Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 9 E 10/2

O Estado de S. Paulo

12/02/2008 na edição 472

CARTÕES DO GOVERNO
Pedro S. Malan

Nonada?

‘Sabe o leitor quantas vezes a palavra ´direitos` aparece em nossa Constituição? Pois bem, uma rápida consulta indica o total: nada menos que 74 vezes. E a palavra ´deveres´, caro leitor ou leitora? Apenas cinco vezes, o mesmo número que a expressão ´dever do Estado´. Esta relação tão díspar entre direitos e deveres talvez diga algo sobre nós mesmos, sobre a sociedade que construímos ´neste país´. Em particular sobre o excesso de expectativas acerca da ação do Estado no processo de assegurar direitos e assumir responsabilidades, deveres e obrigações para com a sociedade e os indivíduos que a constituem.

Começo este artigo com essa observação por duas razões. A primeira tem que ver com esta farra no uso dos cartões de crédito corporativos por muitos dentre os milhares de servidores públicos que, certamente, se consideram no exercício de um direito: afinal, um cartão lhes foi confiado para os gastos que considerassem ´necessários` ao exercício de suas funções ou ao funcionamento dos órgãos a que pertencem. Que houve abuso flagrante é evidente, como demonstrou a imprensa – e não os órgãos do governo encarregados de fiscalizar esses usos e de coibir exemplarmente os abusos. ´Excesso de transparência é burrice´, como dizia Delúbio, e ´transparência pode comprometer a segurança´, como diz o general. O fato é que parece estar em curso aquilo que o mestre Guimarães Rosa chamou de ´condena de absolvido´. Pequenos desvios e talvez alguns erros menores tenham sido cometidos aqui ou ali, mas nada que comprometesse ´o grande salto para a frente` em que estariam empenhados, desde 2003, o governo e seus 37 ministros. O resto seria intriga de uma oposição invejosa. Muito barulho por nada. Coisas de carnaval. Falta do que fazer. Pequenos assassinatos para pequenos delitos. Preocupações ´neurótico-obsessivas` com relações espúrias entre os domínios público e privado. Nonada.

A segunda razão do parágrafo inicial deste artigo está ligada ao fato de que, meses atrás, terminei artigo neste espaço com a seguinte observação. ´A importância dos próximos três anos – e dos quatro que se lhes seguirão – reside exatamente na oportunidade histórica de nos livrarmos de vez dos mais primitivos falsos dilemas e de reduzirmos a extensão e a profundidade destas ambigüidades não resolvidas, particularmente onde elas se apresentam de forma mais aberta no imaginário e na prática deste governo e de suas bases: o papel do setor público no processo de desenvolvimento econômico e social do País.´

Este não deveria ser um debate ideológico, eivado de academicismos baseados em leituras de experiências históricas de séculos anteriores. Estamos em pleno século 21 e acredito que a maioria das pessoas que já leram ou refletiram sobre o tema (inclusive a maioria dos economistas tidos como liberais) endossaria os exemplos abaixo de atividades necessariamente de responsabilidade do Estado e de transitórios governos: manutenção da lei, da ordem e da segurança pública; representação externa e defesa nacional; administração da justiça; preocupação com a qualidade da legislação sobre educação, saúde e bem-estar da população; regulação da competição entre interesses econômicos conflitantes; e, por último – e, para muitos, não menos importante -, a ´promoção do desenvolvimento nacional´.

Mas a expressão ´promoção do desenvolvimento nacional´, para resumir ao extremo, deveria ser interpretada como a busca, incessante, por essencialmente três coisas. Primeiro, por aumentar a eficácia e a eficiência das ações operacionais do governo em todas as áreas mencionadas no parágrafo anterior, em particular a busca por maior eficiência nos gastos públicos em consumo e investimento. Segundo, por criar condições mais favoráveis à poupança e, principalmente, ao investimento privado e à elevação da produtividade do trabalho e do capital e da competitividade internacional do País. Terceiro e, felizmente, algo que após quase 14 anos acabou – esperemos – por deitar raízes entre nós, a busca pela preservação da estabilidade macroeconômica como condição absolutamente necessária, ainda que não suficiente, para assegurar o crescimento sustentado e os níveis de relativa previsibilidade de um país que se pretende ´normal` e confiável.

Vale notar que as observações acima não têm que ver com ideologias. O historiador britânico Tony Judt, em seu recente e excelente livro sobre a Europa no pós-guerra (Postwar), escreve: ´A divisão esquerda-direita ainda faz sentido em termos históricos, que dizem respeito a tradições políticas. Mas faz cada vez menos sentido quando se discutem políticas públicas concretas. O futuro da Europa não se ajusta a estas noções do passado.` O invejável pragmatismo dos chineses procurou expressar o mesmo com a frase famosa de Deng Xiao Ping, o grande arquiteto do extraordinário sucesso do país: ´Não importa a cor do gato desde que cace ratos.` Com eficiência.

Sabe o leitor quantas vezes a palavra ´eficiência` aparece em nossa Constituição de 1988? Duas vezes. E a palavra ´produtividade´? Uma vez. Como os 74 direitos e os cinco deveres, talvez isso diga algo sobre nós mesmos e a sociedade que estamos construindo. Mas não posso deixar de registrar um avanço. A contagem acima foi feita teclando Ctrl L no texto da Constituição original. A versão atual, com todas as emendas desde então, registra três vezes a palavra ´eficiência` e quatro vezes a palavra ´produtividade´.

Não é preciso que este número de registros aumente na Constituição. Mas seria extraordinário para o desenvolvimento econômico, social, tecnológico, político e cultural do País se os debates públicos ao longo de 2008, 2009 e 2010 pudessem incorporar, definitivamente, o significado substantivo das palavras ´eficiência` e ´produtividade´, ao lado dos tradicionais e importantes objetivos de ampliação dos espaços para a liberdade individual e a justiça social.

Pedro S. Malan, economista, foi ministro da Fazenda no governo FHC E-mail: malan@estadao.com.br’

 

Guilherme Scarance

Escândalo começou com recorde de gasto em 2007

‘O escândalo dos cartões começou em 13 de janeiro, quando o Estado revelou que essa modalidade de despesas havia batido o recorde no governo Lula, atingindo R$ 75,6 milhões em 2007, aumento de 129% em relação a 2006. A ministra da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, liderava a fatura do primeiro escalão. A revelação fez surgirem novas suspeitas: ela fizera gastos até em free shop. Cobrada pela oposição e pelo próprio Lula, Matilde se demitiu no dia 1º de fevereiro.

Dias antes, o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) começara a recolher assinaturas para abrir uma CPI mista destinada a investigar o uso do ´dinheiro de plástico´. O Tribunal de Contas da União (TCU) resolveu esmiuçar os dados e o Ministério Público decidiu apurar os gastos de Matilde e dos ministros Altemir Gregolin (Pesca) e Orlando Silva (Esporte).

Um dia antes da queda de Matilde, o governo baixou um pacote – reduziu os saques a 30% do limite do cartão e vetou o uso para aluguel de carro, salvo em caso excepcional. A crise não cedeu e o titular dos Esportes se antecipou, devolvendo cerca de R$ 31 mil. Vieram à tona gastos dos cartões da Presidência e o governo, por meio de seu líder Romero Jucá (PMDB-RR), coletou assinaturas para abrir uma CPI no Senado abrangendo o governo Fernando Henrique. A oposição ainda insiste na CPI mista.’

 

Denise Madueño

´Lula deve ser elogiado pelo uso dos cartões´

‘O ministro da Justiça, Tarso Genro, disse ontem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria ser elogiado pelo uso dos cartões corporativos, alvo de denúncias que já levaram à demissão da ministra da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro. Tarso afirmou que a investigação dos gastos dos cartões deve ser comparativa entre a gestão Lula e a do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), quando o sistema foi implantado.

´A transparência (nos gastos dos cartões) foi inaugurada pelo governo Lula. E o governo Lula deveria estar sendo elogiado´, afirmou o ministro. ´Vamos investigar os cartões, os últimos dez anos, e vamos ver quem tem mais transparência e mais cuidado com o recurso público e quem mais combateu a corrupção. Vai dar o governo Lula na ponta´, disse, ao chegar à sede do PT, em Brasília, para a posse do novo diretório e a eleição da Executiva Nacional.

O ministro classificou de ´artificial` a crise gerada pelas denúncias de uso irregular dos cartões e acusou a oposição de explorar o tema porque está sem propostas para o País. ´A oposição fraudou todas as suas expectativas e agora quer criar uma crise artificial com os cartões´, afirmou.

Após reunião com o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, defendeu a criação de uma CPI para investigar o uso dos cartões, sem se comprometer com qual deveria ser o alcance da apuração e mesmo se ela deveria ser mista ou apenas do Senado ou da Câmara. ´Isso quem decide é o Congresso´, afirmou. ´A CPI vai servir para esclarecer sem buscar culpados. Se alguém fez mau uso do cartão deverá ser punido, mas a culpa não é do cartão, mas de quem o usou mal.`

A cúpula do PT voltou a defender Matilde Ribeiro na reunião da direção nacional. Os integrantes do partido referendaram nota divulgada no começo do mês, quando ela pediu demissão. ´O erro da Matilde foi administrativo e já foi corrigido. Estão querendo transformar isso numa questão política. Não houve má-fé por parte da ministra´, afirmou o presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP).

Ele disse que a pasta da Igualdade Racial será mantida com o PT, numa reação às articulações do PDT, que tenta emplacar o ex-deputado Caó no posto. ´A vaga é do PT. Até porque a ministra Matilde Ribeiro fez uma gestão brilhante´, afirmou.

Petistas que foram à posse do novo diretório preferiram tratar a crise dos cartões como um tema menor. O deputado Maurício Rands (PT-PE) disse que o caso de Matilde está na categoria de ´erros administrativos´. ´Se dermos a dimensão que o uso dos cartões não tem, não estaremos contribuindo para o País´, disse Rands, que deverá assumir na próxima semana a liderança do partido na Câmara.’

 

Vera Rosa e Lu Aiko Otta

´Se é para ficar com desgaste, vamos fazer logo uma CPI´

‘Dias depois de ter batizado a tentativa de investigar a farra dos cartões corporativos com o sugestivo nome de ´CPI da tapioca´, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, foi obrigado a defender a proposta, adotada pelo governo a contragosto para se antecipar ao bombardeio da oposição no Congresso. Mas, embora engrosse o coro dos que querem ampliar a apuração para vasculhar despesas do governo Fernando Henrique Cardoso, o ministro afirma que o foco da CPI não pode ser familiar.

´Não vamos jogar tapioca no ventilador´, diz Bernardo. ´Não temos de mexer com a família nem do presidente Lula nem do ex-presidente FHC.` A tapioca que tem provocado indigestão no governo custou R$ 8,30, pagos indevidamente com cartão corporativo pelo ministro do Esporte, Orlando Silva, em maio do ano passado, num restaurante de Brasília.

Apesar dos escândalos que cercam o cartão corporativo, por causa do uso irregular, Bernardo defende o mecanismo para pagamento de pequenas despesas, por considerá-lo mais fácil de fiscalizar. Recomenda, porém, que ministros não usem o dinheiro eletrônico, para evitar problemas, e anuncia mudanças no método de prestação de contas.

Nesta entrevista ao Estado, Paulo Bernardo diz que o Planalto não pode continuar na berlinda, apanhando por erros alheios. ´O governo tem obrigação de explicar seus gastos, mas isso não quer dizer que temos de ficar quietos com demonstrações explícitas de demagogia´, argumenta o ministro, numa referência aos ataques dos adversários.

Munido de tabelas recheadas de números, o ministro do PT jura, ainda, que o governo Lula leva vantagem sobre a administração de Fernando Henrique na comparação dos gastos. ´Talvez de um lado tenha tapioca e, de outro, queijo emental ou brie´, provoca.

O governo mudou de estratégia e propôs uma apuração dos últimos dez anos, para atingir o governo Fernando Henrique. Por que o sr. foi voto vencido?

Eu acho que seria dispensável fazer uma CPI. Nós poderíamos fazer isso com auditoria, com acompanhamento público. Mas também não podemos ficar só apanhando. O governo tem obrigação de explicar os seus gastos, mas isso não quer dizer que temos de ficar quietos com demonstrações explícitas de demagogia. Não dá para tolerar uma pessoa fazendo discurso indignado quando a gente sabe que a indignação é tão falsa quanto os cabelos do cidadão.

De quem o sr. está falando?

Eu não estou falando de ninguém especificamente. Deputados e senadores da oposição diziam: ´Pode até não ter uma CPI na Câmara, mas vai ter no Senado.` Então, se é para ficar numa briga enorme, com um desgaste terrível, vamos fazer logo uma CPI e pôr os pingos nos ?is?. Nós não temos medo de CPI.

A intenção é comparar que governo gastou mais?

Isso é público. Em 2002, o volume de suprimento de fundos atingiu R$ 233 milhões. No ano passado, com os Jogos Pan-Americanos no Rio e com os dois censos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nós gastamos R$ 177 milhões. Em 2006, foram R$ 127 milhões. Eu vi um ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) dizendo que é preciso acabar com o cartão. Então vamos voltar a 1950? O que é isso, gente? Então vai ser tapioca para todo lado na CPI? Talvez de um lado tenha tapioca e de outro, queijo emental ou brie.

A intenção do governo de estender a investigação da CPI para o Legislativo e o Judiciário não é uma manobra para fazer com que tudo termine em pizza?

Por que vai virar pizza? Será que a oposição é contra estender a investigação, pegando de 1998 em diante? Se alguém acha que não pode incluir todos os órgãos, que peça para tirar.

O sr. acha que a oposição será favorável a fazer uma investigação abrangendo filhos do presidente Lula e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso?

Não temos de mexer com a família nem do presidente Lula nem do ex-presidente Fernando Henrique. Aí, sim, seria jogar tapioca no ventilador e isso nós não vamos fazer. A CPI é para avaliar se há problemas na execução dos gastos com cartão corporativo e nas contas tipo B (que funcionam como cartão, exceto pelo uso de cheques). Provavelmente, haverá incorreções dos dois lados, mas quero lembrar que as contas deles não têm a transparência do cartão, criado em 2001.

Se o governo constatou que as contas tipo B têm mais problemas que o cartão, por que esperou a porta ser arrombada para agir?

Não esperamos. Não é verdade.

Mas só depois dessas denúncias envolvendo a ex-ministra Matilde Ribeiro, da Igualdade Racial, que acabou deixando o cargo, é que o governo tomou providências…

Não seja injusta. A porta não foi arrombada. A porta foi escancarada pelo governo. Se alguém fez algo errado, vai ter que responder por isso.

Há despesas no mínimo estranhas, como a compra de esteira ergométrica por seguranças do presidente e a reforma da mesa de sinuca do Ministério das Comunicações. Como o governo explica esse tipo de gasto?

É preciso ver em que contexto as coisas se encaixam. Será que todas as compras estão erradas? Disseram, por exemplo, que alguém tinha gasto dinheiro num pet shop. Fomos verificar e era uma faculdade de Veterinária que teve de comprar remédio para cavalo. Quanto à mesa de sinuca, aparentemente isso está errado. Mas eu descobri que aqui no ministério temos uma sala que os servidores usam para sessão de cinema. Quer dizer que tem um projetor e um dia pode aparecer um gasto com conserto de projetor. Aí vão falar: ´Para que o Planejamento tem um projetor?` A gente tem de olhar essas coisas.

E a esteira ergométrica?

Normalmente as pessoas que fazem serviço de segurança são militares e têm de se exercitar. Essa curiosidade em torno dos gastos do governo é absolutamente normal e só é possível de ser saciada porque estamos colocando na internet todos os nossos gastos.

Mas, depois desses escândalos, o governo vai tirar informações sobre gastos da internet…

Não vamos tirar nada. Quando lançamos o Portal da Transparência, o presidente Lula disse que queria que os cidadãos ajudassem a fiscalizar o governo. Então não podemos agora reclamar que alguém esteja verificando os gastos e achando coisas que considera inconsistentes. Agora, eu duvido que na Alemanha alguém vá querer saber onde se compra alimento para a primeira-ministra Angela Merkel.Temos de administrar a demanda por transparência com segurança e bom senso. Por que vamos ficar dando sopa?

Por que o sr. está recomendando agora que ministros não usem mais o cartão corporativo? Eles são maus gastadores e esbanjam dinheiro público?

Não se trata disso. Mas não há motivo para um ministro ter um cartão para autorizar gastos para ele mesmo. É muito mais conveniente que isso seja feito por outro servidor. Foi esse o princípio que nos levou a enviar uma recomendação nesse sentido. Não é uma proibição, até porque um ministro não dá ordem para outro, mas acreditamos que a orientação será acatada imediatamente.

Substituir o uso do cartão pelo pagamento de diárias, quando os ministros estiverem em viagem, não é um retrocesso?

Não é retrocesso. Acaba com esse problema. Se um assessor do ministro viaja, por exemplo, ele ganha uma diária. Essa diária está muito defasada e estamos revisando a tabela. Agora, avaliamos que, no caso dos ministros, também poderíamos simplesmente pagar uma diária quando ele viaja.

Como é possível melhorar a prestação de contas de ministros e funcionários e impedir falcatruas?

Daqui a 60 dias ninguém vai poder mais dar cheque e em 90 dias a conta tipo B será encerrada. Estamos mudando o nosso sistema para que, mesmo nos casos dos saques autorizados, a prestação de contas seja feita pela internet: a pessoa vai ter de informar CGC, razão social, tudo. Daqui para a frente, o próprio gestor vai pensar antes: eu posso consertar uma mesa de sinuca? Se eu fizer isso, não vão dizer que estou gastando dinheiro público à toa?

O presidente Lula não está preocupado com essa novela interminável dos cartões?

O presidente tem todo o interesse em que essas coisas sejam as mais claras possíveis. Quando o consultamos sobre a possibilidade de o governo apoiar a abertura de uma CPI, ele disse: ´Vamos em frente, tem que fazer isso mesmo. Temos que passar todos esses assuntos a limpo.´

Mas para que os aliados não cobrem uma fatura ainda mais alta, o governo negocia cargos no setor elétrico. Quando serão concluídas essas negociações?

Até onde eu sei isso está tudo praticamente concluído. A partir daí, vamos pegar os currículos que não tiverem sido aproveitados e deixar para o próximo governo.

Os aliados dizem que, se esses cargos não saírem nesta semana, o governo pode ter problemas em votações importantes, como na do Orçamento…

O governo sempre tem problemas em votações importantes no Congresso, mas geralmente conseguimos aprovar aquilo que é de interesse.

O sr. não teme que a gastança com os cartões dê argumento para deputados e senadores na votação do Orçamento da União, já que ninguém aceita o corte nas emendas parlamentares para compensar a perda de receita com o fim da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF)?

Isso pode acontecer, mas temos de pôr as coisas em proporção. Estamos falando de gastos com cartão de R$ 78 milhões. Só as emendas individuais dão R$ 4,7 bilhões e as coletivas chegaram a R$ 12 bilhões no ano passado.

O governo vai mesmo cortar R$ 20 bilhões do Orçamento ou a tesourada pode ser reduzida?

Nós temos obrigação de cortar R$ 20 bilhões. Imediatamente após a votação da CPMF, quando fomos derrotados, o presidente chamou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e falou: ´Anuncie que vamos manter o superávit primário.´

Mas desde a derrota do governo na votação da CPMF, o ministro da Fazenda parece enfraquecido no governo. Ele não está numa situação muito confortável…

A CPMF é coisa do passado. Ministro da Fazenda fraco já é forte o suficiente. É como você achar que o leão é velho e pode chutar a perna dele. Aí ele arranca a sua perna. Não tem esse negócio de ministro fraco. Mesmo que não tivéssemos cometido erros na negociação da CPMF, dificilmente conseguiríamos renová-la porque a oposição queria paralisar o governo. O ex-presidente Fernando Henrique chegou a dizer: ´Vamos tirar dinheiro do Lula.´’

 

TELEVISÃO
Patrícia Villalba

O charme da maldadezinha

‘Carolina Ferraz está preparada para ser cobrada pelos noveleiros mais cuidadosos, para ser xingada na rua, enfim, para receber um tipo de glória que só um vilão dos bons proporciona a um ator. No dia 18, ela volta à TV como a engenheira Norma, sua primeira vilã, na nova novela das 7, Beleza Pura. Já se divertindo, ela fala ao Estado sobre a personagem e sobre seu momento ´uma linda mulher´, quando contracenou num comercial de cosméticos com Richard Gere.

O que você pode contar sobre sua primeira vilã?

É, nunca tinha feito uma vilã mesmo. Ela é uma engenheira aeronáutica, que trabalha numa empresa de helicópteros, e é apaixonada pelo personagem do Edson (Celulari), o Guilherme. Eles são amigos desde a faculdade, mas ele sempre a tratou como uma colega, tipo brother. E ela, por amor, acaba se metendo numa série de coisas que movimentam a trama.

Se a Norma age por amor, ela está perdoada? Então, não é uma vilã que vai ser odiada?

Acho que ela é do tipo que será odiada, sim, é muito má. A gente, como ator, tenta defender, né? Eu gosto dela, mas não tenho ilusões – as pessoas vão odiá-la. Mas, talvez não, né? Os vilões de hoje são tão mais charmosos… E as pessoas gostam de uma maldadezinha. E ela tem humor, tem seu charme.

Por falar em humor, a melhor amiga da Norma é a Suzy, interpretada pela Maria Clara Gueiros, que é comediante. O que esperar das cenas de vocês?

É uma sensação, adoro comédia. Tenho muitas cenas de humor com ela, mas minha personagem não é engraçada. Dá vontade de fazer uma gracinha, mas não posso.

A Norma é fina e bem-sucedida, termos que sempre são usados para definir você. É mais fácil interpretar assim?

Acho que sou um soldadinho numa guerra, com um bando de generais mandando em mim. Procuro obedecer da melhor maneira e vou para as minhas trincheiras com a maior dignidade possível. No caso dessa personagem, minha identificação é pequena, porque sou uma pessoa muito mais descontraída.

E como foi gravar com Richard Gere?

Foi maravilhoso, a equipe era ótima. O próprio Richard foi muito objetivo, solícito, fez piada. Foi muito mais fácil trabalhar com ele do que com 70% das pessoas com quem trabalhei aqui. Não tem espaço para frescura, sabe? O negócio dele é ser profissional.’

 

Alline Dauroiz

Agora, a praça é deles

‘O cenário é a Praça da Sé e a platéia, o povão. No quadro Rádio Canabrava, do programa Show do Tom, na Record, o público participa da atração e funciona como termômetro do gosto do telespectador. Se aprova, aplaude na hora. Se não, a vaia é certa.

Tudo é sem armação. Pelo menos é o que garante o produtor responsável, Marcelo Suner. Segundo ele, quem participa é escolhido na hora. Muitos já sabem que a gravação é semanal e procuram a produção.

´O intuito é não fazer nada montado. Queremos escutar o a risada do público e não ter riso gravado. O espectador de casa deve se sentir na praça.´

A idéia do corpo a corpo com o povo é de Tom Cavalcante e, pela popularidade, em breve o quadro irá invadir outras praças do País.

SEM LUXO: De 5 a 10 minutos é o tempo que Vinícius e Carlos Alberto demoram para se montar. Os camarins são, na verdade, tendas improvisadas

TURMA NOVA: Vinícius Vieira e Carlos Alberto da Silva chegam à praça com os mesmos personagens que faziam no Pânico: Mano Quietinho e Mendigo. Vieira, que também faz Gluglu, irá ´disputar` audiência com o sósia de Faustão. ´O Pânico é a melhor escola para começar. Tudo lá é mais precário. A Record tem mais estrutura. Tomara que o público aceite nosso humor mais sarcástico´, diz Silva

PEREGRINOS: Rogério Rezende, de 26 anos, Andressa Pereira, de 15, e Carla Mussato, de 30, gastaram R$ 300 para vir do Rio, só para tirar fotos da gravação

CAMAROTE AO AR LIVRE: Um dia de gravação da Rádio Canabrava chega a juntar 3 mil pessoas. Crianças, gestantes e portadores de deficiência são colocados para dentro do alambrado, em uma espécie de ´assento preferencial´

CARA LAVADA: Vinícius (Mano Quietinho), Robson Bailarina (Insonia Abrão), Pedro Manso (Fala Silva) e Carlos Alberto (Mendigo) recebem o texto pronto, mas, na gravação, o que reina são piadas de bastidores e improviso

MISS CANABRAVA: Um concurso escolheu a musa do quadro, apelidada de Sméagol (do filme O Senhor dos Anéis). Cerca de 75 pessoas da platéia participaram da gravação’

 

Etienne Jacintho

´Na TV, o pagamento é garantido`

‘Quando William Baldwin entrou no set de Dirty Sexy Money para falar com alguns jornalistas, foi impossível não notar seu charme e a semelhança com o irmão Alec, mas foi mais difícil ainda não lembrar das piadas do South Park sobre a família Baldwin. O ator pareceu entusiasmado com o alcance de Dirty Sexy Money. ´A série está em todos os continentes, certo?´, perguntou à sua assessora. ´Deve haver uns 80 ou 90 países na lista! Isso é ótimo… Quer dizer, deve ser. Não sei se devíamos estar em cem países e só estamos em 80.` A assessora lança um olhar de reprovação, que foi repetido inúmeras vezes durante a entrevista.

Como é seu personagem?

Patrick Darling é o mais velho dos irmãos e um político. Ele é casado, tem dois filhos e vive um segredo: uma vida pessoal conturbada como o bom e velho Bill Clinton (risos)! Nem tanto… Meu personagem está tendo um caso com apenas uma pessoa fora do casamento e não dúzias… (risos)!

Por que aceitou esse papel?

O que me atraiu foi o fato de a série ter múltiplos gêneros – drama, comédia, novela… O criador é um cientista maluco. Não quero falar que é gênio, mas é isso. Isso sem falar no elenco e, claro, no papel. Adorei a oportunidade de interpretar o lado político do personagem, mas também o cômico e o dramático. E contracenar com Candis (Cayne), que eu não conhecia – só sabia do romance com o transexual. Me perguntam se fiquei nervoso como o enredo, mas essa foi uma das maiores razões para querer o papel.

Quando você decidiu se envolver com televisão?

Há uns dois anos, tentei produzir uma série. Tive projetos com Tom Fontana, Sidney Pollack, Chazz Palminteri…

Mas por que atores como você decidiram abrir essa porta?

Acho que na TV há mais controle criativo dos roteiristas e mais dinheiro. Por isso os roteiristas começaram a circular nesse meio, primeiro na HBO, Showtime e FX, mas agora também em redes abertas. Os roteiristas conseguem manter mais a autoria e ganhar muito mais dinheiro. E os atores vão onde está o bom material. O mercado está mudando. Sou casado e tenho três filhos. O nível da TV está melhor e você tem pagamento garantido.

É um estilo de vida para atores com filhos?

São poucos os atores que conseguem emendar trabalhos. Geralmente, você termina um filme e volta para sua vida de desempregado, tentando descobrir o que virá. E, às vezes, nada aparece por seis, oito meses. Na TV, você tem a segurança de saber que fará esse trabalho por um ano, dois, três… Quando fizeram a encomenda de uma 2ª temporada completa, foi ótimo, pois sei que terei trabalho até lá e posso escolher se farei uma peça, um filme ou se viajarei com meus filhos durante a entressafra de temporadas.’

 

SEGURANÇA E PRIVACIDADE
Simon Jenkins

A Grã-Bretanha sob o terror da vigilância

‘A máquina está descontrolada. A vigilância dos indivíduos na Grã-Bretanha está tão difundida que nenhuma fiscalização democrática é remotamente plausível. Em 2006, cerca de 800 organizações – incluindo a polícia, o Fisco e os governos central e local – ordenaram, e quase sempre conseguiram, 253 mil intromissões na privacidade de cidadãos, um recorde que foi muito além do registrado em qualquer outro país do mundo livre.

O caso do deputado trabalhista Sadiq Khan lançou completamente por terra a tese, muito querida pelo ex-primeiro-ministro Tony Blair e pelo atual, Gordon Brown, de que qualquer aumento de poder do Estado é sustentável porque os ministros têm o controle. No entanto, no caso dos grampos telefônicos, dispositivos de escuta, cartões de identidade, vigilância por vídeo ou prisão sem julgamento, isso é simplesmente uma mentira. Ninguém consegue controlar esta torrente de intrusões. Ninguém consegue controlar uma barragem que se rompe.

Khan, líder da bancada do governo, foi supostamente alvo da polícia pelo fato de ser um ´advogado de direitos humanos` e teve suas reuniões com um cliente na prisão gravadas. De qualquer maneira, a escuta aniquilou a ´Doutrina Wilson´, segundo a qual parlamentares não podem ser objeto de escuta.

O machismo da segurança alega que, na ´era do terrorismo´, os homens de verdade devem grampear tudo e todos. O ex-chefe da Scotland Yard John O?Connor insinuou esta semana que a polícia seria negligente se não grampeasse o telefone de alguém que eles – repito, eles – considerassem uma ameaça. A tese de Blair, de que ´o 11 de Setembro mudou tudo´, hoje é o sinal verde para qualquer consultor de segurança, vendedor de aparelhos de vigilância ou algum ministro trabalhista que queira exibir a sua força nos tablóides.

Há anos um advogado forneceu-me a prova incontestável de que uma conversa telefônica com seu cliente fora grampeada pela polícia e enviada para a Promotoria. Esse grampo supostamente exigia um mandado pessoal da parte do ministro do Interior. Quando confrontado com a questão, o ministro negou categoricamente e disse que nunca teria autorizado uma escuta. Voltei a examinar o caso com o chefe da polícia que me respondeu em meio a gargalhadas: ´O ministro do Interior está absolutamente certo. Ele deve autorizar todos os ?grampos? enviados a ele para aprovação. Mas não, é claro, o restante.`

A triste realidade no caso da semana passada é que vimos uma grande parte do establishment britânico permitindo-se acreditar que as conversas particulares entre um advogado e seu cliente, e entre um parlamentar e seu constituinte, não podem ser mais consideradas ocorrências imunes à vigilância do Estado. Dessa maneira, um princípio fundamental de uma democracia livre foi, friamente, abandonado. Não é uma vitória da segurança nacional. É a vitória do terrorismo.

A organização de monitoramento Privacy Internacional deu à Grã-Bretanha a pior nota na Europa em se tratando desse tipo de vigilância. Na verdade, foi a pior nota entre os países do chamado ´mundo democrático´, colocando-a ao lado de ´sociedades de vigilância endêmica´, como Rússia e Cingapura. Mark Kearney, policial do Vale do Tâmisa que grampeou a conversa de Khan na prisão de Woodhill, disse ter protestado, alegando ser ´antiético´, mas foi desautorizado e ficou sob ´forte pressão` por parte da polícia. Depois disso, teve de deixar o emprego. Essa história parece o roteiro do filme de espionagem alemão A Vida dos Outros.

Esse péssimo histórico da Grã-Bretanha é resultado da fraqueza do governo em relação a seu aparelho de segurança. Mesmo entre supostos liberais, a resposta é exigir não menos vigilância, mas mais fiscalização. David Davis, porta-voz dos conservadores no Parlamento, disse semana passada que ´deve haver controle´. A defensora de direitos humanos, Liberty, deseja ´leis sobre vigilância mais vigorosas e mais simples, com mandados emitidos por juízes, não policiais ou políticos´.

As pessoas vêm dizendo isso há anos. A Grã-Bretanha tem uma burocracia de fiscalização kafkiana, que está no mesmo nível daquela que pretende supervisionar. Cerca de seis monitores de fiscalização separados estão dirigidos a eles próprios. Tudo é operado secretamente. A distinção feita pelo ministro da Justiça, Jack Straw, entre um grampo ´intrusivo` e um ´dirigido` ilustra o estado de confusão que prevalece.

Quando o conselho pode grampeá-lo por ter depositado lixo em local proibido, quando as prisões podem gravar as conversas dos advogados de defesa, quando qualquer ato potencialmente criminoso pode justificar uma violação eletrônica da privacidade, e quando ministros recorrem à desculpa usada pelo ditador, de que ´o inocente não precisa temer´, os sinos de alerta devem começar a soar.

Não existe nenhum ´equilíbrio` a ser alcançado entre liberdade civil e segurança nacional. A liberdade civil é absoluta e a segurança é sua serva. Medidas são necessárias para proteger a população, mas é preciso traçar uma linha rigorosa em torno delas, em que algum risco precisa ser aceito, ou então um Estado controlado está cada vez mais próximo.

Quinhentos milhões de ocorrências desse tipo na Grã-Bretanha estão além de todo o poder de controle de políticos ou dos encarregados da fiscalização. É paranóia estatal, justificada apenas pela ´guerra contra o terror´. Na verdade, não está havendo uma luta contra o terror, mas ela está sendo promovida. Essa vigilância em massa é um dos venenos que os terroristas procuram injetar nas veias da sociedade civil. Mais fiscalização não vai solucionar o problema da vigilância, mas ocultar sua proliferação.

Afirmar que a Grã-Bretanha é um estado policial pode ser um insulto para aqueles que são vítimas da polícia verdadeira. Mas não tenho dúvidas que ministros fracos estão se encaminhando nesse sentido, empurrados pelo complexo industrial e de segurança. Não é a fiscalização que precisa ser aumentada, mas as categorias e as fronteiras da vigilância que precisam ser drasticamente controladas.

Naturalmente, existem pessoas que desejam explodir bombas na Grã-Bretanha. Os contribuintes gastam uma fortuna tentando detê-las. Mas o quão freqüentemente devemos nos lembrar de que essas pessoas não precisam matar para atingirem o seu fim quando aplacamos seu anseio pelo martírio da repressão? O volume de casos de vigilância na Grã-Bretanha é grotesco. É um sinal da corrupção do poder e nada mais.

*Simon Jenkins é colunista do ?The Guardian?’

 

TECNOLOGIA
Renato Cruz

Conteúdo chega à internet pelo celular

‘Houve um tempo em que o computador era o centro do universo da tecnologia. Não mais. Com a evolução da banda larga sem fio, os celulares se tornam cada vez mais ferramentas para enviar texto, fotos e vídeo para a internet. Uma pesquisa feita pelo The Future Laboratory para a Nokia, fabricante de celulares, ouviu criadores de tendências em 17 países, incluindo o Brasil. Ela mostrou que 42% dos entrevistados brasileiros com idade entre 18 e 34 anos publicam conteúdo na internet pelo celular. Dezoito por cento atualizam seu blog via celular.

Alexandre Fugita, de 31 anos, é blogueiro profissional. Tem três blogs – Techbits, CinemaLido e Meta.blog -, que eventualmente atualiza pelo celular, um Treo, da Palm. ´Já postei muitas coisas via celular, principalmente quando estava em eventos´, disse. O aparelho que ele usa tem teclado alfanumérico. Ele afirmou que consegue escrever nele quase tão rápido quanto num computador.

Apesar da facilidade na escrita, o blogueiro ainda considera trabalhoso editar fotos e fazer links no telefone móvel. ´No computador, dá para abrir várias abas no navegador para procurar os endereços para os links´, disse Fugita. ´No celular, é mais complicado. Se eu levo 15 minutos para fazer a edição final de um post (texto publicado no blog) no computador, com meia dúzia de links, no Treo eu levo o dobro.´

Ele tem algumas estratégias para driblar essas dificuldades. Quando vai a um evento, por exemplo, carrega antes uma imagem no blog, que fica à espera do texto. Quando passa muito tempo longe do computador, escreve no Treo, grava o texto e depois coloca os links num PC, antes de publicar.

Fugita também usa o Twitter, serviço de microblog. Os textos no Twitter podem ter até 140 caracteres. Ele publica no Twitter quando pensa em alguma idéia interessante e quer compartilhar com os amigos ou quando está em algum evento. ´O celular é o verdadeiro computador pessoal´, disse Fugita. ´O problema ainda são os custos dos pacotes de dados.´

Lu Monte, de 28 anos, criou os blogs Dia de Folga e Todo Dia uma Imagem. Esse último ela atualiza exclusivamente pelo celular. Além disso, Lu participa de três outros sites – Deusário, Balela.Info e Nossa Opinião – e usa o Twitter. Ela mora em Brasília e trabalha como assessora jurídica. Comprou um N70, da Nokia, em novembro passado, antes de uma viagem para São Paulo e para Belo Horizonte, para atualizar os blogs enquanto estivesse fora.

´Substituir 100% um computador ele não substitui´, afirmou Lu. ´A navegação às vezes é complicada, pois a maioria das páginas não está preparada para ser vista no celular.` Mas ela não acha complicado editar fotos no celular. ´O mais complicado são textos longos.` Como seu aparelho tem somente teclado numérico, ela carrega um teclado portátil na bolsa, com conexão sem fio por tecnologia Bluetooth.

Jesper Rhode, vice-presidente da Ericsson Brasil, fabricante de equipamentos de telecomunicações, conversou na sexta-feira com cinco jovens, com idades de 21 e 22 anos. ´Um dos problemas apontados por eles foi o preço´, disse o executivo. ´Historicamente, as operadoras subsidiam o equipamento e cobram mais caro pelo tráfego.` Ele apontou que, com a chegada da terceira geração (3G) da telefonia celular no País, o quadro começa a mudar. ´Os jovens acharam os preços razoáveis, mas quiseram ter certeza de que não existem condições com letras pequenas no contrato.´’

 

O Estado de S. Paulo

Yahoo vai recusar oferta da Microsoft, diz WSJ

‘O Yahoo deverá recusar a oferta de US$ 44,6 bilhões feita pela Microsoft, segundo divulgou ontem o jornal Wall Street Journal. A diretoria da empresa teria considerado a oferta ´muito abaixo do valor da companhia´, conforme uma fonte não oficial. A porta-voz do Yahoo se recusou a comentar a informação ontem.

Na segunda-feira, a diretoria do Yahoo deverá enviar uma carta à Microsoft explicando a decisão. Mas segundo informações iniciais, a alegação será que a oferta da Microsoft, de US$ 31 por ação, não considera os riscos de a fusão ser recusada pelas autoridades de regulação, informou o jornal. O Yahoo ainda deverá anunciar que não aceitará nenhuma oferta abaixo de US$ 40 por ação.

A diretoria do Yahoo teria considerado que a Microsoft tentou tirar vantagem da recente desvalorização do preço das ações para apropriar-se da companhia. A oferta de US$ 31 por ação representaria um prêmio de 62% sobre o valor das ações do Yahoo, cotadas a US$ 19,18 no dia anterior à oferta.

Anunciada no dia 1º de fevereiro, a proposta audaciosa da Microsoft é uma combinação de dinheiro e ações que tem como objetivo conter o domínio online do Google. Se fosse consumado, o acordo seria a maior aquisição da Microsoft e redesenharia o panorama de serviços ao consumidor na internet.

Na tentativa de derrubar a fusão, o presidente da empresa Google, Eric Schmidt, telefonou para o presidente do Yahoo, Jerry Yang, oferecendo apoio para que a empresa resistisse à Microsoft – e propondo até uma possível parceria entre as duas empresas.’

 

Ethevaldo Siqueira

O abismo digital que separa duas gerações

‘Encanta-me a facilidade com que garotos e adolescentes lidam com o computador, a internet, o celular e os jogos eletrônicos. Com sua surpreendente intuição, aprendem tudo e se adaptam às novidades em tempo recorde. ´Por terem nascido e crescido cercados pelas novas tecnologias, eles acham tudo fácil. Daí o nome de digital natives, ou seja, nativos digitais, que os norte-americanos lhes dão` – diz Descartes Teixeira, um dos pioneiros da indústria brasileira de software.

Bem diferente é o comportamento dos usuários com mais de 50 anos, diante do computador e da internet. Inibidos e desajeitados, eles sentem grande dificuldade em lidar com o mundo digital. Eu mesmo seria o que apelidei de analfabit – quer dizer, um analfabeto digital – se não estivesse envolvido até à raiz dos cabelos com a tecnologia da informação.

NATIVOS DIGITAIS

A maioria dos garotos e adolescentes não concebe o mundo sem as comunicações rápidas e universais de hoje. Muitos deles perguntam, com naturalidade: ´Pai, como era viver no seu tempo, num mundo sem computador, sem internet e sem celular?´

As empresas de serviço, de tecnologia da informação (TI) e, em especial, as da área financeira, deveriam dedicar mais atenção ao comportamento dos nativos digitais, como clientes. Cercados desde a infância pelo mundo digital, esses usuários já estão familiarizados com quase todos os avanços e paradigmas da tecnologia – entre os quais agilidade, flexibilidade, precisão, sons e imagens da eletrônica e das comunicações modernas. Por tudo isso, eles são clientes muito mais exigentes e menos tolerantes diante das falhas, demoras, imprecisões e outros problemas que afligem a maioria dos usuários de call centers, dos telefones 0800 ou dos terminais de auto-atendimento.

E no futuro, os novos usuários deverão ser ainda mais exigentes. Descartes Teixeira pergunta: ´Será que nossos filhos ou netos, hoje adolescentes, quando se tornarem clientes, digamos, dos sistemas financeiros, daqui a 7 anos, em fevereiro de 2015, aceitarão relacionar-se com os fornecedores de serviço, por intermédio dos atuais call centers ou sistemas 0800? Terão eles paciência de esperar mais de dez minutos por uma resposta a uma questão simples sobre sua conta bancária ou o seu crédito solicitado?´

O CASO DA 3G

Poucas empresas de serviço, inclusive bancos e operadoras de telecomunicações, parecem entender a importância dessa profunda diferença entre duas gerações de usuários. Elas tratam os analfabits e os digital natives da mesma forma.

Com a chegada da terceira geração do celular (3G) nos próximos meses, as operadoras de telefonia móvel já deveriam estar preparando seus clientes para os serviços de banda larga com maior velocidade de transmissão, sistemas GPS de localização via satélite com imagens 3D, recepção de TV, comércio eletrônico e uma incontável lista de novos conteúdos disponíveis.

A 3G permitirá acesso à internet a 2,4 ou 3,6 megabits por segundo (Mbps), com placas em laptops ou desktops, aparelhos com tela sensível ao toque (touch screen, como no iPhone), computação móvel, download de fotos, vídeos e músicas em profusão.Adolescentes e crianças – prevêem os especialistas – deverão ser, em pouco tempo, usuários intensivos dos serviços 3G mais sofisticados. Até aí, nenhum problema operacional, pois o público jovem já domina ou irá dominar com facilidade a tecnologia digital e a banda larga.

Mas e os mais velhos? Vale lembrar que alguns dos serviços mais sofisticados dos smartphones 3G estão sendo concebidos exatamente para usuários cinqüentões, executivos e profissionais de maior poder aquisitivo e maior nível de escolaridade, mas que, como usuários, ainda parecem patetas diante da desenvoltura dos mais jovens no uso do celular.

De modo geral, as empresas de tecnologia digital – inclusive as celulares – parecem não ter consciência desse desafio. Tenho até a impressão de que elas não se preocupam muito com o abismo que separa as duas gerações de usuários.

Nunca, como hoje, o mundo nos impôs a necessidade de reciclar conhecimentos e habilidades. Imaginem se ficássemos estagnados no mesmo nível de conhecimento e preparo profissional adquirido quando deixamos a faculdade, há 30 ou 40 anos. Seja por iniciativa própria, como autodidatas, seja sistematicamente, via cursos regulares, temos que atualizar nossa cultura profissional, de forma incessante.

Nem as empresas nem o sistema escolar, infelizmente, investem nessa reeducação permanente. Está na hora, portanto, de dar muito mais atenção a essa reciclagem do cidadão – como cliente ou consumidor – pois num horizonte de apenas 5 ou 8 anos, estaremos ingressando na quarta geração (4G) do celular, com velocidades de transmissão entre 100 e 160 Mbps, aplicativos geniais e interfaces de usuário totalmente novas.

Por fim, embora pareça óbvio, é bom frisar que a atualização da cultura dos usuários aumenta a produtividade geral do País e beneficia a todos: ao próprio cidadão, às empresas e à sociedade.’

 

QUEM PAGOU A CONTA?
Ubiratan Brasil

Corrupção intelectual

‘A excursão de Louis Armstrong e Duke Ellington pela União Soviética e Leste Europeu, nos anos 1950; as revistas Encounter, Kenyon Review, New Leader e Partisan Review, todas seguidoras da esquerda democrática; a dificuldade do poeta chileno Pablo Neruda em ganhar o Nobel de Literatura – o que fatos tão distintos têm em comum? Uma participação secreta mas eficiente da Agência Central de Inteligência dos EUA, a CIA. Entre 1950 e 67, durante o auge da Guerra Fria, a agência investiu vastos recursos em um projeto com a intenção de afastar a intelectualidade, especialmente européia, de seu fascínio remanescente pelo marxismo e comunismo, buscando atraí-la para uma visão mais receptiva do ´estilo norte-americano´.

Assim, a CIA financiou apresentações de Armstrong e Ellington em terras comunistas disposta a erradicar a suspeita de que americanos eram racistas; garantiu o borderô daquelas revistas influentes para que divulgassem o estilo mais eficaz de propaganda, ou seja, aquele em que ´o sujeito se move na direção que você deseja por razões que acredita serem dele´; e eliminou qualquer possibilidade de intelectuais contrários a essa doutrina receberem prêmios merecidos por sua obra – como o Nobel para Neruda. ´Gostassem ou não, soubessem ou não, poucos foram os intelectuais da Europa do pós-guerra que não se ligaram de algum modo a essa iniciativa secreta´, observa, em entrevista ao Estado, a historiadora inglesa Frances Stonor Saunders, que pesquisou a ação da CIA na cultura para escrever Quem Pagou a Conta?, livro recentemente lançado pela Record (560 páginas, R$ 68).

Trata-se do fruto de um trabalho árduo, que consumiu vários anos. Até ver a obra publicada em 1999, Frances enfrentou a dificuldade imposta pela CIA para liberar o acesso a seus documentos. ´Enviei um primeiro pedido em 1992 do qual não tive resposta até hoje. No segundo, fui informada que o custo total para a liberação dos documentos seria de aproximadamente US$ 30 mil. E o responsável por essa liberação me confidenciou que, mesmo assim, as chances de eu ter acesso aos papéis eram praticamente zero.´

Frances sabia que cutucava um vespeiro, mas se aproveitou dos arquivos da iniciativa privada – instituições filantrópicas, como a Fundação Ford e a Rockefeller, aceitaram financiamentos da CIA, assim como outras organizações testas-de-ferro, criadas para oferecer a face em relação a contas e registros – para encorpar seu trabalho. Era o caminho aberto para descobrir que a agência de inteligência ocultava seu financiamento na cultura atrás de uma série de frentes de atuação.

O componente central da campanha foi o Congresso pela Liberdade Cultural, dirigido por Michael Josselson, um agente da CIA, entre 1950 e 67. Em seu apogeu, segundo a autora, o Congresso tinha escritórios em 35 países, empregava dezenas de pessoas, publicava mais de 20 revistas prestigiosas, realizava exposições artísticas, contava com um serviço de notícias e reportagens, organizava conferências internacionais amplamente divulgadas e recompensava músicos e artistas com premiações e apresentações públicas. ´Não tenho notícia de uma ação específica no Brasil´, responde Frances à pergunta do Estado. ´Infelizmente, como não leio em português, não pude me aprofundar nas ramificações latinas da CIA. Mas, ainda que indiretamente, tal ação pôde ser sentida nessa região.´

A intenção da agência de inteligência era vacinar o mundo contra o contágio do comunismo e facilitar a aceitação dos interesses americanos na política de outros países. A lista de pessoas cooptadas, segundo Frances, era imensa: entre outros, destacavam-se Isaiah Berlin, Hannah Arendt, Mary McCarthy, Arthur Koestler, Raymond Aron e George Orwell. Deste, Frances conta como foi modificado o fim da adaptação em desenho animado de A Revolução dos Bichos.

Foi pouco depois da morte de Orwell, em 1950 – os direitos foram cedidos pela viúva a uma empresa inglesa e o roteiro foi minuciosamente examinado pela Diretoria de Estratégia Psicológica da CIA, que concluiu ser o final nebuloso demais. Os problemas foram resolvidos com uma modificação no roteiro. No texto original, os porcos comunistas e os homens capitalistas formam uma mesma massa na podridão. ´Quem viu o filme assistiu a uma conclusão diferente, em que permaneceram apenas os porcos, incitando os outros animais a invadirem a fazenda´, comenta Frances. ´A fusão da corrupção comunista com a decadência capitalista foi desfeita.´

Outro tema de grande destaque tratado em Quem Pagou a Conta? é o apoio financeiro da CIA na divulgação da obra de pintores expressionistas abstratos. O que a agência via de produtivo no expressionismo era sua aposta na liberdade de expressão. ´Sendo não figurativo e politicamente silencioso, ele era a própria antítese do realismo socialista´, observa a autora. Com isso, diversas exposições foram organizadas, críticos de arte foram mobilizados e inúmeras revistas especializadas foram inundadas com artigos valorizando esse tipo de arte. ´O expressionismo tornou-se uma poderosa arma na Guerra Fria cultural.´

E quem se elevou como principal representante foi o pintor Jackson Pollock – encarnação da virilidade (eterno objetivo americano), ele usava uma técnica conhecida como pintura de ação, que envolvia deitar uma imensa tela no chão e derramar tinta sobre ela. ´No nó extravagante e aleatório das linhas que se entremeavam pela tela e ultrapassavam as bordas, ele parecia empenhar-se no ato de redescobrir a América´, escreve Frances.

O financiamento da CIA continuou até 1967, quando o jornal New York Times publicou uma série de artigos revelando tal estratégia. Intelectuais envolvidos reagiram raivosos, negando participação. Um membro da própria CIA, no entanto, Tom Braden, não só confirmou como detalhou como cada um recebia seu salário.’

 

Antonio Gonçalves Filho

O preço da expressão americana

‘A história contada pela produtora inglesa Frances Stonor Saunders em seu livro Quem Pagou a Conta? pode ser lida por qualquer internauta no próprio site da CIA, desde maio do ano passado. Sem segredos e com poucas omissões. Lá o interessado vai encontrar quase todas as informações sobre os motivos que levaram a Agência Central de Inteligência americana a criar, no crepúsculo dos anos 1940, uma organização destinada a patrocinar revistas, artistas e intelectuais em sua cruzada para promover a cultura americana na Europa. Numa Berlim devastada pela guerra, ocupada por americanos e soviéticos e ainda sofrendo os efeitos da derrota, três anticomunistas – o agente secreto Michael Josselson, o jornalista nova-iorquino Melvin Lasky e o compositor russo emigrado Nicholas Nabokov (primo do escritor)- criaram o que seria o embrião de um departamento da CIA, o Congresso pela Liberdade Cultural, ao planejar um primeiro encontro de intelectuais influentes no hotel berlinense Titania Palace, em junho de 1950, ao qual compareceram, entre outras celebridades, o dramaturgo Tennessee Williams e o historiador Arthur Schlesinger.

Ativo entre 1950 e 1967, o Congresso pela Liberdade Cultural chegou, no auge da Guerra Fria, a manter escritórios em 35 países, empregando dezenas de pessoas. Entre outras atividades, subsidiou em segredo a publicação de revistas culturais de prestígio (como a inglesa Encounter, nascida em 1953 e fechada em 1991) e organizou exposições por intermédio de fundações culturais (Ford, Rockefeller), além de bancar atividades tão díspares como a publicação de poemas de T.S. Eliot na Rússia ou ajudar (John Wayne) a distribuir mundialmente o primeiro desenho animado inglês, Animal Farm (A Revolução dos Bichos), lançado em 1954 e baseado no livro homônimo de George Orwell – ainda que com o epílogo modificado. No filme, somem os ´humanos capitalistas` para dar lugar a animais que, desconfiados, encararam tirânicos ´porcos comunistas´.

O congresso bancou também os pintores do expressionismo abstrato em solo europeu, assegura a autora. Essa contra-ofensiva ao avanço soviético no campo da cultura e da propaganda política rendeu dividendos. Saunders defende que o apoio da CIA foi vital para a sobrevivência de pintores como Jackson Pollock, Mark Rothko e Barnett Newman ou ainda de escultores como David Smith, autor da obra que ilustra esta página. Eles não teriam feito a carreira que fizeram sem esse patrocínio, sugere a autora. Discutível. A tese diminui a dimensão desses artistas que, adesistas ou não, produziram algumas das melhores pinturas e esculturas americanas do século que passou.

Ao reduzir Clement Greenberg, promotor dos expressionistas abstratos, a um amoral vassalo do serviço de inteligência americano, a autora esquece que o crítico foi o primeiro a sugerir, em 1948, num artigo para Partisan Review, que os EUA, com a migração de artistas e intelectuais, haviam se transformado no centro de gravidade do mundo industrial, do poder político e da produção cultural. Cabia, então, aos americanos dar uma resposta à arte do Velho Continente, à beira do sufoco após dar sinais de esgotamento com os ataques virulentos dos regimes fascistas europeus a artistas não-figurativos – não se pode esquecer que Hitler, tanto como Stalin, considerava o abstracionismo uma arte de degenerados.

De certa maneira, a autora de Quem Pagou a Conta? divide a mesma crença da crítica Eva Cockroft, que há 34 anos escreveu sobre o assunto na revista Artforum. Ambas tratam o expressionismo abstrato como uma invenção de críticos, museus, políticos e milionários (especialmente os da família Rockefeller) durante a Guerra Fria, uma estratégia destinada a influenciar e seduzir intelectuais europeus. Pode até ser que os expressionistas abstratos tenham recebido dinheiro de fundações para participar de exposições internacionais, mas é improvável que o espírito anárquico do etílico Jackson Pollock, sempre uma dose além de seus companheiros abstratos e visto como perigoso radical, tivesse consciência de estar sendo usado pela CIA como modelo do artista americano livre.

A Europa do pós-guerra era, de fato, um continente destroçado econômica e culturalmente, mas franceses e alemães sofisticados teriam renegado até a morte a idéia de consumir e aceitar qualquer porcaria imposta pelos americanos. O anticomunista Rothko, com ou sem dinheiro da CIA, foi um renovador da pintura. Pollock, é certo, podia encarnar o mito do herói americano, individualista, viril, voluntarioso, a resposta ianque ao comunista Picasso, mas seu talento certamente não vinha de seu discurso político. Vendia, sim, quadros para as famílias Guggenheim e Rockefeller (que financiou até o comunista Diego Rivera), mas era simplesmente pelo dinheiro que esses sobrenomes podiam oferecer. Pollock pouco se lixava para ideologias.

Se a proposta da CIA era fortalecer os dissidentes do comunismo e contra-atacar o violento antiamericanismo em vigor na Europa, então, por que patrocinar revistas como Encounter, que tinha entre seus colaboradores Albert Camus? Pelo mesmo motivo porque recrutou ex-comunistas como André Malraux e Arthur Koestler: conseguir a adesão de celebridades para o projeto ambicioso de provar que Stalin e seu realismo socialista não passavam de peças de museu e que a literatura (Mary MacCarthy), a música (Aaron Copland), a filosofia (Isaiah Berlin) e o teatro (Tennessee Williams) dos EUA eram o máximo. A América partia para a ofensiva com a ajuda de instituições de prestígio como o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), parceiro da CIA. Ersatz de um ministério da cultura americano, a agência tinha amplos poderes para criar e destruir reputações nessa Guerra Fria cultural, segundo Eva Cockroft e a autora do livro.

A CIA agia nos bastidores, explica a autora, porque muitos de seus colaboradores, entre eles Jay Lovestone (adaptado do sobrenome Liebstein), eram ex-comunistas – no último caso, um dos líderes do Partido Comunista americano que virou anticomunista ferrenho. Parece romance de John Le Carré, mas o fato é que o temível senador McCarthy estava em plena cruzada anticomunista (1950-1954) quando a CIA colocou para funcionar o seu Congresso pela Liberdade Cultural. Lovestone caía como uma luva como o agente secreto que faria a ponte entre os americanos e os intelectuais europeus anti-stalinistas, como o ativista de origem húngara (naturalizado inglês) Arthur Koestler (O Zero e o Infinito).

Essa história, a despeito de anunciada como nova por Frances Saunders, já é conhecida há mais de 40 anos. A revista da esquerda americana Dissent, editada por Mitchell Cohen e Michael Walzer, denunciou a estratégia da CIA num artigo publicado em 1962. Cinco anos depois, cedendo à publicidade hostil de intelectuais, a CIA fechou seus cofres e seu congresso cultural. O governo americano precisava do dinheiro para sustentar a Guerra do Vietnã e as ditaduras latinas. A cultura, a civilização, elas que se danassem.’

 

João Marcos Coelho

Reeducação da Alemanha passou pelos clássicos

‘Originalmente publicado em 1999 nos EUA, Quem Pagou a Conta? provocou o surgimento de reveladores estudos musicais que jogam luzes sobre períodos obscuros, sobre os quais não se tinha quase informação. A década 1945-1955 na Alemanha, por exemplo, só agora se torna bem conhecida, graças a três preciosos livros. Dois foram escritos por historiadores. São eles Music after Hitler, 1945-195, do inglês Toby Tacker (Ashgate, 2007), e Settling Scores, do canadense David Monod (Chapel Hill, 2006); e o terceiro, New Music, New Allies, é da musicóloga americana Amy Beal (Universidade da Califórnia, 2006).

A leitura deles dá o que pensar. Pela primeira vez, pensou-se em reeducar um país por meio da música clássica. Tacker, Monod e Beal constroem um painel minucioso que revela como os aliados realizaram esse projeto ambicioso e inédito, que buscou suas razões na própria Alemanha. O país dos três ´Bs` (Bach, Beethoven e Brahms), hegemônico na música clássica, fez dessa arte o motor de sua nacionalidade. Ou seja: os chefes dos comandos militares dos quatro países que ocuparam a Alemanha no pós-guerra estavam certos no diagnóstico e puseram em prática quatro projetos de reeducação a partir de 8 de maio de 1945, data da rendição.

´Há outros casos na história em que países que venceram uma guerra desejaram mudar a cultura das nações derrotadas´, diz Toby Tacker em entrevista ao Estado. ´Mas nenhum deles, até onde sei, chegou a propor algo parecido com a ?reeducação? da Alemanha depois de 1945. Isso faz desse episódio um experimento histórico único. Não conheço nenhuma outra situação de pós-guerra onde a música, especialmente a música clássica, tenha sido encarada como importante.` Os quatro comandos militares – EUA, Inglaterra, França e URSS – agiram de modo diverso frente à formidável tradição musical alemã. Americanos e ingleses abordaram o problema com um sentimento de inferioridade: preocuparam-se com a possibilidade de que fossem vistos pelos alemães como países sem música. E franceses e soviéticos misturavam sentimentos de devoção e rivalidade com relação à música alemã. Afinal, os quatro aliados tinham propósitos conflitantes a respeito do que aconteceu com a música na Alemanha de Hitler. Para ingleses e americanos, a música foi destruída por Hitler. Os franceses, apesar de reconhecerem a perseguição, sabiam que a vida musical alemã manteve alto nível durante o 3º Reich. Já os soviéticos compartilharam com os nazistas a veneração alemã pelos grandes músicos.

O país foi fatiado pelos vencedores. Os americanos instalaram seu centro de controle musical em Munique em maio de 1945, com ramificações em Leipzig, Wiesbaden e Frankfurt; os ingleses fixaram-se em Hamburgo; os franceses em Karlsruhe; e os soviéticos em Dresden. Os americanos foram os mais eficientes. Os números são impressionantes. Havia, na Alemanha, 11 orquestras em atividade entre 1943 e 1945. Dois anos depois, já eram 110. Em Berlim, 110 obras foram estreadas entre junho e dezembro de 1945. No ano seguinte, a música clássica era mostrada em mais de 200 teatros e salas. A própria Filarmônica de Berlim ressurgiu milagrosamente. Trinta de seus músicos foram mortos na guerra e muitos instrumentos foram confiscados pelo Exército soviético. Mesmo assim, ela fez seu primeiro concerto apenas 13 dias após a rendição. Há, aliás, detalhes curiosíssimos. O comando americano concedia ração de 600 gramas diários para os músicos da filarmônica, mas, compreensivo, autorizou uma ração reforçada de 900 gramas para os músicos de metais (trombones, trompetes, trompas, tubas).

Compositores como Cowell, Barber, Copland, Harris, Menotti e Piston foram contratados para difundir a música americana na Alemanha. Os EUA montaram bibliotecas de partituras e as colocaram à disposição dos músicos alemães. Entre junho de 1946 e junho de 1947, houve 374 concertos sinfônicos e camerísticos em toda a Alemanha. Em 1948, o maestro Leonard Bernstein fez uma turnê pelo país. No primeiro ensaio com a Orquestra da Bavária, os músicos fizeram greve de fome em sinal de protesto pela pretensa incapacidade e amadorismo de um americano que teve a petulância de liderá-los. Três horas depois, suspenderam o movimento, encantados com a competência e o charme de Lenny.

O rádio era o instrumento mais poderoso de difusão naquele momento; em 1949 os EUA controlavam cinco rádios e os parceiros aliados somente uma cada. Na programação, forte ênfase na música clássica, incluindo até esquetes sobre como se devia ouvir a música contemporânea. Aliás, o festejado Curso Internacional de Férias de Darmstadt, instituído em 1946 e símbolo da ´neue musik` de Stockhausen, Boulez e Nono, foi parcialmente financiado pelos americanos, revela Amy Beal ao Estado. Nos anos 50, nomes importantes da vanguarda, como John Cage, estiveram em Darmstadt financiados pelos EUA. Exilados europeus nos EUA, como Ernst Krenek, reclamaram dizendo que ´é preciso ir a Berlim para ver o governo dos EUA apoiar a arte moderna séria´.

´Darmstadt representava´, diz o historiador David Monod ao Estado, ´um novo fôlego para a cultura alemã. Os EUA os ajudaram também porque os nazistas tinham sido hostis à ?neue musik?. Era bacana promover a música experimental´.

Na verdade, como conta Saunders em Quem Pagou a Conta?, americanos tomaram gosto em promover a vanguarda nos anos 50 como forma de se contrapor ao realismo socialista da URSS já em plena Guerra Fria. ´A música clássica permaneceu como arma política importante na Guerra Fria´, conclui Monod. ´É, no entanto, uma pena que tenhamos todas estas informações sobre a guerra musical do lado ocidental, mas não exista nenhum estudo aprofundado baseado nos arquivos soviéticos. Seria esclarecedor ver como as coisas andaram no lado de lá.´’

 

CASA BRANCA
O Estado de S. Paulo

Um retrato íntimo da Casa Branca de Bush

‘The Dead Certain

Robert Draper

Free Press

480 págs., R$ 70

Robert Draper (autor de Rolling Stone Magazine: The Uncensored History) leva os leitores para o interior da Casa Branca ao oferecer um retrato íntimo e detalhado de uma década turbulenta na qual se desenvolveu a administração de George W. Bush. Com acesso às principais figuras do poder – de seis sessões tête-à-tête com o presidente a conversas com Laura Bush, Dick Cheney, Donald Rumsfeld, Condoleezza Rice, Karl Rove e outras 200 pessoas -, Draper realizou o que nenhum jornalista ou historiador conseguiu até agora: dizer a partir de dentro a história da Casa Branca comandada por Bush, mostrando como a personalidade do presidente afeta os eventos históricos no mundo.’

 

 

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