Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 31/5 E 1/6

O Estado de S. Paulo

03/06/2008 na edição 488

INTERNET
O Estado de S. Paulo

Bilionário pode fazer ofensiva no Yahoo!

‘O investidor bilionário Carl Icahn recebeu aprovação da Comissão Federal de Comércio (FTC) dos EUA para comprar uma grande quantidade de ações do Yahoo. No início do mês, Icahn lançou uma batalha para mudar o Conselho do Yahoo, argumentando que a empresa agiu irracionalmente ao recusar a oferta da Microsoft, de US$ 47,5 bilhões. Icahn já comprou US$ 1,5 bilhão em ações do Yahoo desde que a Microsoft retirou sua oferta pela companhia.’

O Estado de S. Paulo

PGO emperra na decisão sobre rede de banda larga

‘O destino das estruturas de banda larga das concessionárias de telefonia fixa nas novas regras que estão sendo elaboradas para o setor é o principal ponto de conflito entre os conselheiros da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) na revisão do Plano Geral de Outorgas (PGO). As divergências já obrigaram o conselho diretor da Anatel a adiar por duas semanas seguidas a votação do novo PGO, que permitirá a compra da Brasil Telecom (BrT) pela Oi. O assunto está pautado novamente para a reunião da próxima quarta-feira.

Um dos problemas, segundo um técnico do setor, é a proposta de as concessionárias terem que criar uma empresa para operar os Serviços de Comunicação Multimídia (SCM). Hoje, as empresas se valem da autorização de SCM para prestar outros serviços além dos de telefonia fixa, por meio da banda larga, como transmissão de dados para o mercado corporativo, venda de vídeos sob demanda e telefonia via internet (VoIP).

Para obter uma licença SCM, é preciso montar uma empresa. Mas as concessionárias – entre elas Oi, BrT, Telefônica e Embratel – prestam hoje o SCM na mesma estrutura da telefonia fixa, sob o mesmo CNPJ, porque herdaram, na privatização, o serviço de transmissão de dados da Telebrás.

O conselho diretor, que hoje tem quatro das cinco vagas preenchidas, está rachado ao meio, segundo técnicos do setor. O relator da proposta, Pedro Jaime Ziller, e o conselheiro Plínio de Aguiar Júnior, querem que o SCM das concessionárias fique em uma empresa com CNPJ distinto, argumentando que isso daria mais transparência à prestação dos serviços. Enquanto que o presidente da Anatel, Ronaldo Sardenberg, e o conselheiro Antônio Bedran defendem a manutenção do SCM e do serviço de telefonia fixa na mesma empresa.

Técnicos avaliam que a preocupação de Sardenberg e de Bedran seria com as redes de banda larga, que fazem parte do SCM, e seu destino no caso de uma eventual falência ou fim da concessão. Os contratos assinados entre governo e concessionárias prevêem que as redes voltem ao poder público junto com a concessão.

Os técnicos dizem que, se ficasse apenas o serviço de telefonia fixa na concessionária, só voltaria para o governo a rede de cobre da telefonia, que é mais antiga e com capacidade reduzida, e não a rede mais moderna, da banda larga.

Uma das propostas apresentadas para acabar com a divergência seria transferir esse ponto do PGO para outro processo, o do PGR, que também está na pauta de votações da próxima quarta-feira. O PGR traça diretrizes para o setor nos próximos 10 anos. Isso liberaria a votação do PGO, aguardada com ansiedade pela Oi e pela BrT.

Na quinta-feira, o presidente da Oi, Luiz Falco, lembrou que o contrato de compra da Brasil Telecom estabelece um prazo de 240 dias para que o PGO seja alterado. ‘Se não for aprovado, vai ser um problema. Vamos ter que pagar uma conta de R$ 815 milhões’, disse ele, referindo-se às multas que deverão ser pagas caso o negócio não seja concluído no prazo.

As divergências que atrasam o PGO ganham mais importância porque uma das cinco vagas do conselho da Anatel está aberta desde novembro de 2007, dificultando as votações. O regimento interno da Anatel prevê um mínimo de três votos para que os processos sejam aprovados.’

Renato Cruz

Linux busca espaço no computador de mesa

‘O Linux é considerado o principal concorrente do Windows, da Microsoft. Mas sua participação no mercado de computadores de mesa e portáteis é muito pequena. Segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas, que ouviu empresas médias e grandes no Brasil, o Linux tem menos de 2% de participação nos computadores de mesa, mesmo com 18% dos servidores.

‘O Linux cresceu, mas não o suficiente para mudar sua participação na base instalada’, disse Fernando Meirelles, professor da FGV e responsável pela pesquisa. ‘Não é a salvação da pátria.’ O sistema operacional é um software livre, que pode ser modificado, copiado e usado sem o pagamento de licenças. As empresas de Linux sobrevivem com a venda de serviços agregados ao software.

Para João Pereira da Silva Jr, presidente da Insigne, empresa brasileira que fornece Linux para fabricantes de PCs, o principal obstáculo não é a Microsoft. ‘Nós temos três inimigos: o vendedor mal-informado, o técnico mal-intencionado e o amigo que pensa que entende de computador’, disse.

Segundo ele, o vendedor mal-intencionado diz ao consumidor que o Linux é difícil, e muitas vezes indica um técnico para substituir o software por uma versão pirateada do Windows. O técnico mal-intencionado chega a cobrar R$ 100 para trocar o Linux pelo Windows pirata. E o amigo que pensa que entende de informática, de acordo com Silva, estranha o Linux e troca o sistema operacional pelo Windows pirata, de graça.

Apesar de pequeno, o mercado de computadores com Linux começa a ficar interessante para as empresas. A Insigne acaba de comemorar 1,2 milhão de PCs vendidos com a sua distribuição de Linux, em oito anos de existência. Seiscentos mil foram vendidos nos últimos 12 meses. ‘Este ano, queremos chegar a 2 milhões’, disse Silva. A empresa atende a sete fabricantes, que incluem Semp Toshiba, Novadata, Aiko e CCE. O software é de graça, mas a Insigne recebe do fabricante pelo suporte que oferece ao consumidor.

Quando o governo federal anunciou o programa Computador para Todos (na época, chamado PC Conectado), muitos previram um grande incentivo ao Linux no computador de mesa. Não aconteceu. O governo ofereceu condições especiais de financiamento para um modelo com Linux, mas o benefício fiscal serviu para toda a indústria, independentemente do sistema operacional.

Um dos argumentos usados contra o Linux é que as pessoas não estão acostumadas com ele e, por causa disso, têm dificuldade de usar. ‘Como o programa tem como objetivo a inclusão digital, essa desculpa vai para o espaço’, afirmou Silva. ‘A maioria dos consumidores não tem experiência anterior com computador. Tem gente que liga para a central de atendimento reclamando que a internet não funciona, e nós temos de dar para eles a triste notícia de que precisam contratar banda larga e provedor.’

A empresa chegou a criar um centro de capacitação para clientes, em São Paulo, em que oferece quatro horas de treinamento gratuito para quem compra computadores com seu software. ‘Estudamos abrir centros em outras cidades’, disse Silva.

Quem também está de olho nesse mercado é a Canonical, responsável pela distribuição do Ubuntu. Criado pelo multimilionário e astronauta sul-africano Mark Shuttleworth, o Ubuntu tem como lema ‘Linux para seres humanos’. Ou seja, o objetivo de Shuttleworth foi criar uma versão fácil de instalar e de usar, para tirar do Linux a imagem de sistema operacional para pessoas com conhecimento técnico.

‘A visibilidade do Ubuntu no Brasil é maior que eu imaginava’, disse Fábio Filho, gerente de Negócios da Canonical para a América Latina. ‘A engenharia das empresas já sabe que o Ubuntu é uma alternativa para o desktop, ainda falta mostrar isso para a linha executiva.’

Fábio foi contratado há um ano, com dois objetivos principais: ampliar a presença do Ubuntu nas empresas e fechar acordos com fabricantes locais de computadores. Fora do Brasil, a Canonical tem acordo com empresas como a Dell, que vende computadores com o Ubuntu nos EUA, Índia e China.’

 

TV POR ASSINATURA
Gerusa Marques

Anatel pode rever cobrança de ponto extra de TV paga

‘No mesmo dia em que entrará em vigor o novo regulamento com os direitos do usuário de tevê por assinatura, na próxima segunda-feira, o conselho Diretor da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) fará reunião extraordinária para decidir sobre o ponto mais polêmico das novas regras: a cobrança ou não do ponto adicional de recepção dos sinais.

O texto do regulamento, aprovado no fim do ano passado, gerou reação dos órgãos de defesa do consumidor, ao proibir a cobrança pela programação (conteúdo) do ponto adicional, mas permitir que as empresas de tevê paga cobrem uma taxa pela sua instalação, ativação e manutenção. Como a Anatel não definiu valores ou limites para essa taxa, na prática, a cobrança do ponto adicional continuaria sendo feita, ainda que com outro nome.

No mínimo, segundo os órgãos de defesa do consumidor, esse dispositivo não está claro ou coerente com os demais pontos do regulamento. Com as novas regras, os mais de 5 milhões de usuários de TV por assinatura no Brasil passarão a contar com novos direitos na relação com as empresas.

O cliente passa, por exemplo, a ter direito a receber em dobro, e em dinheiro, todos os valores pagos por cobranças indevidas. As ligações telefônicas para reclamar dos serviços devem ser gratuitas e, nos demais casos, como pedido de informação, o valor máximo de cobrança será de uma ligação local por atendimento. A central telefônica da operadora de TV por assinatura deverá funcionar diariamente, das 9h às 21h, inclusive nos fins de semana.

Pelo regulamento, o sinal da TV paga só poderá ser suspenso pela prestadora no caso de inadimplência ou descumprimento de condições contratuais. Se as falhas no sinal forem superiores a 30 minutos, o cliente terá direito a desconto na fatura proporcional ao tempo em que ficar sem serviço. As empresas terão que resolver, em até cinco dias, as queixas e reclamações ou responder a pedidos de informação dos assinantes.

A decisão de estabelecer novas regras coincide com um momento de expansão do mercado, principalmente com oferta de pacotes de serviços, que englobam TV por assinatura, telefonia e internet em banda larga.

Também há expectativa de ampliação considerável do número de clientes com a entrada das empresas de telefonia nesse segmento.

A TV por assinatura é prestada hoje nas modalidades de cabo, satélite e microondas terrestres (MMDS). As maiores prestadoras são a NET Serviços e a Sky Brasil, com mais de 70% dos assinantes.

Ainda segundo as novas regras, toda vez que houver alteração no plano de serviço, a mudança terá de ser informada ao cliente com um mês de antecedência. No caso de mudança no preço dos serviços, excluindo o reajuste anual, a operadora é obrigada a comunicar previamente ao assinante, e ter a concordância dele. O assinante poderá ainda rescindir o contrato a qualquer momento, sem nenhum ônus.

Se o cliente precisar viajar, poderá pedir gratuitamente, uma vez por ano, a suspensão do serviço por um período de 30 a 120 dias.As empresas que descumprirem o regulamento poderão ser multadas em até R$ 40 milhões.’

CRIME ONLINE
Marcelo Godoy

Polícia descobre rede de pedofilia

‘Investigado sob a suspeita de envolvimento em uma rede de pedofilia, o 2º tenente da PM Fernando Neves Brás, de 34 anos, matou-se com um tiro na cabeça quando seu apartamento, na zona norte de São Paulo, ia ser revistado por policiais da 5ª Delegacia Seccional e da Corregedoria da Polícia Militar.

Segundo o delegado André Luiz Pimentel, há 90 dias uma testemunha procurou os policiais informando que havia recebido propostas para manter sexo com crianças enquanto freqüentava uma sala de bate-papo chamada Incesto, mantida em um site na internet. A testemunha foi orientada pela delegacia a prosseguir os contatos com o agenciador das crianças.

Após algum tempo, o agenciador passou a usar um programa de mensagens instantâneas e, depois, o telefone. ‘Com autorização judicial, passamos a interceptar as conversas do suspeito’, afirmou o delegado. Tratava-se do operador de telemarketing e pai-de-santo Márcio Aurélio Toledo, de 36 anos. Toledo, de acordo com a polícia, ofereceu à testemunha a possibilidade de manter relações sexuais com crianças de 7, 9 e 12 anos.

A polícia deteve o pai-de-santo na sexta-feira, dia 23. Na casa do acusado, na zona sul, havia uma sala arrumada como uma brinquedoteca. Na revista, os policiais da delegacia encontraram fitas de DVDs com imagens de crianças praticando sexo e uma lista de contatos nos computadores do suspeito.

O acusado disse aos policiais que era inocente. Mas, com base na lista de contatos e nas interceptações telefônicas, os policiais chegaram ao nome do tenente para quem o pai-de-santo teria prometido ‘uma menina virgem’. Anteontem, a delegacia obteve um mandado de busca e apreensão para a o apartamento e os armários do policial no 5º Batalhão da PM.

Informada pela delegacia, a Corregedoria da PM acompanhou as diligências. O tenente foi chamado à sede do batalhão. Desarmado, ele acompanhou a revista de seu armário. Em seguida, foi com os policiais até seu apartamento. ‘Ele pediu que nós aguardássemos um pouco enquanto ele avisava sua esposa, que estava dormindo, para que ela se vestisse’, afirmou o investigador Geraldo Buscarioli Junior. O tenente saiu do quarto com a pistola calibre 40, apontou para os policiais e entrou no banheiro. Foi quando disparou. A bala atravessou sua cabeça e a porta do banheiro.

Seu computador foi apreendido para análise. Brás foi quem comandou a varredura no Edifício London na noite em que a menina Isabella Nardoni foi jogada do 6º andar. Foi ele quem certificou que não havia ocorrido invasão no prédio – o oficial estava na terceira viatura da PM a chegar no local do crime, à 0h05 do dia 30 de março. O oficial estava havia 11 anos na corporação. Ele comandava a Força Tática do 5º Batalhão. Segundo o capitão Marcelino Fernandes, da corregedoria, a arma usada no suicídio era uma pistola de propriedade da PM.’

***

Lista com 600 nomes é apreendida com pai-de-santo

‘Uma lista com 600 nomes foi apreendida pelos investigadores da 5ª Delegacia Seccional na casa do operador de telemarketing e pai-de-santo Márcio Aurélio Toledo. Suspeita-se que muitos deles pertenceriam à rede de pedofilia que negociava sexo com crianças de 7 a 12 anos e distribuía material pornográfico com crianças.

Durante as investigações, a polícia flagrou diálogos mantidos pelo pai-de-santo com alguns de seus clientes. Em uma dessas conversas, Toledo perguntaria: ‘O que você quer? Menino ou menina?’ Na sexta-feira, dia 23, ele teria marcado um encontro em sua casa. ‘Mas não vai ter problema?’, perguntou o interessado. ‘Não, eu tenho brinquedos aqui para distrair as crianças’, afirmara o suspeito. Segundo a polícia, o acusado não cobrava por seus serviços. Seu interesse seria manter relações sexuais com os pedófilos para quem ele agenciava as crianças.

Por causa das escutas telefônicas nas quais ele dizia que iria entregar para um cliente uma criança de 9 anos, que seria seu sobrinho, a polícia decidiu pedir à Justiça a decretação da prisão temporária de 30 dias para o acusado. ‘Era preciso impedir a concretização do delito’, afirmou o delegado André Luiz Pimentel. A Justiça decretou a prisão e concedeu o mandado de busca e apreensão.

Os policiais foram à casa de Toledo, na Rua Márcio Martins Ferreira, em Cidade Ademar, na zona sul. Ali funcionava nos fundos o terreiro de umbanda mantido por Toledo. O pai-de-santo foi detido, mas nenhuma criança foi encontrada no lugar. ‘Nós vamos tentar identificar as possíveis vítimas’, afirmou o delegado.

Por enquanto, Toledo só foi acusado de negociar material pornográfico envolvendo crianças, um crime previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente que prevê uma punição de 2 a 6 anos de prisão em caso de condenação. ‘Caso seja possível identificar as crianças, ele poderá ser indiciado sob as acusações de estupro e atentado violento ao pudor’, disse Pimentel.

As investigações, portanto, prosseguem. Na tarde de ontem, além de cumprir mandados de busca e apreensão no batalhão da PM em que o tenente Fernando Neves Brás trabalhava e na casa do policial, na Avenida Nova Cantareira, em Santana, os investigadores da delegacia também revistaram a casa de um outro suspeito de manter contato com o Toledo.

Trata-se de um homem que mora em São Paulo. Também foi revistada uma casa em Penápolis, no interior do Estado. O objetivo é encontrar provas que vinculem os suspeito à rede de pedofilia. Na casa de Toledo, os policiais apreenderam, além de um DVD com imagens de crianças, fotografias no telefone celular. Todo esse material foi mandado para análise aos peritos do Instituto de Criminalística (IC) de São Paulo.’

BIOGRAFIA
Ubiratan Brasil

Diário do Mago

‘Fernando Morais pretendia dar o título Em Carne Viva à sua biografia do escritor Paulo Coelho – seria uma decisão apropriada, uma vez que das mais de 600 páginas resultantes de três anos de pesquisas surgiu o perfil de um homem complexo, revelado sem nenhuma concessão ou mesmo piedade. O problema é que Carne Viva é o título do último romance de Paulo Francis, recentemente lançado pela editora Francis. A solução foi batizar a biografia de O Mago e assim ela chega hoje às livrarias sob a chancela da editora Planeta do Brasil (632 páginas, R$ 60), que promove um esquema monstro de lançamento: são 100 mil exemplares na primeira remessa, além de promessa de tradução para 40 países.

A dissecação, no entanto, continua a mesma – autor de biografias célebres como Chatô e Olga, Fernando Morais reúne no livro um punhado de informações que vão surpreender o próprio Paulo Coelho que, por acordo firmado, não avaliou o trabalho de apuração tampouco o resultado final. ‘Ele deve receber o livro na sexta-feira (ontem) e só então descobrir como ficou’, conta o biógrafo.

A sensação deverá ser a mesma de um homem que se vê nu diante de uma platéia de milhões de pessoas – em O Mago, Morais detalha a trajetória pessoal do escritor vivo que atualmente consegue ser mais traduzido que Shakespeare no mundo. Um relato que não esconde pactos com o Diabo, sacrifícios de animais, internações em hospícios, prisão pelo DOI-Codi, relações homossexuais, consumo de drogas, sucesso como letrista até a descoberta de uma poderosa espiritualidade e a notoriedade como escritor, que o tornou uma figura conhecida até na Sibéria, despertando admiração de reis, papas e chefes de Estado. ‘Confesso que eu não me sentiria bem se meus segredos mais íntimos fossem revelados dessa forma’, comenta Morais, que espera por um telefonema do escritor nos próximos dias, revelando sua opinião.

Os detalhes mais surpreendentes, na verdade, foram oferecidos pelo próprio Paulo Coelho. Morais conta ter ficado curioso com um pormenor do testamento do escritor: a determinação de que um baú, trancado à chave e guardado em seu apartamento de Copacabana, seja imediatamente incinerado após sua morte. ‘Eu quis saber o conteúdo, mas ele dissimulava até que, diante de tanta insistência, propôs um jogo: Paulo me daria as chaves se eu descobrisse quem foi o militar que o prendeu em um quartel no Paraná, em agosto de 1969, confundindo-o com um guerrilheiro.’

Desafio aceito e cumprido – Morais abriu o baú depois de enviar, por e-mail, os dados pedidos pelo escritor. Lá, a surpresa: 170 cadernos com os diários de Paulo Coelho de 1960 a julho de 1994, além de 100 fitas cassetes, com informações bombásticas, desde descrições objetivas até divagações existenciais. ‘Tive de alterar todo o trabalho realizado.’’

***

Ao abrir o baú, a pesquisa mudou

‘Paulo Coelho nunca pretendia ser músico, apesar da parceria de sucesso com Raul Seixas, tampouco ser dramaturgo, embora tenha conhecido um razoável sucesso nos palcos. ‘Ele sempre sonhou em ser um escritor lido em todo o mundo – não bastava apenas o sucesso, mas com leitores em todos os pontos do planeta’, conta Fernando Morais que, no baú secreto do autor, descobriu desde a asa do primeiro passarinho que matou (um tiziu, em Araruama) até um encontro com o Diabo registrado em 25 de maio de 1974, no auge da relação de Coelho com a bruxaria.’Não sei explicar como aconteceu, mas estou convencido de que alguma coisa aconteceu, pois há episódios que ele descreve minuto a minuto’, conta o biógrafo, que conversou com o Estado.

Veja fotos e trechos da entrevista com Fernando Morais

O rumo da biografia foi outro depois da descoberta do conteúdo do baú?

Sim, totalmente. Eu já estava com o livro escrito, pois tinha feito mais de 200 horas de entrevista com ele, além de ter conversado com 80 pessoas, aproximadamente. Também realizei três viagens à Europa, uma ao Oriente Médio e outra à Europa Oriental, além de ter morado oito meses no Rio. Foi quando abri o baú e me deparei com 170 cadernos grossos e cerca de 100 fitas. Isso rendeu 90 CDs de áudio, o que mudou toda a minha pesquisa. Precisei até fazer mais uma viagem à Europa.

O que mais o surpreendeu?

É difícil dizer, pois era um choque atrás do outro. Uma sucessão de tragédias, desde a infância até a idade adulta: a perda da fé; a enorme confusão sexual em que ele viveu até os 30 anos; a relação com os pais, que o internaram três vezes no hospício. O que me chamou atenção era a obstinação de ser um escritor lido no mundo todo. Quanto mais o tempo passava, mais ele se remoía em depressões, crises de angústia, por não ser alguém conhecido mundialmente. Ele escrevia: ‘Na minha idade, os Beatles já eram conhecidos no planeta e eu ainda não sou ninguém. Não passo de um merda.’ Acho que ele foi um roqueiro brilhante, suas letras com Raul Seixas, dizem os críticos, têm mais qualidade que sua produção literária e lhe trouxeram um conforto: em um ano de trabalho, já tinha seis apartamentos no Rio. Poderia ter sido um dramaturgo de sucesso, certamente seria um executivo da indústria fonográfica, mas não era isso que queria. Sua obstinação era ser o que é hoje.

Qual foi a importância da fase roqueira?

Foi boa para ele sentir o sabor da fama, ainda que o famoso da dupla fosse o Raul Seixas. Mas a fase musical ocupa apenas 10% de sua vida, que é também a importância que hoje ele dá a esse momento, apenas um fato passado. Não é que não goste, até já o vi cantando algumas de suas canções – o que realmente interessa é a carreira literária. Há uma frase que se repete ao longo de sua obra, que é a busca de um sonho. Creio que isso resume sua vida, sua obsessão.

A obstinação explicaria as confusões religiosas e o pacto com o Demônio, que marcam sua vida?

Em parte, sim. Ele recebeu uma educação jesuíta dura, transformou-se em um cristão absoluto até romper com tudo e se meter com satanismo, seitas, sacrifício de animal. A volta aconteceu em 1982, quando teve o que chamou de epifania no campo de concentração da cidade alemã de Dachau, onde disse ter visto um vulto. Não importa o que realmente aconteceu – aquilo provocou uma mudança profunda: ele largou as drogas e se tornou escritor, pois dali saiu para fazer o caminho de Santiago e publicar seu primeiro romance. O início da carreira se dá exatamente depois desse fenômeno em Dachau, que marca também sua volta ao cristianismo. Sobre o pacto com o Diabo, foi uma combinação de fatos: ele foi preso pelo Dops, seqüestrado pelo DOI-Codi (que ele vai descobrir agora, lendo o livro) e tem o encontro com o Demônio, na chamada Noite Negra. Isso o faz romper com Raul Seixas , pois ele acreditava que faziam invocações para o mal.’

***

Desaprovação da crítica é mais intensa no Brasil

‘A desaprovação da crítica em relação à obra de Paulo Coelho se restringe ao Brasil. Segundo Fernando Morais, mesmo com alguns desafetos em outros países, a rejeição se concentra entre os brasileiros. ‘Não sei explicar o motivo’, diz o biógrafo. ‘Tom Jobim dizia que o brasileiro costuma encarar o sucesso de um conterrâneo como ofensa. Assim, alguém que sai do bairro do Botafogo e se torna o escritor mais traduzido no mundo provoca reações diversas nas pessoas.’

Assim, embora venerado em praticamente todos os cantos do mundo, Paulo Coelho nunca conseguiu esconder seu ressentimento com a crítica, em especial a nacional. Em Avilés, na Espanha, onde esteve nesta semana para comemorar o 20º aniversário de seu romance mais célebre, afirmou: ‘Se tivesse tido uma crítica positiva, nunca teria vendido 100 milhões de livros.’ O sucesso, portanto, estava na paixão de seus leitores.

Coelho lembrou que, ao publicar O Alquimista no Brasil, a obra ‘não vendeu quase nada, pouco mais de 900 exemplares’. Foi o boca a boca dos leitores, e não a crítica, que, segundo ele, fez com que as vendas do livro chegassem a 35 milhões de exemplares editados em 67 idiomas.

Falando para um batalhão de jornalistas, o escritor não revelou especial carinho pela obra, dedicando mais atenção ao livro que deverá ser lançado em dois meses, do qual não quis antecipar o conteúdo.

Já a versão cinematográfica de O Alquimista deverá realmente acontecer, pois Coelho já vendeu os direitos para a produção. Embora convidado a se mudar para Hollywood e participar das filmagens, que consumirão US$ 94 milhões, ele recusou. ‘Sou um escritor, não um roteirista’, justificou.

Prestes a completar 60 anos (em 24 de agosto), o escritor insistiu que não vive em função do passado (‘o presente é o que mais valorizo na vida’), tampouco se abala com as cifras milionárias que cercam seus livros – a marca de 100 milhões de exemplares vendidos, por exemplo, é considerado por ele como um dado ‘abstrato’.

Mesmo assim, Fernando Morais não disfarça uma ponta de apreensão sobre a avaliação a ser feita pelo escritor a respeito da biografia que chega hoje às livrarias. ‘Em uma entrevista, ele disse ter se arrependido de ter liberado meu acesso ao seu baú; em outra, porém, confessava que, como em algum momento sua história seria divulgada, que fosse logo então’, afirmou. Sobre a dúvida de Coelho a respeito da longevidade de sua obra, Morais tem um veredicto: ‘Não será esquecida nunca.’’

CANNES
Beth Néspoli

O Telescópio: a chance de ver Sandra Corveloni na TV

‘Sandra Corveloni chamou a atenção do mundo ao ganhar o prêmio de melhor atriz no 61º Festival de Cinema de Cannes, no domingo, dia 25. Até hoje, só uma brasileira, Fernanda Torres, havia alcançado tal premiação. Sandra tinha concorrentes de peso, como Angelina Jolie, Julianne Moore e Catherine Deneuve. Foi grande a surpresa e forte a repercussão quando a Palma saiu para alguém que mesmo no Brasil raros conheciam. Pudera. Linha de Passe, o filme de Walter Salles e Daniela Thomas, era o primeiro longa dessa atriz de 43 anos que fez toda sua carreira no teatro, mais especificamente no Grupo Tapa.

Quem ainda não sabe quem é ela tem agora oportunidade de conferir seu trabalho no programa Direções, série de teledramaturgia realizada pela TV Cultura em parceria com o Sesc-TV. O Telescópio, que vai ao ar amanhã, às 23 horas, na Cultura, é adaptação da peça de Jorge Andrade dirigida por Eduardo Tolentino, diretor fundador do Tapa. Sandra, que ganhou sua palma pelo papel de uma empregada doméstica capaz de manter agregada sua família, na telinha interpreta Leila, a filha mais velha de um fazendeiro que volta, já casada, ao campo e provoca a desagregação de seu núcleo familiar.

‘É muito diferente’, diz Sandra. ‘Não só pelas personagens distintas, mas porque O Telescópio é televisão, ou seja, foi feito com tempo de TV, não dá para comparar com o teatro ou com o cinema do jeito que foi Linha de Passe, com muitos ensaios.’ Bem que eles poderiam ter ocorrido também na TV. Afinal, uma das ambições do programa Direções é renovar a linguagem da TV. Por enquanto, conseguiu criar alguns bons programas – bem-acabados, bonitos, expressivos -, o que não é pouco, uma vez que estão investindo em diretores e grupos teatrais sem experiência na TV. Mas talvez a inovação devesse começar pelo ‘tempo’ interno de preparação, para que a desejada renovação aparecesse.

Bem, mas O Telescópio tem tudo para agradar ao espectador: é uma boa história, bem contada. E a sutileza que moveu o júri a premiar Sandra está presente. Preste atenção à troca de olhares na cena da jogatina entre irmãos e observe ainda a (boa) atuação de Norival Rizzo, o patriarca.’

NOVELA
Etienne Jacintho

Torcida organizada

‘Com uma nova casa, a festa Fim de Novela, que já acompanhou os desfechos de Belíssima, Páginas da Vida e Paraíso Tropical será realizada hoje, mas só para convidados. Na Casa da Luz Vermelha, na Vila Mariana, cerca de 100 pessoas se reunirão para o término de Duas Caras.

A novela chega ao fim com mais uma provável frustração pelo (não) beijo gay e a mudança de hábito da Globo de encerrar novelas na sexta-feira, com reprise do último capítulo no sábado. O autor Aguinaldo Silva não quis reduzir as histórias de seus mais de 100 personagens para completar a trama na sexta-feira.

A festa Fim de Novela é um bom termômetro para medir o que o público mais descolado dos 25 aos 40 anos espera de uma trama. Em Belíssima, por exemplo, os festeiros vibraram com o fim de Bia Falcão (Fernanda Montenegro) e, enquanto Júlia (Glória Pires) e Niklos (Tony Ramos) se beijaram na praia, o público gritou: ‘Tsunami!’

A próxima edição da festa será aberta ao público. Em cartaz, uma trama antiga, Rainha da Sucata, de Silvio de Abreu. A organização já exibiu, com sucesso, outros desfechos de flashback, com Vale Tudo e A Gata Comeu.’

 

******************

Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

Comunique-se

Terra Magazine

Carta Capital

Agência Carta Maior

Veja

Tiago Dória Weblog

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem