Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 22 E 23/09

O Estado de S. Paulo

25/09/2007 na edição 452

MÍDIA & POLÍTICA
O Estado de S. Paulo

Lula diz ao ‘NYT’ duvidar de provas contra Dirceu

‘Três anos após o incidente da tentativa de expulsão do então correspondente do New York Times no Brasil, Larry Rohter, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu sua primeira entrevista ao jornal americano, a ser publicada hoje. Nela, Lula disse duvidar do envolvimento do ex-ministro e deputado cassado José Dirceu (PT) com o mensalão: ‘Eu não acredito que haja qualquer evidência de que Dirceu cometeu o crime de que ele está sendo acusado.’ O ex-ministro é processado por corrupção ativa e formação de quadrilha.

Na entrevista de 75 minutos, no Palácio do Planalto, o presidente se mostrou otimista com a economia. ‘Estamos vivendo um momento promissor. O Brasil está vivendo seu melhor momento econômico.’ O jornal destaca indicadores como crescimento, queda do desemprego e controle da inflação, e também a aprovação popular de Lula.

O New York Times classificou a entrevista de ‘a primeira conversa longa com um jornalista americano desde 2004’, mas sem citar a reportagem na qual Rohter dizia que o consumo de álcool por Lula se tornara uma preocupação nacional. O presidente tentou cancelar o visto do repórter e só voltou atrás por causa da repercussão negativa.

Ao falar do mensalão, a entrevista destaca que episódios semelhantes poderiam ter abalado outro presidente, mas Lula continua firme. ‘Ele é o presidente Teflon. Nada cola’, observa o cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB) David Fleischer. Lula se recusou a dizer se alguém em especial o traiu: ‘Há centenas de empregados ao meu redor que eu não tenho a menor idéia do que fazem’, esquivou-se.

CHÁVEZ

O presidente descartou a sugestão de que possa se tornar uma força na região, em contraposição ao venezuelano Hugo Chávez – que na semana passada fez duras críticas ao Congresso. ‘Nós na América Latina não estamos à procura de um líder’, disse. ‘Não precisamos de um líder. O que precisamos é construir harmonia política, porque a América do Sul e a América Latina precisam aprender a lição do século 20. Nós tivemos a oportunidade de crescer, de nos desenvolver, mas perdemos a oportunidade. Então, continuamos sendo países pobres.’

Sobre biocombustíveis, o jornal destaca os planos ambiciosos de Lula e o acordo assinado na visita do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Indica ainda que as relações brasileiras com os EUA estão ‘aquecidas’, enquanto houve alguns atritos com a Venezuela.

Lula apoiou a proposta de Chávez de criar o Banco do Sul e disse que mais de 50 especialistas da Petrobrás e da PDVSA discutem a construção de um gasoduto da Venezuela à Argentina. Uma questão crucial, ponderou, é saber se há gás suficiente para tornar o projeto viável.

No fim da entrevista, que lembra sua trajetória, Lula reiterou que, ao encerrar o mandato, pretende voltar a São Bernardo do Campo. ‘Eu não vou para um programa de graduação na Harvard’, disse, dando uma estocada no antecessor, Fernando Henrique Cardoso. ‘A única coisa que quero é ser tratado como amigo por aqueles que eram meus amigos.’’

MERCADO EDITORIAL
Renata Cafardo

MEC bate recorde de compra de livros

‘O mercado do livro didático no País chegará ao fim de 2007 com um recorde de 152 milhões de exemplares comprados para uso em salas de aula de escolas públicas e privadas. O crescimento em relação a 2002, ano com o maior número de vendas até então, é de 5%. O Ministério da Educação (MEC) praticamente sustenta esse mercado de R$ 1,3 bilhão e é considerado o maior comprador de livros do mundo.

Isso porque são raros os países em que a aquisição é feita de maneira centralizada como aqui. O governo compra livros para todas as escolas públicas do Brasil , o que significa adquirir 80% do total de coleções comercializadas no mercado ano a ano. O processo é realizado pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Criado em 1995 no governo Fernando Henrique Cardoso, o sistema atraiu atenção nesta semana por ter recomendado por anos uma coleção de história com ideologias socialistas.

O restante dos livros didáticos vai para escolas particulares. O preço pago pelo MEC é 10% do cobrado de instituições privadas e pais de alunos. Os 128 milhões de livros que chegarão ao ensino fundamental e médio em 2008 custaram R$ 746 milhões ao governo, R$ 5,80 por unidade, em média.

Por causa do PNLD, recaiu sobre o MEC a responsabilidade de deixar mais de 20 milhões de alunos estudarem com a coleção Nova História Crítica, de Mario Schmidt. Elas aprenderam que Mao Tsé-tung foi ‘grande estadista’ e a burguesia busca o lucro pessoal. O livro integrava o guia de obras recomendadas desde 1998. ‘O ministério não contrata avaliadores. O processo de avaliação não envolve servidores do MEC’, disse ao Estado o ministro da Educação, Fernando Haddad.

A avaliação das centenas de obras que se candidatam a fazer parte do guia foi descentralizada depois dos primeiros anos do programa, quando professores iam a Brasília para analisar os livros, conta o ex-ministro Paulo Renato Souza. Hoje, uma universidade federal fica responsável por avaliar cada disciplina. A própria instituição chama para o trabalho doutores, professores da rede pública e especialistas de vários Estados. Nenhum deles pode ter ligação com editoras.

Dois professores opinam sobre cada coleção, sem saber quem é o colega que faz o mesmo e, principalmente, sem ter idéia de que livro está avaliando. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) cuida para que as coleções sejam enviadas a eles sem capa ou identificação do autor. As opções aprovadas formam um guia, com base no qual os professores da rede pública escolhem o livro que desejam utilizar. ‘Se não for avaliação por pares, o programa está fadado ao fracasso e vamos reinaugurar a censura no Brasil’, diz o ministro.

Como são sempre grupos diferentes que analisam as obras a cada ano, uns acabaram liberando e outros, rejeitando a Nova História Crítica. ‘Deveria ser montada uma comissão do MEC para uma olhada geral nos livros aprovados, porque tem muito professor que faz bobagem’, diz Paulo Renato. ‘Esse programa conseguiu colocar livros de qualidade e baratos nas escolas. Esse fato não pode deixar a imagem de que o PNLD é ruim’, rebate o presidente da Associação Nacional do Livro Didático, João Arinos.’

***

‘Não fazemos patrulha ideológica’

‘A historiadora Margarida Maria Dias de Oliveira esforça-se para manter o sigilo que ronda a avaliação dos livros didáticos no País. Segundo regras do Ministério da Educação (MEC), nada pode ser dito sobre as coleções excluídas e consideradas inadequadas para as salas de aula brasileiras. A intenção é não estigmatizar autores ou condenar editoras. Mas a polêmica recente em torno da coleção Nova História Crítica, analisada e rejeitada pela equipe supervisionada por Margarida na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), abriu brechas.

Com cuidado, a professora especialista em ensino de história disse ao Estado que o livro do autor Mario Schmidt lembrava coleções escritas nos anos 80, quando, com o fim da ditadura, foram produzidos materiais repletos de conceitos maniqueístas e noções marxistas. ‘Não excluímos o livro porque defende essa ou outra posição, mas porque tem informações desatualizadas, conceitos não mais trabalhados, estereótipos, simplificações explicativas’, afirma. A seguir, trechos da entrevista.

Quais os critérios para a avaliação de um livro didático de história?

Um bom livro trabalha bem com fontes históricas, com a problematização, mas mostra que essa história é uma possibilidade e pode haver outras. Ele não pode incidir em erros como anacronismos, ou seja, explicar fatos passados com os valores de hoje. Analisa-se também a linguagem, as imagens usadas, se a obra está desatualizada, se é coerente com o que autor propõe pedagogicamente e se tem conceitos errados.

A coleção ‘Nova História Crítica’ tem uma tabela dizendo que, no capitalismo, a burguesia toma as decisões e busca lucro pessoal. E, no ideal marxista, tudo é feito com honestidade para agradar toda a população. Isso é um erro conceitual ou uma posição ideológica?

É uma posição ideológica, com certeza.

É possível um livro de história sem nenhum posicionamento?

Não é possível em nenhuma área. Há estereótipo e preconceito até em livro de matemática. Não existe isenção, não existe imparcialidade. Mas o papel dessa avaliação não é fazer patrulha ideológica. Nós não excluímos o livro porque defende essa ou outra posição. Excluímos porque o livro tem informações desatualizadas, conceitos que não são mais trabalhados, estereótipos, simplificações explicativas. O trecho que você comentou é uma simplificação explicativa.

Essa questão ideológica foi discutida durante a avaliação?

Não podemos divulgar o parecer de exclusão, mas se isso aconteceu é porque o livro tinha muitos problemas. Uma das proibições é haver doutrinação religiosa, política ou propagandas de produtos. Também não podem ter fotos de bebidas, por exemplo. Isso é critério de exclusão. Se o parecerista entendeu que alguma frase tinha doutrinação política, ele colocou na avaliação, mas eu não posso dizer.

Tivemos acesso ao parecer e uma das observações dos avaliadores era de que o livro tinha ‘conceitos ultrapassados de historiadores de esquerda’. Historiadores de esquerda são ultrapassados?

Não, de forma alguma. Mas uma certa noção de esquerda simplificada, ortodoxa, está ultrapassada. Isso era comum nos anos 80, quando vivíamos o fim da ditadura e a redemocratização. Esses livros fizeram muito sucesso. No afã de se contrapor à historia tradicional da ditadura, um marxismo mais simplificado chegou às escolas. Hoje não é mais assim, há um maniqueísmo diminuto nas boas coleções. Os livros didáticos tiveram uma mudança qualitativa impressionante. Mas nenhum livro é perfeito.

Por que esse livro foi aprovado por outras equipes?

Os critérios mudam, os editais mudam. Desde 1995, os livros foram se aperfeiçoando e os editais também. Houve mudança no número de erros que poderiam ser encontrados. O País também começou a se preocupar mais com questões afirmativas, com questões de cidadania e tudo isso incide na avaliação. Além disso, as comissões são diferentes e são autônomas.’

Elisangela Roxo

Pais e professores aprovam coleção criticada

‘Para pais de alunos e professores de escolas que adotam a coleção Nova História Crítica, de Mário Schmidt, ouvidos pela reportagem do Estado, não há nada de errado na obra. Eles afirmam que o livro não é o elemento mais importante das aulas e acreditam que o material faz as crianças terem contato com visões diferentes da história.

A professora da disciplina na Escola Municipal João Domingues Sampaio, na Vila Maria, zona norte de São Paulo, Edna Maria Marino, não vê problemas no material didático. Em sua opinião, Schmidt produziu um livro ‘plural’, que mostra outros lados. ‘Poderia ser uma das minhas primeiras opções para o ano que vem, se não tivesse saído da lista de recomendação do MEC’, diz. Para Edna, é difícil trabalhar a leitura com os alunos em sala de aula. Um material didático com textos mais complexos do que os do livro de Schmidt, que tem uma linguagem informal, dificulta o aprendizado, já que os estudantes não têm o hábito de ler.

O professor de história da Escola Estadual Fernão Dias Paes, em Pinheiros, zona oeste, Marcelo Marins, conta que já foi questionado por pais sobre questões ensinadas nos livros. ‘Nem todos estão preparados para as perguntas que as crianças fazem quando voltam para casa’, diz. O episódio ocorreu depois das aulas de História Antiga, em que o autor levanta a possibilidade de o movimento de marés ser a explicação para o milagre bíblico da abertura do Mar Vermelho por Moisés.

LIÇÃO DE CASA

Chung I Feng, autônomo e pai de dois estudantes de 7ª e 8ª séries da Escola Benjamin Constant, colégio particular na Vila Mariana, acredita que as idéias apresentadas no material didático não são um problema. ‘Ideologia a gente forma em casa’, afirma.

Ele conta que a filha Amy Chung, na 8ª série, fez várias perguntas sobre socialismo depois das aulas, mas conclui que esse é um debate bastante saudável.’Vivemos numa democracia, por isso as crianças precisam conhecer de tudo um pouco.’

A mesma opinião é compartilhada por Isabel Olivieri, professora de educação infantil e mãe da aluna da 7ª série Isabela Olivieri. ‘O livro não é o elemento mais importante da classe. O diálogo pode ser recurso que complementa a formação das crianças e as faz mais críticas.’

Apesar de não ser uma fã da disciplina, Isabela concorda. ‘Estamos estudando África, o que é legal para entender um pouco sobre a desigualdade.’ A mãe conta, orgulhosa, que a menina voltou para casa cheia de perguntas. ‘Acho saudável quando isso acontece. Não vejo problema nenhum com esse livro (de Schmidt)’, arremata Isabel.’

TELECOMUNICAÇÕES
Ethevaldo Siqueira

Celular 3G será nova paixão de milhões no País

‘Como ocorre na Europa e na maioria dos países desenvolvidos, a terceira geração do celular (3G) amplia e multiplica os recursos do celular, possibilitando a prestação de novos serviços de alta velocidade, de dados e multimídia. E mais importante ainda: com a 3G consolida-se a internet móvel. Tudo isso nos interessa de perto, pois a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) prepara a abertura do leilão de freqüências para os serviços de 3G. Assim, 2008 deverá ser o ano da terceira geração no Brasil.

Em visita à Vodafone, operadora britânica, na semana passada, experimentei alguns serviços com velocidade nominal de 3,5 megabits por segundo (Mbps). Até o fim do ano, haverá serviços ainda mais rápidos, de 7,2 Mbps.

O grande salto da terceira geração é o uso quase ilimitado da banda larga. Com o avanço, as operadoras podem oferecer serviços mais rápidos de acesso à internet em banda larga, maior interatividade, melhores transmissões de vídeo e imagens, novos conteúdos, jogos sofisticados, serviço de localização, combinando GPS com triangulação de antenas, serviços de informação, rádio FM, câmera digitais de foto e vídeo de alto padrão e serviços mais inteligentes.

Com o uso de memórias de 5 gigabytes ou mais, o celular pode armazenar milhares de fotos e músicas em MP3. Os aparelhos mais sofisticados chegam a captar um trecho de música, pesquisar na internet autor e intérprete, identificando a canção e baixando-a inteirinha, em nosso celular, em poucos segundos, por alguns centavos de euro.

INTERNET MÓVEL

Usei uma placa de celular 3G da Vodafone em meu laptop e circulei por Londres, acessando a internet sempre acima de 1 megabit efetivo. É uma experiência fantástica que torna realidade um dos serviços mais desejados por executivos, estudantes, jornalistas e outros profissionais que precisam acessar a internet a qualquer hora, em qualquer lugar. Tecnicamente, o serviço é chamado de Acesso por Pacotes de Download de Alta Velocidade (HSDPA ou High Speed Download Packet Access).

As operadoras brasileiras apostam no sucesso desse serviço de internet móvel de alta velocidade. João Cox, presidente da Claro, considera revolucionário o papel que a 3G deverá desempenhar no Brasil. Mario Cesar Araujo, presidente da TIM, prevê que a oferta de banda larga nas maiores cidades do País será uma alternativa extraordinária para a inclusão digital.

Marco Aurélio Rodrigues, presidente da Qualcomm do Brasil, prevê que a 3G deverá ter impacto semelhante ao do telefone pré-pago na democratização da banda larga e dos serviços de internet de alta velocidade.

POR QUE 3G?

A primeira geração do celular (1G), surgida nos anos 1980, era totalmente analógica. Os primeiros telefones celulares pesavam de 5 a 10 quilos, consumiam a bateria em 30 minutos de conversação e as ligações sofriam todo tipo de interferência. Com a evolução da microeletrônica, o tamanho dos aparelhos foi sendo reduzido, até caírem abaixo de 100 gramas.

A segunda geração, 2G, totalmente digital, chegou ao Brasil em 1997. É a dos telefones celulares atuais, que tem maior velocidade, maior estabilidade e duas variantes tecnológicas: o CDMA e o GSM, incompatíveis entre si. Nesta segunda geração, os aparelhos evoluem continuamente, incorporando câmeras digitais, para foto ou vídeo, acesso à internet a velocidades que vão de 56 quilobits por segundo (kbps) a 2,4 Mbps.

O mundo todo vive a transição entre 2G e 3G. Os celulares de tecnologia CDMA já oferecem acesso móvel à internet a 384 kbps, com a tecnologia EVDO. No caso de acesso fixo, a velocidade nominal pode chegar a 2,4 Mbps. Na prática, contudo, fica abaixo de 1 Mbps, por compartilhar a mesma freqüência com outros usuários. Os celulares da tecnologia GSM, por sua vez, evoluem dos serviços EDGE (120 kbps) para HSDPA de 3,5 Mbps, a 7,2 Mbps e 14 Mbps. Mas a 3G não é o fim do processo. No futuro, virão os Serviços de Evolução de Longo Prazo (LTE, de Long Term Evolution), com velocidades de até 100 Mbps.

3G NO MUNDO

O mundo está alcançando no fim do ano a marca de 3 bilhões de celulares em serviço. Desse total, 320 milhões de assinantes, ou seja, 10% da base mundial, já são de terceira geração.

O padrão mundial de 3G é chamado de Serviços Móveis de Telecomunicações Universais (UMTS, sigla de Universal Mobile Telecommunications Service), que usa a tecnologia WCDMA (Wideband Code Division Multiple Access). Apenas a China terá variante desse padrão, o Time-Division-Synchronous CDMA (TD-SCDMA). Com a progressiva implantação desses padrões, deverão desaparecer as atuais incompatibilidades e disputas entre as tecnologias de segunda geração GSM e CDMA. O fenômeno da expansão da telefonia móvel na Europa pode ser avaliado pela densidade ou penetração do celular em diversos países. Na Alemanha, são 108 celulares por 100 habitantes. Na Espanha, 112. Na Escandinávia, 116. Na Grã-Bretanha, 119. Em Portugal, 126. E na Itália, 145.’

MÍDIA & FILOSOFIA
Francisco Quinteiro Pires

Psicanálise e filosofia dialogam na Discurso

‘Uma das mais importantes revistas filosóficas do País, Discurso (R$ 38, 360 págs.), feita pelo Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), chega à 36ª edição realizando o diálogo entre psicanálise e filosofia. Agora ela é editada pela Alameda Casa Editorial, que lhe deu um novo projeto gráfico para conter ensaios densos e rigorosos.

O encontro entre psicanálise e filosofia é mais um fruto da publicação que nasceu em 1970, durante a ditadura militar, e que está calcada na proposta de difundir não só a produção teórica dos professores da USP, mas as reflexões diversas sobre cultura sem se submeter a nenhuma corrente ideológica ou linha filosófica.

Dos 16 textos, que abordam a obra de autores clássicos, como Freud, Lacan e Deleuze, destacam-se Às Voltas com Bento Prado, do crítico literário Roberto Schwarz, e Antígona: Heroína da Psicanálise?, de Philipe van Haute, professor da Universidade de Nijmegen, na Holanda.

Haute argumenta que Jacques Lacan (1901-1981) vê a personagem Antígona, que dá nome à peça de Sófocles, como dona de uma significação que serve de paradigma para determinar o foco da análise sobre essa tragédia grega do século 5 a.C. Por considerar Antígona a única e verdadeira protagonista, Lacan afirma que em torno dela devem ser formulados os sentidos da peça sofocliana.

De acordo com a interpretação do psicanalista francês, as tragédias gregas não são a exposição de ações sucessivas, mas um lugar onde as verdades do ser e do desejo ficam visíveis.

Lacan lê Antígona dentro de um contexto filosófico, sob a perspectiva da manifestação da verdade do ser: a personagem que se arrisca ao desafiar o rei Creonte, o qual não permite o enterro de Polinice – irmão de Antígona -, revela a verdade do desejo inconsciente. Haute diz que, ao negar qualquer lógica ou ética conseqüencialista, segundo a qual a ação humana deve partir de modelos preestabelecidos do que é bom e correto, Antígona está além do mundo cotidiano familiar. Ela renuncia aos bens mundanos, ao que possa uni-la ao mundo – a maternidade, os familiares e a própria vida – para rogar pelo enterro do irmão, acusado de traidor. ‘Desse modo, seu desejo é direcionado para aquilo que escapa à lei do significado’, escreve Haute. Por confundir as categorias de bom e mau, Antígona desorienta, e sobre ela se inviabiliza um julgamento baseado em critérios do cotidiano. Além de tratar de temas cruciais à psicanálise, Lacan quer mesmo é lançar luz sobre a essência da tragédia grega, afirma Haute.

No primeiro texto de Discurso, em homenagem a Bento Prado Jr., que faleceu em janeiro deste ano, Roberto Schwarz escreve sobre o perfil intelectual do filósofo, capaz de unir uma razão rigorosa a um sólido humanismo, em benefício dos dois. Schwarz lembra uma cena vivida numa madrugada com Bento Prado, reveladora do caráter humanista do colega. ‘Tendo bastante de príncipe, ele não se achava melhor do que ninguém. Num fim de noite, quando os bares decentes já haviam fechado, ele me arrastou para um boteco atrás da Praça da República, onde sua atenção se fixou na munheca fechada e nas unhas sujas de um pobre homem adormecido, que por um bom momento resumiram para ele a angústia da existência.’ Apesar de ter nascido no seio da elite, Bento Prado Jr. tinha absoluto respeito pela desgraça.’

INTERNET
Pedro Doria

Todos estaremos nus na internet

‘Na fotografia, Vanessa Hudgens está nua. De pé, seus longos cabelos negros para trás, ela sorri. Não é a melhor das fotos: um quê desfocada, pouco iluminada, o cenário é um quarto bagunçado. Ela tem 18 anos, fará 19 em dezembro. É a estrela de High School Musical, o telefilme que se tornou o maior sucesso recente dos Estúdios Disney. O álbum com a trilha sonora foi o disco mais vendido de 2006. High School Musical 2 estreou em agosto. Uma versão para o cinema está para ser lançada.

Mas agora a atriz favorita das pré-adolescentes está nua na internet. A foto amadora, tirada para o namorado com uma câmera digital, vazou ninguém sabe explicar bem como.

‘Gostaria de me desculpar perante meus fãs, cujo apoio e confiança significam tudo para mim’, declarou Vanessa numa mensagem por escrito. ‘Estou envergonhada por conta dessa situação e me arrependo de ter tirado essas fotos.’ Em 2004, quando um dos seios da cantora Janet Jackson apareceu disfarçadamente e de longe durante um concerto transmitido ao vivo, ela foi obrigada a pedir desculpas públicas inúmeras vezes enquanto ia perdendo patrocinadores e contratos para shows e participações em séries de TV.

Vanessa se desculpou uma única vez e, quando ficou claro que nenhuma onda de críticas viria, a Disney aceitou suas desculpas, encerrando o caso.

‘A internet nos deixou mais confortáveis com a nudez’, diz o professor Paul Levinson, chefe do departamento de comunicação da universidade jesuíta Fordham, de Nova York. Para ele, a ampla disponibilidade de câmeras digitais e acesso de banda larga à rede produzirá cada vez mais imagens de pessoas nuas, sejam famosas ou não, que terminarão acidentalmente online. Ficarão tão comuns nos próximos anos que deixarão de chocar por completo. ‘Nossos cérebros são programados para querer ver pessoas do sexo oposto nuas’, ele sugere. ‘Considero quem reclama da nudez dos outros um grupo de fanáticos e vejo, pelos meus alunos, pelos meus filhos, que as gerações mais jovens tendem a concordar comigo.’

Se, dessa vez, não despertaram a ira de colunistas conservadores que cobram das estrelas bons exemplos, certamente as fotografias fizeram sucesso na rede. O nome de Vanessa deve terminar setembro como o mais buscado no Google durante o mês. Desde que aquela única imagem veio à tona, foram divulgadas também outras da série, nas quais aparece parcialmente vestida. E os sites especializados em fofocas estão numa caça desenfreada por mais imagens.

A Disney é considerada um dos estúdios de cinema mais pudicos e não à toa: como lida diretamente com crianças e adolescentes mais jovens, está sob a constante vigilância da imprensa conservadora americana. Se, para o estúdio, o episódio é tenso, a história das fotos que vazaram para a rede de Vanessa Hudgens não é única – trata-se apenas do episódio mais recente.

Há algumas semanas, caíram na internet fotos tiradas por um paparazzo da atriz britânica Sienna Miller numa praia européia. Fotos pessoais que vazaram ou que foram pescadas por fotógrafos em praias ou casas com muros altos, nos últimos anos, capturaram Uma Thurman, Gwyneth Paltrow, Alyssa Milano e a cantora francesa Vanessa Paradis. Não são novidade – até Jacqueline Kennedy Onassis foi flagrada nua por um fotógrafo indiscreto, nos anos 1970. A diferença é a internet, que amplia a distribuição das imagens e contribui para que seja impossível apagá-las.

No início do mês, aconteceu com a atriz brasileira Nathália Rodrigues, da TV Record. ‘Deixa o fotógrafo ser feliz com o dinheiro que ele ganhou’, sugeriu Nathália a um dos sites de fofocas da rede. E deu de ombros. Ela estava na Praia do Abricó, dedicada ao nudismo, no Rio.

‘A cultura da internet vai se desenvolver de uma forma que é difícil prever’, diz cautelosa a professora Ruth Barcan, antropóloga da Universidade de Sydney, na Austrália. Ela, que escreveu Nudity, a Cultural Anatomy – Nudez, uma anatomia cultural – não vê a situação como Levinson. Se é verdade que a rede tornou a disponibilidade da nudez mais ampla e usual, não quer dizer que ela tenha se tornado mais aceitável.

Para ela, não é a internet mas sim a própria cultura que vem, nas últimas décadas, ampliando a representação da nudez. Isso não se traduz em maior aceitação do corpo. ‘Hábitos sexuais são mais tolerados, imagens de nudez mais comuns’, ela diz, ‘mas a cultura também nega o corpo, ao afirmar que ele só é aceitável após passar por transformações, como o uso do desodorante, cirurgias plásticas ou tintura de cabelo.’

High School Musical é a adaptação para uma escola secundária de Romeu e Julieta. Vanessa faz a boa aluna de física que se apaixona pelo astro do time de futebol americano – e, como cabe às velhas narrativas de Hollywood, seu namorado na vida real é o ator Zac Efron, com quem contracena. Perante o comportado romance adolescente – que até parece nascido duma campanha de marketing -, as fotos pessoais destoam.

‘Não podemos nos esquecer que a internet é muito diversa’, diz a professora Barcan. ‘Então o tipo de nudez nela varia muito, da arte mais sofisticada à pornografia mais grosseira.’ No amplo inventário da nudez online, cada vez mais é comum aquilo que Vanessa fez: a jovem moça que posa para seu namorado. É comum a toda sua geração, que cresceu online, habituada a tecnologia. E é um hábito universal.

O New York Times já registrou jovens casais de países repressores, como o Irã, que mal podem se ver pessoalmente, mas se expõem um para o outro em conversas filmadas por webcams, isolados cada um em seu respectivo quarto. No Brasil, há sites especializados em ‘fotos de namoradas’, de universitárias, que vêm à tona num ritmo semanal.

Nesse sentido, as fotos que Vanessa tirou um dia, protegida em seu quarto, para enviar ao namorado por e-mail, a tornam uma legítima representante de sua geração. ‘Todo mundo terá a sua foto nu’, diz Farhad Manjoo, comentarista da revista eletrônica Salon. ‘E essa foto vai parar na web. Com o tempo, reconheceremos tais imagens como nada mais do que a prova de uma vida vivida ao máximo.’

Talvez. Autor de The Transparent Society – A sociedade transparente -, o futurista David Brin vê diferentemente. A tecnologia, diz ele, eliminou qualquer possibilidade de haver privacidade. Só isso. Teremos que nos habituar.’

TELEVISÃO
Keila Jimenez

O Paraíso é deles

‘Calçadão de Copacabana, madrugada, trânsito parado para ver Camila Pitanga rasgando o asfalto com seu salto plataforma. É interpelada por Wagner Moura, irado. Esparramos daqui, gritos dali, e lá vem beijão de novela. Palmas e gritos tomam conta da gravação da reconciliação de Bebel e Olavo, lotada de curiosos. ‘E aí, você vai ficar com o bofe?’, pergunta uma das fãs de plantão, em busca de uma foto. Camila sorri, mas nada responde sobre o mistério que realmente tem motivado a platéia de Paraíso Tropical a uma semana de seu fim.

É fato: o destino do casal politicamente incorreto atropelou o suspense do ‘quem matou Taís?’. Comendo poeira também ficaram o casal engodo Paula e Daniel e a regeneração duvidosa de Antenor.

Os números comprovam. A audiência sobe com a cachorra e seu bofe em ação. O capítulo da reconciliação do par registrou 49 pontos, 3 a mais do que o episódio em que a gêmea má é assassinada.

‘Nós tratamos a morte da Taís como uma de nossas tramas, não como o assunto principal’, desconversa o autor Ricardo Linhares, que escreve com Gilberto Braga. ‘Mas sem sombra de dúvida, Bebel e Olavo ocupam lugar de destaque nos anseios dos telespectadores’, reconhece.

Sucesso refletido na web, onde vários sites, blogs e comunidades discutem como mesa redonda de domingo o destino do casal.

Playboy

A bolsa de apostas está aberta – a versão oficial, os autores não revelam nem sob tortura. Na mais triste das hipóteses, Bebel perde o filho que esperava de Olavo e morre de complicações pós-aborto. O empresário, então, acabaria preso e destruído.

Outra alternativa indica que Bebel perde o bebê, é presa por falsificar o exame de DNA da criança ( que diz ser de Antenor) e, após cumprir pena, recebe proposta milionária para posar nua. Detalhe: passa a sustentar Olavo, que pagará pelos seus crimes na cadeia.

‘Sinto que o público torce por Bebel e Olavo. Ouço com freqüência que o amor pode redimir os crimes que cometeram’, adianta Linhares.

Apesar de toda a vilania – não custa lembrar, Bebel é uma prostituta ambiciosa e Olavo, um mau-caráter – a audiência torce pela dupla, que tem química e humor de sobra. A caixa de correspondências da Globo está repleta de protestos contra a possível morte da garota de programa. Olavo e Bebel chegaram às portas do Paraíso, resta saber agora se vão entrar ou não.’

Renata Gallo

Ela atropelou a mocinha

‘Quando o produtor de elenco ligou para Camila Pitanga e especulou se ela estaria disponível para fazer Bebel, ela não pensou duas vezes. Conversou com o marido e decidiu adiar seus planos. Havia cerca de um mês que ela vinha tentando engravidar, mas sabia que o personagem não era de se jogar fora. ‘Pensei: ‘Bicho, vou com a cara e coragem ligar para o Gilberto (Braga, autor). Liguei e ele falava da Bebel e meu coração pulava! Mas me disse que eu era sempre muito polida, que não me via no papel. Disse: ‘Sou atriz, ‘bora’ quebrar essa aura porque é isso que me interessa’, lembra. E assim foi.

Você sabia que a Bebel era o ‘seu’ personagem, mas esperava tanto sucesso?

Como filha de ator, aprendi a não criar expectativas. Mas desde a minha conversa com o Gilberto, sabia que tinha um personagem instigante. Ter como cúmplice o talento e a generosidade do Wagner (Moura) foi fundamental para esse casal conquistar tanta gente. E devo muito também aos autores e toda equipe.

Qual seria o seu final para a Bebel? Não vale dizer que o que o autor escrever será ótimo…

Mas é exatamente isso (risos). A vida da Bebel é cheia de sobressaltos… Prefiro aguardar o desenlace.

A Bebel roubou colar, quis acabar com a mocinha, quer agora dar o golpe da barriga… E todo mundo a adora…

Pois é, ela é uma pilantra e vem senhora com criança no colo dizendo: ‘Olha a Bebel!’ É fato que ela apronta, mas acho que o humor abrandou a pilantragem. O Dennis Carvalho contribuiu muito para que a comédia tivesse seu lugar. O humor fez um filtro no que ela ainda mantém: ambição, inveja, etc. Acho que contribuiu também o jeito moleque que ela tem. Por outro lado, ela é da batalha, luta pela sua sobrevivência, ainda que por caminhos tortos, acho que isso ajudou a despertar uma compaixão do público.

Você acha que a Bebel deu um upgrade à sua carreira?

É um personagem que representa um momento especial em minha vida. Mas todos os trabalhos foram importantes, como a Paraguaçu no filme Invenção do Brasil, a Esmeralda, de Porto dos Milagres. Sempre tive critério para escolher meus trabalhos e vou continuar buscando trabalhos em que eu acredite e possa me jogar de corpo inteiro.

O que a Bebel te trouxe de melhor?

A satisfação de um trabalho feito em equipe. Estou muito feliz!’

Julia Contier

Colegas de trabalho fazem suas apostas

‘Demos um pulinho na rua Augusta, uma das versões que São Paulo poderia oferecer ao movimento do Calçadão de Copacabana, para ouvir as colegas de trabalho da Bebel. Confira a seguir o que elas esperam do destino para a personagem de Camila Pitanga.

‘Eu imagino que ela vá arrumar um milionário e vá arrasar. Ela merece. Ela não é má, ela fez algumas maldades por causa do Olavo, mas não merece um final ruim. Ele sim, tem que se dar mal. E o cafetão? Tem que ir pra cadeia, claro. É assim que acontece em novela.’

Aline, 27 anos

‘Eu espero que ela saia dessa vida de prostituição, que é muito ruim, mas sem a ajuda de um milionário. Essa coisa de arrumar um ricaço e se dar bem só acontece em novela. Ela tem que pegar uma grana e viajar. Recomeçar a vida dela em outro lugar, junto com o filho.’

Patrícia, 21 anos

‘Ela tinha que voltar pra Bahia e arrumar um trabalho normal, como ser garçonete, por exemplo.’

Karina, 25 anos

‘Apesar de achar que a Bebel não tem nada a ver com a gente porque ela é vulgar durante o dia, usa o mesmo nome de dia e à noite e usa um salto de travesti, acho que ela e o Olavo têm que terminar juntos. Ele na cadeia e ela com um trabalho comum. Ela é linda, poderia ser modelo.’

Janaina, 25

‘A Bebel tem que ficar com o Olavo, com o filho do Olavo, mas os dois tinham que terminar na sarjeta. Na vida real, ela já teria se dado mal há muito tempo.’

Teressa,33

‘A Bebel não é má. Ela não merece um final ruim. Por isso eu acho que ela tinha que terminar com o Olavo. É isso que ela quer.’

Mônica, 28 anos’

***

E quem matou Taís? os eleitos na web:

‘Belisário (Hugo Carvana)

O pai de Antenor lidera a parcial da enquete realizada pelo portal do Estadão. Indignado por ter sido enganado pela troca de gêmeas, Belisário teria assassinado a gêmea má.

Marion Novaes (Vera Holtz)

Apesar de amigas, Taís sabia de todas as suas falcatruas e estava ameaçando contar seus segredos a todos se a promoter não a ajudasse a fugir.

Cadelão (Ed Oliveira)

Apesar de ser a personificação do mal, o cafetão não conhecia Taís – não que o público soubesse – e nem nos bastidores do Projac se trombaram. Será?

Ana Luísa (Renée de Vielmond)

Com cara de quem nunca matou nem uma mosca, a sempre boazinha Ana Luísa resolveu livrar Daniel e Paula de Taís para sempre. Totalmente inverossímil.

Hermínia (Débora Duarte)

Não escondia de ninguém que estava revoltada com as armações da vilã em cima de Paula e não perdoou a tentativa de seqüestro do menino Zé Luis.

Ivan Novaes (Bruno Gagliasso)

Mesmo gamadão na vilã, Ivan teria ficado furioso ao descobrir que Taís o traiu com seu irmão, Olavo. Sem contar o medo de ser preso por causa dos golpes da gêmea má.’

Keila Jimenez

A ambição da Record

‘Record News estréia com estrutura gigante e brigando por espaço no line up da Net

A estrutura e o investimento são grandes: quase 1.000 m² de estúdios e US$ 7 milhões gastos em equipamentos. Mas a ambição da turma do Record News, novo canal de notícias do grupo, é maior.

‘Nós sim seremos o canal de jornalismo 24 horas no ar. Aconteceu algo, paramos tudo para noticiar. Não será como os outros, que não sacrificam sua programação pela notícia em tempo real’, ataca o diretor de Jornalismo da Record, Douglas Tavolaro, referindo-se à concorrência.

O canal estréia nesta quinta-feira, às 20horas. Ou 27 de setembro, mesma data em que ia ao ar pela primeira vez, há exatos 54 anos, a TV Record, canal 7 de São Paulo.

‘Esperamos faturar R$ 100 milhões em um ano com o canal’, diz o otimista vice-presidente Comercial da Record, Walter Zagari.

O número de jornalistas e técnicos contratados ultrapassa a casa dos 200. Mesmo assim, a vitrine da Record será ocupada por grifes da Record aberta, como Paulo Henrique Amorim, Britto Junior e Adriana Araújo.

A programação se divide em formatos já explorados por Globo News e Band News e algumas novidades, como telejornais regionais.

O Record News irá ao ar no espaço até aqui ocupado pela Rede Mulher, canal 42 UHF de São Paulo, e no canal 20 da TVA. A Net, ligada às Organização Globo, acomodava a Rede Mulher, mas agora rediscute a presença do canal em seu line up sob novo conteúdo.’

Shaonny Takaiama

‘Eu não sou um inquiridor’

‘Criador do genial Ensaio, Fernando Faro diz que seu segredo é ser testemunha dos artistas

Fernando Faro cria um clima intimista com qualquer pessoa. Ele toca, olha nos olhos, fala suavemente. E chama a todos de baixinho, baixinha, baixo ou baixa. Um apelido que ganhou de Cassiano Gabus Mendes. Aos 80 anos, Baixo, o criador do Ensaio da TV Cultura e atual Coordenador do Núcleo de Música da emissora, recebeu um tributo no mês de junho, onde estavam Toquinho, Paulinho da Viola, a Velha Guarda da Portela, Vanessa da Mata e outros artistas.

Como foi receber um tributo em vida aos 80 anos?

Baixa, nem eu estava sabendo, fizeram um mistério incrível sobre isso. Me esconderam. Se bem que quando eu cheguei lá e encontrei Paulinho, Toquinho, Vanessa, aí já comecei a adivinhar o que estavam preparando contra mim (risos). Eu gostei muito de rever e ouvir aquelas coisas.

Baixo, além da Hebe e do Roberto Carlos, quem mais você sente vontade de levar ao programa?

Não falei ainda com a Rita Lee. Com a Hebe falei e ela me disse: ‘Baixinho, eu adoro você, mas eu não tenho mais idade para aqueles closes que você faz.’ A Rita eu lembro que quando os Novos Baianos fizeram aquela temporada no Rio em 1969 ela e os Mutantes também estavam e a gente ficou mais ou menos amigos… Mas aí acabou o show, eles foram presos e eu me perdi dela, até hoje. Vou tentar achá-la.

Qual é o segredo para deixar os artistas tão à vontade?

Ah, baixa, porque não sou bem um inquiridor ou um jornalista, entende? Eu sou mais uma testemunha e amigo deles. E como testemunha eu presenciei várias coisas deles. Então tem a receptividade que vem dessa coisa de ser testemunha.

E você fica bem perto das pessoas, você tem essa coisa do toque, que é bem marcante…

Hoje o conhecimento é tátil. Por exemplo, eu estava entrevistando Wanda Sá: ‘Wanda, como foi seu relacionamento com Edu Lobo?’ ‘Ah, foi legal, encontrei ele numa festa e eu sabia que ia casar com ele. E casei’. ‘E a separação?’ ‘Doeu e dói ainda, Baixo.’ Aí eu peguei a perna dela até a canela: ‘Quanto doeu?’ Ela disse: ‘Doeu muito, Baixo’. Aí ela ficou meio comovida. Nesse contato, com a perna dela, acho que passamos muita coisa um pro outro.

Como você desenvolveu a técnica do ‘Ensaio’ – close no entrevistado e entrevistador fora do foco das câmeras?

Eu acho que o entrevistado tem que ficar sozinho porque qualquer coisa em volta ou perto dele é um ruído. Uma geral na televisão não é nada. E realmente, se você assiste a um jogo de futebol, você não vê como é o jogador, eles não têm cara, é como se fosse um jogo de pebolim. Aí, esse close eu procurei aprofundar, trabalhar bem, então o close vai da boca, olhos, até orelha, até um ponto em que as coisas são pedaços de luz e aí só conta o que o entrevistado está falando e a gente se perde até da figura.

O que você está achando do resgate dos programas antológicos em DVD?

Me deixou muito feliz.O Sesc tinha começado a fazer os CDs e isso já me garantiu certa tranqüilidade porque pelo menos o áudio está preservado. Agora, com o DVD, é áudio e imagem preservados, então eu fico muito tranqüilo.

Histórias dos amigos

Vinícius de Moraes:

‘Teve uma outra ocasião em que ele estava no hospital, volta e meia ele aparecia lá para desintoxicar. Uma vez eu passei na casa do Chico e ele disse: ‘Baixo, estou indo ver o Vina.’ E fomos os dois lá. Chegamos lá e estava a Gilda esperando e ela disse assim: ‘Vina, olha quem está aqui: o Chico Buarque e o Baixo também, o Faro’. Ele olhou pra mim e disse: ‘Filho da p., pensei que você não ia vir me ver.’Aí, ele pegou minha mão e ficou segurando. Nós saímos de lá do quarto dele e no corredor do hospital o Chico disse assim: ‘Baixo, acho que nós perdemos o Vina.’ E perdemos (lágrimas nos olhos).

Toquinho:

‘O Toco é um cara assim duríssimo, eu nunca vi o Toco se comover com nada. A não ser uma vez, quando estava na Tupi, de manhãzinha. Ele chegou, e fomos tomar um café na padaria da esquina. Aí, de repente, ele disse assim: ‘Baixo, essa noite aconteceu uma coisa terrível: meu irmão sofreu um acidente. Eu disse: ‘E aí?’. ‘Eu acho que ele vai ficar paralítico, parece que pegou a espinha.’ Eu olhei o Toco e foi a única vez que eu vi ele comovido.’’

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

Terra Magazine

Veja

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