Sexta-feira, 20 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 5 E 6/4

O Estado de S. Paulo

08/04/2008 na edição 480

DOSSIÊ
Luciana Nunes Leal

‘Crime é o vazamento’, reage Dilma

‘A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, reconheceu ontem que dados do dossiê sobre gastos do governo Fernando Henrique Cardoso saíram de dentro do Palácio do Planalto e que houve vazamento de informações sigilosas. Deixou claro que ao governo só interessa quem vazou as informações, ‘o que é crime’. Insinuou que o vazamento só interessa aos adversários do governo e que ela foi o alvo principal: ‘Tem uma direção certa, a mim. Tem uma tentativa de atribuir à Casa Civil’.

A ministra negou que o governo tenha montado o dossiê e que o objetivo fosse fazer chantagem e forçar um recuo da oposição nas investigações da CPI dos Cartões Corporativos. ‘Quero saber quem chupou elementos do nosso banco de dados e manipulou. Como foi feito? Foi feito aqui dentro? Vamos investigar isso. Não porque esta pessoa, ao fazer aqui dentro, tenha cometido algum crime. Ela cometeu crime ao fazer e vazar’, disse a ministra, em entrevista coletiva no fim da tarde de ontem. ‘Temos certeza de que o crime reside no vazamento e este governo não vazou e não difundiu, não publicou informações confidenciais.’

Dilma disse que discutirá com o ministro da Justiça, Tarso Genro, ‘como seria a investigação (da Polícia Federal) do crime de vazamento de dados sigilosos’.

Quase duas semanas depois de abrir uma sindicância para apurar responsabilidades sobre o vazamento dos dados, a ministra anunciou outra forma de investigação: a Casa Civil pediu ao Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI) uma auditoria nos cinco computadores que eram usados para digitar os dados de gastos do governo anterior e do atual.

Dilma levantou a hipótese de que o dossiê seja uma montagem feita a partir de dados que realmente estavam na Casa Civil e fragmentos de outras planilhas. A planilha publicada pelo jornal Folha de S. Paulo ontem inclui a coluna ‘Observações’, que não faz parte dos dados da Casa Civil, segundo Dilma. Um exemplo das tabelas do banco de dados de gastos que está na Casa Civil foi mostrado ontem ao Estado. Nessa planilha, a última coluna tem a inscrição ‘Suprim’ (Sistema de Suprimento de Fundos) e não ‘Observações’.

A ministra afirmou ainda que recebeu da Folha uma cópia da ‘capa’ do dossiê diferente da que foi publicada ontem. Segundo ela, havia uma rasura na parte que indicava a hora em que o documento foi salvo pela última vez. A Folha informou ontem que os documentos publicos e entregues à ministra são os mesmos e que, para preservar a fonte da informação, rasurou os horários em que o arquivo foi salvo e impresso pela última vez.

Segundo Dilma, técnicos do ITI informaram que ‘90% dos casos de vazamento não acontecem por invasão (dos computadores), mas quando alguém de dentro tem acesso’, o que reforçaria a tese de que algum funcionário do Palácio manipulou os dados. ‘Mas não descartamos nenhuma hipótese’, ressalvou Dilma.

A ministra fez uma referência ao fato de o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) ter admitido que viu o dossiê. ‘Até agora, não apareceu o vazador. O que se sabe é que houve senador de oposição que recebeu o banco de dados.’ E completou: ‘Foi insinuado que havia o conhecimento de algum deputado da situação. Este, até agora, não apareceu.’’

 

Marcelo de Moraes

Gasto de FHC chega a Portal da Transparência

‘Em meio à turbulência política provocada pelo vazamento de informações sigilosas referentes a gastos do governo de Fernando Henrique Cardoso, a Controladoria-Geral da União (CGU) disponibilizou nesta semana, no Portal da Transparência, os gastos com cartões de crédito corporativo do governo tucano em 2002. Ao todo, o governo FHC gastou R$ 3.004.180,40 com o cartão corporativo, sendo que quase todas as despesas foram produzidas pela própria Presidência da República ou por órgãos vinculados diretamente a ela (cerca de R$ 2,8 milhões).

Essas despesas foram produzidas de setembro a dezembro de 2002, período em que o cartão corporativo passou a ser usado na prática pelo governo federal iniciando o processo de substituição dos fundos de suprimento. As informações foram colocadas no portal na última quarta.

Segundo a assessoria da CGU, isso foi feito para atender a um pedido feito pelo Tribunal de Contas da União (TCU) de dar transparência a todos os gastos gerados pelo governo. Também foram publicadas as despesas com os cartões corporativos referentes a 2003, primeiro ano do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

As informações preservam o sigilo dos dados dos gastos secretos feitos com o cartão pelo gabinete da Presidência, que somam R$ 1.045.110,75. Os gastos secretos da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) também tiveram seu conteúdo protegido, somando R$ 1.723.132,79.

O uso do cartão corporativo passou a crescer gradativamente, explodindo no ano passado, como revelou reportagem do Estado, em janeiro, provocando a queda da ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria da Igualdade Racial, campeã de gastos entre os ministros.

As despesas sigilosas do gabinete da Presidência somaram cerca de R$ 1 milhão em 2002 e aumentaram já no ano seguinte. No primeiro ano do governo Lula, os cartões corporativos produziram um total de despesas de R$ 9.262.660,44. As despesas secretas do gabinete da Presidência somaram R$ 5.606.183,22.’

 

DITADURA
Alexandre Rodrigues e Clarissa Thomé

União indeniza Ziraldo e Jaguar em mais de R$ 1 mi

‘Os jornalistas Ziraldo e Jaguar foram contemplados ontem com mais de R$ 1 milhão em indenizações pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, pelos alegados prejuízos que sofreram com a perseguição política durante o regime militar. O julgamento dos processos deles foi realizado na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no centro do Rio, juntamente com os de outros 18 jornalistas.

‘Aos que estão criticando, falando em bolsa-ditadura, estou me lixando’, discursou Ziraldo, em referência ao rótulo dado à remuneração pelos opositores dos pagamentos liberados pela Comissão de Anistia. ‘Esses críticos não tiveram a coragem de botar o dedo na ferida, enquanto eu não deixei de fazer minhas charges. Enquanto nós criticávamos o governo militar, eles tomavam cafezinho com Golbery’, emendou o cartunista, muito aplaudido pelos que acompanharam a sessão, a primeira feita fora de Brasília.

Entre os beneficiados também estava o jornalista Ricardo de Moraes Monteiro, chefe da assessoria de comunicação do Ministério da Fazenda, que receberá R$ 590 mil. Preso e torturado durante a ditadura, Monteiro alegou ter perdido o vínculo com a empresa em que trabalhava por causa da perseguição política. ‘Sou de família comunista, meu pai foi preso em 1974. Meu irmão foi preso comigo em 1975 e depois se suicidou. Essa dor não vai ser reparada. Orgulho-me do que fiz. Quero homenagear os jornalistas que lutaram contra a ditadura’, disse o assessor do ministro Guido Mantega. Ele também receberá pensão de R$ 4,7 mil.

Já Ziraldo, escritor e chargista, e o cartunista Jaguar, trabalhavam no Pasquim quando o semanário sofreu forte repressão por ser considerado ofensivo pela ditadura. Os dois receberão pensão mensal de cerca de R$ 4 mil, além de uma verba de R$ 1.000.253,24. O montante, que será parcelado, é retroativo a 1990, antes da criação da Comissão de Anistia, em 2001. Isso porque os jornalistas fizeram o pedido ao Ministério do Trabalho em 1990, por meio da ABI.

CARAVANA

Pela manhã, o ministro da Justiça, Tarso Genro, esteve no Rio para a abertura da primeira incursão da Caravana da Anistia, criada para julgar casos de anistiados em outras cidades. Ao ver faixas com frases como ‘A anistia é uma farsa’ – levantadas no auditório por representantes de categorias que ainda aguardam o julgamento de seus casos -, o ministro admitiu que a reclamação é justa. ‘A anistia já está atrasada no Brasil.’ Ele apontou, no entanto, que o governo tenta acelerar os trabalhos. ‘O processo é lento, mas não está quase parando. Eu diria que está quase andando.’

O presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, admitiu que foram concedidas indenizações exorbitantes. Mas, segundo ele, são fatos isolados em 35 mil processos, cuja maioria das pensões foi estipulada na faixa de R$ 3,7 mil. Cerca de 25 mil casos ainda tramitam.

Na ocasião, Tarso também entregou a Maria Augusta de Oliveira, viúva do jornalista David Capistrano, o título de anistia. Prestes a completar 90 anos, ela terá direito a uma pensão de R$ 3,4 mil, com um montante retroativo a 2001 de R$ 883 mil. O jornalista Vladimir Herzog, morto sob a ditadura, também foi homenageado.’

 

RADIOBRÁS
Daniel Bramatti

Livro revela pressões de Lula, Dirceu e Berzoini sobre Radiobrás

‘No dia 15 de junho de 2004, o então todo-poderoso ministro José Dirceu mandou um bilhete para seu colega Luiz Gushiken para se queixar de que a Radiobrás, empresa de comunicação do governo, havia se transformado em um órgão de ‘oposição’. Um ano depois, também por escrito, o mesmo Gushiken recebeu de Ricardo Berzoini, então ministro da Previdência, uma reclamação semelhante: na cobertura de uma paralisação de servidores federais, a estatal estaria fazendo ‘propaganda’ de um movimento ‘puxado pelo PSTU e PFL’.

Em dezembro de 2005, o próprio presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, manifestou – não pela primeira vez – sua contrariedade com a Agência Brasil, órgão oficial cujas chamadas estariam ‘piores que as manchetes dos jornais que mais criticam o governo’.

O alvo das pressões era o presidente da Radiobrás, Eugênio Bucci, que desde 2003 se dedicava a uma tarefa tão complexa quanto inusitada: combater, nas entranhas de uma empresa do próprio governo, o chamado jornalismo chapa-branca – governista, de tom bajulatório e promocional – e promover, em vez disso, o apartidarismo e a impessoalidade na produção do noticiário. Para Bucci, a Radiobrás deveria atender não às autoridades, mas aos cidadãos e ao seu direito à informação.

Apoiada por Gushiken, a iniciativa foi bombardeada por outras estrelas da cúpula do PT e por pelo menos um dos especialistas em comunicação do partido, que assessorava o próprio Lula. Era vista, no mínimo, como ‘ingênua’ por petistas que viam a prática de jornalismo crítico como um reforço para o arsenal dos adversários.

Mas Bucci manteve o rumo. Diferentemente de muitos de seus detratores, permaneceu no cargo durante todo o tempo que quis – quatro anos e meio – e indicou o sucessor. Ele relata as resistências que encontrou e os avanços que pôde promover no livro Em Brasília, 19 horas (Editora Record), que chega às livrarias nos próximos dias e tem como subtítulo A guerra entre a chapa-branca e o direito à informação no primeiro governo Lula.

O ex-presidente da Radiobrás afirma que Lula dava apoio ao seu projeto ao manifestar, em repetidas ocasiões, que o que é verdade tem de ser publicado. ‘Nunca o presidente pediu que a Radiobrás deixasse de dar alguma notícia, nem sugeriu que direcionássemos o noticiário para proteger as autoridades.’ Mas o próprio livro mostra que o petista reclamava de notícias verdadeiras que incomodavam o governo.

‘Pô, Eugênio, como é que a Radiobrás foi dar aquela declaração do Nilmário? (…) As pessoas vêm reclamar comigo, me perguntam se não tem ninguém lá de confiança que olhe isso.’ Foi assim que Lula reagiu, no final de 2003, a uma dessas notícias incômodas.

O presidente se referia a uma entrevista de Nilmário Miranda, então secretário de Direitos Humanos, na qual ele atribuía o aumento do trabalho infantil no início da gestão Lula ao ajuste econômico promovido pelo governo. Publicadas pela Agência Brasil, as declarações logo repercutiram. ‘Ponderei que, se a Radiobrás tivesse de manter em seus quadros equipes para avaliar a pertinência da fala de ministros, uma sandice ganharia institucionalidade’, relata o autor no livro.

Por ignorar o lobby pela instalação de um ‘filtro governista’ na estatal, Bucci poderia ter caído em desgraça, mas manteve seu prestígio no Planalto. Em setembro de 2004, foi convidado a escrever o discurso que Lula leria em um evento da Associação Nacional de Jornais. Com uma enfática defesa da liberdade de imprensa, o discurso repercutiu positivamente, na avaliação do governo. No dia seguinte, o presidente telefonou a Bucci para agradecer.

No livro, o ex-presidente da Radiobrás dá uma possível explicação para sua sobrevivência, apesar de ter vivido ‘sob fogo cerrado do governo’ – título de um dos capítulos da obra. ‘Tenho absoluta consciência de que, se me mantive no cargo até 2006, devo isso à constância do presidente, que não cedeu a pressões que tinham por objetivo me destituir e quebrar a coluna vertebral da minha gestão. No fim das contas, não descarto a hipótese de o Café com o presidente, epicentro da ambigüidade em que tive de navegar, ter ajudado na sustentação que acabei por merecer.’

O Café com o presidente é um programa semanal de rádio produzido pela Radiobrás e veiculado em diversas emissoras. Seu conteúdo costuma repercutir em jornais e TVs. Lula é entrevistado no programa, mas a pauta é previamente discutida – só fala o que quer, quando quer.

‘O prestígio (junto ao Planalto) gerado pelo Café não decorria dos seus alegados méritos jornalísticos, mas dos seus efeitos propagandísticos. Com isso, ele valorizou a Radiobrás, mas, ao mesmo tempo, contribuiu para que ela fosse vista como parte da máquina de propaganda do governo’, reconhece Bucci no capítulo intitulado O cafezinho da ambigüidade.

Para implantar seu projeto, Bucci não enfrentou apenas pressões políticas. Foi preciso mudar os padrões de apuração e redação de notícias e convencer os funcionários de que sua função não era servir as autoridades – um processo nada simples, já que, ‘aos olhos da direita e da esquerda, era assim porque sempre tinha sido assim’. Nas palavras de Bucci, o governismo era uma ‘cultura ancestral tão pesada quanto um continente’. Na semana passada, uma das manchetes no site da Agência Brasil era Líder do PSDB quer explicações de Dilma sobre autoria do dossiê. Ou seja, a agência de notícias do governo chama de dossiê o que o próprio governo nega ser dossiê – sinal de que algo mudou na ‘cultura ancestral’.’

 

Os bilhetes de Dirceu

‘Prezado Ministro Gushiken:

Sou total e radicalmente contrário à proposta do Bucci de não obrigatoriedade de transmissão da Voz do Brasil. Só faltava essa. Já não basta a Radiobrás e sua ‘objetividade’, que na maioria das vezes significa um misto de ingenuidade e na prática mais uma emissora de ‘oposição’. (Junho de 2004)

Prezado Ministro Gushiken:

Você está acompanhando os problemas na Radiobrás? As notícias da mídia e a crise com o sindicato do Chico Vigilante? Você está a par da posição pública do Eugênio pelo fim da Voz do Brasil? Você tem acompanhado o conteúdo do noticiário da Radiobrás?

(Junho de 2004)’

 

Assessor queria destacar ‘pautas positivas’

‘Eugênio Bucci tem uma teoria para explicar a difícil convivência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a imprensa no primeiro mandato – período em que deu poucas entrevistas coletivas, ameaçou expulsar o correspondente do New York Times e foi acusado de tentar cercear a atuação dos jornalistas ao propor que a profissão fosse fiscalizada por um conselho.

Para o ex-presidente da Radiobrás, a ‘dieta informativa’ servida ao presidente todas as manhãs colaborou na formação de um clima de animosidade. ‘Ela se chamava Carta Crítica e consistia num documento confidencial de aproximadamente duas páginas em papel ofício. A pretexto de analisar o noticiário do dia, lançava reprovações severas aos métodos dos repórteres, ao pensamento dos colunistas e aos donos de jornais’, descreve Bucci.

O relatório, encaminhado a Lula de 2003 a 2006, era produzido por Bernardo Kucinski, militante do PT e professor da Escola de Comunicação e Artes da USP. Criticava não apenas o noticiário da ‘grande mídia’, mas também o produzido pela Radiobrás. Segundo Bucci, que teve acesso a algumas edições da Carta Crítica, ela continha ‘algumas das manifestações mais explícitas da mentalidade autoritária’ que se opôs ao projeto de tirar o tom governista do jornalismo da empresa.

No final de 2004, Bucci teve acesso a uma Carta Crítica que censurava a Agência Brasil por não cobrir a chegada de reforços para as tropas brasileiras no Haiti – omitindo o fato de que a agência vinha dando extensa cobertura à atuação dos militares brasileiros no país. O relatório também criticava a agência por ter noticiado a ida de uma delegação do PT ao Haiti, o que teria dado ‘munição’ para que a imprensa estrangeira especulasse sobre uma suposta tentativa do Brasil de trazer o país para a órbita da esquerda latino-americana. No livro, Bucci rebate as acusações e se inspira nesse exemplo para descrever o que chamou de ‘sete pecados capitais do autoritarismo de esquerda’ (veja quadro).

Em julho de 2005, Kucinski enviou a Gilberto Carvalho, assessor de Lula, uma carta para manifestar seu desagrado com a ‘postura editorial equivocada’ da Agência Brasil e mostrar como deveria ocorrer a edição. Segundo a receita, o ideal seria dar destaque a ‘quatro pautas positivas’, que ‘quebrariam o enquadramento negativo da mídia nacional do que se passa no país’. E acrescentou: ‘Registre, para todos os efeitos, que a direção da Radiobrás imprimiu uma determinada direção à cobertura da Agência Brasil, chamadas por eles de jornalismo público, que, além de executada de modo incompetente e não atender nossas necessidades de comunicação, nunca recebeu mandato explícito do governo’. Procurado pelo Estado, Kucinski não quis se manifestar.’

 

Os pecados capitais do pensamento autoritário

‘1. O esquecimento proposital

Sonegar a história e ocultar os fatos que não convêm ao argumento

2. O coletivo compulsório

Dizer ‘nós’ para impor obediência e intimidar a divergência

3. A futrica instrumental

Semear a intriga palaciana para prejudicar os que pensam diferente

4. A apologia do aparelhismo

Promover – abertamente ou, se necessário, de forma dissimulada – o uso dos meios de comunicação públicos para fins do grupo de governo

5. O ódio à imprensa

Banir a reportagem e profetizar que todo jornalismo será castigado

6. A arrogância sem substância

Desdenhar do outro para desqualificá-lo

7. Condenar a priori

Acusar pelas costas, na escuridão, sem provas e sem tolerar o direito de defesa’

 

TV DIGITAL
Renato Cruz

Brasileiros vão aos EUA vender TV digital

‘Os brasileiros desembarcam nos Estados Unidos na próxima semana para tentar vender o Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD), que estreou na Grande São Paulo em dezembro. O alvo não são os americanos, que já se encontram na fase final da transição tecnológica – o país tem tecnologia digital própria, e vai encerrar as transmissões analógicas em fevereiro do ano que vem. Um dos 22 estandes do evento NAB Show, que acontece entre os dias 11 e 17 deste mês em Las Vegas, será ocupado pelo Fórum SBTVD, que, juntamente com empresas e centros pesquisas brasileiros, espera convencer outros países da América do Sul a utilizar a tecnologia.

‘Estamos fazendo um grande esforço para a promoção internacional do SBTVD’, diz Luis Olivalves, coordenador do Módulo de Promoção do fórum, que reúne radiodifusores, indústria, pesquisadores e governo. O pavilhão terá uma demonstração da tecnologia adotada no Brasil, com um transmissor e dois televisores de LCD recebendo o sinal em alta definição. Haverá também equipamentos móveis e portáteis.

O SBTVD foi criado a partir da tecnologia japonesa ISDB-T. Houve duas modificações principais: a tecnologia de compressão de vídeo foi atualizada e foi criado um software de interatividade localmente. O software, chamado Ginga, não está disponível ainda em nenhum equipamento no mercado. Segundo Olivalves, não haverá demonstração do Ginga em Las Vegas.

‘Esperamos que outros países adotem o sistema’, diz Moris Arditti, presidente do Instituto Genius, criado pela Gradiente. O instituto de pesquisa desenvolveu uma plataforma de conversor de TV digital, também chamado set top box, que quer licenciar para outros fabricantes. O conversor permite receber o sinal digital para assisti-lo em televisores analógicos.

‘É uma solução voltada para empresas que não têm condição de desenvolver o produto internamente’, explicou Arditti. Segundo o executivo, o custo das peças para o set top box pode ser de US$ 50 ou menos, sem os impostos. Hoje, o conversor mais barato no mercado sai por cerca de R$ 500. ‘Se a empresa for extremamente competente, dá para ser mais competitivo.’ O Instituto Genius tem equipes em São Paulo e Manaus.

EMISSORAS

A Idea Sistemas Eletrônicas, de Campinas, desenvolveu dois equipamentos que serão demonstrados na NAB. Um é um transmissor no padrão europeu DVB-S2, empregado pelas emissoras para transmitir o sinal para os satélites. O sistema usado para o envio de programação entre as emissoras, e que também é captado pelas parabólicas, é diferente daquele usado para a transmissão terrestre, recebido pelas antenas UHF.

Outro equipamento é um modulador ISDB-T, que envia o sinal para os conversores e televisores na casa das pessoas. Os equipamentos foram desenvolvidos em parceria com a Tecsys e o Laboratório para Integração de Circuitos e Sistemas (Lincs) do Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (Cetene).

‘A tecnologia DVB-S2 reduz em até 35% o custo de transmissão via satélite’, afirma Valdiney Pimenta, diretor da Idea. A Bandeirantes e a RedeTV já estão com o sinal digital no satélite. A Tecsys é responsável pela produção e comercialização dos equipamentos.

A Linear, fabricante de transmissores de TV de Santa Rita do Sapucaí (MG), terá dois estandes na NAB: um no pavilhão brasileiro, com equipamentos analógicos e com tecnologia ISDB-T, e outro para o mercado americano, com equipamentos analógicos e ATSC (tecnologia americana de TV digital). ‘Teremos novidades em ISDB e ATSC’, disse Carlos Alberto Fructuoso, diretor de marketing da Linear.

Atualmente, um quarto das receitas da Linear vem das exportações. No Brasil, o mercado está aquecido com as cidades que preparam o lançamento da TV digital depois de São Paulo. ‘Recebemos muitos pedidos de propostas’, afirma Fructuoso. A competição com os fornecedores estrangeiros, no entanto, não está fácil. ‘Eles têm isenção de impostos e nós não.’ Segundo o executivo, existe um decreto que determina a isenção de impostos para os equipamentos fabricados no Brasil, que ainda precisa ser regulamentada por uma portaria. ‘Ela está sempre para sair, mas ainda não saiu.’’

 

INTERNET
O Estado de S. Paulo

Apple torna-se a maior em venda de música

‘A Apple ultrapassou a Wal-Mart, tornando-se a maior vendedora de música dos Estados Unidos. É a primeira vez na história que uma loja digital de música bate, por meio de download, a maior loja de CDs do país. A Apple vendeu mais álbuns em janeiro e fevereiro do que qualquer outra loja nos Estados Unidos, disse a empresa de pesquisa de mercado NPD Group, mostrando como o setor de música está na linha de frente de uma mudança que vem derrubando empresas da área de entretenimento, de lojas a fabricantes de videogames.

Os consumidores americanos ainda compram mais CDs do que fazem downloads de música, mas a diferença está diminuindo rapidamente. Apenas cinco anos depois de lançar a loja digital iTunes, a Apple dominou completamente o mercado de downloads, conseguindo saltar à frente das grande lojas vendedoras de CDs, como Wal-Mart, Best Buy e Target.

‘É um grande acontecimento’, disse Tom Adams, presidente da empresa de consultoria Adams Media Research. ‘É a primeira vez que um ponto de venda eletrônico supera um varejista, em qualquer tipo de oferta de mídia.’

A onda digital está se generalizando por todo o setor de mídia. As livrarias estão fechando, incapazes de competir com as vendas online. As redes de TV disponibilizam cada vez mais os seus programas na internet, para chegarem àquelas pessoas que estão diante dos seus computadores, para evitar que os anunciantes as troquem por outras formas de entretenimento online. As empresas de videogame e outras fabricantes de software já vendem mais os seus produtos em forma de downloads do que em CDs.

Mas o setor de música foi sacudido pela transição digital de modo muito mais forte do que a TV, o cinema e outras áreas do entretenimento. Isso porque, segundo analistas, os gravadores de CDs permitiram que qualquer pessoa crie listas das suas músicas favoritas. A portabilidade da música para aparelhos como o iPod, da Apple, também tornou natural essa transição para o digital.

‘Estamos emocionados’, foi o que disse num comunicado o vice-presidente da Apple para a área do ITunes, Eddy Cue.

O NPD Group, com sede em Port Washington, Nova York, não deu dados sobre o número de álbuns vendidos por cada empresa. Mas informou ter considerado na contagem cada 12 músicas vendidos como um álbum, e que a Apple provavelmente recebeu um grande impulso durante os dois primeiros meses do ano, quando os consumidores descontaram seus vales-presente na loja iTunes.

O analista Russ Crupnick, do NPD Group, prevê que essa rápida ascensão da Apple, no caminho de se tornar uma potência no setor de música, deve continuar. ‘Se você observar o que está acontecendo com o CD e o crescimento do lado digital, é um padrão que vai se firmar’, disse ele.

A Apple lançou a loja iTunes em 2003, criando um modelo de empresa online para um setor de música que se debatia com as vendas de CDs despencando e a pirataria online. Além de vender álbuns, a loja online ofereceu centenas de milhares de músicas por US$ 0,99. Um negócio ideal para clientes que queriam comprar singles da moda ou velhas canções favoritas sem adquirir o álbum inteiro.

A Apple não divulgou os resultados financeiros do iTunes. Mas, no primeiro trimestre fiscal, informou uma receita de US$ 808 milhões na categoria que inclui as vendas da loja iTunes, um salto de 27% em relação ao mesmo período do ano anterior. A Apple também entrou em outros mercados de entretenimento nos últimos anos, oferecendo downloads de programas de TV e filmes, para vender e alugar.

Como outras redes de TV, a CBS colocou muitos dos seus programas na internet e os vende no iTunes e outras lojas virtuais. Quincy Smith, presidente da CBS Interactive, disse acreditar que o mercado de DVDs não vai desaparecer tão breve, mas que a rede pode atender públicos diferentes, oferecendo os programas por meio do iTunes e também do Wal-Mart. ‘Acho que esse é um sinal do que vem por aí, se você acredita em evolução’, disse.’

 

Microsoft e Yahoo ainda longe de um acordo

‘Executivos de alto escalão da Microsoft e do Yahoo se reuniram esta semana para discutir a proposta de fusão, mas não chegaram a nenhum acordo durante as negociações, publicou o Wall Street Journal em seu site, citando fontes próximas à questão.

Os executivos da Microsoft não quiseram elevar a oferta e o Yahoo continua se recusando a entrar em negociações formais – a menos que haja um aumento na proposta, informou o jornal ontem.

O encontro foi o segundo desse tipo com executivos do alto escalão de ambas as empresas e ocorreu na sede do Yahoo, em Sunnyvale, segundo o jornal.

A Microsoft fez um oferta de compra do Yahoo por US$ 31 por ação em 31 de janeiro. O Yahoo, porém, recusou a oferta, atualmente avaliada em US$ 42 bilhões. Para o Yahoo, a proposta subvaloriza a companhia.

Representantes da Microsoft não estavam imediatamente disponíveis para comentar o assunto. Uma porta-voz do Yahoo preferiu não comentar o assunto.’

 

MANUEL BANDEIRA
Ubiratan Brasil

Um dedo de prosa com Bandeira

‘Em uma carta a Mário de Andrade, seu principal interlocutor, o poeta Manuel Bandeira dizia desconfiar da própria prosa. Era 1930 e Bandeira temia cometer ‘bestidades, bobagens, lugares-comuns’ em seus artigos, satisfazendo-se mais com a poesia. O tempo tratou de reverter a expectativa negativa do poeta, como comprova o volume Crônicas Inéditas I, que a Cosac Naify lança nesta semana (440 páginas, R$ 65).

São 113 textos inéditos em livro, que pertencem ao mesmo filão criativo de Crônicas da Província do Brasil, lançado pela mesma editora em 2006, também com organização de Júlio Castañon Guimarães, e que traz um conjunto de artigos que compõem um retrato muito agudo da modernização da sociedade brasileira da primeira metade do século 20. Se este foi editado originalmente em 1937, Crônicas Inéditas reúne as observações de Bandeira publicadas entre abril de 1920 e agosto de 1931, em 13 diferentes publicações.

Trata-se de um vasto painel em que o poeta versa sobre assuntos diversos, como teatro, cinema, pintura, música erudita, arquitetura, poesia e o mundo das artes. ‘Em todos esses textos há sempre uma parte de ironia, ou mesmo de auto-ironia, sendo importante detectar isso para perceber seu processo de acompanhamento da produção cultural da época’, observa Guimarães, no posfácio, contrariando os temores do Bandeira-cronista. ‘Seu trabalho na imprensa transita entre a crítica e a crônica, o que lhe permite e o leva a referir-se às especificidades e generalidades dessas atividades em diversas ocasiões.’

Apesar do conhecimento que insiste em negar (ou esconder, por modéstia), Bandeira trata tanto de assuntos espinhosos como banais com a mesma ironia, sem resvalar no tom professoral. Com isso, ele se impõe como um dos poucos que não exerceram a crônica como é vista hoje, ou seja, no entender de Antonio Candido, quando ela ‘deixa de ser comentário mais ou menos argumentativo e expositivo para virar conversa aparentemente fiada’.

Ao contrário: Bandeira trata com firmeza de fatos curiosos, como o primeiro arranha-céu do Rio, o sucesso do cinema falado e a febre do primeiro concurso de miss Brasil. Um fino retrato da sociedade carioca e seus personagens pitorescos.’

 

***

Crônicas de Manuel Bandeira retratam País em transformação

‘Em uma crônica publicada em 1930, Manuel Bandeira conseguiu retratar tanto a movimentação militar quanto a reação popular no golpe que levaria Getúlio Vargas à Presidência. ‘De seu texto, brota a descrição das pessoas cujo ar era o de quem estava fazendo História’, comenta Júlio Castañon Guimarães, organizador do primeiro volume de Crônicas Inéditas – um segundo está por vir.

Bandeira oferece testemunhos preciosos sobre a vida brasileira (carnaval com chuva, mania de discursos bonitos, jornalismo sensacionalista), além de tratar as artes de forma crítica (a literatura de José de Alencar, a arquitetura de Le Corbusier, as variações sobre o violão, novas concepções do urbanismo, o mito Picasso). ‘São peças de uma ampla reflexão, desenvolvimento de uma longa, inteligente e refinada conversa’, observa Guimarães na seguinte entrevista.

Como explicar a ‘confluência de estilos’ que caracteriza a obra de Bandeira, tanto poética como na crônica?

Acho que essa ‘ confluência de estilos’ tem a ver com um projeto a que a sua produção estava ligada. Aqui e ali se encontram elementos de alguns temas (as vezes documentais) que reaparecem ora na poesia ora na prosa. Havia um projeto modernista mais amplo, que naturalmente se configurava de modos distintos nos diferentes autores. Num mesmo autor, como Bandeira, não é de estranhar essa confluência, embora seja sempre bom lembrar a grande distância que vai de sua prosa com motivação mais circunstancial e sua elaboração poética.

O que Bandeira desejou cobrir com sua escrita?

Se pensarmos na escrita configurada, na prosa produzida para a imprensa, me parece que ele se interessava sobretudo pela vida cultural, e isso no sentido da cultura dita elevada ou mais erudita, com algumas incursões pelas variedades do cotidiano. Isso é bem claro nessa produção dos anos 20 e 30. Mais tarde, a situação se modificará, mas esta é outra história.

Em uma antiga crônica, o poeta disse: ‘Não quero mais saber de coisas efêmeras. Deus me livre de guardar afeição a passarinho: eles morrem à toa.’ Seria essa uma reação idêntica à crônica?

Em um certo sentido, a crônica está ligada ao registro de acontecimentos os mais variados; está assim ligada ao efêmero, mas teria justamente a intenção de preservar do esquecimento esses fatos. Mas ela acaba sendo também comentário, análise, visão crítica. De modo que me parece que ela própria acaba por não ter esse caráter efêmero, podendo permanecer tanto pelo que registrou quanto por sua elaboração.

Bandeira conseguiu a grandeza em um gênero considerado menor e fugaz?

Pode parecer contraditório falar em grandeza em relação a um autor em torno do qual se criou uma espécie de mitologia da simplicidade, mas o fato é que os textos de Bandeira produzidos para a imprensa têm seguramente importância em vários sentidos; são obra de autor excepcional.

Rubem Braga nomeava-se um ‘cozinheiro do trivial’. Bandeira teria seguido outro caminho?

Parece-me que a crônica de Bandeira, pelo menos nesse período dos anos 20 e 30, não tem a nada a ver com a crônica que se desenvolveu posteriormente. O trivial é algo que surge ocasionalmente, e no fundo ele está sempre preocupado com grandes questões – o urbanismo, a arquitetura, as artes plásticas, a literatura, a música erudita.’

 

TELEVISÃO
Julia Contier

Nick Jr. no Brasil

‘A Viacom Networks lança no dia 1º de julho no Brasil o novo canal para crianças em idade pré-escolar (de 2 a 6 anos), o Nick Jr.

Segundo a diretora de Distribuição da Viacom Network Brasil, Alessandra Pontes, a necessidade de transmissão do canal aconteceu porque o conteúdo da América Latina para esse público acabava ficando confinado a uma faixa de três horas no canal Nickelodeon. ‘Resolvemos oferecer esse conteúdo em um canal exclusivo, como é feito no restante do mundo.’

No concorrente direto do Discovery Kids os programas priorizam as características da fantasia, integração, repetição e o humor. ‘Com 24 horas de programação, a emissora terá como carro-chefe, desenhos como Dora – A Aventureira e As Pistas de Blue.’ Os apresentadores aparecem em cena somente para ligar um programa a outro e dar dicas.

Segundo a diretora, existe a possibilidade de aparecer um apresentador brasileiro no Nick Jr., assim como uma produção nacional.

No México, o canal também estréia em julho. Já nos outros países da América Latina, a iniciativa ainda está em negociação.’

 

 

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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