Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ENTRE ASPAS >

O Estado de S. Paulo

11/03/2008 na edição 476

TELEVISÃO
Keila Jimenez

O peso de uma recusa

‘Juvenal Antena foi feito sob medida para Antonio Fagundes. Camila Pitanga nasceu para ser a desavergonhada Bebel, assim como Gabriela não poderia ter sua jambice em outra pessoa que não fosse Sônia Braga. Epa, epa, epa, como diz o líder da Portelinha.

Por mais que seja impossível imaginar outro ator dando vida a esses papéis, seus verdadeiros donos eram outros. Juvenal, de Duas Caras, foi oferecido primeiramente para José Mayer, a musa de ´catiguria` de Paraíso Tropical era para ter os olhos azuis de Mariana Ximenes e quem deveria ter subido no telhado para entrar para a história da teledramaturgia era Gal Costa. Sim, a personagem de Jorge Amado foi oferecida na TV antes à cantora. E eles disseram ´não´.

Entre as desculpas para os ´nãos` dos atores estão o excesso de exposição, convites para teatro e cinema, fuga de personagens similares, férias ou simplesmente rusgas com elenco, diretores…

´É complicado recusar um personagem como Juvenal, mas toda decisão artística tem grande coeficiente de intuição. Portanto nunca há segurança´, fala José Mayer, que abriu mão do rei da favela das 9 para fazer teatro. ´Mas o Fagundes está fazendo um trabalho brilhante, talvez completamente diferente do que eu faria´, reverencia o ator, sem esconder a pontinha de arrependimento.

Mais difícil ainda foram os ´nãos` dados por Mariana Ximenes. Recusas, no plural, pois a bela dispensou três papéis de destaque, na seqüência: além de Bebel, a atriz passou adiante a protagonista e a antagonista de Duas Caras, Silvia e Maria Paula.

´Se você toma decisões, faz renúncias.Não dá tempo de se arrepender´, justifica Mariana, que alegou excesso de exposição e necessidade de férias para os autores. ´O Gilberto (Braga, autor de Paraíso) é a pessoa com quem mais quero trabalhar na vida. Mas pensei que se pegasse esse trabalho (Bebel), que era importante, talvez não conseguisse render tanto quanto poderia. Foi a pior decisão da minha vida´, admite a atriz, que aceitou agora voltar ao ar como a protagonista da próxima trama das 9, Juízo Final.

PERDÃO

Para os autores, a rejeição nem sempre é fácil de aceitar. Mas eles garantem que costumam perdoar.

Lauro César Muniz vai mais longe e conta que perdoou a mais dura das rejeições. ´Quando assumi a novela O Bofe, José Wilker me pediu para afastá-lo porque julgou que a novela perderia na minha mão o tom fantástico´, diz. ´Mas não guardo rancor, tanto que trabalhei com ele outras vezes.´

Já Alexandre Machado, autor de Os Normais, diz que, se o motivo para a recusa soar falso, as portas estarão fechadas para sempre. ´Se é uma recusa cretina, nunca mais vou querer trabalhar com aquela pessoa na vida. Já um ´não` elegante tem seu valor.´’

 

Fabiane Bernardi

Helena se traveste de homem

‘Nos próximos capítulos de Beleza Pura, a personagem Helena (Mônica Martelli) fará o público dar boas risadas.

Com sérios problemas financeiros, ela irá se passar por seu marido Lucas (Rodrigo Veronese) e se vestirá de homem para conseguir um emprego.

Helena recebe um telegrama, endereçado ao marido, convocando-o para uma entrevista de emprego na clínica de Renato (Humberto Martins).

A princípio, Helena pede para que Betão (Rodrigo López) se apresente à vaga, mas ele se nega a mentir. Depois, ela tem a idéia de se travestir de homem e concorrer ao emprego como se fosse o próprio Lucas.

Helena se disfarça e faz o primeiro teste: se apresenta ao filho Hugo (David Lucas), que não a reconhece. Satisfeita com a nova identidade, ela vai à clínica e é contratada.’

 

ELEIÇÕES NOS EUA
Patrícia Campos Mello

Chega ao fim lua-de-mel entre mídia e Obama

‘A lua-de-mel da imprensa com Barack Obama acabou. O senador começou a ser examinado mais de perto pelos veículos de comunicação depois que sua rival Hillary Clinton reclamou seguidamente que ele não estava sendo criticado. Daqui para frente, o escrutínio sobre Obama só deve aumentar, acreditam especialistas.

´Faltam sete semanas para a próxima primária importante, a da Pensilvânia, em 22 de abril. Os jornalistas vão ter de cavar notícias – e terão muito tempo para investigar a vida de Obama´, diz Mark Jurkowitz, diretor do projeto para excelência em jornalismo do Pew Research Center.

Nos dias que antecederam as primárias em Ohio e no Texas, a cobertura da mídia sobre Obama tornou-se mais agressiva. Jornais começaram a abordar as ligações de Obama com seu doador de campanha Tony Rezko, acusado de extorsão.

O caso Nafta – Austan Goolsbee, assessor econômico de Obama, teria garantido a diplomatas canadenses que a retórica de Obama contra o acordo seria apenas manobra política – também rendeu algumas matérias.

Até seu relacionamento com Louis Farrakhan, ativista negro famoso por posições anti-semitas, foi destacado. Tudo isso veio depois de seguidas reclamações de Hillary sobre falta de equilíbrio na cobertura. Não se sabe se a carapuça serviu, mas o fato é que a imprensa tem batido mais forte em Obama.

Para Jurkowitz, o senador realmente estava recebendo uma cobertura mais positiva. ´Isso não quer dizer que haja um viés pró-Obama ou que Hillary tenha sido injustiçada´, diz. ´Na realidade, a campanha de Obama gerou mais fatos positivos. Ele era o outsider que, de repente, cresceu nas pesquisas, ganhou em Iowa e estava vencendo várias prévias.´

Jurkowitz diz que tudo é uma questão de ciclos de cobertura. O republicano John McCain é notoriamente popular entre jornalistas por ser bastante acessível e bem-humorado. ´Mesmo McCain recebeu uma enxurrada de matérias negativas no meio do ano passado, quando sua campanha quase naufragou´, lembra.

Os Clintons têm uma relação historicamente tempestuosa com a imprensa. Jornalistas preferem a campanha de Obama porque os assessores são mais informais e menos defensivos.

A partir de agora, porém, haverá uma batalha por duas linhas de análise: a reviravolta de Hillary rumo à vitória ou como Hillary está estragando as chances do Partido Democrata vencer a eleição geral. A campanha de Obama diz que ele continua com grande vantagem em número de delegados, enquanto a de Hillary diz que só ela consegue vencer nos grandes Estados.

Enquanto isso, a guerra suja deve continuar. Os rumores – falsos – de que Obama é muçulmano voltaram à tona. Até Hillary alimentou o boato, em declaração muito criticada. Questionada no programa 60 Minutes se Obama era muçulmano, Hillary se limitou a dizer: ´Não que eu saiba.´’

 

ENTREVISTA / JUCA DE OLIVEIRA
O Estado de S. Paulo

´Juntas, comédia e tragédia formam a alma humana`

‘Na entrevista a seguir, Juca de Oliveira cita as musas gregas Tália e Melpômene, quando responde à questão sobre se a comédia pode ser considerada um gênero menor. Para ele, a comédia tem a mesma magnitude da tragédia: o riso e o choro existem para compor a inteireza da alma humana.

E foi por nutrir essa crença que ele abandonou a faculdade de Direito para estudar na EAD e o posto de galã da Rede Globo, no fim dos anos 1970, para dedicar-se ao teatro, carreira durante a qual acumulou sucessos e polêmicas, seja na condição de ator (sua estréia foi no TBC, no começo dos anos 1960), seja na de dramaturgo. Suas peças Baixa Sociedade, Motel Paradiso, Qualquer Gato Vira-Lata Tem uma Vida Sexual Mais Sadia Que a Nossa e Caixa Dois são algumas das suas criações bem-sucedidas para o palco.

Sua participação no cinema é bissexta. Para Juca de Oliveira, não dá para ficar muito tempo longe dos espetáculos teatrais para dedicar-se, exclusivamente e em locações distantes, às filmagens. Depois de trabalhar com os diretores Flávio Rangel e Augusto Boal, ele tem expressivo reconhecimento como intérprete com a peça A Cozinha, do dramaturgo inglês Arnold Wesker, encenação de Antunes Filho, em 1968. Ele a cita como uma das montagens antológicas da história do teatro brasileiro.

Juca também atuou em telenovelas, seriados e minisséries, com destaque para As Pupilas do Senhor Reitor, em 1995, e O Clone, em 2001. Embora esteja na minissérie Queridos Amigos, de Maria Adelaide Amaral, atualmente veiculada pela Rede Globo, a sua paixão mesmo é pelo teatro. Até o dia 30 deste mês, ele divide o palco com Bibi Ferreira na montagem Às Favas Com os Escrúpulos (de su autoria), no teatro Raul Cortez – Fecomércio (tel. 3254-1630).

Que atores ou atrizes cujo trabalho em teatro você acompanha?

Acompanho a carreira de todos que tenho a oportunidade de ver atuando, seja no teatro seja no cinema. Como estou quase sempre em cena, tenho alguma dificuldade de conhecer atores novos, cujos horários de espetáculos coincidem com os meus.

Qual o diretor de teatro cujo trabalho admira em especial?

Gosto e admiro o trabalho de todos os diretores com os quais tive oportunidade de trabalhar, que foram muitos. Agora estou em cartaz com a minha peça Às Favas Com os Escrúpulos, numa fantástica direção de Jô Soares, meu grande amigo há décadas, mas com quem não tinha tido a honra de trabalhar. Foi fantástico. É um diretor generoso, calmo, talentosíssimo, uma delícia! Pretendo repetir a experiência no futuro.

Dê um exemplo de criador teatral (intérprete, diretor ou dramaturgo) muito bom, mas injustiçado.

Genésio de Barros é um grande ator de teatro que ainda não teve a grande oportunidade que merecia na televisão.

Cite uma montagem teatral que tenha frustrado suas melhores expectativas.

Almas Mortas, de Nikolai Gógol, dirigida por Flávio Rangel com o maior elenco do teatro brasileiro da época, em 1961, no Teatro Brasileiro de Comédia, e que se constituiu no maior fracasso da história do teatro brasileiro, se levarmos em conta a importância do espetáculo e a riqueza da produção. Estreou numa terça-feira e saiu de cartaz no sábado seguinte, por falta de público.

E uma criação teatral surpreendente, ou seja, boa e pela qual você não dava nada.

A Mandrágora, de Maquiavel, no Arena, direção de Augusto Boal. Na estréia, o tempo de duração aumentou 40 minutos, pelos risos e pelos inesperados aplausos da platéia. Eu achava que o espetáculo seria morno, e acabou como um dos maiores sucessos do Teatro de Arena.

A cena brasileira tem algumas montagens teatrais antológicas. Cite algumas que tenham sido marcantes em sua vida.

A Cozinha, do dramaturgo inglês Arnold Wesker, direção de Antunes Filho, cenário de Maria Bonomi, em 1968, no teatro da Aliança Francesa. Foi um espetáculo inesquecível. Ainda hoje se fala muito dessa produção. Essa peça me deu todos os prêmios de melhor ator.

E que espetáculo teatral mais o fez pensar?

Wielepole, Wielepole, do polonês Tadeusz Kantor, que vi em Milão, em 1984. Esse espetáculo mexeu demais com a minha cabeça.

Comédia é um gênero menor? Se a resposta for negativa cite uma peça maior do gênero. Se for positiva, diga por quê.

A comédia tem a mesma importância da tragédia. Aristófanes, comediógrafo grego ainda hoje montado no mundo inteiro, está ao lado de Ésquilo. Sófocles e Eurípides, dramaturgos trágicos, em absoluta igualdade. O Shakespeare das comédias é o mesmo gênio das tragédias. Aliás, o teatro é simbolizado pelas duas máscaras, a que ri e a que chora, pelas duas musas, Tália e Melpômene, que significam a inteireza da alma humana, as duas faces de uma mesma moeda.

Que peça (s) escrita (s) nos últimos dez anos mereceria, para você, um lugar na história do teatro brasileiro?

No Fundo do Lago Escuro, de Domingos de Oliveira. É nossa Longa Jornada Noite Adentro.

De qual texto dramático clássico brasileiro, de qualquer tempo, você recomendaria encenações constantes?

Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues.

Qual a virtude que mais preza no bom teatro?

A sobriedade.

E o que mais o incomoda no mau teatro?

O exagero, a super-representação.

Galeria

Boal: sua Mandrágora

foi surpreendente.

Rangel: Almas Mortas

frustrou expectativas.

Jô Soares: ´Diretor generoso, calmo, talentosíssimo.´’

 

LITERATURA
Ubiratan Brasil

´Memórias compõem meu chão literário`

‘´A primeira vez que ouvi a história, ela foi contada pelo meu avô…´, começa Milton Hatoum, antes de fazer uma rápida pausa para bebericar um café. Ele conversa com o Estado durante a ensolarada tarde de terça-feira passada, no ajardinado bar do Centro Brasileiro Britânico, no bairro de Pinheiros, onde também mora. No próximo ano, Hatoum completa dez anos vivendo em São Paulo, mas suas raízes continuam fincadas na Manaus onde nasceu, em 1952. Bastar espiar sua obra, notadamente o quarto e mais recente livro, Órfãos do Eldorado, cujo lançamento acontece a partir das 18h30 de quarta-feira, também ali perto, na Livraria da Vila.

A partir do relato de um velho com fama de louco, o livro traz a história de um amor impossível cujo pano de fundo é a mitológica região amazônica. É, de uma certa forma, uma narrativa verdadeira, como conta Hatoum, retomando a conversa, depois de saborear o café. ´Meu avô escutou a narrativa de um homem, em uma de suas viagens ao interior do Amazonas. Guardei apenas pedaços da conversa, mas o que me impressionou é a insistência de um homem em esperar pela mulher amada.´

Órfãos do Eldorado conta a trajetória de Arminto Cordovil que, no início do século passado, vive dividido entre o amor por uma moça misteriosa, Dinaura, e as pretensões dinásticas do pai, Amando, armador enriquecido com o ciclo da borracha. Os Cordovil representam uma rica família de Vila Bela, cidade inspirada em Parintins, onde Amando é idolatrado pelas atitudes beneméritas – a face do pai conhecida por Arminto, no entanto, é a de um homem frio, embrutecido, ativo participante de maracutaias e extorsões para garantir sua fortuna.

A história evoca também um mito amazônico, o da Cidade Encantada. ´Os nativos acreditam que, no fundo de um rio, existe uma cidade maravilhosa, onde as pessoas vivem em completa harmonia´, conta o escritor, enquanto prepara um cigarro. ´As pessoas são seduzidas e levadas para aquele mundo e só conseguem voltar com a intermediação de um pajé.` O livro começa com a apresentação dessa e de outras lendas, revelando uma estratégia engenhosa de Hatoum – se, no início, as pessoas sonham com tal lugar perfeito, as páginas finais revelam que a busca é infrutífera.

A chave está na epígrafe, com o poema A Cidade, do grego Konstantinos Kaváfis. Em um determinado trecho, é dito: ´Não encontrarás novas terras, nem outros mares/ A cidade irá contigo.` A partir daí, e fazendo a união com os mitos amazônicos, Hatoum traça a história de uma família e, por extensão, de uma época em que os homens encarnaram os sonhos de um Eldorado amazônico.

Como faz parte da coleção Mitos (série lançada pela editora escocesa Canongate, em que grandes autores de diversos países oferecem sua versão do mito preferido), o livro já teve os direitos de publicação vendidos para mais de 15 países, entre eles Inglaterra, China e Rússia. Hatoum precisou, no entanto, seguir as regras da coleção e escrever um texto com o tamanho de uma novela, ou seja, não tão extenso como um romance, mas também não tão curto como um conto. Sobre esse trabalho, que lhe foi exaustivo inicialmente, mas recompensador ao final, Hatoum concedeu a seguinte entrevista.

Era uma história que você vinha acalentando há tempo, não?

Sim, estava na fervura. Adaptei o que vinha escrevendo à estrutura da coleção. Eu tentava escrever um romance, mas, com o projeto aceito, percebi que tinha de ser uma novela. Mesmo assim, não me contive e escrevi mais que devia. Assim, demorei mais para reescrever que para fazer a primeira versão. Tive de evitar digressões, descrições, caracterizações e concentrar o foco na história. Também estabelecer a correspondência entre o mundo natural, do mito, e a vida humana. Minha idéia era evocar alguns mitos logo na abertura e depois rebatê-los na vida dos personagens, tornando os mitos em ficção. Mas, não se doma o consciente, que é desgovernado, e surgiram outros personagens. Cresceu tanto que, na primeira versão, havia o dobro de páginas. Fiz, então, o percurso inverso: comecei a cortar, exercício penoso, de auto-mutilação. A idéia veio a partir de uma história que meu avô me contou e também dos poemas do grego Konstantinos Kaváfis e do Manuel Bandeira (Pasárgada), sobre esse sonho utópico de um mundo melhor. O poema do Kaváfis me deu o mote para estruturar o livro, pois a primeira parte do poema é um eu lírico que acredita nesse sonho da existência de um lugar melhor e, na segunda, o outro eu lírico responde, dizendo que ´a cidade irá atrás de ti´. Essa simetria rigorosa é que deu mais trabalho.

O poema já era uma inspiração inevitável?

Sim, Kaváfis é um exemplo de que a boa literatura é sucinta, não precisa de muitas páginas. E tem a força do mito na obra dele. Assim, fiz as junções da história individual com a do Amazonas e trouxe para nosso momento político: as negociatas, o empresário que quer crescer mas depende da política, da extorsão e dos favores. Nos livros que estudei sobre o gênero, percebi que a novela pede a exploração do absurdo, do inesperado. E tudo isso contraria o curso normal da vida. Assim, para Arminto tudo é inesperado: a morte do pai, cuja maldade só existe para ele e não para a cidade; a moça que tem uma relação com o pai, o silêncio e o sumiço dela. São estratégias que fazem parte do gênero. O húngaro Georg Lukács, aliás, acreditava se tratar de uma forma superior de literatura.

O livro trata do mito do inalcançável?

Sim, de uma esperança sempre adiada. É um pouco a expectativa do nosso Brasil. O desencanto é um dos sinais da maturidade. Isso tem a ver com o romance: a busca por um desejo que não se realiza.

Você cita um escritor que visita Vila Bela. É Mario de Andrade?

Sim, pensei nele. Mario visitou a região em 1927. Sua viagem à Amazônia foi fundamental na escritura de Macunaíma. Também tomei emprestado algumas coisas sobre o que ele fala de Manaus, Belém.

Os mitos amazonenses ainda te acompanham?

Sim, estão presentes. Na infância, eu ouvia histórias sobre a cidade encantada, Atlântida. As pessoas vivem muito isoladas, diante da natureza e mais nada. O que elas esperam, portanto, está no sonho, no mito que alimenta um desejo por um mundo melhor. Dinaura é um personagem que tem alma inconstante. Os colonizadores tinham verdadeira repulsa por essa indiferença ao dogma missionário, à religião. Acreditavam que a alma selvagem era muito inconstante. Da minha parte, considero ótima tal inconstância. A ausência de coisas previsíveis alimenta a personagem. E essa volubilidade é tipicamente brasileira. Nós temos uma alma indígena.

É uma história melancólica, não?

É inevitável por ser a busca do desejo que não se completa. Dificilmente seria de outra forma – senão, seria outro livro. Mas não acho de todo amargo – existem algumas saídas, mas a ambigüidade final é deixada para o leitor, que não sabe se de fato essa mulher está ali na casa de Arminto ou se é fruto de uma loucura dele, um delírio. Mudei o final no último momento, pois pretendia manter um parágrafo em que o ouvinte declara ver Arminto com a mulher nos braços.

Então você não acreditava que seria uma alucinação?

Mas quando tirei aquele parágrafo, passei a acreditar mais nisso. Fez um grande bem para a história. É um livro muito pensado, arquitetado. Havia uma simetria calculada de início que, claro, com o desenrolar foi mudando. Gostei de passar por essa provação do limite de espaço.

Quanto você usou da história contada por seu avô?

Apenas alguns fiapos. Ele me contou sobre um homem solitário que passou a vida esperando a chegada de uma mulher. Essa paciência foi o que mais me impressionou. O que é irônico, pois, se desperta impaciência, a paixão, ao mesmo tempo, obriga a ser paciente, à espera. É um livro sobre a perda. Por isso, eu não podia ser enfático com a linguagem. O tom é de uma oralidade sem rebuscamento.

Por que Arminto tem tanto desapego material?

É um tipo de vingança contra o pai. Um tanto infantil, reconheço. Mas perceba como o sobrenome da família é revelador: Cordovil une tanto a vilania como um lado cordato, o ´coeur´, coração. Eu me inspirei em um militar de Parintins que caçava índios, homem temível que provocou matanças. E a situação não mudou: ainda hoje há grileiros que comandam latifúndios na Amazônia.

O nome então revela muito do personagem?

Sim, muito. Sempre é possível descobrir algo do personagem a partir de seu nome, como eu também descobri detalhes do livro a partir do título, que me surgiu antes de terminar o texto. Inicialmente, pensei em Cegos do Paraíso, que é o nome de um barco e me agradava, mas Órfãos do Eldorado é mais revelador, pois Eldorado é o nome do cargueiro, da ilha e do mito. E órfãos que são quase todos.

Você procurou escrever um texto pensando no exterior?

Eu não podia disfarçar que estava escrevendo sobre outro mundo. Os escritores não mentem – esse trabalho é reservado aos políticos. O autor passa a vida tentando dizer uma verdade profunda através de uma invenção literária. Não procurei evitar termos amazônicos. Não poderia deixar de usar termos como ´dibubuia` ao invés de ´flutuar´, que vem da minha infância e faz parte do meu vocabulário. O exótico só soa estranho para alguns. Quando li Neve, de Orhan Pamuk, eu conseguia sentir o frio do gelo.

Manaus ainda é uma fonte inesgotável de inspiração?

Sim, é fonte primordial de tudo que escrevi. Ainda vou contar sobre minha passagem pelo exterior e minha vivência em São Paulo – ao lado de Manaus, trata-se da cidade brasileira com a qual mantenho relações muito fortes e na qual criei fortes relações. Amigos de Manaus pedem para nunca abandonar minha identidade. Respondo que identidades são plurais, só os malucos têm uma única religião, um único caminho a seguir – talvez o George W. Bush seja um deles (risos). Mas não há uma única vez que não fico emocionado quando volto a Manaus. É muito forte. Não escondo minhas emoções. Nostalgia não é uma doença, mas apenas um sentimento humano. As memórias compõem meu chão literário. Eis a herança mais forte das minhas origens.’

 

 

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