Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 1 E 2/12

O Estado de S. Paulo

04/12/2007 na edição 462


TV DIGITAL
Renato Cruz


TV digital estréia hoje. Incompleta


‘Está marcado para as 20h30 de hoje o lançamento da TV digital no Brasil, somente para a Grande São Paulo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os ministros das Comunicações, Hélio Costa, e da Casa Civil, Dilma Rousseff, devem participar à noite de uma cerimônia de lançamento na Sala São Paulo. Trata-se da maior mudança da história da TV brasileira. Maior do que a transição do preto e branco para as cores, há 25 anos.


Mas a televisão digital nipo-brasileira estréia incompleta. De quatro grandes novidades que a tecnologia permite, está disponível somente uma: a alta definição, que melhora a imagem. O telespectador terá de esperar pelas outras três.


A interatividade permite serviços parecidos com os da internet. Não foi integrada aos equipamentos a tempo. A multiprogramação possibilita transmitir mais de um programa simultâneo, num só canal. Não interessou à maioria das emissoras. Com a mobilidade, dá para assistir a TV aberta, de graça, no celular. Não existem aparelhos que funcionem nas redes de telefonia móvel do Brasil. ‘Os aparelhos devem chegar ao mercado ao longo do ano que vem’, afirmou Marco Aurélio Rodrigues, presidente da Qualcomm do Brasil, empresa que criou a tecnologia CDMA (concorrente da GSM).


AUDIÊNCIA


Pouca gente verá a estréia em alta definição. Os conversores, também chamados de set-top boxes, começaram a chegar ao grande varejo na sexta-feira.


‘Quem é o louco que pensa em Ibope no primeiro dia?’, questionou Roberto Franco, diretor de Tecnologia do SBT. ‘Não vai dar nem um ponto.’ Ele disse que a audiência pequena era esperada.


Os fabricantes evitam arriscar uma previsão de vendas para este mês. Thierry Tingaud, vice-presidente da STMicroelectronics, fabricante de chips para TV digital, projeta que, no próximo ano, serão vendidos de 500 mil a 1 milhão de conversores no Brasil. ‘Existe uma grande oportunidade no Brasil.’


Para assistir aos programas com o máximo de qualidade é preciso ter uma televisão com 1.080 linhas de resolução (Full HD). Existe cerca de 1,2 milhão de aparelhos digitais em uso no Brasil – mas a grande maioria não é Full HD.


A maioria dos televisores digitais possui menos resolução, 720 linhas. Eles também se beneficiarão da TV digital; só não aproveitarão ao máximo a qualidade das transmissões em alta definição.


Para sintonizar a TV digital, é necessário adquirir um conversor. Existem televisores que já vêm com o conversor embutido, mas só agora elas começam a chegar ao mercado.


Também é possível ligar o conversor numa televisão de tubo, mas a qualidade da imagem fica muito reduzida.


A qualidade da imagem é uma das apostas das emissoras na TV digital. Elas chegam a prever que alguns telespectadores vão cancelar o contrato de televisão por assinatura, por causa da qualidade do sinal da TV digital. ‘Não acreditamos que seja uma tendência’, disse Antônio João Filho, vice-presidente da Associação Brasileira de Televisão por Assinatura (ABTA). ‘Nós vendemos comodidade’, disse Virgílio Amaral, diretor de tecnologia da TVA.


DÚVIDAS


Minha televisão analógica vai parar de funcionar? Não. O sinal analógico continuará a ser transmitido, ao mesmo tempo que o digital, pelo menos até 2016.


Uma pesquisa do Instituto Qualibest, feita com 1.684 internautas, retratou a desinformação popular. Oitenta e nove por cento dos entrevistados admitiu saber pouco ou nada sobre a TV digital. Ao mesmo tempo, 67% disseram estar bastante interessados na tecnologia. ‘Imaginávamos que as pessoas não saberiam muito’, disse Daniela Daud, diretora do instituto. ‘Elas sabem o básico: que o sistema está sendo lançado, e que vai melhorar a imagem da TV.’


A briga do ministro das Comunicações, Hélio Costa, com a indústria teve reflexos na opinião pública. No ano passado, ele prometeu conversores a R$ 100 e agora, pouco antes do lançamento, começou a criticar os fabricantes, que colocaram no mercado equipamentos com preços a partir de R$ 500. A maioria dos consumidores (56%) está disposta a pagar até R$ 200 pelo set-top box. Somente 5% aceita pagar mais de R$ 500. Cerca de 44% disseram que vão esperar o assunto amadurecer mais para adquirir o conversor.


Fabricantes e varejistas mostram cautela em relação a essa situção. A rede Extra e a Sony resolveram montar ‘ilhas digitais’ para demonstrar a nova tecnologia aos consumidores, num projeto criado pela Agência Inovando. ‘O consumidor está às escuras’, disse Marcos Preto, sócio-diretor da agência. ‘Grande parcela da população não tinha e não tem noção exata do que é a TV digital.’


A primeira loja a receber o espaço de demonstração é o Extra do Morumbi, na quarta-feira. ‘As pessoas vão poder comparar a imagem dos canais analógico e digital’, disse William Lima, gerente de Produtos Bravia, da Sony. ‘Existe uma confusão muito grande’, apontou Pedro Janot, diretor-executivo de Não-Alimentos do Grupo Pão de Açúcar, do qual faz parte a rede Extra. ‘O ministro fala para não comprar. Alguns veículos de comunicação dizem que não vai funcionar.’


A TV digital brasileira tem como base o padrão japonês. Foi atualizada a tecnologia de compressão de vídeo (um novo padrão, chamado H.264, substituiu outro, o MPEG-2) e adotado um software de interatividade desenvolvido no Brasil, batizado de Ginga. Por causa disso, teoricamente não adiantaria importar aparelhos japoneses, pois eles não funcionam no Brasil. Como disse Amaral, da TVA, ‘é um padrão nissei’.’


 


Preto e branco, 12,5 polegadas. Por R$ 9,7 mil


‘Um televisor de tela de cristal líquido de 40 polegadas, com alta definição e receptor embutido de TV digital aberta, sai por R$ 8 mil hoje. Caro? Pode ser, mas menos do que custava em 1950 um aparelho de tubo com 12,5 polegadas. O preço no anúncio da ‘Supervenda de primavera’ da Sears Roebuck, publicado no Estado em 3 de setembro daquele ano, oferecia o televisor da GE por 12.950 cruzeiros. Corrigido pelo IGP-DI, o valor equivale a R$ 9,7 mil.


Um jeito de analisar os preços é dizer que a tecnologia evoluiu muito, porque uma TV LCD de 40 polegadas, com alta definição e som surround, é muito melhor que uma preto e branco de 12,5 polegadas com som mono, e custa menos. Outra é chegar à conclusão de que a televisão boa é sempre cara.


Outro anúncio, publicado no mesmo dia, dizia: ‘Você já ouviu falar… Agora vá ver televisão nos revendedores GE’. A TV Tupi, primeira emissora de televisão do Brasil e da América Latina, entrou no ar em 18 de setembro de 1950. A base instalada de televisores estimada naquela época é de 200 unidades, provavelmente menos do que os conversores que estarão ligados hoje para a TV digital.


Em 1972, aconteceu a primeira grande mudança tecnológica da televisão, com a chegada das cores no Brasil. O padrão escolhido foi o PAL-M, uma combinação do alemão PAL e do americano NTSC. Naquela época, a tecnologia escolhida foi teuto-americana, no lugar de nipo-brasileira. A definição teve como base um estudo da Universidade de São Paulo. O sistema PAL tinha melhor performance, mas não era compatível com os televisores em preto e branco existentes.


A escolha impediu a entrada de aparelhos importados no Brasil e fez com que os preços fossem mais altos que no exterior.’


 


Marili Ribeiro


Produção sofisticada encarece anúncios


‘Com a produção na TV digital cerca de duas vezes e meia mais cara do que a normalmente utilizada na confecção de um comercial para a analógica, só mesmo grandes anunciantes têm bala na agulha para estrear com suas mensagens publicitárias na nova era.


Um filme de 30 segundos, padrão na televisão brasileira – feito sem grandes arroubos criativos -, pode ficar em torno de R$ 1 milhão, pelos cálculos de publicitários. Isso, somado ao preço de veiculação na emissora, leva a conta para perto de R$ 3 milhões, o que torna a televisão digital pouco convidativa.


A produção digital exige detalhamento de tudo em seu entorno, o que a deixa bem mais trabalhosa. A captação de imagem pelo sistema HD é mais sofisticada e requer luz e cenários irrepreensíveis. A imagem em alta definição é cruel e exibe, sem pudores, qualquer imperfeição. Como poucas produtoras se equiparam, há pouca oferta no mercado, o que desestimula os anunciantes.


Mas isso não foi problema para a Rede Globo, que estréia a transmissão digital com a grade de oito anunciantes completa. ‘É um momento especial e teremos um intervalo em alta definição durante o Fantástico que foi foi rapidamente preenchido’, admite Octávio Florisbal, diretor-geral da TV Globo.


Por ser estréia, a Globo, como conta Florisbal, decidiu não cobrar nenhum custo adicional. Ele reconhece, contudo, que a transmissão em alta definição também exige custos maiores, que, no futuro, podem ser repassados aos preços de tabela da emissora.


As cotas apresentadas ao mercado foram comercializadas em poucas horas. Quase todas as empresas que aderiram têm, ou gostam de demonstrar que têm, forte sotaque nacional. A companhia de bebida AmBev vai pôr no ar dois comerciais, um para cerveja e outro para o Guaraná. A mineradora Vale do Rio Doce vai ocupar um minuto para exibir a sua nova logomarca. Os eternos rivais, os bancos Itaú e Bradesco, também comparecem hoje à noite na telinha digital, assim como a Caixa Econômica Federal e a indústria de cosméticos Natura.


Mas, fora da festa, como reconhece Celso Loducca, presidente da agência que leva seu nome, na prática ainda está sendo feito muito pouco. ‘Percebemos que os clientes estão esperando para ver como vai ser. O grande benefício, ainda, é a qualidade de imagem, restrita a um público AAA. Com o tempo, as possibilidades de interação vão transformar a maneira de ver TV.’’


 


Ethevaldo Siqueira


TV digital, um espetáculo sem espectadores


‘A TV digital brasileira estréia hoje na Grande São Paulo. Para quase ninguém. Anunciada como a mais avançada do mundo, ela começa sem interatividade, sem o software operacional Ginga e sem mobilidade. Segundo as perspectivas mais otimistas, apenas 20 mil telespectadores – dos 20 milhões de habitantes da região metropolitana – verão as imagens do padrão nipo-brasileiro que o País inaugura hoje. Nas pesquisas de audiência, 20 mil pessoas são representadas por um traço. Quer dizer: Ibope zero.


Esses números não significam nenhum fiasco da TV digital como tecnologia. Mostram apenas que estamos diante de um projeto mal conduzido. Há 15 dias, os paulistanos ainda não tinham onde comprar sintonizadores digitais ou conversores (set-top boxes), nem televisores completos aptos a receber as imagens da nova TV. E, agora, quando os conversores chegam às lojas, seus preços, entre R$ 400 e R$ 1.500, assustam o consumidor de classe média e afugentam a grande maioria de baixa renda.


O QUE FALTOU


Em lugar de um projeto sério, capaz de superar todos os desafios, o governo criou expectativas irrealistas quanto à TV digital. Ainda em 2005, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, dizia que a Grande São Paulo poderia ver a Copa do Mundo de 2006 com imagens da TV digital. Depois, insistiu na possibilidade de set-top boxes a R$ 200 ou menos. Prometeu interatividade, mobilidade e multiprogramação, mesmo diante da opinião contrária de especialistas quanto ao prazo para a disponibilidade desses avanços.


Os escassos recursos destinados às pesquisas foram sempre pagos com atraso, impedindo, por exemplo, que o desenvolvimento do middleware Ginga fosse concluído em tempo para ser incorporado ao projeto.


Nenhuma estratégia industrial foi posta em prática para reduzir o preço final dos set-top boxes. Hélio Costa preferiu transformar a questão num grande bate-boca, em lugar de lutar pela isenção ou pela redução dos tributos que oneram a importação de componentes eletrônicos. Ou por financiamentos e incentivos que pudessem baixar o preço final dos sintonizadores – à semelhança do que tem sido feito com pleno êxito na área de computadores. Só agora é que o governo acena com a perspectiva de financiamento. Em resumo, do lado governamental sobrou discurso populista e faltou apoio concreto aos players envolvidos.


As emissoras de TV, muito mais pragmáticas, fizeram sua lição de casa e estão preparadas para a transmissão de programas, embora com pouco conteúdo de alta definição. E a boa notícia nesse segmento é a contribuição da indústria nacional, desenvolvendo e fabricando os primeiros transmissores para TV digital, com a participação direta de universidades e do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel).


ATÉ 15 ANOS


Implantar a TV digital é um processo inexoravelmente longo, aqui como em todo o mundo. Mesmo sendo a TV aberta uma paixão nacional, com uma taxa de penetração de 93% dos domicílios, a implantação da nova geração digital na maioria dos lares do País deverá levar de 12 a 15 anos. É claro que podemos ter surpresas com a evolução tecnológica. Uma das alternativas tecnológicas mais promissoras à TV digital de hoje é a TV sobre protocolo da internet, ou IPTV, que pode oferecer opções mais baratas e qualidade comparável à alta definição de hoje.


O grande obstáculo à digitalização no Brasil é, sem dúvida, o baixo poder aquisitivo de sua população. Por isso, daqui a 5 anos, a TV digital no Brasil não deverá alcançar mais do que 15% das residências – estimam alguns especialistas. Nos Estados Unidos, depois de 9 anos da introdução da nova tecnologia, apenas 38% dos domicílios dispõem de TV digital. Na França, depois de 8 anos, esse percentual é ainda menor: 31%. No Japão, após 3 anos, são 15%.


Outro problema é a dificuldade do cidadão em entender exatamente quais são as vantagens da nova tecnologia, em especial se o consumidor já conta com imagem de boa qualidade, ou de definição padrão (chamada de standard definition).


POUCA ATRAÇÃO


Em 1972, o Brasil inaugurou sua TV em cores. Na época, passar do branco e preto para as cores tinha muito maior impacto do que tem hoje a simples recepção de um sinal digital em standard definition – que acabará sendo a única opção econômica da maioria dos consumidores.


Poucos parecem estar dispostos a investir R$ 400 ou 500 num set-top box para garantir simplesmente a recepção de sinais digitais, porque esse preço está fora do alcance de 70% da população.


Muito diferente é a situação dos consumidores de alto poder aquisitivo, acostumados ao home theater e ao visual dos monitores de 42 ou 50 polegadas, de plasma ou LCD, à espera do grande salto da alta definição na TV aberta, na TV a cabo, nos DVDs Blu-ray ou HD-DVD.


Finalmente, resta a opção polêmica já pensada pelo governo para antecipar a universalização da TV digital: distribuir milhões de set-top boxes para simples recepção, a preços simbólicos, altamente subsidiados, para a maioria dos domicílios pobres do País. Uma espécie de Bolsa TV.’


 


TV PÚBLICA
Márcia Vieira


Conselho evitará interferência na TV Brasil, diz Franklin


‘O ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, disse ontem que, apesar do risco de interferência política na TV Brasil, o conselho de notáveis criados para fiscalizá-la garantirá a sua independência. ‘Existe o risco de manipulação política, mas o conselho vai fiscalizar. O foco desse conselho é evitar esse risco’, afirmou. Ele ainda completou: ‘Existe o risco nas TVs comerciais também. Acho que outras emissoras deveriam fazer como a TV pública e ter um conselho com poder até para demitir o presidente da TV.’


O comentário foi feito no Rio, onde Franklin e o ministro da Cultura, Gilberto Gil, gravaram uma entrevista à jornalista Ivana Bentes, na sede da TVE, explicando os rumos da TV Brasil, que entra no ar ao meio-dia de hoje. A resposta de Franklin veio após a participação de um dos convidados do programa, o escritor João Ubaldo Ribeiro, que disse temer que a nova emissora sofra muita interferência do governo. ‘Eu desconfio desta TV pública’, comentou.


Indagado novamente sobre o tema pela reportagem do Estado, Franklin insistiu: ‘O risco (de interferência) existe, mas criamos mecanismos para evitar que aconteça. O risco é o mesmo que tem no seu jornal ou em qualquer outra televisão.’


Já o ministro da Cultura disse que os rumos da TV Brasil são ditados pelo interesse público, não pela ‘Bolsa de Valores ou por interesses particulares’.


ESTRÉIA


A nova emissora será aberta com um vídeo explicando o que é a Empresa Brasil de Comunicação, a EBC, que controla a TV Brasil. Depois da execução do Hino Nacional, entra no ar a Revista Brasil, programa com entrevistas, reportagens e depoimentos. A atriz e cantora Zezé Motta, o cartunista Maurício de Sousa e o músico Paulinho da Viola estão entre os artistas que participam da estréia.


Por enquanto, apenas Rio, Brasília e São Luís, no Maranhão, exibirão a programação. Em São Paulo, a transmissão será feita pelo canal 69, em UHF. A TV vai estar também na internet, no endereço www.tvbrasil.org.br, graças a uma parceria com a Rede Nacional de Pesquisa, ligada às universidades.


Em dois meses, deve ser inaugurada a sede da TV Brasil em São Paulo, com tecnologia digital e analógica. Quando a TV digital estiver operando no Rio, em abril, as transmissões já serão feitas com a nova tecnologia.


A TV Brasil tem um orçamento de R$ 350 milhões previsto para 2008.’


 


LULA
Dora Kramer


Marqueteiro acidental


‘Em dois dias e três frases, o presidente Luiz Inácio da Silva deu ao Democratas, na semana passada, o que nenhum marqueteiro, centenas de discursos no Congresso, um programa em horário gratuito, comerciais de TV, um ambicioso projeto de renovação partidária e a mudança de nome foram capazes de dar: notoriedade e afirmação de marca.


Ao dizer que o DEM está contra a CPMF porque não tem relevância política, carece de perspectiva de poder e forma fileira entre os sonegadores – os únicos adversários do imposto do cheque, no dizer de Lula -, o presidente carimbou na testa do partido o selo da oposição intransigente e radical.


Tudo o que os democratas queriam. Principalmente agora, quando estão perto de realizar uma convenção nacional (12 de dezembro) para oficializar as mudanças já decididas há meses e, convenhamos, andavam meio sem assunto para tratar no encontro.


Planejavam, claro, uma sessão de pancadaria verbal no governo. Programaram também mostrar o novo logotipo do partido, divulgar um lote de três ou quatro bandeiras de luta sob o guarda-chuva da palavra-chave ‘segurança’ e apresentar como estrelas convidadas um grupo de estudantes venezuelanos integrantes do movimento de oposição a Hugo Chávez.


José Maria Aznar, ex-primeiro-ministro espanhol e pivô do ‘por que não te calas?’ do rei Juan Carlos a Chávez, viria, mas não vem. Entre outros motivos porque não quer mais polemizar sobre o assunto.


Nada de muito extraordinário. Um domingo de convenção em Brasília de um partido que já mandou no País e há algum tempo míngua nas águas da oposição. Tem um governador, um prefeito de capital importante e, no total, apenas 6 dos 100 prefeitos das cidades mais populosas do País.


Agora o partido fará isso na condição que lhe forneceu Lula: a de ‘enfant terrible’ da oposição nacional.


O ganho muito provavelmente não será imediato. Ou talvez nem aconteça. A posição do presidente tampouco dará ao Democratas a robustez que ele não tem, muito menos a perspectiva de poder. Mas, exatamente por não tê-la, está muito mais à vontade que o PSDB para buscar sem freios caminhos que possam levá-lo ao eleitor.


Despojado de compromissos muito rígidos. Como dizia o PT antigamente, sem medo de ser feliz. Mas, até então, agia muito a reboque do antigo companheiro de governo; mais por não ter onde se escorar do que por gostar do modo tucano de fazer oposição.


Lula deu de presente um nicho, com divulgação nacional gratuita e direito a garoto-propaganda de primeiríssima grandeza.


E os eventuais prejuízos de servir de ‘sparring’ a um presidente popular?


Na ótica do Democratas, nenhum. O partido não disputa o eleitorado preferencial de Lula, quer nadar nas águas da classe média e daí para cima. Exatamente onde se concentram os 60% da população contrários à CPMF e chamados pelo presidente de ‘sonegadores’.


Para quem ainda transitava num limbo entre um novo nome não muito assimilável e a velha denominação (PFL) carregada do ranço do coronelismo, do apoio à ditadura e do fisiologismo foi uma bênção.


Oportunidade única de aparecer no noticiário, lançar nota oficial respondendo ao presidente, posar de ofendido e ainda ganhar destaque com a pecha de intransigente num período em que um dos defeitos apontados na oposição é o de ser transigente.


O fico


Em tese, a eleição para o novo presidente do Senado será para quarta-feira, dia seguinte ao julgamento do presidente licenciado, Renan Calheiros, na terça.


Mas isso só ocorrerá se ele renunciar ou for cassado. Se, como indicam todas as previsões, for absolvido, deve estender sua licença até o prazo legal, no fim do ano. Inclusive porque ainda há outras três representações contra ele na Casa e, além disso, o PMDB não chegou a um acordo sobre o substituto.


Resta, ainda, a hipótese de Calheiros renunciar preventivamente para facilitar a preservação do mandato. Decisão a ser tomada na última hora, em função do clima do dia e do transcorrer da sessão, desta vez aberta.


A temperatura, hoje, é amena. A maioria acha que a perda da presidência já é punição suficiente e foi o bastante também para melhorar a imagem do Senado junto ao público.


Paz na terra


Os correligionários do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), acham improdutiva a briga dos tucanos de São Paulo, divididos entre o apoio a Kassab e a candidatura própria de Geraldo Alckmin.


No conflito, o Democratas enxerga a possibilidade de perder. Na base da negociação, no entanto, acredita ser totalmente possível ‘integrar’ Alckmin ao projeto Kassab.


Assegurando a ele desde já apoio à candidatura ao governo de São Paulo em 2010. O grupo do governador José Serra, favorável à reeleição do vice eleito com ele em 2004, atua na mesma linha.’


 


VENEZUELA
Lourival Sant´Anna


Chávez quer liderar América Latina


‘Em todos os discursos que fez nos últimos dias de campanha para o referendo de hoje, o presidente Hugo Chávez insistiu num ponto: ‘Essa reforma constitucional transformará a Venezuela numa potência mundial.’ Para um país com o 37º Produto Interno Bruto do mundo (US$ 182 bilhões, quase seis vezes menor que o do Brasil), pode parecer apenas a delirante promessa de um líder populista. Mas Chávez está falando sério. E há pessoas bem-informadas no seu entorno e na oposição que identificam nessa pretensão um lastro econômico e geopolítico, além de ideológico.


A importância da reforma para esse projeto está na reformulação do Artigo 153 da Constituição. O texto atual fala em ‘promover a integração latino-americana e caribenha’, nos termos usuais dos tratados internacionais. A nova formulação elimina a idéia de relações entre nações e estabelece como objetivo transformar o subcontinente numa só nação.


‘A República promoverá a integração, a confederação e a união da América Latina e do Caribe’, diz o novo texto. O objetivo é ‘a estruturação de novos modelos que permitam a criação de um espaço geopolítico, dentro do qual os povos e governos de nossa América vão construindo um só projeto grão-nacional, a que Simón Bolívar chamou ?uma nação de Repúblicas?’, prossegue o novo texto do Artigo 153.


Quando fala de ‘revolução socialista bolivariana’, Chávez não está pensando apenas na Venezuela. Se estivesse, seria apenas uma ‘revolução socialista’. O termo ‘bolivariano’ significa, para ele, levar adiante um plano idealizado por Bolívar há 200 anos, de criar uma poderosa nação americana por sobre as fronteiras artificiais desenhadas pelas potências ibéricas, que deram origem aos Estados latino-americanos modernos.


TESE ANTIGA


Chávez não reinventou isso agora. Essa tese renasceu há 40 anos na Venezuela, e desde então tem influenciado não só a esquerda revolucionária civil como a militar, da qual Chávez é ao mesmo tempo um produto, um importante formulador e um líder.


Segundo essa linha de pensamento, a Venezuela é a líder natural dessa grande nação latino-americana, por possuir as maiores reservas de petróleo do mundo, segundo as estimativas da estatal PDVSA, que levam em conta depósitos prováveis e possíveis, óleo extra-pesado e betume, que se tornarão rentáveis à medida que a tecnologia avance e o preço do barril se mantenha nos níveis exorbitantes em que está hoje.


Por esse critério, a Venezuela supera a Arábia Saudita, maior produtora mundial, respondendo por um quinto do petróleo do mundo e por 87% da América Latina e Caribe (veja gráficos na página 26). Para Chávez, de 53 anos, que com a reforma pretende permanecer décadas no poder, só há um país que pode se interpor no seu plano de liderar essa grande nação latino-americana: o Brasil.’


 


SUDÃO
O Estado de S. Paulo


Enviados tentam libertação de professora britânica


‘Dois nobres britânicos muçulmanos chegaram ontem ao Sudão para tentar conseguir a libertação da professora britânica Gillian Gibbons, de 54 anos, condenada por insultar o Islã após ter permitido que seus alunos colocassem o nome de Mohammad (Maomé) num ursinho de pelúcia. O incidente revoltou a população do Sudão, que obedece a Sharia (lei islâmica). Na sexta-feira, manifestantes saíram às ruas de Cartum para exigir sua execução.


De acordo com fontes do governo sudanês, o lorde Ahmed, do Partido Trabalhista, e a baronesa Sayeeda Warsi, da oposição conservadora, reuniram-se com Gillian na prisão onde está detida. Sentenciada a 15 dias de prisão, ela terá que deixar o país após cumprir pena. Em meio à polêmica, representantes da embaixada da Grã-Bretanha não divulgaram onde Gillian está detida, limitando-se a afirmar que ela está numa cela separada de outras prisioneiras. Ontem, a professora deu declaração afirmando que está bem. ‘Quero que as pessoas saibam que estou sendo bem tratada e, especialmente, muito bem alimentada’, disse.


PERDÃO


Ahmed e Warsi também devem tentar um encontro com o presidente sudanês, Omar Hassan. ‘Um apelo de dois muçulmanos pode ter impacto’, afirmou uma fonte. O chefe da equipe de defesa de Gillian, Kamal al-Jazouli, afirmou que é possível que Hassan conceda à professora um perdão presidencial. ‘Não tenho informações concretas, mas acho que o presidente perdoará a sentença’, afirmou.


O advogado, que mostrou-se otimista com a intervenção dos dois nobres britânicos, ressaltou sua preocupação com segurança de Gillian. ‘Acho que o governo sudanês deve estar preocupado com a segurança dela, assim como o britânico. Há muitas facções diferentes e as autoridades não conseguem controlar todas. Seria um pesadelo para o Sudão se alguém ferisse Gillian’, alertou Al-Jazouli.


PROJETO ESCOLAR


A polêmica começou em setembro, quando a professora permitiu que seus alunos na escola particular Unity High School, que têm por volta de 7 anos, escolhessem seu nome favorito para colocar no ursinho, como parte de um projeto sobre animais. Dos 23 alunos, 20 escolheram Mohammad, nome popular para meninos no Sudão, assim como o nome do Profeta muçulmano.


A professora enviou uma circular informando os pais sobre o projeto. Dois meses depois, no entanto, um funcionário da escola enviou a circular ao Ministério da Educação do Sudão. Gillian foi presa na semana passada e corria o risco de ser sentenciada a 40 chibatadas ou até um ano na prisão.’


 


RÚSSIA
Cristiano Dias


Putin usa eleição legislativa para legitimar seu poder na Rússia


‘Os 109 milhões de russos que forem às urnas hoje podem escolher entre mais de 4 mil candidatos, mas a eleição parlamentar é, no fundo, palco para um único protagonista: o presidente do país, Vladimir Putin. De acordo com pesquisas, dois terços das 450 cadeiras da Duma (Câmara Baixa) ficarão com o partido de Putin, a Rússia Unida.


Impedido pela Constituição de concorrer a um terceiro mandato, Putin disse que respeitaria a lei, mas prometeu continuar mandando no país. E resolveu fazer tudo dentro da lei. Com um golpe de mestre, anunciou que vai apoiar um candidato de sua confiança na eleição presidencial – marcada para 2 de março de 2008 – e se lançou candidato a uma cadeira de deputado na Duma.


Como encabeça a lista do partido Rússia Unida, Putin deve ser o próximo primeiro-ministro do país. A posição é privilegiada. Em caso de renúncia do presidente, a Constituição prevê que o premiê assuma, o que daria a Putin um mandato novinho em folha.


Com seus 67% de popularidade e um sucessor fraco, ainda que não reassuma oficialmente a chefia do país, Putin poderia manipular a política russa dos bastidores como se fosse um superpremiê. ‘O centro de poder vai se deslocar do Kremlin para a Rússia Unida, comandada por Putin’, disse ao Estado, por telefone, a socióloga Olga Krychtanovskaia , diretora do Centro de Estudos da Elite, da Academia de Ciências da Rússia.


A jogada de Putin, entretanto, é arriscada. A Constituição garante amplos poderes ao presidente, que é quem dita os rumos da política externa, possui os códigos nucleares e nomeia os ministros da Defesa, Interior e o chefe do serviço secreto. Como lealdade, na maioria das vezes, é um princípio pouco valorizado na política local, o plano de Putin não é infalível.


O próprio presidente deu o exemplo de como puxar o tapete do comandante. Em 1997, o então presidente Boris Yeltsin nomeou o desconhecido Putin, um ex-espião da KGB, para a chefia-geral do gabinete da presidência. Habilmente, Putin escutou o chefe durante os dois anos seguintes, e ganhou o poder de bandeja em 2000, quando Yeltsin decidiu se aposentar.


Putin pegou um país em frangalhos. Em 1998, a economia encolheu 5% e, no ano seguinte, a inflação atingiu 127%. A política externa da Rússia era um desastre. O país assistiu de joelhos a Otan demolir sua zona de influência, incorporar a República Checa, Hungria e Polônia, e castigar a Iugoslávia, antiga aliada do Kremlin, com um bombardeio de 79 dias.


A alta nos preços dos hidrocarbonetos – a Rússia é a maior produtora de gás e petróleo do mundo – abriu caminho para que Putin retomasse a retórica nacionalistas dos tempos soviéticos e recuperasse o status perdido de potência mundial. Em oito anos, o PIB russo cresceu sete vezes. Passou de US$ 180 bilhões, em 1999, para US$ 1,3 trilhão, estimado para 2007.


Com dinheiro em caixa, Putin resgatou o prestígio das Forças Armadas e desafiou os EUA em várias frentes, surrupiando o discurso da velha guarda nacionalista. O Partido Liberal Democrático da Rússia (PLDR), do boquirroto Vladimir Jirinovski, por exemplo, foi um dos mais afetados. Jirinovski ganhou fama por defender que o Alasca é russo e por chamar a rainha Elizabeth II da Inglaterra de bandida.


Adorado pelos russos que sentem saudades da União Soviética, o partido de Jirinovski tem 36 deputados na Duma, mas pode ficar sem nenhum. Isso porque pela nova cláusula de barreira só entra no Parlamento quem tiver mais de 7% dos votos, exatamente a votação do PLDR, segundo as pesquisas.


Para ganhar votos, Jirinovski incluiu em setembro Andrei Lugovoi, acusado de assassinar o ex-espião russo Alexander Litvinenko, como número dois na lista do partido. ‘O problema de Jirinovski é que os eleitores perceberam que não precisam mais dele, já que encontraram no presidente alguém com a mesma retórica nacionalista’, disse Leonid Sedov, pesquisador do Centro Levada, de Moscou. ‘Putin é igual a Jirinovski, só que menos engraçado.’


Além da Rússia Unida e do PLDR, o único partido que deve superar a barreira dos 7% é o Partido Comunista, de Guennadi Zyuganov, que deve ser a única voz de oposição a Putin na Duma. Na verdade, uma oposição incomum porque para eles, os comunistas, o presidente é um sujeito moderado demais. Herdeiros do antigo PC soviético, os comunistas ainda decoram os comitês de campanha com fotografias de Lenin e defendem uma maior participação do Estado na economia.


Quando não consegue dobrar os adversários na lábia, Putin recorre a outros mecanismos de inspiração não menos soviética. Em outubro, o jornal britânico Guardian descobriu documentos de governos regionais que obrigaram estudantes e funcionários públicos a engrossar passeatas pró-Putin em seis regiões da Rússia. Empregados de empresas estatais também se queixam de pressão dos patrões para que votem no partido do governo.


Além disso, o Kremlin monopoliza os meios de comunicação, que abrem espaço apenas para os camaradas de Putin. A propaganda é tão massacrante que, apesar de a Rússia Unida recusar-se a participar de debates, uma pesquisa recente mostrou que 8% dos russos juram ter visto os candidatos de Putin debatendo na TV.


Outra estratégia para manter os adversários fora da Duma incluem o aumentou da cláusula de barreira de 5% para 7% e a proibição de partidos pequenos formarem coalizões, o que inviabilizou a eleição de candidatos nanicos.


O Kremlin também decide quem pode concorrer nas eleições e controla os registros eleitorais, dificultando a vida dos partidos de oposição.


Quando artimanhas jurídicas não resolvem, Putin não fica encabulado de usar um velho recurso: a força. Durante a campanha, manifestações contra o governo foram duramente reprimidas. O ex-campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, líder do partido Outra Rússia – um dos que não conseguiu registro nas eleições de hoje- foi preso por cinco dias na semana passada durante protesto contra Putin.’


 


MUNDO
Antonio Gonçalves Filho


Globalização vista do alto


‘O Nobel de Economia Joseph E. Stiglitz e o historiador marxista Eric J. Hobsbawm falam ao Estado sobre os paradoxos de um mundo sem fronteiras, com falta de democracia e excesso de pobreza, concluindo ser preciso mudar sua direção


O que têm em comum um historiador marxista nascido em Alexandria há 90 anos e um economista capitalista norte-americano de 64 anos? Ambos vivem no mesmo mundo globalizado que vê crescer a atividade econômica sem conseguir diminuir as desigualdades sociais ou conter as agressões ao meio ambiente. Sobre as contradições da globalização, o historiador Eric Hobsbawm e o economista Joseph E. Stiglitz, premiado com o Nobel em 2001, concederam entrevistas ao Estado, respondendo às mesmas questões propostas por este repórter – Hobsbawm por correio eletrônico e Stiglitz, por telefone. Surpreendentemente, algumas das respostas – em que pesem as diferenças ideológicas entre ambos – convergem para o mesmo diagnóstico a respeito da globalização, tema de dois livros lançados simultaneamente por Hobsbawm (Globalização, Democracia e Terrorismo) e Stiglitz (Globalização: Como Dar Certo), ambos pela editora Companhia das Letras.


O diagnóstico de Hobsbawm e Stiglitz pode ser resumido a uma única observação do historiador e professor Elias Thomé Saliba, que analisa seus livros nesta edição: a globalização econômica andou mais rapidamente que a globalização política. Stiglitz admite mesmo que há um déficit democrático tremendo no modo como a globalização vem sendo gerenciada. Hobsbawm e Stiglitz fazem parte de uma economia global, como todos, mas pertencem a uma elite intelectual capaz de perceber que as nações-estado continuam pensando em termos locais. Desconfiança e paranóia andam sempre juntas e Stiglitz, para maior surpresa ainda, tenta explicar essa atitude: os países em desenvolvimento, diz ele, nunca souberam ao certo a quem favorecem os interesses representados pelo Banco Mundial – que ele presidiu entre 1997 e 2000, evoque-se.


Porém, o economista americano é otimista: acha que a globalização vai permitir aos países pobres acesso aos mercados externos e abrirá fronteiras com a integração econômica. Já Hobsbawm, que admite uma diminuição geral da pobreza extrema no mundo globalizado, diz que o impacto da globalização é mais sensível para os que menos se beneficiam dela. No interior desta edição, a discussão prossegue com propostas surpreendentes, entre elas a de criar um novo sistema global de reservas, resgatando a velha proposta de Keynes, de inventar uma forma de papel-moeda sem lastro que possa funcionar como tal. Detalhe: os dois defendem a idéia. O dólar nunca esteve tão furado.’


 


Para fazer a globalização funcionar


‘Saudada com euforia há duas décadas, a globalização passou a ser vista como invenção diabólica no fim da década de 1990 com um protesto em Seattle, quando operários americanos se viram ameaçados pela concorrência dos chineses. As duas faces da globalização – a de promotora de um modelo de economia de mercado e a de disseminadora da pobreza – são analisadas nas entrevistas do historiador Eric Hobsbawm e do economista Joseph E. Stiglitz concedidas ao Estado, ambas respondendo às mesmas questões propostas pela reportagem.


Dizem que a dinâmica do capitalismo globalizado está fora do controle dos governos e que os impérios acabaram. Qual o seu prognóstico para o futuro da globalização?


ERIC HOBSBAWM: Nações-estado, mesmo as maiores, são incapazes de controlar por mais tempo o que está acontecendo com a economia mundial, mas podem, contudo, determinar a forma e a natureza da globalização. Ela vai ter de conviver com as nações-estado, cenários das decisões políticas, porque a política tem resistido à globalização, continuando a confrontá-la. As pressões políticas, creio, irão refrear o processo de globalização na próxima década, embora seja pouco provável um revival do protecionismo verificado no período entre-guerras. A globalização vai continuar. Espero que os governos que hoje exercem liderança mundial sejam forçados a abandonar sua aposta no descontrole do mercado livre. Os EUA falharam em seus planos de impor uma política hegemônica sobre o globo após o 11 de Setembro e a guerra contra o Iraque mostrou os limites dessa que foi a mais extraordinária máquina de guerra de nossa época, o que nos dá segurança para dizer que a era dos impérios está definitivamente morta.


JOSEPH E. STIGLITZ: De fato, a turbulência que atingiu os mercados financeiros em 2007 parece mesmo mostrar que os problemas que tínhamos em meados do ano continuam a se avolumar e não há motivo algum para ser otimista, porque podemos enfrentar uma possível crise global. Contudo, não há motivos para suspeitar que a globalização não eleve os padrões de vida ou dificulte aos países pobres o acesso aos mercados externos. A globalização vai continuar e pode trazer uma grande contribuição para esses países. Não vai ser fácil fazê-la funcionar. Também é verdade que os Estados Unidos não conseguem viver de maneira autônoma e uma prova disso são os empréstimos cada vez maiores que o país toma e suas atitudes protecionistas.


A instabilidade da nova economia global parece evidente e as nações-estado são aparentemente incapazes de governar a si mesmas, correndo mesmo o risco de se desintegrar. Isso pode representar uma porta aberta para a desordem global? Elas serão obrigadas a se submeter à intervenção estrangeira?


HOBSBAWM: Muitas regiões do globo – a África, o Oriente Médio, parte do sudeste europeu e a ex-União Soviética – já estão vivendo a era da desordem global. A tendência à desintegração dos estados, principalmente após o colapso dos impérios do século 20, é reforçada por uma nova tendência: a da fragmentação das mais antigas unidades políticas estáveis do mundo rico, como Grã-Bretanha, Espanha, Bélgica, Itália e Canadá. Essa tendência à ‘balcanização’ e ao enfraquecimento do poder estatal certamente favorece a desordem global, mas sua causa principal tem sido a crença de Washington de que os EUA podem impor uma ordem mundial de mão única. O estabelecimento de um padrão mais razoável de política internacional, que reconheça os limites desse poder e a existência de um sistema pluralista, seria menos perigoso. Movimentos separatistas, de modo geral, recorrem à ajuda política de forças externas para conquistar autonomia ou independência, mas os estados que são incapazes de governar a si mesmos não se tornam necessariamente mais governáveis quando ocupados por exércitos estrangeiros.


STIGLITZ: Acho que os países industrializados têm condições de resolver os próprios problemas, mesmo que, aparentemente, mostrem-se incapazes de se governar. Naturalmente, os mais ricos têm como se proteger de modo mais adequado, enquanto os países em desenvolvimento não dispõem de recursos para se defender do fluxo do capital especulativo descontrolado, correndo, portanto, maiores riscos. A globalização expõe conflitos sociais e coloca em questão o papel do governo e dos mercados. É irônico que o secretário do Tesouro dos EUA exerça pressão sobre a Índia para que se abra para esse capital especulativo.


A miséria permanece um problema em economias emergentes. Particularmente no Brasil, os programas sociais destinados a aliviar a pobreza parecem inoperantes para atender às metas da globalização. Como a globalização pode ajudar países como Brasil e Índia?


HOBSBAWM: A globalização trouxe um rápido crescimento econômico e com ele uma diminuição significativa da pobreza mundial. Ao mesmo tempo, fez crescer a distância entre ricos e pobres. Isso parece evidente em países como a China, onde a globalização se torna visível pela rápida industrialização e geração de empregos. E, vale lembrar, o nome do crescimento econômico, para a maioria das pessoas , é emprego. A Índia, por exemplo, tem mais pobreza que a China porque seu crescimento econômico não se baseia na evolução da indústria de manufaturados. Ao mesmo tempo, a fase atual da globalização, que abre mercado e garante altos preços para produtos agrícolas, favorece países como o Brasil, mas, infelizmente, tem pouco efeito na promoção social dos pobres ou de pequenos agricultores. Os programas para minimizar os efeitos da pobreza têm pouco a ver com a globalização e mais com a correção de certas deficiências de cada país. Não estou capacitado para julgar o que está sendo feito no Brasil, mas o país continua como exemplo extremo de inadequação social e econômica.


STIGLITZ: Tudo depende de como a globalização é gerenciada – e ela ainda não é administrada de forma coerente com os princípios democráticos. Ela pode ajudar a dividir a riqueza e diminuir a pobreza, como na China, onde o rápido crescimento econômico, baseado nas exportações, conseguiu tirar mais de 300 milhões de chineses da pobreza. Há exemplos contrários de países no Leste Asiático e na América Latina que não evitaram o processo de expansão e contração, como a China, e só viram a pobreza e as crises se repetirem. Quando a globalização é mal orientada, o que se vê são pobres fazendeiros confrontando não outros fazendeiros, mas competindo com Washington – competição, aliás, difícil de vencer. Nos países em desenvolvimento, os governos tendem à corrupção e os pobres ficam mais vulneráveis quando a economia mundial freia.


O rápido crescimento da China provocou um tremendo impacto em quase todos os países, pequenos ou grandes, contribuindo para elevar o preço das mercadorias e, ao mesmo tempo, tornar economias dos pequenos mais vulneráveis. Qual a solução para essa dependência? Como essas pequenas economias vão encarar esse desafio?


HOBSBAWM: Considerando que o tamanho e a velocidade do crescimento da China salvaram a economia mundial dos efeitos de uma economia fraca e instável como a americana, ela deveria ser vista como benéfica para a economia de outros países, e não como um perigo. A dependência num único mercado exportador de produtos primários não é uma desvantagem, a menos que tal mercado entre em colapso. Aí, de fato, não haveria alternativa. Argentina e Uruguai, no começo do século 20, saíram-se muito bem ao se livrar da dependência do mercado britânico. Pequenas economias não são necessariamente mais vulneráveis que grandes economias – veja o caso da Islândia, Dinamarca, Noruega e Finlândia. Na verdade, pequenas economias podem até se adaptar mais facilmente à globalização que as grandes, concentrando-se em nichos particulares da economia mundial.


STIGLITZ: A China, com sua economia em expansão, é um exemplo positivo. A alta nos preços das mercadorias chinesas pode ter bons reflexos em países exportadores da América Latina, incluindo o Brasil. Por outro lado, traz desafios para países importadores. A China tem uma alta taxa de poupança, ao contrário dos EUA. É preciso entender a dinâmica da globalização. A liberalização do comércio pode ter sido favorável para a China, mas causou grande dificuldade para outros países que desejam competir com a economia chinesa. Os subsídios têm um papel relativo nessa história, como mostram os chineses. Países como os EUA têm de rever sua posição, porque a globalização econômica foi mais rápida que a política.


Países desenvolvidos manipulam as leis internacionais de comércio para se proteger, impondo altos custos a outros países e ameaçando-os ainda com a poluição e outras conseqüências negativas de suas atividades. Como fazer a globalização funcionar se os países desenvolvidos têm menos consciência ecológica que os não-desenvolvidos?


HOBSBAWM: Quais países são mais conscientes e quais os menos conscientes? E mesmo que eles sejam conscientes, isso determina um comportamento ecológico? O governo chinês, por exemplo, é mais consciente que o americano, embora os dois sejam igualmente grandes poluidores. O problema não reside em decisões de cunho nacional, mas na ausência de uma autoridade global capaz de impor medidas de controle para lidar com um problema que é global. Se ela existisse, haveria pontos a discutir sobre como suas decisões afetam países em desenvolvimento.


STIGLITZ: De fato, o crescimento da atividade econômica de países desenvolvidos, bem como de países em desenvolvimento, está provocando grande impacto ambiental. Considerando que a maior parte dos recursos ambientais não é global por natureza, não creio que seja possível lidar de forma imperativa com a poluição que transcende fronteiras. O aquecimento global é uma realidade, assim como é limitada nossa capacidade de gerir recursos naturais, mas sou otimista com relação à educação, à conscientização ambiental. Os países em desenvolvimento não têm como criar barreiras para os desenvolvidos, que são, naturalmente, os maiores poluidores por possuírem as maiores economias. Fazer a globalização econômica funcionar depende de como vamos gerir nossos recursos naturais.


A possibilidade de uma recessão mundial não está longe, considerando a mudança do sistema de reservas global motivada por uma economia instável. Há meios de eliminar a dependência de uma moeda única? Quais são as suas sugestões?


HOBSBAWM: Está além da minha competência fazer propostas sobre o sistema financeiro internacional, mas parece claro que o dólar não pode manter por mais tempo sua posição como padrão monetário internacional, considerando as quedas sucessivas da moeda americana. Não sabemos ainda quanto tempo demorará para ele ser substituído por outro parâmetro monetário internacionalmente aceito, tal como imaginou Keynes. É evidente que a maioria das pessoas e estados gostaria de se livrar de seus dólares, mas temem as conseqüências de um súbito colapso da moeda na economia mundial.


STIGLITZ: É como digo no nono capítulo de meu livro: o sistema financeiro mundial não funciona bem, em particular para os países em desenvolvimento. O custo do atual sistema global para eles é alto: torna a economia mais vulnerável, mais instável. As sucessivas quedas do dólar chocam o mundo financeiro e o sistema atual já se desgastou o suficiente. Muitos diretores de bancos centrais já estão saindo do dólar, seguindo o exemplo dos chineses. Isso enfraquece a moeda e nos faz concluir que ele não é o melhor meio de acumular reservas. Portanto, é preciso criar um novo sistema global de reservas e a solução está na velha proposta de Keynes, de criar numa nova forma de papel-moeda sem lastro que pode funcionar como reserva.


O terrorismo é uma ameaça real ao mundo. Como conciliar a idéia de globalização com antigas crenças?


HOBSBAWM: O terrorismo de pequenos grupos, que certamente deve ser combatido, não representa uma ameaça real ao mundo moderno. Os terroristas demonstraram sua habilidade em cometer massacres indiscriminados e chocantes, mas o terrorismo não é um fator político ou militar relevante e, mesmo em países onde é proeminente, representa apenas uma pequena célula de resistência à ocupação estrangeira. É ameaçador, sem dúvida, mas porque não o entendemos, não por representar perigo. Os efeitos do furacão Katrina nos EUA foram incomparavelmente maiores que o 11 de Setembro, em que morreram dramaticamente muitos inocentes. É essencial ter em mente os limites do terrorismo para que não fiquemos histéricos. Sobre antigas crenças e culturas ancestrais, há pouco de antigo no braço extremista islâmico que inspira uma organização como a Al-Qaeda. A fatwa que permite a matança indiscriminada de inocentes, incluindo aí muçulmanos, não havia sido aprovada pelo clero egípcio até o começo dos anos 1970. O barbarismo dos quais os terroristas modernos são representantes não está baseado na antiguidade ou na tradição, mas nas sociedades dos séculos 20 e 21.


STIGLITZ: Creio que, à medida que o mundo se torna mais globalizado, ele se torna também mais integrado. E, para fazer a globalização funcionar, reduzir o déficit democrático é essencial. Não vejo como antigas crenças possam impedir a convivência de uma cultura ancestral com outras civilizações. Na Europa, por exemplo, as diferenças culturais entre escandinavos e ingleses são enormes e nem por isso deixam de se integrar economicamente. Ficamos interdependentes na área econômica. O fundamentalismo econômico é, hoje, tão perigoso como o religioso.’


 


LITERATURA
Fabrício Carpinejar


O fim do medo de ler ensaios


‘João Bosco é pai de Francisco. Não somente Francisco Bosco é filho de João. O que Francisco Bosco realizou com Banalogias, da Coleção Filosófica da editora Objetiva, não é pouco. Não é uma obra de passagem. Ensina a olhar o ensaio de modo diferente.


O jovem de 30 anos tem a sabedoria de um ancião, mas não nega o frescor da linguagem, a flexão vocabular de seus dias. Carne recente, alma antiga. Ele não chegou a esse livro por acaso. Antes publicou a prosa poética Da Amizade (7 Letras, 68 págs., 2003), em que desmontava a relação ingênua entre leitor e autor. Eram flashes, aforismos, versos e comentários. Fotografava o ato de leitura, seus fetiches e paixões. ‘O leitor se depara com uma antiga anotação sua à margem de um livro: é como ouvir a própria voz no gravador.’


Bosco não trafega pelas avenidas tradicionais dos gêneros, mas pelas suas paralelas, propondo confrontos e amálgamas. Ele combina técnicas literárias, o equivalente a um jogador de campo usando recursos do futebol de salão. É filósofo, pensador, poeta e cronista. Não é um de cada vez, sempre são todos ao mesmo tempo.


Da Amizade agia como uma webcam no livro, a capturar as movimentações dos olhos e a dispersão na busca pelo conhecimento. Feliz em seus instantâneos de descrição do volume sendo folheado. ‘O leitor respira fundo./ Pára. Fecha o livro. Sai./Decidiu dar uma volta,/ como para ver se o mundo/ continua em seu lugar.’


Em Banalogias, a sensibilidade híbrida do autor arrisca mais um salto mortal. Agora não é o livro o tema, e sim o mundo. Será que o livro continua em seu lugar? Duvido.


Ele mudou a pauta do ensaio. Ensaio costuma ser algo ligado a temas universais, inoxidáveis, como o desespero, a dor, a fé. Ensaio costuma sofrer uma linguagem acadêmica, casmurra, com equações que espantam os iniciados. Ensaio costuma prescindir de um esforço de leitura mais do que de reflexão. Não é qualquer um que entra, tampouco é qualquer um que sai. Bosco alterou a conduta estilística: abriu o ensaio aos temas da crônica. Ao trivial. Ao mundano. Ao circunstancial e perecível.


Sua ousadia é explorar os modismos (e ultrapassar a tradicional aversão dos intelectuais) em busca da essência do comportamento. Por exemplo, uma de suas ponderações é a tatuagem, na contracorrente de dizer que é um gesto meramente estético. Encontra um gesto estético em sua inscrição. Bosco diz que a tatuagem produz uma segunda nudez; uma intimidade mais íntima que a pele, e que só se revela depois da revelação da pele. Não faz sentido? O ato de tatuar, convencionado como exibicionismo, é visto, dialeticamente, como resguardo e segredo.


‘É o nu do nu. Esconder a tatuagem, escolher um espaço discreto no corpo, assume um sentido de economia da intimidade. Revelar a tatuagem é revelar o que, no corpo, esconde-se mais do que o próprio corpo, com o propósito, entretanto, de se revelar.’


Sua coleta seletiva atinge qualquer ambiente e pulveriza preconceitos. Suas teorias partem dos lugares mais insólitos. Define a magreza dos astros de rock, como Mick Jagger e Iggy Pop, num sinal de urgência e ardor. O relevo das costelas e a linha de abdome expressam o romantismo roqueiro. É a prova do exaurimento passional, do esgotamento inconseqüente. A vida se afirma quando é testada. Pode-se inchar com o rock (de álcool e drogas), não engordar.


A gafieira e o futebol resultam em surpreendentes conclusões. Na gafieira, defende a lógica do erro, sair do previsto é criar um novo passo. ‘O erro é a origem do verdadeiro acerto.’ No futebol, examina a afetividade brasileira de apelidar os atacantes (caracterizando a infância e a molecagem deles, próprias do drible) e deixar os nomes compostos aos zagueiros (um indício de respeito).


O autor não se intimida com insignificâncias. Toma todo o artigo com humor e leveza, procurando extrair um conselho ou um avesso nobre do seu conteúdo. É didático sem exercitar a superioridade do ponto de vista. Cria inclusive a filosofia da acne. Isso, da espinha. Ele não teme pensar por si, converte opiniões e impressões em verdades. Seu método é deter-se com propriedade em banalidades. Por isso, banalogias.


Quem penou na adolescência entenderá que a proliferação das acnes vem perigosamente da insistência em mexê-las?


‘Espinhas são fofoqueiras trágicas: morrem por falta de assunto. Por isso cuidado com os cremes antiacne, os ácidos, as loções secantes; eles só funcionam se forem um meio para ajudar a esquecê-las. É preciso aplicar o remédio acompanhado de um único e breve pensamento: ‘pronto’ – e deixar que a indiferença opere sua química poderosa.’


O que é discutido no salão de beleza ou na mesa de bar assume um dilema épico de vida ou morte.


Não há nenhuma arenosidade no discurso, obstáculo, o desembaraço comunicativo permite entender cada fisgada do raciocínio, cada desdobramento. Texto limpo, transparente, coloquial. Ele não escreve simples o complicado, escreve simples o próprio simples, descomplica o que se complica na transição ao erudito. Melhor: escreve o simples de modo profundo. Ele provoca a voz a escrever mais do que o pensamento.


A mutação experimentada com Nelson Rodrigues, quando botou a crônica a florescer suas obsessões, é vivida em outra ordem em Banalogias, em que não ocorre a divisão entre o alto e o baixo, o culto e o popular, o superficial e o perene. Tudo é matéria de devoção nos 23 ensaios.


É uma inversão do método de Theodor Adorno (em especial Minima Moralia) e Walter Benjamin, precursores da escola de Frankfurt. Eles levaram a indústria de consumo para a filosofia, Bosco leva a filosofia para a indústria de consumo.


Inundou a prosa investigativa de temas que não correspondem a ‘assuntos sérios’, como a cor de Michael Jackson (ele não pretende ser negro, muito menos branco, mas transracial, desbancando completamente Walt Disney), a conduta dos playboys (que faziam sucesso na escola, mas são iguaizinhos àquela época), os chatos trágicos (o apaixonado que age errado, sabe que age errado e continua até a humilhação), as piores dedicatórias (escritas no calor da hora e da falta de inspiração).


Ele trata o menor com grandeza e seriedade cirúrgica. Bosco debate a fundo se um gol de falta é um golaço ou se um golaço depende da bola em movimento. Coisa de comentarista esportivo, ou de pensador do cotidiano. Leia a resposta na página 173 de Banalogias. O livro pode ser encontrado onde a coruja dorme.


Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de Meu Filho, Minha Filha (Bertrand Brasil, 2007), entre outros’


 


SUR
Francisco Quinteiro Pires


Os direitos humanos são pensados pelo Sul


‘Sur – Revista Internacional de Direitos Humanos é uma publicação semestral gratuita que promove reflexões sobre os direitos humanos, sobretudo nos países do Hemisfério Sul. Mantida pela Conectas, organização sem fins lucrativos, Sur (168 págs.) faz abordagens a partir da perspectiva dos países subdesenvolvidos, a qual, na visão dos editores, é específica, pois considera as particularidades das nações mais pobres, e serve de contraponto à produção acadêmica hegemônica das nações do Norte. Ela é distribuída em três idiomas (português, espanhol e inglês) em mais de cem países. Quem não conseguir um dos 12 mil exemplares pode acessar o conteúdo, em formato eletrônico, no site www.surjournal.org.


O sexto número da revista criada em 2004 traz sete artigos, cujo traço de união é a reflexão sobre as desigualdades socioeconômicas e os atentados ao Estado de Direito em países latino-americanos, asiáticos e africanos. A publicação se debruça sobre a implementação dos direitos humanos pelas instâncias judiciais supremas da Índia, da Colômbia e do Brasil.


Artigos escritos por professores de três nações – o indiano Upendra Baxi, o colombiano Rodrigo Uprimny Yepes e o brasileiro Oscar Vilhena Vieira – se inspiram em pesquisas feitas desde junho do ano passado para mostrar a dificuldade de consolidação de um Estado realmente democrático a partir da aplicação da justiça nos territórios nacionais.


As soluções específicas indicadas pelo trio de autores podem servir de base para pensar reformas institucionais em outros países atrasados que padecem com a observância desigual das leis.


Os direitos sociais das mulheres na América Latina e das crianças na África do Sul são estudados em dois artigos escritos, respectivamente, pela professora argentina Laura C. Pautassi e pelos sul-africanos Gert Jonker e Rika Swanzen.


Uma proposta para erradicar a pobreza sistêmica, causa de desequilíbrios sociais, é o tema do artigo de Thomas W. Pogge, membro da Academia de Ciência Norueguesa. Ele propõe a divisão mais justa das vantagens obtidas pelo uso dos recursos globais, cuja propriedade é coletiva, em vez da corrente apropriação desigual das riquezas mundiais.


Segundo Pogge, as classes economicamente mais favorecidas exploram de maneira ampla e intensiva os insumos do planeta e realizam um consumo desproporcional, sem criar compensações aos pobres.


Um dos ensaios mais instigantes leva a assinatura do professor brasileiro Sergio Branco, que trata a lei autoral brasileira como um fator de restrição ao acesso à educação. Em tempo: todos os artigos de Sur têm a licença de creative commons, que libera a distribuição do conteúdo dos textos da revista. Branco argumenta que o desenvolvimento de tecnologias ao longo do século 20 diminuiu o fosso entre o homem, a obra cultural e a propriedade intelectual. O ápice é atingido com o advento da internet. A possibilidade de acessar as produções intelectuais e disseminar o conhecimento se torna mais fácil.


Entretanto, os titulares desses bens artísticos, científicos e literários não podem utilizá-los livremente, pois precisam lidar com os direitos autorais, as patentes e as marcas. Assim, uma restrição legal, como o direito autoral, demasiadamente protegido, de acordo com Sergio Branco, ameaça o direito humano à educação.


A lei brasileira é tomada como modelo para discutir as limitações à formação educacional no País, mas o debate promovido no ensaio apresenta considerações interessantes para entender os sistemas legais de outras nações. As legislações antigas se tornam inadequadas em face de uma realidade nova, transformada pelo processo de globalização. Diante dessa necessidade de adequação, os direitos autorais têm a obrigação de ser o espelho da realização dos direitos humanos, conclui Sergio Branco.’


 


HISTÓRIA
Lilia Moritz Schwarcz


E assim nasceu a mídia no Brasil


‘Jorge Luis Borges, no livro Outras Inquisições, descreve uma fantástica enciclopédia chinesa, em que os animais aparecem assim divididos: pertencentes ao imperador, embalsamados, treinados, porcos, sereias, fabulosos, incluídos nesta classificação, que tremem como loucos, inumeráveis, pintados com um fino pincel de camelo, que já quebraram o vaso, que de longe parecem moscas. Não é o caso de analisar o estranho conteúdo do verbete; mais interessa sublinhar como ele incomoda ao apontar os limites do ato de classificar. Não existem homens que não classifiquem, o mais difícil é entender a lógica que preside tal organização, muitas vezes presa a contextos e locais em tudo distintos ao nosso. Afinal, classificar é dar ordem a um mundo, na maior parte das vezes, caótico.


Guardadas todas as diferenças, a enciclopédia de Borges lembra certos anúncios que começaram a invadir as páginas de jornais como a Gazeta do Rio de Janeiro, a qual, lançada em 10 de setembro de 1808 na esteira das modificações introduzidas pela vinda de d. João ao Brasil, pretendia noticiar todas as realizações dessa corte migrada e estacionada provisoriamente nos trópicos. O jornal saía originalmente uma vez por semana, sempre aos sábados, mas logo se tornou bissemanal. Como diz seu nome – gazeta -, o periódico pretendia ser apenas um ‘papel de notícias que sai regularmente’, sendo o seu redator um gazeteiro. Já a própria palavra jornal só surgiria em Portugal em 1813, quando no Dicionário da língua portuguesa se mencionava o pagamento diário do jornaleiro ou do trabalhador braçal.


O fato é que o termo e a prática das gazetas se imporiam em Lisboa e no Rio de Janeiro de inícios do 19, a despeito do escárnio de alguns viajantes estrangeiros, que julgavam ser essa uma forma superada de periodismo. É famosa a crítica de Hipólito da Costa – diretor do jornal Correio Brasiliense, que circulava na mesma época, mas tinha sede em Londres – acerca da ‘mísera Gazeta do Rio de Janeiro, em que se gasta tão boa qualidade de papel para imprimir tão ruim matéria, que melhor se empregaria se fosse usado para embrulhar manteiga’. E não se pode tirar a razão de Hipólito, uma vez que a Gazeta era mesmo um noticioso do Estado e a serviço do Estado. Nela, falava-se da saúde dos príncipes; publicavam-se ofícios, notícias dos natalícios da realeza, panegíricos; e comentava-se a política na Europa, sempre com um tom oficial.


O periódico cumpria, porém, com seu objetivo original; não cabia às gazetas interpretar e exibir conhecimentos. Ao contrário, para redigir um jornal como esse bastava dominar línguas estrangeiras – uma vez que boa parte das notícias era retirada de periódicos ingleses ou franceses – e saber descrever os rituais da corte. Por isso, um gazeteiro era uma espécie de classificador de notícias. O grande interesse, à época, centrava-se na figura de Napoleão Bonaparte e em suas investidas militares, sempre devidamente criticadas.


É por isso mesmo que, com o fim da guerra, as notícias vindas do estrangeiro perderam sua curiosidade, e a tarefa dos gazeteiros tornou-se mais complicada. A partir de então, a Gazeta voltou-se para sua própria realidade, e, diante desse ambiente um tanto tacanho, era preciso ‘criar’ notícias para além do calendário da Família Real. É certo que números especiais celebraram a coroação de d. João VI em 1818, o casamento de d. Pedro com d. Leopoldina no mesmo ano e até mesmo as exéquias de d. Maria, em 1816. No entanto, se essas matérias eram tediosas e por demais oficiais, assim como as principais notícias não passavam de resumos de outras matérias ou da reprodução de medidas oficiais, detalhes desavisados começaram a aparecer nos lugares menos nobres do periódico. Nos anúncios, que iam tomando as páginas da Gazeta, um novo panorama se desenhava, revelando como o jornal era quase um mapa dessa corte, um espelho que devolvia o processo de dinamização dessa sociedade.


No entanto, como esses anúncios costumavam listar ‘novidades’, guardavam certas semelhanças com o verbete imaginário da enciclopédia de Borges. Em 1818, um francês que mantinha dois endereços no Rio de Janeiro – um na rua detrás do Hospício e outro na Rua do Ouvidor – resolve fazer publicidade em duas páginas da Gazeta, descrevendo todas as mercadorias que possuía. Nessa longa lista estão incluídos objetos de decoração, vidros, instrumentos musicais, alimentos e muitos outros itens como: ‘Chapéus de palha lisos pelo novo padrão; ditos de palha de Itália super finos; véus; coletes com espartilhos de aço cobertos de tafetá; vestidos bordados de flores; camisas muito bem bordadas; pescocinhos para senhoras, bonés, ditos de palha de arroz, ditos de tecido de algodão que se podem lavar, ditos finos para homens com espelho dentro; vestidos de renda magníficos, lenços para pescoço de senhoras, de renda, renda bordada, branca e preta; lenços de batista bordados; sedas, tafetás, vestidos estampados; seda com ramos muito delicados, estofos para calções; casacas muito bem feitas; leques riquíssimos; meias de seda; vestidos bordados; ditos de renda; sapatos de homem e mulheres; sacos de veludo para senhoras muito bem bordados; mantinhas para senhoras, de garça e seda com borlas; bolsas para senhoras, de flores e cabelo; plumas para chapéus de senhoras, brancas e pretas de todo o tamanho; flores sortidas; vestidos estampados e lenços.’ Destituída de uma lógica evidente, a longa relação termina com a seguinte frase: ‘Finalmente acha-se em casa do senhor de Amerval um sortimento de tantos objetos, que seria preciso muito tempo para escrever e o mesmo senhor tem sumo gosto em os vender por preços modestos.’


Esta é uma classificação para Jorge Luis Borges nenhum botar defeito e revela como a Gazeta acabava por cumprir outras funções. Se não trazia artigos de opinião ou seções mais aprofundadas, acabou se revelando como documento precioso para retratar a vida cotidiana da corte de d. João, que precisava se ‘civilizar’ de maneira apressada e até destrambelhada. E é em torno desse material, pouco sistemático, que se debruça Maria Beatriz Nizza da Silva em A Gazeta do Rio de Janeiro, 1808-1822 (Uerj, 288 págs., R$ 30). A historiadora teve e tem um papel fundamental na consolidação de uma área de pesquisas por muito tempo desconsiderada, mais conhecida como história da cultura e do cotidiano. Em obras como Cultura e Sociedade no Rio de Janeiro: 1808-1821 (1977), Cultura no Brasil Colônia (1981) e no livro que funciona como uma espécie de paralelo a este, A Primeira Gazeta da Bahia: Idade d?Ouro do Brasil (1978), Nizza da Silva já mostrava a potencialidade desse tipo de documentação. Mas a historiadora dá agora nova forma a esse material, mostrando como, pelas brechas e detalhes menos esperados, revelava-se toda uma vida do Rio joanino.


Através dos anúncios podemos entender, por exemplo, como morava a elite local. A Praia do Botafogo era o local predileto da nobreza reinol, tanto por conta dos espaços mais generosos encontrados na região, como por causa da ‘boa vizinhança’. Suprir tais residências era um dos objetivos maiores das novas casas de negócio que vendiam objetos decorativos, como esteiras – muitas vindas de Moçambique -, mármores para ‘ladrilhar as salas’, figuras de alabastro, biombos de charão, espelhos, quadros, escrivaninhas, relógios de parede ou voltaretes (jogo muito em voga na época).


A culinária parecia uma porta de entrada privilegiada para entender a invasão dos novos costumes. Os produtos anunciados eram todos importados, ressaltando-se as bebidas e temperos, os chás, tâmaras, vinagres, molhos de peixe, mostardas, conservas, azeites e o chocolate da Espanha. Os gostos estrangeiros aportavam com os imigrantes que afluíram em massa desde 1808, quando os portos brasileiros foram abertos às nações amigas. Se primeiro vieram os ingleses, a partir de 1815 chegariam os franceses, com suas vogas. A Hospedaria do Reino do Brasil – que ficava na Rua da Alfândega e fora criada em 1816 – mudaria de nome e de preço, e em 1817 passaria a se chamar Hotel Royame du Brésil. Comer fora de casa virava também uma coqueluche, com os novos restaurantes e confeitarias que vendiam licores, barrelinhos de doces, frutas secas e doces feitos de caju, pitanga e mangava. Chegariam da França, ainda, cozinheiros especializados que mudariam paladares e modos à mesa.


A moda sinalizava igualmente para mudanças aceleradas. Chapéus de tamanhos elevados, vestidos, rendas, assessórios de toda sorte faziam a alegria das senhoritas que circulavam, agora, pelas ruas – e ‘faziam a corte’. Entrariam no País cabeleireiros franceses, garantindo, mesmo com o calor dos trópicos, penteados que chegavam a um metro ou mais. Eram mestres nessa arte – como Richaud e Girard -, que colocavam as mãos nas reais cabeças e ofereciam serviços variados: cortavam, tingiam, passavam pó, penteavam e até prometiam (utilizando-se do poder de águas maravilhosas) o crescimento e aumento dos cabelos. Estrangeiros também se tornaram tradutores, professores de línguas ou abriram colégios.


No Brasil de d. João faltavam médicos, uma vez que até então a profissão era proibida. Assim, com a corte entraram os profissionais da área, isso enquanto se aguardava que as primeiras instituições, fundadas em 1809, gerassem seus formandos. Ao lado dos ‘cientistas’, grassaram, porém, curandeiros e indivíduos que, não sendo médicos ou cirurgiões, divulgavam seus talentos curativos. Prometiam a redenção para tudo – de hérnias a resfriados, sífilis e esterilidade -, assim como ofereciam remédios cuja composição se desconhecia, mas que garantiam milagres de toda ordem. As ‘pílulas da família’, por exemplo, anunciavam muito e explicavam pouco, mas pareciam fazer sucesso. Pacientes agradecidos iam às páginas da Gazeta elogiar os bons tratos e remédios de determinado médico, assim como se encontravam reações adversas de outros profissionais, que se apresentavam como os verdadeiros manipuladores dos preparados. Hilário é o episódio que envolve o cirurgião José de Carvalho, o qual usou as páginas do jornal para chamar para si o descobrimento de uma bebida que expelia a tênia. Por sinal, se os redatores da Gazeta evitavam polêmicas, já seus anunciantes pareciam julgar que o periódico era o lugar correto para o estabelecimento de tertúlias.


Enfim, mesmo sem querer, a Gazeta converteu-se em palco para a demonstração das conseqüências que a vinda da corte e o alvará de 1º de abril de 1809 – o qual franqueava a liberdade da indústria – geraram. O comércio se ativou, assim como as práticas profissionais. Artesãos, negociantes, criados, artistas, músicos, livreiros, sapateiros, literatos chegavam à capital carioca e faziam uma concorrência, desleal, com a gente da terra. Não obstante, a imagem geral era a de que a Ilustração chegava ao País em caixotes ou por meio dos navios que despejavam imigrantes, produtos, assim como valores, costumes e símbolos.


No entanto, a colônia, feita Reino Unido em 1815, lembrava mais as arquiteturas efêmeras, construídas por ocasião das grandes festas da corte. Tudo cintilava, mas soava um pouco apressado, artificial e feito para durar pouco. O grande limite dessa vida joanina era dado pela escravidão; presença cativa nas ruas do Rio de Janeiro e nas páginas da Gazeta. Ao lado das demais notícias, que acenavam para o progresso rápido promovido pelos novos profissionais, surgiam os famosos anúncios de fuga, venda, aluguel, penhora e seguro de escravos. Escandalosos aos olhos de hoje, eles eram quase corriqueiros, tal a maneira como tomavam, cotidianamente, as páginas do jornal. Aí estava exposta a ambivalência desse processo, que parecia ‘natural’, mas esbarrava no sistema escravocrata e na idéia, nada iluminista, da posse de um homem por outro.


O livro de Nizza da Silva é um ótimo farolete para entender a rapidez das mudanças que a vinda da corte portuguesa, em 1808, gerou. A obra representa, assim, um grande estímulo para futuras pesquisas que pedem, porém, por novas sistematizações do material. Além do mais, em tempos de celebração de 200 anos, vale a pena atentar, também, para o que a entrada da Família Real não alterou. Se era preciso transformar, e de maneira ligeira, uma pacata cidade perdida no meio da América numa rica capital do Império português, não se tocaria no elemento que estruturava essa sociedade: o trabalho escravo. Aí estava um dos limites desse projeto civilizatório; uma amarra fundamental para entender e desconfiar do brilho fácil da corte.


Lilia Moritz Schwarcz é professora titular do Departamento de Antropologia e autora, entre outros, de As Barbas do Imperador e A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis’


 


NORMAN MAILER
Tomás Eloy Martinez


Romances que ferem e destroem


‘Ninguém conseguiu apagar com tanta eficácia as frágeis fronteiras que separam a realidade da ficção como o norte-americano Norman Mailer. Como jornalista, escreveu com a mesma desenvoltura e brilho que caracterizaram seus romances, nos quais ele trabalhou com a paciência de um investigador obsessivo, para quem a realidade era somente um dos ramos da imaginação. Quando morreu, na manhã de 10 de novembro, os médicos acreditavam que ele estava fora de perigo. Seu físico resistente parecia condená-lo à eternidade, mas, repentinamente, todas as vísceras se desprenderam dele, uma depois da outra, e o grande escritor foi derrubado, como aconteceu outras vezes nos ginásios de boxe.


Encontrei-o em dois sábados, separados por 12 anos. A primeira vez foi num ringue de um ginásio em Gramercy Park, onde ele pulava corda, golpeava a bolsa de areia e treinava com José Torres, ex-campeão mundial de peso médio. E depois, em sua casa em Brooklyn Heights, ao lado de sua belíssima esposa, Norris Church, e seu filho, John Buffalo. Na época, não passava pela cabeça de Norris, com quem Norman tinha se casado pela sexta e última vez, que ela também seria romancista. No fim da primavera, nos EUA, há pouco mais de seis meses, ela publicou Cheap Diamonds – e, como escritora, sua fama tem sido mais duradoura do que como modelo.


Quando conheci Norman Mailer, já admirava a força luminosa com que ele tinha ampliado os limites da literatura, indiferente ao desdém dos críticos e avançando, sem se alterar, em meio à avalanche de adjetivos a que era condenado: oportunista, machista, egocêntrico. Em minha antologia pessoal figuram pelo menos seis dos seus 39 livros: Os Nus e os Mortos, romance de 700 páginas, que escreveu entre os 22 e 24 anos e publicou em 1948, aos 25; Os Exércitos da Noite, com que ganhou o prêmio Pulitzer em 1968; A Luta, escrito em 1975, uma crônica memorável do combate entre Muhammad Ali e George Foreman pelo título mundial de peso pesado, no Zaire de Mobutu; A Canção do Carrasco, de 1979, que lhe deu um outro Pulitzer; e O Fantasma da Prostituta, de 1991, 1.500 páginas admiráveis em que descreve os labirintos da CIA com uma inteligência narrativa e uma sabedoria para entender o coração humano que não mais se via desde a morte dos grandes romancistas do século 19.


Conservei por anos as anotações que fiz nos meus encontros com Mailer, apenas para mostrá-las a amigos que compartilhavam minha admiração por ele. Agora, quando passo a limpo as páginas deste velho diário, só posso sentir as injustiças do tempo ao relembrar os olhos transparentes e atentos com que o grande escritor via passar a vida em 1979, e o aspecto de árvore vencida que tinha quando voltei a vê-lo, 12 anos depois. Transcrevo agora fragmentos dessas impressões, sem corrigi-las, para que as precauções do presente não obscureçam meus entusiasmos do passado.


12 DE ABRIL DE 1979


Na esquina da Irving Place com a Rua 14, 20 passos a oeste de uma banca de revistas, abre-se um saguão miserável e, mais além, escadarias enegrecidas pela velhice e o tédio. Quem se atreve a subir até o segundo andar, impelido pelo letreiro indicando ‘Academia Gramercy – aulas de Boxe’, descobrirá o espetáculo de um ringue deserto no centro de uma ampla sala de mosaicos. Fotografias empalidecidas brotam em desordem das paredes, como se tivessem sido penduradas por um cego.


Ali Norman Mailer treina todos os sábados. Está exageradamente gordo.


Tem 56 anos e não é, absolutamente, velho, apenas está descomunal. As rugas em seu rosto são pelo menos uma geração mais velha do que a sutileza das suas palavras.


Depois de haver suado todas as intoxicações da noite, dispõe-se a uma luta de boxe, dois assaltos de três minutos. Toma uma ducha, emite um relincho agudo e, ainda molhado, fala.


‘Um romancista sempre parte de uma idéia fixa, de uma obsessão que o invade e que está dentro dele, não fora. Com a imaginação escolhe um alvo e a única coisa que deve fazer é alcançá-lo.’


‘Para um jornalista, as coisas são mais difíceis. Ele precisa movimentar-se o tempo todo dentro da realidade. A pergunta mais importante da história é como o jornalista conhece o que diz conhecer. Sou péssimo como repórter. Incapaz de conseguir uma entrevista.’


‘Com freqüência uso as investigações que outros fazem para mim, mas depois eu vou atrás para me certificar de tudo o que me disseram.’


‘Jamais imagino. Simplesmente transcrevo os diálogos da realidade. Cada vez que inventei uma conversa, os resultados foram tristes.’


‘E digo mais: prefiro um romance ruim sobre fatos reais do que um bom romance sobre fatos fictícios. Mas, quando um romancista verdadeiro está trabalhando, só deve obedecer à realidade da sua imaginação.’


‘Ai, você tem meu livro sobre Gary Gilmore, A Canção do Carrasco. Ele me ensinou a ser um escritor melhor do que nunca fui. Convenceu-me de que a vida real sempre será mais interessante do que minhas invenções.’


14 DE SETEMBRO DE 1991


Nos últimos 12 anos, Mailer envelheceu pelo menos 20. Exibe olheiras fundas como um poço, a cabeça completamente branca e a gordura de antigamente, tendo se evaporado, faz com que ele pareça mais baixo.


Quando está ao lado da sua mulher, sua cabeça Mailer mal toca o queixo dela.


‘Não sou eu. São os romances que me destroem’, diz, adivinhando meu pensamento. ‘Quando terminei Noites Antigas, caminhava arrastando os pés. Meus filhos queriam internar-me num asilo. Agora, saio de um esforço ainda mais descomunal, O Fantasma da Prostituta. E para completar, o que vai ser publicado será apenas a primeira parte.’


‘Sabe qual é a última frase do livro’, intervém Church: ‘To be continued (Continua).’


Os anos desgastaram Mailer mais do que qualquer outro de seus pares, mas sua capacidade de sedução continua intacta. Finge que se lembra perfeitamente daquela manhã que passamos juntos no ginásio de boxe em Gramercy Park. Lembra também que falamos do escritor argentino Jorge Luis Borges.


‘Sofri com a morte de Borges como se fosse a minha’, disse sem dramatizar muito. ‘Morrer aos 86 anos é um alívio para qualquer ser humano, exceto para um escritor. Os escritores deviam ser imortais. Tinham que ir desaparecendo no ar, como o entardecer.’


10 DE NOVEMBRO DE 2007


É difícil aceitar que um homem assim esteja morto. De novo é sábado. Amanhã, o mundo vai despertar mais escuro, mais inóspito e a realidade estará transtornada, buscando quem a conte tão bem e de maneira tão inesperada como ele a contava.


Tomás Eloy Martinez é diretor do programa de Estudos Latino-americanos da Universidade Rutgers e escritor, autor de O Romance de Perón, Santa Evita, O Vôo da Rainha e O Cantor de Tango’


 


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