Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 10 E 11/11

O Estado de S. Paulo

13/11/2007 na edição 459

PAQUISTÃO
O Estado de S. Paulo

O autogolpe no Paquistão

‘Ditadores são ditadores. Fazem e dizem o que deles se espera para justificar as suas violências. O caso do general Pervez Musharraf, que tomou o poder no Paquistão em 1999, abatendo com uma quartelada o seu sempre instável e quase sempre corrupto regime civil, segue um modelo conhecido pelo mundo afora. No mês passado, fingindo ceder às pressões por mais democracia do seu aliado norte-americano, que desde o 11 de Setembro o cacifou com mais de US$ 10 bilhões e aceitou a sua bomba atômica em nome do combate ao terrorismo islâmico, o autocrata convocou a segunda eleição desde que subiu ao poder, tão fraudulenta como a anterior, e se reelegeu.

Só que a Suprema Corte – uma das poucas instituições que não se submeteram ao estado policial de Musharraf – teve a ousadia de acolher uma queixa do que restava de oposição no país, segundo a qual a reeleição do general tinha um vício de origem. Pela lei, ele deveria ter deixado o cargo de chefe das Forças Armadas, que acumula desde a primeira hora. Antes que o tribunal invalidasse o pleito, o general deu um autogolpe, decretando o estado de emergência.

Sob a lei marcial, as costumeiramente desrespeitadas franquias constitucionais foram suspensas de vez, o presidente da Suprema Corte foi destituído e preso, as emissoras de TV independentes foram tiradas do ar, milhares de pessoas foram espancadas nas ruas e encarceradas, entre elas advogados, jornalistas e ativistas de direitos humanos. ‘O terrorismo e o extremismo no Paquistão chegaram a níveis extremos’, alegou Musharraf. ‘Não podia deixar o Paquistão se suicidar.’

Mas Musharraf não fechou as madrassas que pregam a guerra religiosa e formam homens-bomba, não tratou de prender os líderes do Taleban paquistanês e nem de dissolver as células terroristas que têm organizado uma série de atentados suicidas em todo o país. Também não enviou forças militares para acabar com a ‘zona liberada’ que o Taleban e a Al-Qaeda instituíram na fronteira com o Afeganistão. Limitando-se a prender juízes, advogados, defensores dos direitos humanos, professores e artistas, o ditador demonstrou claramente que seu objetivo não era combater o ‘terrorismo e o extremismo’, mas calar os grupos que há anos tentam, por via pacífica, transformar o Paquistão numa democracia secular.

Tanto assim que, no mesmo dia em que decretou o estado de emergência e mandou prender as principais lideranças civis e democráticas do país, o general Musharraf determinou a libertação de 28 prisioneiros do Taleban, um dos quais sentenciado a 24 anos de cadeia por ter transportado explosivos usados em atentados.

De todas as partes do mundo civilizado chegaram a Islamabad protestos indignados contra o golpe. A secretária de Estado Condoleezza Rice – que, segundo o New York Times, havia sustado a primeira tentativa de autogolpe, em julho, acordando o general com um telefonema enérgico às 2 horas da madrugada – condenou publicamente as medidas que colocam o Paquistão ‘longe do caminho da democracia e do regime civil’.

Na verdade, os Estados Unidos e seus aliados estão numa sinuca de bico. Não podem apoiar o violento abandono das aparências democráticas, mas também não podem impor sanções a um governo secular formalmente engajado na ‘guerra contra o terror’- que pode ser substituído por um governo teocrático fundamentalista.

Esse tipo de impasse contém todos os elementos para um desfecho desastroso para os interesses ocidentais. Na verdade, só se chegou a essa situação porque o Ocidente tratou com excessiva leniência o regime militar paquistanês. Para ter uma base próxima ao Afeganistão, ao Iraque e ao Irã, os EUA fizeram vistas grossas para a situação interna do Paquistão, e assim foram criadas as condições para o paradoxo: o Paquistão governado por um aliado na ‘guerra contra o terror’ é, também, um abrigo seguro do comando da Al-Qaeda e um núcleo importante do radicalismo islâmico.

Mas o mais grave é que as potências ocidentais toleraram que o Paquistão desenvolvesse capacidade nuclear e missilística própria e tardaram em impedir que essa tecnologia fosse exportada para a Coréia do Norte e o Irã.

Agora, o Ocidente não pode ‘perder’ o Paquistão.’

 

VENEZUELA
O Estado de S. Paulo

Tiros em marcha anti-Chávez

‘Terminou em tiroteio uma passeata organizada ontem por estudantes na cidade de Mérida para protestar contra o projeto de reforma constitucional apresentado pelo presidente Hugo Chávez. A troca de tiros teria sido iniciada depois que os estudantes entraram em choque com as forças de segurança. Segundo o chefe do Departamento de Proteção Civil, Antonio Rivero, quatro policiais foram feridos a bala em circunstâncias confusas.

Uma autoridade local disse, sob condição de anonimato, que um motociclista disparou contra um grupo de policiais, ferindo os agentes e um civil. O canal de TV Globovisión divulgou que seis civis ficaram feridos. Entre eles, estaria um cinegrafista do canal RCTV internacional, agredido por policiais e simpatizantes de Chávez.

Os estudantes estão protestando desde a semana passada contra a reforma, que deverá ser levada a referendo no dia 2. Na quarta-feira, oito ficaram feridos na Universidade Central da Venezuela (UCV) depois de serem atacados por um grupo pró-Chavez. Anteontem, confrontos com a polícia deixaram outros 14 feridos entre alunos da Universidade Metropolitana (Unimet). Reitores universitários, professores e alunos culparam o presidente pelos confrontos e acusaram o governo de armar os grupos que dispararam contra os estudantes.

Representantes do governo e das principais universidades da Venezuela chegaram ontem a um acordo para tentar manter os protestos estudantis sob controle. ‘Chegamos ao acordo de que quando um protesto, mesmo sendo autorizado, tornar-se violento, de modo automático os órgãos de segurança passarão a dissolvê-lo, pois assim estabelece a lei’, disse o ministro do Interior, Pedro Carreño.

Em Santiago, no Chile, Chávez, qualificou os protestos estudantis em seu país de uma ofensiva ‘fascista’ impulsionada pela Casa Branca e grupos oligarcas venezuelanos. ‘Os Estados Unidos organizaram o golpe de Estado de 2002 e agora estão fazendo o mesmo em Caracas numa nova arremetida fascista apoiada pelos meios de comunicação e pela CNN’, disse Chávez, durante seu discurso na Cúpula Ibero-Americana. ‘Quando um governo como o venezuelano coloca em marcha um projeto revolucionário, as máscaras democráticas caem e o que se revela é o horrível rosto fascista das oligarquias desse continente’.

O procurador-geral da república, Isaías Rodríguez, informou em Caracas que o Ministério Público está investigando o incidente de quarta-feira na UCV para tentar identificar o grupo que agrediu os estudantes. Segundo ele, peritos estão analisando sete vídeos gravados no campus enviados à promotoria.

Enquanto a Conferência Episcopal Venezuelana pedia paz no país, a presidente da Assembléia Nacional, Cilia Flores acusava os meios de comunicação críticos ao governo de fomentarem a violência. ‘Eles estão buscando um morto para dizer que o governo é assassino’, afirmou Cilia.

O projeto de reforma que está motivando os protestos prevê mudanças em 69 dos 350 artigos da Constituição venezuelana. Ele foi apresentado por Chávez em agosto e aprovado pela Assembléia Nacional do país há uma semana. Entre as mudanças mais polêmicas propostas pelo presidente está a extensão do mandato presidencial de 6 para 7 anos e o fim do limite para reeleições – o que permitiria a Chávez se perpetuar no poder. Se ele for aprovado, o presidente também receberá uma série de poderes extras, que colocarão em suas mãos desde a condução da política monetária até a criação de regiões e municípios e designação de seus administradores.’

 

CRIME NA REDE
Eduardo Kattah

PF prende 30 hackers de classe média

‘Mais uma organização criminosa envolvendo jovens de classe média foi desarticulada ontem. A Polícia Federal prendeu 30 pessoas, todas com idades entre 20 e 25 anos, em Minas, Bahia e Santa Catarina, suspeitas de participação em uma quadrilha especializada em crimes cibernéticos, que lesava correntistas e bancos de todo o País.

A PF estima que o crime era praticado há pelo menos cinco anos. Em oito meses de investigação, o grupo causou um prejuízo de cerca de R$ 14 milhões. Nesse período, foram identificadas aproximadamente 200 vítimas em todo o Brasil, mas os policiais federais acreditam que o número de pessoas lesadas é bem maior.

A Operação Ilíada visava ao cumprimento de 31 mandados de prisão – 20 preventivos e 11 temporários – e 34 de busca e apreensão expedidos pela 4ª Vara Federal Criminal de Belo Horizonte. Até 20 horas, apenas um suspeito estava foragido.

A maior parte das prisões ocorreu em Betim – considerada a base da quadrilha em Minas. Cinco suspeitos foram presos na capital. A PF cumpriu também mandados em outras oito cidades mineiras. Uma pessoa foi presa em Joinville (SC) e outra em Porto Seguro (BA).

Segundo a PF, a operação arquitetada pela quadrilha era complexa. O grupo enviava e-mails em nome de empresas, além de mensagens simuladas como notícias relevantes para as vítimas. Depois de abertos, os e-mails instalavam um vírus no computador do usuário, sem que ele tivesse conhecimento. Quando a vítima acessava os dados bancários, os criminosos também alcançavam as contas correntes e realizavam transferências, saques e pagamentos indevidos.

De acordo com a PF, o dinheiro desviado era depositado na conta de laranjas e dividido entre integrantes da quadrilha. ‘Pelas investigações, concluímos que cada hacker subtraía R$ 600 mil por ano, ou seja, R$ 50 mil por mês. O prejuízo total chega a mais de R$ 14 milhões’, disse o delegado Felipe Baeta.

A quadrilha, conforme as investigações, lesou clientes de várias instituições financeiras, incluindo a Caixa Econômica Federal (CEF). ‘Desde donos de contas vultosas, proprietários de empresas, até pessoas mais humildes’, observou o delegado. ‘Eram jovens de classe média, que se dedicavam exclusivamente a esse delito. Ficavam quase que integralmente dedicando seu tempo para essa prática.’’

 

Eduardo Kattah e Ernesto Batista

Quadrilha conversava com hackers de todo o País

‘Apontado como o líder do esquema de ataques virtuais a contas bancárias em três Estados, Guilherme dos Santos Alves, de 23 anos, foi preso em Juiz de Fora. Ele mora em Betim, mas visitava parentes na cidade da Zona da Mata mineira. Guilherme e outros 11 hackers, dos quais receberia ajuda para a prática criminosa, foram presos preventivamente.

‘Ele conversa com hackers do Brasil inteiro trocando ferramentas’, afirmou Baeta. Nos endereços vasculhados pela polícia, foram apreendidos equipamentos, computadores, monitores de última geração, dois veículos – supostamente adquiridos por meio da fraude – e documentos diversos.

As investigações, a princípio, não apontaram o envolvimento de bancários no esquema de fraude virtual. Os suspeitos, segundo a PF, vão responder pelos crimes de fraudes pela internet, acesso indevido a contas bancárias, formação de quadrilha, emissão de notas frias e sonegação tributária. Durante as investigações, os policiais descobriram a prática de outros dois crimes: uso de drogas e corrupção de menores. Um dos envolvidos com a quadrilha seria menor de 18 anos.

ALGEMADOS

Os presos conduzidos até a sede da PF em Belo Horizonte chegaram algemados, tentando esconder os rostos. Parentes se mostravam irritados e reticentes e evitavam a imprensa. Um parente de preso discutiu com um fotógrafo que registrava as imagens. À tarde, era grande o movimento de pessoas que foram levar material de higiene, cobertores e roupas para os detidos. O Estado não conseguiu contato com o advogado de Alves.’

 

Para não cair em golpes

‘Remetente: Olhe com desconfiança para os e-mails que você recebe em nome de empresas e instituições ou pessoas desconhecidas. Senhas, números de cartão de crédito e outras informações confidenciais nunca serão solicitadas por e-mail. Caso receba um e-mail suspeito, delete-o imediatamente, antes mesmo de abrir anexos ou clicar em links.Se quiser checar a origem do e-mail, entre em contato por telefone com a empresa ou instituição citada.

Links: Evite clicar em links recebidos por e-mail. Passando o mouse sobre ele, sem clicar, dá para ver o nome do arquivo no pé da página. Nunca clique em arquivos com extensão .exe, .com, .scr e .pif. Há ainda o cuidado com o apelo sentimental: Muitos caem nos e-mails falsos com apelos, com mensagens do tipo ‘você está sendo traído’ ou ‘eu te amo’ e clicam em links que instalam programas nocivos. O mesmo vale para cartões virtuais.

Impessoalidade: E-mails falsos costumam ser impessoais, com saudações como ‘Oi’ ou ‘Prezado Cliente’. Se o seu nome não for mencionado, desconfie.

Armas: Junto com o bom senso do internauta, os antivírus também podem ajudar na guerra contra golpes virtuais.Também é recomendado o uso do firewall e anti-spam. E, principalmente, caso verifique saques irregulares na conta, avise imediatamente o banco.’

 

LITERATURA
Patrícia Villalba

‘The end’ de Harry Potter agora é ‘fim’

‘Ao primeiro minuto de hoje, num gesto cheio de simbolismo e estardalhaço, foram abertas em todo o País as caixas com os exemplares de Relíquias da Morte, a sétima e última aventura de Harry Potter escrita por J.K. Rowling. A edição brasileira do livro, novamente um lançamento da editora Rocco (592 págs., R$ 59,50), chega às lojas pouco mais de quatro meses depois do lançamento do original inglês, Harry Potter And The Deathly Hallows. Fenômeno de entretenimento – seja filme, livro e até novela – é coisa complicada de se controlar, ainda mais nesses tempos de pirataria.

E é triste reconhecer que de tanto se falar e especular sobre o fim da saga o assunto parece agora um tanto vazio, restando apenas os números sobre a quantidade de papel que foi usada para imprimir os 400 mil exemplares da primeira edição ou informações triviais que se tornam preciosas para os fãs ansiosos, como o número do quarto de hotel onde a autora pôs o ponto final na série.

É provável que depois de vazamentos mil na internet, traduções não oficiais e palpites de todo o tipo, o leitor já saiba a resolução do suspense que sustentado desde que Harry Potter e o Enigma do Príncipe, o sexto livro, foi lançado, em 2005: Lorde Voldemort vai mesmo matar Harry? Seria deselegante comentar qualquer coisa a respeito que revelasse o que acontece na trama, mas a resposta soa agora um tanto óbvia, apesar do medinho que a gente sente ao ler o livro até a página 563.

Dessa forma, só o leitor que conseguir abstrair as especulações ou quem sabe for um sortudo que heroicamente se manteve blindado contra a avalanche de notícias e pistas que circularam na internet, vai perceber que J.K. Rowling escreveu um livro cheio de angústia. Desta vez, ao contrário de todos os volumes anteriores, Harry não aparece todo serelepe na expectativa de mais um ano letivo na Escola de Magia de Hogwarts. Ele parece mais um condenado no corredor da morte, que corre contra o tempo, e sem segurança, para catar cacos de feitiços que poderiam destruir de vez o inimigo.

Dumbledore, professor que protegeu o herói das forças ocultas por todo esse tempo, está morto, mas deixou algumas missões e enigmas para Harry e seus fiéis amigos, Hermione e Rony resolverem. Ah, sim, Dumbledore era gay, revelou Rowling dia desses – apesar de que no livro, propriamente dito, essa revelação é passada de maneira sutil, quase imperceptível – se a autora não abrisse esse armário empoeirado, ninguém seria capaz de desconfiar daquelas desleixadas barbas brancas do bruxo. A declaração dela, que não havia feito uma menção sequer a tal homossexualidade e, note-se, a qualquer relação sexual, parece mais uma tentativa de causar polêmica, aguçar a curiosidade acerca de uma série que não se aproveitou em nada do poder transformador e transgressor da literatura, para se apoiar apenas no fenômeno que se tornou.

Muito pelo contrário, desde que foi lançada, há dez anos, a série só fez reforçar a dogma de que não se pode mudar o destino. O que Harry fez até aqui, além de seguir o que os personagens adultos do livro esperavam dele?

Harry Potter é um excelente herói, mas está mais para Super-Homem do que para Batman. Chega a ser um tanto frustrante vê-lo fugir como um garotinho por mais de 500 páginas, e a impressão que fica é a de que ele se safou até o sexto livro por sorte e porque, oras, é o mocinho. Nesse último livro, entre vários segredos revelados, até chama a atenção e é sintomática a relação que a autora estabelece entre Lilian, a mãe de Harry, e o destino do bruxo.

Rowling arrebatou uma legião de fãs e preferiu mantê-los a um produto puramente pop a arriscar qualquer ousadia que fosse. É certo que os três últimos livros, e especialmente o sétimo, parecem mais adultos porque acentuam o clima soturno do que seria um mundo bruxo – uma alternativa para manter os fãs fiéis, que cresceram junto com o protagonista. Mas não quer dizer que com isso a autora tenha conseguido ir além, intelectualmente, de tudo o que se publicou até hoje na área infanto-juvenil.

Harry Potter perdeu o humor, mas não ganhou estofo para ser dramático. Relíquias da Morte não é divertido como os livros anteriores, e aposta em reviravoltas típicas de novela das oito e livros policiais: quem pareceu mauzinho por 4 mil páginas se revela bonzinho, porque agia por amor.

Voldemort toma Hogwarts, começa uma caça aos trouxas – que, na série, são os não nascidos bruxos. O sistema começa a ruir, como um holocausto mágico. Rowling ensaia referências a George Orwell e a V de Vingança, de Alan Moore, e talvez ainda à xenofobia que cresce na Europa pós-euro. Mas nesse ponto, chega a ser mais sutil ainda do que no caso da homossexualidade de Dumbledore.’

 

CULTURA
Sérgio Augusto

A falsa cultura ao alcance de todos

‘Como dar conta de tantos livros? Eis um drama universal, que vários livros já inspirou. O último da espécie que li intitulava-se Los Demasiados Libros, do poeta e ensaísta mexicano Gabriel Zaid, aqui traduzido pela Summus, informação que só estou lhe passando, ‘paresseux lecteur’, por tratar-se de leitura rápida (tem em torno de 150 páginas), ademais prazerosa e inspiradora. Zaid possui uma biblioteca de mais de 10 mil livros. Não é um colecionador, um bibliômano; apenas adora ler; e é claro que: 1) não leu todos eles; 2) nem sequer folheou a maioria; 3) vários só leu até a metade, se tanto. Como todo mundo, aliás. Complexo? Zero.

Acumular milhares de livros não lidos sem perder a pose nem o desejo de comprar outros mais é um dos apanágios do verdadeiro homem ilustrado, defende-se Zaid de eventuais patrulheiros culturais. Até porque livros descartáveis ou apenas de consulta é o que não falta.

Mesmo quem lê muito rápido, sem prejuízo do gozo e da assimilação, sofre um bocado com o acúmulo de livros ao seu redor. Acompanhar o ritmo do mercado editorial é um anseio impossível, uma frustração permanente, que, como a morte, deve ser encarada como uma fatalidade ecumênica. Não sei se os que lêem menos, sobretudo por falta de tempo, sofrem mais que os bibliófagos, mas é entre eles que se encontra o maior número de preocupados com a pecha de inculto e alienado.

Para estes já existe um remédio. Paradoxalmente, sob a forma de livro. E, ainda que o autor rejeite o rótulo, um livro de auto-ajuda, quiçá de alta ajuda. Publicado na França, Comment Parler des Livres que l’on n’a pas Lus? (Editions Minuit) já foi traduzido para o inglês, também virou best seller na Alemanha, e tem tudo para virar franquia retórica nas tertúlias do mundo inteiro, pois o sonho de poder falar sobre livros que não lemos talvez seja mais intenso e disseminado que a quimera de ter lido todos os livros importantes publicados até hoje.

Seu autor, Pierre Bayard, 52 anos, mestre em literatura e psicanalista, já aprontou várias petulâncias. Há sete anos, publicou Comment Améliorer les Oeuvres Ratées, em que sugere mudanças em obras menores de Marcel Proust, Marguerite Duras e outros medalhões. Em 2002, lançou Enquête Sur Hamlet: Dialogue des Sourds, no qual tenta provar que Claudius não matou seu irmão, o rei da Dinamarca e pai de Hamlet.

Comment Parler des Livres que l’on n’a pas Lus? é seu 12º livro. Embora possa parecer um açougueiro promovendo as virtudes do vegetarianismo, de insincero Bayard não pode ser acusado. Já no prefácio admite ler pouco, por falta de tempo e interesse, e confessa ter dado aulas e palestras sobre obras em que nunca pôs os olhos.

De messiânico, sei não. Afinal, ele se diz investido da missão de salvar a humanidade das profundas neuroses semeadas pelo fetiche livresco, vale dizer do sentimento de culpa e humilhação que costuma afligir os que não gramaram do princípio ao fim os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust. Aos quais poderíamos acrescentar os 17 tomos da Comédia Humana, de Balzac; as quase mil páginas de Ulisses, de James Joyce; as 800 páginas de A Montanha Mágica, de Thomas Mann; as quase 400 páginas de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa; as 1.190 páginas de Guerra e Paz, de Tolstoi (na tradução da Aguilar) – para ficarmos só em alguns dos mais célebres catataus da literatura ocidental.

Partindo de uma constatação razoavelmente lógica – se lemos um livro de ponta a ponta, muitos outros terão de ser desprezados ou, na melhor das hipóteses, lidos pela metade ou apenas folheados – Bayard propõe algo mais que uma atualização pós-moderna do Método de Leitura Dinâmica de Evelyn Wood, que tantos seguidores amealhou nos anos 60, entre os quais o presidente John Kennedy e milhares de brasileiros. É uma nova e estrambótica maneira de se lidar com um livro, um vade-mécum que mais parece uma paródia de Jacques Derrida e da Modesta Proposta de Jonathan Swift, aquele panfleto satírico (safra 1729) em que o autor de As Viagens de Gulliver recomendava que os irlandeses à beira de miséria faturassem algum transformando seus rebentos em alimento para os ricos. Ou uma paráfrase daquela competição inventada pelos Monty Python, cujos participantes tinham 15 minutos para resumir os sete volumes da Recherche proustiana.

A leitura tradicional, letra por letra, palavra por palavra, está superada, pontifica Bayard, que nunca terminou Ulisses nem O Homem Sem Qualidades (de Robert Musil), só conhece A Eneida (de Virgílio) e Oliver Twist (de Charles Dickens) através de ensaios, não se lembra de mais nada de A Interpretação dos Sonhos (de Freud) e O Lobo das Estepes (de Hermann Hesse), e não faz a mais remota idéia do conteúdo da Retórica de Aristóteles.

Embora mencione Oscar Wilde, seu raciocínio não se apóia literalmente na conhecida boutade wildiana: ‘Nunca li um livro antes de criticá-lo para não me deixar influenciar pela sua leitura.’ O quesito influência não o aflige, mas as raízes de seu raciocínio estão, sem dúvida, no Wilde do monológico ensaio O Crítico como Artista, no qual o provocante irlandês, após salientar ser inútil beber o tonel inteiro para conhecer a origem e a qualidade de um vinho, argumenta: ‘Pode-se dizer facilmente em meia hora se um livro é bom ou não vale nada. Bastam, de fato, dez minutos, se se possui o instinto da forma.’

Também são referências respeitáveis o sábio Montaigne, que lia à beça mas esquecia de tudo (‘nulle retention’, queixou-se num de seus ensaios), e Paul Valéry, que encontrava maneiras de elogiar autores cujos livros sequer abrira ou lera por alto, como Proust, e esculachar outros, como Anatole France. A propósito, se esquecemos do que trata um livro que efetivamente lemos, podemos considerá-lo lido? Aqui e ali, Bayard menciona personagens de Graham Greene, Umberto Eco e David Lodge que questionam a necessidade da leitura tal como vem sendo há séculos praticada.

Por falar em Eco, ele e Bayard serão entrevistados publicamente por Paul Holdengraber, às 18h do próximo sábado, na Biblioteca Pública de Nova York. Na certa, discutirão à exaustão se o conhecimento profundo de um livro em particular é, de fato, sempre menos importante do que conhecer seu status na ‘biblioteca coletiva’, naquele grupo de obras com as quais se relaciona ou ombreia.

Que utilidade tem saber que Leopold Bloom come um sanduíche de gorgonzola no almoço?, questiona Bayard. Mais vale saber que Ulisses é um romance experimental de Joyce, inspirado na Odisséia de Homero, que faz uso do ‘fluxo de consciência’ para descrever um dia (16 de junho de 1904) na vida de alguns poucos dublinenses, já não fará feio numa roda de amigos cultivés. E o prazer da leitura? Uma coisa é saber que Dostoievski introduziu a psicologia no romance ou que Capitu tinha olhos de cigana oblíqua e dissimulada, outra é experimentar, com o máximo de concentração, a febril deambulação de Raskolnikov por São Petersburgo e a crescente paranóia de Bentinho de que foi corneado pela mulher.

A seus alunos e também aos filhos, Bayard ensinou pessoalmente a sua ‘prática indisciplinada da leitura’: primeiro, examinar a capa e a lombada do livro; depois, ler a primeira frase, passar os olhos nas passagens cruciais, e monitorar tudo o que a seu respeito é dito e publicado. Dito por quem o tenha lido de cabo a rabo, presumo; do contrário, como iremos localizar as tais ‘passagens cruciais’? Livros que se tornam fenômenos por razões extra-literárias, divulgados e discutidos ad nauseam pela mídia, são autênticos pitéus coloquiais. Mas quantos de vocês aí leram até o fim Os Versos Satânicos e O Nome da Rosa? Descomplexidamente confesso: nem abri o primeiro e não consegui ir além da trigésima sexta página do segundo.

A proposta de Bayard soa leviana, para não dizer funesta (e rimar com modesta). Imagino o horror causado em culturalistas & bibliômanos como Harold Bloom, E.D. Hirsch, Alberto Manguel, Sven Birkerts, e nos apóstolos do ‘close reading’; e o prazer dado a Franco Moretti, excelente ensaísta e professor da Universidade de Stanford, na Califórnia, que até na Alemanha causou sensação com uma conferência sobre ‘como falar em literatura sem nunca ter lido um romance’. Mas é inegável que Comment Parler des Livres que l’on n’a pas Lus? diverte e funciona como quebra-galho social, cheio de dicas para fazer farol e evitar gafes com autores e leitores tradicionais. Ou mesmo escrever resenhas: ‘Ponha o livro à sua frente, feche os olhos e tente perceber o que nele possa interessá-lo. Aí, então, comece a escrever sobre si mesmo.’

Na presença de um autor, o mais aconselhável é elogiar sua obra sem entrar em detalhes. Detalhes, diante dos elogios, são irrelevantes. E, quanto mais vaidoso o autor, muitíssimo mais relevantes os elogios. Deixar o subconsciente expressar sua relação pessoal com a obra, nem que seja para discorrer apenas sobre a expressividade da capa e a elegância da tipologia, é outro conselho que Bayard oferece à sua clientela. Falar de si mesmo, usando o livro como pretexto, sem aprofundar-se no conteúdo, costuma funcionar, principalmente quando o tergiversador força a imaginação e acaba inventando o seu próprio livro.

‘Não quero justificar a não leitura, apenas ensinar as pessoas a viver sem pânico com os livros, ajudá-las a encontrar seus próprios caminhos através da cultura, inclusive aquelas alheias ao universo da palavra escrita, que, de tão apegadas à cultura das imagens, têm dificuldade de voltar à leitura. Quero evitar que a cultura cause novos traumas, que a leitura continue sendo vista como um aterrorizante espectro do conhecimento. Quero libertar os alunos da produção de relatórios exaustivos sobre tudo o que leram, obrigados pelo professor. Isso não é leitura, é burocratura.’

Bayard quer muita coisa. Eu também. Ler seu livro, por exemplo. Ou vocês acham que eu cometeria a descortesia de o ler antes de escrever as linhas acima?’

 

MÚSICA
Lauro Lisboa Garcia

Grammy latino é show de bizarrice

‘Se o Grammy americano já é aquilo, imagine o latino. A festa de entrega dos prêmios da oitava edição, anteontem, foi, como se previa, um show de cafonice. Não é à toa que a cidade escolhida foi Las Vegas. Se a cerimônia em si já é absolutamente sem graça, mas risível, na transmissão pela TV Band ficou ainda pior, com comentários – dignos de José Wilker na entrega do Oscar, ou seja pra lá de redundantes – da jornalista Mariana Ferrão, do cantor Paulo Ricardo e do produtor musical Guto Graça Mello. É Galvão Bueno fazendo escola.

Pois, então, aos vencedores as batatas. Caetano Veloso levou dois prêmios, na categoria de álbum de ‘cantautor’, concorrendo com o uruguaio Jorge Drexler e o cubano Silvio Rodriguez, entre outros, e melhor canção brasileira (Não me Arrependo), ambos pelo bom Cê.

A maioria dos brasileiros premiados não apareceu para pegar o troféu, com exceção de Daniela Mercury (melhor álbum de música regional ou de raízes brasileiras por Balé Mulato ao Vivo) e Aline Barros (pelo CD Caminho de Milagres na categoria música cristã em língua portuguesa). Bonita com um vestidão branco, Daniela foi bem recebida pela platéia. Ela é uma das que levam a sério o prêmio e aproveitou a ocasião para reivindicar maior presença de latino-americanos no palco da festa do primo rico, o Grammy ianque. Depois voltou para dar seu show, num vestido vermelho mais adequado à bizarrice geral. Aline já foi bem de acordo, de verde: parecia ter saído de uma peça infantil ecológica, no papel de pé de alface.

Além de Caetano e Aline houve apenas mais um vencedor brasileiro fora do eixo nacional. A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, sob regência do maestro John Neschling, levou o prêmio de melhor álbum de música clássica, pelo CD Beethoven – Abertura Consagração da Casa – Sinfonia nº 6, empatando com La Canción Romántica Española, da cantora Montserrat Caballé.

É claro que a música brasileira produziu muita coisa melhor do que aquilo que entrou na concorrência. Mas ao Grammy latino, como ao norte-americano, não interessa o teor artístico, mas a popularidade que vende (embora, não venda tanto atualmente), os modismos, blablablá. O problema é que os resultados do prêmio ressaltam para o mercado externo uma impressão equivocada do que no País. Se bem que quem sabe do que rola de bom no circuito indie daqui não vai perder tempo com um prêmio desses.

Com exceção do bom Cê, de Caetano, entre os contemplados brasileiros deu a mesmice comodista dos discos ao vivo e/ou recheados de velharias. Três saíram do famigerado projeto Acústico MTV: Lenine (na categoria de pop contemporâneo brasileiro), Lobão (rock) e Zeca Pagodinho (samba/pagode). Os demais foram Ao Vivo (ora, pois) de César Camargo Mariano e Leny Andrade (categoria música popular brasileira), Eternamente Cauby Peixoto – 55 Anos de Carreira (música romântica). Preguiiiiiça…

Só não dá mais vergonha porque a concorrência não era muito das melhores. Indicado em quatro categorias pelo álbum Unplugged MTV (a praga é planetária) o porto-riquenho Ricky Martin levou em duas: álbum pop vocal masculino e vídeo musical versão longa, ao qual também concorria Chico Buarque pela ótima série de Roberto de Oliveira.

O grande vencedor foi o dominicano Juan Luis Guerra e seu grupo 440, cujo CD La Llave de Mi Corazón e a canção-título levaram todos os prêmios aos quais concorriam: álbum do ano, gravação do ano, canção do ano, álbum de merengue, canção tropical, engenharia de gravação. Perdida no meio de 49 categorias, a maioria de pífio significado, surge uma ou outra coisa boa, como Me Llaman Calle, de Manu Chao, a melhor faixa do novo álbum, Radiolina, que levou o Grammy de canção alternativa. Uau. Até isso!!!’

 

YOKO ONO
Jotabê Medeiros

Yoko gritava e a cuíca chorava

‘E Yoko caiu no samba. Acompanhada pelo grupo de Oswaldinho da Cuíca, ela terminou sua apresentação musical anteontem à noite, no Teatro Municipal de São Paulo, com um rebolado desengonçado, e ao final, jogou sua estola de plumas para a platéia e voltou para três demoradas reverências ao público. Só no sapatinho – Yoko gritava e a cuíca chorava.

Yoko Ono fez um show para uma platéia coalhada de VIPs: estavam lá, entre outros, Tomie Ohtake e seus filhos Ruy e Ricardo Ohtake e alguns netos, Adriana Calcanhoto e Supla. No lado direito do palco, uma foto de Yoko criança com roupinha de marinheiro ficou projetada ao longo de todo o concerto.

A performance de Yoko evocava, a todo momento, um fantasma onipresente: John Lennon. Ela começou a apresentação despindo-se de roupa e chapéu e ficando apenas com uma malha de dança. Depois, passou por dentro de um espelho quebrado. O público aplaudiu entusiasticamente o aquecimento da performer.

Então ela ressurgiu de capuz, puxada pela mão de um assistente, como aqueles presos iraquianos de Abu Ghraib. No telão, ato contínuo, ia se materializando uma foto dela com John e o filho deles, Sean Lennon. A foto foi se dissolvendo até virar um detalhe da mata do Central Park, região onde viveram.

No esquete Woman, uma imagem de uma mulher no telão (aparentemente, a própria Yoko) ameaça tirar o sutiã. Uma senhora na platéia implora: ‘Por favor, ela não vai soltar aquilo, vai?’

Já para a performance ONOCHORD, foram distribuídos previamente na entrada do teatro lanterninhas pequenas com as instruções: para dizer I LOVE YOU, apertar uma, em seguida duas e em seguida três vezes. Uma variação Yoko do Código Morse. Mas todo mundo já estava apertando as lanterninhas muito antes de o show começar.

‘Quero lembrar de mim’, diz Yoko. Um cemitério aparece no telão, Yoko de quepe de capitão de navio. Em seguida, ela se arrasta como uma mulher enlutada, coberta com um véu branco, pelo chão do palco do Municipal. Yoko geme e grita, em momento ‘trabalho de parto’. Parece que não ensaiou as performances, vai improvisando e os músicos entram quando ela se dirige a eles, como uma maestrina.

E de novo Lennon: no telão, surgem agora um par de óculos e um copo d’água. ‘Eu quero lembrar’, ela diz. As palavras-chave de seus manifestos são as de sempre: ‘Ouça seu Coração!’, ‘Tenha coragem, tenha graça!’, ‘Eles me roubaram!’, ‘Nós estamos morrendo!’.

Finalmente, o samba: ela começou a dançar e até que não era das piores sambistas – tem muita ex-BBB que samba pior. Entusiasmou-se e parece mesmo que chegou à mesma conclusão de Caetano: ‘Eu sou neguinha?’ Yoko então se voltou para a platéia e mandou beijinhos, no velho estilo chacrete. ‘Queria dizer que amo vocês’, afirmou.

Depois, deitada num colchonete no chão, ela se virou para o grupo de Oswaldinho da Cuíca (que reúne ainda dois filhos do instrumentista brasileiro) e despediu-se: ‘Obrigado, garotos! Foi muito bom.’ No telão, mais uma vez, ficou aquele velho gosto de Lennon, com a mensagem ‘Imagine Peace’ estampada.

A ênfase discursiva faz pensar, por instantes, que é uma espécie de missa que ela celebra. Em alguns momentos, há um lirismo que até contagia na performance de Yoko. A grande perda dela foi, afinal de contas, uma perda de todos nós, e é o que nos segura nas poltronas do Municipal, evitando um êxodo completo. Mas sempre nos ocorre a questão: e se Lennon não tivesse sido morto por um lunático, mas sim abandonado Yoko com uma corista romena?

Ela canta com imagens embaralhadas do passado no telão e parece que em algumas delas estavam a guarda britânica tentando dominar fãs enlouquecidos dos Beatles. Yoko vai lembrar para sempre, e obrigar alguns de nós a lembrar junto com ela.’

 

ARQUITETURA
Camila Molina

Bienal começa hoje e discute relações entre público e privado

‘O tema da 7ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, que será inaugurada hoje, às 18 horas, para convidados, e amanhã para o público, é, como diz o coordenador da curadoria da mostra, José Magalhães Júnior, uma questão-chave para a arquitetura: a relação entre o público e o privado. ‘A Constituição de 1988 incluiu o direito de propriedade. Depois desse fato, colocou-se, entre tantas questões, algumas perguntas – Qual a função social da propriedade? Como se dá o desenvolvimento urbano?’, afirma o curador. Para o presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) de São Paulo, Arnaldo Martino, desde o Renascimento essa questão é pensada – e uma das soluções foi a construção das praças que ligavam os prédios com uma grande área aberta pública (Piazza San Marco, por exemplo). ‘O marco, no Brasil, foi o prédio do Ministério da Educação e Saúde, no Rio (hoje, Palácio Gustavo Capanema) com os pilotis que permitiam a abertura para as pessoas transitar’, diz Martino.

O arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, que em 15 de dezembro vai completar 100 anos, esteve na equipe que projetou o Ministério da Educação. Niemeyer é, também, um dos grandes homenageados dessa 7ª Bienal de Arquitetura, realizada pelo IAB e pela Fundação Bienal de São Paulo. Um espaço será dedicado a ele no segundo piso do prédio – apresentando todo o seu projeto sobre o Parque do Ibirapuera – e a mostra Oscar Niemeyer Arquiteto, Brasileiro, Cidadão, organizada pelo Instituto Tomie Ohtake, já apresentada em Belo Horizonte e Curitiba e que perpassa sua carreira, está abrigada sob a marquise do parque (logo depois do MAM).

O espaço da mostra de Niemeyer dentro do pavilhão apresenta toda sua concepção do complexo do Parque do Ibirapuera (projetado em 1951, inaugurado em 1954) por meio de desenhos, fotografias e textos pertencentes à biblioteca da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. ‘Seu projeto original é diferente do que foi construído’, diz o curador Magalhães. O IAB defende o ‘direito de autor’ de Niemeyer, mas também não chega a comprar nenhuma briga em relação às polêmicas que envolvem a questão – por exemplo, a reformulação da marquise e o auditório que, no projeto original, ‘tinha outra escala e não era para ser um teatro’, como diz Magalhães. ‘O auditório teria uma rampa’, completa Martino. A mostra também faz paralelos históricos entre o Ibirapuera no passado e no presente e apresenta, inclusive, o novo e muito recente projeto de Niemeyer para a transformação do prédio do Detran (em frente ao parque) no Museu de Arte Contemporânea da USP.

O outro homenageado pela 7ª Bienal de Arquitetura é Paulo Mendes da Rocha, que terá uma sala especial dedicada a ele também no segundo piso do pavilhão. O arquiteto, vencedor do importante Prêmio Pritzker no ano passado, escolheu exibir na mostra um projeto de 2003 para a implantação de um parque com ênfase, mais precisamente, para ser uma vila olímpica (é projeto de quando São Paulo se candidatou a sediar uma Olimpíada) numa área contínua entre o percurso dos rios Tietê e Pinheiros. ‘Ele está mostrando um desejo para a cidade São Paulo. É o único ‘, diz Martino.

Mesmo que o tema seja a relação entre o público e o privado, a apresentação de obras públicas é escassa nessa Bienal – enfim, acabam prevalecendo os projetos privados mesmo. ‘A quantidade de obras públicas apresentadas na Bienal é pequena justamente porque essa é uma área deprimida’, diz Gilberto Belleza, presidente do IAB. Entre os destaques de obras públicas está, diz Magalhães, o projeto do grupo venezuelano Urban Think Tank para Caracas – a construção de um metrô aéreo para uma região de favela.

A Bienal preza, na verdade, a diversidade. São 125 expositores entre 13 representações nacionais, salas especiais, arquitetos nacionais (Villanova Artigas, Benedito Lima de Toledo, Carlos Lemos, Paulo Henrique Paranhos, de Brasília, e Rubens Meister, do Paraná) e estrangeiros (o americano Steven Holl, o japonês Shuhei Endo e o espanhol Joan Busquets, responsável pela transformação de Barcelona nos anos 80), projetos do concurso de escolas de arquiteturas e espaços institucionais. A Bienal estava orçada em R$ 4 milhões, mas feita com a captação de ‘menos da metade’ desses recursos, como diz Martino. A mostra ainda conta com um fórum de debates gratuito, entre amanhã e sábado, no auditório da Bienal – informações no site do IAB -, conferências e exibição de vídeos.

(SERVIÇO)7.ª Bienal Internacional de Arquitetura. Fundação Bienal. Avenida Pedro Álvares Cabral s/n.°, Parque Ibirapuera, portão 3, 5576-7645 e 3259-6866. 3.ª a 5.ª, 12h às 22h; 6.ª a dom., 10h às 22h. R$ 12. Até 16/12. Abertura hoje, às 18 horas, para convidados, e amanhã para o público’

 

MULHERES
Elder Ogliari

Camille Paglia critica exageros feministas e Hillary

‘Conhecida por seu gosto por polêmicas, a escritora norte-americana Camille Paglia, de 60 anos, apontou exageros nos movimentos feminista e gay e criticou a possível escolha de uma mulher, Hillary Clinton, como candidata dos democratas à presidência dos EUA, durante entrevistas para jornalistas e palestra para os 500 participantes do Curso de Altos Estudos Fronteiras do Pensamento, promovido pela Copesul (Central Petroquímica do Sul), em Porto Alegre, nesta quinta-feira.

‘O movimento feminista está vivo e atuante, se tornou internacional, mas não é e nem pode ser uma religião’, sustentou, reiterando suas posições contra o dogmatismo de militantes que responsabilizam o homem por todos os problemas do planeta. ‘Sou a favor de igualdade de oportunidades, mas sou contra uma proteção especial às mulheres, como se elas precisassem de uma supervisão ou de um comitê ao qual se apresentariam como vítimas’, disse, reforçando sua admiração pela cantora Madonna, a quem atribui uma revolução que colocou em primeiro plano o movimento feminista não puritano e favorável ao sexo, à beleza e ao prazer.

Nesse contexto, Camille Paglia lembrou que sempre defendeu a imagem da mulher fatal encarnada por personagens literárias e estrelas de Hollywood. ‘Ao contrário de diminuir as mulheres, mostram o poder que elas exercem sobre o âmbito de sexualidade’, afirmou. Apesar disso, considera que a era das grandes estrelas do cinema está passando. ‘A última grande performance de atriz é de Sharon Stone em Instinto Selvagem, de 1992.’

Para a intelectual norte-americana, a cultura popular moderna impõe uma tirania ao exigir que a mulher continue sendo bonita e sexy até os 60 anos. ‘Isso causa desconforto, mas essa pressão existe também sobre os homens’, comentou, referindo-se ao esforço masculino para manter a aparência.

Assim como criticou o feminismo radical dos anos 80, Camille Paglia mostrou-se preocupada com a disseminação do movimento gay na cultura popular, que, segundo a escritora, está fazendo com que muitos jovens que se sentem atraídos pelo mesmo sexo deixem de levar a sério a bissexualidade como opção de vida. ‘Os jovens estão passando por uma certa pressão para dizerem que são gays e assumirem uma identidade sexual definitiva ainda antes de atingirem a maturidade’, afirmou, mostrando-se contrariada com a demarcação rigorosa entre a hetero e a homossexualidade. ‘Isso não corresponde ao que existe na natureza e às possibilidades humanas de expressão da sexualidade. Eu adotaria uma posição que deixa espaço para a bissexualidade.’

Mesmo que já tenha prometido votar no Partido Democrata na próxima eleição presidencial dos EUA, Camille foi feroz ao criticar a possível candidatura de Hillary Clinton à sucessão de George W. Bush. Destacou que preferia a senadora californiana Dianne Feinstein, a quem considera uma mulher forte, com sólidos conhecimentos de assuntos militares, mas não disposta a se submeter ao esforço de passar três anos buscando recursos para a campanha. ‘Hillary não é política por natureza, não gosta de se envolver com pessoas, é cerebral demais’, avaliou, afirmando que a possível candidata tem como ‘único amante sua própria ambição pelo poder’. Para Camille, Hillary não tem nenhuma relação satisfatória na vida pessoal, nem com o marido e nem com a filha. ‘Mas parece que esse monstro aí vai ser a nossa candidata’, finalizou.’

 

FOTOGRAFIA
Camila Molina

Relações entre Brasil e EUA em 126 imagens

‘Durante 1 ano e 8 meses, o professor de fotografia do Senac, João Kulcsár, se dedicou ao difícil trabalho de selecionar imagens que contassem a relação entre os EUA e o Brasil. Foi uma tarefa difícil porque, ao passar por arquivos importantes da imprensa brasileira (dentro dela, a Agência Estado), da imprensa estrangeira (The Washington Post e New York Times), da famosa Magnum Photos, da Associated Press e do Instituto Moreira Salles, entre tantos outros, Kulcsár tinha às mãos um leque gigantesco de opções e, diga-se, todas elas da melhor qualidade, muitas delas premiadas com o Pulitzer nos EUA, o Esso no Brasil e o internacional World Press Photo (entre as que levarem essa última premiação, a foto de 2004 feita por J. F. Diório, do Estado). Ao final de sua pesquisa, ele chegou a um número de 126 fotos, que estão na exposição Impressões Visuais: 50 Anos da Comissão Fulbright no Brasil, que será inaugurada hoje na Galeria Olido.

A mostra marca o meio século do Programa Fulbright no Brasil. Criado em 1946 por lei de autoria do senador americano J.W. Fulbright, é um programa de intercâmbio educacional e cultural do governo dos EUA, que promove eventos e concebe bolsas – em seu histórico estão mais de 225 mil bolsas de estudos, pesquisa e docência a norte-americanos e de outros 150 países participantes. O Brasil entrou no programa em 1957. O próprio Kulcsár foi bolsista da comissão e daí surgiu o vínculo para fazer agora a exposição.

Para contar a história da relação dos EUA com o Brasil o curador estabeleceu seis capítulos: Herança Comum (as raízes africana, indígena e européia); Política; Emoção, Força e Paixão (dedicado ao esporte); Cidadania (com prioridade para a questão racial e as turbulências da década de 1960 – ditadura e Guerra do Vietnã, por exemplo); Cultura (dentro dela o carnaval); e Meio Ambiente (a última foto da mostra é uma imagem do Planeta Terra captada por satélite da Nasa em 1992). ‘Para amarrar os capítulos, as imagens e os momentos pensei em fazer relações estéticas, temáticas e históricas’ , diz Kulcsár. A solução expositiva pensada foi a de colocar grupos de imagens sobre 40 painéis (há alguns deles com apenas uma foto ampliada). Ao mesmo tempo, há sempre trechos de textos de bolsistas da Fulbright. Nas junções, que dão prioridade para a ‘imagética’, como diz o curador, há sempre um sutil comentário crítico.

(SERVIÇO)Impressões Visuais : 50 anos da Comissão Fulbright no Brasil. Galeria Olido.Avenida São João, 473, 3.ª a sáb., 12 h às 21h30 (dom. até 19h30). Grátis. Até 9/12. Abertura hoje, 12 h’

 

TELEVISÃO
Keila Jimenez

Noticiário dublado

‘Imagine um jornal dublado em japonês? O Primeiro Jornal, noticiário matutino da Band, começa a ser exibido assim hoje no Japão, levado para lá pela rede local NHK, parceira de longa data da Band.

O jornalístico brasileiro ganhará uma edição especial no Japão, um compilado de notícias que será exibido semanalmente no programa Ohayo Sekai (Good Morning World) do canal BS 1, centrado na transmissão do que há de mais atual no jornalismo do mundo.

O canal BS 1 mantém parceria com mais de 20 canais de televisão, em 15 países.

A parceria da Band com a NHK nasceu em 2005, quando a rede instalou uma sucursal brasileira dentro das dependências da Bandeirantes em São Paulo.

Mais tarde, o presidente do Grupo, Johnny Saad foi ao Japão convidado pela NHK para um intercâmbio sobre TV digital.

A Band acabou também comprando os direitos de exibição da minissérie japonesa Haru e Natsu, da NHK, que teve cenas gravadas em Campinas. A idéia é exibi-la durante a comemoração do centenário da Imigração Japonesa no Brasil, em junho de 2008.’

 

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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