Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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O Estado de S. Paulo

02/05/2006 na edição 379

PSDB EM CRISE
Mauro Chaves

Genial estratégia tucana

‘Certas estratégias precisam ser divulgadas antes do tempo, para que não deixem de obter o êxito previsto. Este é o caso da estratégia genial articulada pela cúpula tucana no lançamento precipitado da candidatura do ex-governador paulista à Presidência da República. Em sã consciência, passará pela cabeça de alguém que um partido comandado por homens capazes, experientes, argutos, mesmo dispondo de um pré-candidato (o ex-prefeito) já em situação de empate eleitoral com o favorito concorrente (o presidente), faça a opção por outro (o ex-governador) com índices que não chegam à metade dos daqueles? Acreditará alguém no derrisório argumento segundo o qual os resultados das pesquisas de hoje só refletem o ‘passado’ das últimas eleições, como se isso pouco valesse – e não fosse a explicação mais plausível para um notório incapaz ter chegado ao Poder maior, depois de três tentativas fracassadas?

Em sã consciência, alguém julgará que um partido, dispondo do quadro mais preparado para governar o País – sob os pontos de vista teórico, político, administrativo, de conhecimento dos meandros da máquina pública, dos escaninhos do processo legislativo, das brechas de oxigênio da burocracia; dispondo, há décadas, de projeto consistente de governo, de articulação de idéias de desenvolvimento, de familiaridade concreta com as diversidades regionais (não poética, do tipo Chico Buarque, ‘sou baiano, sou mineiro, sou pernambucano’), de capacidade de arregimentação de apoios aliados, de habilidade de formação e condução de equipes, de potencialidade de cobrança crítica e correção de funcionamento das emperradas engrenagens da administração, apto a consertar estruturas quebradas – e não só a dar continuidade a estruturas sólidas -, haveria de preferir alguém, sem dúvida, também competente, também sério, mas cujas credenciais maiores ainda são potenciais, enquanto bom discípulo de um grande administrador, afora a qualidade de ser o baixo perfil com a mais alta auto-estima da República?

Passará pela cabeça de alguém que um grupo de líderes que dirigiu o País por oito anos ininterruptos e o mais importante Estado por 12 – além de outros, com destacada eficiência – se permitisse iniciar um projeto presidencial da maneira mais amadorística, improvisada, desconectada, atrapalhada, acéfala, anódina, a ponto de submeter-se ao verdadeiro deboche que o define como projeto zen: zen idéias, zen articulação, zen criatividade, zen dinheiro, zen coisa nenhuma? E o que dizer do abandono ostensivo do solitário candidato aos seus próprios escorregões, não o protegendo contra armadilhas pequenas, até ridículas, mas de péssimo efeito midiático – da montanha de vestidos recebidos de presente à simples camisa comprada do contrabando? Não, seria uma ofensa à inteligência tucana não admitir que tudo isso faz parte de uma bem estudada estratégia de preparação, do eleitorado, para o lançamento do verdadeiro candidato presidencial do partido – e seus aliados – na convenção de junho, ocasião única e exclusiva para essa transcendental deliberação de rumos, mais que dos partidos, do País.

Toda a montagem desse estratagema teve por único objetivo remover, pelo menos parcialmente, o pesado obstáculo que se opunha à candidatura presidencial natural do ex-prefeito paulistano, que era a sua promessa de cumprir o mandato municipal até o fim. Julgou-se que o melhor seria preparar o eleitorado lançando-o primeiro a governador, com a explicação de que permaneceria aqui, no Estado (e na capital), controlando de perto a execução, por seu substituto pefelista (que prometeu não mudar sua equipe), dos projetos bem-sucedidos de recuperação – financeira, administrativa, urbanística, etc. – da cidade. Vencido o impacto inicial da renúncia, até a data da convenção o eleitorado haveria de entender que de nada adiantará a recuperação da cidade, ou a continuidade da boa administração do Estado, se o País continuar submetido, por mais quatro anos, à destruição sistemática de valores morais, à posse esfomeada das quadrilhas, ao desfibramento colossal da juventude pela impunidade irremovível e pelo sucesso retumbante de uma cambada de grandes, médios e pequenos ladrões que se assenhorearam do Poder maior do País e deliberam depená-lo, em favor da própria perpetuidade.

A parte mais sutil da estratégia tucana é a de estar dando ao poderoso concorrente reeleitorável a impressão de que lhe joga a toalha, colocando para enfrentá-lo o adversário de seus sonhos. O provisório pré-candidato tucano, por sua vez, movido por convicto e generoso espírito partidário, dispõe-se ao risco de sofrer algum desgaste, mas só até o momento de reabilitar-se (da má impressão causada pela fingida obstinação de paradigmático ‘candidato de si mesmo’), fazendo, na convenção de junho, um apelo público para que assuma sua função o verdadeiro candidato, acima de todos os riscos e sacrifícios, mas em benefício das atuais e futuras gerações do País. Sem dúvida, esse seu gesto poderá render-lhe, enquanto candidato a uma das Casas do Parlamento, um volume de votos que o leve à presidência da que escolher, afora uma experiência federal substantiva que, gritantemente, ainda lhe falta.

E São Paulo como fica? É claro que São Paulo é importante, mas mais importante – inclusive do que o conforto de quem pode chegar ao governo paulista num passeio, em primeiríssimo turno – é o Brasil. O dístico do brasão de São Paulo é: Pro Brasilia fiant eximia (pelo Brasil faça-se o máximo). Acaso pretenderão substituí-lo por Futere Brasilia (que me abstenho de traduzir, por decoro)?

Mauro Chaves é jornalista, mas continua otimista, apesar da plena confirmação do que escreveu em Eu não Disse? (Ed. Perspectiva). E-mail: mauro.chaves@attglobal.net’



PERFIL / HUGH HEFNER

Ruy Castro

O inventor do homem adulto, responsável e irresistível

‘É quase comovente saber que um dos grandes responsáveis pelo sexo sem culpa em nossos tempos completou 80 anos no começo deste mês – e, mesmo vendo-o cercado de mulheres cujas idades somadas não empatariam com a dele, ninguém se atreveu a chamá-lo de ‘dirty old man’, ou velho tarado. Seria fazer um julgamento moral, coisa que o velhinho em questão, Hugh Hefner, passou a vida combatendo.

Sim, Hefner fez 80 anos. Sua grande criação, a revista Playboy, também não é nenhuma criança: já passou dos 50 nos Estados Unidos (nasceu em 1953) e suas playmates pioneiras (como Janet Pilgrim, a primeiríssima a posar para a revista, ou Bettie Page, que se tornaria um dos símbolos da década) já devem ser bisavós. Nada dura para sempre, exceto, talvez, a ereção de Hefner, ainda que, hoje, confessadamente, à custa de Viagra.

Quando Hefner criou Playboy, tinha em mente um tipo de leitor que, mesmo que existisse, não deveria fazer número suficiente para sustentar sua revista. Esse leitor era um homem solteiro, com perto de 30 anos, liberal, independente e disposto a aproveitar a vida, não em colherinhas de café, mas em conquistas no atacado e no varejo. De profissão, seria um advogado, um arquiteto, um publicitário ou, quem sabe, um corretor da Bolsa. Viveria numa cidade de médio porte para cima – nada de acanhamentos ao seu redor – e, urbano até a medula, moraria num apartamento. Um quarto-e-sala, talvez, mas amplo, incrementado, decorado por um profissional, com toques bem masculinos (a cama, por exemplo, como uma unidade auto-suficiente; um bar, para os dry martinis) e a salvo da xeretice alheia. (E, sem dúvida, alugado – o leitor de Playboy não perderia o sono pensando nas ‘prestações da casa própria’, e muito menos se via aparando a grama de uma casa com quintal no subúrbio.) No dito apartamento, esse homem, vestindo um rôbe e fumando seu cachimbo, se aperfeiçoaria na arte de receber pessoas como ele, jovens, ambiciosas e desimpedidas. Do sexo feminino, é claro.

Hefner traçou o perfil ideal desse homem. Em música, por exemplo, ele estaria mais para o jazz moderno – daí Dave Brubeck ou o Modern Jazz Quartet sempre no hi-fi. Em sua mesinha de centro, em forma de ameba, o fino da literatura do momento: Ray Bradbury, Vladimir Nabokov, James Baldwin. Nenhuma das questões em voga lhe seria estranha: a era espacial, a corrida atômica, os direitos dos negros. E, valendo-se dos colaboradores mais surpreendentes, Hefner se certificou de que ele só ouvisse opiniões inteligentes: para lhe falar de economia, contratou J. Paul Getty, o homem mais rico do mundo; de sua vida sexual, o casal de médicos, Masters & Johnson; e, de suas possíveis neuroses, Jules Feiffer. Vez por outra, esnobava e soltava um novo James Bond, por Ian Fleming, em capítulos. E, quando a revista abriu oito páginas para a nudez de Brigitte Bardot, quem Hefner chamou a escrever o texto? O venerando André Maurois. E que celebridades que não davam bola para ninguém aceitaram ser entrevistadas por Playboy? Frank Sinatra, Miles Davis, Muhammad Ali. O ‘mundo de Playboy’ era para um homem muito especial.

Hefner convenceu o leitor que ele podia ser este homem: informado, moderno, bem vestido, bem sucedido e irresistível. Um homem assim não precisaria apelar para prostitutas ou para qualquer sexo pago. Ao mesmo tempo em que fazia o leitor acreditar que o poder da sedução era uma espécie de pensamento positivo, Hefner convenceu-o também de que ele não precisava ir a lugares específicos para conhecer mulheres capazes de se encantar por ele. Elas estavam em toda parte, inclusive no apartamento ao lado – e a prova estava no pôster central. A ordem expressa de Hefner era de que, ao posar para o pôster de Playboy, a mulher devia parecer radiante, fresca do banho, feliz por estar ali e encarando o leitor de frente, sem mistérios, sem olhares de soslaio e sem provocações baratas. Criou-se a fantasia da ‘girl next door’ (mesmo que, na vida real, algumas meninas não fossem tão girls e muito menos next door). Em torno dela, ele construiu uma revista com enorme apelo publicitário, que arrasou as dezenas de concorrentes, chegou a tirar 6 milhões de exemplares por mês no mercado americano e, para sua glória, foi citada como portadora de uma espécie de ‘filosofia’ – libertária, ligada às grandes causas e sem a qual não se entenderia os Estados Unidos da segunda metade do século 20. (Hefner acreditava mesmo nisto.)

Playboy foi um indiscutível sucesso nas décadas de 50 e 60 e, em minha opinião, um dos agentes de fato das tremendas transformações germinando naqueles anos. Hefner conseguiu, inclusive, que Playboy sobrevivesse a 1968, quando seu hipotético leitor – o homem de rôbe, cachimbo e cama-catapulta – revelou-se subitamente fora de moda. Não fez este homem se mudar para uma comunidade hippie, mas permitiu que ele deixasse crescer o cabelo, experimentasse uma ou outra droga e tomasse uma posição política mais explícita (contra a Guerra do Vietnã, por exemplo). A pílula anticoncepcional ajudou Hefner, no sentido de que as mulheres, que ele tentava liberar uma a uma, se auto-liberaram em massa e de repente. E até mesmo o movimento feminista, que bobamente o elegeu como seu arquiinimigo, revelou-se um involuntário aliado – se as mulheres queriam dispensar os sutiãs e andar com os peitinhos à solta, quem era Playboy para discordar?

Hefner só não contava com que a liberação fosse tão longe – e tanto, na verdade, que saiu do controle das próprias feministas e de qualquer condução racional do processo. Quando Playboy publicou os primeiros pêlos pubianos, em 1970, quem podia impedir suas concorrentes de ir direto à labia majora? Algo parecido aconteceu na moderada defesa que, nos anos 60, Playboy fazia da liberação das drogas. Na época, isto significava o direito de alguns privilegiados ‘expandir’ suas mentes e explorar regiões do inconsciente, queimando um fuminho ou tomando um ácido – ninguém estava pensando no uso maciço de cocaína e drogas sintéticas por adolescentes, nas famílias destruídas por elas e no império do crime criado para sustentar o tráfico. O liberalismo de Playboy ficou para trás. O homem adulto e responsável, imaginado originalmente por Hefner, deixou de existir. Em seu lugar, surgiu um adolescente ansioso, capaz de vender a mãe para ter acesso imediato aos prazeres legais e ilegais que o mundo, indiscriminadamente, ‘disponibilizou’.

Um dos segredos do antigo sucesso de Playboy, formulado por Hefner e aplicado durante boa parte de sua existência, era o de que a revista deveria ser feita para um homem de hipotéticos 25 anos – qualquer que fosse sua verdadeira idade. ‘Se ele tiver 45 anos, gostaria de ter de novo 25’, dizia Hefner. ‘E, se tiver 13, também gostaria de ter 25.’ Mas, por tudo que aconteceu nas últimas décadas, o leitor-alvo parece ter se alterado: as revistas masculinas passaram a ser feitas direto para os infantes de 13 anos – porque, acima dessa idade, já não haveria razão para lê-las.

Mas o processo não pára, e a pergunta agora é: com tanto sexo gratuito e disponível na internet, quem quer saber de figuras estáticas numa revista? Hefner podia aproveitar as últimas balas na agulha de sua revista e reinvestir em um antigo aliado: o leitor adulto e responsável. Nem que tivesse de reinventá-lo.’



TELEVISÃO
Keila Jimenez

A novela da Band

‘A Band quer porque quer produzir novela. Parece lenda, mas a emissora voltou a dar passos nessa direção. Contratou, na semana passada, o diretor Ignácio Coqueiro, ex-Globo, para retomar o projeto de teledramaturgia na casa, abandonado em fevereiro por Herval Rossano, que foi para o SBT.

O plano da Band é estrear uma novela ainda este ano, logo após o fim de Mandacaru (reprise da produção da extinta TV Manchete). Para tanto, a rede pretende firmar em breve um acordo de parceria com a NBP, uma das maiores produtoras de novelas de Portugal.

O fruto dessa parceria seria a produção de um folhetim com base em um ou mais textos de Camilo Castelo Branco. A idéia inicial da Band era fazer uma versão do livro Amor de Perdição, do autor, mas a rede agora quer fazer um mix de mais obras.

Um dos maiores desafios de Ignácio Coqueiro, além da concretização da parceria com NBP, será a escalação de elenco. Na época de sua saída da Band, o próprio Herval afirmou não conseguir escalar atores para uma produção na casa, por conta da retomada das novelas na Record, a produção no SBT e a superprodução de cast da Globo.’



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‘Certas estratégias precisam ser divulgadas antes do tempo, para que não deixem de obter o êxito previsto. Este é o caso da estratégia genial articulada pela cúpula tucana no lançamento precipitado da candidatura do ex-governador paulista à Presidência da República. Em sã consciência, passará pela cabeça de alguém que um partido comandado por homens capazes, experientes, argutos, mesmo dispondo de um pré-candidato (o ex-prefeito) já em situação de empate eleitoral com o favorito concorrente (o presidente), faça a opção por outro (o ex-governador) com índices que não chegam à metade dos daqueles? Acreditará alguém no derrisório argumento segundo o qual os resultados das pesquisas de hoje só refletem o ‘passado’ das últimas eleições, como se isso pouco valesse – e não fosse a explicação mais plausível para um notório incapaz ter chegado ao Poder maior, depois de três tentativas fracassadas?

Em sã consciência, alguém julgará que um partido, dispondo do quadro mais preparado para governar o País – sob os pontos de vista teórico, político, administrativo, de conhecimento dos meandros da máquina pública, dos escaninhos do processo legislativo, das brechas de oxigênio da burocracia; dispondo, há décadas, de projeto consistente de governo, de articulação de idéias de desenvolvimento, de familiaridade concreta com as diversidades regionais (não poética, do tipo Chico Buarque, ‘sou baiano, sou mineiro, sou pernambucano’), de capacidade de arregimentação de apoios aliados, de habilidade de formação e condução de equipes, de potencialidade de cobrança crítica e correção de funcionamento das emperradas engrenagens da administração, apto a consertar estruturas quebradas – e não só a dar continuidade a estruturas sólidas -, haveria de preferir alguém, sem dúvida, também competente, também sério, mas cujas credenciais maiores ainda são potenciais, enquanto bom discípulo de um grande administrador, afora a qualidade de ser o baixo perfil com a mais alta auto-estima da República?

Passará pela cabeça de alguém que um grupo de líderes que dirigiu o País por oito anos ininterruptos e o mais importante Estado por 12 – além de outros, com destacada eficiência – se permitisse iniciar um projeto presidencial da maneira mais amadorística, improvisada, desconectada, atrapalhada, acéfala, anódina, a ponto de submeter-se ao verdadeiro deboche que o define como projeto zen: zen idéias, zen articulação, zen criatividade, zen dinheiro, zen coisa nenhuma? E o que dizer do abandono ostensivo do solitário candidato aos seus próprios escorregões, não o protegendo contra armadilhas pequenas, até ridículas, mas de péssimo efeito midiático – da montanha de vestidos recebidos de presente à simples camisa comprada do contrabando? Não, seria uma ofensa à inteligência tucana não admitir que tudo isso faz parte de uma bem estudada estratégia de preparação, do eleitorado, para o lançamento do verdadeiro candidato presidencial do partido – e seus aliados – na convenção de junho, ocasião única e exclusiva para essa transcendental deliberação de rumos, mais que dos partidos, do País.

Toda a montagem desse estratagema teve por único objetivo remover, pelo menos parcialmente, o pesado obstáculo que se opunha à candidatura presidencial natural do ex-prefeito paulistano, que era a sua promessa de cumprir o mandato municipal até o fim. Julgou-se que o melhor seria preparar o eleitorado lançando-o primeiro a governador, com a explicação de que permaneceria aqui, no Estado (e na capital), controlando de perto a execução, por seu substituto pefelista (que prometeu não mudar sua equipe), dos projetos bem-sucedidos de recuperação – financeira, administrativa, urbanística, etc. – da cidade. Vencido o impacto inicial da renúncia, até a data da convenção o eleitorado haveria de entender que de nada adiantará a recuperação da cidade, ou a continuidade da boa administração do Estado, se o País continuar submetido, por mais quatro anos, à destruição sistemática de valores morais, à posse esfomeada das quadrilhas, ao desfibramento colossal da juventude pela impunidade irremovível e pelo sucesso retumbante de uma cambada de grandes, médios e pequenos ladrões que se assenhorearam do Poder maior do País e deliberam depená-lo, em favor da própria perpetuidade.

A parte mais sutil da estratégia tucana é a de estar dando ao poderoso concorrente reeleitorável a impressão de que lhe joga a toalha, colocando para enfrentá-lo o adversário de seus sonhos. O provisório pré-candidato tucano, por sua vez, movido por convicto e generoso espírito partidário, dispõe-se ao risco de sofrer algum desgaste, mas só até o momento de reabilitar-se (da má impressão causada pela fingida obstinação de paradigmático ‘candidato de si mesmo’), fazendo, na convenção de junho, um apelo público para que assuma sua função o verdadeiro candidato, acima de todos os riscos e sacrifícios, mas em benefício das atuais e futuras gerações do País. Sem dúvida, esse seu gesto poderá render-lhe, enquanto candidato a uma das Casas do Parlamento, um volume de votos que o leve à presidência da que escolher, afora uma experiência federal substantiva que, gritantemente, ainda lhe falta.

E São Paulo como fica? É claro que São Paulo é importante, mas mais importante – inclusive do que o conforto de quem pode chegar ao governo paulista num passeio, em primeiríssimo turno – é o Brasil. O dístico do brasão de São Paulo é: Pro Brasilia fiant eximia (pelo Brasil faça-se o máximo). Acaso pretenderão substituí-lo por Futere Brasilia (que me abstenho de traduzir, por decoro)?

Mauro Chaves é jornalista, mas continua otimista, apesar da plena confirmação do que escreveu em Eu não Disse? (Ed. Perspectiva). E-mail: mauro.chaves@attglobal.net’



PERFIL / HUGH HEFNER

Ruy Castro

O inventor do homem adulto, responsável e irresistível

‘É quase comovente saber que um dos grandes responsáveis pelo sexo sem culpa em nossos tempos completou 80 anos no começo deste mês – e, mesmo vendo-o cercado de mulheres cujas idades somadas não empatariam com a dele, ninguém se atreveu a chamá-lo de ‘dirty old man’, ou velho tarado. Seria fazer um julgamento moral, coisa que o velhinho em questão, Hugh Hefner, passou a vida combatendo.

Sim, Hefner fez 80 anos. Sua grande criação, a revista Playboy, também não é nenhuma criança: já passou dos 50 nos Estados Unidos (nasceu em 1953) e suas playmates pioneiras (como Janet Pilgrim, a primeiríssima a posar para a revista, ou Bettie Page, que se tornaria um dos símbolos da década) já devem ser bisavós. Nada dura para sempre, exceto, talvez, a ereção de Hefner, ainda que, hoje, confessadamente, à custa de Viagra.

Quando Hefner criou Playboy, tinha em mente um tipo de leitor que, mesmo que existisse, não deveria fazer número suficiente para sustentar sua revista. Esse leitor era um homem solteiro, com perto de 30 anos, liberal, independente e disposto a aproveitar a vida, não em colherinhas de café, mas em conquistas no atacado e no varejo. De profissão, seria um advogado, um arquiteto, um publicitário ou, quem sabe, um corretor da Bolsa. Viveria numa cidade de médio porte para cima – nada de acanhamentos ao seu redor – e, urbano até a medula, moraria num apartamento. Um quarto-e-sala, talvez, mas amplo, incrementado, decorado por um profissional, com toques bem masculinos (a cama, por exemplo, como uma unidade auto-suficiente; um bar, para os dry martinis) e a salvo da xeretice alheia. (E, sem dúvida, alugado – o leitor de Playboy não perderia o sono pensando nas ‘prestações da casa própria’, e muito menos se via aparando a grama de uma casa com quintal no subúrbio.) No dito apartamento, esse homem, vestindo um rôbe e fumando seu cachimbo, se aperfeiçoaria na arte de receber pessoas como ele, jovens, ambiciosas e desimpedidas. Do sexo feminino, é claro.

Hefner traçou o perfil ideal desse homem. Em música, por exemplo, ele estaria mais para o jazz moderno – daí Dave Brubeck ou o Modern Jazz Quartet sempre no hi-fi. Em sua mesinha de centro, em forma de ameba, o fino da literatura do momento: Ray Bradbury, Vladimir Nabokov, James Baldwin. Nenhuma das questões em voga lhe seria estranha: a era espacial, a corrida atômica, os direitos dos negros. E, valendo-se dos colaboradores mais surpreendentes, Hefner se certificou de que ele só ouvisse opiniões inteligentes: para lhe falar de economia, contratou J. Paul Getty, o homem mais rico do mundo; de sua vida sexual, o casal de médicos, Masters & Johnson; e, de suas possíveis neuroses, Jules Feiffer. Vez por outra, esnobava e soltava um novo James Bond, por Ian Fleming, em capítulos. E, quando a revista abriu oito páginas para a nudez de Brigitte Bardot, quem Hefner chamou a escrever o texto? O venerando André Maurois. E que celebridades que não davam bola para ninguém aceitaram ser entrevistadas por Playboy? Frank Sinatra, Miles Davis, Muhammad Ali. O ‘mundo de Playboy’ era para um homem muito especial.

Hefner convenceu o leitor que ele podia ser este homem: informado, moderno, bem vestido, bem sucedido e irresistível. Um homem assim não precisaria apelar para prostitutas ou para qualquer sexo pago. Ao mesmo tempo em que fazia o leitor acreditar que o poder da sedução era uma espécie de pensamento positivo, Hefner convenceu-o também de que ele não precisava ir a lugares específicos para conhecer mulheres capazes de se encantar por ele. Elas estavam em toda parte, inclusive no apartamento ao lado – e a prova estava no pôster central. A ordem expressa de Hefner era de que, ao posar para o pôster de Playboy, a mulher devia parecer radiante, fresca do banho, feliz por estar ali e encarando o leitor de frente, sem mistérios, sem olhares de soslaio e sem provocações baratas. Criou-se a fantasia da ‘girl next door’ (mesmo que, na vida real, algumas meninas não fossem tão girls e muito menos next door). Em torno dela, ele construiu uma revista com enorme apelo publicitário, que arrasou as dezenas de concorrentes, chegou a tirar 6 milhões de exemplares por mês no mercado americano e, para sua glória, foi citada como portadora de uma espécie de ‘filosofia’ – libertária, ligada às grandes causas e sem a qual não se entenderia os Estados Unidos da segunda metade do século 20. (Hefner acreditava mesmo nisto.)

Playboy foi um indiscutível sucesso nas décadas de 50 e 60 e, em minha opinião, um dos agentes de fato das tremendas transformações germinando naqueles anos. Hefner conseguiu, inclusive, que Playboy sobrevivesse a 1968, quando seu hipotético leitor – o homem de rôbe, cachimbo e cama-catapulta – revelou-se subitamente fora de moda. Não fez este homem se mudar para uma comunidade hippie, mas permitiu que ele deixasse crescer o cabelo, experimentasse uma ou outra droga e tomasse uma posição política mais explícita (contra a Guerra do Vietnã, por exemplo). A pílula anticoncepcional ajudou Hefner, no sentido de que as mulheres, que ele tentava liberar uma a uma, se auto-liberaram em massa e de repente. E até mesmo o movimento feminista, que bobamente o elegeu como seu arquiinimigo, revelou-se um involuntário aliado – se as mulheres queriam dispensar os sutiãs e andar com os peitinhos à solta, quem era Playboy para discordar?

Hefner só não contava com que a liberação fosse tão longe – e tanto, na verdade, que saiu do controle das próprias feministas e de qualquer condução racional do processo. Quando Playboy publicou os primeiros pêlos pubianos, em 1970, quem podia impedir suas concorrentes de ir direto à labia majora? Algo parecido aconteceu na moderada defesa que, nos anos 60, Playboy fazia da liberação das drogas. Na época, isto significava o direito de alguns privilegiados ‘expandir’ suas mentes e explorar regiões do inconsciente, queimando um fuminho ou tomando um ácido – ninguém estava pensando no uso maciço de cocaína e drogas sintéticas por adolescentes, nas famílias destruídas por elas e no império do crime criado para sustentar o tráfico. O liberalismo de Playboy ficou para trás. O homem adulto e responsável, imaginado originalmente por Hefner, deixou de existir. Em seu lugar, surgiu um adolescente ansioso, capaz de vender a mãe para ter acesso imediato aos prazeres legais e ilegais que o mundo, indiscriminadamente, ‘disponibilizou’.

Um dos segredos do antigo sucesso de Playboy, formulado por Hefner e aplicado durante boa parte de sua existência, era o de que a revista deveria ser feita para um homem de hipotéticos 25 anos – qualquer que fosse sua verdadeira idade. ‘Se ele tiver 45 anos, gostaria de ter de novo 25’, dizia Hefner. ‘E, se tiver 13, também gostaria de ter 25.’ Mas, por tudo que aconteceu nas últimas décadas, o leitor-alvo parece ter se alterado: as revistas masculinas passaram a ser feitas direto para os infantes de 13 anos – porque, acima dessa idade, já não haveria razão para lê-las.

Mas o processo não pára, e a pergunta agora é: com tanto sexo gratuito e disponível na internet, quem quer saber de figuras estáticas numa revista? Hefner podia aproveitar as últimas balas na agulha de sua revista e reinvestir em um antigo aliado: o leitor adulto e responsável. Nem que tivesse de reinventá-lo.’



TELEVISÃO
Keila Jimenez

A novela da Band

‘A Band quer porque quer produzir novela. Parece lenda, mas a emissora voltou a dar passos nessa direção. Contratou, na semana passada, o diretor Ignácio Coqueiro, ex-Globo, para retomar o projeto de teledramaturgia na casa, abandonado em fevereiro por Herval Rossano, que foi para o SBT.

O plano da Band é estrear uma novela ainda este ano, logo após o fim de Mandacaru (reprise da produção da extinta TV Manchete). Para tanto, a rede pretende firmar em breve um acordo de parceria com a NBP, uma das maiores produtoras de novelas de Portugal.

O fruto dessa parceria seria a produção de um folhetim com base em um ou mais textos de Camilo Castelo Branco. A idéia inicial da Band era fazer uma versão do livro Amor de Perdição, do autor, mas a rede agora quer fazer um mix de mais obras.

Um dos maiores desafios de Ignácio Coqueiro, além da concretização da parceria com NBP, será a escalação de elenco. Na época de sua saída da Band, o próprio Herval afirmou não conseguir escalar atores para uma produção na casa, por conta da retomada das novelas na Record, a produção no SBT e a superprodução de cast da Globo.’



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