Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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O Estado de S. Paulo

29/01/2008 na edição 470

MÍDIA & POLÍTICA
O Estado de S. Paulo

As promessas não decolaram

‘A imprensa, naturalmente, não pode ignorar o que diz uma autoridade, muito menos quando ela foi alçada a uma posição estratégica no governo com a missão de debelar uma crise criada pela incompetência dos seus antecessores. Mas, em atenção ao público, ao divulgar, por dever elementar de ofício, as promessas proclamadas pelo novo homem forte de determinado setor, os jornais talvez devessem agregar-lhes uma advertência como a que os produtores de bebidas alcoólicas são obrigados a incluir na sua propaganda – ‘beba com moderação’. Algo no gênero ‘não acredite em tudo, para não se iludir nem ficar com a sensação de que foi feito de bobo’. A ressalva se aplicaria a uma pletora de políticos que adoram a própria imagem e o som da própria voz, sobretudo quando vêem uma câmara de TV e se põem a discorrer como experts sobre o que mal conhecem pela rama, pouco se lhes dando se o prometido tem alguma chance de ser cumprido.

Há algum tempo não se via uma situação e uma figura pública em relação às quais a advertência se revelasse tão necessária como no caso do ministro da Defesa, Nelson Jobim. Há seis meses, em seguida à tragédia do Airbus da TAM, em Congonhas, ele foi chamado em desespero de causa pelo presidente Lula para enfrentar o apagão aéreo claramente fora de controle. Em tom bombástico, o ex-presidente do STF, e acima de tudo um político que não tira da cabeça a ambição de escalar o aclive do Planalto, cometeu, já no dia da posse, uma deselegância com o inerte antecessor Waldir Pires, que não se demitia e Lula evitava demitir. Anunciou que o seu mote era ‘aja ou saia’, justificando sem sutilezas a demissão. A partir de então, não parou de falar, apresentando uma sucessão de projetos – um pacote, apesar da ojeriza de Lula – que, a julgar pela ênfase e a segurança com que os lançava, libertariam os usuários do transporte aéreo de todos os seus tormentos, da insegurança de voar à incerteza de fazê-lo com pontualidade.

Depois de anunciar todo o pacote, Jobim saiu de cena durante algum tempo, voltando, agora, a falar para dizer que o pacote não era para valer.

O Aeroporto de Congonhas, para começar, que não seria mais aquele desvirtuado centro de distribuição de vôos (hub) que infernizava a vida dos passageiros, mas fazia a festa do duopólio TAM-Gol, e que ‘não é e não voltará a ser, em hipótese alguma, ponto de distribuição’, a partir de 16 de março voltará a sê-lo. Mas o ministro tem uma explicação para o recuo: ‘Não é que tenhamos errado’, sofisma. ‘É que reassumimos o controle.’ A verificar. Mas o fato é que ele demorou meses para descobrir que, se era fácil determinar a transferência de aviões para aeroportos pouco utilizados em Belo Horizonte ou no Rio de Janeiro, era impossível mudar as condições econômicas que fazem de São Paulo o maior centro gerador de tráfego aéreo do País.

Jobim também deu o dito pelo não dito em relação à hipotética terceira pista de Cumbica, mais uma vez descobrindo tardiamente as restrições mencionadas de saída pelos conhecedores do problema, principalmente a ocupação irregular do entorno do aeroporto. O terceiro aeroporto de São Paulo, por sua vez, teoricamente não foi esquecido, mas passa por um adiamento depois do outro. Viracopos também fica para o próximo governo. O que se promete fazer, até 2010, é construir novos pátios para os aviões que operam em Cumbica e ‘reconfigurar’ – ou dar uma guaribada, como se diz – os terminais do aeroporto.

Essas são apenas as expressões mais ostensivas dos recuos do ministro. Do conjunto da obra, pelo menos num caso a responsabilidade não lhe cabe – os cortes no orçamento da Pasta e a decisão presidencial de suspender o aumento dos soldos nas Forças Armadas, na esteira da extinção da CPMF. Já a lentidão no revigoramento da Anac e no saneamento da Infraero, por exemplo, ele não tem a quem debitar. De todo modo, o que há de mais criticável na atuação do ministro da Defesa é sua imitigada propensão a confundir o público, desdenhando da sua inteligência. É o que demonstram, além das explicações sobre o pacote que não era para valer, suas aparições, em uniforme de campanha, segurando uma sucuri, numa versão tabajara do Jim das Selvas. Na arte de enrolar, a diferença entre o ministro e o seu chefe é de vocabulário e domínio da norma culta. No mais, o peemedebista Jobim incorporou o jeito petista de administrar, prometendo e descumprindo.’

 

Gil defende mudanças na Lei Rouanet

‘A Lei Rouanet precisa ser melhorada, segundo o próprio ministro da Cultura, Gilberto Gil. Desde que assumiu o ministério, ele vê a necessidade de reformular a lei que permite isenção fiscal a partir da destinação de recursos à produção artística. Segundo Gil, a legislação permite que as empresas invistam apenas em espetáculos e ações de grande visibilidade, principalmente na Região Sudeste. O ministro defende maior regionalização.’

 

TECNOLOGIA
Ethevaldo Siqueira

Como seria a vida sem ferramentas digitais?

‘Você já pensou, leitor, como seria hoje a vida humana sem as ferramentas digitais? Gostemos ou não, dependemos, cada dia mais, desses milhares de aplicativos, como os browsers, os processadores de texto, planilhas, softwares de apresentações, banco de dados, fotografia digital, vídeo, telefonia de voz sobre IP, programas para gravação musical, desenho, projeto e tudo o mais. Essas ferramentas computadorizadas revolucionam a gestão de empresas, as profissões, a educação, o entretenimento, o trabalho, a educação, a ciência e as artes.

Para a indústria moderna, as mais importantes ferramentas digitais são, sem dúvida, os softwares de projetos apoiados em computador, conhecidos pela sigla CAD (do inglês Computer-Aided Design). Com eles, nascem a cada dia milhares de desenhos de produtos industriais na tela de desktops e laptops, em imagens que parecem ter vida, em três dimensões (3D).

Talvez mais do que qualquer outro, o CAD dá ao usuário uma sensação gratificante de poder de criação e inovação porque lhe permite criar objetos, peças, máquinas ou edifícios. Com ele, podemos projetar, visualizar em 3D, com maior velocidade e precisão, videogames sofisticados, objetos de mil utilidades, navios, refinarias de petróleo, enfim, todas as coisas que a civilização nos pode dar.

Na semana passada, pude testemunhar a reação e o entusiasmo de uma platéia de 4 mil engenheiros diante das demonstrações dos novos recursos de cada software lançado no SolidWorks World 2008, evento mundial de CAD, que reuniu, aqui em San Diego, profissionais de 70 países, em busca de atualização para seus conhecimentos nessa área.

CAD HOJE

Não há país desenvolvido que não domine o uso e a produção desses softwares. Embora se torne cada vez mais fácil de usar, como a maioria dos softwares, o CAD evolui com rapidez impressionante. Exige, portanto, atualização permanente do conhecimento do usuário.

Muito mais do que outras ferramentas, o CAD é considerado precioso instrumento da criatividade humana para incontáveis formas de inovação, funcionalidade, segurança e produtividade.

Jon Hirschtick, co-fundador da empresa SolidWorks e um dos líderes do evento de San Diego, resumiu, numa palestra, a história desse software, desde os trabalhos pioneiros no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o famoso MIT, nos anos 1960, até os dias atuais: ‘O primeiro software CAD digno desse nome nasceu há exatos 45 anos. Era o Sketchpad, criado pelo professor Ivan Sutherland, do MIT, em 1963. Dá lá para cá, o progresso foi incrível. Hoje, os softwares de projeto e desenho industrial nos ajudam a projetar tudo, de simples parafusos a aviões, satélites e foguetes. Do mais simples objeto pessoal ou doméstico à mais complexa usina produtora de etanol no Brasil.’

Algumas dezenas de empresas de prestígio surgiram nas últimas quatro décadas no mundo na área de CAD, oferecendo poderosas ferramentas de projeto, como o AutoCad, o SolidWorks-3D, o Catia, o Pro-Engineer, o Inventor e o Microstation.

O CAD evolui em todos os aspectos. Nos últimos 10 anos, o grande salto foi a passagem dos softwares bidimensionais (2D) para os 3D. Além da facilidade de uso, esses aplicativos ganham sempre mais confiabilidade. Mesmo assim, essa família de softwares ainda tem muito que evoluir, especialmente num ambiente de convergência tecnológica tão dinâmico como o atual. É provável que, em uma década, quase todos os programas aplicativos de CAD estejam hospedados na internet, especialmente com a popularização dos softwares abertos (open source). Para usá-los, bastará baixá-los nos websites especializados.

FILOSOFIA DO CAD

Um dos palestrantes mais aplaudidos no evento Solidworks World 2008 foi o dr. Don Norman, laureado com a medalha Benjamin Franklin – conferida a figuras de prestígio, de Albert Einstein, Stephen Hawking e Thomas Edison, por suas contribuições à ciência. Preocupado, acima de tudo, com o bom senso de cada projeto industrial, o dr. Norman focalizou a temática de seus principais livros: The Design of Everyday Things (O projeto de coisas do dia-a-dia) e Emotional Design: Why We Love (or Hate) Everyday Things (Projeto Emocional: Porque amamos ou odiamos as coisas do dia-a-dia).

Outro conferencista extraordinário foi Robert Ballard, engenheiro, geólogo e explorador marítimo, presidente do Instituto para a Exploração Submarina (do Mystic Aquarium, em Connecticut). Aventureiro high-tech responsável pela localização e exploração científica de três dos maiores navios já naufragados no século 20 – o Titanic, o HMS Lusitania e o Bismarck – Ballard tem histórias fascinantes para contar ao auditório. Em sua apresentação, explicou como projetou o Jason, um robô submarino famoso, controlado remotamente, que lhe permitiu visitar o interior dos grandes navios, ainda no fundo do mar.

Numa apresentação como a de Ballard, é difícil saber o que é mais empolgante: se a tecnologia do CAD ou a aventura humana.’

 

EIKE BATISTA
O Estado de S. Paulo

Cinema, circo e barco. Vale tudo por uma boa imagem

‘Enquanto colhe os frutos dos grandes negócios que fez, o empresário Eike Batista quer avançar nos investimentos em entretenimento no Rio de Janeiro. Para alguns amigos, pode acabar virando uma espécie de ‘Mr. Rio’. Já possui empreendimentos nos ramos de gastronomia, como o sofisticado restaurante de comida chinesa Mr. Lam e o barco turístico Pink Fleet.

A meta é instalar uma base permanente do Cirque du Soleil na cidade, montar uma produtora de filmes e trazer outra rede internacional de restaurantes.

De forma geral, a idéia é tornar os projetos auto-sustentáveis, mas não há tanta pressa para isso. Até porque representam pouco, comparados às apostas bilionárias em áreas como o petróleo e a mineração. No caso do Cirque du Soleil, a intenção é instalar a base da atração no Píer Mauá, que está sendo licitado e disputado por outros grupos.

Parte da inspiração para o projeto vem do irmão mais velho, Dietrich, que representa a atração no Brasil e conhece os fundadores do Soleil. O projeto inicial envolve a construção de um shopping center e de uma área gastronômica junto ao Soleil. O objetivo é atrair para o País turistas do continente. Ele também pretende trazer para o Brasil a rede japonesa de restaurantes Nobu.

No caso do cinema, a proposta é ambiciosa. O empresário quer concentrar no Rio uma espécie de plataforma de produção de filmes, com artistas de peso internacional e atores brasileiros. A idéia aqui é facilitar a exportação dos filmes. ‘É o mix do mundo globalizado. Você coloca um grande ator no filme e vende para o mundo inteiro’, comenta.

Uma fonte próxima do empresário comenta que o peso desses investimentos acaba sendo residual, mas dão retorno indireto. ‘Acabam funcionando como um elemento de marketing positivo, ainda que caro’, comenta a fonte, citando que as iniciativas produzem ganhos para a sociedade e no relacionamento com o governo.

A lista de negócios cariocas de Batista se completa com uma rede hospital, que ganhou o nome de MDX – Day Hospital, na Barra da Tijuca. A divulgação do empreendimento hospitalar, no site do grupo, carrega o tom superlativo dos projetos do grupo: ‘O que há de mais moderno em termos de arquitetura e engenharia, oferecendo a médicos e pacientes tecnologia de ponta e a mais completa infra-estrutura na área de saúde.’

Mesmo os críticos dos projetos de Eike, como um dos maiores especialistas em petróleo do País, para quem o empresário pagou caro demais pelos blocos de petróleo do leilão do ano passado, reconhecem que ele é ‘um grande vendedor’.

Assim que arrematou os blocos, ele vendeu uma fatia da OGX, empresa da EBX para o setor, por US$ 500 milhões para um fundo de pensão canadense. ‘Ele vendeu terreno no céu. Se houver petróleo, ótimo. Caso contrário, problema. É uma loteria’, diz o especialista.’

 

FUTEBOL
Bruno Lousada

Corinthians e Flamengo vão ter o seu próprio Big Brother

‘Corinthians e Flamengo aderiram à moda do Big Brother. Os dois clubes mais populares do País terão um canal de assinatura pela internet, no qual serão exibidas imagens exclusivas de treinos, viagens, concentrações e bastidores dos times. Com essa inovação, o torcedor vai se sentir totalmente à vontade para dar aquela espiadinha e matar a curiosidade. A relação jogador-torcida ficou mais íntima. ‘Além de ajudar seu time do coração, o apaixonado pelo Corinthians e pelo Flamengo vai ter em troca um conteúdo exclusivo’, declarou Diogo Boni, sócio-diretor da DB4, operadora que criou a agência de notícias para os dois clubes.

A TV oficial do Flamengo começou a operar no início do mês e já contabilizou 12 milhões de visitas. Mais de 430 mil pessoas já se cadastraram. O acesso ao site www.flatv.com.br será gratuito apenas até 15 de fevereiro. No mesmo dia, será lançada a versão beta do veículo de comunicação do Corinthians, cujo endereço eletrônico é www.timaotv.com.br .

A partir de 1º de março, o corintiano terá de pagar R$ 10 por mês para bisbilhotar seus ídolos. ‘A gente quer se sustentar por si só, como acontece na Europa’, declarou o gerente de marketing do clube do Parque São Jorge, Caio Campos.

Membro de uma família especialista em reality show – seu irmão Boninho é o diretor do Big Brother Brasil, da Rede Globo -, Diogo confia no sucesso da novo projeto, que segue o modelo de grandes clubes europeus, como Arsenal, Manchester, Barcelona e Real Madrid.

Ele já ouviu vários rubro-negros dizendo que vão assinar a FlaTV mesmo não tendo computador em casa e acredita que o mesmo fenômeno vai ocorrer em São Paulo.

Até mesmo fora do Brasil, o acesso é imenso. A página do clube carioca já foi visitada por internautas em vários países, como Áustria, Uganda, Japão, Inglaterra, Emirados Árabes, Portugal e Espanha.

A programação da Timão TV terá desde entrevista interativa com o jogador até matérias sobre a história e a divisões de base do clube. No dia dos jogos, a preleção do técnico corintiano Mano Menezes será transmitida ao vivo, mediante autorização do próprio treinador.

‘Não somos imprensa, mas também não vamos esconder a verdade do torcedor. O noticiário não será chapa branca’, afirmou Boni, que montará uma ilha de edição no Parque São Jorge e na Gávea, ao custo de R$ 100 mil.’

 

Clubes fazem as contas dos lucros da TV

‘Flamengo e Corinthians contam com a receita da TV oficial na internet para reforçar o caixa e dar um salto de qualidade no futebol. As duas diretorias esperam meio milhão de assinaturas a médio prazo, o que geraria cifras milionárias – algo em torno de R$ 3,7 milhões por mês.

O Corinthians vai cobrar R$ 10 de mensalidade, R$ 2 a menos que o Flamengo. A divisão do valor arrecadado já foi definida. Até 350 mil assinantes, os times ganham 70% e a DB4, 30% em cada contrato. De 350 a 1 milhão de mensalistas, as equipe recebem 75% e a empresa, 25%. Acima de 1 milhão, Fla e Timão faturam 80% e a DB4, 20%.

Em relação à receita, as 2 diretorias vão destinar 10% para os jogadores e comissão técnica; 50% para aplicar no futebol; e o restante para investimentos na sede.

Além desse arrojado projeto, o Grupo DB4 anunciou outra novidade: rubro-negros e corintianos vão receber pelo celular notícias dos seus times. E poderão também baixar fotos e vídeos da sua equipe pelo aparelho. Sócio-diretor da DB4, Diogo Boni já está fechando contrato com uma empresa de telefonia para oferecer o serviço a partir de março.’

 

TELEVISÃO
Sonia Racy

‘Não gosto, não quero ser ator!’

‘Vozeirão de barítono, o ar meio cansado de tantas viagens e gravações, mas com o bom humor na ponta da agulha, José Wilker espalha pela sala a sua queixa: ‘Eu não quero ser ator, nunca quis. Ainda mais agora que a profissão ficou tão banalizada!’ Parece protesto juvenil, mas não, é um brado de desencanto. Mundo moderno, celebridade, vida apressada, não é com ele – ainda que em 40 anos tenha feito, como diz, ‘uns 65 filmes, 30 novelas e outro tanto de teatro…’

A cada instante, numa conversa de 70 minutos, ele compara o agito de ser ator global com os gloriosos anos 60 – os tempos de Arraes… – em que fazia teatro nos canaviais de Pernambuco para alfabetizar camponeses. ‘Trabalho tem de ter uma utilidade. Mas o que a gente vê hoje é esse desespero pelo êxito.’ Wilker veio a São Paulo promover o filme Sexo e Amor? – assim mesmo, com interrogação -, que chega aos cinemas nesta sexta-feira. E aceitou gastar um fim de tarde relembrando curtos e longos takes de sua carreira, do Brasil, do cinema, da TV e da ditadura da celebridade.

Esse novo filme tem sexo demais? Ou mais amor?

Primeiro, eu acho que sexo nunca é demais. Entendo que um filme tem o intuito de divertir, e uso essa palavra no melhor sentido, que é o de provocar um sentimento, uma inquietação. Nisso ele é eficiente, pela provocação.

O que é que ele provoca?

Provoca o espectador. As relações de afeto no mundo de hoje estão tão banalizadas que se pensa pouco sobre elas. As pessoas quase executam as coisas, ao invés de realizá-las.

Você não está pedindo muito? Por que não pedir?

Me lembro de uma frase fantástica dos rebeldes de 1968, num muro de Paris: ‘Seja razoável, peça o impossível’.

É uma frase de 40 anos. O que ela lhe parece hoje?

Bem, 1968 hoje seria impossível. Aquele ano prometeu muitas coisas, realizou algumas. Mas hoje o mundo ficou muito apressado. Em 68 eu escrevi uma peça, encenada anos depois, chamada ‘A China é Azul’. A China, pra mim, era um lugar inatingível. Hoje a gente tem celular, fala na hora com a China, tudo é imediato. Concluindo: o que eu peço hoje é o passado.

Que passado você quer de volta?

A tranqüilidade. Viver em um mundo onde o que mova as pessoas não seja o ódio. Nos anos 60, a gente vivia na iminência de um maluco apertar um botão e explodir uma bomba atômica. Hoje, você se explode. Você é a bomba. O cara se cerca de um cinto com dinamites, entra num avião e mata centenas de pessoas. Nos anos 60, a ordem era ‘faça o amor, não faça a guerra’. O mundo moderno obriga as pessoas a batalhar desesperadamente pelo sucesso. E, como dizia Einstein, o único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.

Como é ser ator num mundo assim?

No início de carreira você não acreditava na profissão. Nem acredito agora! Eu não quero ser ator. Jamais quis ser. Até hoje tenho essa questão comigo, ser ou não ser ator. Mais ainda, ao ver que a profissão ficou tão banalizada. Olha, um mês atrás eu fui a uma convenção de executivos de bancos. Fiquei ouvindo, ouvindo, e me dei conta de que as pessoas hoje carregam consigo as próprias carreiras. Você viaja e a carreira vai junto, você é a carreira. Eu tinha uma relação diferente. Queria ser mais útil. E comecei como ator desse jeito.

O que é um ator útil?

Conheci um pessoal que lidava com cultura popular em Recife, no governo Miguel Arraes. Eles aplicavam o método Paulo Freire na alfabetização de adultos e as aulas eram pelo rádio. Era frio, nada atraente, e a gente foi convidado a ilustrar aquelas aulas. Eu comecei a fazer teatro assim. Ia para o canavial, no meio do mato, e ilustrava o que era dado pelo rádio.

As aulas não eram numa sala?

As vezes era uma sala, ou uma clareira aberta num canavial. O teatro que a gente fazia tinha um universo gestual, a gente pegava as palavras e gestos mais usados para comunicar as coisas. O meu teatro era útil, tinha uma função bem específica. Em seguida me envolvi com as idéias mais idiotas, políticas – depois percebi que eu era tão salesiano quanto comunista, é a mesma coisa. Aí veio o golpe de 64 e esse negócio acabou.

Mas, enfim, quando você assumiu a profissão?

Foi nos anos 70, fazendo a peça O Arquiteto e o Imperador da Síria, do Arrabal. Eu descobri, de repente, que se podia ali ter uma conversa com a alma das pessoas, com a paixão de cada um e isso me encantou. Mas até hoje tenho dificuldade com o fato de ser ator porque me desagrada todo esse universo de capa de revista, do cara que é famoso porque é famoso, o desespero pelo êxito. Se alguma importância eu tenho, é pelo que realizei. Tenho 47 anos de carreira profissional, não posso achar que isso não valha nada. Tenho de ter respeito por essa experiência.

Você diz que tenta não aparecer demais, mas tem fracassado nessa tarefa, não?

Eu fiz uma conta. Fiz uns 65 filmes, umas 30 novelas, outro tanto de teatro, e por aí vai. É tanta coisa, algumas eu nego que fiz. Há coisas em que você está presente, apenas. Mas, recentemente, fiz três coisas de que me orgulho muito. Senhora do Destino, a minissérie JK e o Galvez, de Amazônia.

Se você se orgulha, por que diz que não leva a profissão a sério?

Eu é que não me levo a sério, é isso. Pra mim é tudo uma grande brincadeira. E eu gosto de me divertir. Vou repetir uma historinha que contei um dia no Telecine. Imagine essa situação: você é um produtor e eu lhe proponho um negócio. Quero fazer um filme sobre um casal cuja história não tem final feliz. Tudo acontece num navio que afunda. E é uma história já filmada umas quatro vezes. E vai custar US$ 600 milhões! Eu pergunto: você quer fazer o negócio. Você, que tem a grana, diz: ‘Quero!’

Foi com o James Cameron, do Titanic?

Sim. E fizeram o Titanic, ainda com aquela musiquinha chata. E sabe quanto rendeu? US$ 1,5 bilhão! Viu porque não levo isso a sério?

O empenho de trazer o mundo real para dentro da novela lhe agrada?

Quando fiz Bye, Bye, Brasil, eu tinha a impressão de que o País fosse se dividir em cinco. Não achava que ele fosse viável, a gente era muito diferente – Acre, Pará, Pernambuco, Rio, Porto Alegre… Passados 20 anos, volto a esses lugares e descubro que eles não vão se dividir. Hoje somos um País.

O que é que você não sabia na época?

Que a televisão ia integrar este País. Não sei se a TV quis fazer isso, mas, para o mal e para o bem, ela integrou este País. E acho importante quando a TV coloca essas questões que o Brasil vive, mas finge que não vive. O Brasil é um país racista e finge que não é racista. É vendido como o país da generosidade, da gentileza, e não é. É violento. O Rio é exemplar. Veja, aqui você tem São Paulo e a periferia. O Rio é, todinho, uma periferia. Acho que a TV, ao colocar os conflitos, não importa se os coloque bem ou mal – às vezes coloca mal e presta um desserviço monumental ao País -, põe um espelho diante de tudo.

E o cinema está fazendo a sua parte?

Nosso cinema vive de ciclos. Temos surtos de cinema, não uma indústria. Esse surto de agora me parece mais consistente, porque está apostando na diversidade, de vez em quando fazendo coisas importantes do ponto de vista criativo e comercial.

Eles estão entendendo melhor o público?

Olha, essa é uma conta complicada. O Brasil tem 185 milhões de habitantes. E por ano são vendidos 90 milhões de ingressos. É o que os americanos vendem em um fim de semana.

Por que então se faz mais barulho?

É que o nosso cinema faz enorme sucesso na mídia. Mas pouco na bilheteria. Compare aqueles 90 milhões com o passado: há 25 ou 30 anos, eram vendidos 200 milhões de ingressos. Sim, nós artistas somos famosérrimos na revista, na internet, no jornal. A ocupação média é de 33% das salas.

A saída é vender pipoca mesmo, para pagar o aluguel. Pois é, o que ajuda o caixa é a pipoca e o guaraná. E os cinemas de periferia foram sendo fechados e só se abre cinema novo em shopping.’

 

Patrícia Villalba

Com ares de antigamente

‘‘Tá fazendo tanta foto pra quê? Vai vender na feirinha no domingo, né?’, pergunta na brincadeira Nívea Maria, como ela mesma, mas ainda vestida do sotaque mineiro da primeira-dama Magnólia, de Desejo Proibido. Nos bastidores da novela das 6, no estúdio B do Projac, visitados pela reportagem do Estado, Nívea fala com a continuísta que, com uma camerazinha digital a postos, registra discretamente todos os detalhes possíveis e imagináveis da cena que está sendo gravada.

Em geral, bastidor de novela é lugar de uma certa tensão, por causa do corre-corre e do trabalho a todo o vapor. E embora seja uma novela de época, que demanda mais cuidados, desde a preparação do figurino até a atenção ao jeito de falar dos personagens, o clima é descontraído no estúdio comandado por Marcos Paulo. ‘Estou muito mais à vontade, me divertindo horrores. A novela tem um clima ótimo, e gravar com o Lima Duarte é engraçadíssimo’, diz Grazi Massafera.

Em sua segunda novela, ela parece uma aluna aplicada nos bastidores, das que têm canetas perfumadas no estojo escolar. Leva o texto da novela todo marcado com papeizinhos coloridos, dentro de uma pasta. Ela vive Florinda, moça doida para casar, filha do prefeito Viriato Palhares, interpretado por Lima.

Político com talento especial para tirar vantagem do povo de Passaperto e, assim, tornar viável seu projeto político de projeção nacional, Viriato é um tipo que Lima interpreta com gosto especial. No set, não é raro a gravação ser interrompida pelas risadas dos colegas de elenco, por causa da maneira como o ator saboreia as palavras do autor Walter Negrão.

A trama se passa nos anos 30, mas Negrão tem recheado o texto de referências à política contemporânea, daí a graça. Até uma espécie de CPMF o prefeito já pensa em criar. ‘Se o baixinho de São Borja quiser, vou ensinar o bê-á-bá da política no Catete!’, lança Lima em uma das cenas, falando de Getúlio Vargas, de quem, obviamente, Viriato tem inveja.

‘De novo!’, pede Marcos Paulo, para que o núcleo da família de Viriato volte ao cenário da sala de jantar para repetir uma cena. ‘Oba, vou comer doce de goiaba de novo!’, comemora Lima.

Desejo Proibido tem política e comida na mesma proporção. E para quem tinha alguma dúvida, aqui está: toda aquela comida que aparece nas cenas é de verdade. Compotas de todo o tipo, biscoito beijo-de-freira, empadinhas.

Mary Sheyla de Paula, que interpreta Cidinha, a empregada da primeira-dama, passa com a bandeja cheia de quitutes, para servir às visitas de Viriato. Marcos Paulo pega alguns, a gravação não dá certo, e lá vai ela encher a bandeja de novo – e de novo, de novo e de novo.’

 

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‘Tem de caprichar’

‘Novela de época dá trabalho dobrado, mas Marcos Paulo adora. Como ator, ele viveu Basílio, da minissérie O Primo Basílio (1998), e como diretor, assinou a novela Força de um Desejo (2000), só para citar dois marcos da reconstrução de época na TV. Aqui, ele conta sua aventura nos anos 30, em Desejo Proibido.

Para o diretor, muda muito o fato de ser uma novela de época?

Sim, muda. Numa novela de época tem de caprichar muito. Mas há coisas interessantes. Você tem de fazer muita pesquisa, saber da história com detalhes. Não a história que te contaram na escola, mas a história real – um romance mal resolvido pode mudar os rumos de uma nação. E o cuidado é redobrado, porque você tem de fazer uma coisa fiel à época. A gente não está fazendo um documentário, mas a estrutura da novela tem de estar muito bem pensada, porque temos de reproduzir a época, de qualquer maneira. E isso determina um tipo de interpretação diferente dos atores, porque tem uma roupa diferente, uma postura diferente, uma realidade em volta diferente. É muito bacana reproduzir uma época.

E a década de 30 não é muito explorada.

É. Os anos 40 já foram muito explorados, os 50 também. Os anos 30 passaram meio em branco. Resolvemos falar em ‘anos 30’ e não ‘1930’, para ter mais liberdade, sobretudo com a música. A música brasileira do início dos anos 30 até o meio daquela década só tem samba e dor-de-cotovelo. Mas foi uma época muito rica musicalmente nos Estados Unidos e na França. Então, estou louco para montar o disco internacional. Quero convidar grupos de hoje para cantar sucessos antigos. Pegar, por exemplo, um Jota Quest fazendo Cole Poter. Mas é um exemplo, hein?

Um padre de São Paulo pediu para que os fiéis fiquem de olho na novela, para ver se Miguel (Murilo Rosa) não vai manchar a imagem da Igreja. A novela está sendo patrulhada?

Absolutamente. Não recebi nenhuma manifestação da Igreja até agora. Mas a intenção da gente não é discutir a Igreja, mas mostrar uma história de amor. Mas o padre pediu o que exatamente?

Para que os fiéis avisem se Miguel beijar a Laura (Fernanda Vasconcellos) usando batina.

Ah, então está ajudando a gente! Vai fazer subir a audiência! P.V.’

 

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E agora, Rossela?

‘Pouco antes de começar o ensaio da cena a gravar, Caio Junqueira (o engenheiro Gaspar) recebe os conselhos de Rossela Terranova, preparadora de elenco da Globo que dá plantão nos bastidores da novela. Ela tira dúvidas dos atores sobre como se posicionar em determinada situação ou qual a melhor entonação a usar, uma conversa que começa no cafezinho do estúdio e só termina na gravação.

‘Trabalho como uma indicadora de caminhos, pois sempre há uma gama de possibilidades. Mas é o diretor que dá o tom da cena, sempre’, diz ela, que trabalha com consciência corporal desde 1979 e já orientou nomes em início de carreira como Rodrigo Santoro.

‘Digo sempre para os atores que novela é um trabalho de equipe, mas a cara que vai a tapa, no fim das contas, é a deles.’’

 

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Band atira para todos os lados

‘Emissora anuncia grade de 2008, que traz novidades como Daniella Cicarelli

A nova programação da Band só entra no ar em março, mas a emissora já começou a fazer estardalhaço na semana passada. Em grande evento para chamar o mercado publicitário, a rede anunciou as suas novidades.

Nova novela, novo jornalístico, programa de humor, de debates e, a estrela da vez: Daniella Cicarelli. A ex-VJ da MTV foi ao evento posar para fotos. E só. Cicarelli não sabe ainda como será seu programa na Band. Em um resumo mais do que breve, explica que irá ao ar aos domingos, e terá público jovem.

Na turma dos que têm o que contar está Boris Casoy, que assinou contrato com a rede para comandar um jornalístico na hora do almoço, com direito a espaço para debate. E claro, a Band fisgou Bóris de olho nos debates eleitorais deste ano.

Assim que terminar Dance, Dance, Dance, em abril, entra no ar Água na Boca, nova novela da emissora. De Marcos Lazarini, o folhetim promete ser uma espécie de Romeu e Julieta gastronômico. Explicando: dois jovens de famílias que possuem grandes restaurantes, e são inimigas, é claro, se apaixonam. A trama começa a ganhar corpo no próximo mês.

Patrícia Maldonado, que deixou o Atualíssima, estréia em abril All You Need Is Love, reality de relacionamento comprado da Endemol.

Tem ainda o CQC, Custe O Que Custar, programa de humor ácido que em muito lembra o Pânico.

Márcia, Raul Gil e Datena ganham nova embalagem. Já Leão Lobo terá uma nova companheira. Sai Maldonado entra Rosana Hermann no Atualíssima. Tem ainda um novo programa de rodeio e um pacotão de filmes. Nenhum título espetacular, mas alguns valem a pipoca de microondas.

Pólvora

A Band bem que tentou, mas não conseguiu tirar Cazé da MTV. O VJ iria apresentar o formato CQC na rede, mas resolveu ficar na emissora musical.

A saída de Patrícia Maldonado do Atualíssima foi estratégica, uma vez que ela não se dava mais com Leão Lobo.

Rosana Hermann, que era roteirista do Pânico, garante que recebeu proposta da Record assim que fechou com a Band.

Já Boris diz que desde os seus tempos de SBT já conversava com a Band sobre a possibilidade de ir para lá.’

 

Roberto Godoy

Monet, nova direção

‘A revista Monet, imprecisa e fraca, vai entrar em reforma. Sob nova orientação, deve assumir as funções a que se destina: servir de roteiro para o assinante da TV paga – e bem paga – com o mínimo tolerável de erros. Leitores protestam semanalmente apontando falhas na agenda da programação dos canais e detestam o modo confuso de consulta às sinópses. O empresário Álvaro Campos sugere um índice por genêro e uma indicação da exibição das séries em horários de estréia e alternativos. Fora dos limites da revista, ele diz que ‘…gostaria de poder receber informações atualizadas nos centros de atendimento’. Aí, caro, é pedir demais. O editor-chefe que assume é Ricardo Alexandre, jornalista de considerável bagagem em passagens por veículos bacanas como as revistas Bizz e Superinteressante. Vejamos. Outro leitor, o professor Sérgio Tolosa, credita as deficiências de qualidade dos serviços de televisão a cabo à atitude adotada no tratamento dado ao setor. Tolosa sustenta que, ‘…do ponto de vista do governo, trata-se de um mero capricho da burguesia, que deve tratar diretamente com os fornecedores’. De certa forma, é quase isso. O Carnaval promete dor-de-cabeça para quem esperava feriadão com tv, mas sem samba, suor e irritação.’

 

Shaonny Takaiama

‘Estar em 1º lugar é bom demais’

‘Na disputa entre Globo e Record por audiência, o Fala Brasil, da Record, tem ficado em primeiro lugar várias vezes. Escondido no horário das 7h55 e apresentado por Luciana Liviero e Marcos Hummel, o telejornal tem se mantido na média dos 7 pontos, ante 6 da Globo. Nesta entrevista, Luciana Liviero, que tem 16 anos de carreira, fala sobre este seu importante momento profissional.

Qual é o motivo do sucesso do Fala Brasil ?

É um trabalho que vem sendo feito há algum tempo. Quando entrei, em janeiro de 2006, o Fala Brasil tinha média de 3,5 pontos. Hoje, a gente está com média de 7, raspando nos 8. Acho que existe o fato de as pessoas saberem que há essa outra opção na programação. E a gente está sempre atento à audiência, ao que as pessoas querem ver. Há muita estratégia.

Que tipo de estratégia?

Estratégia de break (intervalo), uma estratégia normal de concorrência em TV. Se a Globo foi pra break a gente vai também. Ou, na hora da virada, em que acaba o Bom Dia Brasil é um horário vital pra gente. É aí que a gente entra com a matéria forte, porque a gente sabe que a hora em que acaba o Bom Dia Brasil o público vira pra Record. É uma guerra! (Risos).

Como é apresentar um telejornal que está batendo a Globo ?

Estar em primeiro lugar é bom demais. Estou achando ótimo por saber que estou na frente da primeira emissora do País! E se continuarmos nesse caminho vamos bater a Globo em outros horários, porque está se criando uma cultura de assistir a Record.

Por que você trocou a Band pela Record?

Porque eu queria um programa meu. Eu fiquei oito anos na Band e fiz de tudo. Substituí a Olga Bongiovanni, a Márcia Goldschimidt, apresentei todos os telejornais da casa, fiz coberturas de eleições. Eu comecei a querer um espaço meu e ali não havia. Um dia, me enchi e fui embora, sem ter para onde ir. Hoje eu sei que eles se arrependem. Sei porque sou amiga deles, gosto muito da Band. É um lugar que eu gostaria até de um dia voltar a trabalhar.

A Band já te pediu pra voltar?

Não. Não fui sondada, mas eu sei que meu nome foi colocado para certas coisas e eles não foram adiante.

Este espaço maior que você buscava é o Fala Brasil?

Eu gosto muito de entrevista e gostaria de um Fala Brasil com entrevistas, um programa um pouco maior.

Até quando vai seu contrato com a Record?

Até este ano. Maio, junho.

E já falaram de renovar?

Não, ali não tem isso. É tudo em cima da hora mesmo.

Alguma emissora te sondou?

Não, ninguém sabe que meu contrato está acabando. Põe aí! Agora vai! (Risos)’

***

Fala, Luciana

‘Âncora falante:

‘Eu realmente falo muito e o Marcos (Hummel) sempre foi de uma escola da Globo em que não havia comentários. Eu acabo falando mais do que ele no ar, mas não quero me sobressair, eu o incentivo muito a falar também.’

Baladeira:

‘ Apresentar um telejornal de manhã é um sacrifício. Eu sempre fui da noite, sou festeira. Com o Fala Brasil, a vida mudou, né? Eu saio sexta e sábado, que é um saco, as piores noites, com gente mais feia. Estou sem namorado por isso. E eu perdi muito do convívio com os amigos. Eles marcam um jantar para às 21h, mas às 21h eu já estou na cama.’’

 

Sérgio Augusto

As ilusões perdidas em Baltimore

‘Pesquisas informais indicam que as pessoas, não só as daqui, andam acompanhando com muito mais interesse, entusiasmo e fidelidade as séries de televisão exibidas nos canais a cabo do que os longas-metragens de Hollywood lançados nos cinemas. Ledo engano atribuir o fenômeno ao binômio preguiça-medo de sair de casa. A principal razão dessa preferência é a superioridade, em todos os níveis, de boa parte das telesséries, que, não bastasse, agora desfrutam da mesma longevidade de um filme e de abundante espaço nas locadoras de vídeo.

Telesséries como Família Soprano, House, Law and Order, SVU, CSI, ganharam status de cinema, viraram cultos, invadiram a blogosfera e os papos de salão. Houve um tempo em que os únicos telemaníacos em circulação na internet eram os trekkies, os fanáticos tietes de Jornada nas Estrelas. Contam-se hoje às centenas os sites que abrigam discussões sobre as esquisitices do detetive Adrian Monk, o mordaz ceticismo do dr. Gregory House, a sardônica erudição de Gil Grissom e a dipsomania do detetive Jimmy McNulty.

Jimmy quem?!

Que ninguém se sinta um ignorante por desconhecer um dos 70 e tantos personagens da série The Wire, aqui exibida com o título de A Escuta. Interpretado por Dominic West, McNulty corre o risco de virar um farrapo humano antes de conseguir impor medo ao tráfico de drogas de Baltimore. Policial alcoólatra não é novidade na teledramaturgia, mas o que McNulty diz, pensa, ameaça fazer e faz quando está sóbrio (ou apenas com duas doses de uísque no tanque), bem, assista a The Wire, rigorosamente imperdível. Sobretudo se for do seu interesse conhecer a mais brilhante, esmerada, densa e complexa série de televisão do momento.

Ainda dá tempo de pegar a terceira temporada, não pela HBO, que a produziu, mas entre nós a lançou meio na surdina, e sim pelo canal Maxprime. O quarto capítulo, exibido quarta-feira (23h), será reprisado amanhã, às 5h30 e 8h30 da manhã. Recomendo uma familiarização prévia com o intrincado universo da série através do YouTube, pois a HBO tampouco se deu o trabalho de lançar as duas primeiras temporadas de The Wire em DVD. Seu desprezo pelos jurados do Emmy, do Golden Globe e galardões afins não justifica o descaso. The Wire não foi criada para seduzir os vidiotas, mas para mudar nossa maneira de ver e acompanhar uma telessérie.

Um dos charmes do programa é sua narrativa inevitável e inventivamente atordoante. Espalhados por cinco núcleos – polícia, zona dos traficantes, prefeitura, jornal (Baltimore Sun), porto e rede de ensino -, vários de seus personagens se inter-relacionam sem fronteiras estabelecidas. Como tantas outras cidades socialmente cindidas, além de dominadas pela bandidagem, a inépcia policial, a burocracia municipal e a corrupção institucionalizada, a Baltimore de The Wire, como a Baltimore real (ou ‘Body-more’, um corpo a mais, no trocadilhesco apelido que lhe deram), é um espelho do Rio de Janeiro, de São Paulo e metrópoles similares. O alcance da série é universal.

Os americanos já estão, há três semanas, curtindo a quinta e última temporada. A cada novo capítulo, a redação da revista eletrônica Salon se reúne para comentar a série online; um luxo. Quando a primeira temporada entrou no ar, em junho de 2002, críticos de várias áreas, literários inclusive, abriram as comportas do entusiasmo. O mínimo que disseram é que só às mais inspiradas criações de Robert Altman, Martin Scorsese e os irmãos Coen The Wire merecia ser comparada. Diálogos formidáveis, direção impecável, estilo visual elaborado, atores primorosos – não faltaram confetes para o projeto criado e parcialmente escrito pelo ex-jornalista David Simon. Um dos roteiristas da série é Dennis Lehane, autor de Sobre Meninos e Lobos.

À quarta temporada, em 2006, o New York Times dedicou um editorial, comparando The Wire ao que Charles Dickens fizera com Londres em Bleak House. ‘É, sem sombra de dúvida, o melhor show de TV já produzido na América’, proclamou Jacob Weisberg, editor da Slate.com. ‘Nenhum outro programa logrou retratar com tamanha amplitude, precisão, acuidade e visão moral a vida social, política e econômica de uma cidade americana, de resto, retratada com obsessiva verissimilitude e afetuosa raiva.’ Por incrível que pareça, a prefeitura de Baltimore liberou geral as gravações. Todas as locações são autênticas, menos a redação do Baltimore Sun, reproduzida nos mínimos detalhes num estúdio de cinema.

Domingo passado, em cima da quinta temporada, David Carr escreveu no New York Times um artigo sobre David Simon e a ênfase por ele dada aos rumos tomados pela imprensa americana nos últimos dez anos. No mesmo dia, nas páginas do Washington Post, Simon publicou uma desencantada reflexão sobre a profissão a que com precoce entusiasmo se entregou, depois de assistir à contagiante comédia teatral A Primeira Página, crente que, armado de uma máquina de escrever, poderia ajudar a consertar o mundo – ou, na pior das hipóteses, tornar um pouco mais habitável sua cidade natal.

Simon, de quem Mark Bowden traçou um longo perfil para a revista The Atlantic Monthly que está nas bancas, foi repórter do Baltimore Sun durante 13 anos, de onde saiu em 1995 para trabalhar na televisão. Saiu furioso com as primeiras demissões em massa efetuadas pelo Sun. ‘Não quero estar presente ao enterro de uma profissão que já nos proporcionou uma vida de rei’, desabafou, amparado numa metáfora celebrizada por uma das glórias da redação do Sun, H.L. Mencken. Simon se diz deprimido com a mercantilização desenfreada dos jornais, comprados por conglomerados sem compromissos de nenhuma espécie com a comunidade e a qualidade jornalística, só com os lucros e os dividendos dos acionistas, e editados por profissionais que mais se preocupam com suas ambições pessoais do que com suas obrigações éticas e o respeito à inteligência do leitor.

A última temporada de The Wire promete ser um ajuste de contas com as ilusões perdidas de David Simon. Ah, sim, Balzac também já foi citado a propósito da série.’

 

HISTÓRIA
O Estado de S. Paulo

Fotografias apresentam a história russa no século 20

‘Pela primeira vez, a agência noticiosa russa Tass abriu os seus arquivos fotográficos para criar um painel sem precedentes e sem censura, no qual é possível ver os últimos cem anos de história da Rússia. Apresentando mais de 300 fotografias, muitas das quais nunca antes publicadas, este livro capta o cotidiano de um povo durante o século 20, da dramática revolução de outubro, passando pela 1ª e 2ª Guerra, pela guerra fria, pelo colapso da experiência soviética, até chegar às mudanças políticas e econômicas da Rússia. Iluminado por textos informativos e legendas que contextualizam as imagens, este é um recorte da história da Rússia realizado pela perspectiva da fotografia russa.’

 

MÚSICA
João Marcos Coelho

Na era do digital, a palavra é download

‘Desde 1960, o ritual se repete: em todo mês de janeiro, o público internacional de música clássica, ou de concerto, ou erudita se agita ansioso para comprar o Penguin Guide. Ele nasceu em 1960, com o título de Stereo Record Guide, e ia mais longe do que o pioneiro Schwann, iniciado em 1959, que só listava as gravações em catálogo. Ele recenseava criticamente os então estupendos LPs estereofônicos nascidos na década de 50 e não se pretendia exaustivo. Ainda hoje, não é muito diferente a deliciosa sensação de xeretar pela ‘bíblia do disco’, pescando preciosidades, conferindo se seus artistas favoritos foram bem avaliados, etc, etc. Um ritual que caminhou paralelo à evolução da indústria do disco – do LP estéreo ao DVD.

A edição que acaba de ser publicada internacionalmente continua com cara de mamute, em suas quase 1.600 páginas (o preço é bastante acessível: R$ 60). Mas traz uma novidade significativa. Tira do titulão geral as palavras CD e DVD antes que eles morram. Afinal, já há executivo da indústria fonográfica espalhando que o CD não emplaca 2009. Claro, o CD não vai morrer totalmente; deve permanecer como um nicho, do mesmo modo como o gueto do vinil vai muito bem, obrigado. Assim, a Adeg informa: sai The Penguin Guide to Compact Discs and DVDs e entra The Penguin Guide to Recorded Classical Music 2008. Os ciclos de vida dos suportes físicos da música encurtam cada vez mais: o bolachão 78 rotações viveu meio século; o LP, 30 anos; o CD, 20; e o DVD, ao que parece, curtirá apenas uma década.

Os números não mentem: a queda da venda mundial de CDs foi expressiva (variável conforme os mercados, mas a média andou pela casa dos 30%). Ópera em CD simplesmente não se vende mais. E os DVDs dão mostras de esgotamento. Se não, como entender que os 550 mil DVDs vendidos por Ivete Sangalo no Brasil em 2007 ocupam o primeiro lugar mundial em vendas da Universal? A própria Sangalo, aliás, vendeu em 2007 só 221 mil cópias do CD correspondente.

RECOMEÇAR DO ZERO

O chato é que quando a gente se acostuma com um formato, outro o substitui. E aí somos obrigados a recomeçar do zero. O DVD, por exemplo, já está sendo atropelado pelo Blu-Ray, DVD de alta definição, que, por sua vez, também leva uma trombada da web: dois aparelhos já permitem baixar filmes/concertos/documentários em alta definição pela internet ou via satélite. A palavra agora é download. Sobretudo porque as grandes do disco capitularam finalmente – em lojas virtuais próprias, permitem download sem trava nenhuma (ou seja, permite-se que o usuário faça quantas cópias quiser) a pouco mais de US$ 1 a faixa. Na música clássica, isso é muito apetitoso. Uma sinfonia de Mahler, por exemplo, pode sair muito barata. Mais do que isso. O conceito de disco se destrói. Agora, a unidade de medida é a faixa.

Prudentes – talvez demais -, os editores da Penguin, Ivan March e Edward Greenfield, no cargo desde 1960, ainda não abordam em seu guia-mamute os sites de download, coisa que seu concorrente na Inglaterra já faz desde o ano passado. O Gramophone Classical Music Guide (disponível na www.amazon.com por U$ 19,06), que já tinha entre parênteses ‘Classical Good CD, DVD’, acrescentou desde a edição de 2007 a expressão ‘& Download Guide’ (ele também anda pela casa das 1.500 páginas, e oferece um guia onomástico precioso no final, ao contrário do Penguin). Mas ainda é tímido. Até porque o guia editado por James Jolly, ex-editor-chefe da revista Gramophone, apenas indica com um símbolo quais os CDs disponíveis para download. Ora, o consumidor de música clássica atual e antenado quer dois tipos de informação: os melhores sites de download; e, em cada CD, quais as faixas que valem a pena baixar.

Isso modifica – e não é no curto prazo, é já, agora mesmo – todo o sentido de consumo musical. Alguém aí lembra quando se faziam fitas cassete compilando as faixas que interessavam de fato em cada LP para ouvir no toca-fitas do carro? A moda sobreviveu ao CD e agora, incrivelmente potencializada, aloja-se nos iPods e mp3s. No entanto, transferir os arquivos para os iPods leva tempo. A baixo e justo preço, é mais fácil baixar direto.

Por outro lado, a crítica musical que ainda deseja recuperar a relevância que já teve em décadas passadas em relação a seu público-alvo – o freqüentador de concertos e consumidor de gravações -, precisa raciocinar, já, em termos de faixas, e não mais de CDs inteiros. E começar a fuçar pelos sites de download.

CONTORCIONISMOS VERBAIS

Mas, além de todos esses problemas, existe mais um, crônico: o da obsessiva concentração dos intérpretes (muitas vezes por imposição da indústria) no mesmo e eterno repertório. Isso torna risível o contorcionismo verbal dos venerandos editores do Penguin e do Gramophone Good Guide para acomodar e diferenciar as chamadas ‘gravações definitivas’ do grande repertório, ou cânone sagrado. E aí, tome adjetivo em cima de adjetivo, superlativos, hipérboles – e risadas, claro. O Concerto nº 5 de Beethoven, o dito Imperador, por exemplo. É obra conhecidíssima, gravada centenas de vezes em todos os formatos e por pianistas e intérpretes de todos os quadrantes do planeta. O Penguin lista 27 registros diferentes. O lendário Solomon é ‘olímpico’; Rudolf Serkin é ‘um mestre’; Perahia, outro ‘mestre’; Brendel, em sua terceira integral dos concertos, é ‘espontâneo’ (tudo que ele não parece, cá entre nós); András Schiff é ‘um dos mais satisfatórios’; Pierre-Laurent Aimard, ‘the very finest’; Kempff é ‘o mais individual’ (!!?); Barenboim, ‘iluminação sem limites’; Schnabel oferece ‘nobreza e robustez’; Radu Lupu tem ‘brilho e sensibilidade’; Kovacevich, ‘clássico incontestável’. Já chega, não é?

Mas, como xeretar esse tipo de bíblia é delicioso, vamos checar o concorrente Gramophone Good Guide. A versão do Imperador de Aimard, ‘the very finest’ para o Penguin, aqui também é listada, mas indica-se que pode ser baixada na loja virtual da Warner (o selo é Teldec). Em compensação, diz que ela é ‘idiossincrática’. Deve ser porque o maestro Nikolaus Harnoncourt, campeão da música historicamente informada, participa, embora aqui ele reja a Orquestra de Câmara da Europa, com instrumentos modernos, etc., etc. O mais importante é que indica as interpretações disponíveis para download: Barenboim/Klemperer (EMI); Murray Perahia/Haitink (Sony); Brendel/Rattle (Philips).

Dica final: entre no site das principais gravadoras internacionais, xerete à vontade. E baixe só o que te interessa de fato. Isso não é o melhor dos mundos? A pianista venezuelana Gabriela Montero lançou no fim do ano passado um CD intitulado Baroque (Sony), onde improvisa sobre temas arquiconhecidos daquele período histórico, incluindo As Quatro Estações você sabe de quem. E avisa que duas vezes por mês ela improvisa ao vivo, em seu site (www.gabrielamontero.com). Talvez um dos caminhos esteja aí. O intérprete disponibiliza em seu site, você ouve – e, se gosta, compra a preço justo.’

 

CULT
Francisco Quinteiro Pires

O exercício sistemático da dúvida na atualidade

‘Duvidar de tudo pode ser perigoso: apenas um exercício que redunda no relativismo infértil ou em questionamentos cansativos. A aceitação de uma verdade absoluta tem riscos, alguns bem graves, como prova a história humana. Ao propor um dossiê sobre ceticismo, a revista Cult (nº 121, 66 págs., R$ 9,90) desvenda detalhes históricos que explicam a transformação do entendimento sobre o método filosófico criado pelo pensador grego Pirro de Élida (365-275 a.C.).

A imagem do cético como aquele que duvida de tudo é uma percepção criada pela filosofia moderna. Descartes contribui para essa visão reducionista. (Interessante notar como os críticos do ceticismo, entre eles Santo Agostinho, foram ironicamente seus valorizadores).

Ao voltar no tempo, o professor de Filosofia Jaimir Conte demonstra como o médico grego Sexto Empírico foi responsável por resgatar a escola cética de Pirro, uma vez que a maioria dos escritos dos céticos pioneiros se perdeu. A partir de seu trabalho se estabeleceria o pirronismo, que questiona a idéia de verdade, mas não nega a possibilidade de encontrá-la, como o fazem os acadêmicos céticos influenciados por Sócrates. A escola cética prevê o perigo de criar um dogmatismo negativo.

O ceticismo é a suspensão do juízo diante das controvérsias clássicas da Filosofia, dada a incapacidade de decidir qual das teorias conflitantes é a verdadeira. Suspenso o julgamento, o homem atinge a tranqüilidade de alma. O ceticismo não duvida do que aconteceu, mas do que está além do acontecimento, como uma explicação pretensamente irrefutável. Sua influência se faria sentir em pensadores como Montaigne, Kant, Hegel, Diderot, Nietzsche e Wittgenstein.

Essa postura de investigação está em consonância com o espírito científico, ao deixar livres o estudo e a teorização dos fenômenos. Na contemporaneidade, se constata a importância do ceticismo no diálogo mantido com a epistemologia, a lingüística e a filosofia da mente.

O estudo do ceticismo no Brasil é contemplado por uma entrevista com o intelectual pioneiro Oswaldo Porchat, formador de gerações de filósofos no Brasil, criador do neopirronismo e defensor de uma filosofia aplicada ao cotidiano.’

 

 

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