Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 18 E 19/08

O Estado de S. Paulo

21/08/2007 na edição 447

ENTREVISTA/LARRY ROHTER
Flávio Pinheiro e Laura Greenhalgh

Enfim, a hora de dar voz ao silêncio

‘Depois de permanecer calado por três anos e meio, jornalista americano conta, nesta entrevista exclusiva e em livro que finaliza, os bastidores da reportagem polêmica que quase o levou à expulsão do Brasil

Vida de correspondente estrangeiro não deve padecer de monotonia. Se padecer, algo está errado. Ou o correspondente é ruim ou o lugar onde vive, e trabalha, não merece mesmo cobertura especial. No caso de Larry Rohter, até a semana passada representante do New York Times no Brasil e demais países do Mercosul, a monotonia passou longe. Em 2004, ele assinou um artigo que fez trepidar os pilares do Planalto. Sem ter ouvido o ‘sujeito’ da reportagem, Luiz Inácio Lula da Silva, não porque não tentasse, mas porque não foi recebido, escreveu um artigo bombástico a começar pelo título: ‘Hábito de bebericar do presidente vira preocupação nacional’. Leitores americanos tomaram conhecimento de uma prática que, segundo o autor da matéria, estaria comprometendo a capacidade de governar de Mr. Da Silva. ‘Este jornalista não entra … está impedido’, teriam sido as poucas palavras de um Lula decidido a expulsar Rohter do País. Abriu-se um acalorado debate na imprensa brasileira. O Ministério da Justiça chegou a notificar a suspensão do visto temporário, um senador entrou com pedido de habeas-corpus em favor do correspondente, o embaixador brasileiro em Washington teve conversas no jornal americano e, finalmente, a crise foi contornada. Mas as cicatrizes ficaram.

Nesta entrevista exclusiva ao Aliás, Rohter repassa a tensão que viveu no Brasil democrático, quando quase foi expulso com base numa lei criada na época da ditadura. Rompe um silêncio de anos: ‘Lá atrás não pude falar nem me defender. É uma norma do NYT. Agora, como já entreguei o posto, posso dizer o que passei.’ Diz, em parte: Larry não está de malas prontas para os EUA, como se noticiou, embora já tenha sido substituído no cargo. Vai ficar no Brasil até o início do ano que vem, terminando o livro que escreve sobre suas duas passagens pelo País (foi correspondente do Washington Post e da Newsweek nos anos 70/80, e voltaria em 98, a serviço do NYT). Promete contar os bastidores da matéria que o presidente reprovou. O livro já tem título: Arestas Insuspeitadas, expressão que sai da música O Estrangeiro, de Caetano Veloso.

William Lawrence Rohter, 57 anos, casado com brasileira e pai de dois filhos, nasceu em Chicago. É filho de mãe imigrante da Escócia e pai descendente de russos. Na juventude, trabalhou como carteiro e operário de uma fábrica de lâmpadas. ‘Operava na linha de produção com imigrantes latinos e caribenhos. Ali aprendi o espanhol’, relembra. Já o português foi no Brasil, deliciando-se com a fala sonora dos nordestinos, ‘algo adorável’. Entre os cinco idiomas que domina está o mandarim. Explica-se: além de estudar história da China, na Columbia University, teve uma passagem como correspondente em Pequim, entre a primeira e a segunda estadas no Brasil. Quando finalizar o livro de revelações e mais um outro, seu romance de estréia, a licença que tirou do NYT deve expirar e o ‘polêmico Larry’, como foi chamado, voltará à reportagem. Provavelmente na China, avisa a quem estiver interessado.

Como se sente ao terminar seu período como correspondente no Brasil?

A decisão de fechar o ciclo foi mais minha do que do jornal. Por razões pessoais pedi para sair. Hoje eu me sinto assim: durante oito anos e meio fiquei (faz o gesto de quem fecha um zíper) com o bico calado neste País. Porque o New York Times tem uma norma que todos os correspondentes devem acatar: não fazer nenhum comentário pessoal sobre assuntos internos do país onde atuam. Então, fiquei quieto. Só que setores inescrupulosos da imprensa brasileira se aproveitaram do meu silêncio e passaram a me atacar.

Isso começou quando?

No início desse período de oito anos não tive problemas, até porque não havia curiosidade sobre a minha pessoa. Dificuldades começaram a partir da reportagem que fiz sobre hábitos do presidente Lula, hábitos comentados no País. Como eu não podia me defender das reações à matéria, certos jornalistas daqui me trataram como se eu fosse a Geni da música do Chico Buarque: vamos jogar pedra porque ele não pode reagir. Continuei trabalhando, calado. A partir do momento em que entreguei meu cargo ao NYT, tornei-me um profissional desimpedido e as regras mudaram. Estou escrevendo um livro sobre o Brasil, contando bastidores dos momentos polêmicos que vivi e oferecendo minha visão dos fatos. Não vou embora de imediato, como alguns órgãos da imprensa têm noticiado. Vou ficar até terminar o livro, no começo do ano que vem.

Sua experiência brasileira se divide em duas fases: antes e depois da matéria polêmica?

Sim e não. Na verdade, minha chegada ao Brasil em 1998 coincidiu com o início do boom da internet. Correspondentes que no passado escreveram sobre o País não foram lidos por brasileiros porque não havia internet. A repercussão que suas matérias suscitavam vinha de segunda ou terceira mão. A partir de 1999, 2000, os brasileiros começaram a ler nos computadores o que se publica sobre o País fora daqui. E, vejam bem, não escrevi esse tempo todo para brasileiros, mas para o público americano, com uma linguagem adequada ao entendimento de lá. Vocês tinham todo o direito e liberdade para acompanhar o que eu estava produzindo, mas talvez não devessem perder de vista que não eram meu público-alvo. Então, os leitores brasileiros passaram a se incomodar com coisas tolas, inofensivas, como quando comparei Caetano Veloso a Bob Marley. Ou quando escrevi que Niterói é para o Rio de Janeiro o que Oakland é para San Francisco. Fiz isso para os americanos entenderem. Com o tempo percebi que as reações eram parte do jogo. E tratei de aceitá-las.

Outros correspondentes estrangeiros, colegas seus, compartilham essa impressão de que a internet os tornou mais visíveis e vulneráveis?

Sim. Eu não saberia dizer que tamanho tem meu público brasileiro na internet, mas é muita gente. O leitor daqui, como qualquer outro, tem curiosidade sobre si mesmo: o que estão dizendo de mim lá fora? O que falam do meu País? Isso é natural. O NYT, dos grandes jornais americanos, talvez seja o mais lido na internet.

Acha mesmo que o presidente queria ir às últimas conseqüências?

O que eu acho é que, desde o início do caso, o presidente foi mal assessorado. Difícil saber o que de fato aconteceu no Palácio do Planalto naqueles dias, mas tudo indica que as coisas ficaram muito ruins pro meu lado. Só mudaram de curso quando o então senador Sérgio Cabral entrou com um habeas-corpus a meu favor. Ali, e só ali, senti que, num eventual julgamento da questão, o Supremo, inteiro ou em boa parte, ficaria contra o governo. O ministro Márcio Thomaz Bastos (da Justiça) não tinha outra opção a não ser costurar um acordo.

Além da reação do Planalto, sua matéria causou uma longa e estridente questão na imprensa brasileira. Jornalistas sustentam que você afirmou coisas graves sobre o presidente, sem apresentar provas.

Mas provar o quê? Eu não sou tira nem médico para provar… Havia um tremendo zunzunzum no meio político. Brizola teve a coragem de afirmar publicamente o que se comentava. E, claro, Brizola não foi minha única fonte. Escrevi refletindo o ambiente: o presidente brasileiro tinha um hábito que o estaria prejudicando no exercício do poder. Isso eu não inventei! Mas setores da imprensa, liderados pelo jornal O Globo, ou melhor, pelas Organizações Globo, resolveram me atacar. Acho que há uma obsessão com o que sai no NYT. Matérias que fiz foram mal interpretadas, mal traduzidas, publicaram-se coisas que nunca disse, fico indignado. Por exemplo, escrever que eu disse que a Garota de Ipanema hoje é gorda? Que absurdo! Era um janeiro em que nada acontecia no Rio, então o jornal criou uma polêmica xenofóbica, baseada em mentiras.

Recapitulando: você fez uma matéria afirmando que o brasileiro tem uma dieta alimentar pobre em nutrientes, mas rica em gorduras e carboidratos, o que estimularia a obesidade na população. E ilustrou a reportagem com fotos de mulheres gordas, numa praia do Rio. Só que elas eram checas, e não brasileiras. Certo?

Certo. E o que o Globo fez? Desqualificou meu trabalho, sabendo que eu não faço fotos e nem estava com o fotógrafo quando ele capturou as imagens. O jornal também disse que o NYT publicou cinco fotos da série, quando usou apenas duas. E o nosso ombudsman acusou o erro do fotógrafo. Os critérios da imprensa americana são mais rigorosos que os critérios da imprensa brasileira. (Nota do jornalista Rodolfo Fernandes, diretor de redação de O Globo: ‘ O jornal não tem ‘obsessão’ com o que sai no NYT. Tem respeito por seu padrão de qualidade. O que não impede que o NYT erre. Como no caso do presidente Lula, quando se baseou em fontes desqualificadas. No caso da ‘Garota de Ipanema gorda’, o Globo descobriu que era uma reportagem errada e o ombudsman do NYT pediu desculpas’.)

Então falemos de critérios. Quais são os seus?

Ouvir os dois lados sempre. Se possível, ouvir todos os lados da questão. E tentar refletir fielmente idéias ou posições.

Zunzunzum vale como notícia?

Naquela situação, sim. Comecei a apuração e procurei o Planalto. Queria falar com o presidente. Não fui recebido, mal consegui tratar com a assessoria dele. O secretário de imprensa, Ricardo Kotscho, não me recebeu. Falei com o número 2, Fábio Kerche. Apresentei minhas questões. Aguardei uma manifestação por dez dias e nada. Até que aconteceu um fato, que vou revelar no livro, e voltei a fazer contato com o assessor. Disse-lhe: ‘A coisa vai sair. Se vocês quiserem se manifestar é agora’. Ainda coloquei uma declaração transmitida pelo assessor na minha matéria. Mas jamais me receberam, jamais quiseram saber o que eu sabia.

Como era a sua relação com o governo antes da matéria?

A relação com o PT sempre foi difícil para qualquer correspondente estrangeiro. Com o PFL, o PSDB, o PMDB não há a mesma veemência ao reagir às reportagens que saem no exterior. Mas, quando se trata do PT, a chiadeira é quase infantil. Fiz uma matéria sobre a relevância política do divórcio de Marta e Eduardo Suplicy, figuras de destaque na política nacional. Cumpri uma pauta que esteve presente em todos os veículos de comunicação do País. Quando saiu a reportagem, o Genoino, então presidente do partido, escreveu uma carta de quatro páginas, reclamando que o tema não era legítimo, que era sensacionalismo. Em outra oportunidade, lá veio carta do Bernardo Kucinski alegando que o PT não tem facções, nem grupo xiita. Ora, o Brasil sabe que o PT tem. Havia dificuldades de comunicação com os ministérios, salvo algumas exceções. Como o José Viegas. Quando ele esteve na Defesa, soube lidar muito bem com os correspondentes.

Invertamos a situação: se um correspondente brasileiro assinasse a mesma matéria sobre o presidente americano, o que aconteceria?

Já aconteceu! Já se falou de Bush e seu consumo de bebidas.

Em relação a tempos de juventude, ao passado dele.

E que estaria curado, convertido, Bush nasceu de novo… Passamos por escândalos imensos, como o caso Monica Lewinsky, no governo Clinton, e o país continuou firme. Eu acharia uma bobagem impugnar Clinton por esse motivo. Curiosamente, na época em que eu estava fazendo a matéria sobre Lula, gente do Planalto tentou me dissuadir do trabalho lembrando justamente o affaire Clinton-Lewinsky, argumentando que a intimidade de um presidente não é pauta. Respondi que qualquer tópico que tenha a ver com o desempenho do presidente é pauta.

Você sofreu algum tipo de repreensão da parte do New York Times?

Eu, nunca. Houve cartas ao jornal e o então embaixador brasileiro em Washington, Roberto Abdenur, por quem tenho grande respeito, cumpriu o papel que lhe cabia. Falou com a direção do NYT, mas o jornal ficou firme. Isso não ficou claro na imprensa brasileira. Houve muita distorção. Falou-se que eu teria me refugiado no escritório do meu jornal em Buenos Aires. Ao contrário, eu estava lá e voltei quando vi a confusão armada! Vi toda a crise aqui no Rio, assistindo do meu apartamento à cobertura e consultando ao mesmo tempo meus advogados. Não saí do País, o ombudsman do NYT não se manifestou, não houve pedido de desculpa do jornal, não houve carta ao governo, nada. Apenas um recurso para revogar a ordem de expulsão, medida legal, preparada por advogados brasileiros.

Durante a crise, com quem você falava no New York Times?

Quando um governo tenta expulsar um correspondente o assunto é sério. Chegou à cúpula. Falei muito com Bill Keller, o editor-chefe, também pela experiência que ele teve como correspondente na URSS e na África do Sul. Bill sabe que às vezes os governos reagem com o fígado. A questão toda era como contornar a crise, porque eu queria continuar no Brasil e o jornal também queria isso.

O zunzunzum que você refletiu na matéria era exagerado? Ou melhor: hoje vê alguém argumentando que Lula tem problemas em governar porque beberia?

Não, não. Hoje ele enfrenta dificuldades de outra ordem. Até o Luiz Furlan, quando ainda era ministro, falou que o problema não existe mais. Comentou isso logo no início da segunda campanha. Disse que o presidente havia perdido peso, que estava com a maior disposição, que deixou de beber.

Sua matéria, por caminhos tortuosos, teria contribuído para isso?

Prefiro deixar a resposta para o livro. Mas tenho amigos no PT que têm feito comentários nesse sentido.

Quantas vezes você esteve com Lula, dentro ou fora da presidência?

Ele diz que nunca tomou um guaraná comigo. Não é bem assim. Como correspondente da revista Newsweek, passei quase uma semana acompanhando Lula em 1978, na greve do ABC. Eu o segui em andanças pela América Latina e possivelmente assinei a primeira matéria sobre ele na imprensa americana. E era favorável ao líder metalúrgico que despontava.

Você disse que tem amigos no PT. Quem lhe deu apoio?

Não vou dizer os nomes porque eles podem ter problemas.

Foi gente do primeiro escalão?

Não posso dizer. Não vou queimar pessoas que estimo.

O fato de ser casado com brasileira e ter filhos brasileiros ajudou a pacificar as coisas?

Sim. Tive uma família para me apoiar, parentes de minha mulher foram importantes naquele momento. A execração pública dói. Não é fácil ver seu nome citado na TV, nos jornais. Minha mulher foi fazer compras e quando apresentou o cartão de crédito a pessoa do caixa disse: ‘Ah, então você é mulher dele’. Isso aconteceu. Para ela foi mais difícil, para mim era parte do jogo. Como dizia Harry Truman, se você não agüenta o calor, melhor sair da cozinha.

Como você vê as relações entre mídia e poder no Brasil?

Durante a ditadura eu admirava a imprensa brasileira. Ali existia um jornalismo que era vocação, não só carreira. A morte de Vladimir Herzog foi algo que me marcou. O próprio Estado, ao publicar trechos de Os Lusíadas, para resistir à censura, foi algo tocante. Ali vi imprensa de qualidade. Jornalistas e empresas de comunicação até pagaram um preço alto por isso. Hoje em dia, as coisas são diferentes. Há jornalistas de gabarito, mas a imprensa brasileira navega num mar de mediocridade, com algumas ilhas de excelência.

Sua crítica aplica-se somente ao Brasil?

Não. Atravessamos uma época em que entretenimento e jornalismo se confundem, isso no Brasil, nos EUA, na Europa, no mundo inteiro. Uma época em que o jornalista quer ser celebridade, especialmente na TV. Porque os valores são outros, os interesses,também. Ah, talvez eu esteja ficando velho…

A imprensa brasileira é tolerante ou crítica demais com o poder?

A questão é outra. Governar é fazer coisas. E fazer jornalismo é criticar. A crítica é um elemento-chave na profissão. Não vou ao extremo do ‘si hay gobierno soy contra’, mas é papel da imprensa olhar os governos e dizer ‘aqui está errado’. Agora mesmo, o grave acidente aéreo de SP virou símbolo de uma crise maior. Quais as razões que levaram ao desastre em Congonhas? Não sabemos. Mas há uma crise maior, crise nos serviços, afinal, somos usuários, não há como negar. Então, por que dizer que a cobertura está exagerada? Quem não lembra das críticas ao apagão de energia, feitas pelo PT, no final do governo do FHC? Falta de planejamento, falta disso, falta daquilo. Era uma crítica perfeitamente compreensível. Lembremos de como Bush apanhou da imprensa americana depois do furacão Katrina. E mereceu apanhar! Ver aqueles velhos morrendo em frente do estádio foi terrível. Pois ver os corpos carbonizados em Congonhas produz o mesmo sentimento. O povo sabe julgar. E nós, na mídia, somos instrumentos dessa opinião pública que ora castiga, ora absolve.

O que o incomodou mais: a reação do governo ou dos veículos?

Crítica injusta sempre dói, não importa de onde venha. No caso da imprensa, houve mais hipocrisia, pois trataram de bater num jornalista estrangeiro, o gringo que falou coisas que essa mesma imprensa já vinha falando, por códigos. Não fiquei magoado. Fiquei indignado.

Qual é o peso da cobertura latino-americana no NYT?

Com a guerra do Iraque, ficou mais difícil conseguir o espaço que sempre estou querendo. Mas a cobertura é ampla. Tudo o que acontece aqui é pauta, em três grandes áreas: política, economia e cultura. Só que também escrevo sobre religião, esporte, sociedade.

Foi divulgada uma pesquisa segundo a qual 69% dos americanos não sabem quem é Lula.

Não causa espanto. Quando eu era correspondente para a América Central, nos anos 80, fiquei deprimido com uma pesquisa de opinião mostrando que só 15% dos americanos sabiam de que lado os EUA estavam nos conflitos na Nicarágua e em El Salvador. O governo Reagan estava com os sandinistas? Apoiava os contras? A população estava por fora. Se hoje um terço dos americanos sabe quem é Lula é um avanço, até porque no Brasil não tem guerra. A biografia de Lula impressiona e ele seguramente é mais conhecido nos EUA do que o Fernando Henrique. Clinton era filho de uma enfermeira, mãe solteira, cresceu num Estado pobre. Isso contou muito. Lula é parte da nossa mitologia. Lembra romances do Horatio Alger Jr. (escritor americano do século 19), histórias de garotos pobres em busca do sonho americano.

A cobertura sobre o Brasil nos EUA não é um tanto folclorizada?

Eu diria que vocês, jornalistas, se preocupam muito com isso. A época da cobertura exótica, do tipo futebol-praia-samba-carnaval, já passou. Neste momento o enfoque principal dos jornalistas estrangeiros em relação ao Brasil é o etanol. Eu mesmo já fiz matérias sobre Fapesp, Embraer, sobre todos os aspectos da cultura brasileira, não entendo quando dizem que só queremos o exótico. Não é verdade.

A revista The Economist disse que o brasileiro ou se sente o máximo ou no fundo do poço. Faz sentido?

Um jornalista brasileiro me disse ‘somos o Mohammed Ali do mundo em desenvolvimento, os maiores e piores ao mesmo tempo’. Eis o Brasil dos extremos. Quando escrevo sobre praia, futebol e mulher bonita, tem gente que pensa que estou folclorizando o País. Mas esses assuntos são parte da realidade, não há como ignorá-los. Já quando escrevo sobre as mazelas brasileiras, como miséria e racismo, daí um setor ufanista se levanta e grita ‘não toque no País!’ Amigos brasileiros já me disseram: ‘Nós podemos falar essas coisas, você não’. Sou admirador de Nelson Rodrigues, que cunhou aquela expressão imortal em relação ao brasileiro, o ‘complexo de vira-lata’. Isso entra nessa conversa.

Você pediu um ano sabático no NYT para escrever um livro. Fale sobre esse projeto.

Não preciso de um ano sabático, mas de meses sabáticos, pois o livro já vinha sendo escrito. Sabe como é, uma noite numa cidade como Humaitá, no Amazonas, o que fazer depois do jantar? Eu escrevo. Minha intenção é revelar os bastidores de reportagens minhas. Ao mesmo tempo, transmitir a experiência que vivi nesses anos todos. Minha convivência com o Brasil vem lá de trás, dos tempos da ditadura e do general Médici.

Que idade você tinha quando pisou pela primeira vez neste país?

Tinha 22 anos e era funcionário da Rede Globo em Nova York. Vim trabalhar no Festival Internacional da Canção, no Rio.

O que você fazia na Globo de Nova York?

Um pouco de tudo. Ajudava na área de música, comprava matérias de revistas americanas e fazia produção para o Fantástico, que estava nos primórdios. No Brasil fui me deixando ficar, mais na condição de estudante em viagem. Eu fazia pós-graduação na Columbia University, em História Moderna e Política da China. O que me atraiu no Brasil? A cultura, começando pela música. E a maneira como o brasileiro, no dia-a-dia, driblava a ditadura. Num país como a Argentina ou o Chile era diferente. Lá, o sistema político repressivo passou a controlar todos os aspectos da vida. Aqui, não. Descobrir isso foi fascinante. Consegui então um emprego no Washington Post, primeiro como crítico de música, depois de cultura popular, e assim fui criando vínculos com o Brasil. Milton Nascimento já disse que a primeira reportagem sobre ele na imprensa americana foi assinada por mim. Eu queria era vir para cá.

Como foi encarar os militares em 1974, quando você finalmente desembarcou no Brasil como correspondente do Washington Post ?

Muito difícil. Em 1978, fui a Marabá fazer uma matéria sobre a guerrilha do Araguaia e o general Hugo Abreu mandou me prender. Com a ajuda de pessoas amigas, pude me esconder até que as coisas se acalmassem em Brasília. Com a visita ao País do Jimmy Carter, no mesmo ano, a ditadura ficou muito ligada, porque ele poderia falar de tortura, prisões. Ali, eu me aconselhei muito com Raymundo Faoro. A mulher do Carter, Rosalyn, tinha um casal de amigos em Pernambuco, da família Steiner. Por meio desse contato ela sabia dos abusos que ocorriam no Brasil. Foi um momento tenso, o governo Carter não queria que os EUA vendessem armamento para o Brasil. Foi daí que o País começou a se esforçar para criar uma indústria bélica nacional. Heitor de Aquino, secretário do Geisel, chegou a reclamar das ‘matérias tendenciosas de Larry Rohter’.

Na ditadura, você correu o risco de ser preso. Agora, com o País redemocratizado, correu o risco de ser expulso. Como recebe isso?

Pior: em 2004 corri o risco de ser expulso com base em lei dos anos 70, dos anos de chumbo. O Lula, perseguido pela ditadura, recorreu a uma lei da própria ditadura para me punir. Horrível.

Já o chamaram de agente da CIA ou espião do governo americano.

Paranóia que acaba por prejudicar o trabalho do correspondente. É um absurdo pensar que eu seja agente da CIA, ou do Departamento de Estado, ou de qualquer outro organismo do governo americano, como afirmaram pessoas como o ex-ministro Luiz Gushiken e frei Betto. Disseram que minha atuação no Brasil obedecia a interesses externos porque o Lula estava na luta contra a fome no mundo, em disputas na OMC, que o País estava se projetando mais, então essa ‘gente de inteligência’ vem para cá acabar com o Lula. Absurdo! Basta pesquisar minhas matérias no Google para descobrir que eu já fazia artigos favoráveis à luta do Brasil contra o protecionismo na OMC, só para citar um exemplo. Claro, fiz matérias contundentes sobre a Amazônia e os militares até se ofenderam. Recentemente, visitei uma aldeia ianomâmi, que fica ao lado de uma base militar, e constatei que soldados mantinham relações com meninas indígenas, inclusive engravidando-as. Fiz a reportagem. E os militares ficaram zangados com a ‘intromissão’.

Sua área de cobertura abrange os países do Mercosul. Mas você também cobriu a Venezuela, não?

A cobertura atual, focada nos países do Mercosul, resulta de uma reconfiguação das áreas de correspondência do NYT. Em 2000 e 2001, também tive que assumir Colômbia e Venezuela. Depois o jornal fechou o escritório em Buenos Aires, para tristeza dos argentinos, que até nisso competem com os brasileiros, e abriu um escritório em Bogotá, mais tarde transferido para Caracas. Acabei ficando com a cobertura do Mercosul, sediado no Rio. A última grande reportagem que fiz na Venezuela foi a tentativa de golpe contra o Chávez, em 1999.

Você teve problemas em outros países do continente?

Chávez reclama de modo geral da imprensa estrangeira. Minha relação com os chilenos é ótima. O governo Lagos foi, disparado, o melhor em termos de relacionamento com os correspondentes. Isso continua com Michelle Bachelet. Agora, a Argentina é difícil. Kirchner não gosta de imprensa – nem da nacional, nem da internacional. Tive outras experiências no passado, como ser correspondente em Cuba.

Exatamente em que período?

Fidel, claro (ri). Em 61, o NYT teve que fechar sua sucursal em Havana e desde então pedimos vistos quando precisamos trabalhar na ilha. A primeira vez que fui a Cuba foi nos anos 80, durante a crise de Mariel (milhares de refugiados pediram asilo na Embaixada do Peru, em Havana, e o governo cubano então resolveu facilitar a saída de 130 mil pessoas, pelo porto de Mariel). O ano de 1980 foi curioso: em abril, fui preso no Chile, pela guarda naval de Pinochet. No mês seguinte, expulso da Cuba de Fidel.

Como você foi expulso de Cuba?

Ainda trabalhava para a Newsweek. Eu estava hospedado num hotel e simplesmente bateram à porta do meu quarto dizendo: ‘Seu visto acaba de expirar. O senhor volta no próximo vôo’. Me levaram para o aeroporto e o vôo era num DC3 da 2ª Guerra Mundial. Durante a viagem, uma janela quebrou e descolou do corpo do avião. Estávamos a 6 mil pés. Um jornalista da rede CBS, que estava a bordo, tapou o buraco com uma placa de metal e fita adesiva. Seguimos viagem.

Você voltou a trabalhar por lá?

Sim. Nos anos 90, voltei à ilha algumas vezes, momentos em que o governo cubano queria repercutir alguma coisa nos EUA, por meio do jornal NYT. Cheguei a jantar duas vezes com Fidel. Numa delas fui com meu chefe e Fidel estava em companhia de Gabo (apelido do escritor Gabriel García Márquez). Na segunda vez, estavam no jantar filhos do senador Robert Kennedy, morto em 1968. Nessa época eu morava em Miami e sintonizava a Rádio Mambi, que vivia martelando ataques contra Fidel. Um belo dia ouvi o locutor da rádio dizendo ‘el corresponsal comunista de New York Times acaba de publicar una nota….’.. Olha só, fui chamado de comunista pelos anticastristas de Miami.

E a prisão no Chile?

Foi em Puerto Montt, cidade encantadora, num lindo domingo. Eu estava lá tirando fotos e chegou um policial com ordem de prisão. Me levaram para a base e diziam que eu era espião argentino. Era época da disputa pelo Estreito de Beagle entre Argentina e Chile. Não é insólito? Falo espanhol com sotaque caribenho, não como sul-americano. Mas cismaram comigo.

Há governos de perfil populista na América Latina, cujos líderes querem falar direto com as massas, sem intermediação. Isso complica o trabalho do correspondente?

Lula não é da mesma escola do Chávez. Nem Evo Morales. Para mim, eles são diferentes. Sei que esses líderes querem um contato direto com o povo, mas também querem contato com o governo dos EUA. Daí a mídia estrangeira ser importante para eles. Somos um canal. E os presidentes sábios sabem aproveitá-lo.

Que balanço você faz dos anos passados no Brasil?

Vivi muita coisa. Fiquei doente na Amazônia, um prefeito do Pará quis me matar … se mataram até uma freira, por que não iriam fazer o mesmo comigo? E hoje tem esse drama da violência urbana, problema sério – embora não seja difícil para um repórter estrangeiro subir um morro do Rio, é só combinar com a pessoa certa. Também tive momentos prazerosos. Como ouvir um nordestino falando. Adoro o sotaque! O português é o sotaque que mais aprecio dentre as várias línguas que falo (inglês, espanhol, português, mandarim e russo). Mas o nordestino é campeão na criação de frases e expressões. Isso explica a coleção que tenho de cordel. Tenho mais de 2 mil livrinhos, colecionados em 35 anos de viagens. Na verdade, descobri o cordel no Rio, na Feira de São Cristóvão. Fui me aproximando desses artistas nordestinos, especialmente dos pernambucanos. J.Borges, cordelista e famoso pelas xilografias, virou amigo. Dila, poeta popular de Caruaru, é um gênio, sobretudo em temas relacionados a Lampião e Maria Bonita. Dila até me retratou na capa de um cordel. Gosto da música brasileira de A a Z literalmente, de Arnaldo Antunes a Nação Zumbi. Gilberto Gil é sensacional. Como instrumentista, poeta, ministro. Tem aquele traço que reconheço nos brasileiros: generosidade de espírito. E pensar que ele, ao sair da prisão, no DOI-Codi da rua Barão de Mesquita, embarcou num avião e compôs Aquele Abraço… Isso demonstra a pessoa extraordinária que é.

Escritores brasileiros favoritos.

Li um bocado: Márcio de Souza, também amigo. E li Clarice, Moacyr Scliar, Dalton Trevisan, Euclides da Cunha, Machado de Assis… O Brasil é uma potência cultural, tentei passar isso lá fora. Meses atrás, fiz um artigo sobre uma caixa de seis discos, gravações feitas no Nordeste, nos anos 30, por encomenda de Mário de Andrade. A matéria não apenas ficou na lista das mais lidas do NYT como as gravações foram incluídas nas listas de MP3 e executadas por milhares de leitores. Escrever sobre um romancista brasileiro contemporâneo, como Luiz Alfredo Garcia-Roza, apresentando-o para o leitor americano, é gratificante.

E abriu as portas do mercado editorial americano para ele. Mas no Brasil tem muito impacto o que vem de fora. Tanto que Henfil criou o bordão ‘deu no New York Times’.

O que é um peso. Trata-se apenas de um jornal.

E no futebol, a paixão nacional?

Ah, sou amante do beisebol, do Chicago Cubs, meu time, minha doença. A paixão pelo beisebol facilitou minha relação com Chávez. Ele adora o esporte. Foi arremessador, canhoto inclusive, e sabe tudo. Poderia tranqüilamente ganhar a vida como locutor de beisebol. No Brasil, direi que sou mais ou menos vascaíno.

Você será correspondente em outro lugar? Ou se vê trabalhando na redação do NYT?

Não sei o que virá depois dos meses sabáticos. Ficar oito anos e meio num posto, como fiquei aqui, é recorde no jornal. Porque peguei um momento interessante no Brasil, faço uma cobertura ampla, o que é cada vez mais valorizado nos dias de hoje. Definições sobre meu futuro vão depender do resultado das eleições presidenciais nos EUA. Lutei muito para aprender a falar, ler e escrever o mandarim – e faço as três coisas. Seria talvez interessante voltar para a China. No meu primeiro período como correspondente no Brasil saí do Rio para Pequim. Talvez seja bom refazer a rota e terminar a carreira na China.

Hoje, se você estivesse com Lula numa entrevista, perguntaria o quê?

Na comissão que investigou o escândalo Watergate, o senador Howard Baker repetia sempre a mesma pergunta em relação a Nixon: ‘What did the president know and when did he know it?’ É a questão fundamental. Pois eu perguntaria a Lula a mesma coisa em relação ao mensalão: ‘Presidente, o que o senhor sabia e quando soube?’

PRIMEIRO CONTATO

‘Devo ter feito a primeira matéria sobre Lula nos EUA, em 78. E favorável ao líder que surgia’

CHILE DE PINOCHET

‘Me levaram para a base e diziam que eu era espião argentino.Não é insólito?’

CUBA DE FIDEL

‘Bateram à porta: ‘Seu visto acaba de expirar. O senhor volta no próximo vôo’

TACADA EM COMUM

‘A paixão pelo beisebol facilitou minha relação com Chávez. Ele adora o esporte. Sabe tudo’’

INTERNET
Sérgio Duran

O mundo paralelo de quem tem perfil falso no Orkut

‘Lara Croft, quem diria, casou-se com Sid Vicious, o vocalista da banda punk Sex Pistols, e teve cinco filhos. Sid morreu, mas não em 1979, e sim dia desses. Claro, tudo fake. A palavra, que significa falso em inglês, é usada como nome da mais nova brincadeira do site de relacionamentos Orkut: criar falsos perfis que ganham vida própria, casam-se e fazem tudo o que a imaginação deixar. A heroína dos games e o punk estão entre os milhares de perfis que lotam comunidades com mais de 200 mil participantes.

O movimento ganhou força há um ano, quando o site instalou dispositivo que permite verificar quem bisbilhotou o perfil alheio. Muitos criaram identidades falsas para continuar espiando. A criatividade foi tão grande que, em comunidades como Eu Tenho um Perfil Fake, surgiram concursos para saber quem era mais criativo.

Digite a palavra fake no sistema de buscas do Orkut e aparecerão pelo menos mil comunidades, entre as quais Balada Fake, Praia Fake e Shopping West Fake, pontos de encontro desses perfis. ‘É como se fosse um Second Life pobre, onde ninguém compra nada, só faz amizades e vive histórias engraçadas’, brinca a operadora de telemarketing Patrícia Borges, de 27 anos, de Ribeirão Preto, interior do Estado, dona de dois perfis famosos: Lara Croft e Fractal. ‘Todo dia tenho um monte de amigos para adicionar.’

Patrícia é raridade no mundo fake do Orkut, onde a maioria é adolescente. Há, inclusive, uma comunidade própria para quem tem mais de 25 anos e brinca de viver personagens no site. ‘A Lara anda meio desativada. Ela se encheu de filhos e a sua vida acabou ficando muito chata’, reclama a operadora.

Explique-se: é possível casar numa comunidade chamada Agência Matrimonial Fake e adotar filhos, todos fakes. Para viver o personagem direitinho, é preciso criar os rebentos, que passam o dia fazendo birra, estripulias ou mandando recados malcriados para as mães fakes.

‘De repente você fala eu te amo para uma pessoa que nunca viu na vida porque não é você, é o seu fake’, diz a estudante Jéssica Simões de Toledo, de 15 anos, que mora em Perdizes, zona oeste de São Paulo. Jéssica criou a Pedreira, com foto da cantora mexicana Mia, da banda Rebelde.

Uma única celebridade pode ter várias réplicas fake, cada qual com uma vida diferente. Há comunidades só para fakes do Rebelde ou dos atores do High School Musical, produção da Disney de grande sucesso entre adolescentes. Por outro lado, há grupos de pessoas cuja ocupação é perseguir fakes desse gênero. Alguns são assassinados virtualmente. Pelas regras da brincadeira, uma vez morto, só é possível retornar ao mundo fake com outro perfil.

Segundo a estudante Bianca Heredia Paulino, de 15 anos, da Mooca, zona leste de São Paulo, as meninas são a maioria entre os fakes. ‘Muitos meninos são, na verdade, meninas disfarçadas’, diz Bianca, desde dezembro dona do perfil Apple. ‘É legal mas tem de ter limite’, pondera.

Falsidade é garantia de amizade fácil no Orkut, segundo a estudante Katia Ribeiro, de 17 anos, de Itirapina, interior do Estado. Atrás do perfil de Dulce Safadenha, conseguiu centenas de amigos que nunca havia conquistado sendo ela mesma. ‘O problema é que vicia. Passo o dia no computador.’’

***

Experiência pode ser positiva, diz psicóloga

‘Criar perfis falsos corresponde à tentativa do adolescente de buscar uma imagem que agrade a todos. ‘Eles vivem de histórias prontas, o popular, o desejado, o inteligente’, considera a psicóloga Luciana Ruffo, do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática da PUC de São Paulo. ‘Esse fenômeno é típico da idade e tem o lado positivo do experimentar ser o que não é.’

Ao ser fake, o adolescente pode ousar na paquera sem o medo da rejeição. Na opinião da psicóloga, como no Second Life, o internauta tem na vida mentirosa do Orkut a chance de ter uma história perfeita, a que sempre sonhou. ‘A internet é um espaço aberto para a fantasia. Ao mesmo tempo, você se expõe mais, se abre, porque está protegido. Por isso, as amizades criadas nesse ambiente parecem ser mais verdadeiras porque há mais exposição’, analisa.

Luciana diz que os psicólogos do núcleo não atendem pessoas que abandonaram a vida real para viver o fake fora da rede. ‘Há, sim, pessoas que se viciaram, nas quais o uso do micro se tornou compulsivo’, diz. ‘O problema é abrir mão da vida real para viver só a virtual. É fácil perceber. Quando o adolescente começa a deixar de fazer coisas de que gostava para ficar somente no computador, é problema’, avisa Luciana.

Perfis falsos, adverte a psicóloga, nunca são totalmente mentirosos. ‘Mesmo a menina que cria o fake masculino ou a jovem liberada não conseguirá manter a mentira se não houver nesse perfil alguma ressonância com o que ela é.’’

***

Ser fake é…

‘Escrever com asteriscos: fakes batem papo nos tópicos das comunidades. Quando comunicam alguma ação, põem a palavra entre asteriscos (*beijando você*)

Nunca falar do off: fake que é fake nunca revela a identidade, chamada de off, que corresponde a quando ele está offline

Usar fotos e nomes famosos: no mundo fake do Orkut, é possível dar vida a ídolos mortos, como Janis Joplin, por exemplo, desde que você informe ser fake

Freqüentar comunidades fake: há motéis fake, sorveterias fake e cinemas fake. A Balada Fake é, atualmente, a maior comunidade, com 256 mil participantes

Registrar o casamento: adotar filhos ou contrair matrimônio entre fakes exige registro em cartório – igualmente fake, claro

Fazer muitos amigos: dizem que é mais fácil fazer amigos como fake. Perfis falsos têm de ser lotados de amigos. Para isso, é preciso circular em comunidades.’

FOTOJORNALISMO
O Estado de S. Paulo

As melhores fotos do concurso World Press

‘World Press Photo, fundada na Holanda em 1955. tem como objetivo apoiar e promover internacionalmente o trabalho de fotojornalistas. Para isso, realiza o mais prestigioso concurso anual de fotojornalismo. Os trabalhos dos vencedores são exibidos em mais de 45 países e visitados por cerca de 2 milhões de pessoas a cada ano. O jurado deste livro de 2007, a 50ª edição do World Press Photo, levou duas semanas para julgar 78.083 inscrições submetidas por 4.460 fotógrafos de 124 países. A melhor foto do ano de 2006, que estampa a edição, é do americano Spencer Platt e mostra jovens libaneses passeando em um carro luxuoso em Haret Hreik, região de Beirute, logo após ter sido bombardeada.

World Press Photo 07, Vários autores, Thames & Hudson, 156 págs., R$ 39,29′

DIRETÓRIO ACADÊMICO
Waldenyr Caldas

O senso crítico na mídia escrita

‘Desde os primeiros escritos do pensador canadense Herbert Marshall McLuhan, as diversas formas de comunicação passaram a interessar amiúde aos acadêmicos. O seu livro, A Galáxia de Gutenberg e o conceito de ‘aldeia global’ estimularam tanto os debates sobre este tema, que hoje as Universidades têm até uma disciplina intitulada Ciências da Comunicação. O conteúdo concentra-se quase sempre na análise crítica dos meios de comunicação de massa. Não se pode dizer, é claro, que todo esse interesse decorreu apenas de sua obra, mas é preciso reconhecer seu grau de importância, na mesma proporção do conceito de indústria cultural elaborado por Theodor W. Adorno e Max Horkheimer em 1947.

Seja como for, o fato é que atualmente discute-se muito a função sociopolítica da informação pública, da notícia, seus meandros, caminhos, impactos e efeitos junto à sociedade. O livro Pensando contra os Fatos, de autoria da professora Sylvia Moretzsohn, propõe uma discussão interessante e não menos polêmica, sobre jornalismo e cotidiano. Pretende a autora, mostrar resultados sociais das informações e notícias do que ela chama de ‘senso comum’ e ‘senso crítico’. A intenção do trabalho é louvável, mas em certos momentos a autora tornar-se extremamente exigente com os profissionais do jornalismo e o resultado final do seu trabalho que chega ao grande público. Esperar que a notícia veiculada pelas grandes mídias como o rádio e a televisão, por exemplo, tragam consigo substancioso grau de criticidade, é uma expectativa exagerada. Aliás, na própria mídia impressa, em que o espaço para análises mais profundas é quase sempre maior, há também dificuldades nesse sentido.

Além do mais, o que podemos entender, precisamente, por ‘senso crítico’ nesse caso? Dificilmente é algo mais que um conceito fluido no qual prevalecem as opiniões pessoais e, portanto, com forte carga ideológica de quem escreve sobre a notícia. Assim, a conotação sociopolítica do fato noticioso, fica muito ao sabor da orientação político-ideológica do seu intérprete. Nesse caso, o ‘senso crítico’ ao qual se refere a autora, perde seu ponto de equilíbrio e de eqüidistância. Ele e a notícia serão ideologizados, pendendo para um lado ou para outro, para a direita ou para a esquerda, para cima ou para baixo. Acreditar simplesmente na isenção ideológica de um acontecimento político, social ou mesmo de fatos do cotidiano, é algo muito pueril e sem sentido. A neutralidade nesse caso é mera utopia. Se dizer apolítico, é o mesmo que assumir uma posição política. Somos essencialmente políticos, mas com diferentes conotações e interpretações ideológicas diante dos fatos. E esta é uma situação alheia à nossa vontade. Portanto, o ‘senso crítico’ do qual fala a autora, não é tão crítico assim quanto possa parecer de início.

Dessa forma, a informação e a notícia já chegariam ao destinatário com um ‘parti-pris’ ideológico que, do mesmo modo que o ‘senso comum’, pode também comprometer a veracidade dos fatos. E aqui, jornalismo informativo e opinativo, de certa forma, se equivalem. Um não é mais verdadeiro nem mais completo que o outro. O primeiro, porque fica mesmo devendo em conteúdo informativo. As atenuantes, nesse caso, são o tempo e a velocidade que os meios de comunicação eletrônicos sempre imprimem à notícia. Os jornalistas nada podem fazer, porque se trata de uma orientação empresarial baseada na maximização do lucro. Prevalece a velha máxima do ‘time is money’. Já o jornalismo opinativo, quase sempre, traz consigo um conteúdo ideologicamente dirigido, portanto, viciado. Às exceções, ainda bem que elas existem, nossa reverência.

Ao mesmo tempo, incomoda à autora, a displicência com que jornalistas e autoridades tratam de alguns problemas do nosso cotidiano. Diz ela o seguinte: ‘o alto grau de comunicabilidade, que evidencia uma identificação fundamental à vida cotidiana, freqüentemente esgota-se na descrição de situações capazes de comover o público, sem alcançar um nível de argumentação que leve a questionar por que as coisas são como são. Além disso, diferentemente do que seria coerente com o exercício profissional, este exemplo indica que o jornalismo não apenas não bebe na fonte da sociologia crítica como pretende substituir toda e qualquer sociologia.’ Ora, não é bem assim. Aliás, não é assim. Por justiça, é preciso evitar generalizações. Desnecessário nomear jornalistas que em seus textos vão fundo nas questões sociais e políticas, especialmente na imprensa escrita. Temos muitos exemplos no jornalismo brasileiro e internacional. Se para isso, se valem ou não, da sociologia crítica, é uma questão desimportante que certamente não compromete a qualidade do seu trabalho.

Devo reiterar, porém, o que já disse anteriormente. O livro da professora Moretzsohn é extremamente instigante, com análises polêmicas, que certamente se adequarão muito bem ao debate acadêmico. Além disso, estamos diante de outra perspectiva de discussões acerca do trabalho sociopolítico do jornalista, com o qual podemos concordar ou não. Se de uma parte, não é uma obra revolucionária ou inovadora é, quando menos, uma contribuição que deverá enriquecer muito os debates sobre o tema. A Universidade está se ressentindo de trabalhos dessa ordem para sair da mesmice.

Waldenyr Caldas é prof. da ECA, autor de Literatura da Cultura de Massa e Cultura de Massa e Política de Comunicações

Pensando contra os Fatos, Sylvia Moretzsohn, Revan, 302 págs., R$ 38′

DIPLOMACIA & MÍDIA
Gabriel Manzano Filho

Memórias de um embaixador bem-humorado

‘Diplomacia, dizem os profissionais, é a arte de mandar alguém para o inferno de tal forma que o sujeito não vê a hora de começar a viagem. Mas os críticos, muitos por estarem de fora, vêem nela apenas um gasto inútil de dinheiro público num dolce far niente de viagens principescas, banquetes chiques e tempo de sobra para intriga e conversa fiada.

Entre uma definição e outra, o embaixador Guilherme Leite Ribeiro ficou com ambas – mas, para sorte dos leitores, deu muito mais espaço à segunda no seu divertido livro de memórias Os Bastidores da Diplomacia – O Bife de Zinco e outras histórias (Editora Nova Fronteira,414 páginas, R$ 59). O autor passou bons anos juntando histórias, vistas e ouvidas. Consultou cerca de 400 livros – alguns sérios e outros nem tanto -, e saiu-se com um misto de ‘manual de introdução à carreira’ cruzado com um repositório do tipo ‘os mais engraçados episódios dos meus 44 anos de profissão’.

Nele se pode saber, por exemplo, por que inventaram os coquetéis: ‘É para agradar a gente que não vale a pena convidar para jantar.’ E que a ONU é como é porque está em Nova York. ‘Se funcionasse em Cabul, no Afeganistão, as reuniões seriam muito mais rápidas e as delegações bem menores.’ Inteligente, despretensioso e de boa memória, tendo vivido em lugares como Lisboa, Milão, Roma, Santiago do Chile, Nova York e Cidade do México, Leite Ribeiro antecipa aos que sonham com a carreira um quadro real do que os espera e traz engraçadas histórias de presidentes, chanceleres e diplomatas de primeiro nível, como também os de último. É bom advertir: ele escreve, às vezes, com uma falta de cerimônia típica das conversas de madrugada, depois do oitavo uísque, quando algumas das senhoras já foram dormir. Abaixo, algumas das suas melhores histórias.’

***

Gafes de alto escalão

‘Os medalhões do príncipe

Na visita da rainha Elizabeth II ao Brasil, nos anos 60, seu marido, o príncipe Philip, foi apresentado a um almirante brasileiro que tinha o peito cheio de medalhas. O príncipe perguntou: ‘O almirante ganhou essas medalhas em batalhas no lago de Brasília?’ O almirante respondeu: ‘Não.’ E, olhando o peito de Philip também coberto de medalhas: ‘Mas também não as ganhei na cama…’

O médico do chanceler

Ao partir para uma visita oficial à África, o chanceler Mário Gibson Barboza percebeu que só havia um único negro na comitiva. Os auxiliares correram as listas e a muito custo acharam um médico, Jair Santos, de um departamento em Brasília. O dr. Jair foi convocado e viajou – mas não lhe disseram o motivo de sua presença. Ao chegar à República de Camarões, todos perfilados, ele chamou a atenção do presidente camaronês. ‘Qual a sua função?’, pergunta este. ‘Sou médico do chanceler’, avisa o dr. Jair. ‘E qual a sua especialidade?’ Ele, no piloto automático: ‘Ginecologista.’

O mordomo bonitão

Um ilustre convidado da Embaixada em Washington comentou com o embaixador Roberto Campos sobre a má aparência do mordomo, atarracado e feio. Campos explicou: ‘Quando cheguei aqui havia um mordomo inglês, alto, elegante. Os convidados chegavam, cumprimentavam-no e me entregavam o chapéu. Resolvi substituí-lo.’

Gafes da Casa Branca

No primeiro minuto do primeiro encontro com o presidente francês Charles de Gaulle, a primeira-dama dos EUA, Jacqueline Kennedy, atacou: ‘Sabe, presidente, eu sou descendente de franceses!’ E de Gaulle, no ato: ‘Eu também.’ Pior foi a gafe de outra primeira-dama americana, Barbara Bush. Num banquete em Kyoto, no Japão, ela achou o Palácio Imperial muito novo e perguntou ao imperador Hirohito: ‘O palácio original era tão velho que desmoronou?’ Hirohito, impiedoso: ‘Não, minha senhora. Os americanos o bombardearam.’

A secretária arrependida

Um embaixador sul-americano, vivendo no Rio, gostava de trabalhar na biblioteca. Um dia, deu um grito e chamou o secretário, dizendo que uma jovem o havia agredido e exigia sua demissão. A bibliotecária é chamada e explica: ela subiu em uma escada para arrumar os livros quando sentiu uma mão subindo-lhe pelas pernas. Assustada, defendeu-se e deixou cair um volume da Enciclopédia Britânica na testa do embaixador. E, toda chorosa, implorava: ‘Senhor secretário, se eu soubesse que era o embaixador teria deixado!’

Resposta ao imperador

Graça Aranha, ministro da Embaixada em Copenhague, esqueceu-se de hastear a bandeira, como era praxe, durante uma visita do imperador alemão Guilherme II. Este mandou-lhe depois uma carta em tom áspero, falando em ‘desrespeito imperdoável’. O ministro respondeu: ‘Caro amigo, julgo meu dever preveni-lo de que há um miserável que, usando papel timbrado da chancelaria imperial, escreve cartas apócrifas, abusando de seu nome e imitando habilmente sua assinatura. Envio-lhe uma dessas cartas, que acabo de receber.’’

EUA / MÍDIA & POLÍTICA
Eugene Robinson

Karl Rove, o ‘menino gênio’, já vai tarde

‘Não posso dizer que sentirei falta do velho estrategista político de George W. Bush – o homem que o presidente americano costumava chamar de ‘menino gênio’ -, pois seria mentira. E, de qualquer modo, para citar um grande título de canção country – How Can I Miss You When You Won’t Go Away? (Como posso sentir sua falta se você não vai embora?) -, não acredito nem por um minuto que Rove realmente pretenda abandonar a vida pública.

Minha previsão é que ele escreverá artigos, dará entrevistas a canais noticiosos amigáveis e telefonará a candidatos presidenciais republicanos para alertar que eles não devem abandonar Bush, por mais baixa que esteja sua popularidade. A nova função de Rove será passar batom no hediondo legado de Bush – e, no processo, retocar seu próprio legado.

A reputação de Rove como o grande pensador político de sua era levou uma grande surra em novembro, quando, apesar de suas previsões confiantes de uma vitória republicana, os democratas tomaram o controle da Câmara e do Senado.

Mas é preciso reconhecer as qualidades do homem. Karl Rove conseguiu eleger George Walker Bush presidente dos EUA – não uma, mas duas vezes. Certo, vocês têm razão, na primeira vez ele precisou de muita ajuda da então secretária de Estado da Flórida Katherine Harris (falando em batom) e da Suprema Corte, que selaram a vitória de Bush na recontagem de votos. Mesmo assim, a honestidade pede o reconhecimento de que Rove era muito bom no que fazia. O problema, obviamente, é outro: as coisas que Rove fez, e como ele fez, foram terríveis para a nação.

Rove anunciou a renúncia ao cargo de vice-chefe de gabinete da Casa Branca numa entrevista concedida na semana passada ao Wall Street Journal, afirmando que, embora soubesse que algumas pessoas o acusariam de apenas tentar driblar os investigadores do Congresso, ‘não decidirei ficar ou sair para agradar à ralé’. Eis o homem, exatamente nessa frase: tolos ignorantes que não confiam cegamente em sua honestidade ou não reconhecem totalmente sua genialidade não são nada mais do que ‘a ralé’.

Rove não inventou a política ‘divisória’, mas era um adepto dessa arte sórdida. Quando Bush fazia campanha em 2000, ele se proclamou ‘um unificador, não um divisor’. Mas a teoria Bush-Rove sobre fazer política e governar foi dividir, dividir, dividir – ou você está ‘conosco’ ou está ‘contra nós’; ou está certo ou está errado; ou você é acolhido ou é atacado sem dó.

Sim, fazer política é vencer. Ninguém ganha pontos por fracassar com classe. Mas a política de ‘nós-ou-eles’ que Rove aperfeiçoou e Bush pôs em prática foi um desastre para a nação e sua posição no mundo.

Ao anunciar sua saída, em declarações no gramado da Casa Branca, Rove elogiou Bush por ter posto a nação ‘em pé de guerra’ depois dos ataques de 11 de setembro de 2001. Mas é justamente isso que Bush não fez. Em vez de tentar criar um espírito de solidariedade nacional e sacrifício comum, ele insistiu em cortes de impostos destinados a agradar a seus simpatizantes mais ricos. Em vez de envolver os críticos da guerra num diálogo autêntico, Bush os acusou de defender a opção de ‘bater em retirada’. Em vez de pôr em prática o bipartidarismo que pregou dissimuladamente, Bush governou com uma agenda política hiperpartidária.

Não surpreende que os democratas no Congresso, depois de seis anos de virtual bloqueio, estejam emitindo intimações para depoimento a torto e a direito – nem que a Casa Branca resista a elas com tanta firmeza.

Uma das perguntas que o Congresso gostaria de fazer a Rove é se o partidarismo extremado do governo alcançou também o Departamento de Justiça – ou seja, se procuradores federais foram demitidos por razões políticas e se Rove esteve envolvido nessas decisões. O Congresso também gostaria de saber por que Rove e outros assessores políticos da Casa Branca tratavam de seus assuntos não pelo sistema de e-mail da Casa Branca – o que teria exposto suas comunicações a um exame minucioso -, e sim usando contas de e-mail do Comitê Nacional Republicano, que parece ter perdido as mensagens em questão.

Rove disse que renunciou para passar mais tempo com a família – a explicação-padrão para o abandono de qualquer cargo em Washington. Bush disse que Rove continuará sendo ‘um querido amigo’, e não duvido nem por um minuto que ele permanecerá como um dos mais íntimos e confiáveis conselheiros do presidente. Não creio que o governo Bush vá mudar de rumo a esta altura.

‘Em breve estarei na estrada, atrás de você’, disse Bush a Rove, diante dos repórteres na Casa Branca. Já vai tarde.

*Eugene Robinson é colunista do jornal ‘The Washington Post’’

RÁDIO DIGITAL
Renato Cruz

Rádio enfrenta o desafio de ser digital

‘O rádio brasileiro se prepara para a digitalização. A TV digital já tem data de estréia: 2 de dezembro, em São Paulo. Já o rádio depende de definições do governo. A expectativa é a de que haja algum anúncio durante o evento Broadcast & Cable, que começa na quarta-feira. O País deve optar pelo padrão americano Ibiquity para AM e FM e pelo europeu Digital Radio Mondiale (DRM) para ondas curtas.

A tecnologia digital vai melhorar a qualidade do som, dando ao AM a qualidade do FM atual e ao FM uma qualidade próxima à do CD. O Ibiquity permite a multiprogramação. Ou seja, a transmissão de mais de um programa ao mesmo tempo num único canal de rádio. Emissoras americanas chegam a transmitir três programas digitais e um analógico no mesmo canal. As emissoras podem enviar aos aparelhos mensagens de texto, mostradas no visor do rádio, com informações como nome e intérprete das músicas, previsão do tempo, condições do trânsito e comerciais. Também é possível transmitir pequenos arquivos de imagem.

Os problemas são o preço e a disponibilidade dos receptores. Nos Estados Unidos, onde o rádio digital é chamado de HD (sigla em inglês de digital híbrido), os modelos mais baratos custam US$ 120. Não existem radinhos de pilha no padrão Ibiquity, pois o sistema consome muita energia. Para o mercado brasileiro, onde predomina o ouvinte de baixa renda, essa situação pode ser um obstáculo.

‘A digitalização é uma questão de subsistência e de sobrevivência do rádio’, diz Acácio Luiz Costa, coordenador da Aliança Brasileira para o Rádio Digital. ‘Aos 75 anos, o rádio brasileiro precisa se atualizar tecnicamente. É o meio mais antigo e o último a ser atualizado.’ Dezessete emissoras locais já testaram o sistema digital, com tecnologia Ibiquity. ‘É a única possível e disponível. Discutir tecnologia é uma grande bobagem. Se o sistema não for bom, o consumidor não compra.’

Para Costa, a redução de preço é uma questão de tempo. ‘O preço está caindo de maneira avassaladora’, disse o executivo. ‘Hoje, o aparelho custa por volta de 20% mais que o analógico. Até o fim do ano, devem chegar ao mercado americano celulares com receptor de rádio digital.’ Ele acredita que a digitalização permitirá ampliar a participação do rádio na publicidade. Segundo o relatório Inter-Meios, entre janeiro e maio de 2007, o rádio teve participação de 4% no bolo publicitário brasileiro, comparada aos 59,5% da televisão e a 16,8% do jornal.

OPORTUNIDADES

Segundo Ronald Barbosa, diretor de Rádio da Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão (SET), além das 17 emissoras que já testaram o rádio digital, há entre 40 e 50 que importaram o equipamento, mas não testaram os transmissores. Há 4,5 mil emissoras de rádio em operação no Brasil. ‘Uma vez divulgada a decisão, a expectativa é de que leve um ano para a regulamentação toda estar pronta’, diz Barbosa.

A digitalização cria oportunidades de negócio para as emissoras, como serviços acessórios. Um exemplo, segundo Barbosa, seria indicar no visor a programação da emissora. Outra possibilidade é distribuir informações de texto.

O rádio está em 88% dos lares brasileiros, perdendo apenas para a TV. Cerca de 75% dos receptores são domésticos. Por causa do preço mais alto e ausência do modelo portátil, a expectativa é de que o modelo digital seja adotado primeiro nos carros.

A transição do rádio analógico para o digital deve ser mais simples que da TV, que exige um canal novo para que transmita, simultaneamente, os sinais analógico e digital. Para o rádio, não é necessário. O Ibiquity é um sistema Iboc (sigla de In-Band On-Channel). Ou seja, permite que os dois sinais sejam transmitidos em um só canal. A indústria brasileira ainda não tem previsão de preços para os aparelhos.’

TV DIGITAL
O Estado de S. Paulo

Ministro japonês testa sistema de TV digital em SP

‘O ministro para assuntos internos de Comunicações do Japão, Yoshihide Suga, lamentou não ter visto em Brasília os mesmos testes experimentais de transmissão de TV digital a que assistiu em São Paulo. ‘Gostaria que as autoridades brasileiras tivessem visto a qualidade das imagens que serão distribuídas a partir de dezembro’, disse ontem. O ministro japonês esteve reunido em Brasília com o vice-presidente José Alencar, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, e o ministro das Comunicações, Hélio Costa. A introdução gradual do sistema no Brasil começará por São Paulo, em caráter experimental.

Suga visitou oito empresas da livre iniciativa em São Paulo e, nesses contatos, disse ter reforçado a convicção de que o sistema japonês foi muito bem recebido.

O ministro foi cobrado a respeito da promessa de construção de fábricas de semicondutores no Brasil, como havia sido cogitado durante as negociações para a adoção do sistema japonês. Mas ele se limitou a responder que o sucesso da parceria criou um clima propício à entrada de novos investimentos do seu país no Brasil. Suga informou que os investimentos japoneses no Brasil estão estancados desde a década de 1970.

A visita do ministro teve por finalidade promover o sistema japonês e, se possível, expandi-lo para a América Latina. Ele visitará ainda a Argentina e o Chile. Os governos do Brasil e do Japão farão missões conjuntas no início de 2008 para tentar convencer os demais países sul-americanos a adotar o padrão nipo-brasileiro de TV digital. No entanto, no Uruguai, já foi noticiada a intenção de se escolher o sistema europeu.’

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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