Sábado, 21 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 10 E 11/03

O Estado de S. Paulo

13/03/2007 na edição 424

SEGUNDO MANDATO
O Estado de S. Paulo

Franklin Martins pode ser novo porta-voz

‘Uma rede pública de rádio e televisão e mudanças na Secretaria de Imprensa e Divulgação da Presidência são duas propostas em adiantada fase de estudo no Palácio do Planalto. Ainda no ano passado, após o segundo turno da eleição, o jornalista André Singer, porta-voz do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pôs o cargo à disposição. Alegou que já havia cumprido sua missão.

O presidente passou, então, a sondar nomes para o lugar de Singer. O jornalista Franklin Martins, da TV Bandeirantes, confirmou ter recebido o convite, mas está em férias e disse que dará resposta em novo encontro com Lula, sem data marcada.

GABINETE

A assessoria especial do presidente Lula também será reforçada. Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente, passará a dividir suas tarefas cotidianas com Swedenberger Barbosa e César Alvarez.

No fim do ano passado, Carvalho chegou a pedir para mudar de posto, mas foi convencido por Lula a ficar, sob a garantia de que a chefia de gabinete teria mais auxiliares.’



CHINA
David Barboza

Sexualidade chega à mídia chinesa

‘Quando a edição chinesa da Sports Illustrated chegou às bancas, na semana passada, exibindo pela primeira vez trajes de banho e trazendo na capa foto da cantora Beyonce, a disputa pela revista foi feroz.

Os leitores já tinham visto a edição de fevereiro da For Him Magazine, cuja capa mostrava a cantora chinesa A Duo num collant branco, com decote em V, revelando todas as partes do seu robusto corpo.

Dentro, A Duo aparecia, como se numa relação sadomasoquista, no papel de uma Dominatrix (mulher dominadora), apertando os seios, com o corpo nu enrolado num celulóide, curvada, molhada de suor, sobre um homem submisso.

A picante revista também dava dicas sobre ‘como fazer tudo em cinco minutos’ (porque ‘intervalo para o sexo’ aqui é o mesmo que ‘intervalo para o café’), trazendo também histórias com títulos como ‘A perigosa jornada sexual de QiQi’.

As imagens e os textos dificilmente chocariam leitores americanos ou europeus. As fotografias na revista são insípidas comparadas com o que se vê em revistas no Japão ou em outras partes da Ásia.

ASSUNTO TABU

Na China, porém, onde sexo ainda é um assunto tabu e a pornografia é proibida pelo Partido Comunista, as imagens não são apenas muito provocativas, mas talvez sejam o mais recente sinal de que sexo e sexualidade estão se infiltrando na mídia popular.

E essa forte explosão de energia sexual parece simbolizar o quão rapidamente a China está se transformando. Para alguns ela também é precursora de problemas futuros para um país que, inevitavelmente, terá dificuldades para absorver suas liberdades recém-encontradas. ‘Existe uma linha tênue entre mente aberta e tolerância sexual’, disse Xie Xialing, professor de Sociologia da Universidade Fudan, em Xangai.

Há cinco anos, os livros e revistas chineses eram censurados, a publicação de imagens de modelos com pouca roupa ou de conteúdo considerado ofensivo ou moralmente corrupto era proibida. O único conteúdo sobre sexo encontrado constava de panfletos sobre educação sexual ou em livros de mulheres chineses nuas vendidos como ‘obras de arte’ nos aeroportos de grandes cidades.

MENOS CONTROLE

Hoje, no entanto, com a economia chinesa em plena expansão e o governo de Pequim afrouxando seu controle sobre a vida pessoal dos cidadãos, as revistas começam a publicar fotos pornográficas (que não mostram, entretanto, sexo explícito), fantasias sexuais e até pistas sobre onde encontrar garotas de programa.

Websites populares vão mais longe, com a divulgação de vídeos eróticos e a criação de fóruns para mulheres desejando comercializar seu ‘sex-appeal’. Elas colocam suas fotos na internet onde aparecem viajando com amigos, tirando a roupa em casa ou fazendo poses eróticas.

‘É um tipo de revolução sexual popular’, disse Annie Wang, autora do livro The People’s Republic of Desire (A República Popular do Desejo), romance satírico sobre a louca corrida da China para a modernização.

O governo faz investidas periódicas contra a pornografia e freqüentemente censura o conteúdo sexual de revistas e da internet. Mas desde 2000, os censores começaram a olhar o outro lado. O ativismo político continua proibido na nova China. Entretenimento é algo diferente. Até o website da agência estatal de notícias Nova China oferece slides das ‘dez garotas mais quentes de 2006’ e ‘fotos raramente vistas de homens sexy’.

Muitos dizem que essa tendência é estimulada pelo mercado e por empresários ávidos para lucrar com um modo de vida mais livre no país.

‘O mercado é a força propulsora número 1 por trás dessa explosão de revistas eróticas’ , disse Pan Suiming, professor de Sociologia na Universidade Renmin, em Pequim.

‘GATINHAS’ DO SEXO

Marcas de luxo ocidentais que têm entrado no mercado chinês querem inserir sua propaganda em revistas populares e em websites que atraem consumidores. E hoje, na China, fotos de ‘gatinhas’ do sexo atraem.

A For Him Magazine é uma das histórias de sucesso desse gênero, com uma circulação de 480 mil exemplares (auxiliada, provavelmente, pelo fato de que é publicada por uma agência governamental, a Administração Nacional do Turismo, o que mostra o interesse oficial em investir nesse novo fenômeno).

Jacky Jin, editor-chefe da revista, disse que pretende afirmar um novo estilo de vida para os leitores que ele chama de novos metrossexuais da China – rapazes que adoram carros, novidades e garotas.

‘Estamos abrindo uma nova janela para os homens chineses’, disse, observando que já foi criticado em diversas ocasiões pelos censores do governo comunista.

Há uma década, a vida pessoal dos chineses era muito restringida. Com quem você era casado, onde morava e o que era considerado admissível, tudo era rigorosamente controlado e monitorado de perto pelo governo, pelos patrões e autoridades paternas.

Mas a urbanização, a maior mobilidade e o poder da internet apareceram para desafiar tudo isso.

MAIS LIBERDADE

De acordo com especialistas, a China está atravessando um período de enorme liberdade pessoal e sexual. Os jovens – muitos deles filhos únicos, por causa da política adotada pelo governo da China – vestem-se com roupas provocativas e na moda. E estão cada vez mais viciados em entretenimento online, onde podem também ir em busca de amor e satisfação dos seus desejos.

MUDANÇA CULTURAL

Para o professor Pan, uma das razões dessa mudança cultural foi a mudança do comportamento feminino.

‘As mulheres hoje, especialmente as jovens nas cidades, não acham mais ruim expor seu corpo’, disse.

‘Há cinco ou seis anos, quando algumas mulheres começaram a usar roupas mostrando seu umbigo, muita gente não conseguia entender porque se considerava o umbigo uma coisa bonita que merecia ser exposta publicamente. Mas hoje, as jovens acham muito natural deixar a barriguinha à mostra’, declarou o professor de Sociologia.

Para Zha Jianying, escritor e autor do China Pop, essa maior abertura, na verdade, é positiva. ‘Essa maior abertura sexual é muito saudável, depois de anos de puritanismo e repressão maoísta’, disse. ‘Agora, talvez estejamos vendo o pêndulo balançar na outra direção’.

Porém para o professor Xie, da Universidade Fudan, as coisas foram longe demais.

‘Em certos períodos da história, como na decadente Dinastia Ming, sexo não era um tabu e até os intelectuais falavam sobre suas habilidades sexuais informalmente durante o chá’, disse Xie. ‘A sociedade atual é ainda melhor. Mas acho que as pessoas se preocupam menos com dignidade.’

LIMITES

Ele chegou a pedir para que se imponham limites para a exposição pública de partes do corpo. Para ele, ‘os seres humanos deveriam ter vergonha’.

Outros dizem que as novas liberdades estão levando à degradação, ao aumento da prostituição, e o que Wang, o escritor, chama de ‘mentalidade concubina’.

A pornografia explícita, naturalmente, está sendo atacada pelo governo, que impõe multas pesadas para os transgressores. Recentemente, o chefe de uma rede de pornografia foi condenado à prisão perpétua.

Os censores olham com cautela as influências que chegam do Ocidente, como o seriado americano Sex and the City, que conquistou uma enorme audiência na China, encontrado em DVDs pirateados. Há pouco tempo, a exibição da peça Monólogos da Vagina foi cancelada, supostamente por causa do título.

Mas num país que, por acaso, é também o maior fabricante de brinquedos sexuais, ser pervertido também começa a ficar na moda. Em novembro, o dono de uma loja em Xangai estava vendendo camisinhas em caixas que traziam o retrato do ex-líder Mao Tsé-tung. A loja foi fechada, pela venda de camisinhas em ‘embalagens inadequadas’.

Tradução de Terezinha Martino’



TV CULTURA
Ethevaldo Siqueira

TV Cultura é um novo modelo de TV pública

‘Depois de quase três anos de recuperação, a TV Cultura está em vias de se transformar em modelo brasileiro de televisão pública. Que diferença em relação ao quadro vigente em maio de 2003, quando a emissora vivia um dos períodos mais difíceis de sua história, com equipamentos obsoletos e atrasos de pagamentos, entre outros graves problemas.

Em menos de três anos, Marcos Mendonça, presidente da Fundação Padre Anchieta, mudou radicalmente a instituição. ‘Para alegria dos paulistas e brasileiros – diz ele – a TV Cultura é hoje uma nova emissora de televisão, tanto em programação, tecnologia, audiência, imagem institucional e situação econômica. Pesquisas do Data Folha, do Ibope e Meio e Mensagem revelam que, na opinião majoritária dos entrevistados, a TV Cultura é a emissora mais ética e de maior independência editorial. E sua programação é considerada a de melhor nível cultural no País.’

INFANTIL E JUVENIL

Uma boa televisão pública é um patrimônio de toda a sociedade, em especial por sua contribuição à educação. Nesse sentido, a área de maior avanço nos últimos três anos foi a da produção de programas infantis, na qual a Cultura tem longa tradição e reconhecimento internacional. O recém-criado Núcleo Infantil tem, entre outras incumbências, buscar o apoio da iniciativa privada de forma mais sistemática e estruturada, ampliar as produções do Canal Rá-Tim-Bum e iniciar um novo programa de bonecos.

A TV Cultura nunca teve uma programação dedicada aos jovens entre 12 e 20 anos. Para sanar essa lacuna, a emissora está lançando nas próximas semanas quatro novos programas dedicados ao adolescente, aos jovens de espírito científico, à música e ao conhecimento. Um quinto programa, diário, estréia ainda neste mês, em formato semelhante ao YouTube, isto é, com muitos clipes e vídeos curiosos.

A EDUCAÇÃO

O recém-criado Núcleo de Educação vai produzir materiais de apoio à educação formal mediante a utilização do imenso acervo educativo da emissora e da produção de programas especiais, concebidos com a orientação de especialistas.

A TV Cultura e suas duas emissoras de rádio estão ampliando o relacionamento e a cooperação com entidades internacionais de competência indiscutível. Esse processo de internacionalização começou com um acordo com a British Broadcasting Corporation (BBC), a maior e mais respeitada TV pública do mundo, e prossegue com a TV 5 (França), a Rádio Televisão Portuguesa (RTP), a ORF (Áustria), canais mexicanos 11 e 22, a TV Educar (Argentina), além de diversos acordos com emissoras chinesas.

SUPERÁVIT

Em 2006, pela primeira vez nos últimos 15 anos, a TV Cultura terminou um ano com superávit operacional. Para financiar seus novos investimentos, no entanto, a Fundação Padre Anchieta desenvolveu uma estratégia bem sucedida de captação de recursos – via publicidade e venda de produtos e serviços – que permitiu saltar de uma receita de cerca de R$ 20 milhões em 2004 para R$ 40 milhões em 2006, que já equivale a quase 40% de seu orçamento.

Essas receitas provêm não apenas da área de publicidade, mas também da área de serviços, com a venda de produtos culturais. A emissora realiza essa comercialização de produtos, o licenciamento e a venda de programas por intermédio do departamento chamado Cultura Marcas. O crescimento nessa área foi de 200% entre 2004 e 2006, com o licenciamento de mais de 30 empresas e uma linha de cerca de 1.200 produtos lançados. Marcos Mendonça prevê um crescimento de 40% no faturamento do Cultura Marcas, ao longo deste ano, com 4 novos contratos internacionais de representação, além de 50 novos produtos do Cocoricó que serão lançados no mercado.

DIGITALIZAÇÃO

O maior ativo cultural de uma emissora é hoje o seu conteúdo, desde que armazenado em acervos digitais. Nesse sentido a TV Cultura tem investido continuamente na preservação de seu acervo e na digitalização de seu arquivo. Entre os programas recuperados que já podem ser vistos na grade de programação estão os teleteatros e dezenas de programas infantis.

É claro que ainda resta muita coisa a ser feita em todas as áreas. Na infra-estrutura tecnológica, por exemplo, mesmo com o avanço da digitalização, ainda há equipamentos que funcionam com válvulas. Mas, segundo Mendonça, em poucos meses, tudo deverá estar renovado, pois a emissora acaba de receber novos equipamentos digitais. Entre eles, estão as unidades móveis, as mesas digitais, as câmeras de alta definição e ilhas de edição de última geração.

As duas emissoras de rádio da Fundação Padre Anchieta, Cultura AM e FM, viviam uma situação ainda pior do que a televisão até 2004. A FM está praticamente recuperada e modernizada. A Cultura AM ainda enfrenta o problema da obsolescência tecnológica, mas, dentro de 30 a 60 dias terá novos equipamentos e novo sistema de transmissão instalado próximo à represa de Guarapiranga. Sua programação será inteiramente dedicada a dois temas: durante o dia, educação; à noite, música popular brasileira.’



MEMÓRIA / JEAN BAUDRILLARD
Gilles Lapouge

Com provocações, Baudrillard anunciou o fim da ‘realidade real’

‘Jean Baudrillard, que morreu na terça-feira, dia 6, era um homem solícito, engraçado, extremamente curioso, ávido da rua, do cinema, do teatro, das paisagens e das pessoas. Cruzou os caminhos de todos os intelectuais modernos, de Michel Foucault a Jacques Lacan, de Roland Barthes a Derrida. Conferencista brilhante, percorreu o mundo, congregando nas universidades, sobretudo nos Estados Unidos, audiências fascinadas, estupefatas e perplexas. Porém, era um homem só. Ele era a ‘solidão’. Uma solidão tão radical que não se imagina que possa ter deixado ‘herdeiros’ ou ‘discípulos’.

No entanto, seu pensamento não cessará de desvendar nossas sociedades, como esses astros mortos há muito tempo e que ‘continuam produzindo uma ligeira fosforescência em nossos televisores’. É preciso dizer que, paradoxalmente, Baudrillard foi um campeão. Um autor bastante consumido, especialmente a segunda parte da sua obra. A partir de 1990, multiplicou os textos estrondosos.

Depois da primeira guerra do Golfo, em 1991, publicou A Guerra do Golfo não Aconteceu. Pensamos tratar-se de uma ‘farsa’ no estilo ‘surrealista’ ou ‘situacionista’. Mas, ao ler esse folheto, percebemos que Baudrillard é muito sério e uma angústia se apodera de nós. E nos perguntamos, depois dessa análise, se a ‘realidade’ é ‘real’. ‘A guerra do Golfo’, ele diz, ‘sabia-se que ela não existiria. Depois da ‘guerra aberta’, tradicional, da ‘guerra fria’, eis que surge a ‘guerra morta’. Um descongelamento da guerra fria que nos deixa às voltas com o cadáver da guerra e a necessidade de manejar esse cadáver em decomposição que ninguém, nos confins do Golfo, consegue ressuscitar. O que a América, Saddam Hussein e as potências do Golfo disputam é o cadáver da guerra, que entrou numa crise definitiva. É demasiadamente tarde para que ocorra uma terceira ‘guerra tradicional’. Ela já aconteceu, destilada ao longo dos anos da guerra fria. Não haverá outras.’ E explica mais adiante: ‘Essa é uma guerra assexuada, cirúrgica, um war processing em que o inimigo figura apenas como um alvo num computador, da mesma forma que o parceiro sexual aparece somente como um nome codificado na tela do celular. Se, neste caso, pode-se falar de ‘sexo’, então a Guerra do Golfo também pode se passar por uma guerra.’

A partir daí, esse filósofo barroco, que jamais se pretendeu marxista, nem pertenceu à Escola de Frankfurt, que detestava tanto o stalinismo como o trotskismo ou o maoísmo, que ignorou as grandes revoltas de maio de 1968, passou a atacar os Estados Unidos com uma virulência cada vez mais persistente. Chegou a elaborar teorias chocantes. Por exemplo, após os atentados de 11 de setembro de 2001, afirmou que, no fundo, esse acontecimento foi a concretização de desejos não confessados de cada um de nós. Uma teoria escandalosa. Mas vale a pena ler sua demonstração, já que não deixa ninguém incólume: ‘A condenação moral’, escreveu, ‘a união sagrada contra o terrorismo, é proporcional ao imenso júbilo de ver destruída essa superpotência mundial ou, melhor, de vê-la se autodestruir, suicidar-se triunfalmente. Porque foi ela que, pelo seu poder insuportável, fomentou essa violência que se fez penetrar no mundo, essa imaginação terrorista (sem o saber) que habita em todos nós.’

E continua, imperturbável: ‘O fato de termos sonhado com esse acontecimento, de todo o mundo, sem exceção, ter sonhado com isso, porque não se pode deixar de sonhar com a destruição de uma potência que chega a tal nível de hegemonia, é algo inaceitável para a consciência moral ocidental. Contudo, é um fato exatamente proporcional à violência patética de todos os discursos que querem fazê-la desaparecer.’

Na realidade, seus vitupérios contra a Guerra do Golfo ou o 11 de Setembro, além da antipatia primária que nutre pela América, se inserem numa visão ambiciosa do que denominou, juntamente com Derrida ou Jean François Lyotard, a ‘pós-modernidade’. Essa pós-modernidade, Baudrillard a viu marcada pela erosão das grandes interpretações do mundo e do poder crescente de um estilo de vida consumista. Não só tudo aquilo que se refere a ‘transcendente’ desapareceu dos nossos horizontes, mas também a própria definição da realidade objetiva se afugentou, o que é testemunhado pela predominância das representações virtuais do mundo sobre as noções de sentido e verdade.

Para ele, as ideologias se reduzem a sistemas de sinais ou, mais exatamente, ‘simulacros’. Esses simulacros, no mundo capitalista e consumista, circulam infinitamente, até ficarem radicalmente desacreditados. Resultado: somos privados da realidade na sua essência – essa realidade não existe. Nessa proliferação de sinais, simulacros, imagens e clones, a grande vítima é a realidade, cujo desaparecimento foi anunciado por Baudrillard , da mesma maneira que outros filósofos, antes dele, anunciaram também o fim das ideologias, o ‘fim da história’, ou a morte de Deus, ou enfim, como Foucault, ‘a morte do homem’. Nessa seqüência catastrófica, Baudrillard foi mais longe que qualquer um.

Um pensamento de total ceticismo que obscureceu (ou iluminou) os últimos anos do escritor. Esse homem cortês, afável, que tinha muitos amigos, foi um total pessimista. Mesmo que se opusesse a isso, ele se situa entre os ‘niilistas’ modernos, pois pode-se ir mais longe na contemplação do nada do que negar a ‘realidade do real?’ Deve-se lamentar que esse grande espírito, nos últimos anos de sua vida, tenha sucumbido a tais fantasias. Podemos preferir seus primeiros livros, como Le Systeme des Objets (Sistema dos Objetos) e principalmente L’Exchange Symbolique et la Mort (Troca Simbólica e a Morte). No entanto, não há duvida que suas paródias e suas provocações, suas incertezas, seus paradoxos, brilhantemente orquestrados, continuam sendo agulhadas estimulantes que buscamos em vão nos filósofos franceses que o sucederam, de Bernard-Henri Levy a Alain Finkielfraut.

Baudrillard sempre contrapôs, de bom grado, a ‘liberdade de espírito’ ao conforto intelectual de seus contemporâneos. Mesmo que tenha levado essa liberdade até a embriaguez, pelo menos descobrimos, até mesmo nos seus insustentáveis paradoxos, algumas pepitas reluzentes.

Tradução de Terezinha Martino’

***

O Autor no Brasil

‘A VIOLÊNCIA DO MUNDO: Anima Editora, 96 págs., R$ 25

POWER INFERNO: Sulina, 75 págs., R$ 21

ANJO DE ESTUQUE: Sulina,78 págs., R$ 29

TELEMORFOSE: Mauad, 65 págs., R$ 25,90

COOL MEMORIES II, III e IV: Estação Liberdade, 128 págs., R$ 28 (cada volume)

SENHAS: Difel, 84 págs., R$ 23

DE UM FRAGMENTO AO OUTRO: Zouk, 152 págs., R$ 24

O ESPÍRITO DO TERRORISMO: Campo das Letras, 97 págs., R$ 28

A TROCA IMPOSSÍVEL: Nova Fronteira, 154 págs., R$ 26

ILUSÃO VITAL: Civilização Brasileira, 96 págs., R$ 21

O PAROXISTA INDIFERENTE: Pazulin, 142 págs., R$ 30

À SOMBRA DAS MAIORIAS SILENCIOSAS: Brasiliense, 86 págs., R$ 16

TROCA SIMBÓLICA E A MORTE: Loyola, 296 págs., R$ 38

TELA TOTAL: Sulinas, 174 págs., R$ 30

O SISTEMA DOS OBJETOS: Editora, 232 págs., R$ 34

DA SEDUÇÃO: Papirus, 208 págs., R$ 34

A TRANSPARÊNCIA DO MAL: Papirus, 188 págs., R$ 33

AS ESTRATÉGIAS FATAIS: Rocco, 172 págs., R$ 25′

Moacir Amâncio

Nota desafinada em um mundo de aparências e simulação

‘Quando mais uma das estátuas que o ditador iraquiano distribuíra pelo Iraque caiu por terra, um jornalista iluminado fez o seguinte comentário: foi derrubada mais uma estátua de um sósia de Saddam Hussein. O que não resolveu coisa nenhuma: a simulação de onipotência e onipresença do ditador, espelhadas na profusão de sósias que faziam de Hussein um espectro sem profundidade, era substituída por outro tipo de simulação. Serve como ilustração da tese desenvolvida por Jean Baudrillard a respeito da criação do hiper-real, o aqui e o agora dissolvidos em virtualidade.

É um diagnóstico. Não podemos nos esquecer que, como o tempo dos intelectuais ficou para trás, não restaria a ele alternativa, a não ser a provocação constante. Um meio de não se deixar prender pelos ilusionismos do pensamento. Por meio da provocação, ele pretendia fazer com que algo se movesse, que algo desafinasse no mundo das aparências que se tornaram a própria realidade simulada. Até mesmo a captação de suas idéias torna-se um desafio para o leitor, que sempre corre o risco de se perder nos emaranhamentos baudrillardianos. O pensador se movimenta num mundo ficcional, mas em vez de descartá-lo, torna-se necessário avançar em busca dos pontos às vezes fugidios que ele traz à tona, em momentos de fulguração. Onde está o real? Segundo ele, na ‘passagem a um espaço cuja curvatura já não é a do real, nem a da verdade; a era da simulação inicia-se, pois, com uma liquidação de todos os referenciais – pior: com a sua ressurreição artificial nos sistemas de signos, material mais dúctil que o sentido, na medida em que se oferece a todos os sistemas de equivalência, a todas as oposições binárias, a toda álgebra combinatória. Já não se trata de imitação, nem de dobragem, nem mesmo de paródia’.

O que ocorre, segundo Baudrillard, é uma ‘substituição dos signos do real, isto é, de uma operação de dissuasão de todo o processo real pelo seu duplo operatório, máquina sinalética metaestável, programática, impecável, que oferece todos os signos do real e lhes curto-circuita todas as peripécias. O real nunca mais terá oportunidade de se produzir – tal é a função vital do modelo num sistema de morte, ou antes de ressurreição antecipada que não deixa já qualquer hipótese ao próprio acontecimento da morte. Hiper-real, doravante ao abrigo do imaginário, não deixando lugar senão à recorrência orbital dos modelos e à geração simulada das diferenças’. Temos aqui uma torção crítica que permite vislumbrar ou intuir algo além da cortina móvel, da tela ou da projeção a laser num espaço em constante mutação para ocultar seu congelamento.

Por exemplo. Já não se trata de produzir cultura, ou seja, pessoas com capacidade de pensamento crítico. Mas de produzir massas que simulam a produção de cultura em filas imensas formadas ao redor de museus onde são apresentadas obras envolvidas por uma aura de distanciamento que não será desfeita, mas ampliada na medida em que a fila cresce. O que conta é a série, a estatística. Adolescentes exibem diplomas, embora nada tenham aprendido, pois o objetivo não era a transmissão de conhecimento dinâmico, mas a difusão dos diplomas. Antigos valores ficaram irreconhecíveis, são inúteis: quartos de hotel idênticos em todo o mundo não têm a finalidade de criar familiaridade para os viajantes, servem para elidir o fato de que família a familiaridade acabaram. Aqueles jatos tinham idéia do que faziam: acertavam uma grande imagem. O que as explosões propunham, entretanto, não era mais real do que as torres gêmeas.

Moacir Amâncio é autor de Contar a Romã e Óbvio e professor de língua e literatura hebraica da USP’

Ubiratan Brasil

Tratamento seco às torres gêmeas foi muito criticado

‘Em um texto divulgado em 1999 pelo Libération (e também publicado pelo Estado), Jean Baudrillard escreveu, em tom categórico: ‘Depois de triunfar sobre o comunismo, depois de ter neutralizado o Japão graças a uma desestabilização amplamente calculada das praças financeiras da Ásia, a América quer desunir a Europa pregando-lhe uma peça: uma guerra indesejada. Ela vai então em socorro das minorias (na Bósnia, no Kosovo, no Curdistão etc.), para as quais nada tem a fazer e de quem o mundo inteiro deseja secretamente se ver livre. O inimigo público mundial número 1, evidentemente, é o Islã e a frente islâmica, os únicos verdadeiramente refratários à globalização em andamento. Aí está, sem sombra de dúvida, o front da 4ª Guerra Mundial.’

Hoje, o tom soa premonitório, especialmente depois dos atentados terroristas às torres gêmeas e ao Pentágono, em 11 de setembro de 2001. Aliás, pouco depois dos ataques, quando o mundo ainda se encontrava comovido, Baudrillard procurou explicar, no Le Monde, o ‘espírito do terrorismo’. Com uma retórica brilhante, o pensador francês iniciava atacando a consciência ocidental, que tendia a responsabilizar a TV pelo espetáculo repetitivo das imagens das torres gêmeas desmoronando, naquele dia fatídico. O tom agressivo era justificado pelo que seria uma ressentida relação imaginária dos cidadãos ocidentais com a superpotência norte-americana e fantasias de destruição.

A força do terrorismo, de acordo com Baudrillard, em relação ao poder político e militar, está principalmente na capacidade de criar símbolos que se gravam tão fortemente no público-alvo. Ao poder dos mísseis, o terror opõe a ‘arma absoluta’ da morte. É o que se viu nos Estados Unidos, é o que se tornou rotineiro na Palestina. O terrorismo mundial é ‘como a sombra de todo sistema de dominação’, que pode se ‘revelar como um agente duplo’. ‘Não há mais linha de demarcação que permita discerni-lo, ele está no próprio coração dessa cultura que o combate…’

Para ele, não se tratava de um ‘choque de civilizações nem de religiões e isso ultrapassa de longe o Islã e a América, sobre os quais tenta-se focalizar o conflito para dar a ilusão de um enfrentamento visível e de uma solução de força’. Baudrillard julgava importante tal antagonismo, que designa, ‘através do espectro da América (que pode ser o epicentro, mas não de toda a encarnação da globalização nela mesma) e através do espectro do Islã (que não é mais a encarnação do terrorismo), a globalização triunfante’. Eis, portanto, as tintas do quadro que retratava a 4ª guerra mundial.

A secura com que tratou os acontecimentos daquele 11 de setembro, aliás, provocou severas críticas a Baudrillard, cujas reflexões teóricas pareciam demonstrar uma falta de compaixão pelas vítimas. Na verdade, como Noan Chomsky, o pensador francês batia na mesma tecla: os atentados, para ele, foram uma réplica à globalização.

‘Acabou universal; só há o singular contra o mundial.’ A frase, bombástica, revelava o fim do sonho universal da civilização, a alma da razão. Baudrillard viu no ataque às torres gêmeas uma vingança de todas as singularidades contra o poder padronizador do povo americano, que rejeita tudo o que não é espelho. E a imagem dos ataques às torres, incansavelmente repetida, marcou o início de um período histórico sombrio de ‘desconstrução’.

O olhar de Baudrillard sobre a América sempre incomodou. Ciente de que podia desmascarar a essência de uma nação munido apenas com um olhar sem vícios, ele escreveu América (publicado no Brasil pela Rocco, mas com edição esgotada), que dizia ser uma espécie de monografia imaginária. Assim, o leitor embarca em uma verdadeira viagem pelos EUA, onde nada escapa ao seu agudo poder de observação. Em uma linguagem ágil, pontuada por descrições vivas, Baudrillard captura imagens que vão desde o sorriso, a arquitetura, a rua, a solidão, o corpo e a loucura do povo americano. Em outras palavras, as grandes vertentes da cultura norte-americana aparecem analisadas com profundidade e vivacidade.

O ceticismo perturbador de Baudrillard mostrava que a cultura pop hoje pode absorver até mesmo a análise crítica mais profunda. Foi contra isso que ele participou, por exemplo, de um seminário sobre imagem e violência, realizado em São Paulo, em 2000. Tratando diretamente da fotografia, ele considerava essa arte uma atividade paralela. ‘Para mim, fotografar não é tomar o mundo como objeto, mas transformá-lo em objeto’, comentou o filósofo, para quem a fotografia tinha de abrir mão da realidade, pois o mundo, paradoxalmente, não é real. ‘Se a realidade existe, a gente não precisa acreditar nela’, pregava. ‘Pois, se assim fizermos, ela se torna objeto de credo.’’

Andrei Netto

No seu trabalho, há espaço para o underground

‘Tão logo três aviões colidiram contra as torres gêmeas, em Nova York, em 11 de Setembro de 2001, dois dos mais importantes sociólogos do mundo, reunidos no México, se propuseram a analisar os eventos em discussões informais. Michel Maffesoli alegava a Jean Baudrillard que os atentados não guardavam em si a grandeza de sentido aparente. Baudrillard, por outro lado, fascinara-se pelo tema, alvo de um controverso artigo publicado no ano seguinte pelo jornal Le Monde, O Espírito do Terrorismo, no qual evocava a cumplicidade mundial para com os 18 terroristas árabes artífices da tragédia.

A divergência de visões, uma de tantas entre os dois pensadores, porém, não apagou um traço comum a suas teorias: o cotidiano. Jean Baudrillard e Michel Maffesoli simbolizam, ao lado de Edgar Morin, uma ruptura em relação ao pensamento científico clássico, que considera a política, a economia, a cultura os únicos grandes temas da Sociologia. Nas suas obras, há espaço para as demonstrações de não-racionalidade, para o underground, para o alternativo, para o radical. Mas, além de objeto de estudos, o cotidiano foi cenário de uma relação pessoal. Baudrillard e Maffesoli eram amigos. Em entrevista ao Estado, concedida no início da madrugada de sexta-feira, em Paris, Maffesoli analisa, em linhas gerais, a obra de seu contemporâneo.

O legado do filósofo e sociólogo Jean Baudrillard é reconhecido em todo o mundo. Mas em termos pessoais, qual foi a influência do homem Jean Baudrillard, de sua personalidade, sobre sua obra?

Creio que haja uma ligação muito forte entre sua personalidade profunda e seu trabalho. O que ninguém diz é que Baudrillard tinha uma raiz popular. Seu pai era um gendarme (espécie de polícia rural francesa) de origem muito simples. Lembro desse fato porque Baudrillard trazia um vínculo muito presente com a sabedoria, o conhecimento popular. Todos lhe atribuem uma imagem pública melancólica, desconstrutivista, mas quando conversávamos Baudrillard revelava um sorriso de criança, o que não se expressa nas suas fotos publicadas pela mídia. Essa característica remete ao segundo aspecto de sua vida que destaco: era uma pessoa de grande gentileza humana. Por fim, Baudrillard primava pela enorme liberdade de pensamento. A França sofre de um grande conformismo do pensamento. O mundo intelectual é muito tedioso. Todos devem sempre pensar direito. E sua liberdade de espírito vem, creio eu, de seu enraizamento e de sua gentileza inatas.

O Sistema dos Objetos (1968) e A Sociedade do Consumo (1970) são suas duas primeiras e até hoje suas mais conhecidas obras. O que ficará de mais importante dentre eles?

Não penso que restarão dados muito importantes do Sistema dos Objetos e da Sociedade do Consumo. São livros muito acadêmicos, que compõem uma primeira fase de sua obra. Para esclarecer: toda a obra de Baudrillard é muito importante. Mas se a pergunta é o que ficará de mais importante, eu não diria que são seus primeiros livros, que se inscrevem em uma sociologia tradicional demais, sobre consumo, objetos.

O que é mais memorável em sua obra?

A partir da Por uma Crítica da Economia Política dos Signos (1972) e Da Sedução (1979) há uma clivagem em operação que eu considero soberba. É algo alternativo, onde o pensamento é radical. Baudrillard deixa a perspectiva frankfurtiana, hegeliano-marxista, e se torna radical. O que quer dizer ‘ser radical’? Ir à raiz. Nesse momento eu o considero incrível. Há uma obra importante que marca a virada, chamada O Espelho da Produção (1973). É o verdadeiro livro que prefigura e antecipa o que virá, em termos de críticas do marxismo, crítica do hegelianismo, crítica da crítica. É então que surge a marca da radicalidade na sua obra.

Em um de seus livros seguintes, Simulacros e Simulação (1981), surge o conceito de hiper-realidade, sempre muito comparado ao de ‘Espetáculo’, de Guy Debord. O senhor considera esse conceito algo perene?

Prefiro evitar a análise dos conceitos de Baudrillard. Prefiro seguir refletindo sobre sua liberdade de pensamento, sua liberdade de espírito. Não estou certo que a ‘hiper-realidade’ vá seguir importante. E, quando digo que não estou certo de que seja importante, quero na verdade dizer que estou certo de que não o é. É meu sentimento.

Baudrillard morreu como um pensador marginal, sempre muito criticado por parte do meio intelectual. Por quê?

Uma grande parcela da intelligentsia considera que o que importa são apenas os eventos políticos, econômicos, culturais. Toda análise que não se enquadra neste pensamento é sempre alvo desses críticos. Cabe lembrar que Baudrillard não morreu como professor na universidade, mas apenas como ‘mestre de conferências’, algo de fato menos valorizado, para quem está em fim de carreira. Este é um dado importante de sua biografia e está relacionado à sua avaliação dos acontecimentos cotidianos, e não daquilo que seus críticos consideravam o mais relevante.’

Juremir Machado da Silva

‘Ele nos marcou com seu estilo original e cáustico’

‘Em depoimento ao Estado, professor Juremir Machado da Silva fala da relação do autor com o Brasil

A morte de Baudrillard faz com que inúmeros intelectuais brasileiros sintam-se de luto. Nós todos que fomos amigos dele sabemos que ele teve uma influência enorme sobre sociólogos, filósofos e estudiosos da comunicação e da mídia. Ainda em fevereiro, conversei com ele em Paris e comentamos a sua relação indissolúvel com o Brasil. Baudrillard nos marcou com o seu estilo original e cáustico, baseado na ironia e nos paradoxos, e com a força devastadora das suas idéias sempre na contramão dos clichês de bom tom e sempre capazes de inverter o sentido trivial das coisas para sugerir possibilidades radicais de entendimento. Ajudou-nos a sair da crítica maniqueísta da mídia para chegar a uma compreensão aquém e além da manipulação.

Soube unir estilo e originalidade de idéias. Homens de fórmulas precisas e de frases perfeitas, investiu na forma como uma maneira de provocar choques na percepção dos leitores de maneira a romper o conformismo dos sentidos e a banalidade moralista da crítica política. Baudrillard sempre defendeu um pensamento radical e desmontou boa parte das ilusões de uma filosofia da verdade. Embora nunca tenha se reclamado da pós-modernidade, foi um feroz desconstrutor das mitologias modernas. Power Inferno é o que de melhor se escreveu depois do 11 de setembro. Baudrillard escancarou as portas da hiper-realidade em que nos encontramos por obra dos simulacros e das simulações que proliferam como metástases matando o social por excesso, proliferação, disseminação.

Juremir Machado da Silva é coordenador do programa de pós-graduação em Comunicação da PUC (RS)’



MEMÓRIA / ARLEY PEREIRA
Folha de S. Paulo

Aos 72 anos, morre o jornalista Arley Pereira

‘Depois de passar mais de 20 dias internado no Instituto do Coração do Hospital da Clínicas, em São Paulo, morreu na tarde de sexta, vítima de insuficiência cardíaca, o jornalista e radialista Arley Pereira Gomes de Oliveira, de 72 anos. Atuando na imprensa desde 1959, Arley se popularizou ao participar como jurado, nos anos 60 e 70, do programa de Flávio Cavalcanti.’



SAÚDE & MÍDIA
Aureliano Biancarelli

A ordem é avançar. Ou avançar

‘Nem as feministas mais renitentes teriam imaginado que figurões da República viessem a público com gestos e palavras dignos das passeatas de outrora. Foi o que se viu. Na última quarta-feira, o governador de São Paulo, José Serra, colocou na ordem do dia um tema-tabu para a Igreja católica, mas vital para milhões de brasileiros: planejamento familiar. Trocando em miúdos, promete ampliar o acesso dos paulistas aos diferentes métodos contraceptivos, por meio da rede de saúde pública. Já no Rio, o presidente Lula se esmerou. Defendeu o uso da camisinha com garra incendiária. Chamou de ‘hipocrisia’ a falta de um debate aberto sobre como evitar a gravidez precoce e a expansão da Aids. ‘Deixamos de debater por puro preconceito, porque minha mãe não gosta, meu pai não gosta, a Igreja não gosta…’. A Conferência Nacional dos Bispos (CNBB) limitou-se a dizer que não comentaria as palavras do chefe da Nação.

Pergunta-se: o que aconteceu? Euforia pelo Dia Internacional da Mulher? Nossos políticos, que sempre evitam temas como aborto e contracepção nas campanhas eleitorais, teriam tomado pílulas de ousadia? Para Margareth Arilha, diretora do Prosare, programa de bolsas de pesquisa em sexualidade e saúde reprodutiva, os políticos podem até passar essa impressão. Mas o fato é que a sociedade brasileira os empurra. Afinal, como rejeitar a idéia de uma fertilidade mais livre, mais controlada e mais bem assistida?

Margareth Arilha passou cinco anos no México trabalhando para o Fundo das Nações Unidas para Assuntos de População, tem uma visão clara sobre o que transcorre na América Latina no campo reprodutivo e hoje é capaz de repassar as duras conquistas brasileiras. Relembra um País dividido, onde as políticas controlistas do passado, responsáveis por quedas acentuadas da fecundidade, chocam-se com a (superada) crença popular de que ‘filho quem dá é Deus’ e a (ainda insuperável) visão natalista da Igreja. Por isso, adverte: se hoje governantes mostram-se dispostos a destruir essa contradição histórica, nem por isso o entrechoque de visões desaparecerá. Quais seriam os próximos passos para destruir a ‘hipocrisia’ de que fala o presidente? Margareth aponta alguns: repensar as políticas de saúde reprodutiva tendo em vista a profunda desigualdade brasileira e preparar-se para a maré de conservadorismo religioso que se agiganta no mundo. Abaixo, trechos da entrevista que Margareth concedeu ao Aliás.

O Parlamento português acaba de aprovar a descriminalização do aborto para gestações de até dez semanas. E o Brasil, para onde vai?

Não é legalização generalizada, mas é um avanço importante para um país católico como Portugal. Ao se alinhar com boa parte dos países da União Européia, Portugal reforça a idéia de que a criminalização do aborto não é compatível com um país moderno. No Brasil, acho difícil uma mudança nos próximos anos considerando o Congresso conservador que temos. Quando se fala em aborto, eu diria, como o presidente Lula, que se trata de uma resistência hipócrita. O aborto, no Brasil, é a terceira causa de mortalidade materna, a quinta causa de internação na rede pública, e não se fala nisso. O País, no mínimo, deveria continuar investindo nos serviços de aborto legal e em programas de atenção pós-aborto.

Pelos seus números, a taxa de fertilidade total para mulheres de 15 a 49 anos caiu de 4,4 nos anos 1980 para uma média de 2,7 nos 90 e 2,4 em 2000. Hoje, a estimativa é de 2,1 filhos por mulheres. O Brasil ainda é o terceiro país no mundo que mais faz laqueadura, e no Nordeste metade das mulheres com relação estável ‘amarraram as trompas’. A esterilização explicaria essa queda tão rápida na fecundidade?

Explica, por ser um método radical, geralmente irreversível, e única opção para um grande número de mulheres na década de 60. O governo não tinha programas e adotava uma política de livre abertura para instituições estrangeiras que defendiam a aplicação desse método, além da distribuição de pílulas. Era uma prática que durou até o início dos anos 1980, mas é muito difícil fazer mudanças entre as gerações. E nem sempre há serviço de saúde oferecendo de maneira sistemática e continuada um leque de contraceptivos para que a mulher possa escolher. Também a televisão, com suas novelas, é apontada por estudos como um dos fatores responsáveis pela queda da natalidade. A vasectomia é feita por menos de 3% dos homens, por uma questão de gênero. Historicamente, a contracepção sempre foi responsabilidade da mulher. Logo, a resolução desse problema também caberia a ela.

O fato de o presidente Lula classificar de ‘hipocrisia’ as reações da igreja com relação ao uso do preservativo seria uma ameaça às boas relações entre as duas partes?

O Estado, e não só o presidente, obviamente não criará caso com a Igreja Católica ou outra igreja, nem com qualquer força política. Isso não interessa a ninguém. O governo deve continuar fazendo sua parte, defendendo com firmeza os direitos dos cidadãos estabelecidos na Constituição, e o direito à saúde é um deles. E defender o estado laico. O governo deve fazer a sua parte e a igreja, a sua. O governo tem um compromisso com o movimento de mulheres, mas em alguns momentos ele já foi ameaçado. Por exemplo, quando no primeiro mandato de Lula se ameaçou terminar com as secretarias da igualdade racial e a das mulheres. Agora, o presidente foi duro com a Igreja. Sinto que estamos numa corda bamba, mas tudo indica que a tendência é a nosso favor.

Pelo menos nos temas ligados à saúde reprodutiva e sexual, aos direitos da mulher, têm havido um entendimento entre os governos da União e do Estado, no caso, o de São Paulo. As mulheres são responsáveis por essa aproximação?

Acho que sim. Primeiro, porque no plano nacional e estadual nós temos equipes técnicas extremamente capacitadas e que foram historicamente comprometidas com a implementação de ações no campo da saúde sexual e reprodutiva. São mulheres feministas, que hoje vêm ocupando esses espaços. Há todo um escalão técnico nesses governos que está favorecendo as definições políticas. Por outro lado, o movimento de mulheres, de fora do governo, conseguiu sustentar essa agenda por 25 anos. O que é preciso agora, dentro e fora do governo, é ampliar as reflexões, repensar as desigualdades, tratar de temas como a pobreza e o crescimento da morte de mulheres por causas violentas.

O que se esperava que o governo fizesse no primeiro mandato e não foi feito, e o que se espera que consolide até o final desse segundo?

No campo da contracepção, precisa tomar em consideração as desigualdades, oferecendo aos desiguais recursos diferenciados. O governo precisa assinalar que vai atender as populações em maior vulnerabilidade de exclusão social. Também há uma dívida com relação à educação sexual, que não vem sendo tratada com a seriedade que precisa. Está havendo um vazio preocupante. Algumas pesquisas recentes que fizemos por meio do Prosare mostram que, no caso do município de São Paulo, mesmo tendo sido prefeita a Marta Suplicy, sexóloga e autora de livros sobre o tema, há uma falência da atuação do Estado nessa área. O que se vê é a existência de programas e projetos descontínuos, desencontrados, muitas vezes dois ou três na mesma escola, outras não têm nada. É preciso que o governo estabeleça orçamentos e defina metas claras. Pois é na falta de uma educação sexual que crescem as desigualdades, com os jovens de menor escolaridade tendo mais filhos, em momento inoportuno.

O que fazer para que os mais pobres e mais jovens não sejam os maiores geradores de filhos?

Nós chegamos num momento em que, para se ter um impacto na redução das taxas de fecundidade das adolescentes, será preciso trabalhar com um nível muito maior de informação, educação e oferecer oportunidades de desenvolvimento que não sejam aquelas associadas à idéia de que ‘eu vou ter uma família’. Porque uma das razões que levam as adolescentes a ter um filho é o desejo, é a possibilidade de realizar algum projeto – o projeto de me transformar num adulto, ou o projeto de uma família, mesmo que depois a família seja meu filho e eu. É a falta de oportunidade para a população jovem que está determinando o crescimento dos índices das taxas de fecundidade entre as adolescentes. A gente diz que é uma gravidez inoportuna, não indesejada nem precoce, porque no fundo você não pode dizer que é totalmente indesejada por essa adolescente. E você vem observando isso também entre os homens jovens. Desconheço isso no Brasil, mas em quase todos os países da América Central os ‘maras’, que são grupos de jovens violentos, têm filhos muito cedo porque sabem que correm grande risco de morte. Então querem ser pais antes de morrer, como uma forma de garantir a sobrevivência da espécie. No caso das meninas, ter um filho significará um status, um lugar para ficar, mesmo que seja um canto. Elas se sentem correndo um risco de morte na sociedade. O filho vem reduzir esse risco.

Você já escreveu que só o acesso à contracepção não garante a percepção dos direitos que as mulher têm.

Esse foi um processo de amadurecimento na própria concepção do que são os direitos reprodutivos. O que começou no Brasil na década de1980 como direito à contraconcepção foi sendo ampliado para um conceito de direitos reprodutivos. Ou seja, o direito à amamentação, ao pré-natal, ao aborto legal, à esterilização, o direito de dar a vida e não morrer no parto, são todos eventos da vida reprodutiva de uma pessoa.

Os números sobre sexualidade são ainda de 1996, da última Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde, a PNDS. Não há nada mais recente?

Temos um vazio de onze anos. Agora está sendo realizada uma outra PNDS, um projeto do Ministério da Saúde realizado pelo Cebrap, com Elza Berquó e outros profissionais . Será a PNDS 2007, que já está em campo.Vamos ter esses números no ano que vem.

Enquanto o presidente defende o preservativo e o governo de São Paulo amplia os programas de prevenção à gravidez, o Brasil recebe o presidente Bush e se prepara para a visita do papa. Que cenário é esse para o movimento de mulheres?

Nada animador. Acho que as trincheiras globais estão ficando mais apertadas quando se fala em direito das mulheres. O mundo vem sofrendo da pressão e influência de vários fundamentalismos, a crença de que a minha posição, a minha visão, ela é a correta. O fundamentalismo religioso vem sempre montado num conservadorismo. Quando se vê esse conjunto, as ações do governo americano, a entrada em cena dos países do Oriente Médio – com a presença do islamismo como uma força de controle sobre mulheres -, percebe-se que há um cerco em em torno das conquistas das mulheres. Por outro lado, temos as atuações dos governos. Na América Latina hoje já há tonalidades diferentes, como no Chile mesmo no México, mas no conjunto estamos assistindo a uma redução do Estado como promotor das políticas sociais, associada a um aumento do conservadorismo e a um arrocho no mercado de trabalho.

Mas você vê com otimismo as conquistas e os movimentos de mulheres no Brasil.

Quando digo que as trincheiras estão se apertando, quero lembrar as forças conservadoras americanas, o Vaticano, esse pontificado do Bento XVI que vai ser mais conservador que o de João Paulo II. Ratzinger é um estudioso, mais habilidoso, com uma história bem mais conservadora. Não bastasse o papa, você ainda tem um cardeal brasileiro (d. Claudio Hummes) instalado lá, que está querendo mostrar serviço para o Vaticano. Mas nos próximos anos, a curto e médio prazo, o cenário me parece otimista e possível, porque o Brasil já tem algumas estruturas sólidas, o SUS é um sistema hoje irreversível. Já existe uma cultura em transformação, favorável em relação à contracepção e a essa visão da saúde da mulher. Há uma ação do movimento de mulheres que persiste. Vale lembrar a importância que tiveram as conferências mundiais de População e Desenvolvimento do Cairo, em 1994, e a da Mulher, do ano seguinte. Tudo mudou muito nas duas últimas décadas. Quando era menina, meu pai, que era farmacêutico, vendia preservativo como algo que devia ser escondido. Hoje todo menino sabe o que é e como se usa.

E a posição da Igreja Católica nessas questões, há sinais de mudanças?

A Igreja sempre dificultou a existência de políticas públicas de saúde integral para a mulher. Há também o crescimento expressivo das igrejas evangélicas no país. Estamos preocupados em saber o quanto esse crescimento da presença religiosa na vida das pessoas pode interferir no campo da sexualidade e das decisões reprodutivas. Até agora, o que parece é que não existe no campo da ação, do comportamento, uma influência direta. Eu vou à igreja, ouço o discurso do padre que é contra a preservativo, mas isso não altera minha opinião. No entanto, as igrejas existem como forças políticas presentes no Congresso, e como tal podem interferir na definição das políticas públicas. Há cidades do interior de São Paulo onde a Câmara de Vereadores criou lei impedindo a distribuição da contracepção de emergência no serviço público. E algumas Santas Casas e hospitais ligados a instituições religiosas estão dificultando a realização de laqueaduras.’



TELEVISÃO
Bruna Fioreti e Etienne Jacintho

Televisão à moda da casa

‘Escondidos em horários periféricos na TV aberta, programas exóticos, digamos, ganham telespectadores menos exigentes – ou insones e sem TV paga. Com baixo custo de produção, algumas atrações até aparecem nos índices de audiência, ainda que timidamente. Ao zapear canais como RedeTV!, Gazeta, Record e Band, o telespectador dá de cara com as maiores bizarrices. São game shows, programas de auditório e até divulgação de bate-papo por telefone, dignos de propaganda da Polishop. Produção barata e diversão garantida! É rir para não chorar.

Os programas religiosos não ficam fora do circuito ‘alternativo’. As reconstituições de situações como ciúmes, traições, entre outras, são feitas de modo caseiro e, muitas vezes, exibem cenas que poderiam estar nas extintas pegadinhas de João Kleber. Isso sem mencionar as ‘sessões de descarrego’.

Nem todas essas produções trash têm investimento irrisório: o braço brasileiro da produtora Cellcast, quase uma multinacional do gênero, paga R$ 1,5 milhão por mês em espaço de TV para exibir 10 atrações, 6 delas como inserções em programas de emissoras abertas. No mesmo formato de seus programas no exterior, bem ‘interativos’, a empresa usa a fórmula ligações + publicidade para manter seus programas Quanto Paga, Intrusos e Happy Station, na TV Gazeta, e Insomnia, na Rede TV!.

Um dos produtores da Cellcast, Denis Lacerda ensina um jeito fácil de identificar as atrações feitas pela empresa: ‘Sempre que tiver 01441840 e alguma coisa, é nosso’.

‘O que é o Big Brother?’, defende-se Percival Palesel, diretor de conteúdo da Cellcast. ‘Todo mundo faz isso, mas quando é uma produtora pequena, as pessoas intitulam de caça-níquel e trash. É como acontece com os filmes de Zé do Caixão. Quando é dele, é trash; quando é do exterior, é bom, hollywwodiano’, completa.

O formato de ‘call tv’ rende dividendos à Cellcast em vários países e acaba valendo o investimento. Aqui, foram R$ 700 mil gastos em equipamentos, aproveitados para vários trabalhos. ‘Posso afirmar que hoje estamos num ponto de equilíbrio’, desconversa Palesel. Em novembro, a empresa divulgou que calculava um faturamento de R$ 12 milhões em 12 meses.

Menos óbvios quanto ao objetivo de lucrar, programas evangélicos vendem soluções para todos os problemas. Do Fala que eu te escuto, exibido na Rede Record, ao repetitivo Saindo no Vermelho, na Rede Família, vende-se a idéia de que Deus cura, melhora a vida financeira e pessoal, mas com algumas condições – como comparecer à Vigília dos 318 pastores, às segundas, na Record.

O interesse das emissoras em programas terceirizados depende da capacidade de produção própria. ‘Do ano passado para cá, reduzimos em 70% o espaço para isso e aumentamos em 30% o custo do horário’, fala o vice-presidente da RedeTV!, Marcelo Carvalho. Para a emissora, é mais vantajoso vender intervalos próprios do que a hora cheia a alguém.

‘E quase todo mundo chega com a conversa de que já tem patrocinador’, conta Carvalho. Para selecionar os inúmeros projetos que lhe chegam todos os dias, a diretora de programação da RedeTV!, Mônica Pimentel, pede sempre que a proposta lhe seja enviada por e-mail. ‘Isso já filtra muito o que pode valer a pena: a maioria nem sabe roteirizar um programa’, fala.

Insomnia

É nas madrugadas da RedeTV! que vai ao ar um dos produtos da Cellcast. De bermuda e tênis, pouco a pouco vai chegando a equipe de 20 pessoas do Insomnia à sede da empresa Cellcast no Brasil, no Brooklin. Já passa das 23 horas e a transmissão se dá ao vivo, à 1h30. Há tempo para maquiagem e conversa com a produção. Sim, os cinco apresentadores de Insomnia são orientados o tempo todo, como revelam os olhares para o canto da câmera para ler recadinhos.

Nada que torne a gravação um compromisso inadiável. ‘Como são cinco, podemos nos revezar uma vez por semana’, conta uma das apresentadoras, Carolina Vaz. Tanto que a maior ‘estrela’ da atração, a ex-apresentadora de programa infantil Jackeline Petkovic, tem lá suas regalias. Na segunda-feira, falta porque é festa de uma revista para a qual pousou. No dia seguinte, quando visitamos o programa, não comparece de novo. Alguém alega que ela estaria com infecção urinária.

Compreensível: ‘O clima aqui é assim, de improviso’, conta Aparecido Silva da Cunha, o Cidão, uma espécie de faz-tudo da programa (ele também ‘interpreta’ o Pintinho Amarelinho do Gugu, no Pânico na TV!).

Ninguém ali encara a atração como trash. As falas atropeladas, a chuva de papéis picados no início e o personagem de Cidão brincando com um telefone dão o clima ‘descontraído’. O diretor do Insomnia, o argentino Pablo Nieto, prefere a denominação ‘para entreter toda a família’. Ele comandava programas semelhantes na Cellcast argentina e veio para dirigir Insomnia e Intrusos. ‘O que é trash? Pode existir, mas eu nunca vi nenhum programa que seja trash.’

Rechaçar esse rótulo é consenso entre os apresentadores. Cid Barros, o Bola, não se envergonha de dizer que é um sonho realizado estar na equipe de Insomnia. ‘Eu me inspiro no Faustão e estou feliz de apresentar. É o que eu gosto de fazer.’ Ele e os colegas Maurício Mendes e Gabriela Serafim mantêm o bom humor frente às críticas. Riem de tudo. ‘É um clima delicioso, eu adoro fazer parte disso’, conta, empolgada, Gabriela, ex-Fantasia, do SBT.

Os produtores indicam pelo ponto eletrônico quando é hora de dar pito no telespectador: ‘Gente, o relógio está parado. Eu tenho aqui R$ 3 mil em barras de ouro. Não liga por quê? O jogo está na sua tela. É só discar.’ Se cola ou não, não importa. ‘Tem os momentos de venda animada e a hora de falar sério’, diz Mendes.

Das cerca de 500 mil ligações recebidas por mês, restam poucos acertos. ‘Nós premiamos uma média de R$ 90 mil a R$ 100 mil por mês’, diz o diretor Palesel. Pouco, diante de tanta insistência durante o programa para que as pessoas respondam aos games. ‘Nós não temos controle sobre os erros e acertos, não é?’, diz Palesel.

O empresário recorda de um caso em que a pergunta era ‘como são chamados os dirigentes de futebol – cartolas, bonés ou chapéus?’. Valendo uma motocicleta. Responderam: ‘boné’. E assim a empresa Cellcast, responsável por este e mais três programas do gênero, acumula receita.

O segredo para se manter é unir custo das ligações telefônicas a verba de patrocinadores. ‘A receita vem 50% de cada um’, garante Palesel. Além disso, a tecnologia do Insomnia é aproveitada nas outras produções – o uso do croma key, a equipe…

Mesmo com a audiência na faixa de 0,5 ou 0,6 ponto no Ibope, o formato, para muitos um caça-níquel declarado, rende até fama. ‘Sou conhecida nos lugares, tem comunidades no Orkut que nos amam’, conta Gabriela.

E comunidades que nos odeiam, pondera outro apresentador, Mendes. ‘Mas até esses ficam acordados para nos ver.’ Haja insônia!’

***

Ele abre a carteira e paga seus programas

‘No primeiro contato telefônico, Nerivan Silva avisa: ‘Pode falar mal, mas fale de mim porque dá publicidade.’ Você pode não conhecer o moço, mas cerca de 217 mil pessoas em São Paulo acompanham suas atrações no fim de semana. Ele comanda o Programa Nerivan Silva, na Gazeta – sábados, às 16 horas – e na Rede TV! – domingos, ao meio-dia. Ambos costumam dar média de 3 pontos no ibope e chegam a atingir picos de mais de 4. ‘Sou o levantador de defuntos. Começo o programa no traço (zero em audiência) e dou uma levantada’, diz. Celebridade no Nordeste, Nerivan nasceu em Bezerros, cidade próxima a Caruaru e um dos points do carnaval pernambucano. ‘Nem é bom voltar para lá porque os parentes acham que sou rico e vêm pedir dinheiro.’

E dinheiro é questão importante no trabalho de Nerivan Silva. Ele não tem verba para fazer um programa, digamos, blockbuster e apela para sua própria carteira. Na mesa do restaurante em que o apresentador almoçava na última segunda-feira, dia de gravação, um produtor pegou R$ 100 do bolso do apresentador para comprar uma ‘mesa bonita dessas de acrílico’ para o cenário da atração. Peça-chave, a mesa serviria de apoio para o Redufim, da Ultrafarma, que paga os horários que Nerivan compra nas duas redes.

O programa é gravado numa antiga casa noturna na Rua Rui Barbosa, região central de São Paulo. O aluguel do imóvel também sai do bolso de Nerivan. ‘Faço shows e apresentações em casas de forró e aproveito para divulgar o programa’, conta o faz-tudo. ‘A gente se vira e consegue mais ibope do que muito programa de produção rica.’

O cenário também foi pago por ele, ‘em muitas prestações.’ E as roupas das dançarinas, as ‘amiguinhas do forró’, também. Aliás, é ele quem escolhe o figurino de suas seis assistentes, que costumavam usar um collant preto ornado com estrelas prateadas. ‘Ah, mas essa roupa que você está vendo é nova. É vermelha!’, comemora Nerivan. ‘Acabou a parcela daquela preta e agora vamos começar a pagar a vermelha. E quando terminar, mando fazer outro modelo.’

As ‘amiguinhas’ dançam suas próprias coreografias. ‘Temos umas 20’, conta Rosemeire Kuyama, a bailarina de 19 anos. Cansada de tanto sacolejar, a moça afirma que fazem as 20 coreografias várias vezes por dia de programa. ‘A gente paga só um cachezinho para elas’, explica Nerivan. ‘Mas elas fariam até de graça porque é televisão.’ E a dançarina Edna Castro, de 25 anos, confirma o sucesso: ‘Fui para a Bahia e as pessoas me reconheceram. Achei maravilhoso!’

Animação e suor

O cansaço bate nas bailarinas e na equipe do Estado, que foi conferir a gravação do Programa Nerivan Silva. Uma maratona de horas, em um calor de mais de 40ºC. Imagine o cenário: uma abafada casa noturna, repleta de refletores no teto, sem ar-condicionado e com um vaivém de pessoas que querem conferir as atrações musicais – que esta repórter confessa, ignorava completamente. E não é preconceito. É ignorância mesmo em relação a esse movimento do forró na cidade.

O estúdio mantém as portas abertas e, além das pessoas que participam da filmagem por meio de caravanas, a população pode entrar sem maiores problemas. É um entra e sai de gente que pára, dá uma olhada, arrisca uns passos e vai embora – o calor é insuportável. Haja suor! Nesse ambiente, o apresentador grava os merchandisings. ‘Já vamos gravar também os da Rede TV!?’, pergunta a garota-propaganda. Sim, Nerivan e sua equipe filmam os dois programas ao mesmo tempo. O formato de ambos é igual.

Nerivan é gente simples, mas tem um ‘quê’ de celebridade. Antes, ele comprava as roupas que desfila no programa. Agora, recebe as calças e camisas de uma grife. ‘É divulgação, né?’, fala o ex-vendedor de tomates e legumes, que já foi balconista de padaria, frentista e, finalmente, radialista, profissão que abriu as portas para a aparição na TV. As roupas ficam para ele. Mesmo assim, Nerivan tem os pés no chão e sabe que a guerra na TV é forte. ‘Eu sabia que o Amado Batista não iria render mais de 3 pontos e a Rede TV! achava que daria 4 ou 5 pontos. A gente tem que ser realista.’ E o que a reportagem viu foi um show de realidade.’

Luiz Carlos Merten

Inferno Tropical

‘Quarta-feira, em Paraíso Tropical, Camila Pitanga e Chico Diaz protagonizam uma das cenas de sexo mais fortes da história recente da novela brasileira. Não uma farsa, como as cenas de Cláudia Raia e Reynaldo Gianecchini em Belíssima, nem os strip-teases apelativos de Páginas da Vida. Camila e Chico Diaz rolam na cama e passam para o espectador uma amostra daquilo que homens e mulheres fazem com tanto gosto. Na seqüência, Tony Ramos, no papel de empresário durão, tem um piti e ofende até a décima geração de seu funcionário atônito (mas, no fundo, já acostumado à grosseria e autoritarismo do chefe). Gilberto Braga não tem brincado em serviço. Pode-se acusar Paraíso Tropical de tudo, menos de nhenhenhém.

Vale repetir o que já foi dito no Caderno 2 de quarta-feira – Paraíso Tropical começou em alto estilo. Foi o melhor começo entre os das últimas novelas da Globo, mas a audiência não correspondeu. Os especialistas dizem que, quando uma novela acaba mal, a seguinte também começa mal, pelo menos até que se estabilize e volte a chamar público. Comparada às últimas cinco novelas das 8, Páginas da Vida teve a pior audiência – 53 pontos. Na segunda, Paraíso Tropical começou com um número ainda mais baixo, 41 pontos. Na terça, perdeu público, 39 pontos.

É até interessante especular sobre o que tem motivado esse desempenho. Na segunda, o capítulo teve quase duas horas e o primeiro intervalo para comercial só surgiu depois de mais de meia hora de trama. Na seqüência, havia o Big Brother Brasil, que tem tido grande audiência (e era a véspera do paredão, quando Alemão e Flávia foram para a forca). Leila Reis, titular desta coluna, arrisca uma interpretação. Diz que a trilha bossa-novista de Páginas da Vida prosseguiu com Paraíso Tropical , pelo menos no imaginário do telespectador. Pode também ter sido a sofisticação da linguagem muito cinematográfica do primeiro capítulo, ou então a elefantíase de sexo que tem permeado este começo de Paraíso Tropical. No próprio primeiro capítulo, houve aquele protesto na porta do hotel, cuja publicidade estaria estimulando o turismo sexual.

O assunto mexe com o público, que curte a safadeza do BBB, mas pelo visto ainda não se ligou na de Paraíso Tropical. Mas o sexo tem sido só uma ferramenta de Gilberto Braga. O confronto dos personagens de Fábio Assunção e Wagner Moura tem sido bem tratado. Ambos se refletem no personagem de Tony Ramos, o empresário que passa como um trator sobre tudo e todos, preocupado somente com os números favoráveis de seu hotel. Na vida privada, é um canalha. Na pública, zela por sua imagem como a de seu empreendimento. Fábio Assunção não quer ser como ele. Wagner Moura quer ser mais do que ele. Mais poder, mais dinheiro. É um lobo em pele de cordeiro.

Sem o humor chancho de Silvio de Abreu nem o didatismo de sentimentos de Manoel Carlos, Gilberto Braga está construindo outra coisa. Ele tem tido seus revezes e o maior talvez tenha sido o de O Dono do Mundo. Vários temas que ele teve de atenuar naquela novela estão de volta. O sexo e o dinheiro, como afrodisíacos do poder, têm dado as cartas. Tony Ramos tem sido o grande destaque de Paraíso Tropical. Após o Nikos xaroposo de Belíssima, que merecia ter ficado sozinho – ou você acredita que a personagem de Glória Pires possa ser feliz com aquele chato? -, ele muda o registro e compõe não propriamente o vilão, posto de Wagner Moura, com suas pequenas maquinações, mas um homem que se acostumou tanto a maltratar as pessoas que nem percebe mais quando está exagerando.’

******************

Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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