizam a afirmar que não houve um acontecimento pertinente, um episódio importante da vida nacional nestes últimos meses que não tenha sido noticiado, ou mesmo revelado, por algum veículo ou por todos: jornal, revista, rádio, TV ou site de internet.

Pense no mensalão do DEM e outros escândalos, nos atos secretos do Senado, no vazamento da prova do Enem, na pedofilia, epidemia de crack, Aids, fraudes e corrupção. Isso para só falar das reportagens investigativas, sem contar as outras categorias, que incluem os temas esportivo, cultural, educacional, econômico, tecnológico e ambiental.

A imprensa atual pode até pecar por excesso, já que é acusada, por exemplo, de preferir o denuncismo e a violência. Mas não por omissão. Hoje, na mídia, nada se esconde, tudo se escancara, às vezes até demais.

Enfim um final feliz, coisa rara no mundo moderno, em que predomina a chamada Lei de Murphy: se alguma coisa pode dar errado, com certeza dará da pior maneira, no pior momento e de modo a causar o maior estrago possível.

Quando se temia que algo de ruim acontecesse com a operação de salvamento dos mineiros chilenos, eis que ocorre o milagre e tudo terminou melhor do que se poderia desejar. O episódio deixou exemplos de disciplina, organização e solidariedade. E uma lição para o jornalismo. O interesse despertado pelo acontecimento mostrou aos que acham que notícia boa é notícia ruim que notícia boa pode ser… notícia boa.

 

INTERNET

Novas fontes de receita fazem as ações da Google baterem US$ 600

As ações da Google alcançaram US$ 600 ontem, o que não ocorria desde janeiro, graças ao lucro divulgado na quinta-feira e ao fato de estar obtendo ganhos de outros setores além da publicidade on-line, revelou o jornal ‘Wall Street Journal’. O lucro da companhia surpreendeu analistas, que esperavam resultados bem menores. As ações da Google atingiram US$ 601 ontem no início do pregão, e fecharam com alta de 11,19%, a US$ 601,45. No ano, os papéis da empresa ainda acumulam uma queda de 13%.

‘A empresa mantém uma posição dominante no segmento de publicidade on-line e sugere um rápido crescimento e escala nos mercados potencialmente amplos de celular e vídeo’, disse em nota o analista da Jefferies Youssef Squali.

Além disso, ontem mais de 12 corretoras elevaram suas metas de preço para as ações da Google. Segundo analistas, a divulgação dos resultados trimestrais da companhia mostram que o maior site de buscas do mundo conseguiu ampliar seus negócios para além das pesquisas na internet, com os novos setores ganhando força na empresa.

Instituições financeiras elevam projeção para papéis Corretoras como Bank of America (BofA), Merrill Lynch e J.P.Morgan elevaram suas metas de preço para as ações, além de alterar suas recomendações para ‘compre’. Analistas afirmaram que o otimismo se deve, especialmente, ao crescimento registrado nos setores de publicidade e móvel, algo que o mercado espera há tempos.

— O principal negócio da companhia tem bons níveis de crescimento, mas o que vem se tornando o mais interessantes é o rali nos setores menos ligados a buscas — afirmou o analista da Caris & Co, Sandeep Aggarwal, ao elevar sua recomendação para a companhia para ‘compre’.

O resultado apagou os temores de Wall Street de que seu negócio principal, as buscas na internet, estivesse diminuindo o ritmo de crescimento.

Mas pela primeira vez a Google revelou no balanço trimestral detalhes de sua performance financeira, abrangendo vários setores, que indicou que essas operações já somam mais de 10% do faturamento anual da companhia.

Investidores temiam que a Google, na busca por novas fontes de crescimento, estaria gastando demais em iniciativas como o sistema operacional para smartphones Android, aquisições e projetos de energia renovável de retorno incerto. Mas a Google divulgou que suas operações móveis e de publicidade geraram uma taxa anualizada de receita de mais de US$ 1 bilhão e US$ 2,5 bilhões respectivamente, tirando o foco de seus investimentos em smartphones e projetos on-line.

— Não há muito do que reclamar nos resultados da Google — disse o analista Ross Sandler, da RBC Capital Markets, que elevou sua meta de preço das ações de US$ 600 para US$ 690.

Anúncios de sites e YouTube devem gerar US$ 2,5 bi Os negócios de publicidade on-line do Google incluem YouTube, o Google display network e as operações do DoubleClick. Já no setor móvel, a companhia opera buscas, aplicativos para celular e o AdMob. A maior transparência nesses setores, aliado ao maior crescimento no tradicional setor de buscas, ajudará o Google a elevar seu valor de mercado, segundo analistas.

Jonathan Rosenberg, vicepresidentesênior da Google, disse na quinta-feira que a visualização de anúncios de sites na internet assim como do seu próprio site de vídeo YouTube devem gerar mais US$ 2,5 bilhões em receita anual. Atualmente o YouTube tem dois bilhões de acessos por semana que geram dinheiro.

 

Brasileiro cofundador do Facebook sai do silêncio

O brasileiro Eduardo Saverin, que ajudou a fundar o Facebook e foi amigo de Mark Zuckerberg na Universidade de Harvard, mas acabou processando seu examigo em 2009, decidiu quebrar o silêncio. Até agora, ele vinha se mantendo longe dos holofotes, mas ontem publicou no site da CNBC um artigo como blogueiro convidado, no qual comenta o filme ‘A rede social’.

As brigas de Saverin com Zuckerberg começaram quando a participação do brasileiro na empresa foi reduzida de 30% para 5%. As partes fizeram um acordo na Justiça.

O brasileiro conta que decidiu ver seu retrato na tela com ‘assombro e humildade’, inicialmente preocupado se o filme seria fiel aos fatos.

Depois se deu conta de que tratava-se de entretenimento, não de um documentário.

O filme estreia no Brasil em 3 de dezembro, mas já é um sucesso nos cinemas dos EUA, com receita de bilheteria de US$ 46 milhões, segundo o ‘New York Times’.

‘O que mais me surpreendeu não foi o que aconteceu — e o que não aconteceu — ou quem disse o que para quem e porquê. Para mim, a ideia central era a de que empreendedorismo e criatividade, por mais complicados, difíceis ou angustiantes de pôr em prática, talvez sejam hoje os principais motores dos negócios e do crescimento de nossa economia’, escreveu ele.

Facebook: ‘Desejamos o melhor para Eduardo’ Saverin lembrou ainda que três das maiores e mais famosas empresas americanas hoje — Microsoft, Apple e Google — nem existiam há 30 anos. Estas companhias, ressaltou, além de serem responsáveis por milhares de empregos, ‘afetam nossas vidas em uma maneira que nos permite conduzir nossos negócios diários de modo mais eficaz e produtivo’. E argumentou que o Facebook está provocando esse mesmo efeito hoje.

Ao defender o empreendedorismo e a criatividade como questões globais, Saverin recordou suas origens. ‘Como alguém que nasceu no Brasil, cresceu em Miami e estudou em Boston, vi em primeira mão que o desafio de criar novos negócios é uma oportunidade global. O empreendedorismo deve ser encorajado por todos’.

E completa: ‘no mundo digital, as fronteiras são permeáveis’.

Saverin conclui afirmando esperar que o filme estimule a criatividade das pessoas, para que criem seu próprio negócio. ‘Com um pouco de sorte, você pode até mudar o mundo’.

O site da revista ‘Forbes’ foi atrás do Facebook para saber o que eles achavam do artigo de Saverin. Uma das questões levantadas é se o silêncio do brasileiro sobre a antiga rixa faria parte do acordo.

‘Não vamos entrar nos detalhes do acordo’, afirmou em nota o porta-voz do Facebook, Larry Yu. ‘Sobre o artigo, apreciamos os sentimentos e de sejamos o melhor para Eduardo’.

No ranking dos americanos mais ricos, elaborado pela própria ‘Forbes’, Zuckerberg está em 35olugar, com US$ 6,9 bilhões, e Saverin, em 356o com US$ 1,15 bilhão.

 

Venda de tablet deve alcançar 19 milhões

A venda mundial de computadores tablet caminha para alcançar um volume de cerca de 19,5 milhões de unidades em 2010, puxadas pelo sucesso do iPad, afirmou ontem a consultoria Gartner.

Para 2011, a Gartner projeta vendas de 54,8 milhões de unidades, uma alta de 181% sobre este ano. Já a projeção para 2014 é de vendas de mais de 208 milhões de aparelhos.

A América do Norte deverá ser responsável por 61% das vendas da categoria este ano.

Essa participação, no entanto, deverá cair à medida que os tablets comecem a ser vendidos em outros países.

De acordo com a empresa de pesquisa, o crescimento dos tablets deve afetar de forma negativa outros segmentos de eletrônicos, como netbo-oks, por exemplo.

‘A natureza ‘tudo em um’ dos tablets de mídia resultará na canibalização de outros eletrônicos de consumo como leitores eletrônicos, games e players de mídia’, afirmou Carolina Milanesi, vice-presidente de pesquisa na Gartner, em nota. ‘Os mininotebooks vão sofrer a maior ameaça de aglutinação, à medida que os preços médios de vendas dos tablets caiam abaixo dos US$ 300 nos próximos dois anos.’ Os tablets caíram no gosto popular na esteira do sucesso do iPad, lançado pela Apple em abril deste ano. Várias empresas correram para lançar suas versões de tablets. Esses minicomputadores integram internet, leitores de livros digitais, vídeos, entre outros aplicativos.

 

Apple cria um controle para torpedos

O órgão de patentes dos Estados Unidos aprovou a solicitação da Apple para a patente de um sistema que permite controlar o conteúdo de mensagens enviadas ou recebidas por celulares.

A empresa afirma que os sistemas hoje existentes são deficientes porque a maioria se baseia em controlar e impedir o acesso a determinados sites ou a comunicação com determinadas pessoas.

A Apple propõe um sistema de controle no qual o administrador insira os critérios (por exemplo, palavras que considere obscenas) em um documento que trabalha como filtro. Esse aplicativo controla as mensagens enviadas e recebidas por quem está usando o celular e bloqueia aquelas cujo conteúdo é considerado inconveniente segundo os critérios previamente estabelecidos.

Quer pornografia? Compre um Android, diz Jobs Se a mensagem a ser enviada contiver palavras não autorizadas, o aplicativo pode alertar o usuário, o administrador do sistema ou alguém designado por este sobre a presença do documento em questão. Nesse caso, o remetente deve modificar a mensagem se não quiser que esta seja eliminada automaticamente.

A patente pode ser usada em outros casos. Um estudante de espanhol, por exemplo, pode controlar um número predeterminado de mensagens escritas durante um dia nessa língua. O aplicativo pode obrigar o usuário a reescrever total ou parcialmente o texto de uma mensagem se detectar erros de gramática ou ortografia.

Alguns analistas de mídia, no entanto, associam essa patente ao puritanismo demonstrado pela Apple na hora de aceitar ou rejeitar aplicativos para iPhone, iPod e iPad. A empresa proíbe expressamente que os aplicativos tenham um conteúdo erótico. Além disso, a Apple adotou critérios mais rígidos ao lançar seu tablet, o iPad, política que foi vista como uma forma de não prejudicar a adoção do aparelho pelas escolas.

O diretor-executivo da Apple, Steve Jobs, já afirmou claramente: quem quiser pornografia, que compre um Android — o sistema operacional para celular da Google.

 

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