Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 7 E 8/07

O Estado de S. Paulo

10/07/2007 na edição 441

GOVERNO LULA
Ethevaldo Siqueira

Doze problemas que afetam as Comunicações

‘O governo Lula tem feito muito pouco pelas Comunicações. Grande parte de suas promessas e projetos tem ficado no discurso ou no papel. Eis alguns exemplos:

1) Assinatura e tarifa – O ministro das Comunicações, Hélio Costa, tem questionado o valor da tarifa e da assinatura básica de telefonia, mesmo sabendo que não pode modificar, unilateralmente, os contratos de concessão. No entanto, o governo nada fez no momento da renovação dos contratos de concessão, em 2005, quando podia efetivamente mudar alguns critérios. Por que o governo não dá o exemplo e reduz o volume de 40% de impostos que incidem sobre serviços de telecomunicações? Nenhum país no mundo cobra tanto.

2) E os semicondutores? – O governo Lula trombeteou que o Brasil obteria do Japão a instalação de uma indústria de semicondutores, em contrapartida à escolha do padrão nipônico de TV digital. Onde está ela? O gato comeu.

3) Soberania – O ministro Hélio Costa costuma dizer que ‘o Brasil terá que pedir licença a Madri ou à Cidade do México para estabelecer uma rede de TV ou de telecomunicações de emergência’, de âmbito nacional. Não é bem assim. Diferentemente do que diz o ministro, os contratos de concessão determinam que todas as grandes operadoras são obrigadas a atender a qualquer solicitação de serviço do governo, sob pena de sofrerem pesadas sanções, que incluem até a perda da licença.

4) Segurança – O governo se queixa também de uma suposta vulnerabilidade do uso de satélites privados, pelas Forças Armadas, como os da Star One, associada da Embratel. O problema é que o governo gostaria de continuar usando de graça a Banda X, de freqüências de uso militar, como o fez, durante anos, mesmo depois da privatização, nos satélites B1 a B4. Será que uma estatal ofereceria mais segurança? Penso na Infraero, nestes tempos de apagão.

5) Estatais e SGB – Setores do governo Lula querem recriar estatais. A começar da Telebrás, hoje sem patrimônio e depenada por ações indenizatórias milionárias. A intenção é usar aquela empresa como operadora do futuro Satélite Geoestacionário Brasileiro (SGB), projeto de R$ 1,5 bilhão. O governo cogita também reativar a Eletronet, estatal falida, que seria utilizada para a difusão nacional da TV Brasil, por meio de sua rede de cabos de fibras ópticas de 18 mil quilômetros, de Belém a Porto Alegre.

6) Nacionalismo – O ministro Hélio Costa sonha com uma grande concessionária 100% nacional, a partir da fusão da Oi-Telemar com a Brasil Telecom. Nada contra uma operadora totalmente brasileira. A grande prioridade do País, no entanto, é incentivar a competição e a universalização dos serviços. Não importa a origem do capital da empresa, mas o investimento efetivo, a tecnologia, a qualidade dos serviços e o padrão de atendimento. Ao eliminar qualquer restrição ao investimento estrangeiro nas telecomunicações, em 1997, o País atraiu investimentos da ordem de US$ 60 bilhões – que jamais poderiam ser bancados pelo Estado brasileiro.

7) Inclusão digital – Costa promete agora levar a internet a 172 mil escolas brasileiras. Tomara que esse projeto se concretize até 2010, mas com uma rede, realmente, de alta velocidade. Conferiremos.

8) Lei Geral – Já em seu quinto ano de governo, Lula deveria elaborar, com urgência, o projeto da Lei Geral de Comunicação e submetê-lo ao debate da Nação. A legislação setorial brasileira não passa de uma colcha de retalhos que engloba leis relativamente novas, decretos da época da ditadura e o capítulo de Radiodifusão do Código Brasileiro de Telecomunicações, de 1962.

9) Anatel – Desde 2003, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) vem sendo esvaziada e politizada, com dirigentes escolhidos pela CUT, até recentemente. Um sinal de mudança desse quadro talvez seja a escolha de Ronaldo Sardenberg, seu novo presidente. Os cortes de orçamento da agência, no entanto, inviabilizam até o cumprimento de suas funções básicas de fiscalização, como, por exemplo, identificar e fechar as milhares de rádios piratas que ameaçam a segurança dos aviões, nas vizinhanças dos grandes aeroportos do País.

10) Lentidão – O governo tem escolhido com muito atraso os nomes do dirigentes da Anatel. Nos últimos seis meses, a direção da agência só fez reuniões com três de seus cinco conselheiros, obrigando a que todas as decisões só possam ser tomadas por unanimidade. Seu conselho consultivo, que representa a sociedade, não se reúne desde dezembro passado, por falta de quórum.

11) Fust e Fistel – O Fundo de Universalização das Telecomunicações (Fust), que já arrecadou mais de R$ 5 bilhões, sem aplicar um único centavo desde sua criação no ano 2000, está sendo cobiçado pela TV Brasil, de Franklin Martins. Além disso, o governo não repassa à Anatel nem 20% dos R$ 2 bilhões arrecadados por ano pelo Fundo de Fiscalização das Telecomunicações (Fistel), para que a agência possa investir em sua modernização.

12) Sem metas – Finalmente, falta às telecomunicações novas metas de universalização e novas políticas públicas para o setor.’

ZÉ CELSO vs. SÍLVIO SANTOS
Beth Néspoli

O palco da polêmica

‘Este pode ser um ano decisivo para o embate que vem sendo travado há quase três décadas no bairro do Bexiga, em São Paulo, entre José Celso Martinez Corrêa, diretor e fundador do Teatro Oficina, e o grupo empresarial do apresentador Silvio Santos. Pode sair do papel o novo projeto arquitetônico para o shopping center que o Grupo SS planeja construir no terreno, de sua propriedade, em torno do Teatro Oficina, situado à Rua Jaceguai 520.

Em texto enviado com exclusividade ao Estado e publicado nesta edição, o arquiteto Marcelo Ferraz defende o projeto do shopping center que considera diferenciado. ‘Não será um shopping para se perder em seus labirintos e nem para se esquecer da cidade que o envolve.’ E mais. Autor do projeto arquitetônico, em parceria com o arquiteto Marcelo Suzuki, ele afirma: ‘Já foram obtidas todas as aprovações legais junto aos órgãos competentes de proteção do Patrimônio Histórico, como o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo) e o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo).’

Ferraz traça um histórico de sua participação no projeto desde que foi chamado pelo Grupo SS para ‘fazer um estudo arquitetônico’ que pudesse ‘botar um fim à celeuma com o vizinho Oficina’. Convite ocorrido após o divulgado encontro de Silvio Santos e José Celso Martinez Corrêa no Teatro Oficina, em 18 de abril de 2004, que derrubou o projeto anterior, ao qual o diretor se opôs intensamente, assinado pelo arquiteto Júlio Neves, também aprovado no Condephaat e no Conpresp.

A celeuma a que se refere Ferraz começou muito antes, em 1980, quando Silvio Santos tentou comprar o terreno do Oficina, situado no mesmo quarteirão onde estava o escritório de sua empresa. A resistência de José Celso Martinez Corrêa provocou, à época, o tombamento do teatro pelo Condephaat. Começa aí um atrito entre vizinhos, com diferentes etapas de luta, em torno da ocupação do ‘entorno’ do teatro. Embate atualmente estendido à recuperação urbanística do Bexiga, bairro de grande importância cultural, degradado pelo efeito de projetos urbanísticos como o viaduto que passa diante da fachada do teatro.

Em seu texto, também publicado nesta edição do Cultura, Zé Celso cita o bairro da Lapa, no Rio, e o Pelourinho, em Salvador – exemplos de ambientes degradados cuja recuperação não interferiu nas suas características culturais e de convívio no espaço público. ‘A especulação produz o shopping: a Igreja da Agorafobia, as Cercas, os Cadeados, os Muros, os Condomínios, as Castas’, argumenta Zé Celso. Ferraz garante que a arquitetura do shopping conta com ‘aberturas convidativas que darão continuidade às calçadas públicas’ e será ‘uma nova possibilidade de travessia rua-a-rua.’

O arquiteto argumenta que o projeto do Grupo SS prevê também a ‘recuperação e reforma dos baixos do Viaduto Julio de Mesquita Neto, novas e modernas instalações para o Sacolão ali existente, biblioteca pública e equipamentos esportivos’, entre outras contrapartidas descritas no seu texto. Já o diretor do Oficina critica a arquitetura que enclausura em ‘guetos’ pobres e ricos e teme a exportação para ‘as regiões interplanetárias da periferia das periferias’ de pequenos comerciantes e pobres da região.

Qual o melhor projeto para o Bexiga? Qual atende às necessidades e à vocação do bairro? ‘Acho extremamente complicado estabelecer o que é certo e o que é errado para o futuro da região da Bela Vista’, diz o arquiteto Edson Elito. ‘Ele era um dos que estavam no teatro no dia em que foi apresentado o primeiro estudo de Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki, e um dos autores da atual arquitetura do Oficina. ‘Certamente esse novo estudo tem qualidades, tanto que Zé Celso ficou de pensar. Acabou não aceitando’, diz.

‘Sem entrar no mérito do projeto de Marcelo Ferraz, que certamente o tem, acho que essa discussão não deveria ficar restrita ao âmbito privado’, argumenta. A análise dessas duas propostas mereceria uma ampla discussão pública, que envolvesse órgãos e institutos de preservação do patrimônio e a sociedade civil organizada. A área em questão tem um proprietário, isso tem de ser levado em conta, mas Zé Celso deve ser ouvido porque sua visão urbanística e cultural também é interessante e a cidade precisa de espaços como os que ele propõe.’

Por enquanto, o tombamento do Oficina só ocorreu no âmbito estadual e não inclui o seu entorno. Mas há um processo em tramitação no Iphan, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que pode tombar o teatro e também o entorno. Se isso ocorrer, o projeto do shopping possivelmente terá de ser aprovado também em nível federal. ‘Está na pauta e há urgência, uma vez que existe interesse em preservar o bem cultural e uma demanda pela viabilização de um shopping’, diz Luiz Fernando Almeida, presidente do Iphan. Mas se por um lado o assunto pede rapidez, por outro requer análise cuidadosa. ‘O Iphan precisa refletir sobre esse tombamento do Oficina, um teatro de grande singularidade, um teatro-rua, que traz a cidade para o palco. Tombar um bem cultural implica a preservação da natureza desse bem e sua autenticidade.’’

Marcelo Carvalho Ferraz

Uma nova perspectiva cultural e urbana para o maltratado Bexiga

‘Em junho de 2004 fui apresentado por um amigo ao presidente do Grupo Silvio Santos que me perguntou, já em tom de convite: ‘Você toparia fazer um estudo arquitetônico para o centro comercial que queremos construir no Bexiga, um projeto que possa botar um fim a essa celeuma com o nosso vizinho Teatro Oficina?’ Eu, que conhecia bem o assunto desde os tempos do projeto de Lina Bo Bardi para o teatro, tomei a questão como um desafio, como uma grande oportunidade de sair da mesmice dos projetos de shopping centers que se alastram por nossas cidades. Mais ainda, vi ali uma oportunidade de propor algo que pudesse reabilitar e requalificar todo o espaço público de uma região tão sofrida e maltratada, como o bairro do Bexiga.

Juntamente com meu sócio Francisco Fanucci, convidei o arquiteto Marcelo Suzuki para participar do trabalho, uma vez que ele já havia desenvolvido nos anos 1980 um projeto para o Teatro Oficina. Fomos então, Suzuki e eu, contar ao Zé Celso, diretor do Teatro Oficina, a boa nova do convite que acabávamos de receber. Nesse encontro, com a presença do ator Marcelo Drummond, Zé Celso, entre surpreso e satisfeito, concluiu com a seguinte frase seu apoio à nossa empreitada que se iniciava: ‘O Silvio Santos foi mais rápido que nós, contratou nossos arquitetos para seu novo projeto. Vamos em frente, claro!’

Em uma semana apresentamos aos técnicos do Grupo Silvio Santos o primeiro estudo de ocupação do terreno, propondo a liberação de uma grande área contígua ao Teatro Oficina, o verdadeiro ‘filé mignon’ do terreno, para a construção de um teatro com quase mil lugares. Este novo teatro, integrado ao Shopping Center, poderia também se conectar ao Oficina em alguns momentos ou determinados espetáculos, através de grandes aberturas laterais.

De início, o plano não empolgou o Grupo Silvio Santos por dedicar uma área menor que a esperada para o centro comercial.

Uma semana depois, apresentamos aos clientes a mesma proposta já um pouco mais elaborada e com os números de metros quadrados, funções e usos mais aprimorados. Argumentamos exaustivamente em sua defesa, tentando mostrar a importância do novo teatro para a cidade, daquela forma e naquele exato lugar. Afinal, dizíamos, fomos chamados justamente para propor algo diferente do projeto que o Grupo possuía, e que já havia sido aprovado em todos os órgãos públicos e estava pronto para ser construído. Para nossa satisfação, a proposta foi aceita e partimos imediatamente para seu desenvolvimento dentro de um programa que também foi criado e formatado com a nossa participação, pari-passo com o projeto arquitetônico.

Dois pontos fundamentais guiavam nossas ações:

– Queríamos um centro comercial que se afastasse de todos os exemplos de shoppings espalhados por nossas cidades; queríamos um espaço comercial que trouxesse as ruas, as calçadas e a vida urbana para seu interior, algo como o Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, ou a Galeria do Rock, na Avenida São João, e tantas outras galerias do centro da cidade, construídas nos anos 1950 e 1960. Espaços que mantêm uma relação viva e saudável com seu entorno. Nada de muros e labirintos de luz artificial, sufocantes espaços de negação da cidade.

– Queríamos um grande teatro (‘estádio’ ou ‘cyber’, bastante discutido com Zé Celso) que fosse o coração do projeto, a alma do conjunto. Um teatro autônomo, com personalidade arquitetônica própria e não um anexo ou um teatro a mais encalacrado dentro de um shopping center, em área sem interesse comercial. Pretendíamos que essa nova edificação guardasse em relação ao Teatro Oficina um recuo de sete metros para entrada de luz natural (como determina a legislação de proteção estabelecida pelo Condephaat), preservando a árvore ali existente – um pau-brasil – e abrindo espaço para o plantio de mais espécies. Por esse jardim, os dois teatros, equipados com grandes portas de comunicação simbiôntica, poderiam se interligar quando fosse do interesse mútuo dos proprietários/ocupantes.

Com estes dois princípios norteadores, trabalhamos por alguns meses e, em dezembro de 2004, apresentamos o projeto ao Grupo e ao próprio Silvio Santos, que o aprovou e deu sinal verde para continuar seu desenvolvimento e detalhamento.

Em janeiro de 2005, fomos então ao Teatro Oficina fazer uma apresentação pública do projeto, que contou com a presença de algumas personalidades da área cultural interessadas na questão, como Modesto Carvalhosa, Contardo Calligaris, Beth Milan, Ana Lana, Edson Elito, Juliana Prata, Raul Pereira, Luiz Fernando Ramos, além do próprio Zé Celso e parte do Grupo Oficina. A reunião, com calorosas discussões, foi toda documentada em VT e, ao final, tivemos o projeto aclamado por unanimidade. Além dos muitos elogios, levamos conosco algumas críticas e sugestões bastante razoáveis de Zé Celso, que foram incorporadas e vieram a enriquecer o projeto. Apenas como exemplos, posso citar a mudança no tamanho do teatro, que passou de 800/1.000 lugares para 2.000 lugares e a manutenção do jardim ‘oficina de florestas’ entre os dois teatros, com a já histórica árvore pau-brasil.

Contamos com o apoio e a aprovação do Grupo Silvio Santos que, àquela altura já se entusiasmava com a proposta de um teatro importante e diferenciado, um teatro com mais espaço e mais recursos técnicos e cênicos, um teatro pluriusi.

Desenvolvemos então o projeto arquitetônico com nossa equipe de colaboradores e com um grande número de profissionais de primeira linha nas diversas áreas técnicas complementares. Obtivemos as aprovações legais ao projeto dos órgãos competentes de proteção ao patrimônio histórico. No Estado, o Condephaat, que tombou em 1983 o vizinho Teatro Oficina; no município, o Conpresp, que tombou todo o bairro do Bexiga nos anos 1970. Não foi fácil e, após mais de um ano de idas e vindas, tivemos a aprovação com grandes ganhos para a cidade de São Paulo e, mais especificamente, para a comunidade do Bexiga.

Incorporamos em nossos estudos um outro projeto, o de recuperação e reforma total dos baixos do Viaduto Julio de Mesquita Neto. Este outro projeto prevendo novas e modernas instalações para o Sacolão ali existente, uma biblioteca pública, espaços e equipamentos esportivos de lazer e convivência – crianças, jovens e idosos -, espaços para a instalação de bares, cafés, restaurante e serviços e, para satisfação de todo paulistano, o Espaço Adoniran Barbosa, destinado a guardar a memória e o acervo do ‘sambista da garoa’.

Toda a infra-estrutura elétrica e hidráulica, calçadas, pavimentos, pintura, mudança no traçado das ruas para ampliação de calçadas, é parte integrante da aprovação do projeto. É contrapartida a ser bancada pelo Grupo Silvio Santos como investimento social na área.

ADENTRANDO ENTRANHAS

Nosso projeto se faz a partir do lugar: de dentro para fora, das entranhas, feridas abertas e das cicatrizes urbanas de um bairro marcado no tempo pela história do trabalho dos homens, com vistas a uma nova vida.

Assim, ao projetar, devemos captar e inventar o lugar a um só tempo. Devemos também ir ao sentido de repor na cidade fraturada, a contribuição histórica do Bexiga, seu know-how de convivência entre brancos, negros e imigrantes vários, classes sociais e ‘tribos modernas’. A aproximação, a leitura da geografia física e humana do bairro, foi nosso ‘alimento’ de projeto. Repor aquilo que foi subtraído ao Bexiga com a violenta segmentação causada pela passagem do Minhocão, foi e continua sendo uma busca.

A falta de trato urbano, ou os desacertos das intervenções urbanísticas das últimas décadas deixaram seqüelas que procuramos reparar com a oferta de mais espaço e conforto para aqueles que andam a pé. Mais acessibilidade lato sensu, porosidade e abertura de novas comunicações no espaço público. Desse modo, o projeto se realiza ao descobrir o lugar, suas limitações, suas particularidades, seu potencial de uso e de transformação urbana em benefício do cidadão.

UM METEORITO NO SERTÃO DE SP

Uma pedra tosca, cor de terra, rugosa, construída com concreto e terra, povoada de vegetação parasita (bromélias, avencas, polígonos, musgos, erva de passarinho, etc.), como um cubo de 40 x 40 metros por 20 metros de altura, coroado por uma ‘flor de aço’ de 20 metros de diâmetro em sua cobertura, que abre e fecha como uma rosa: esse é o exterior do teatro de estádio do Bexiga. Independente do shopping center fisicamente e administrativamente, o novo teatro terá capacidade de acolher até 2.000 pessoas.

Buscamos em nosso teatro a acentuada relação de contraste entre interior e exterior. Por fora, uma pedra tosca, um meteorito ou um torrão de solo do sertão, uma pedra bruta de cristal, brutalmente cúbica, a contracenar com a metrópole feérica dos automóveis, viadutos, arranha-céus e luzes; por dentro, a expressividade do espaço trabalhado em curvas sensuais, sofisticada geometria do espaço cênico multiuso – ou politeâmico -, cores, luzes, som, imagens e gente. Em uma comparação metafórica: é o bloco tosco e rústico de pedra que, quando aberto revela o cristal precioso em seu interior, multifacetado e multicolorido em brilhos e reflexos que, no nosso caso, serão enriquecidos com as tapeçarias acústicas do artista plástico Edmar de Almeida.

O seu espaço interno se aproxima do sonhado e nunca realizado teatro total – Totaltheater (1927) de Walter Gropius e Erwin Piscator, em que a distância entre palco e platéia, pela forma circular de ambos, variam e chegam mesmo a se anular (palco/platéia/palco). Numa das composições possíveis de montagem, o palco pode ser ampliado, pode virar uma arena ou uma pista, por contar com assentos retráteis telescópicos, no primeiro lance da platéia. São recursos cênicos variados e deslocáveis em função de um espaço não convencional dedicado a espetáculos teatrais e musicais. Ainda, como no teatro total, as galerias periféricas saem do público em três níveis e mergulham na área cênica, numa nova fusão. São galerias palco/platéia novamente. Lembrando ainda um outro sonho do ‘teatro total’, introduziremos novas mídias e tecnologias de som e projeções em múltiplas direções, culminando com a abóbada/tela de cinema da cobertura: cybertotaltheater. Para arrematar, essa abóbada ‘flor de aço’ quando aberta, será uma janela zenital de 20 metros de diâmetro, e deixará o sol e a lua invadirem o interior do teatro, brindando a cidade com cor e luz.

GENTILEZA DO ESPAÇO PÚBLICO

O shopping center abraça o novo teatro e as construções remanescentes da quadra sem tocá-las. A partir de sensuais e sinuosas curvas que se sobrepõem desencontradas a cada andar, contrasta, por sua delicadeza ao ‘rude teatro meteorito’ ou ‘pedra bruta do sertão’. Será construído em concreto branco autolimpante e vidro. Será um shopping linear com quatro entradas de acesso (duas pela Jaceguai, uma pela Santo Amaro e outra pela Abolição) e estará preparado para uma quinta entrada pela Rua Japurá. São aberturas convidativas que darão continuidade às calçadas públicas. Será uma nova possibilidade de travessia rua-a-rua, com circulações em todos os andares em forma de grandes varandas curvas abertas a um vazio e um grande jardim vertical. Terá luz do dia e ventilação natural em toda a área pública de circulação e convivência. Não será um shopping para se perder em seus labirintos e nem para se esquecer da cidade que o envolve.

Concluindo, com a implementação de nosso projeto como um todo, quem sai ganhando é a cidade de São Paulo. Não é A ou B, são todos. E esse aspecto foi compreendido pelos órgãos de preservação que o aprovaram. Num projeto dessa envergadura, com suas peculiaridades e complexidade de interface socioespacial, não podemos titubear: a cidade para todos em primeiro lugar.

Marcelo Ferraz é arquiteto, lecionou na Washington University e atualmente é professor na Escola da Cidade, em São Paulo’

José Celso Martinez Corrêa

Disputa é entre morte ou vida

‘A minha casa é uma maloca

rasgada no futuro

É o inverno

É o eterno

enquanto duro

osso duro osso duro

que ninguém ,

há de roer

a minha casa é o céu

é o chão caroço bruto

traçado no chão do viaduto

pro Anhangabaú

da Feliz Cidade.

(Música e letra de José Miguel Wisnik)

Batizamos com o nome de Anhangabaú da Feliz Cidade o sonho parido dos 27 anos de luta para impedir a construção do Shopping do Grupo SS no entorno tombado do Teatro Oficina. Materializou-se num projeto urbano-arquitetônico de meu irmão, arquiteto, João Batista Martinez Corrêa, e minha sobrinha, Beatriz Pimenta Corrêa. O Teatro Oficina liga um Teatro de Estádio para 5 mil pessoas, como o que vi ontem na ilha de Delos, na Grécia, onde estou de férias, com uma arena em curvas de nível, rebolantes, em ‘volutas impossíveis’, coberto por uma Oca retrátil, a uma Universidade Popular Livre Antropofágica, inspirada no nosso trabalho com Os Sertões, com as crianças do ‘Bexigão’ (nome do trabalho que durante mais de seis anos vem sendo feito com crianças do bairro, alfabetizadas com as palavras de Euclides da Cunha) e nos textos filosóficos de Oswald de Andrade. A esse conjunto se soma a ‘Praça da Cultura’ concebida por Paulo Mendes da Rocha, ‘ressignando’ o Minhocão em frente ao nosso Teatro. Toda área reflorestada, como anteviu o poeta Caetano Veloso em Sampa:

Tuas Oficinas de Florestas, teus deuses da Chuva.

A área do entorno do Teatro, a partir da Rua Oficina, ainda ‘embecada’, se transforma num Pulmão, num Chacra do Bexiga. Um choque na vida de Sao-Pan toda ‘guetada’, toda enclausurada em guetos, pobres ou ricos. Um ponto de encontro, como toda metrópole deseja, necessita uma Lapa, um Pelourinho da Paulicéia.

O Grupo SS est? Comprando tudo por ali, para verticalizar o bairro, e realizar um Paraíso de Executivos: uma ‘Las Vegas brasileira’. O maravilhoso povo mestiço de nordestinos, migrantes negros que já foram donos daquelas terras, pequenos comerciantes, artistas, em nome do projeto do Shopping SS, já vêm sendo exportados para as regiões interplanetárias da periferia das periferias de Sao-Pan. Crianças do ‘Bexigão’, que ocupavam com os Sem-Teto o prédio da ex-Caixa Econômica da Rua Abolição, já foram parar em Marte. Isso é genocídio!

A encenação de Os Sertões, suas cinco peças têm sido uma metáfora (em grego = transporte) para este novo Bexiga. Uma vitamina para as mais de cem pessoas que a criaram, para as milhares que a assistiram e hoje equacionam a maturidade, as formulações concretas para o que era sonho concretizar-se e vencer o niilismo dos que se entregam.

Marcelo Ferraz afirma que nunca Lina Bardi pensou num Teatro de Estádio. Prefiro considerar essa afirmação uma perda de memória mais que uma traição. O projeto original de Lina Bo Bardi é considerado por alguns membros do Iphan, em vias de tombar federalmente o entorno do Oficina, um modelo arquitetônico urbanístico de uma cidade contemporânea.

Lina o concebeu desde o início do Oficina, como ‘uma rua, chão de terreiro, galerias do Scala de Milano, dando para as Catacumbas (O Coliseum) de Silvio Santos’. Podemos provar, temos o primeiro desenho da ‘Rua’ dando para o Estádio, aliás assinado por Marcelo Suzuki, projetado dia 24 de agosto de 1980 no Oficina. Temos fotos da maquete do Teatro de Estádio e do Oficina, realizado por Lina e Suzuki, vídeos gravados no Condephaat em 1983, com a maquete na mesa do conselho do órgão. A maquete estava ainda num belo cartaz muito divulgado em 1980, quando o Grupo SS quis comprar o Oficina, defendido por uma grande admiradora do Sambódromo carioca, que termina numa Apoteose, que para ela era a abertura da Rua Oficina em Teatro de Estádio.

Silvio Santos na sua visita pessoal ao Oficina, às 17 horas de um domingo de 2004, entendeu tudo. O projeto ‘Família Jetson’, de Júlio Neves, veio abaixo. Ele nos pediu: ‘Mostrem-me um layout.’ Procurei imediatamente Oscar Niemeyer, que topou. Aí apareceram os Marcelos Suzuki e Ferraz, dizendo terem sido chamados por um advogado do Grupo SS, dr. Ricardo, mas afirmando que somente aceitariam o convite se eu concordasse. Eu fiquei muito feliz e concordei. Convidei-os para uma reunião onde estudaríamos com o pessoal do Oficina, pessoas envolvidas nesta luta, toda história dos vários projetos existentes para a área, partindo da matriz da Lina, passando pelos de Paulo Mendes da Rocha, Edson Elito, Célia Paes, Cris Cortillo, que no decorrer dos anos, haviam trabalhado em cima. Quando os Marcelos apareceram na reunião, disseram que já estavam contratados pelo Grupo SS. Pediram que eu redigisse um programa. Escrevi tudo que minha experiência inspirara. Como réplica mostraram tempos depois, no Oficina, onde tinham chegado. Foi um choque! Era na realidade um Teatro até bonito por fora, mas convencionalmente podre por dentro: 1.000 lugares, muito mal estudados, coadjuvando na realidade um projeto para o Patrão-Shopping, dando uma abraço de urso, no que seria o ‘Teatro de Estádio’.

Aceitei com a condição de que houvesse modificações. Propomos a criação de um conselho, com a participação não somente da Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona para gerir o novo teatro, mas também com a Cooperativa Paulista de Teatro; os Grupos Teatrais que, através do Movimento Arte contra a Barbárie, conquistaram a Lei de Fomento Municipal, renovando poderosamente o teatro na nossa cidade; sambistas da Vai-Vai, Coletivos Internacionais de Teatro, como o Volksbühune de Berlim, e muitas entidades e pessoas da Multidão ativa, fariam parte desse conselho gestor.

Nossa produtora teve um encontro com um dos responsáveis pelo shopping e ele disse que a gestão seria do Grupo SS porque ‘nem os artistas, nem o Estado têm competência para isso, pois não têm dinheiro’. Tive uma iluminação: o capitalismo é uma utopia! Tem a ingenuidade de achar que o $ tem competência pra tudo !?

O Anhangabaú da Feliz Cidade não é um projeto utópico. Temos tido apoio social crescente da Multidão criadora que sempre existiu, mas agora vem à tona, com toda força, depois das catástrofes do efeito estufa sobre o planeta epifanizadas neste 2007, em todo Globo. A peça em cartaz há 27 anos no Bexiga, Oficina X Grupo SS, acontece também com sucesso em muitas partes do mundo. A Globalização dominada pelo capital vídeo-especulativo-financeiro, paradoxalmente impondo a vida como abstração, produziu seu próprio veneno: o desejo poderoso do corpo e da alma táteis manifestado na arte do Teatro. A especulação, principalmente a imobiliária, é a Morte, a ela se opõe o desejo de Vida, do Poder Humano. A especulação produz o shopping: a Igreja da Agorafobia, as Cercas, os Cadeados, os Muros, os Condomínios, as Castas. O Teatro, provamos com Os Sertões, pode ser, no Brasil de hoje, algo tão forte quanto o futebol, o carnaval, a música brasileira. Não seria possível em outra época esta força geradora de poder civilizatório. A Cultura corresponde a 10% do PIB brasileiro. Um projeto da dimensão do Anhangabaú da Felicidade, pode criar mais que ‘empregos’, pode criar trabalho, pra muita gente, e instituições como a Petrobrás começam a compreender o maior investimento, na maior energia que existir no planeta: a cultura humana. A pessoa de Silvio Santos, que vem de uma dinastia de mecenas, os Abravaneis, que deram aos Médicis, a Florença, ao mundo, o Museu de l’Ufizzi (Museu Oficina), pode muito ser um dos investidores neste projeto, independentemente do grupo financeiro que leva seu nome. Em Mannheim, na Alemanha, fomos convidados a fazer a peça Os Bandidos, de Schiller, onde expusemos tragicomidaorgyasticamente tudo que está aqui escrito. Esta luta, e o que ela gera, é desejo do Globo. Neste local poderemos realizar bienais Dionisíacas com todos os teatros mundiais que estão trazendo este novo esporte: o Teatro, Paixão das Multidões, ganhando força na luta mundial contra o efeito estufa, e pela espécie mais ameaçada de todas de extinção, a do ser humano, livre, poderoso, interferente nas determinações das grandes Corporações.

Imagine a pretensão deste grupo financeiro que há 27 anos nega a saída da rua riscada por Lina Bardi, pretender fazer um Shopping Cultural. Que Cultura? No carnaval deste ano, fizeram uma obra de arte: colaram os destroços da primeira Sinagoga de São Paulo, que destruíram em 2006, em frente a um muro de cimento que levantaram exatamente no Beco que Lina queria ver atravessado pela Rua Oficina. Colocaram até uma estrela de David com a qual coroei Antonio Conselheiro no DVD de A Terra. Muita gente que foi ver os Os Sertões achava até que era ‘cenário’. Nós chamamos de Auschwitz. Exatamente nos Arcos Romanos do fundo norte do teatro, que Lina Bardi preservou como ‘Arqueologia Urbana’, lá onde ela havia marcado os arcos gêmeos do triunfo de passagem da Rua Oficina, nossos vizinhos invadiram, profanaram a clareza Apolínea de sua arquitetura.

Por que estes dois talentosos arquitetos têm de segurar esta bandeira?

Dinheiro nenhum justifica.

Tenho a certeza de que brevemente a revisão que o Condephaat está fazendo da desvalorização do entorno feito pelo período predatório das gestões anteriores, a grandeza da pessoa de Silvio Santos, o despertar dos corpos da multidão em luta pelo renascimento do planeta, e nossa própria luta estão já realizando o destino grandioso deste pedaço de terra.

A opção por um desses dois projetos: mais um Shopping ou uma Ágora – Pulmão para a cidade; duas concepções de Morte ou de Vida para os nosso dias. Merda.

José Celso Martinez Corrêa é diretor, ator, produtor e dramaturgo do Teatro Oficina há 49 anos’

TELEVISÃO
Keila Jimenez

Ficção tem limite

‘Por que os porteiros nunca estão a postos nas novelas? É um vício que se repete: porteiro de folhetim não interfona avisando que alguém está subindo. Ou, pior, nunca está em seu devido lugar quando o visitante chega.

Assim foi quando Ana Luíza (Renée de Vielmond) flagrou Antenor (Tony Ramos) com Fabiana (Maria Fernanda Cândido) e quando o mesmo Antenor flagrou a ex-mulher com o jovem amante em Paraíso Tropical. Na mesma Paraíso, a repetição da displicência do porteiro acabou fazendo uma vítima na semana passada: Evaldo (Flávio Bauraqui), que morreu após uma visita surpresa de Thaís (Alessandra Negrini). E onde estava o porteiro?

Autores, diretores e cenógrafos respondem com bom humor e deboche – às vezes até com sinceridade – a essa e a outras dúvidas que pululam na cabeça da audiência sempre que ela se depara com um clichê folhetinesco. Abaixo, as coisas mais absurdas que você sempre quis saber sobre novelas e não tinha a quem perguntar…

Os vícios das novelas

Por que, nas novelas, quase ninguém trabalha?

Tiago Santiago (autor) – Porque namorar, brigar, discutir e fofocar dão mais ibope.Carlos Lombardi (autor) – Nas minhas novelas as pessoas trabalham. O que varia é o quanto se mostra as pessoas trabalhando.

Lauro César (autor) – Os personagens não trabalham porque os autores trabalham demais.

Por que quase todo carro que bate em cena explode? Fora os inúmeros que caem em precipícios…

Carlos Lombardi – Os carros vão explodir e bater muito mais. Em Pé na Jaca me perguntavam por que tanta gente morria atropelada? É porque no horário livre agora não pode morrer de tiro, nem de faca, acho que nem de bafo de cebola…

Silvio de Abreu (autor) – Os carros caem em precipícios porque a Globo tem muitos carros antigos e a gente não sabe o que fazer com eles. Então escrevemos essas cenas para esvaziar o pátio.

Por que, nas tramas, as notícias bombásticas aparecem assim que o personagem liga a TV?

Lauro César – Grandes personagens têm grandes intuições.

Por que os personagens nunca vão ao banheiro?

Silvio de Abreu – Por respeito e consideração. Não seria elegante passar o mau cheiro para a casa do telespectador.

Carlos Lombardi – Nas minhas novelas vão. Em Pé na Jaca tinha até fila para ir ao banheiro da casa do Giácomo.

Por que, toda vez que um personagem telefona nunca dá ocupado e sempre quem atende é com quem ele deseja falar?

Carlos Lombardi – Em comédia é mais comum você fazer as coisas darem errado, por isso é mais realista que drama. Então, ligação que cai em número errado, celular fora de área, sempre acontece.

Denise Saraceni (diretora) – Nem sempre. Um diretor atento preenche essas pausas de alguma forma.

Por que ninguém tem o mesmo nome nas novelas?

Silvio de Abreu – Simplesmente por uma questão técnica. Se tivessem nomes iguais, quando alguém fosse chamado por este nome, dois ou três personagens poderiam se virar ao mesmo tempo, deixando os câmeras confusos.

Autor que não quis se identificar – Hoje em dia existem mil programas para se escrever roteiros de novelas, tipo ‘final draft’ e até um que a Globo mesmo inventou. São para facilitar a digitação. Então, para não ter de digitar o nome do personagem inteiro, existe uma jogada que é a seguinte: você clica ctrl ‘A’, por exemplo, e já surge o nome do personagem masculino ‘Alberto’, que começa com ‘A’. E na novela não terá mais homem com o mesmo nome, nem com um nome que comece com ‘A’. Portanto, hoje, os nomes dos personagens são dados em ordem alfabética.

Por que, toda vez que um personagem vai tomar uma bebida, sempre há gelo à sua espera? Mesmo que ele tenha acabado de chegar da rua…

Denise Saraceni – Por que temos contra-regras eficientes…

Guga Feijó (produtor de arte) -Isso é um segredo inviolável! O dia-a-dia tem um tempo diferente na ficção e isso acontece para garantir agilidade, para que o personagem não perca tempo. Mas isso não é uma regra. Ao contrário, pode haver cenas – em A Grande Família , por exemplo, há – em que os personagens não desfrutam da sorte de ter tudo à mão exatamente para criar situações bem-humoradas em cima disso.

Por que os atores nunca terminam de comer nas cenas? Sempre fica comida no prato ou as refeições são abandonadas no meio…

Guga Feijó – Só mesmo em cena, porque no ensaio eles comem tudo!

Por que os laptops e computadores estão sempre ligados? O ator nunca fica tentando entrar na internet…

Keller Veiga (cenógrafo) – Que tédio seria para o telespectador esperar o computador ligar, conectar internet… Mas , na verdade, objetos que projetam reflexo, como TV e computadores, proporcionam movimento à cena.

Por que nas cenas em que aparecem um homem e uma mulher em uma cama o lençol está sempre torto?

No homem pega sempre na cintura e na mulher, abaixo do pescoço…

Luis Felipe Sá (diretor) – Na vida real não é assim? Homens se enrolam com lençol até o pescoço?

Denise Saraceni – Ora, por causa das ONGs que cuidam da moral e dos bons costumes.

Por que as camas dos cenários sempre estão sempre encostadas nas janelas ?

Keller Veiga – Para ficar mais fácil da mulher jogar o homem pela janela no meio de um briga (risos). Não é regra, mas a cama (assim como o sofá na sala) é o principal móvel do quarto e tiramos partido dessa disposição para ganhar mais possibilidades de iluminação.

Por que os personagens pensam em voz alta?

Silvio de Abreu – Se pensarem baixo ninguém escuta.

Lauro César – Porque são vítimas de autores que não pensam..

Carlos Lombardi – Personagem só pensa em voz alta quando o autor está com preguiça de fazer uma situação em que ele tenha de se explicar para alguém. É mais rápido, fácil e barbeiro, é claro.

Denise Saraceni – Muitas vezes os autores não confiam na imagem e na interpretação dos atores.

E por que os personagens sempre encontram vaga para estacionar?

Luis Felipe Sá – Quando acontece da pessoa achar vaga em Copacabana de primeira, pode crer que isso estava dramaturgicamente previsto! (risos) O cara tem muita sorte! Essas situações são para dar mais comodidade à dramaturgia.

Denise Saraceni – É que temos sorte… Vocês gostam de cena de gente estacionando os carros?

Por que nas festas quase sempre vão todos os personagens, mesmo que eles não se conheçam?

Lauro César – Porque alguns atores ganham mal e os autores fazem caridade (ao convidá-los) para todos comerem.

Denise Saraceni – É um jeito de juntar as histórias e enlouquecer os diretores e a produção…

Silvio de Abreu – Porque se eles não fossem não iriam se conhecer nunca e, pior, iriam ficar com raiva de não terem sido convidados. Artista é muito sensível.

E por que ninguém nunca acorda descabelado?

Silvio de Abreu – Porque usam gel.

Tiago Santiago – Porque acabaram de vir do cabeleireiro.

Por que toda novela termina com casamentos e mulher grávida?

Tiago Santiago – Porque todo mundo quer.

Lauro César – Porque durante a novela o autor leva tanta (paulada), tanta, mais tanta… que acaba parindo alguns personagens.

Por que as portas estão sempre abertas nas novelas? Ninguém nunca tranca nem destranca nada.

Denise Saraceni – Nosso tempo narrativo precisa de algumas licenças, essa é uma delas. Se precisamos na história, fechamos as portas. Caso contrário, elas são mágicas.

Keller Veiga – Se der algum problema na fechadura, acabou a cena e a história tem de mudar (risos). As portas abertas facilitam a ação.’

Roberto Godoy

Jack fala português

‘Os empresários que exploram os canais pagos, com certeza jamais recorreram à pesquisa junto aos assinantes antes de tomar decisões.

A freguesia não foi consultada, por exemplo, antes do cancelamento da CNN em Espanhol. Na época, os mortos-vivos do atendimento atribuíam a exclusão ao fato de haver na grade um outro serviço do mesmo tipo, a TVE espanhola… Mas de lo mismo no sumiço da Metro. Também não há quem explique porque o History Channel não entra no maior (e mais caro) pacote de toda a Net. Culpa da falta de lei e de regulamento.

Na mesma linha de desconsideração, está a muvuca permanente na programação. Segunda-feira a Fox apresentou um episódio dublado da série Bones. Sem aviso e sem mais nada. No dia seguinte repetiu a dose no agitado capítulo do 24 Horas. A vantagem do cabo é (ou era) a preservação do conteúdo. Sem isso, tchau. E nada de bênçãos.’

Renata Gallo

‘Sou o mais querido do prédio’

‘A vida de Evandro Santo parece piada. Nascido em Belo Horizonte, até os 6 anos foi criado por uma tia-avó, com a certeza de que ela era sua mãe – e que tinha quatro irmãos, na verdade, seus primos. Já morando com sua mãe verdadeira, aos 9 anos, tentou fugir para São Paulo pela primeira vez. Tentou novamente anos depois, outra vez sem sucesso.

A fuga, no entanto, só deu certo quando ele tinha 15 anos. Evandro chegou em São Paulo, de carona, com três sonhos: conhecer o McDonald’s, o Playcenter e virar modelo da Claquete, agência teen da década de 80. Os dois primeiros ele realizou, mas o terceiro não foi possível. Então tentou, em vão, virar cabeleireiro e, depois, bailarino: ‘Gostava da dança, mas a dança não gostava de mim’, conta. Restou trabalhar como modelo nu na Academia Brasileira de Arte e fazer bicos com telegramas animados. Por R$ 250 ele animava aniversários, chá de cozinha, bar mitzvah… Animava, porque há um mês Evandro virou o Christian Pior, o estilista afetado – e boca suja – do Pânico, da RedeTV!

Como surgiu o convite para participar do ‘Pânico’?

A Jovem Pan lançou um quadro, o Ilustres Comediantes Desconhecidos, e fui chamado porque estava em cartaz com o espetáculo AB-Surto, em um bar em Moema. Fui e, uma semana depois, voltei para outra participação. Fiz o Percival, um apresentador que é uma espécie de terapeuta sexual. Duas semanas depois eles estavam precisando de alguém para fazer o casamento da Wanessa Camargo. Ninguém podia ir e a Sabrina iria como convidada. O Emílio me ligou na sexta com a idéia de fazer um personagem de um estilista afetado e eu dei o nome, Christian Pior, e ele gostou. Daí batizamos o quadro de Meda, uma maneira gay de dizer Pânico… O Emílio é meu padrinho e a Sabrina minha madrinha porque ela se propôs a fazer a matéria comigo. Se ela não fosse ninguém iria parar para falar comigo.

E agora entrou para a turma. Está rico como eles?

Olha, o Pânico é a turma do fundão. Todo mundo é amigo, já está lá há muito tempo, já tem livro, caderno, apostila, já tomou suspensão… Eu só cheguei em maio, estou pedindo timidamente: ‘Mendigo, tem uma régua para me emprestar?’ (risos) Mas estamos nos dando muito bem.

Mas seu passe agora está mais valorizado…

É, tenho muito cliente judeus, daqueles que vão ao R$ 1,99 e pedem o troco, sabe? Eles estão reclamando bastante… Antes fazia 15 minutos de telegrama por R$ 250, R$ 300. Se a pessoa chorava, abaixava o preço. Cada hora fazia com um personagem: pai de santo, drag queen… As pessoas me ligavam naquele efeito herpes: te vi no chá da fulana… Cheguei a fazer sete em um único dia. E sobrevivi em São Paulo graças a este trabalho. Mas agora, para 30 minutos cobro R$ 2 mil porque para mim não compensa mais. Tenho meu salário fixo, sou chamado para eventos maiores.

E a popularidade também aumentou?

Pego metrô todo dia para ir à rádio Jovem Pan (ele participa diariamente do programa ‘Pânico’ na rádio também). É engraçado porque as pessoas ficam cochichando. Na verdade, o Christian é tão nojento que elas não acreditam que ele possa estar no metrô. Elas acham que eu sou rico e é impossível eu estar no metrô. Mas lá no meu prédio mudou bastante. Antes ninguém me cumprimentava. Saía de casa vestido de anjo, voltada de drag e saía novamente de pai de santo… Ninguém entendia. Agora eu sou o mais querido do prédio. (risos)

De onde veio a inspiração para o Christian?

Dos meus amigos gays. O personagem tem um pouquinho de cada um deles. Eles são ácidos, venenosos – e agridoces. E, agora, que eu fiquei mais famosinho eles não me dão mais trégua. Presto atenção em tudo que eles falam. Tem um amigo que é muito engraçado, ele fala: ‘Ai, você não tem vergonha na cara? Não, tenho pancake.’ Esse veneno vem deles.

E você é gay?

Posso pular essa pergunta?

O.k., gosta de moda, como o Christian?

Tenho algumas manias na minha vida: sou louco pela Madonna…

Acaba de responder a pergunta anterior.

(risos) Não vale! O Guy Ritchie também gosta da Madonna e não é gay! (Guy Ritchie é o marido de Madonna)!’

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O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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